TRADIÇÃO E INVENÇÃO: OS USOS DO PASSADO NO JAPÃO MEIJI por Edvan Pereira Costa Rufino

 Introdução

Esta comunicação examina a construção e a instrumentalização da educação no Japão Imperial, bem como  em que medida a educação Meiji reverberou na edificação do conceito de bushido. O objetivo é compreender como a educação e o bushido auxiliaram no processo de modernização do Japão Imperial.

 

Trabalhando com os conceitos de “tradição inventada” proposto por Hobsbawm, e o conceito de “samuraização”, de acordo com Harumi Befu, este estudo analisa como o estado japonês valorizou e remodelou a “tradição” samurai ao longo do período Imperial através do ideário do bushido. Com isso, demonstra-se como esse processo contribuiu para a construção de um novo ethos nacional, soerguido como código de conduta pelas lideranças Meiji.

 

Da Ocidentalização à Modernidade Conservadora: Os Rumos da Era Meiji

A partir da Restauração Meiji em 1868, o poder político no Japão passou a ser exercido por uma influente oligarquia de conselheiros oriundos dos domínios de Satsuma, Choshu, Tosa e Hizen, que cercavam o jovem Imperador Mutsuhito. Interessava aos oligarcas desenvolver a nação para assim manter a independência japonesa perante as potências ocidentais, evitando que sofressem um processo de colonização como ocorreu na China.

 

O desenvolvimento industrial nipônico tornou-se o objetivo máximo auferido pelas lideranças japonesas, todavia, não obteve êxito em sua totalidade. Dessa maneira, a primeira modernização foi substituída por uma segunda modernização, essa, de caráter conservadora, buscando alçar a cultura japonesa como um exemplo cultural frente a cultura “civilizada” do Ocidente.

 

O slogan fukoku kyohei (Enriquecer o país, fortalecer as forças armadas) buscava incentivar justamente políticas que visavam transformar e modernizar a sociedade japonesa, objetivando alcançar o tão desejado respeito frente aos ocidentais, assim como a revisão dos tratados desiguais impostos por estes ao Japão.

 

Em grande medida, a “restauração” ocorreu pelo descontentamento dos oligarcas em relação à fragilidade do xogunato Tokugawa em resistir às imposições ocidentais. Acontecimento que feriu em demasiado o orgulho nipônico, sobretudo pelos próprios japoneses considerarem os estrangeiros como bárbaros, logo, o choque de ter sido reduzido a uma nação “incivilizada” perante o mundo, afetou demasiadamente a moral japonesa [Henshall, 2008].

 

Determinado a superar essa humilhação, o Japão empreende em um primeiro momento, uma reforma ocidentalizante, comandada pelos líderes da restauração Meiji. Por sua vez, a modernização obteve êxito na industrialização e no desenvolvimento do país, resultando em uma educação universalista, constituição nacional, centralização política, criação de um exército moderno e o crescimento de uma economia pujante. Todavia, o sucesso dessa primeira modernização não obteve êxito em sua totalidade, tendo em vista que não se obteve, a superação e revisão dos tratados desiguais, muito menos, a obtenção do tão almejado respeito perante às potências ocidentais [Gonçalves, 2017]. Como consequência deste fracasso, a partir da década de 1880, os oligarcas implementam uma modernização de caráter conservadora, com ênfase no nacionalismo e valorização das tradições japonesas.

 

Em outras palavras, o Japão necessitava de uma forte estrutura de relações sociais para a legitimação da nova ordem e hierarquia social, que sobremaneira buscava superar os impasses que a modernização ocidentalizante (a primeira modernização) não superou. Assim, nas palavras de Silva, os oligarcas Meiji tinham como objetivo: 

 

“Em conjunto com os aparelhos ideológicos de Estado, tais como o sistema escolar e a religião xintoísta, diferentes forças sociais associadas à hegemonia, mas desvinculadas da organização burocrática estatal, difundiam o kazoku-kokka (Família-Estado) com a finalidade de alcançarem os objetivos do fukoku kyohei (país rico, exército forte). O processo de construção do Japão industrial pós-1868 foi marcado pelo hibridismo, ou seja, por um conjugado de mudanças e de rupturas ocasionadas pela influência dos valores e técnicas ocidentais em detrimento da cultura nativa, concomitantemente aliada ao fortalecimento e à expansão de tradições tipicamente japonesas” [Silva, 2014, p. 86]. 

 

A conquista do almejado respeito e a revisão dos tratados desiguais que feriam sobremaneira o orgulho nacional vieram com a segunda modernização, como veremos adiante. Todavia, ressalta-se como existem diferentes caminhos para a modernidade, como salienta o sociólogo Shmuel Noah Eisenstadt que denomina de “programa cultural da modernidade”, a perspectiva dominante na segunda metade do século XIX, segundo a qual, a ocidentalização seria o único caminho para a modernização, perspectiva que se contrapõe ao conceito de múltiplas modernidades, isto é, a ideia de que a modernidade é alcançável por vários caminhos distintos [EISENSTADT, 2000, p. 1]. Dessa maneira, os japoneses compreenderam que a superação desses tratados e a conquista do respeito almejado não seriam alcançadas pela mera imitação da cultura europeia. Pelo contrário, o caminho exigia a valorização de sua própria identidade, elevando-a a um "exemplo cultural", a exemplo do que outras nações haviam feito no passado.

