O termo “mulheres de conforto” refere-se às vítimas de exploração sexual sistemática pelo Exército Japonês durante a Segunda Guerra Mundial. Conhecidas também como ianfu (“mulheres de conforto" em japonês), wianbu (em coreano) ou ‘P’ (gíria que pode derivar da inicial da palavra inglesa ‘prostituta’ ou do termo vulgar chines p’i para vagina) (Howard, 1995; Hicks, 1997). As “mulheres de conforto” possuem três componentes em comum: (1) foram forçadas à escravidão sexual militar, (2) seu sofrimento dentro dos bordéis das forças armadas e (3) seu meio século de experiências agonizantes após seu retorno para casa (Min, 2003, p. 939).
Figura: “mulheres de conforto” em território chinês após libertação pelas Forças Aliadas. Foto datada de 3 de setembro de 1944.
Essas mulheres eram recrutadas de diversas formas, porém a maior parte delas foi enganada, sequestrada ou coagida — acreditando em falsas promessas de emprego — à escravidão sexual. Segundo Howard (1995), o método de recrutamento divide-se em quatro tipos: recrutamento pela violência, incluindo ameaças de violência e abuso de poder; falsas promessas de emprego; rapto; tráfico humano. Nos casos de recrutamento violento, os soldados e a polícia militar foram os principais responsáveis, embora existam alguns casos documentados em que participaram funcionários civis. (Howard, 1995, p. 18-19) (tradução nossa)
O recrutamento geralmente acontecia dentro das classes mais baixas — uma vez que, quanto mais pobres, menores seriam as críticas ou preocupações públicas — tendo como principal foco mulheres jovens — 80% das “mulheres de conforto” tinham entre 14 e 18 anos de idade. (Howard, 1995). Muitas coreanas foram recrutadas pelo Corpo de Serviço Voluntário Feminino (Women's Voluntary Service Corps) — uma organização para conseguir serviço de mão de obra em indústrias durante a guerra, mas que também foi utilizada para desviar algumas mulheres para as estações de conforto (Soh, 2008).
As estações de conforto possuíam diferenças entre si (dependendo de qual região ou situação o quartel se encontrava). Entretanto é possível encontrar similaridade em algumas dessas casas utilizadas para o sistema. Hicks (1997, p.44) dá um protótipo de design de muitas estações de conforto: “a estação consistia em dez cabanas semelhantes a blocos de quartéis, juntamente com uma cabana de supervisor, todas cercadas por uma cerca. As cabanas eram divididas em dez pequenos quartos, cada um numerado e com uma porta separada” (Hicks, 1997, p. 44) (tradução nossa).
Porém, quanto mais perto da frente (da guerra) essas mulheres estivessem, mais precárias eram as locações, Segundo Yoshiaki (1995, p. 51-52) “Normalmente, essas estações tinham uma cerca de madeira colocada e um simples tapete de junco no chão”.
As condições nas estações de conforto eram desumanas. As mulheres eram proibidas de falar em sua língua, ou até mesmo utilizar seu nome coreano, a elas eram dados nomes em japonês, que ficavam fixados na parede da casa, como apresenta a figura abaixo. Além disso, eram obrigadas a atender entre 30 a 40 homens por dia — número que dobrava nos finais de semana, segundo Howard (1995, p. 21), “em alguns casos excessivos, as mulheres tinham que servir até 100 soldados” e, de acordo com testemunhos de diversas sobreviventes, os homens chegavam a formar fila ao lado de fora dos quartos esperando sua vez.
Figura: Representação de como ficavam as placas com os nomes japoneses dados às “mulheres de conforto”.
Fonte: Chang-Jin Lee · 이창진
Com relação ao pagamento, houve casos de estações que cobravam pelo serviço prestado aos soldados, as taxas variavam de acordo com a posição e com a nacionalidade das mulheres, entretanto “os operadores da estação de conforto geralmente cobravam taxas de exploração por suprimentos essenciais, como sabão ou roupas” (Hicks, 1997, p. 93) muitos chegavam até mesmo a roubar o pagamento das mulheres. Além disso, também houve casos em que as “mulheres de conforto” não receberam nenhum tipo de pagamento (Hicks, 1997).
