QUANDO A GUERRA NÃO ACABA: A BUSCA DAS “MULHERES DE CONFORTO” POR JUSTIÇA E REPARAÇÃO por Camilly Evelyn Oliveira Maciel

 As “mulheres de conforto” da Segunda Guerra Mundial

O termo “mulheres de conforto” refere-se às mulheres que foram submetidas à escravidão sexual pelo Império Japonês durante a Segunda Guerra Mundial. Essas mulheres — maioria de origem coreana, então colônia japonesa — eram sequestradas, recrutadas à força ou enganadas por meio de falsas promessas de trabalho. Uma vez capturadas, eram mantidas em bordéis militares, nomeados de casas ou estações de conforto, onde eram obrigadas a fornecer serviços sexuais aos soldados japoneses (Min, 2003).

 

A luta por justiça e reconhecimento de um crime de Guerra

A história das “mulheres de conforto” emerge após longos anos de silêncio. Em 1962, a jornalista de guerra, Senda Kako, encontrou uma fotografia de duas mulheres atravessando um rio — essa fotografia “estava entre uma coleção de 25.000 fotografias censuradas da época da guerra” (Hicks, 1997, p.16). Curiosa sobre, a jornalista pediu informações e descobriu que se tratava de “mulheres de conforto”. Motivada, continuou a investigar sobre e, após onze anos, publicou seu primeiro livro sobre o tema (Military Comfort Women, publicado em 1973). Entretanto, por muitos anos o livro foi de pouco interesse público, assim como outros livros e documentários publicados sobre o caso do sistema de conforto nos anos seguintes (Hicks, 1997; Sikka, 2009).

Foi somente em 1988 que a questão das “mulheres de conforto” veio à tona, trazendo a público a história dessas mulheres e pressionando o Japão a admitir sobre o recrutamento forçado de mulheres pelo sistema de conforto. Segundo Sikka (2009, p. 15 ), essa mudança foi possível devido a quatro fatores: (1) o crescimento do movimento de mulheres, que começaram a encorajar pesquisas sobre o caso do sistema de conforto japonês; (2) o estabelecimento do Centro Coreano de Assistência Jurídica para Relações Familiares, criado pela advogada Tai-Young Lee, que “conseguiu persuadir o governo a revisar sua posição com relação ao direito de família”; (3) a onda de nacionalismo, que cresceu na década de 1980, tornando a Coréia do Sul forte para questionar o imperialismo do vizinho e (4) a disposição das vítimas sobreviventes do sistema de conforto a relatar suas histórias.

 

Em 1998, durante a Conferência Internacional sobre Mulheres e Turismo, uma investigadora da Universidade de Ehwa, Yun Chung-Ok, apresentou seu estudo sobre as “mulheres de conforto”. Essa foi a primeira discussão pública sobre as “mulheres de conforto” e o sistema de conforto japonês (Azenha, 2018). Em 1990 é fundado o “Korean Council for the Women Drafted for Military Sexual Slavery by Japan” — uma organização feminista que visa defender os direitos das “mulheres de conforto” sobreviventes, essa organização funciona até os dias atuais (2024) e, além de lutar pelas sobreviventes no ambito judiciário, também presta outras formas de apoio e suporte de atividades voltadas as “mulheres de conforto” como: “(1) Manifestações Semanais; (2) Atividades de apoio social; (3) Acolhimento; (4) Museu da Guerra e dos Direitos das Mulheres; (5) campanhas e solidariedade regional (Campaigns and Domestic Solidarity); (6) Investigações Académicas; (7) Campanhas Internacionais; (8) Solidariedade com a Coreia do Norte e outras Nações Asiáticas; (9) Tribunal Internacional das Mulheres e Crimes de Guerra e (10) O Fundo Borboleta (The Butterfly Fund)” (Azenha, 2018, p. 43-44).

Apoiada pelo Korean Council, Kim Hak-Sun, foi a primeira vítima a falar publicamente sobre sua história como “mulher de conforto”, em 1991. Encorajadas pelo discurso de Kim Hak-Sun, outras mulheres resolveram expor suas histórias como sobreviventes do sistema de conforto, ainda em 1991 foi fundada a "Casa de Partilha" — essa casa, também conhecida como "House of Sharing", faz parte de um projeto do Korean Council for the women drafted for military sexual slavery by Japan e possui, entre outros objetivos, dar apoio às vítimas da escravidão sexual do Império Japonês, servindo como alojamento para as vítimas e também auxiliando com apoio médico e social (Min, 2003).