 

A segunda modernização contou com uma propaganda em larga escala das tradições japonesas, o que é ser japonês propriamente dito, ou seja, a própria ideia de “japonicidade”, essa era a questão que os líderes Meiji buscavam responder. Seguindo essa perspectiva, a formação do Japão moderno como uma comunidade imaginada se fez viável graças ao apelo à tradição, resgatando elementos simbólicos e comuns ao povo [GONÇALVES, 2020]. Nas palavras de Hobsbawm, “tradições inventadas”, conceito que nesse autor é definido da seguinte maneira:

 

“Por “tradição inventada” entende-se um conjunto de práticas normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas. Tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente em uma continuidade em relação ao passado. Aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer continuidade com o passado histórico apropriado” [HOBSBAWM; RANGER, 2002, p. 9-10].

 

No episódio japonês, as tradições inventadas surgiram essencialmente do processo que Harumi Befu denominou de “samuraização” da nação, isto é, o método pelo qual se pretendeu impor os supostos valores do estamento samurai, como lealdade, honra, moral e o sacrifício, nos diversos grupos sociais, soerguido como o novo modelo de ethos objetivado pelos líderes Meiji [Befu, 1985].

 

A Instrumentalização do Ensino

O primeiro modelo educacional do Império japonês, conduzido pelo Ministro da Educação, Tanaka Fujimaro (1845-1909), possuía influências dos sistemas de ensino francês e norte-americano, que nas palavras do educador Kikuchi Dairoku [1909, p. 71 apud GONÇALVES, 2019, p. 150], caracterizava-se como sendo um “sistema (...) essencialmente utilitário, não dando ênfase suficiente à educação moral e cultural”. O novo sistema de ensino foi pensado e construído na medida das novas necessidades do Estado, buscando promover uma modernização ocidentalizante que possibilitaria à industrialização do país, deste modo, afastando o perigo de colonização em solo japonês, e assim, supostamente, resgatando o orgulho ferido, após a vergonha e a desonra impostas aos japoneses pelos tratados desiguais do século XIX.

 

Todavia, como desenvolvido, o projeto inicial de modernização não logrou êxito em sua totalidade. Assim, reconhecendo-se que tal política modernizadora não estava obtendo os efeitos necessários para a superação dos tratados desiguais, deu-se, uma guinada conservadora na política japonesa, agora, caracterizada como uma modernização conservadora, dando ênfase à construção da identidade e a valorização das tradições nacionais. Consequentemente, o ensino segue essa guinada, passando a ter uma nova “roupagem”, neste momento, voltado para inculcar nos súditos do Império, os ideais e virtudes confucionistas, como lealdade e piedade filial, comportamentos úteis ao Estado Meiji [SAKURAI, 2007].

 

Se houve um símbolo que representa essa mudança, este é o Rescrito Imperial para Educação (1890), édito imperial que ressalta os deveres dos indivíduos para com o Estado.  Entre os deveres dos súditos, destacam-se os seguintes: “modéstia e moderação; promova os interesses comuns; respeite sempre a Constituição; quando vier a emergência, ofereça-se corajosamente ao Estado e mantenha a prosperidade do nosso trono imperial” [SAKURAI, 2007, p. 17]. O édito salientava os valores pretendidos e almejados pelos oligarcas, que segundo Durant (1954, p. 918) “fez de cada escola do país um campo de treinamento militar e um berçário do ardor nacionalista” [Durant, 2025, p. 918]. Como dito pelo Ministro da Educação Mori Arinori, a educação no Japão buscava “manufaturar as pessoas requeridas pelo Estado japonês” [SMITH, 1997, p. 75].

 

No que tange o ensino de história, como bem define Marc Ferro (1983), o objetivo do ensino de história no Japão imperial, consistia-se enquanto um agente de construção da identidade nacional, não tendo compromisso de ensinar uma história acadêmica, mas sim, “forjar o patriotismo e identificar a população com a política de seu Imperador”.

 

Ainda sobre o sistema de ensino, lecionava-se sobre os feitos dos grandes homens, seus caráteres e ações, promovendo inculcar sentimentos morais nos garotos. Como destacam Axel Schneider e Stefan Tanaka, “a história era instrumentalizada na busca de definir o Japão e os próprios japoneses” [Schneider; Tanaka, 2011, p. 503].

 

Em conclusão, o sistema educativo empenhava-se na promoção dos seguintes valores morais: a obediência aos mais velhos, afeição, amizade, frugalidade, diligência, modéstia, fidelidade, coragem e patriotismo [GONÇALVES, 2019]. Como sabemos, ao viver a história após os acontecimentos, o intento evocado pelos oligarcas Meiji foi bem sucedido, vislumbrados nos conflitos futuros, especialmente nos conflitos travados no decorrer do século XX. A educação e o ensino de história foram então, instrumentos estatais fundamentais na construção da “japonicidade”, ou melhor dizendo, aquilo que Harumi Befu (1985) denominou de “samuraização” da nação, isto é, a doutrinação da população em um código de conduta específico, que neste momento, em decorrência do contexto japonês, se foi escolhido o suposto código de conduta dos samurais, o bushido, como veremos à seguir.

