VOZES UNÍSSONAS E DISSONANTES: KIM JIYOUNG, NASCIDA EM 1982 E OS CONFLITOS SOBRE FEMINISMO NA COREIA DO SUL (2015-2022) por Gabriela Alves Silva e Rozely Menezes Vigas de Oliveira

  

Nas últimas décadas, a Coreia do Sul passou por intensas transformações sociais, econômicas e culturais, impulsionadas por um rápido processo de industrialização e inserção no capitalismo global. A partir dos anos 1990, a chamada onda coreana (Hallyu), especialmente no campo do entretenimento e da cultura, difundiu narrativas e imagens tanto positivas quanto negativas sobre a sociedade sul-coreana [Marinescu, 2016, p.2]. Entretanto, apesar dos avanços econômicos e tecnológicos e da construção de um imaginário midiático que idealiza corpos, papéis e afetos femininos e masculinos, amplamente difundido em doramas e letras de K-pop, as desigualdades de gênero permaneceram profundamente enraizadas na estrutura social do país. Essas distinções manifestam-se especialmente nas relações de trabalho, nas expectativas em torno da maternidade, na pressão estética e nas múltiplas maneiras de violência simbólica e material contra as mulheres, frequentemente silenciadas.

 

Com este panorama em mente, este projeto pretende investigar de que modo o romance Kim Jiyoung, nascida em 1982, expressa ou tensiona debates sobre gênero e cultura no contexto do feminismo sul-coreano entre 2015 e 2022, considerando não apenas sua narrativa, mas também sua circulação conflitiva no espaço público. Para tanto, o estudo articulará o romance a reportagens de jornais sul-coreanos e discussões em fóruns online, a fim de compreender como as controvérsias em torno da obra se inscrevem em processos históricos, sociais e políticos. Este recorte temporal justifica-se por delimitar um período de intensificação das disputas públicas em torno do feminismo. Inicia-se em 2015, ano frequentemente associado à reconfiguração do ativismo feminista digital e ao chamado Feminism Reboot [Sohn, 2017, p.29], e encerra-se em 2022, quando a reação conservadora se consolida no plano institucional com a eleição do presidente Yoon Suk-yeol, cuja campanha foi marcada por retórica antifeminista e questionamentos a políticas de equidade de gênero.

 

Para contextualizar as disputas que marcaram a circulação pública do romance e os debates posteriores ao seu lançamento, é necessário considerar as transformações do feminismo sul-coreano. A partir de 2015, a Coreia do Sul vivenciou uma reconfiguração do movimento feminista. Antes desse período, o feminismo sul-coreano já existia e operava por meio de organizações e institucionalização de políticas públicas, mas encontrava um ambiente digital hostil. Desde o final dos anos 1990 e início dos anos 2000, a consolidação de uma cultura online predominantemente masculina favoreceu a circulação de violência misógina em fóruns online, que posteriormente se estendeu para espaços além do ambiente virtual [Seo e Choi, 2020, pp.378-380].

 

A intensificação da globalização e a popularização do smartphone atenuaram a limitação do discurso online masculino hegemônico no país, ampliando o acesso das mulheres às redes sociais [Jung, 2023, p.170]. Esse processo impulsionou o fortalecimento do ciberfeminismo e do movimento conhecido como Feminism Reboot, segundo Sohn [2017]. Nesse cenário, emergiu o fórum Megalia (메갈리아), conhecido por popularizar o mirroring: uma estratégia discursiva que invertia estigmas misóginos da cultura digital substituindo o sufixo nyeo (), usado para indicar o feminino pelo masculino nam (). Um bom exemplo é a expressão kimchi-nyeo (김치녀). que se refere a “uma mulher coreana sexualmente promíscua e que tende a viver às custas dos homens” [Seo e Choi, 2020, p.378].  Com o objetivo de espelhar o termo, cunharam kimchi-nam (김치남), que é uma palavra usada para designar homens sul-coreanos “egoístas” ou “inescrupulosos”.

 

Essa prática explicitou a naturalização da misoginia e reconfigurou o conflito de gênero como disputa pública de linguagem. O novo ciclo de mobilização, marcado por episódios como o uso da hashtag "#EuSouFeminista" (em coreano, #나는페미니스트입니다, naneun peminiseuteuimnida) para compartilhar experiências de discriminação e confrontar o estigma histórico negativo associado ao termo “feminismo”, colocou as questões de gênero no centro do debate nacional [Seo e Choi, 2020, pp.380].

