UMA JORNADA TRANSCONTINENTAL PELO PASSADO: PESQUISAS NACIONAIS SOBRE RELATOS DE VIAJANTES MUÇULMANOS por Patrik Madruga Gonçalves


Dos textos de viajantes europeus na América republicados pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro [IHGB] até recentes defesas de teses sobre experiências diaspóricas, a historiografia brasileira e seus antecedentes tem uma longa relação com escritas de viagem. Ultimamente, o fenômeno foi intensificado pelo aumento geral da produção acadêmica e um maior acesso às fontes através da digitalização das humanidades, dando “origem a uma produção volumosa, além de variada do ponto de vista dos enfoques temáticos e das abordagens teóricas.” [Franco, 2011, p. 62].

 

O principal volume dessas pesquisas se concentra em observações sobre o Brasil e a América do Sul, filiando-se aos estudos nacionais acerca do próprio país. Apesar disso, encontramos também uma saudável produção associada aos Estudos Medievais. À exemplo, destacamos os trabalhos de Susani S. Lemos França [2015, 2017], docente da Universidade Estadual Paulista [Unesp] e autora de Mulheres dos Outros: Os Viajantes Cristãos nas Terras a Oriente (Séculos XII-XV) e Peregrinos e Peregrinação na Idade Média, realizado em conjunto de Marcelo Pereira Lima e de Renata C. de Sousa Nascimento [especialista na história do caminho de Santiago de Compostela]. Além disso, França traduziu as Viagens de Jean de Mandeville [2007]. Em conjunto do material de Marco Polo e Benjamim de Tudela, essa edição compõe um dos poucos escritos de viagem da cristandade latina disponíveis em português brasileiro.

 

Duas décadas atrás, Maria C. F. de Almeida [2005] publicou um artigo com uma análise comparativa entre Marco Polo, ibn Jubayr e ibn Baṭṭūṭa. Trata-se de um dos primeiros textos acadêmicos abordando um relato de viagem árabe-islâmico. Alguns anos depois, Caio Balbinot, Caroline A. Bassegio e Paulo I. Cichelero [2011] também compararam ambos viajantes em capítulo de um livro sobre a Rota da Seda organizado por José Rivair Macedo. De maior escala, por sua vez, a tese defendida por Anna Carla Monteiro de Castro [2019] confrontou o mediterrâneo de outro viajante, ibn Jubayr, com aquele de Benjamin de Tudela e de Richard de Templo. Diversificando o espaço de análise, esses trabalhos auxiliaram na proposição de um medievo transcontinental. Recentemente, pesquisadores como Aline Dias da Silveira [UFSC] e Marcelo Cândido da Silva [USP] tem aprofundado o assunto, sobretudo por meio da História Global. Ao mesmo tempo, as últimas décadas viram um amadurecimento tanto dos Estudos Asiáticos no geral quanto dos Estudos Árabes em específico. Multiplicam-se teses e dissertações que utilizam fontes árabes clássicas: análises sobre a filosofia de ibn Sina, a poética de Abū Nuwās, os contos das Mil e Uma Noites, as crônicas de ibn al-Athĩr, entre muitas outras [Gonçalves, 2026]. Neste processo interdisciplinar, permeado pelos diferentes estudos [árabe, islâmico, asiático, africano, medieval e moderno], identificamos uma série de pesquisas que abordam relatos de viajantes muçulmanos. O presente texto situará o leitor do estado atual deste cenário, abordando suas características e desafios.

 

Itinerários de Pesquisa

 

Ao realizar um levantamento da produção nacional, identificamos conjuntos de pesquisas sobre quatro viajantes muçulmanos: Aḥmad ibn Faḍlān [séc. X], ibn Jubayr [f. 1217], ibn Baṭṭūṭa [f. 1369 ou 1377] e ʿAbd al-Raḥmān ibn ʿAbdallāh al-Baghdādī [f. 1881]. Dentre eles, os trabalhos sobre ibn Baṭṭūṭa [viajante que percorreu do oeste africano ao leste asiático] destoam tanto pela sua maior quantidade quanto pela temporalidade recuada. Tipicamente referida como Riḥla [viagem], a obra serviu – em conjunto do Muqaddimah [Prolegômenos] de ibn Khaldūn – como objeto de estudo da tese Percepções do Espaço no Medievo Islâmico (séc. XIV) de Beatriz Bissio [2008] e do seu subsequente livro, O Mundo Falava Árabe [Bissio, 2012]. Trata-se da primeira tese brasileira sobre um relato de viagem árabe-islâmico, tornando Bissio uma das mais influentes pesquisadoras brasileiras sobre o tema. Por meio das descrições de ibn Baṭṭūṭa e ibn Khaldūn, realizou tanto uma contextualização do mundo árabe “medieval” quanto uma análise das dimensões sociais deste espaço, sobretudo Meca. Neste mesmo período, José Rivair Macedo [2008, 2011] conduzia um projeto associado com as rotas da seda e seus viajantes, culminando na organização do livro citado na sessão anterior, um documentário sobre ibn Baṭṭūṭa e, em parceria com Roberta Pôrto Marques, um artigo sobre o Império do Mali na Riḥla.