 

A Construção do Bushido Meiji

Se existe um símbolo que se associa ao imaginário coletivo quando falamos sobre Japão, além das representações comuns contemporâneas, como sushi, gueixa e teatro, destaca-se sem dúvidas, a figura do samurai. Símbolo este que está no cerne da identidade japonesa, sendo uma referência em muitos momentos da história do Japão, um exemplo de conduta e comportamento, propriamente dito [SAKURAI, 2007].

 

Quem são os japoneses? - essa é, então, a nova pergunta que deveria ser respondida pelos oligarcas Meiji [SAKURAI, 2007]. A resposta veio com o uso de elementos reconhecidos pela população de todo o país, ou até mesmo, da invenção desses elementos, com o intuito de assegurar a construção de uma identidade nacional. Como destacado por Sakurai:

 

“Havia, entretanto, um fosso entre o imperador e o povo, pois aquele era intocável e divino. Para dar humanidade ao projeto, nada melhor que recorrer à figura do samurai - não a do samurai concreto, cuja extinção estava sendo orquestrada, mas a de um samurai ideal, construído na medida das novas necessidades” [Sakurai, 2007, p. 411].

 

Essa afirmação se ergueria através da valorização da cultura samurai, estendendo o pretenso espírito moral desse estamento social a toda população. Por que se deu o uso da figura do samurai? - Sobretudo, porque, no imaginário social japonês, era a figura do samurai que havia demonstrado, que o indivíduo, mesmo pertencendo a um grupo coeso, poderia se destacar por suas virtudes, como a coragem e lealdade [SAKURAI, 2007]. Este “destacar”, seria confeccionado na medida das novas necessidades do Estado, podendo ser em um momento, o sacrifício pelo Imperador, vislumbrado nos ataques kamikaze, ou bem como visualizado no final da Guerra do Pacífico (1941-1945), onde o Imperador se dirige aos seus súditos e solicita que estes “suportassem o insuportável” [HENSHALL, 2008].

 

Se anteriormente ao período Meiji, os samurais eram capazes de morrer pelo seu senhor, “dos samurais da modernidade são esperadas ações semelhantes com relação às diretrizes vindas do Estado” [SAKURAI, 2007, p. 411]. Deste momento em diante, os oligarcas Meiji propalam um modelo ideal, um ideal tipo a ser adotado, implementando no imaginário social, que de muitas formas, “qualquer filho do país do sol nascente poderia ser um samurai, quando não o sendo de “nascimento”, o sendo de “espírito” [SAKURAI, 2017, p. 411].

 

O código de conduta que compilou esses pretensos valores materializou-se na criação do termo “bushido, conceito que surgiu por volta de 1880 e cuja autoria é presumivelmente atribuída ao político Yukio Ozaki (1859-1954). Esse pensador estava comprometido em demonstrar como a “civilização japonesa” se igualava às nações ocidentais. Assim, Ozaki forjou o conceito para nomear um ethos nacional que “seria similar ao código da ‘cavalaria’ (chivalry) e do ‘cavalheirismo’ (gentlemanship) da Inglaterra” (BENESCH, 2014). O bushido, ou melhor, o bushido Meiji consistiu justamente na apropriação desse passado histórico idealizado, visando inculcar normas e valores sociais baseados em um conjunto de práticas.

 

No ano de 1899, Nitobe Inazo (1862-1933) publicou o livro “Bushido: The Soul of Japan” no Ocidente, propagandeando o arquétipo heroico almejado pelas lideranças Meiji, e que por sua vez, seria vislumbrado nos conflitos do Japão Imperial, assim como visto na primeira guerra Sino-Japonesa (1894-1895). Por fim, Inazo indica este como um “ethos nacional e atemporal” do Japão, intrinsecamente arraigado ao passado japonês [Nitobe, 2005]. Deste modo, justamente para melhor “transmitir para a população geral o senso de ética que julgavam adequado", os oligarcas publicaram em 1882, o “Rescrito Imperial para os Soldados e Marinheiros” contendo palavras atribuídas ao Imperador Meiji.

 

Consequentemente, o bushido Meiji foi amplamente difundido e promovido no Japão. Poucos anos depois, no decorrer da Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), visualizaram-se os primeiros efeitos dessa doutrinação, como no episódio envolvendo o General Nogi Maresuke. Durante a Batalha de Port Arthur, o comandante afirmou estar em estado de shinigurui (desespero para morrer) e, após receber a notícia da morte de seu filho, ordenou ataques mal sucedidos contra diversas fortificações russas, o que resultou na morte de milhares de soldados (GONÇALVES, 2010). Esse acontecimento fixou no imaginário coletivo o suposto espírito contido nos combatentes japoneses que, mesmo não sendo samurais de nascimento, o seriam por convicção. Nas palavras do Conde Okuma Shigenobu:

 

“A performance do verdadeiro espírito dos samurais japoneses (soldados que lutaram na Guerra Russo-Japonesa) é radicalmente diferente dos homens que aparecem para lutar na linha de frente apenas com a expectativa de condecorações e dinheiro diante de seus olhos” [Shigenobu, 1907, p. xi apud GONÇALVES, 2019, p. 230].

 

O depoimento do Conde Shigenobu ressalta o sucesso do Estado Meiji em inculcar os pretensos valores dos samurais aos soldados imperiais, enfatizando e elevando à suposta superioridade do ethos japonês e sua cultura frente às outras civilizações.