 

A intensificação desses conflitos discursivos e políticos acabou alimentando uma reação conservadora no âmbito institucional, que se concretizou na eleição de Yoon Suk-yeol como presidente da Coreia do Sul em 2022. Durante a campanha, o candidato conquistou apoio sobretudo de eleitores masculinos jovens ao adotar uma retórica antifeminista, defendendo medidas como a abolição do Ministério da Igualdade de Gênero e da Família e a revisão de políticas de equidade de gênero, classificadas como “injustas” [Kim, 2022]. Essa reação se insere em um contexto histórico marcado por uma longa duração patriarcal atribuída ao neoconfucionismo, na qual persiste a naturalização da divisão sexual do trabalho e a tolerância a desigualdades de gênero, expressas, por exemplo, na baixa participação de homens em atividades domésticas não remuneradas [Jung, 2023, p.116]. Nesse cenário, a ampliação da voz pública das mulheres e a reivindicação de controle sobre suas próprias narrativas passaram a ser interpretadas, por setores conservadores, como “opressão reversa”, legitimando novas formas de discursos antifeministas e demonstrando como as narrativas femininas ainda estão longe de serem incorporadas no espaço público e político.

 

É nesse contexto de efervescência social que, em outubro de 2016, a socióloga Cho Nam-joo publicou o romance Kim Jiyoung, nascida em 1982. O livro tornou-se um best-seller sul-coreano e é frequentemente apontado como precursor de um novo ciclo de produções literárias e mobilizações feministas na Coreia do Sul e em outros países do leste asiático [Jung, 2023, p.157], funcionando como espaço de expressão, comunicação e identificação coletiva em torno de experiências de desigualdade e violência de gênero.

 

O romance narra a trajetória de Kim Jiyoung, uma mulher de 34 anos na idade coreana que passa, subitamente, a incorporar vozes de outras mulheres que estiveram presentes em sua vida, vivas ou mortas. A cena do Chuseok (추석), um feriado tradicional muito relevante na Coreia do Sul, em que Kim reproduz a voz da mãe durante um almoço com a família do marido [Cho, 2022, pp. 15-19], funciona como gatilho narrativo para que a obra reconstitua, retrospectivamente, sua infância, juventude e vida adulta, articulando também as experiências da mãe e da avó. O uso de notas de rodapé e dados estatísticos durante a obra embasa o argumento de que a vivência de Kim não é individual, mas estrutural, refletindo desigualdades como a disparidade salarial entre homens e mulheres, a demissão em razão do casamento ou da maternidade, entre outras violências simbólicas. A escolha do nome Jiyoung, um dos mais comuns entre mulheres sul-coreanas nascidas em 1980, expressa a intenção de Cho Nam-joo em escrever uma personagem representativa de uma experiência coletiva. Por esse motivo, embora seja uma obra de ficção, pode-se entender que o romance foi lido como um testemunho coletivo, sendo interpretado, por alguns setores liberais, como símbolo da luta pela igualdade de gênero e, por outros mais conservadores, como expressão de uma suposta discriminação reversa associada à misandria.

 

Desde sua publicação, a obra causou significativo impacto no debate público sul-coreano. Ela ganhou ainda maior visibilidade em maio de 2017, quando Roh Hoe-chan, presidente do Partido da Justiça, presenteou o então presidente da república, Moon Jae-in do Partido Democrata, com um exemplar do livro. O gesto se tornou um tópico de grande destaque na mídia, com o intuito de sensibilizar o governo sobre as causas da baixa taxa de natalidade e da queda nos índices de casamento, argumentando que essas questões eram fenômenos derivados de problemas mais profundos que precisavam ser enfrentados. Esse episódio evidencia como a obra ultrapassou o campo estritamente literário, consolidando-se também como uma ferramenta de conscientização política e social, um símbolo da luta contra a misoginia sistêmica. A adaptação cinematográfica em 2019 ampliou ainda mais sua circulação e impacto social na Coreia do Sul, atraindo mais de 3 milhões de espectadores em 18 dias de lançamento.