 

Entre 2014 e 2015, por sua vez, três pesquisadores defenderam diferentes graus de titulação com pesquisas sobre ibn Baṭṭūṭa: Afonso Celso Malecha Teixeira [2014] se licenciou em História com a monografia Identidade e alteridade no mundo árabe-islâmico através da viagem de Ibn Battuta (1304-1368), Camila Tatiane de Souza [2015] obteve a especialização em Educação das Relações Étnico-Raciais com A África islamizada e o conhecimento sobre o Outro através dos relatos de ibn Battuta (séc. 1352-1353) e Bruno Rafael Véras de Morais e Silva [2015] finalizou seu mestrado em História com a dissertação Périplo do ouvir, ver e narrar: retórica, alteridade e representação do outro na Rihla de Ibn Battuta (1304-1377). Daqui até o presente, iremos observar no pesquisador brasileiro um interesse particular pelo contato do viajante com elementos que tensionam sua identidade como um muçulmano sunita arabizado. Em sua monografia, por exemplo, Teixeira aborda a relação dos sunitas e xiitas, enquanto as pesquisas de Souza e de Silva enfatizam o itinerário realizado pelo sahel africano. A obra de Bruno Morais e Silva ainda se destaca pela sua presença em bibliografias posteriores, influenciando os referenciais teórico-metodológicos dessas produções.

 

Por fim, os últimos anos tem testemunhado uma série considerável de trabalhos sobre ibn Baṭṭūṭa [Amorim Filho, 2018; Damásio, 2023; De Chiara, 2023; Teixeira et al., 2025; Vilela, 2025...]. Dentre eles, destacamos quatro dissertações: “Tu és o viajante dos árabes e dos não-árabes”: os limites do dar al-Islam e suas zonas de contato em ibn Battuta (703-770 H./1304-1369 d.C.) de Patrik Madruga Gonçalves [2024], Nos Caminhos de Ibn Battuta: possibilidades de Ensino de História da África de Dionysius Dias de Mattos [2024], Uma jornada pelos matizes do Islã: a representação do Bilād al-Sūdān na Riḥlah de Ibn Baṭṭūṭah (1304-1368-9/1377) de Pietro Menegatti de Chiara [2026] e, em processo de publicação, Racialização e hierarquização? percepções sobre o Mànden Kúurufáaba (Império do Mali) sob o olhar de Ibn Baṭṭūṭa no século XIV (1352 – 1353) de André Luís G. Soares [2026]. Enquanto a primeira dessas pesquisas propõe uma análise das zonas de fronteira do mundo muçulmano através do relato de ibn Baṭṭūṭa, as demais enfatizam dinâmicas específicas dentro do contexto das relações transaarianas na África, sobretudo relacionadas ao texto do viajante sobre o Mali. Tratam-se de dissertações preocupadas com os procedimentos realizados pela fonte para construir e diferenciar o Outro. Pontuamos ainda que a produção de Mattos se destaca pela criação de um jogo educativo sobre o contexto africano no século XIV, empregando a fonte para a produção de cartas e ferramentas da partida.