 

Sumariamente, o bushido permaneceu posteriormente como um importante traço cultural do Japão, mesmo após os conflitos do século XX, pois, mesmo após o final da guerra, o Japão nunca se “dessamuraizou”. visto que de forma ampla, o Kokutai no Hongi e o bushido seguem cultivados no imaginário social.

 

Conclusão

Podemos concluir, portanto, que a modernização nipônica não limitou-se a uma mera emulação das estruturas técnico-industriais do Ocidente. Pois, diante aos impasses geopolíticos enfrentados pela nação, operou-se uma guinada conservadora na modernização, até então de caráter ocidentalizante. Como demonstrado, esse movimento encontrou na instrumentalização da educação e na reinvenção do bushido os seus pilares fundamentais de sustentação ideológica.

 

Esse processo de "samuraização" social, teorizado por Harumi Befu, foi operacionalizado com maestria pelo sistema educacional e por documentos norteadores como o Rescrito Imperial para Educação (1890). A escola tornou-se o espaço por excelência para a "manufatura" de súditos leais, disciplinados e patriotas.

 

O sucesso dessa engenharia social manifestou-se de forma contundente nos campos de batalha da virada do século XX. O sacrifício dos soldados na Guerra Russo-Japonesa, personificado pelo extremismo do General Nogi em Port Arthur, evidenciou que a doutrinação estatal havia atingido seu objetivo suprassumo, isto é, transmutar todos os súditos em "samurais de espírito”.

 

Referências

Edvan Pereira Costa Rufino é mestrando em História Social das Relações Políticas pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). 

E-Mail: edvancostapereira1990@gmail.com

 

BENESCH, Oleg. Inventing the Way of Samurai: Nationalism, Internationalism and Bushido in Modern Japan. Oxford: Oxford University Press, 2014.

DURANT, W. Nossa herança oriental. 1º edição. São Paulo: Kírion. 2025

EISENSTADT, S. N. Multiple Modernities. Daedalus, Cambridge, VOL 129, N.1, p. 1-29, 2000.

FERRO, M. A Manipulação da História no Ensino e nos Meios de Comunicação. Tradução: Wladimir Araújo São Paulo: Ibrasa, 1983.

GONÇALVES, E. G. A influência do ethos do sul do japão na formação do bushido. In: BUENO, André; ESTACHESKI, Dulceli; CREMA, E.; NETO, J. M. S. [orgs.]. Extremo Oriente Conectado. Rio de Janeiro: Edições Especiais Sobre Ontens, p. 223 – 233, 2019.

GONÇALVES, E. G. O Objetivo do Ensino de História na educação do Japão Meiji (1868- 1912). In: BUENO, A.; CREMA, E.; ESTACHESKI, D.; NETO, J. M. S. Aprendendo História: Etnicidades. União da Vitória: Edições Especiais Sobre Ontens, p. 149-156, 2019.

HENSHALL, K. História do Japão. Lisboa: Edições 70, 2008.

HOBSBAWM, E. J; RANGER, T. A Invenção das Tradições. Tradução: Celina Cavalcante. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

NITOBE, I. Bushido: alma de samurai. São Paulo: Tahyu, 2005.

RESCRITO IMPERIAL PARA EDUCAÇÃO. In: HENSHALL, Kenneth. História do Japão. Lisboa: Edições 70, 2008. p. 120-121.

SAKURAI, C. Os japoneses. São Paulo: Contexto, 2007.

SCHNEIDER, Axel; TANAKA, Stefan. The Transformation of History in China and Japan. in: MACYNTIRE, Stuart; MAIGUASHCA, Juan; PÓK, Attila. The Oxford History of Historical Writing: Volume 4 1800-1945, p. 491-519. Nova York: Oxford University Press, 2011.

SILVA, A. S. "AS MATRIZES DO KAZOKU-KOKKA. In: NADER, Maria Beatriz; RANGEL, Lívia de Azevedo Silveira [orgs.]. Mulher e gênero em debate: representações, poder e ideologia. Vitória: EDUFES, p. 86-100, 2014.

SMITH, P. Japan: A Reinterpretation. Nova York: Pantheon Books, 1997.

17 comentários:

  1. Bom dia, Edvan espero que esteja bem. Primeiramente congratulo pelo seu texto e por desenvolver o tema sobre a modernização japonesa e seus entraves com as suas tradições e políticas se põem como posicionamento de lidar com a crescente presença dos poderes ocidentais na Ásia. O que gostaria de te perguntar é se caso você encontrou, ou passou, durante a sua trajetória de pesquisa, os trabalhos do norte-americano David Murray, membro de uma instituição orientalista inglesa, Asiatic Society of Japan, e também conselheiro do ministro de educação Fujimaro Tanaka? Se sim, gostaria de saber alguns detalhes, documentações, fontes, que você tem encontrado, pois também estou estudando sobre o fenômeno da modernização japonesa, mas no espectro de compreender o papel das instituições orientalistas no Japão no final do século XIX. Novamente agradeço por compartilhar seu estudo. Levi Yoriyaz.