 

Para compreender o impacto social da obra e suas conexões com acontecimentos recentes do feminismo e antifeminismo na Coreia do Sul, é imprescindível analisar os sistemas econômicos, morais e históricos que moldaram a experiência feminina no país. A Crise Financeira Asiática de 1997-1998 contribuiu para acelerar a adoção de políticas neoliberais e consolidou uma sociedade hipercompetitiva na Coreia do Sul, em que a lógica do desempenho individual se sobressaiu. Nesse período, os jovens passaram a enfrentar emprego precário, baixa proteção social e dificuldades para cumprir o roteiro tradicional de formação familiar. Para muitos homens de vinte anos, essas condições tensionaram o ideal de masculinidade provedor, gerando uma crise de reconhecimento que, frequentemente, é reinterpretada como efeito do feminismo, não da economia neoliberal. Essa reinterpretação tornou-se combustível para a proliferação de discursos misóginos, tanto em espaços digitais quanto em espaços não virtuais. Paradoxalmente, esses discursos facilitaram a popularização do feminismo, como afirma Jung [2024, pp.2-3].

 

O conceito de “feminismo” na Coreia do Sul (페미니즘, peminijeum) carrega tensões semânticas e políticas, pois circula publicamente ora como reivindicação de direitos, ora como rótulo associado à “ameaça” à ordem social, que confronta a lógica hierárquica de um Estado-nação existente há menos de um século e que se tornou democrático há menos de meio século [Kim, 2014, p.50]. Já para as feministas sul-coreanas, é um mecanismo essencial para sua sobrevivência e para clamar por mais proteção e visibilidade perante o Estado, especialmente diante de formas de violência e desigualdade amplamente documentadas, como a violência sexual mediada por tecnologias digitais e a disparidade de gênero no mercado de trabalho. Essas são algumas das diversas questões que assolam as mulheres sul-coreanas, além da expectativa social da maternidade, elemento central na vivência de Kim Jiyoung. Assim, o romance se conecta a debates culturais e políticos mais amplos ao dramatizar a experiência cotidiana que torna tais disputas historicamente situadas.

 

Além de mapear essas expressões e tensões, a pesquisa em desenvolvimento, ancorada no conceito de "Feminism Reboot”, pretende analisar uma fase de intensificação e expansão do feminismo na Coreia do Sul. De acordo com Sohn Hee-jong, o  conceito utiliza uma metáfora da indústria cinematográfica de Hollywood, na qual um "reboot" redefine a continuidade de uma franquia para criar um novo universo, mantendo apenas traços básicos do original, descrevendo a ascensão da quarta onda do feminismo sul-coreano. Ademais, será também utilizado o conceito de ciberfeminismo, definido por Bárbara Bavoleo e Desirée Chaure como um conjunto de teorias, debates e práticas que vinculam as questões de gênero e a luta feminista à cultura digital [Bavoleo e Chaure, 2019, p.143]. Ele propõe a criação de espaços online de acesso gratuito, onde as mulheres possam confrontar o sistema patriarcal e construir uma nova cultura na rede. O conceito será mobilizado para compreender como debates e práticas feministas passam a operar por meio de fóruns, hashtags e comentários produzindo performances, conflitos e alianças específicas.

 

A ampla circulação de Kim Jiyoung, nascida em 1982, de Cho Nam-joo –  intensificada tanto por sua tradução para múltiplos idiomas quanto pela adaptação cinematográfica – contribuiu para consolidar a obra como referência nos debates sobre gênero na Coreia do Sul, sendo frequentemente lida como denúncia das desigualdades enfrentadas pelas mulheres sul-coreanas Por essa razão, a obra acabou se conectando diretamente a transformações recentes da sociedade sul-coreana como catalisadora de discursos e movimentos feministas.