 

Pesquisas que abordam outros viajantes se encontram em menor número. Sobre ibn Faḍlān, emissário abássida que percorreu a Ásia Central e a região do rio Volga [atual Sul da Rússia], destacamos a monografia A Risalya de Ibn Fadlan: o relato da viagem de um muçulmano do século X ao leste europeu de Lucas Goulart [2013] e os artigos Ibn Fadlan and a By-Passed Remark on an Imaginary Geographical Topos: Some Observations on the Decreasing Factual Credibility Regarding the Caucasus Area of the Silk Road de Vicente Dobroruka [2020] e Religião e Cosmovisão na Idade Média: O exemplo de Ibn Fadlan e os Eslavos do Volga, escrito pelo trio Lara Zermiani, Matheus Wendrechowski e Milena Ferreira [2025]. Tanto no primeiro quanto no terceiro caso, obtemos análises sobre as relações diplomáticas entre o espaço árabe-pérsico sob domínio do califado abássida e os povos da região do Volga. Essa relação seria balizada pelo Islã ao sinalizar práticas locais em desacordo ou meramente peculiares. O artigo de Dobroruka, por sua vez, questiona determinadas leituras do relato a partir da citação de ibn Faḍlān ao mítico povo de Gog e Magog. O autor se posiciona de forma crítica, compreendendo que as descrições do norte geográfico participavam de uma tradição escatológica da literatura árabe clássica. Ademais, devemos citar que também identificamos um breve verbete biográfico publicado por Munir L. Ayoub [2018].

 

Além da mencionada análise comparativa de Anna Carla M. de Castro [2019], a viagem de ibn Jubayr foi objeto de estudo de Thiago D. Milhomem [2018, 2019]. Em sua dissertação de mestrado, o autor estabelece as possibilidades de peregrinação até Meca no contexto das cruzadas. Em seu texto, aprofunda as diferentes dimensões que mobilizam e auxiliam as pessoas até seu destino religioso. Já em outra publicação de Milhomem, escrita em parceria com Armênia M. de Souza, os pesquisadores exploram a relação do viajante com os corpos d’água. Neste ponto, se conecta com de Castro ao compreenderem o mediterrâneo como um agente influente e um recurso narrativo útil, sobretudo na provação de fé daqueles que lhe navegam. Por último, a monografia e artigo subsequente de M. Frizzo [2020, 2022] exploram o discurso bélico muçulmano frente a Sicília recentemente dominada pelos normandos cristãos. Dentre suas principais observações, a autora pontua que apesar da convivência entre os distintos grupos religiosos daquele espaço representar uma situação positiva, há uma série de tensões explícitas e conflitos internos que ameaçam um delicado equilíbrio.

 

Por último, o quarto viajante destacado no início do subcapítulo apresenta uma série de diferenças em comparação com os anteriores. Trata-se de ʿAbd al-Raḥmān ibn ʿAbdallāh al-Baghdādī, um cidadão otomano de provável origem árabe que vivera no século XIX, cujo itinerário é particularmente significativo para nós: visitou o Império do Brasil e descreveu seu contato com a comunidade muçulmana local, composta sobretudo pelos malês. Na década de 1990, tivemos o primeiro contato com o documento através de um artigo internacional sob autoria de Rosemarie Quiring-Zoche [1997], traduzido para o português pela Revista Afro-Ásia. Já as pesquisas brasileiras acabariam acompanhando a edição trilíngue [português, espanhol e árabe] realizada por Paulo D. Farah e intitulada de Deleite do estrangeiro em tudo o que é espantoso e maravilhoso [2007]. Identificamos cinco análises nacionais derivadas desta fonte: a dissertação de Maria Aparecida de Oliveira [2017] e os artigos de Farah [2009], José R. Góes & Manolo Florentino [2017], João José Reis [2023] e Diogo Bercito [2023]. Além da função expositiva deste valioso material [ainda pouco utilizado pela historiografia brasileira], os trabalhos enfatizam as estruturas raciais otomanas e brasileiras que permeiam o texto, as percepções do observador sobre as práticas do Islã no Brasil e as dificuldades de sua manutenção dentro de uma realidade material e social predominantemente cristã.

 

Considerações Finais

 

Neste levantamento, pudemos observar algumas tendências na pesquisa dos relatos de viagem árabe-islâmicos. Em primeiro lugar, as análises costumam abordar as relações étnico-raciais dos viajantes com os descritos. No caso do relato de ibn Baṭṭūṭa, predominam as análises sobre a passagem pelo Império do Mali e sua percepção acerca das populações ao Sul do Saara. As pesquisas sobre ibn Jubayr, por sua vez, enfatizam a relação da diferença principalmente pelo componente religioso. Em todo caso, há uma questão espacial latente nas pesquisas observadas. Tratam-se de obras que abordam regiões de fronteira política e cultural. Em diversos desses trabalhos, há uma presença marcante de conceitos como representação, imaginário, Outro, alteridade e identidade, conectando o material com referenciais teórico-metodológicos da história cultural [ex.: Roger Chartier].