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    1. Olá, Levi. Tudo certo por aqui e espero que essa mensagem o encontre bem. Agradeço pelo comentário e espero que o texto auxilie seus estudos.
      Infelizmente, eu nunca me deparei com uma fonte primária, se podemos chamar assim, sobre os trabalhos desenvolvidos pelo ex-premiê Tanaka e Murray, apesar de conhecer ambos. Eu estudo, particularmente, a modernização conservadora, bem como a guinada conservadora no campo educacional. Todavia, este nem é meu campo principal de estudo, na verdade, eu estudo como os mangás, dentro de uma perspectiva de indústria cultural, acarretam a criação daquilo que Nissim Otmazgin denomina de "memória banal" e que, consequentemente, adequa-se à perspectiva historiográfica defendida por Akiko Hashimoto em The Long Defeat. Seu tema é extremamente interessante e vasto, principalmente ao trabalhar com a Asiatic Society of Japan, um esforço hercúleo. Três fontes que recomendo, porém não necessariamente são fontes “primárias” sobre Murray e Tanaka, são os livros e o artigo: The History of Modern Japanese Education e Dr. David Murray: Superintendent of Education in the Empire of Japan, de Benjamin Duke; e, por fim, Contributions of David Murray to the Modernization of School Administration in Japan, de Kaneko Tadashi.
      Acredito que você deve conhecer estes textos, porém são os únicos que conheço sobre tal temática, peço desculpas por isso. Ademais, como você irá trabalhar os conceitos de japonismo, japonologia, orientalismo e até mesmo modernidade, eu indico os trabalhos de Takeuchi Yoshimi sobre modernidade e a tese do historiador Edelson Geraldo Gonçalves sobre as modernizações japonesas na perspectiva de Lafcadio Hearn, um texto excelente que com certeza irá te ajudar e muito.
      Além disso, como você irá analisar o papel dessas instituições na modernização japonesa, eu recomendo investigar o intercâmbio dessas instituições com o governo Meiji e seus homens ilustres, como Fukuzawa Yukichi e Mori Arinori, por exemplo. Por fim, dois conceitos importantes que acredito que possam te auxiliar são o grande e famoso conceito de "cultura da vergonha", de Ruth Benedict, e o de gaiatsu, conceitos que vejo como essenciais para compreender essas duas modernizações que tivemos durante o período Meiji.
      Lhe desejo uma excelente semana e fico no aguardo de sua tese. Abraço e um ótimo evento.
      Cordialmente,
      Edvan.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Olá!

    Texto deveras interessante.

    Até que ponto o bushidô pode ser entendido como uma ferramenta política utilizada pelo Estado para promover coesão social e mobilização nacional?

    Obrigado

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    1. Olá, Willian. Espero que esta mensagem o encontre bem. Agradeço pelo comentário e espero que o texto auxilie seus estudos.
      É uma excelente questão, sobretudo pela necessidade de distinguir o chamado bushido Meiji do conceito de bushido anterior a esse período. O bushido Meiji ganha projeção na década de 1880, impulsionado principalmente pela publicação de “Bushido: The Soul of Japan”, de Nitobe Inazo. Nessa obra, Inazo enfatiza que o código de conduta dos samurais era fundamentado em sete virtudes: justiça, coragem, honra, cortesia, sinceridade, benevolência e lealdade. A grande estratégia do aparelhamento ideológico do Estado Meiji e, posteriormente, do Estado Imperial consistiu em redirecionar essa lealdade, antes devotada aos senhores locais (amos), diretamente para a figura do imperador. Já no período anterior ao Meiji, a principal referência associada ao tema é o Hagakure, de Yamamoto Tsunetomo. Contudo, longe de ser um compêndio da ética de toda a classe samurai, a obra limitou-se a um escrito provincial, pouco difundido além dos domínios de Nabeshima.
      O reflexo mais evidente dessa mobilização social manifestou-se, sem dúvidas, nas ações dos kamikazes durante a Segunda Guerra Mundial. É perceptível que houve uma instrumentalização tanto desse conceito quanto do Shinto Meiji para fins de manipulação social, mas a análise exige cautela. Como bem salienta Emiko Ohnuki-Tierney em “Kamikaze, Cherry Blossoms, and Nationalisms: The Militarization of Aesthetics in Japanese History”, as pressões internas e externas de uma sociedade estruturada pela “cultura da vergonha” exerceram um papel decisivo. O sacrifício dos pilotos não se dava apenas em nome do imperador e do Japão; baseava-se também no profundo receio de desonrar suas famílias caso demonstrassem medo, covardia ou falta de giri (dever) e makoto (sinceridade) perante elas.

      Cordialmente, Edvan.

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  4. Felipe Lomba Ferreira8 de julho de 2026 às 20:00

    Olá, tudo bem? Primeiramente gostaria de parabenizar pelo texto, acredito que o texto se encaixa muito no tema do evento entendo essa construção do bushido como em resposta ao Ocidente. Você comentou sobre o arquitetado fim dos samurais, poderia discorrer mais sobre o tema?