 

No que se refere às fontes, a pesquisa terá como corpus principal o romance Kim Jiyoung, nascida em 1982, na versão brasileira, articulado a materiais que registram sua circulação e as disputas públicas sobre gênero na Coreia do Sul. Para tal, serão cruzadas 36 reportagens publicadas nos jornais sul-coreanos Chosun Ilbo (조선일보) e Hankyoreh (한겨레신문), sendo 18 de cada jornal, entre 2015 e 2022, nas seções de política (정치) e sociedade (사회). Estes periódicos foram escolhidos por se contraporem em suas orientações editoriais. O Chosun Ilbo, reconhecido como um dos jornais mais consolidados e conservadores da Coreia do Sul, será utilizado para analisar discursos críticos ao feminismo e às pautas de gênero que se intensificaram no país após 2015 [Oh e Shin, 2025, p.13]. Em contraposição, será utilizado o Hankyoreh, considerado um jornal de perfil menos conservador, por dialogar com camadas mais democráticas. Ambos os periódicos servirão para examinar eventos anteriores e posteriores ao lançamento do livro. A utilização de periódicos com posicionamentos políticos contrastantes busca evidenciar as distintas interpretações dos acontecimentos, bem como as escolhas discursivas, os silêncios e os enquadramentos mobilizados por cada veículo ao noticiar as questões de gênero.

 

Em paralelo, serão integradas ao corpus documental 50 publicações dos fóruns online Ilbe Storehouse (일베저장소) e Womad (워마드), sendo 25 de cada. O Ilbe, associado a gramáticas misóginas e a práticas de ataque coordenado [Koo, 2020, p.835], será mobilizado para mapear enquadramentos antifeministas — como “misandria” e “opressão reversa” — e a recorrência de argumentos ligados ao serviço militar, família e mérito. O Womad, por sua vez, será analisado como espaço ciberfeminista no qual a obra é apropriada como denúncia e como marcador identitário, muitas vezes por meio de vocabulário interno da plataforma. As fontes digitais permitirão acompanhar como o romance foi lido, disputado e instrumentalizado, e como certos eventos entre 2015 e 2022 reconfiguraram sua recepção e sua influência histórica. Elas contribuirão também para mapear a disputa pública em torno do feminismo em registros cotidianos e não institucionais. Por fim, sustentam o diálogo entre jornais, fóruns e a bibliografia, permitindo aprofundar a compreensão de como a obra foi apropriada, contestada e politizada em diferentes níveis do debate público, e de como esses enquadramentos se transformam ao longo do período. Esta abordagem contribuirá, deste modo, para mapear repertórios antifeministas e feministas em disputa no contexto do Feminism Reboot.

 

Do ponto de vista metodológico, a pesquisa se insere no campo da história de gênero, no qual serão mobilizadas as contribuições de Joan Scott [1999] que questionam o gênero e a essência do indivíduo considerado feminino. Em diálogo com as perspectivas ocidentais, serão incorporados os estudos de Hee-jeong Sohn [2017] e Kungja Jung [2024] e suas contribuições sobre o feminismo sul-coreano e as questões de gênero contemporâneas. Com o objetivo de debater a fala do subalterno, as reflexões de Gayatri Chakravorty Spivak [2010] serão mobilizadas. Por fim, para abordar a obra como um objeto cultural em disputa, serão integradas as contribuições de Sandra Pesavento [2006] acerca do papel da literatura e da história como narrativas explicativas do real.

 

O ensaio Experiência, de Scott, será adotado como uma referência central para compreender que os relatos vividos não podem ser tratados apenas como evidências autoexplicativas da realidade histórica, uma vez que são atravessados por linguagens, categorias de diferença e relações de poder historicamente construídas [Scott, 1999, pp. 26-27]. Portanto, em vez de entender a “experiência das mulheres” como algo homogêneo ou universal, naturalizando-a, esta pesquisa propõe historicizar a experiência descrita em Kim Jiyoung, nascida em 1982, ou seja, explicar como ela é produzida, recebida e significada em contextos históricos específicos – no caso, a ascensão do Feminism Reboot e do ciberfeminismo sul-coreano. Considerando que o gênero constitui uma das bases fundamentais para compreender as transformações da sociedade sul-coreana, torna-se essencial questionar como determinadas experiências femininas são nomeadas, generalizadas e legitimadas, fazem com que vivências específicas sejam percebidas como “naturais”. Além disso, procura-se compreender como a opressão se constrói, se reproduz e é contestada.

