Nota Introdutória
O texto a seguir foi pensado para o Simpósio de 2025, que quedou cancelado. Neste ano, a dinâmica de envio de textos seria diferente. Sendo o tema central do evento 'Antigos e Modernos', os proponentes deveriam então escolher o tema que para debate e enviar o texto por um formulário. O texto deveria conter: 1.Tema escolhido; 2.O que havia de mais moderno no passado?; 3.O que há de mais antigo no moderno?; 4.Qual o futuro deste tema? A proposta desse ano era de não ser uma leitura exaustiva, mas sim, rápida, opinativa e aberta à discussão. Reproduzo este texto para a areciação.
O tema
A historiografia chinesa constitui uma tradição excepcionalmente longa e contínua, sendo frequentemente considerada uma das mais desenvolvidas e influentes do mundo [Vandermeersch 1987]. Sua evolução abarca milênios, desde os primeiros textos históricos, passando pelas histórias dinásticas, as produções individuais e as críticas acadêmicas modernas, moldando profundamente a identidade chinesa. O ato de registrar a história parece existir desde o terceiro milênio AEC. Se pudermos acreditar em Liuxie [465-522 EC], ‘O “Quli” diz; "os historiadores preparam seus pincéis para tomar notas", o que significa que História significa "anotar" - ou seja, historiadores são aqueles que, a direita ou a esquerda do soberano anotam e recolhem seus registros. No Passado, os da esquerda recolhiam os fatos, os da direita as palavras. O clássico das Palavras é o Tratado dos Livros [Shujing], e o dos fatos é o livro Anais das Primaveras e Outonos [Chunqiu]’ [Liu 2025]– o que significa que desde a origem dos primeiros livros históricos chineses, já havia funcionários de corte voltados para o ate de registrar discursos e datas de eventos importantes. Nesse sentido, a história [Shi] pode ser considerada, de fato, um dos tripés do pensamento sínico, junto com os costumes [Li] e a Escrita [Shu], constituindo parte de uma estrutura cultural original. É difícil rastrear o início da produção histórica chinesa – e provavelmente, ela acompanha o próprio surgimento da escrita chinesa. O ato de narrar e preservar o passado parece ter surgido a parti de dois elementos fundamentais; a preservação de uma genealogia cultural, gravada nos costumes e práticas sociais, e numa pedagogia moralizante, inspirada em biografias exemplares que ajudariam a construir um sentido de comunidade e de autorreflexão sobre o papel social dos indivíduos. Mas a meu ver, estudar a historiografia chinesa guarda uma importância específica para nós: em primeiro lugar, porque se trata de saber mais sobre a história de uma das maiores e mais antigas civilizações humanas, e sem a história da China, a compreensão do mundo será sempre incompleta e falha; em segundo lugar, compreender essa tradição historiográfica amplia nossos horizontes sobre a própria ‘história de se fazer história’, ou seja, de que o pensamento historiográfico não é único nem apenas ocidental; por fim, ao estudar essas tradições, enriquecemos nosso conhecimento sobre a própria historiografia em si, estendendo nosso cabedal de perspectivas e possibilidades e redimensionando o papel historiográfico na construção do conhecimento humano – do qual a China é um exemplo fantástico de civilização articulada pela história.
O que havia de mais avançado no passado?