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    1. Olá, Felipe. Espero que esta mensagem o encontre bem. Agradeço pelo comentário e espero que o texto auxilie seus estudos.
      Sem dúvidas, concordo com você. Em minha interpretação, o bushido e a forte valorização da cultura e das tradições nipônicas, ou até mesmo a "invenção" dessas tradições surgiram como uma resposta ao projeto civilizatório ocidental. Mais precisamente, funcionaram como uma reação ao fracasso parcial da modernização ocidentalizante, que inicialmente não obteve êxito na revisão dos chamados "tratados desiguais". Podemos compreender esse fenômeno sob a ótica de Shmuel Noah Eisenstadt em “Multiple Modernities”, isto é, a ideia de que a modernidade pode ser alcançada por diferentes caminhos, não se limitando a uma mera emulação do modelo europeu ou estadunidense. Em bom português, Felipe, o Japão buscava fazer-se respeitado não pela imitação e assimilação da cultura ocidental, mas sim forçando as potências estrangeiras a reconhecerem a cultura japonesa como equivalente, um movimento de afirmação identitária semelhante ao que fizeram a Alemanha, os Estados Unidos e, contemporaneamente, a China.
      Toyotomi Hideyoshi e o Shogunato Tokugawa desenvolveram diversas medidas para garantir a centralização do poder no Japão. Entre elas, a katana-gari (caça às espadas) resultou na extinção da figura do soldado-camponês, uma vez que a ação governamental recolheu as armas da plebe, ou seja, de qualquer indivíduo que não pertencesse à elite militar, garantindo o monopólio do uso da força ao estamento samurai. Com esse monopólio legal e prático, tornam-se evidentes os privilégios e os abusos que essa classe exercia sobre a plebe.
      Com a Restauração Meiji, embora esse mesmo estamento samurai tenha participado ativamente da queda do Shogunato, muitos samurais e daimyos não conseguiram se adaptar ao novo cenário político e social devido a diversos fatores, como o orgulho ou a falta de aptidão. Esse contingente empobrecido acabou se tornando protagonista de várias revoltas que explodiram no interior do Império. O comportamento belicoso e explosivo deste estamento já havia ficado evidente no antigo Período Sengoku. Deste modo, visando canalizar essa agressividade e evitar o retorno a uma era de guerras civis, Saigo Takamori desenvolveu um plano que previa a invasão da Coreia. O objetivo central dessa estratégia era incorporar os ex-samurais às forças armadas e enviar ao exterior esse numeroso grupo, que se encontrava desocupado e sem colocação na nova sociedade. Por fim, com o encorajamento à adoção dos costumes ocidentais durante a modernização inicial, o Japão promoveu a progressiva abolição dos chamados “maus e velhos hábitos”.
      A figura do samurai como ideal-tipo de conduta e comportamento somente foi resgatada a partir da década de 1880, quando a primeira onda de modernização já perdia fôlego. Desse modo, o bushido Meiji, aliado à educação e ao Shintoísmo de Estado, tornou-se um importante elemento doutrinário. Esse processo ganhou força, sobretudo, com a publicação do Rescrito Imperial sobre a Educação e com a compilação do suposto código (bushido) no famoso livro “Bushido: The Soul of Japan”, de Nitobe Inazo, que buscava estender o ideal de “lealdade” dos antigos samurais a todo o povo japonês.

      Cordialmente, Edvan.

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  5. Boa noite, Edvan. Antes da pergunta, gostaria de parabenizá-lo pelo texto. Foi uma leitura muito rica para mim. Você apontou que o bushido permaneceu como um traço social importante no Japão no século XX e conforme você discorre no texto, essa é uma construção profunda. Você considera que essa importância se mantém ainda hoje, pensando em um mundo cada vez mais globalizado?

    Cordialmente,
    Sirlene Pereira da Silva.

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    1. Olá, Sirlene. Espero que esta mensagem a encontre bem. Agradeço pelo comentário, fico feliz que tenha gostado da leitura e espero que o texto auxilie seus estudos.
      É uma excelente colocação. A meu ver, embora o debate acerca da globalização seja ambíguo, as suas principais discussões e implicações referem-se, sobretudo, à questão cultural. O mundo, historicamente plural, heterogêneo e multifacetado, repleto de culturas, hábitos, gastronomias, línguas, etnias, crenças e expressões variadas vem se tornando cada vez mais homogêneo. Esse processo resulta na perda de singularidades locais, um fenômeno explicitado pela ideia de uma suposta cultura mundial. Assim, o grande risco da globalização cultural é a homogeneização e a perda dos referenciais locais como base para responder aos problemas de cada sociedade, o que se reflete diretamente em suas manifestações contra tal processo de assimilação e homogeneidade.
      No caso do Japão, é perceptível o menor apelo que certas empresas e produtos culturais ocidentais possuem no mercado interno, grandes marcas como o Xbox ou as produções da Marvel não detêm o mesmo impacto que encontram no Ocidente. Isso se deve, evidentemente, às profundas particularidades culturais dessa civilização, já enfatizadas historicamente nos escritos de Lafcadio Hearn sobre as impressões de seus discentes de Kumamoto a respeito dos mitos e tragédias ocidentais, como o estranhamento gerado pelo conto do Rei Admeto, por exemplo.
      Temos diversos exemplos da sobrevivência desse bushido reinventado no pós-guerra, cujas heranças inclusive geram conflitos com países vizinhos que compartilham a memória e o trauma do imperialismo nipônico. Um reflexo evidente desse reaproveitamento cultural do suposto ethos atemporal japonês manifesta-se na própria ética de trabalho contemporânea, representada pela figura do salaryman (homem assalariado). Espera-se desse trabalhador um nível de comprometimento e dedicação extrema para com a corporação que, não raramente, culmina no karoshi (a morte por excesso de trabalho). Logo, os pretensos valores de honra e lealdade presentes no bushido foram redirecionados, não mais ao senhor local (daimyo/xogum) ou ao Imperador, mas sim à empresa. Essa lógica, como salientado pelo ex-premiê Taro Aso, foi o motor que permitiu ao Japão reerguer-se das ruínas da guerra e se tornar uma superpotência econômica. Sob essa ótica, muitos pesquisadores argumentam que o Japão nunca se “dessamuraizou” completamente, mantendo valores cultivados no cerne da sociedade, o que se evidencia em gestos políticos como a visita de primeiros-ministros ao Santuário de Yasukuni, resgatando elementos do Shintoísmo de Estado, a piedade filial (de matriz confucionista) e o culto aos ancestrais.
      Essa continuidade histórica também se reflete na esfera política, dado que muitos líderes japoneses não foram julgados por seus atos no conflito global. Um exemplo notório é Nobusuke Kishi, avô do ex-premiê Shinzo Abe, que chegou a ser detido como suspeito de crimes de guerra de Classe A, mas foi libertado e, pouco tempo depois, já liderava o governo civil. Em “The Long Defeat”, Akiko Hashimoto analisa os impactos dessa problemática na historiografia e na memória nacional, propondo três grandes núcleos narrativos de interpretação da Segunda Guerra Mundial no Japão: o primeiro retrata o país estritamente como vítima; o segundo interpreta os mortos no conflito como heróis cujo sacrifício serviu de base para o progresso do pós-guerra (muito difundido na sociedade japonesa, por conta da ideia de culto aos antepassados); e o terceiro fundamenta-se no reconhecimento dos crimes perpetrados pelo imperialismo nipônico. Dentre essas três linhas, a de reconhecimento das atrocidades é a que possui menor representatividade. Assim, percebe-se como tais elementos ideológicos permanecem vivos no imaginário e continuam reverberando ativamente na construção da história japonesa.
      Cordialmente, Edvan.