 

Essas disputas, porém, não permanecem no interior do movimento. Elas se projetam no espaço público e se tornam políticas. Para compreender os eventos político-sociais que culminaram na eleição de Yoon Suk-yeol em 2022 e sua relação com a intensificação do conflito de gênero, o trabalho da cientista política Kungja Jung, Gender Wars and Populist Politics in South Korea, será central. A obra oferece um enquadramento histórico sobre a reconfiguração do comportamento eleitoral entre jovens na Coreia do Sul e como o populismo usou as “guerras de gênero” como instrumento e estratégia de mobilização. Jung também elucida o movimento paradoxal pelo qual o próprio discurso antifeminista e misógino contribuiu para popularizar o feminismo, ampliando seu alcance a “mulheres comuns”, que passaram a nomear experiências cotidianas por meio dele. A ideia de mulher ordinária atravessada pelo machismo estrutural, que uniu mulheres por todo o país, é também contemplada na repercussão dos escritos de Cho Nam-joo [Jung, 2023, p.4].

 

Ademais, a crítica de Spivak à mediação da fala do subalterno em Pode o subalterno falar? permite iluminar um ponto decisivo da própria estrutura narrativa de Kim Jiyoung, nascida em 1982. No desfecho, revela-se que a história lida pelo leitor é, na verdade, um relatório clínico, narrado por um psiquiatra homem. Essa escolha explora a possibilidade de “falar” ao mesmo tempo em que expõe os filtros institucionais por meio dos quais a fala feminina se torna inteligível e socialmente válida: Kim Jiyoung raramente é autorizada a existir como testemunho em si. A recorrência de notas de rodapé e dados estatísticos pode sugerir que sua experiência precisa ser certificada por um saber técnico para adquirir legitimidade e ser verdadeira. Esta percepção permite problematizar um possível silenciamento estrutural de Kim, já que a narrativa sugere que a experiência feminina continua dependente de mediações externas para se tornar audível, como se as mulheres ainda não tivessem voz plena nem mesmo ao narrar a própria vida.

 

Compreende-se que as aproximações entre literatura e história, desenvolvidas por Sandra Pesavento em História & literatura: uma velha-nova história são baseadas no real como referente, logo, ambas se baseiam na realidade para negá-la ou confirmá-la. De acordo com Cho Nam-joo, Kim Jiyoung, nascida em 1982, possui verossimilhanças com as experiências de diversas mulheres. Busca-se, portanto, compreender de que modo a ficção pode operar como um meio legítimo de elaboração histórica e testemunhal da experiência feminina sul-coreana, sobretudo em contextos nos quais a violência de gênero é naturalizada, silenciada ou deslegitimada pelas instituições estatais e pelo discurso público dominante.

 

Espera-se que a pesquisa elaborada até o presente momento contribua para os estudos da história do feminismo sul-coreano contemporâneo, demonstrando como os conflitos de gênero na Coreia do Sul participaram de diversas áreas, tanto no debate institucional, quanto no debate público. Ademais, pretende-se ampliar os estudos asiáticos no Brasil ao deslocar o olhar do consumo cultural da Hallyu para a análise histórica das tensões sociais, das resistências femininas e das reações conservadoras que atravessam a sociedade sul-coreana no período. Ao investigar a circulação e a recepção de Kim Jiyoung, nascida em 1982, a pesquisa almeja compreender como a literatura pode atuar simultaneamente como espaço de representação, disputa e produção de sentidos sobre gênero. Nesse processo, o romance se consolida como um objeto histórico por meio do qual podem ser analisadas as transformações sociais e políticas que marcaram a Coreia do Sul dos últimos anos.

 

Referências

Gabriela Alves Silva é estudante da graduação de História na UNICAMP e iniciadora científica pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo com o projeto “Vozes uníssonas e dissonantes: Kim Jiyoung, nascida em 1982 e os conflitos sobre feminismo na Coreia do Sul (2015-2022)”. Como colaboradora e orientadora do projeto, a Dra. Rozely Menezes Vigas Oliveira é professora substituta na UERJ-FFP e pesquisadora de pós-doutorado em História da Ásia no IFCH-UNICAMP. Membro da Asociación Latinoamericana de Estudios de Asia y África – Brasil (ALADAA-Brasil) e da comissão organizadora da Rede de Pesquisadores Visões da Ásia. Autora de capítulos e artigos sobre a vida conventual feminina na Ásia portuguesa, e do livro “Nas clausuras de Goa: a comunidade das mônicas no Monte Santo e sua economia espiritual (1606-1721)” (2023).