Em 1992, o professor Yoshimi Yoshiaki, apresentou documentos que comprovaram o envolvimento do Exército Japonês no sistema de conforto — esses documentos foram de grande importância para a causa das “mulheres de conforto”, uma vez que, até então, não se tinham provas escritas que comprovassem o envolvimento do Japão. Assim, o governo japonês se viu pressionado, apesar de suas negativas anteriores, a admitir que o Exército esteve envolvido na criação e organização do sistema de conforto (Hicks, 1997; Sikka, 2009; Okamoto, 2013; Azenha, 2018).

Em 1991, o primeiro ministro do Japão, Kiichi Miyazawa, em uma visita diplomática à Coreia do Sul, declara para o então presidente do país, Roh Tae Woo: “Nós, japoneses, deveríamos, em primeiro lugar, recordar a verdade daquele período trágico em que as ações japonesas infligiram sofrimento e tristeza ao seu povo. Nunca devemos esquecer nossos sentimentos de remorso por isso. Como primeiro-ministro do Japão, gostaria de declarar novamente meu remorso por esses atos e apresentar minhas desculpas ao povo da República da Coreia” (The New York Times, 1992) (tradução nossa).

Em 1995, o governo japonês criou o Fundo das Mulheres Asiáticas (Asian Women's Fund ou AWF), uma fundação pela qual os civis podiam doar dinheiro para as sobreviventes do sistema de conforto. Entretanto, a maioria das vítimas se recusou a aceitar os valores do fundo e o pedido de desculpas. Alegando que não poderiam aceitar um pedido de desculpas “desacompanhado da divulgação de todas as barbaridades” cometidas, as sobreviventes e os movimentos feministas que as apoiam, tem entre suas principais exigências: (1) que o governo japonês admita o recrutamento forçado de meninas e mulheres para o sistema de conforto; (2) que o governo japonês faça um pedido de desculpas público, onde apresentem as informações verdadeiras; (3) que criem um memorial em memória das vítimas; (4) que as sobreviventes ou suas famílias sejam compensadas e (5) que a história esteja presente nos livros de história e seja ensinada corretamente (Howard, 1995; Hicks, 1997; Sikka, 2009; Azenha, 2018).

Os anos 2000 trouxeram mais visibilidade à causa das “mulheres de conforto”, com as mudanças sociais e o apoio de movimentos feministas sul-coreano, as vítimas continuaram a relatar suas histórias para a mídia, com o intuito de trazer mais atenção a situação das “mulheres de conforto” — assim, a causa ganhou apoio internacional, da ONU (Organização das Nações Unidas) e dos Estados Unidos da América, que solicitaram um acordo entre o Japão e a Coréia do Sul (Azenha, 2018; Adão, 2021).

Desde 2011, apoiadores e vítimas protestam, todas às quartas-feiras, em frente à Embaixada japonesa em Seul, capital da Coréia. Nesses protestos (conhecidos como Manifestações de Quarta-feira), as vítimas e apoiadores lutam por reconhecimento e por justiça ao caso das "mulheres de conforto". Em uma dessas manifestações foi construída uma estátua de uma menina representando às vítimas do sistema de conforto, em frente à Embaixada do Japão. Essa estátua, conhecida como Estátua da Paz, causou conflitos entre os dois países e, devido a isso, o governo coreano prometeu removê-la, o que não foi aceito pelos apoiadores da causa (Azenha, 2018; Adão, 2021).

Segundo Adão (2021, p.116), “o ano de 2015 foi fortemente marcado pelo aumento das tensões sociais e políticas entre os lados, porque os sul-coreanos passaram a ter atitudes mais fervorosas para fazer com que fosse sentida a força de suas ações”, assim, em 28 de dezembro de 2015, os países assinaram um acordo onde o Japão prometia indenizações as sobreviventes — esse acordo não foi bem aceito pelas vítimas e apoiadores da causa, uma vez que não foram consultados sobre e por não incluir um pedido de desculpas adequado. Desse modo, até os dias atuais (2026), a causa das “mulheres de conforto” permanece sem resolução. 

 

Referências

Camilly Evelyn Oliveira Maciel é Mestranda em Ensino, História e Narrativas pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Maranhão (PPGHIST/UEMA) .

 

ADÃO, Jeniffer Michelly Gabriel. As vozes silenciadas: a narrativa das “mulheres de conforto” nas relações entre Japão, China e Coreia do Sul.. 2021. Monografia (Graduação em Relações Internacionais) - Instituto de Ciências Sociais e Comunicação, Universidade Paulista (UNIP), São Paulo, 2021.

 

AZENHA, Tatiana Sofia Fonseca. Para além do silêncio: o sistema de conforto e o papel dos movimentos feministas na questão das Mulheres de Conforto na Coreia do Sul: 1905-2015. 2018. Tese de Doutorado.