 

Em segundo lugar, as pesquisas circulam por diferentes campos de estudo. A filiação linguística, cultural e religiosa dos viajantes conecta as análises com os estudos árabes e os estudos islâmicos. Sua cronologia, por sua vez, associa os pesquisadores de três dos quatro viajantes com os Estudos Medievais. Ao mesmo tempo, o recorte espacial direciona as pesquisas para os estudos asiáticos e africanos. Cada um desses campos citados contém suas próprias preocupações, ferramentas e referenciais bibliográficos. Suas combinações, somada das particularidades do pesquisador, produzem uma variedade ampla de conclusões acerca das mesmas fontes.

 

Em terceiro lugar, como mencionado, há uma predominância significativa pela escolha de ibn Baṭṭūṭa. Em partes, o fenômeno se explica pela popularidade do viajante nos últimos anos, nomeando shoppings centers e sendo utilizado nas redes sociais como condutor de curiosidades sobre o passado. Além disso, suas descrições do Mali [um trecho relativamente pequeno se comparado ao conteúdo total da obra] despertam interesse especial dos pesquisadores brasileiros, provendo um valioso material para análises étnico-raciais. No âmbito acadêmico, esses pontos ainda se relacionam com outro: a esmagadora maioria das pesquisas operam por meio da edição espanhola do relato [e, em menor medida, inglesa]. Semelhante ocorre com as outras fontes que trouxemos. É nítido que um dos desafios enfrentados se relaciona ao domínio da língua árabe, distanciando o pesquisador dos manuscritos originais. Apesar disso, as análises demonstram um bom manuseio do conteúdo e rigor metodológico, oferecendo interpretações valiosas.

 

Havendo observado o constante refinamento do campo, depositamos altas expectativas pela produção intelectual brasileira com fontes árabes. As pesquisas nacionais que utilizam relatos de viajantes muçulmanos se encontram em uma crescente acentuada. Sua principal barreira de entrada, o domínio da língua árabe, tem sido contornada pelo acesso às traduções para línguas europeias. Recentemente, novas fontes árabes clássicas têm sido traduzidas para o português brasileiro, diversificando um campo outrora dominado por material de cunho filosófico e espiritual. Safa A-C. Jubran, por exemplo, traduziu Hierarquia dos Povos de Sāʿid alAndalusī [f. 1070], um tratado descritivo sobre regiões do mundo e sua relação com as “ciências” do ponto de vista clássico/medieval. Das obras relativas à viagem e semelhantes, destacamos os trechos de ibn Jubayr na coletânea Fontes textuais árabes da Sicília muçulmana, editada por Thomas Bonnici [2019], assim como a edição bilíngue de Viagem ao Volga de ibn Faḍlān [2018] e os Relatos da China e da Índia de Abū Zayd al-Sīrāfī [2022], ambos traduzidos por Pedro Martins Criado. Também reforçamos a edição da experiência de al-Baghdādī [2009] no Brasil. Ademais, contamos com traduções menores publicadas em artigo, como a breve descrição de Roma e Constantinopla por Harūn ibn Yaḥyā [Criado, 2025].

 

De forma semelhante com o caso de ibn Baṭṭūṭa através de sua edição espanhola e inglesa, acreditamos que futuramente ocorra um florescimento de pesquisas com os recentes relatos traduzidos para o português. Além disso, mais pesquisadores tem se debruçado ao domínio de línguas predominantes fora da Europa, como o mandarim e o árabe. Por fim, encerramos o presente texto informando que há obras que não foram citadas por estarem no prelo ou em processo de indexação pelos seus respectivos repositórios. Outros casos, especialmente associados aos trabalhos de graduação, apresentam graus de rastreamento e registro muito variáveis. Carecem, por vezes, de procedimentos de catalogação digital, sobretudo se publicados em datas mais recuadas. Assim, tomamos ciência da possível existência de produções não mencionadas. Além disso, informamos que o presente trabalho priorizou ilustrar a produção de cada pesquisador por meio de sua principal publicação.

 

Referências

Patrik Madruga Gonçalves é doutorando em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul [UFRGS]. Atualmente é membro do Grupo de Estudos Africanos e Asiáticos [GEAFRAS, UFPR] e Grupo de História Medieval e Renascentista [Virtù, UFSM].