BAVOLEO, Bárbara; CHAURE, Desirée. Ciberfeminismo: emergencia y características del feminismo online en Corea del Sur. Revista de Relaciones Internacionales, Estrategia y Seguridad, Bogotá, v. 14, n. 1, 2019.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

JUNG, Kyungja. “Gender wars” and populist politics in South Korea. Women’s Studies International Forum, v. 104, 2024.

KIM, Bo-Myung. O futuro da política de gênero. Humboldt (Goethe-Institut), 2022. Disponível em: https://www.goethe.de/prj/hum/pt/gle/24232085.html. Acesso em: 9 jan. 2026.

KIM, Seung-kyung; KIM, Kyounghee. The Korean women’s movement and the state: bargaining for. Routledge, 2014.

KOO, JiHae. South Korean cyberfeminism and trolling: the limitation of online feminist community Womad as counterpublic. Feminist Media Studies, v. 20, n. 6, 2020.

MARINESCU, Valentina (ed.). The global impact of South Korean popular culture: Hallyu unbound. New York: Bloomsbury Publishing USA, 2016.

OH, Dayei; SHIN, Bokyong. Historical and partisan shifts in Korean press representation of feminism (1990–2022): a keyness analysis and topic modeling study. Journal of Asian Pacific Communication, 2025.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. "História & literatura: uma velha-nova história" In: Nuevo Mundo Mundos Nuevos, 2006. Disponível em: <http://journals.openedition.org/nuevomundo/1560>. Acesso em: 21 de jun. 2026.

SCOTT, Joan. Experiência. In: SILVA, Alcione Leite; LAGO, Mara Coelho de Souza; RAMOS, Tânia Regina Oliveira (Orgs.). Falas de Gênero. Editora Mulheres, 1999.

SEO, Jungmin; CHOI, Seoyoung. Introduction: political dynamics of Korean feminism – from #MeToo to Womad. Journal of Asian Sociology, v. 49, n. 4, 2020.

SOHN, Hee-jeong. Feminism reboot: neoliberalism, Korean movies, misogyny, and beyond. In: CHO, Michelle; SONG, Jesook (org.). Mediating gender in post-authoritarian South Korea. Ann Arbor: University of Michigan Press, 2017.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar?. Tradução de Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa e André Pereira Feitosa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010


5 comentários:

  1. Ana Helena Leite De Araujo8 de julho de 2026 às 01:26

    Gabriela e Rozely, que trabalho incrível! Estou maravilhada com esta pesquisa. Gostei do recorte e do método que utilizaram, e entendo que focaram a análise pela sua recepção nacional. Porém, gostaria de perguntar se vocês pretendem ampliar este recorte e analisar também a recepção internacional da obra. Vocês acreditam que a internacionalização dela, contando com tradução e adaptação cinematográfica, alterou ou ressignificou os debates sobre feminismo em comparação com sua recepção inicial na Coreia do Sul? Acreditam que a percepção internacional pode afetar a percepção doméstica, já que a Coreia está cada vez mais internacionalizada? Além disso, vocês acreditam que exista uma diferença entre o significado político da obra para o público doméstico e para o público internacional?

    Estou ansiosa pelas ponderações de vocês sobre o tema. Desde já, obrigada!

    Atenciosamente,

    Ana Helena Leite de Araujo

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    1. Olá, Ana! Agradeço imensamente pelos seus comentários!

      Inicialmente, não havíamos planejado analisar a recepção internacional como um eixo fixo da pesquisa, pois nosso foco está na recepção doméstica da obra. Entretanto, ao longo da pesquisa, tornou-se impossível ignorar alguns desdobramentos internacionais, especialmente na China, alguns países do sudeste asiático e no Brasil.

      A internacionalização da obra, que ocorreu principalmente por meio das traduções, foi um acontecimento marcante também para muitos sul-coreanos. Tanto o Hankyoreh quanto o Chosun Ilbo noticiaram esse processo, e fóruns como o Ilbe registraram diversas reações. Em algumas discussões, alguns usuários demonstravam preocupação com a difusão internacional do livro e chegaram a defender violência contra mulheres de outros países para impedir que o "feminismo propagado pelo livro" se espalhasse.

