UM CHINÊS, UM ITALIANO E UM AMERICANO ENTRAM EM UM BAR: GUERRA, HEGEMONIA E A ASCENSÃO CHINESA EM SUN TZU, GRAMSCI E MEARSHEIMER por Robson Lins Souza Damasio de Oliveira

  

A ascensão chinesa como problema teórico

A ascensão da China ao centro do sistema internacional é, talvez, o fenômeno mais discutido nas relações internacionais contemporâneas. Com efeito, em poucas décadas, o país passou de economia majoritariamente agrária e periférica a segunda maior economia do mundo, principal parceiro comercial de mais de cem países, e ator central em praticamente todas as cadeias produtivas estratégicas, da manufatura tradicional à tecnologia de ponta. Esse crescimento não ocorreu apenas no plano econômico: a China expandiu sua presença militar, sua influência institucional em organismos multilaterais e sua capacidade de projetar narrativas próprias sobre desenvolvimento e ordem internacional, frequentemente em contraste deliberado com o modelo liberal ocidental.

 

O problema teórico que essa ascensão coloca, no entanto, não é apenas descritivo. A pergunta que atravessa boa parte da literatura de relações internacionais é normativa e prospectiva: o crescimento chinês implica, necessariamente, conflito com a potência hegemônica estabelecida, os Estados Unidos? E, se há conflito, em que terreno ele se desenrola? É precisamente aqui que se abre espaço para um diálogo pouco ortodoxo, mas produtivo, entre três tradições de pensamento que raramente são postas em conversação direta: o realismo ofensivo de John Mearsheimer, a teoria da hegemonia de Antonio Gramsci e as reflexões estratégias de Sun Tzu.

A escolha dessas três referências não é arbitrária. Cada uma oferece uma resposta distinta para uma mesma questão de fundo, a saber, onde e como se trava a disputa por poder entre Estados. Mearsheimer responde que a disputa se trava, estruturalmente, no terreno da capacidade militar e da busca por hegemonia regional, e que o conflito armado é uma probabilidade altamente concreta nessa transição. Gramsci, transposto para as relações internacionais por autores como Robert Cox, sugere que o poder mais duradouro não é o que se impõe pela força, mas o que se converte em consenso, e que a disputa hegemônica pode se travar inteiramente fora do registro militar. Sun Tzu, por sua vez, desenvolve uma lógica estratégica, considerando que a forma suprema da habilidade militar é vencer sem combater, hierarquizando os meios de confronto e colocando a batalha armada como último recurso, não como medida de sucesso.

Este ensaio se propõe a articular essas três perspectivas não como abordagens complementares que se somam sem tensões, mas como interpretações distintas acerca da natureza do poder e das formas pelas quais se desenvolvem as disputas entre grandes potências. A partir desse diálogo, busca-se explorar em que medida a ascensão chinesa pode ser compreendida para além das categorias tradicionais da competição militar, considerando também o papel das instituições, das narrativas e dos mecanismos de construção de legitimidade. Nesse sentido, o realismo ofensivo de Mearsheimer oferece uma importante reflexão sobre as pressões estruturais que orientam a competição entre os Estados; a teoria da hegemonia de Gramsci sugere a relevância de dimensões ligadas ao consenso e à produção de legitimidade; e a obra de Sun Tzu fornece elementos para pensar estratégias que privilegiam formas indiretas de confronto. Mais do que estabelecer uma síntese definitiva entre essas perspectivas, o objetivo é examinar as possibilidades analíticas abertas por seu diálogo.

O realismo como ponto de partida

Antes de avançar para Mearsheimer especificamente, é necessário situar brevemente a tradição realista da qual ele parte. O realismo, como paradigma de relações internacionais, assenta-se sobre premissas centrais que são comuns a autores tão distintos quanto Hans Morgenthau, Kenneth Waltz e Mearsheimer: o sistema internacional é anárquico, sem autoridade central capaz de garantir a segurança dos Estados; os Estados são atores racionais; e, na ausência de autoridade superior, cada Estado precisa zelar pela própria sobrevivência através da acumulação de poder, sobretudo militar (JACKSON; SORENSEN, 2013). A diferença entre o realismo clássico de Morgenthau e o neorrealismo de Waltz está na origem que atribuem a esse comportamento. Morgenthau (2003) localiza a busca por poder numa suposta natureza humana orientada à dominação. Waltz (2002) desloca a explicação para a estrutura do sistema: independentemente das intenções dos governantes, a própria anarquia obrigaria os Estados a se comportarem competitivamente, sob pena de serem dominados por vizinhos mais fortes.