 

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VILELA, Gilberto de Carvalho. “‘Isso é algo que não vi em nenhum outro lugar do mundo’: as percepções de Ibn Battuta sobre o Islã no Mali (séc. XIV).” in CADERNOS DE PESQUISA DO CDHIS, vol. 38, n. 1, 2025, p. 143–164.

 

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12 comentários:

  1. Caro Patrick,

    Antes de tudo, o parabenizo pelo trabalho. Há um evidente zelo na procura e seleção dos textos, e igualmente um apurado senso de sistematização dessas leituras. Não tenho dúvidas que este capítulo será de grande auxílio tanto para os que estão começando na área quanto os que estão na peleja há algum tempo.

    Dito isto, eu gostaria de lhe pedir justamente sobre o processo de seleção, sistematização e organização dessas obras. Como você o fez? Chegou a construir tabelas e gráficos estatísticos sobre isto? A pesquisa de textos se fez pelo cruzamento de referências ou com o uso de uma ferramenta on-line em específico?

    Muito obrigado!

    Cláudio César Foltran Ulbrich

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    1. Patrik M. Gonçalves9 de julho de 2026 às 11:46

      Muito obrigado pelos elogios e pela pergunta! Vou lhe responder de duas formas, uma breve e outra mais extensa.

      De forma breve, foi através do levantamento em repositórios nacionais e pela busca nas referências de obras previamente encontradas. Dos pormenores, podemos dizer que tudo começou pelo meu interesse geral na historiografia do passado árabe e islâmico. No caso de ibn Battuta, elaborei um capítulo de livro (atualmente no prelo) onde abordo sua trajetória historiográfica em língua inglesa. Aproveitando esse “embalo”, acabei coletando material em uma dezena de outras línguas, incluindo português. Na época, fiz o levantamento por meio de diversos repositórios (SciELO, JSTOR, academia.edu, DOAJ, Google Books, Catálogos, etc.) e pelo cruzamento de referências. Além disso, recentemente dei um minicurso na II Semana GEAFRAS de Estudos Afro-Asiáticos onde realizei um levantamento exaustivo de teses e dissertações nacionais que trabalhem com fontes árabes anteriores ao século XIX (no geral, não somente relatos). Além dos repositórios/catálogos mais amplos, acessei individualmente os repositórios das principais universidades do Brasil. Consegui encontrar por volta de oitenta teses e dissertações ligadas ao assunto. A partir deste material bruto, elaborei diversos gráficos para o minicurso (fontes mais utilizadas, orientadores mais frequentes, Estado e Universidade que mais titularam esses pesquisadores, etc.). Toda essa trajetória me levou ao encontro da maioria das obras que menciono acima. Depois disso, foi só realizar os mesmos procedimentos focando em encontrar textos brasileiros que não conhecesse sobre algum viajante muçulmano.
      -
      Patrik Madruga Gonçalves

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  2. Patrik, gostei muito do texto, o mapeamento é extremamente útil para o campo. A parte final, sobre os desafios de acesso ao árabe e a dependência das traduções espanhola/inglesa, também é uma observação importante e honesta sobre os limites do campo.

    Você mesmo nota que a maior parte das pesquisas se apoia em conceitos como representação, alteridade e Outro, vindos da história cultural (Chartier). Quase todos esses referenciais foram pensados originalmente para estudar como o Ocidente representa o Oriente, assim, fico pensando sua opinião o que você acha sobre inverter esse gesto, ou seja, usar esse mesmo instrumental (inclusive Said, ainda que ele mesmo não tenha se debruçado sobre esse tipo de fonte) para observar como os próprios viajantes muçulmanos produziam suas próprias hierarquias de alteridade? Ibn Baṭṭūṭa descrevendo o Mali, ibn Faḍlān descrevendo os eslavos do Volga. Isso talvez perpasse a noção de auto-orientalismo? uma forma de orientalismo, só que operando de dentro do próprio mundo islâmico clássico, com seus próprios centros e periferias?
    Outra pergunta, por que ibn Baṭṭūṭa domina tanto o campo? Você aponta a popularidade recente e o interesse pelas passagens sobre o Mali, mas será que não há também outras razões para tal preferência? Pensando alto: o texto dele talvez se presta melhor às ferramentas teóricas que a historiografia brasileira já maneja (alteridade, identidade, contato cultural), enquanto outros relatos, como o de ibn Faḍlān ou al-Baghdādī, pedem talvez outros referenciais que ainda não foram plenamente explorados aqui?