As “mulheres de conforto” eram obrigadas a passar por “check-ups” semanais para prevenir gravidez e tratar infecção venérea (infecções sexualmente transmissíveis — IST’s), para evitar as infecções e a gravidez, era recomendado que todos os soldados usassem preservativo — que recebiam das estações de conforto — entretanto, de acordo com diversos testemunhos das sobreviventes, muitos homens se recusavam a usar camisinha (Hicks, 1997, Sikka, 2009).
Caso fossem diagnosticadas com alguma infecção, as mulheres eram tratadas com uma injeção chamada ‘No. 606’ — essa injeção foi a responsável pela esterilidade de muitas delas — Se engravidassem, eram forçadas a abortar o bebê, e se, por alguma razão, a gravidez progredisse teriam de continuar servindo aos homens durante esse período e logo após o nascimento, a criança era tomada da mulher (Hicks, 1997).
Assim, além das IST’s e outros problemas relacionados à relação sexual, as mulheres também eram suscetíveis a outras doenças como desnutrição e transtornos mentais — muitas optavam pelo suicídio devido aos diversos traumas. (Howard, 1999; Sikka, 2009).
Apesar de violências serem proibidas pelos regulamentos, a realidade era oposta. As mulheres sofriam constantes abusos, não somente dos soldados como dos proprietários das estações. Qualquer resistência ou recusa era tratada com severidade. De acordo com Okamoto (2013), as “mulheres de conforto” sofriam diversos tipos de violências, como espancamento, tortura e esfaqueamento. Jung Ok-Sun, uma vítima norte-coreana, relata em uma entrevista: “Fui espancada com uma barra horizontal e, quando caí, fui espancada na cabeça. O espancamento continuou, mesmo com o sangue escorrendo pelo meu rosto. Mesmo depois de 50 anos, inúmeras cicatrizes ainda permanecem em minha cabeça" (Newstapa. Youtube, 2016).
Figura: Marcas de abuso no corpo de Jung Ok-Sun, uma sobrevivente do sistema de conforto japonês.
Fonte: Newstapa. Youtube, 2016.
Distantes de casa e da família, em um território desconhecido, vivenciando não somente a guerra, como constantes estupros e abusos físicos e verbais, vivendo em condições precárias e sujeitas a torturas diversas, é de se esperar que essas mulheres tentassem fugir desses locais. Entretanto, essa possibilidade era extremamente difícil: as estações eram rigorosamente controladas pelos militares, além disso, a maioria dessas mulheres estava em um país diferente, sem ter conhecimento nem mesmo da língua falada no local e com pouco ou nenhum dinheiro para conseguir embarcar para casa. Assim, as mulheres continuavam a tentar sobreviver nessa situação angustiante, ou tentavam outra saída: o suicídio (Howard, 1995; Hicks, 1997).
A queda da Alemanha nazista, que se deu em 8 de maio de 1945, colocou fim a guerra em terras europeias. Entretanto, o Japão recusou-se a admitir a derrota e se render, assim continuou lutando durante quatro meses, até que se rendeu em 2 de setembro do mesmo ano, devido às bombas atômicas lançadas em duas de suas cidades — Hiroshima e Nagasaki.
Durante esse intervalo de tempo em que os japoneses já sabiam que iriam perder a guerra, um dos principais focos foi obscurecer o funcionamento do sistema de conforto. Assim, mensagens sugerindo ocultação de evidências do sistema de conforto foram passadas. Uma das mensagens descriptografadas, datada de 18 de agosto de 1945, diz: “Em 1º de agosto, o pessoal empregado no conforto naval japonês em Cingapura foi nomeado funcionário civil do 101º hospital. A maioria das meninas foi nomeada como auxiliares de enfermagem. Outros comandos da 1ª Frota Expedicionária do Sul devem estar em conformidade” (Hicks, 1997, p. 147) (Tradução nossa).