 

É nesse ponto que Mearsheimer se afasta da formulação neorrealista de Waltz e desenvolve aquilo que posteriormente ficaria conhecido como realismo ofensivo. Para Waltz (2002), a estrutura anárquica do sistema internacional leva os Estados a buscarem níveis suficientes de segurança para garantir sua sobrevivência, sendo a acumulação excessiva de poder potencialmente contraproducente, na medida em que tende a estimular reações de balanceamento por parte de outros atores. Mearsheimer (2007), por sua vez, sustenta que a incerteza permanente acerca das intenções futuras dos demais Estados produz incentivos para uma busca mais intensa por poder relativo. Nessa perspectiva, a condição mais segura disponível a uma grande potência seria a hegemonia regional, entendida como a capacidade de alcançar uma posição de predominância tal que nenhum Estado vizinho represente ameaça significativa à sua segurança. Daí decorre o argumento central do realismo ofensivo: em um ambiente marcado pela incerteza, mesmo Estados que não possuam intenções expansionistas explicitas podem ser levados a ampliar continuamente suas capacidades de poder como forma de reduzir vulnerabilidades e aumentar suas margens de segurança.

 

Mearsheimer e a ascensão chinesa

É a partir dessa moldura que Mearsheimer formula sua tese mais controversa sobre a China: a de que sua ascensão pacífica é, estruturalmente, impossível. O argumento, desenvolvido tanto em seu livro “A tragédia das grandes potências” (MEARSHEIMER, 2007) quanto no artigo “The Gathering Storm” (MEARSHEIMER, 2010), segue diretamente da lógica ofensiva: se a posição mais segura é a hegemonia regional, e se a China continuar crescendo, ela buscará, racional e talvez inevitavelmente, hegemonia regional na Ásia, da mesma forma como os Estados Unidos consolidaram hegemonia regional nas Américas ao longo do século XIX, expressa paradigmaticamente na Doutrina Monroe.

 

Esse paralelo histórico desloca o debate do terreno das intenções para o da estrutura. Mearsheimer não afirma que a liderança chinesa seja particularmente agressiva; afirma que isso é irrelevante. Independentemente de Beijing desejar dominação regional, a lógica estrutural faz com que uma China mais poderosa busque eliminar ameaças em sua vizinhança e impedir que potências extrarregionais, no caso os Estados Unidos, mantenham presença militar relevante perto de suas fronteiras (MEARSHEIMER, 2010).

 

Essa busca colide estruturalmente com o interesse estadunidense, porque os próprios Estados Unidos, tendo alcançado hegemonia regional nas Américas, historicamente impediram que outras potências alcançassem posição equivalente em suas regiões, justamente para evitar um hegemon regional rival capaz de desafiar sua posição global. Os Estados Unidos teriam, assim, fortes incentivos estruturais para conter a China através de alianças regionais, presença militar reforçada no Indo-Pacífico e, no limite, confronto direto caso a contenção pacífica fracasse (MEARSHEIMER, 2007; 2010). É essa dinâmica de ação e reação, não qualquer julgamento moral sobre intenções chinesas, que leva Mearsheimer à conclusão pessimista de que a competição de segurança sino-americana deve se intensificar, sendo o conflito armado uma probabilidade alta demais para ser tratada como cenário marginal.

 

É importante notar uma distinção que se perde nas leituras apressadas de Mearsheimer: sua tese é de pressão estrutural intensa, não de determinismo mecânico. O autor reconhece que a forma como essa competição se manifesta depende de variáveis que escapam ao núcleo duro da teoria, ainda que seja categórico ao afirmar que o otimismo liberal sobre uma ascensão chinesa pacífica carece de fundamento (MEARSHEIMER, 2007). É nessa fresta entre pressão estrutural e determinismo que este ensaio insere as contribuições de Gramsci e Sun Tzu.

 

Gramsci, hegemonia e política internacional

Antonio Gramsci não escreveu sobre relações internacionais de maneira sistemática. Seus “Cadernos do Cárcere”, redigidos entre 1929 e 1935 enquanto esteve preso pelo regime fascista italiano, voltam-se sobretudo para explicar por que a revolução socialista, vitoriosa na Rússia, não se repetira nas sociedades capitalistas ocidentais mais industrializadas. Para o autor, sobretudo em seu caderno 13 (GRAMSCI, 2024), o poder de uma classe dominante, ou de um Estado, não se sustenta apenas pela coerção. Sustenta-se, sobretudo, pela hegemonia, a capacidade de fazer com que a própria visão de mundo seja aceita por outros grupos como senso comum, como ordem natural e desejável, não como imposição (GRAMSCI, 2024). Hegemonia é a combinação de coerção e consenso, com primazia do consenso: quanto mais um sistema de poder depende exclusivamente de força, mais frágil e custosa é sua dominação; quanto mais gera adesão ativa, ou ao menos aceitação passiva, mais estável e barata se torna sua continuidade. Daí deriva o conceito de bloco histórico, a aliança entre estrutura econômica e superestrutura ideológica que sustenta uma ordem hegemônica.