    Att,
    Victor Hugo de Mattos Trindade

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    1. Patrik M. Gonçalves10 de julho de 2026 às 19:22

      Muito obrigado pelo comentário e pergunta, Victor! Do referencial cultural, é uma questão pertinente nas humanidades que estou longe de resolver haha. Sobre o Orientalismo em específico, acredito que devemos fazer uma distinção entre formas do passado de categorizar (e até mesmo estigmatizar) o Outro e os processos particulares que formam o que Said denominou de orientalismo. Ao meu ver, o orientalismo do Said responde a uma realidade que está intrinsecamente associada com as relações entre a Europa e o não-europeu. Ao citar esse termo, acabamos invocando também uma série de elementos complementares, como suas consequências no mundo contemporâneo. Contudo, a construção (positiva ou negativa) do “Outro” não é um fenômeno exclusivo europeu, tampouco acho que deveria constituir sozinho um “orientalismo”. Devemos ver esses olhares entre grupos distintos como um aspecto possível da experiência humana (além dos árabes, penso aqui a visão da China imperial sobre os “bárbaros”). Identificar esses olhares, principalmente os negativos, como “outro orientalismo” acaba por associar eles com um trauma muito específico e sua herança no nosso presente. Agora, se deseja uma obra que constrói um caminho mais próximo do que menciona, a "solução" de “Africanism: Blacks in the Medieval Arab Imaginary” do Nader Kadhen é bem interessante. Como está no título, o autor utiliza um termo que remete ao orientalismo, mas demonstra a particularidade do caso trabalhado quando altera o termo para "africanismo".

      Da sua pergunta sobre as preferências de ibn Battuta, acredito que a ligação teórica contribua bastante. Contudo, esse mesmo referencial poderia ser utilizado para os outros dois autores que mencionou. Reduzido para o nicho das fontes árabes que abordem identidade e diferença, por que ibn Battuta acaba sendo a “escolha final”? Ao meu ver, isto ocorre porque a obra é escolhida em um momento inicial da carreira do pesquisador, sendo uma das primeiras fontes árabes que ele entra em contato direto, por vezes através da recomendação do seu orientador. Apesar de traduzidos para o português, as edições de ibn Fadlan e (principalmente de) al-Baghdadi ainda são difíceis de encontrar, custosas e, em outros idiomas, acredito que a língua mais "próxima" seja inglês. Além disso, ibn Battuta conta com uma tradição estabelecida através da Tese de Beatriz Bissio, podendo ter influenciado nesta escolha final. No fim, é uma fonte extremamente útil para fazer o recorte espacial e temático que desejar.
      -
      Patrik Madruga Gonçalves

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  3. Maria Francisca Soares Theberge7 de julho de 2026 às 15:57

    Prezado Patrik,
    Gostei bastante do seu trabalho, sobretudo por entender que no momento de popularização dos estudos árabes e estudos asiáticos no Brasil, o esforço de levantamentos bibliográficos para a contribuição das agendas de pesquisa que têm se desenhado.
    Você acha que o crescente interesse em estudos árabes na Letras e Literatura pode contribuir para a tradução e circulação de novos relatos de viajantes, assim promovendo um alargamento dos sujeitos históricos trabalhados na História e seus itinerários de experiência?

    Att.
    Maria Francisca Theberge

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    1. Patrik M. Gonçalves9 de julho de 2026 às 12:07

      Muito obrigado pelo comentário Maria! A resposta é sim. Na verdade, os departamentos de Letras (especialmente USP e UFRJ) tem sido um dos principais polos da produção acadêmica sobre cultura árabe. O que observo na última década é o aumento do interesse pelo passado árabe mais recuado. Um dos pesquisadores que mais se destaca neste aspecto é também um dos maiores tradutores de árabe do Brasil, o professor Mamede Jarouche. Ele traduziu, por exemplo, As Mil e Uma Noites, também orientando pesquisas em Letras sobre essa fonte. Ao mesmo tempo que se formam mais historiadores especializados no período, está se formando também tradutores de árabe cada vez mais preocupados com essa documentação. No campo dos relatos de viajantes, acredito que o principal nome seja o Pedro Martins Criado, tradutor da viagem de ibn Fadlan e da descrição da China e Índia pelo al-Sirafi. Acredito que em poucos anos, principalmente com tiragens maiores ou opções em e-book, vamos ver o alargamento do uso dessas e outras (futuras) fontes traduzidas.
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      Patrik Madruga Gonçalves

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  4. Patrik, é sempre um prazer ler suas reflexões. Parabéns pelo excelente estado da arte; essa expansão de novos estudos é motivo de entusiasmo para todos nós. Agradeço imensamente a menção à minha dissertação e aos meus estudos sobre Ibn Battuta.