HICKS, George. The comfort women: Japan’s brutal regime of enforced prostitution in the Second World War. WW Norton & Company, 1997. 

HOWARD, Keith. True stories of the Korean comfort women. 1995.

MIN, Pyong Gap. Korean “Comfort Women” the intersection of colonial power, gender, and class”. Gender & Society, v. 17, n. 6, p. 938-957, 2003

 

OKAMOTO, Julia Yuri. As Mulheres de Conforto na Guerra do Pacífico. Revista de Iniciação Científica de Relações Internacionais, v. 1, n. 1, 2013.

 

SIKKA, Nisha. The official marginalization of comfort women. Honours Thesis. Communications 498. Simon Fraser University. December 11, 2009. (33 fls.)

 

SOH, Chunghee Sarah. “The Korean ‘comfort women’: Movement for redress”. Asian Survey, v. 36, n. 12, dec. 1996, pp. 1226-1240.

YOSHIMI, Yoshiaki. Comfort women: Sexual slavery in the Japanese military during World War II. Columbia University Press, 2000.

10 comentários:

  1. Denilson J. Carvalho Rosa8 de julho de 2026 às 18:56

    É muito interessante como o texto mostra que a quebra do silêncio dependeu tanto do crescimento do nacionalismo sul-coreano na década de 1980 quanto de uma articulação feminista profunda. Diante disso, como você enxerga o papel do Korean Council ao expandir essa pauta para além das fronteiras estatais, construindo redes de solidariedade inclusive com a Coreia do Norte e outras nações asiáticas?

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  2. CAMILLY EVELYN OLIVEIRA MACIEL8 de julho de 2026 às 21:01

    Ao meu ver o Korean Council foi fundamental justamente por expandir a questão das "mulheres de conforto" para além da Coreia do Sul. o Conselho evidenciou que o sistema de conforto não atingiu apenas as mulheres coreanas, mas também diversas outras mulheres de países que foram ocupados pelo Império Japonês.
    Ao internacionalizar o caso das “mulheres de conforto” o Korean Council ajudou a consolidar o caso como um crime de guerra e expandir as discussões sobre violência sexual em contextos de guerra, além de discussões sobre o direito à memória, à verdade e à justiça e, dessa forma, como você bem pontuou, o Korean Council conseguiu construir uma grande rede de solidariedade e apoio para o caso das “mulheres de conforto”.
    Para mim, a aproximação com organizações da Coreia do Norte é particularmente simbólica porque demonstra que a memória das "mulheres de conforto" pode ultrapassar divisões políticas e ideológicas.
    Dessa forma, o maior legado do Korean Council foi transformar uma memória inicialmente silenciada em uma memória transnacional de resistência. Essa articulação permitiu que as sobreviventes passassem a ocupar um lugar de protagonistas na luta internacional pelos direitos das mulheres e por justiça.

    Obrigada pelo comentário!
    Camilly Evelyn Oliveira Maciel

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  3. Prezada Camilly,
    Que trabalho incrível! Seu trabalho me deixou motivada a me aprofundar ainda mais na causa das mulheres de conforto. A forma como você reconstrói essa trajetória, do silêncio inicial até a luta por reconhecimento que persiste até hoje, com tanta precisão e sensibilidade é realmente admirável.
    Sua exposição sobre os quatro fatores que tornaram possível a emergência pública da causa em 1988 me chamou muito a atenção, especialmente a disposição das próprias sobreviventes em relatar suas histórias como condição fundamental para que essa memória viesse à tona. Isso dialoga diretamente com o que discutimos sobre Pollak, as memórias subterrâneas precisam não apenas de condições políticas favoráveis, mas de sujeitos dispostos a romper o silêncio. Nesse sentido, você entende que foi principalmente a articulação entre o movimento feminista e o testemunho das sobreviventes o que tornou possível essa ruptura, ou outros fatores pesaram de forma mais decisiva?

    Atenciosamente,
    Hellen Dhara Lins de Sousa Costa Silva

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    1. CAMILLY EVELYN OLIVEIRA MACIEL9 de julho de 2026 às 20:22