 

A transposição desse conceito para as relações internacionais foi feita principalmente de Robert Cox. Para Cox (1981): uma potência verdadeiramente hegemônica não é apenas aquela com superioridade militar e econômica, mas aquela capaz de projetar instituições e narrativas que outros Estados aceitam como legitimas, ou ao menos inevitáveis, reduzindo a necessidade de coerção constante. A hegemonia americana do pós-Segunda Guerra Mundial não se sustentou apenas em poderio militar, mas num arranjo institucional, Bretton Woods, ONU, regime de comércio multilateral, aceito por outros Estados como ordem relativamente legitima durante largo período.

 

A pergunta gramsciana aplicada à China desloca-se, portanto, do terreno militar para outro distinto: não importa apenas se a China acumula poder militar suficiente, mas se consegue construir um bloco histórico próprio, com narrativas e instituições que outros países aceitem como legítimas, não apenas impostas. A Nova Rota da Seda, bancos alternativos como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, e a retórica de um “destino comum da humanidade” podem ser lidos como tentativas de construção hegemônica em sentido gramsciano, não apenas expansão geopolítica convencional.

 

Há, no entanto, uma segunda frente dessa disputa, distinta e talvez mais significativa que a construção de instituições paralelas: o avanço chinês dentro das próprias instituições que sustentaram a hegemonia americana do pós-guerra. A China hoje é a maior contribuinte de pessoal entre os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU para operações de paz, ocupa posições de liderança em agências especializadas como a Organização para a Alimentação e a Agricultura, a União Internacional de Telecomunicações e a Organização da Aviação Civil Internacional, além de ampliar sua participação em debates técnicos e normativos em fóruns multilaterais. Essa dimensão é conceitualmente distinta da construção de instituições alternativas. Enquanto organismos como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura oferecem mecanismos complementares ou paralelos à arquitetura existente, a crescente presença chinesa em instituições já consolidadas pode ser interpretada, em chave gramsciana, como uma forma de disputa por influência e legitimidade no interior da própria ordem internacional Nessa perspectiva, mais do que substituir instituições existentes, trata-se de participar da definição de suas prioridades, agendas e formas de funcionamento.

 

Gramsci oferece ainda um par conceitual útil: a distinção entre guerra de movimento e guerra de posição. Guerra de movimento é o confronto direto e relativamente rápido, voltado à tomada decisiva do aparelho de Estado. Guerra de posição é o avanço gradual em espaços da sociedade civil, das instituições e da produção de consenso, processo que antecede ou mesmo substitui confrontos mais diretos (GRAMSCI, 2024). Gramsci formulou essa distinção para explicar o motivo de a estratégia revolucionária no Ocidente diferir daquela observada na experiência russa, mas a categoria pode ser empregada, por analogia, para refletir sobre disputas contemporâneas entre grandes potências.

 

Sob essa perspectiva, a competição de segurança enfatizada por Mearsheimer, expressa na corrida armamentista, nas alianças militares e nas tensões estratégicas no Indo-Pacífico, aproxima-se da lógica de guerra de movimento. Já a crescente disputa por influência em instituições internacionais, padrões normativos, redes econômicas e narrativas de legitimidade pode ser interpretada como uma forma de guerra de posição em escala mundial. Essa leitura sugere que a competição sino-americana não se projetaria apenas para um cenário futuro de eventual confronto, mas também se manifesta em arenas menos visíveis, frequentemente situadas fora do escopo privilegiados pelas abordagens realistas tradicionais.

 

Sun Tzu e a hierarquia dos meios de vitória

“A Arte da Guerra”, tratado atribuído ao estrategista chinês Sun Tzu e composto provavelmente entre os séculos V e IV a.C., oferece o terceiro vértice deste diálogo. Diferentemente de Mearsheimer e Gramsci, Sun Tzu não formula uma teoria sobre a natureza do sistema internacional; sua obra possui caráter eminentemente estratégico, voltado à reflexão sobre os meios mais eficazes para alcançar a vitória em situações de conflito (SUN TZU, 2019).