Penso que o que havia de mais avançado na historiografia tradicional chinesa desde o passado se deu por meio de uma construção continua de conceitos, ideias e funções da própria escrita da história. Comecemos por Confúcio, que no século 6 AEC já havia compreendido o papel da história como o elemento central na formação cultural chinesa. Foi este autor marcante que concebeu o cerne da identidade sínica por meio da história [Shi], ritualidade [Li] e a linguagem escrita [Shu]. Confúcio já fora capaz de identificar na história um elemento pedagógico moralizante e educacional, entendendo a narrativa histórica como a constituidora de modelos e de figuras exemplares que serviriam para a construção de valores sociais e culturais. Em seu entendimento, somente aqueles que podiam compreender o passado podiam, igualmente, entender o novo [Lunyu, 2:11]. Confúcio também estava preocupado com organização cronológica da história, o que fica expresso nos ‘Anais das Primaveras e Outonos’ [Chunqiu], numa tentativa de alinhavar os acontecimentos dentro de uma ordem temporalmente coerente; e ainda, buscando criar uma gramatologia conceitual para a escrita da história, o que revela sua preocupação com os termos, conceitos e ideias que norteavam a produção das narrativas [Bueno 2015a].
Outro elemento crucial é que apesar da valoração que era dada as fontes documentais, a pesquisa histórica e ao papel das evidências na construção da narrativa, Confúcio estava ciente de que era impossível uma reconstrução total da realidade passada – e consequentemente, a ideia de verdade histórica era uma construção produzida pelos autores. Como ele mesmo afirmava, ‘Posso falar sobre o ritual Xia? Seu herdeiro, o país de Qi, não preservou suficientes evidências. Posso falar sobre o ritual Yin? Seu herdeiro, o país de Song, não preservou suficientes evidências. Não existem registros suficientes e tampouco homens sábios suficientes; caso contrário, eu poderia obter evidências a partir deles [Lunyu, 3:9]. Por causa disso, as versões históricas muitas vezes foram apropriadas pela elite e pelos governantes, numa tentativa de reconstruir o passado dentro de um conjunto de interesses particulares. Assim, para Confúcio, a definição de uma ‘verdade histórica’, deveria ser amparada pelo maior número possível de evidências textuais e documentais que justificassem a proposição do autor – do contrário, quanto maior a vagueza, maior a interpretação errônea e a manipulação.
No período Han, a mesma ideia seria reproduzida e desenvolvida por Sima Qian [séc. 2 aec]; ele reorganizou os materiais e os conteúdos da história em macrotemas principais, que seriam cronologia, biografia e tratados sobre conhecimentos [Bueno 2024]. A importância da escrita de Sima Qian foi de reestruturar a compreensão da cronologia histórica chinesa desde os suas origens e propor um critério de verificação para as fontes dos eventos. Em sua época, ele pode comparar vários documentos diferentes a fim analisar, resumir e determinar aquilo que, em sua visão, seria a versão mais adequada nos acontecimentos. O trabalho de Sima seria julgado tão importante que foi apropriado pela dinastia Han, criando a agência oficial de escrita histórica - procedimento que se repetiria depois ao longo de todas as outras dinastias chinesas até o final do império em 1911.
Isso não impediu, contudo, que houvesse a produção de uma história alternativa às histórias oficiais. Esse empreendimento particular testemunhou a criação de uma crítica histórica na historiografia chinesa, que surgiu precocemente e que continua também a existir até os dias de hoje, servindo de contraponto as histórias oficiais [Richter 1987]. Apesar das pressões políticas, o dilema dos intelectuais entre servir ao Estado, mas ao mesmo tempo admoestar os governantes sobre o seu papel moral político, se tornou uma constante na escrita histórica chinesa, que lhe imprime um caráter de modernidade e de crítica [Beja 1997].