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    2. Obrigada pela resposta, Edvan.

      Cordialmente,
      Sirlene Pereira da Silva.

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  6. Ótimo artigo! Muito bem escrito e apresentado. Sobre a reforma ocidentalizante que o Japão passou durante a era Meiji. Tendo em vista a proposta de construção do Japão industrial pós 1868, o projeto modernizador implementado no Japão durante o período Meiji constituiu além da valorização das tradições japonesas uma tentativa de aproximação com Europa?
    Além disso, é possível pensar na Piedade Filial atrelada ao Confucionismo como instrumento de dominação do Estado Meiji a fim de manter o monopólio em relação aos dos súditos do Império?

    Por Lunna Sant’Anna Souza

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    1. Olá, Lunna. Espero que esta mensagem a encontre bem. Agradeço pelo comentário! Fico feliz que tenha gostado da leitura e espero que o texto auxilie nos seus estudos.
      Sim, de fato houve essa aproximação com a Europa. O Japão empreendeu, em ampla escala, a contratação de profissionais europeus nas mais diversas áreas, como professores e militares. Esse movimento ocidentalizante ficou conhecido como Bunmei Kaika (Civilização e Iluminismo) e contou com o apoio de vários intelectuais ilustres do período Meiji, como Fukuzawa Yukichi. Grosso modo, tornou-se necessário romper com os ideais confucionistas difundidos pelo Shogunato Tokugawa e com o "pensamento Sakoku" para, assim, assimilar a economia, a política, o sistema jurídico e as instituições ocidentais modernas. O objetivo era claro: criar um país moderno capaz de se manter independente, evitando o processo de colonização sofrido pela China, por exemplo.
      De certa maneira, podemos enfatizar que houve a emulação, em outros momentos, a imitação, e por fim, a assimilação da cultura e das instituições europeias, e assim, torna-se possível obter a tão almejada revisão dos tratados desiguais.
      A Missão Iwakura é, sem dúvidas, o maior exemplo dessa aproximação com o Ocidente, além das reformas nos sistemas político e educacional. Liderada pelo embaixador Iwakura Tomomi (1825-1883), essa comitiva de políticos e acadêmicos realizou uma viagem de vários meses com o intuito de tentar a revisão dos tratados e estudar as instituições americanas e europeias, buscando modelos de inspiração para a modernização japonesa. Um dos reflexos disso ocorreu no campo político, onde se debatia qual sistema adotar: o britânico ou o alemão. Acima de tudo, considerava-se necessária a abolição dos "velhos e maus hábitos" em prol dos costumes ocidentais. Entretanto, com o desgaste dessa primeira fase de modernização e a incapacidade de rever os tratados desiguais, houve uma guinada conservadora, como salientado no texto.
      Em relação à piedade filial, esse conceito foi posteriormente incorporado ao Shintoísmo de Estado, juntamente com o bushido. Tal comportamento foi amplamente observado por Lafcádio Hearn, a ponto do autor denominar a austeridade, a devoção ao Shinto, ao Imperador e a piedade filial dos estudantes de Kumamoto de "Espírito de Kyushu". Por fim, a piedade filial seria fortemente enfatizada em documentos oficiais posteriores, como o Rescrito Imperial sobre a Educação e o Rescrito Imperial para Soldados e Marinheiros.
      Cordialmente, Edvan.