 

O princípio mais conhecido do tratado, e o mais relevante para os propósitos deste ensaio, é a afirmação de que a forma mais elevada de habilidade militar não consiste em vencer sucessivas batalhas, mas em subjugar o adversário sem a necessidade de combate direto (SUN TZU, 2019). A partir desse princípio, Sun Tzu estabelece uma hierarquia dos meios de ação: frustrar os planos do adversário, enfraquecer suas alianças, enfrentar suas forças em campo aberto e, apenas em último caso, recorrer ao cerco prolongado. O confronto armado direto ocupa, portanto, posição secundária na escala de estratégias consideradas mais eficazes.

 

Alguns autores contemporâneos identificam elementos dessa lógica em determinadas interpretações da política externa chinesa moderna. Kissinger (2011), por exemplo, sugere que parte do pensamento estratégico associado à República Popular da China pode ser lida à luz de uma tradição que privilegia a acumulação gradual de vantagens e a redução dos custos do confronto direto. Nesse sentido, a conhecida orientação de Deng Xiaoping de “ocultar capacidades e esperar o momento” é frequentemente interpretada como compatível com essa valorização de estratégias indiretas.

 

Para os objetivos deste ensaio, entretanto, o aspecto mais relevante não é a eventual influência histórica de Sun Tzu sobre formuladores contemporâneos, mas a afinidade analítica que sua obra apresenta com a distinção gramsciana entre guerra de movimento e guerra de posição. As estratégias voltadas a frustrar planos, enfraquecer alianças e ampliar a própria margem de influência podem ser aproximadas, por analogia, da lógica da guerra de posição, caracterizada pela disputa gradual por espaços de poder e legitimidade. Já o confronto militar direto aproxima-se daquilo que Gramsci denominou guerra de movimento.

 

Essa aproximação permite iluminar um aspecto específico do debate sobre a ascensão chinesa. Mesmo admitindo a existência das pressões estruturais identificadas por Mearsheimer, a perspectiva oferecida por Sun Tzu sugere que atores racionais podem buscar formas indiretas de competição antes de recorrer ao confronto aberto. Sob essa ótica, iniciativas voltadas à ampliação de influência institucional, econômica ou diplomática podem ser interpretadas não como alternativas à competição entre potências, mas como uma de suas possíveis modalidades de manifestação.

 

Divergências teóricas e interpretações concorrentes

A articulação entre os três autores não deve obscurecer divergências importantes entre eles, que se tornam particularmente visíveis quando se pergunta o que, afinal, conta como vitória em uma disputa entre grandes potências. A partir da perspectiva de Mearsheimer, disputas travadas no terreno institucional ou narrativo tenderiam a ser interpretadas como dimensões relevantes, mas subordinadas à distribuição material de poder. Nessa leitura, a construção de legitimidade dificilmente poderia compensar a ausência de capacidades militares correspondentes, uma vez que a segurança última dos Estados continuaria dependente de sua posição relativa no equilíbrio de poder (MEARSHEIMER, 2007). Já a tradição gramsciana, especialmente em sua releitura por autores como Cox, sugere uma compreensão distinta: hegemonia não seria apenas um reflexo do poder material, mas uma forma específica de exercê-lo, baseada na combinação entre coerção, consenso e legitimidade (COX, 1981).

 

Esse desacordo possui implicações relevantes para a interpretação da ascensão chinesa. Caso a China amplie sua capacidade de influenciar instituições internacionais, difundir determinadas concepções de desenvolvimento e consolidar espaços de atuação no interior da ordem existente, isso pode contribuir para elevar os custos políticos de iniciativas americanas voltadas à sua contenção. A questão central passa a ser, então, se esse tipo de influência constitui apenas uma vantagem complementar, dependente da distribuição material de poder, ou se pode produzir efeitos mais profundos sobre a própria dinâmica da competição internacional.

 

Não há resposta consensual para essa questão. Uma leitura inspirada em Mearsheimer tenderia a enfatizar que, diante de ameaças percebidas como vitais, considerações relacionadas à legitimidade dificilmente substituiriam os imperativos de segurança. Já uma interpretação mais próxima de Gramsci e de Sun Tzu permitiria explorar a hipótese de que processos graduais de construção de consenso, influência institucional e redefinição de normas possam alterar os próprios parâmetros pelos quais ameaças e interesses são percebidos. Mais do que resolver essa tensão, o diálogo entre essas perspectivas evidencia diferentes maneiras de compreender a relação entre poder material, legitimidade e estratégia na política internacional contemporânea.