    Diante disso, pergunto: você acredita que a historiografia brasileira está conseguindo construir um recorte latino próprio, que se diferencie da tradição orientalista europeia? Sinto que estamos trilhando caminhos teóricos que questionam certas consolidações da escola europeia. Você vê essa produção brasileira como um campo em busca de autonomia teórica?

    Pietro E. M. de Chiara

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    1. Patrik M. Gonçalves9 de julho de 2026 às 13:38

      Ponto interessantíssimo! Acredito que essa pergunta tem potencial para muito debate e que sua resposta seja mais multifacetada do que pode parecer. Do que observo, a rota principal da produção nacional (pelo menos até uns anos atrás) esteve concentrada em abandonar perspectivas europeias generalistas, mas realizando isso justamente pelo alinhamento com a historiografia contemporânea produzida em universidades europeias. Como estamos recém construindo uma rede mais sólida para esses estudos no Brasil, ainda vejo que a principal preocupação está em demolir alguns “atrasos” que tínhamos até recentemente. À exemplo, temos o campo dos primeiros dois séculos do Islã: uma década atrás ainda era raro vermos por aqui a inclusão das perspectivas e debates que dominam lá fora desde o final do século XX (Omíadas e a antiguidade tardia, a ascensão e derrocada do revisionismo de Crone/Cook, os constantes achados arqueológicos na Arábia Saudita, os pontos e contra pontos de Donner, Sean Anthony, al-Azmeh, Hoyland, etc, etc...). Felizmente, acredito que estamos nos atualizando em alta velocidade. Acho importante dizer que esses espaços de produção europeia (e menciono desta forma por incluírem inúmeros pesquisadores muçulmanos, sobretudo de origem árabe) atualmente produzem um conhecimento primoroso que não deve ser negligenciado. Afirmo o mesmo para a produção acadêmica em árabe, ainda muito desconhecida por aqui.

      Contudo, como comentei, a resposta me parece multifacetada. Processos diferentes podem ocorrer ao mesmo tempo. Dentro desta preocupação geral que nos impulsiona positivamente para uma atualização historiográfica, tenho visto o potencial para uma criação latina como mencionaste. Não me parece hegemônica nas pesquisas nacionais com fontes árabes, mas tem dado seus sinais. Enquanto os estudos medievais enfatizam essa reconexão intelectual, vejo que o empenho para um recorte "mais" latino/brasileiro é impulsionado principalmente pelos nossos estudos africanos e asiáticos, ancorados na própria realidade brasileira (os traumas e heranças que carregamos). Os Estudos Africanos no Brasil em particular parecem ter menos receio de revisitar as fontes com novos olhares, tecer críticas que dentro dos Estudos Árabes na Europa e Ásia foram tratadas de forma secundária. Da produção atual para trás, acho (e posso estar errado) que ainda não se formou uma perspectiva teórica autônoma. Agora, como você muito bem sabe, as ferramentas para isso estão a nossa disposição para o futuro. Seu potencial parece estar na confluência dos diferentes estudos que se reúnem aqui pela falta histórica de uma tradição acadêmica exclusivamente "árabe e/ou islâmica". Seu sucesso, por sua vez, parece depender de mobilizar as indagações e tensões que sempre preocuparam os outros campos da nossa historiografia.
      -
      Patrik Madruga Gonçalves

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  5. Caro Patrik, boa noite. Como vai?

    Gostei muito do seu texto. De fato, considero de extrema importância este tipo de reflexão, pois nos apresenta a situação dos estudos nacionais sobre o tema. Parabéns! Em relação ao texto, tenho algumas questões que eu mesmo gostaria de iniciar os estudos, mas, vou aproveitar para direcionar a pergunta para você para poder encontrar um direcionamento. A primeira questão: qual ano que poderíamos estabelecer como o inicial em relação às produções nacionais sobre o tema que você destacou? Para além dos relatos de viajantes, e "fugindo" um pouco do tema (e fique à vontade para responder, pois é mais curiosidade minha), quais outras tipologias de fontes tem sido utilizadas nestas pesquisas? E, por fim, em relação aos desafios, para além do domínio da língua árabe (que você comentou no texto), quais outros poderíamos elencar?