Cumpre ainda lembrar de Liu Zhiji, da dinastia Tang. Seu livro, ‘Passagens sobre a História’ [Shitong], é provavelmente o primeiro texto a discutir puramente a historiografia e o método de escrita histórica, avaliando formas, estilos, o uso dos conceitos e da metodologia de pesquisa. Liu estava plenamente consciente dos problemas, inflexões temporais e documentais que envolviam a produção de uma narrativa e análise de passagens históricas, e seu livro é uma sistemática desconstrução crítica do cânone, investindo diretamente no paradigma de uma pesquisa metódica, científica e autoral. Ele examinou criticamente obras históricas existentes, discutindo questões como a verdade histórica, a objetividade (ou a falta dela), a seleção de fontes, as técnicas narrativas e as responsabilidades morais do historiador. Liu rejeitava a ideia de fatalismo e destinação e, em vez disso, enfatizava a ação e o caráter humano na formação dos eventos, argumentando que o sucesso ou o fracasso das dinastias era determinado por suas próprias qualidades, não por decreto divino. Como ele mesmo afirmou em seu livro: ‘Zheng Weizhong, ministro dos ritos, perguntou para mim uma vez: 'porque desde os tempos antigos até hoje temos tantos especialistas em literatura e tão poucos em história?' Eu o respondi: 'o especialista em história deve reunir três pontos fortes, que raramente aparecem em alguém no mundo de hoje, que o tornam qualificado para ser um especialista nesta matéria. Os três pontos fortes são capacidade, saber e discernimento. Os que são de grande erudição, mas não tem capacidade, se assemelham aqueles idiotas que tem uma terra fértil gigantesca e ouro em demasia, mas não sabem administrar seus negócios e não podem, no fim, obter qualquer ganho com eles. Os que têm capacidade, mas carecem de erudição, se parecem com um carpinteiro que é capaz de manejar o machado como o grande carpinteiro de Lu, Gongshu Ban, mas não tem nem madeira nem machados, razão pela qual ele não está em condições de construir casas. Saber estas duas coisas, por fim, é ter o discernimento' [Liu 2025]. Em resumo: desde um milênio atrás, os chineses já produziam história com uma série de avanços que só alcançaríamos, no Ocidente, entre os séculos 19 e 20.
O que há de mais antigo na modernidade?
Entre os aspectos que denotam uma herança antiga na modernidade, acredito que devemos refletir sobre a persistente influência da narrativa de ciclo dinástico e da busca pela legitimação do Estado. A "mentalidade de história oficial" continuou a moldar a compilação de narrativas históricas, visando, em grande parte, a consolidação dos governantes. Desde a época de Liu Zhiji, o problema já existia e era notado: ‘Nos tempos antigos os historiadores tornaram públicas as suas palavras sem receio de desagradar os poderosos. Contudo, nos tempos de hoje, os historiadores escrevem suas histórias em segredo, dentro do palácio, tentando não importunar pessoas poderosas ou interessadas; no entanto, dado o grande número de envolvidos nessas histórias, tornou-se impossível escrever qualquer coisa sem ter que atender as objeções desses poderosos’ [Liu 2025]. Essa tradição atravessou as dinastias e chegou aos governos atuais, tanto no continente como em Taiwan. Agências de governo seguem produzindo versões oficiais da história, e interferindo no trabalho crítico [embora nos dias de hoje essa intervenção seja muito mais reduzida que em outros tempos]. Nesse mesmo sentido, o discurso moralizante também foi – e é - utilizado como viés ideológico para justificar as ações e o status de quem estiver no poder. Desde o período Ming, mas principalmente no período Qing, a decadência da educação se refletiu no empobrecimento teórico da produção histórica – com exceção, claro, das histórias críticas particulares [Bueno 2023]. Somente nos anos finais dos Qing, e com a ascensão da república, surgiram várias escolas historiográficas, que pretendiam reformas no Estado e implicavam, com isso, em interpretações e invocações diferenciadas sobre o passado [Bueno 2024]. Mesmo assim, o influxo de teorias ocidentais representou por um lado numa nova orientação teórica, mas não conseguiu superar o procedimento culturalmente arraigado da utilização dos discursos como forma de legitimação do poder. Consequentemente, observa-se uma menor inclinação a abordagens totalmente desconstrucionistas ou pós-modernas, derrapando muitas vezes numa ideia de que a história serve primordialmente para compreender e afirmar ‘como as coisas eram’, em vez de desconstruir criticamente as narrativas. Esses elementos, em suma, representam uma fusão de legados antigos com realidades ideológicas e políticas modernas, moldando a compreensão e a escrita da história na China até um período recente [Bueno 2016].