 

Considerações finais

Este ensaio não pretendeu resolver as diferenças entre o realismo ofensivo de Mearsheimer, a teoria gramsciana da hegemonia e a reflexão estratégica de Sun Tzu, tampouco construir uma síntese capaz de eliminar as tensões existentes entre essas perspectivas. Seu objetivo foi mais modesto: explorar as possibilidades analíticas abertas pelo diálogo entre tradições que concebem de maneira distinta a natureza do poder, da competição e da vitória na política internacional.

 

A análise desenvolvida ao longo do texto sugere que a ascensão chinesa pode ser interpretada por meio de múltiplas lentes. A perspectiva de Mearsheimer destaca as pressões estruturais que tendem a intensificar a competição entre grandes potências; Gramsci chama atenção para a relevância das instituições, da legitimidade e da construção de consenso na sustentação de ordens hegemônicas; e Sun Tzu oferece uma reflexão estratégica que valoriza formas indiretas de competição e a obtenção de vantagens sem recurso imediato ao confronto aberto. Consideradas em conjunto, essas abordagens permitem ampliar o horizonte de análise da disputa sino-americana sem pressupor que uma delas, isoladamente, seja capaz de esgotar sua complexidade.

 

Nesse sentido, a questão central talvez não seja apenas se a ascensão chinesa conduzirá a um conflito militar entre Estados Unidos e China, mas também de que maneira a competição entre ambas as potências já se manifesta em arenas institucionais, econômicas e simbólicas. Se a política internacional contemporânea envolve simultaneamente disputas por capacidades materiais, legitimidade e influência, compreender a relação entre essas diferentes dimensões torna-se tão importante quanto avaliar o equilíbrio militar entre os Estados. Mais do que oferecer respostas definitivas, o diálogo entre Mearsheimer, Gramsci e Sun Tzu contribui para formular essa questão de maneira mais abrangente e teoricamente informada.

 

Referências

Robson Lins Souza Damasio de Oliveira possui graduação em Direito pelo Mackenzie (2011), graduação em Ciências Econômicas pela PUC-SP (2017), graduação em História pela USP (2015), graduação em Ciências Sociais (2024) e mestrado em Antropologia Social também pela USP (2023). Atualmente é doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. É membro do Grupo de Estudos de Antropologia da Cidade da Universidade de São Paulo (GEAC-USP) e do Laboratório de Estudos Transasiáticos da Universidade Federal do Espírito Santo (LETA).

 

COX, Robert W. Social forces, states and world orders: beyond international relations theory. Millennium: Journal of International Studies, v. 10, n. 2, p. 126-155, 1981.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Edição e tradução de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2024.

JACKSON, Robert; SORENSEN, Georg. Introdução às Relações Internacionais. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

KISSINGER, Henry. On China. New York: Penguin Press, 2011.

MEARSHEIMER, John J. A tragédia das grandes potências. Lisboa: Gradiva, 2007.

MEARSHEIMER, John J. The gathering storm: China’s challenge to US power in Asia. The Chinese Journal of International Politics, v. 3, n. 4, p. 381-396, 2010.

MORGENTHAU, Hans J. A política entre as nações: a luta pelo poder e pela paz. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2003.

SUN TZU. A arte da guerra. São Paulo: Penguin-Companhia, 2019.

WALTZ, Kenneth N. Teoria das Relações Internacionais. Lisboa: Gradiva, 2002.

 

 

2 comentários:

  1. Oi Robson! Muito interessante sua abordagem. Fico pensando até que que ponto as novas esferas de disputa cultural, como a lógica algorítimica das redes sociais por exemplo, vão acabar tensionando as relações em disputa, e nesse sentido, a estratégia de Sun Tzu não acaba funcionando com maior eficácia? Já que nas redes sociais se alimentam visões de consenso?
    Janaina de Paula do Espírito Santo.

    ResponderExcluir
  2. Oi Janaina, muito obrigado pela leitura e pela pergunta. De fato, a questão dos algoritmos é um fator relativamente novo nessa discussão, e sem dúvida um campo de disputa geopolítica (ao menos em termos de narrativa). Na verdade, eu iria além, pois essa ideia do consenso buscado pelos algoritmos implicam em novas formas de exercício de hegemonia (no sentido gramsciano do termo). E se pensarmos que, ao menos no chamado “ocidente”, grande parte do espaço virtual é controlado por empresas estadunidenses, creio que seja um tema que pode ter reflexos nas tentativas da China de consolidar uma hegemonia que faça frente ao modelo dos EUA. Achei sua questão extremamente pertinente, mas acho que por enquanto nos resta esperar para ver como isso se desenrola na prática, acho difícil desenhar qualquer cenário nesse momento. Talvez seja um tema a explorar no próximo evento! Abraços.

    Robson Lins Souza Damásio de Oliveira

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.