Relatos de vítimas e soldados afirmam que muitas mulheres foram “forçadas a tirar sua vida” ou “levadas para cavernas e assassinadas” (Howard, 1995) — provavelmente, o Exército temia que as mulheres que sobrevivessem seriam uma complicação para o Japão no pós-guerra. Outros testemunhos apresentam que algumas mulheres foram evacuadas junto com os soldados, outras conseguiram fugir antes do final da guerra e muitas foram simplesmente abandonadas nas suas estações de conforto, sem explicações (Hicks, 1997; Min, 2003). Em um relato, uma “mulher de conforto” conta: “Ouvi relatos de que os americanos estavam vindo para libertar Manila [...] fomos novamente levados para fora do Forte Santiago e conduzidos para dentro de uma igreja bem em frente à guarnição. Vi muitas pessoas lá dentro, enquanto soldados japoneses, fortemente armados, estavam parados na porta. Senti que algo ia acontecer e resolvi ir no meio da multidão. [...] De repente, ouvi tiros e todos começaram a cair. Os homens e mulheres começaram a cair em cima de mim e eu podia sentir o sangue em mim. Eu também podia ouvir as pessoas chorando e gritando. Não me mexi porque temia que ainda houvesse soldados japoneses dentro da igreja. [...] Tudo que eu podia ver eram pessoas mortas e sangue em cima de mim. Saí correndo da igreja e me refugiei atrás de uma parede perto da igreja. Fui encontrado por soldados americanos que me trouxeram para um abrigo” (Hicks, 1997, p. 152) (tradução nossa).
Segundo Sikka (2009, p. 13), “das 200.000 mulheres estacionadas durante a guerra, apenas cerca de 60.000 sobreviveram”. Muitas dessas mulheres demoraram (ou nunca chegaram) a voltar para casa, poucas foram repatriadas. As que retornaram mantiveram silêncio sobre o que passaram. Essa situação se deu por uma série de fatores: (1) por viverem em uma sociedade extremamente patriarcal e moralista, onde a castidade era requisitada. Assim, sabiam que sofreriam com o preconceito e a discriminação; (2) pela vergonha de seu passado; (3) pelo sentimento de culpa que carregavam e (4) pelo medo de serem afastadas ou abandonadas por familiares e amigos. (Howard, 1995; Hicks, 1997; Min, 2003, Soh, 2008). As sobreviventes do sistema de conforto sofrerem com diversos problemas de saúde física e mental no pós-guerra, de acordo com Min (2003, p. 941): “todas as vítimas sofreram de vários problemas de saúde e traumas psicológicos causados por suas experiências de escravidão sexual. Muitas vítimas continuaram a sofrer de doenças venéreas e algumas tiveram histerectomias. Elas regularmente tinham pesadelos nos quais soldados japoneses as perseguiam, mas tiveram que esconder suas experiências horríveis por mais de 50 anos” (tradução nossa).
Além disso, Pyong Gap Min (2003) complementa que além dos problemas de saúde, as sobreviventes ainda sofriam outras dificuldades como conflitos matrimoniais e problemas financeiros: “doentes física e mentalmente, a maioria delas poderia não viver uma vida conjugal normal. Embora a maioria acabasse por se casar, muitos mais tarde divorciaram-se precocemente devido à sua infertilidade ou ao conhecimento dos seus maridos sobre o seu passado secreto, ou tornaram-se jovens viúvas por causa da idade muito mais velha de seus maridos. Embora trabalhassem duro dia e noite, principalmente como empregadas domésticas, garçonetes ou mascates, dificilmente conseguiam se sustentar” (Min, 2003, p. 941) (tradução nossa).
Algumas dessas mulheres ainda sofriam de doenças venéreas ou descobriram sofrer de outras doenças como problemas cardíacos, hipertensão e doenças mentais como colapsos nervosos e transtorno de estresse pós-traumático, além disso, segundo os estudos de Hicks (1997, p. 161): “muitas destas mulheres revelaram-se estéreis, mutiladas por diversas doenças, pela brutalidade das suas vivências, pelas drogas que por vezes eram obrigadas a consumir para abortar gravidezes indesejadas ou para prevenir ou curar doenças. Algumas vezes foram esterilizadas pelas operações feitas nelas para eliminar a menstruação, mantendo-as sempre disponíveis” (tradução nossa).
Referências
Camilly Evelyn Oliveira Maciel é Mestranda em Ensino, História e Narrativas pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Maranhão (PPGHIST/UEMA) .