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  7. Boa noite, Edvan. Parabéns pelo texto. Tenho duas perguntas. Primeiramente, o conceito de "samuraização", proposto por Harumi Befu, descreve um processo conduzido pelo Estado. No entanto, esse processo foi plenamente aceito pela população ou encontrou formas de resistência dentro da sociedade japonesa? Além disso, até que ponto a reconstrução do bushido durante o período Meiji continua influenciando a identidade japonesa contemporânea, especialmente entre as gerações mais jovens?
    Att
    Nicolas Renan Tomaz Lopes

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    1. Olá, Nicolas. Espero que esta mensagem o encontre bem. Agradeço pelo comentário, fico feliz que tenha gostado da leitura e espero que o texto auxilie seus estudos.
      Essa é uma excelente pergunta e, na verdade, bastante complexa de responder, particularmente, eu acredito que mereça até mesmo um artigo próprio.
      Na minha interpretação, podemos compreender esse processo de “samuraização” a partir de quatro elementos fundamentais: a educação Meiji, o bushido Meiji, o Shintoísmo de Estado e a conscrição militar. Em minha análise, essa empreitada foi amplamente bem-sucedida, todavia, evidentemente, enfrentou ambiguidades, manifestadas tanto por meio da aceitação quanto da resistência.
      Por parte dos camponeses, enviar os filhos e filhas para a escola significava uma perda de mão de obra que muitos viam como inútil ou sem sentido. Essa resistência inicial, por consequência, dificultava a inculcação desse novo ethos nos jovens da plebe.
      No mesmo âmbito, em relação à conscrição militar obrigatória, tivemos as famosas Ketsuzei Ikki (Revoltas do Imposto de Sangue). Esse episódio consistiu em uma série de revoltas violentas que eclodiram por todo o Japão em 1873, em oposição à instituição do serviço militar obrigatório para todos os cidadãos do sexo masculino, descrito, à época, como um "imposto de sangue", de forma similar ao que ocorreu na França revolucionária.
      Por fim, até mesmo os próprios samurais se revoltaram contra esse processo de “samuraização”. Isso ocorreu porque, ao estender à plebe o suposto ethos moral que antes lhes garantia distinção social, o samurai tornava-se apenas mais um. Eles perdiam tanto o monopólio do uso da força e das armas quanto a sua suposta superioridade moral e ética.
      Entretanto, é fundamental frisar que o processo de samuraização cumpriu o seu intento. O Rescrito Imperial para a Educação e o Rescrito Imperial para Soldados e Marinheiros traziam supostas palavras do próprio Imperador direcionadas aos seus súditos, enfatizando o comportamento esperado deles em relação ao Trono do Crisântemo. Desse modo, os preceitos confucianos foram atrelados ao culto imperial, que ganhou imensa força após a publicação dos decretos. Foi nesse período, por exemplo, que retratos do Imperador passaram a ser instalados nas escolas, tornando a reverência a eles uma obrigação cívica. Em suma, tais Rescritos conferiram legitimidade a esse complexo processo de engenharia social em curso, muito embora o principal idealizador do rescrito educacional tenha sido Motoda Nagazane, e não o Imperador Meiji, como supostamente teria legado aos seus súditos tais palavras.

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    2. Em relação à sua segunda pergunta, acredito que o Japão nunca tenha se “dessamuraizado”, e valores como o Kokutai seguem cultivados. Tais valores não são mais direcionados, prioritariamente, ao culto imperial ou à adoração da figura do Imperador, em vez disso, espera-se dos japoneses modernos uma dedicação extrema ao trabalho, que culmina, por vezes, até mesmo em mortes por excesso de trabalho (karoshi).
      Pois, essa continuidade histórica também se reflete na esfera política, dado que muitos líderes japoneses não foram julgados por seus atos na Segunda Guerra Mundial. Um exemplo notório é Nobusuke Kishi, avô do ex-premiê Shinzo Abe, que chegou a ser detido como suspeito de crimes de guerra de Classe A, mas foi libertado e, pouco tempo depois, assumiu a liderança do governo civil, ajudando na consolidação do PLD. Além disso, as recorrentes visitas de vários ex-premiês japoneses ao Santuário Yasukuni, resgatando elementos do Shintoísmo de Estado, da piedade filial (de matriz confucionista) e do culto aos ancestrais, demonstram o forte apelo à tradição e a esse culto aos mortos, aspectos já enfatizados por Lafcádio Hearn no século XIX. Em sua obra The Long Defeat, Akiko Hashimoto analisa os impactos dessa problemática na historiografia e na memória nacional, propondo três grandes núcleos narrativos de interpretação da Segunda Guerra Mundial no Japão: o primeiro retrata o país estritamente como vítima; o segundo interpreta os mortos no conflito como heróis cujo sacrifício serviu de base para o progresso do pós-guerra (narrativa muito difundida na sociedade devido à tradição do culto aos antepassados); e o terceiro fundamenta-se no reconhecimento dos crimes perpetrados pelo imperialismo nipônico. Dentre essas três linhas, a de reconhecimento das atrocidades é a que possui menor representatividade. Algo que não é difícil de imaginarmos, tendo em vista o longo processo de censura enfrentado pelo historiador Ienaga Saburō em suas batalhas judiciais contra o Ministério da Educação. Assim, percebe-se como tais elementos ideológicos permanecem vivos no imaginário e continuam reverberando ativamente na construção da história e da identidade japonesa. Por fim, Nicolas, a atuação de grupos como o Nippon Kaigi e o Sanseitō apenas nos auxilia a perceber como esses elementos ainda são indissociáveis do Japão moderno.
      Cordialmente, Edvan.

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    3. Obrigado pela resposta!
      Atenciosamente,
      Nicolas Renan Tomaz Lopes.

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