Qual o Futuro?
Penso que os maiores desafios da historiografia chinesa no futuro são expandir o seu cabedal teórico e metodológico, incorporando novas fontes, expandido o seu diálogo com as mais diversas teorias surgidas no mundo e pensando em como isso será conciliado com as tradições historiográficas chinesas. A historiografia chinesa imperial nunca desapareceu, ela acabou sempre funcionando como um norte teórico – seja para ser utilizada, repensada ou refutada – e embora ela esteja hoje profundamente envolvida com as teorias marxistas chinesas, ela constitui um espaço de autoafirmação epistêmica na comunidade intelectual chinesa, o que faz com que sua retomada como uma herança histórica e cultural seja levada em conta [Xu 2013]. A história chinesa atual não é mais apenas política e biográfica, mas incorpora uma grande diversidade de novos espaços de estudos – economia, sociedade, regionalidade, costumes, teoria, etc. Contudo, ela tem que lidar com questões específicas do próprio desenvolvimento do mundo chinês, que exigem dos historiadores uma capacidade profunda de reflexão, adequação e reinvenção.
Um dos desafios cruciais nesse sentido é acompanhar as descobertas arqueológicas, que tem contribuído constante e fortemente para realinhavar as cronologias e adicionar novos elementos na construção das narrativas. Isso implica na necessidade de reorganizar o passado, a sucessão dos eventos e complexificar o entendimento dos episódios e personagens históricos [Dong 2020]. Por fim, isso implica na reescrita da história nacional, transitando pela ideia de povo, cultura, espaço e sinosfera. Igualmente importante será redimensionar a história chinesa dentro de uma narrativa global, tendo em vista sua importância fundamental no desenvolvimento do mundo. A importância da cultura e da tecnologia chinesa, ao longo dos séculos, não poder ser deixada de fora ou ser incorporada de forma eventual, estereotipada ou memética. Os chineses tiveram um impacto decisivo no curso da Humanidade desde os tempos antigos, e retomam esse espaço agora na agenda mundial. Ignorar isso é fechar os olhos para a compreensão de como o passado chinês já explicava, de antemão, o futuro do país como uma importante força motriz e intelectual. Ademais, ao compreender essa história, penetramos igualmente no mundo da historiografia chinesa, que pode nos proporcionar novas, visões, teorias, métodos e conceitos, que ampliam significativamente nosso conhecimento sobre os modos de fazer história. Será enriquecedor se a historiografia for capaz de transcender os limites eurocêntricos e começar a dialogar de forma mais densa, sistemática, não-hierárquica e receptiva com a ‘sabedoria historiográfica chinesa’, se assim podemos brincar de forma jocosa com esse conhecimento tão antigo na China. Autores como Wang Hui [2014], Gao Mobo [2015], Zhao Tingyang [2021] ou Qu Lindong [2012] são apenas alguns dos exemplos de uma grande renovação intelectual chinesa que toma de assalto o mundo. Já vimos o que o ocidente podia emprestar para os chineses: agora precisamos entender o que tomamos de empréstimo deles. Por fim, conciliar essas visões de passado com uma escrita histórica contemporânea e globalizada tornam complexo e aumentam exponencialmente o papel da China dentro do desenvolvimento da ciência histórica. Essa constatação é incontornável, se desejamos fazer uma história de melhor qualidade, com mais coerência e profundidade.
Referências
Dr. André Bueno é professor associado de História Oriental na UERJ e diretor do Projeto Orientalismo [orientalismo.net].
Beja, Flora. 'El Precio de la rectitud - el intelectual como crítico en la China Tradicional' in Fisac, Taciana [org.] Los intelectuales y el poder em China. Madrid: Trotta, 1997.