      Um caso interessante ocorreu na China, onde uma das primeiras traduções foi criticada por suavizar determinados trechos da obra, o que também revela como diferentes contextos e traduções podem produzir diferentes leituras do livro.

      A meu ver, a circulação internacional contribuiu para ressignificar parcialmente os debates. Ao mesmo tempo em que aumentou a visibilidade da obra e despertou maior interesse dentro da própria Coreia do Sul, também intensificou as críticas de seus opositores, que passaram a questionar seu sucesso e a classificá-la como uma influência negativa.

      Quanto ao significado político da obra, acredito que sim exista uma diferença entre a recepção doméstica e a internacional. Na Coreia do Sul, o livro tornou-se um importante objeto de disputa política e cultural, inserido em debates públicos sobre gênero e feminismo, chegando a setores políticos como o legislativo. Já em países como o Brasil, embora muitas leitoras tenham se identificado com a narrativa, sua recepção ocorreu principalmente no campo literário e dos debates públicos, sem produzir um impacto institucional comparável ao observado na Coreia do Sul.

      Agradeço novamente pelas perguntas e espero ter respondido corretamente!

      Abraços,
      Gabriela Alves Silva

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  2. Olá, Gabriela. Adorei conhecer um pouco mais sobre a obra, desejo muito sucesso na pesquisa! Minha pergunta é sobre o processo de coleta e seleção das fontes. Considerando a efemeridade de fontes digitais, como foi a escolha e quais os principais critérios para as 50 publicações selecionadas às análises da recepção nacional sobre a obra? Como historiadora, há um processo de análise específico para lidar com as novas fontes digitais?

    Desejo um bom desenvolvimento da pesquisa!

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  3. Olá, Isabella. Agradeço enormemente. Sua pergunta é muito pertinente! Escolhi por janelas temporais, que foram baseadas em acontecimentos históricos que geraram debates mais efervescentes, como o nascimento do fórum Megalia, o assasinato na Estação de Gangnam (que suscitou um debate muito acalorado sobre feminicídio e misoginia na Coreia do Sul), o lançamento do livro Kim Jiyoung, As guerras online entre Ilbe e Woma, o lançamento do filme Kim Jiyoung e a eleição de Yoon Sukyeol.

    Busquei por posts que pudessem comentar experiências pessoais dos indíivíduos por trás ou suas linhas de pensamento e argumentos que produziam diante do feminismo e antifeminismo, a misoginia e a misandria.

    Como a historiografia ainda é incipiente no trato com fontes digitais como os fóruns, ainda estou formulando quais perspectivas usar. Entretanto, gosto de Análise Crítica do Discurso, Análise Qualitativa e Análise de Repertórios Discursivos.

    Agradeço novamente pela pergunta!

    Abraços,
    Gabriela Alves Silva

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  4. Maurício Luiz Borges Ramos Dias9 de julho de 2026 às 01:20

    Olá, Gabriela e Rozely! Espero que estejam bem! O livro "Kim Jiyoung, nascida em 1982" é fantástico e fico muito feliz em vê-lo em um trabalho acadêmico que está muitíssimo interessante! Parabéns pelo trabalho!! :) Vou elaborar minha pergunta abaixo:

    A partir da eleição de Yoon Suk-yeol na Coreia do Sul, o fortalecimento da extrema-direita no país se tornou evidente. Tendo esse governo impactado diversas questões, desde, por exemplo, subalternização da política externa sul-coreana ao Japão até profundamente em questões de gênero, que afetaram inclusive o movimento de reparação às "mulheres de conforto", fico me perguntando o seguinte: até que ponto a emersão da extrema-direita se tornou um obstáculo para o feminismo contemporâneo na Coreia do Sul? De quais formas a extrema-direita, por outro lado, gera o anti-feminismo, cooptando não somente os homens mais jovens quanto também as mulheres? Por acaso, vocês pretendem considerar o avanço da extrema-direita no trabalho e, ou, possuem reflexões sobre isso para compartilhar conosco no Simporiente?

    Muitíssimo obrigado :)

    Cordialmente,
    Maurício Luiz Borges Ramos Dias.

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