    No mais, parabenizo pelo texto e novamente agradeço pela contribuição. Até mais.

    Luciano José Vianna.

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    1. Patrik M. Gonçalves10 de julho de 2026 às 20:04

      Obrigado pelas perguntas, Luciano! Este ano eu ministrei um minicurso na II Semana GEAFRAS de Estudos Afro-Asiáticos onde aprofundo essas questões do seu interesse. No momento ainda não está disponível online, mas acredito que em breve estará no canal de youtube do grupo. Deixo-lhe o convite para assistir. Das pesquisas acadêmicas com fontes árabes no geral, o marco seria a tese de Helmi Nasr em 1970 (intitulada “Seitas e Islâmicas: ideias e ramificações”). Em 1973, temos três teses que envolvem especificamente o passado árabe “medieval”: Joubran Jamil El Murr com al-Mas’udi, Aidyl de Carvalho Preitas com ibn Khaldun e Abdallah Chakkur Kamel sobre o movimento zubairita. Depois disso, não consegui encontrar dissertações e teses por alguns bons anos. Imagino que ocorreram monografias de graduação e capítulos, mas não saberia dizer com precisão por conta da catalogação instável. A partir da década de 90, temos uma série de dissertações/teses ligadas a filosofia (destaco o professor Jamil Iskandar). Dos anos 2000 para cá, proliferam em História e Letras (especialmente 2010+). De História, que acredito ser mais de seu interesse, a dissertação mais antiga que encontrei foi de Richard Max de Araújo sobre ibn Khaldun (2004). Aparte das quatro teses de história da década de 70, a mais antiga que encontrei na “retomada” foi a de Beatriz Bissio. Consegui encontrar aproximadamente 80 obras de pós-graduação que focavam em fontes árabes pré-XIX, titulando principalmente em Letras, História e Filosofia. No meu minicurso eu busquei estabelecer alguns padrões dentro destas obras. Por exemplo, autores como ibn Rusd, ibn Sina e ibn Arabi tem bastante destaque por conta dos departamentos de Filosofia. Semelhante ocorre com As Mil e Uma Noites por conta do departamento de Letras e ibn Khaldun em História. Como vimos no texto que enviei, ibn Battuta é outro nome que se repete nos trabalhos. Para não me alongar muito mais, se quiser tiver interesse em algum ponto mais específico, pode me contatar por e-mail ou redes sociais. Estou sempre disponível para conversar sobre o assunto! Haha
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      Patrik Madruga Gonçalves

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  6. Maria Clara de Deus Oliveira Gomes da Silva9 de julho de 2026 às 20:09

    Patrick, gostei muito da forma como o texto apresenta um panorama da produção acadêmica brasileira sobre relatos de viajantes muçulmanos, destacando tanto os avanços quanto os desafios do campo.

    A discussão sobre as traduções e o acesso às fontes é especialmente relevante para ampliar novas pesquisas. Também achei interessante a diversidade de abordagens teóricas mencionadas. Você acredita que a ampliação das traduções para o português será suficiente para diversificar os objetos de estudo, ou ainda existem outros obstáculos importantes para esse crescimento?

    - Maria Clara de Deus Oliveira Gomes da Silva

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    1. Patrik M. Gonçalves10 de julho de 2026 às 19:31

      Obrigado pelos comentários e pela pergunta. Acredito que as traduções são um meio mais imediato para lidar com um problema mais profundo (a falta do domínio do idioma, sobretudo dentre pesquisadores iniciantes). Neste sentido, uma tradução para o português por um especialista em árabe é uma ótima alternativa. Resulta em citações mais acuradas que se realizadas pelo próprio pesquisador através de uma edição inglesa, por exemplo. Felizmente, vejo que há uma preocupação crescente na área pelo domínio da língua. Neste sentido, acredito que a médio ou longo prazo o problema será solucionado da mesma forma que foi com os Estudos Medievais e o Latim (ou seja, dominando a língua durante o processo de formação acadêmica). Rompendo essa barreira, vamos acabar ampliando nossas fontes de forma nunca antes vista e, com isso, o objeto de estudo.
      -
      Patrik Madruga Gonçalves

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