Bueno, André. ‘Abolir o Passado, Reinventar a História - a escrita da história em Hanfeizi no séc. -3’. História da Historiografia, v. 18, 2015a.
Bueno, André. 'Não invento, apenas transmito: Reinterpretando a escrita historiográfica de Confúcio'. Anais da X Semana de História Política da UERJ. Rio de Janeiro: UERJ, 2015b.
Bueno, André. ‘Educação, Confucionismo e crises chinesas na virada dos séculos 19-20’. In: Assumpção, Luis Filipe; Fornis, Cesar; Campos, Carlos Eduardo; Monteiro, Angelo. (Org.). Encontros Transatlânticos Diálogos Interinstitucionais em História, Patrimônio Cultural e Educação. 1ed.Vassouras: Editora Universidade de Vassouras, 2023.
Bueno, André. ‘Inventar a História’. In: Luis Filipe Bantim de Assumpção, Carlos Eduardo da Costa Campos, Cristina de Souza Agostini, Leandro Hecko. (Org.). Antiguidade e Usos do Passado. 1ed.Vassouras: Editora da Universidade de Vassouras, 2025.
Bueno, André. ‘Novas Perspectivas para a Historiografia da China Antiga’. História da Historiografia, v. 17, 2024.
Bueno, André. ‘Os desafios da Historiografia Chinesa na Modernidade’. Sobre Ontens, v. 1, 2016.
Confúcio 2025. Lunyu. Link: https://ctext.org/analects
Dong Xinjie董欣洁. '史学理论与史学史研究'. 史学集刊, n.2, 2020.
Gao Mobo. The Battle for China's Past: Mao and the Cultural Revolution. PLuto Press, 2015.
Liuxie 2025. Wenxin Diaolong. Link: https://chines-classico.blogspot.com/p/colecao-de-textos-da-china-imperial.html
Liu Zhiji 2025. Shitong. Link: https://chines-classico.blogspot.com/p/colecao-de-textos-da-china-imperial.html
Qu Lindong瞿林东. '中国史学与文化建设'.长安大学学报(社会科学版), n.4, 2012.
Richter, Ursula. 'La tradition de l'antitraditionalisme dans l’historiographie chinoise'. Extreme Orient, Extreme Occident. n. 9, 1987.
Vandermeersch Léon. ‘Vérité historique et langage de l'histoire en Chine’. Extrême-Orient, Extrême-Occident, n.9, 1987.
Wang Hui. China from Empire to Nation-State. Harvard Univ. Press, 2014.
Xu Zhaochang许兆昌. '传统史学与价值认同'. 史学集刊, n.6, 2013.
Zhao Tingyang. All under Heaven - The Tianxia System for a Possible World Order. California University Press, 2021.
"Professor, pelo que eu entendi, o texto mostra que a China tem uma das histórias mais antigas do mundo e que, desde muito tempo, eles já tinham uma preocupação muito grande em registrar tudo o que acontecia. Também achei interessante que eles não escreviam a História só para contar os fatos, mas também para ensinar valores e ajudar as pessoas a aprenderem com os acontecimentos do passado. O texto fala que alguns historiadores, como Confúcio e Sima Qian, se preocupavam em pesquisar documentos, comparar informações e tentar descobrir qual era a versão mais confiável dos acontecimentos. Também percebi que, em alguns momentos, os governos influenciavam a forma como a História era escrita, mas mesmo assim sempre existiram estudiosos que buscavam fazer análises mais críticas. No final, o autor comenta que a historiografia chinesa continua mudando e que ela ainda tem muito a contribuir para a forma como a gente estuda História hoje.
ResponderExcluirA minha dúvida é: como a historiografia chinesa consegue manter suas tradições e, ao mesmo tempo, aceitar novas ideias e descobertas sobre o passado?"