ADÃO, Jeniffer Michelly Gabriel. As vozes silenciadas: a narrativa das “mulheres de conforto” nas relações entre Japão, China e Coreia do Sul.. 2021. Monografia (Graduação em Relações Internacionais) - Instituto de Ciências Sociais e Comunicação, Universidade Paulista (UNIP), São Paulo, 2021.
AZENHA, Tatiana Sofia Fonseca. Para além do silêncio: o sistema de conforto e o papel dos movimentos feministas na questão das Mulheres de Conforto na Coreia do Sul: 1905-2015. 2018. Tese de Doutorado.
HICKS, George. The comfort women: Japan’s brutal regime of enforced prostitution in the Second World War. WW Norton & Company, 1997.
HOWARD, Keith. True stories of the Korean comfort women. 1995.
MIN, Pyong Gap. Korean “Comfort Women” the intersection of colonial power, gender, and class”. Gender & Society, v. 17, n. 6, p. 938-957, 2003
OKAMOTO, Julia Yuri. As Mulheres de Conforto na Guerra do Pacífico. Revista de Iniciação Científica de Relações Internacionais, v. 1, n. 1, 2013.
SIKKA, Nisha. The official marginalization of comfort women. Honours Thesis. Communications 498. Simon Fraser University. December 11, 2009. (33 fls.)
SOH, Chunghee Sarah. “The Korean ‘comfort women’: Movement for redress”. Asian Survey, v. 36, n. 12, dec. 1996, pp. 1226-1240.
YOSHIMI, Yoshiaki. Comfort women: Sexual slavery in the Japanese military during World War II. Columbia University Press, 2000.



Olá, Camilly!
ResponderExcluirAchei seu texto muito bem explicado e excelente para dar um panorama geral sobre o assunto. Obrigada por abordar um tema que, apesar de tão pesado, é tão importante!
Fiquei curiosa sobre a sua interpretação dos motivos que levaram o Japão a cometer tais atos. Você acredita que este sistema das "mulheres de conforto" possa ser compreendido como uma estratégia de guerra do Império Japonês? Me pergunto pois já vi casos similares em outros conflitos, como no caso de soldados estadunidenses que abusavam sexualmente de mulheres vietnamitas durante a Guerra do Vietnã. Seria isso motivado também por uma estratégia de guerra ou apenas por puro machismo e violência de gênero?
Desde já, obrigada pelos seus apontamentos!
Atenciosamente,
Ana Helena Leite de Araujo
Olá, Ana Helena ! Obrigada pelas considerações!
ExcluirAcredito que essas dimensões não são excludentes. No caso das "mulheres de conforto", a documentação histórica mostra que o sistema foi institucionalizado pelo Exército Imperial Japonês, com participação de autoridades militares na criação, regulamentação e administração das chamadas estações de conforto. De acordo com Howard (1995), entre os objetivos da criação desse sistema estavam i) controlar a sexualidade dos soldados, ii) reduzir casos de estupro que poderiam gerar resistência nas populações ocupadas, iii`) prevenir a disseminação de doenças venéreas e iv) manter a disciplina das tropas. Nesse sentido, pode-se dizer que houve, sim, uma estratégia militar por trás da criação do sistema.
Em outros conflitos, como a Guerra do Vietnã, também encontramos casos sistemáticos de violência sexual, embora em contextos diferentes. Nem sempre existiu um sistema organizado como o das "mulheres de conforto", mas a guerra frequentemente cria condições para que relações de poder, desumanização do inimigo e desigualdades de gênero favoreçam esse tipo de violência. Por isso, muitos pesquisadores hoje analisam a violência sexual em guerras como um fenômeno que combina objetivos militares, relações de poder e estruturas de gênero.
Ao meu ver, essa estratégia (de utilizar o estupro como uma arma de guerra) é possível devido ao fato de as sociedades estarem inseridas em uma estrutura profundamente patriarcal e misógina, na qual os corpos das mulheres são tratados como recursos disponíveis para atender às necessidades dos homens. Portanto, a violência sexual não foi (nem é) um efeito colateral da guerra, mas uma prática institucionalizada que se apoia em desigualdades de gênero já existentes.
Atenciosamente, Camilly Evelyn Oliveira Maciel