"Professor, pelo que eu entendi, o texto mostra que a China tem uma das histórias mais antigas do mundo e que, desde muito tempo, eles já tinham uma preocupação muito grande em registrar tudo o que acontecia. Também achei interessante que eles não escreviam a História só para contar os fatos, mas também para ensinar valores e ajudar as pessoas a aprenderem com os acontecimentos do passado. O texto fala que alguns historiadores, como Confúcio e Sima Qian, se preocupavam em pesquisar documentos, comparar informações e tentar descobrir qual era a versão mais confiável dos acontecimentos. Também percebi que, em alguns momentos, os governos influenciavam a forma como a História era escrita, mas mesmo assim sempre existiram estudiosos que buscavam fazer análises mais críticas. No final, o autor comenta que a historiografia chinesa continua mudando e que ela ainda tem muito a contribuir para a forma como a gente estuda História hoje.
ResponderExcluirA minha dúvida é: como a historiografia chinesa consegue manter suas tradições e, ao mesmo tempo, aceitar novas ideias e descobertas sobre o passado?"
Anderson da Silva Schmitt
Oi Anderson, tudo bem? Obrigado pela pergunta! Particularmente, não acredito em rupturas totais, penso que há um substrato crítico nas teorizações mais recentes, que levam em conta as contribuições do passado. Não diria que eles mantém suas tradições acriticamente; mas as re-interpretam, dentro de uma 'tradição de crítica' que a própria historiografia chinesa conhece há séculos. Nesse ponto, as teorias ocidentais foram recebidas, pensadas, adaptadas e recriadas, de modo que se incorporam nesse trabalho historiográfico milenar =)
ExcluirCaro André, boa noite! Tudo bem?
ResponderExcluirAntes de tudo, parabenizo pela organização do evento e agradeço pela oportunidade de participação. Gostaria muito de estar presente também nas próximas edições.
A minha pergunta vem mais de uma curiosidade e referenciada a partir de um cenário ocidental: me refiro à questão da interdisciplinaridade. Por exemplo, você comentou sobre a importância das descobertas arqueológicas para novas reflexões sobre as cronologias e a construção de narrativas na escrita da História chinesa.
Sobre o tema da interdisciplinaridade, em uma perspectiva de escrita da História oriental, e especificamente chinesa, como podemos interpretar ou pelo menos refletir sobre o local e importância de um pensamento e abordagem interdisciplinar? Existe algum estudo (artigo, livro, etc...) que apresente a reflexão teórica sobre este termo no contexto da escrita da História chinesa? E, por último, para alem da arqueologia, quais outras áreas poderíamos destacar como importantes para o avanço destes estudos sobre a escrita da História chinesa?
No mais, agradeço muito pela oportunidade e parabéns pelo evento. Até mais.
Luciano José Vianna
Caro Luciano, obrigado por sua pergunta! Embora não houvesse um termo ou conceito específico de 'interdisciplinaridade' entre os chineses, os historiadores fizeram várias experiências nesse sentido, usando geografia, cosmologia, astronomia, etnografia, antiquarismo, entre outras, na redação de suas críticas históricas. Essas discussões estão disseminadas nos trabalhos atuais sobre historiografia chinesa produzidas na própria China - no Ocidente, as discussões ainda privilegiam as fontes escritas e/ou a arqueologia em separado. Há materiais diversos em língua chinesa sobre isso [gosto muito dos trabalhos de Qu Lindong), podemos conversar indicações nesse sentido =)
ExcluirGrande abraço, saudações!!!
André Bueno
Caro André, muito obrigado pelo comentário!
ExcluirInteressante saber dessa especificidade sobre a historiografia chinesa, vou pesquisar sobre Qu Lindong. Ficaria muito grato com as indicações, mas, no meu caso em específico, precisaria ser obras em inglês/francês/espanhol/português, ou seja, já traduzidas. Até mesmo, se for possível, mais em português, para que os discentes que oriento também possam ter acesso.
Obrigado novamente, e parabéns pelo evento! Até mais.