      Olá, Hellen! Obrigada pelos elogios e considerações!
      Acredito que a ruptura do silêncio não pode ser atribuída a um único fator, mas ao encontro de diferentes condições históricas.
      No caso das "mulheres de conforto", o testemunho das sobreviventes foi indispensável, porque foram elas que transformaram uma experiência vivida, mas silenciada por décadas, em uma denúncia pública. Além disso, o movimento feminista e as organizações de apoio ao caso, como o Korean Council, também foram de suma importancia, pois ofereceram opoio, legitimidade e canais para que as vozes das sobreviventes fossem ouvidas
      Porém, de acordo com Hicks (1997) outro fator decisivo foi o contexto da democratização da Coreia do Sul na década de 1980, pois ampliou os espaços para reivindicações sociais e para a revisão crítica do passado, criando condições para que essa pauta ganhasse visibilidade (até o final da década de 1980, a Coreia do Sul era governada por regimes militares repressivos que não permitiam manifestações) . Pollak (1989) comenta sobre essa questão, quando afirma que as memórias subterrâneas emergem quando encontram um contexto social e político favorável.
      Portanto, de acordo com minhas leituras, entendo que a emergência pública da causa resultou da articulação entre três elementos fundamentais: a coragem das sobreviventes em romper décadas de silêncio; a mobilização dos movimentos feministas e de direitos humanos, que transformaram esses relatos em uma causa política e internacional; e um contexto histórico mais favorável à discussão de temas antes silenciados.
      Atenciosamente,
      Camilly Evelyn Oliveira Maciel

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  4. Ana Helena Leite De Araujo9 de julho de 2026 às 01:06

    Olá, Camilly!

    Obrigada por mais um texto tão esclarecedor sobre o assunto.

    Ao ler seu artigo, me chamou a atenção a importância do feminismo na Coreia do Sul para que este grupo de mulheres tenham seus direitos reivindicados. Pensando assim, você acredita que a atual onda conservadora na sociedade sul-coreana possa ser um obstáculo para a manutenção desta luta por reparação histórica? É possível relacionar os problemas de desigualdade de gênero na própria sociedade sul-coreana com a dificuldade das "mulheres de conforto" de garantir justiça?

    Desde já, obrigada, e parabéns pela pesquisa!

    Atenciosamente,

    Ana Helena Leite de Araujo

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    1. CAMILLY EVELYN OLIVEIRA MACIEL9 de julho de 2026 às 23:30

      Olá, Ana Helena! Obrigada pelos elogios!
      Sim, acredito que existe uma relação. A luta das "mulheres de conforto" sempre esteve ligada aos movimentos feministas e aos debates sobre violência de gênero. Nos últimos anos, observa-se na Coreia do Sul um crescimento de discursos antifeministas e uma polarização em torno das questões de gênero, principalmente entre os homens mais jovens. Esse fator pode reduzir o apoio político e social às pautas feministas e dificultar a continuidade de determinadas reivindicações, pois um país que enfrenta dificuldades para combater a violência de gênero e promover a igualdade tende a encontrar mais obstáculos para reconhecer plenamente violências cometidas contra mulheres no passado.

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  5. Maurício Luiz Borges Ramos Dias9 de julho de 2026 às 01:49

    Olá, Camilly! Espero que esteja muito bem!! Sou doutorando em Relações Internacionais e trato a questão das "mulheres de conforto" desde o meu TCC. Hoje, o meu doutorado é completamente voltado a elas e é uma alegria imensa saber que acadêmicas como você estão produzindo materiais sobre essa pauta tão importante e necessitada de justiça. Meus parabéns pelo texto e muito obrigado pelo seu trabalho.

    Antes de eu partir para as minhas perguntas, destaco que a Conferência Internacional sobre Mulheres e Turismo, em Jeju, na qual a Yun Chung-ok apresentou sua pesquisa, foi em 1988, não em 1998. Creio que foi apenas uma confusão no teclado, mas acho necessário reforçar (quem sabe, avisando a equipe do Simporiente, antes da publicação final dos livros, eles possam ajustar essa questão da data). Outro ponto é que a visita diplomática e o pedido de desculpas de Kiichi Miyazawa foi em 1992, não no ano anterior.

    Feitas essas considerações, vamos para as perguntas:

    1) Primeiro, gostaria de saber se você já chegou a refletir sobre a transnacionalização do movimento de reparação das "mulheres de conforto" para além, portanto, da Coreia do Sul. Se sim, qual panorama você enxergou e quais ações por reivindicação por justiça e memória são colocadas em prática em diferentes territórios, tais como, por exemplo, nas Filipinas e em Taiwan?

    2) O Acordo das "Mulheres de Conforto" de 2015 é um marco diplomático muito importante, embora repleto de insuficiências. No final, infelizmente, ele se tornou mais um obstáculo, desta vez com força diplomática e jurídica, para as senhoras vitimadas e suas famílias terem essa questão solucionada da forma que demandam. Atualmente, o governo de Lee Jae-myung tem um posicionamento de que, apesar do acordo ser difícil de ser aceitado, não é desejável rompê-lo com o Japão, tal como Moon Jae-in o fez no final de 2017. Como você avalia esse posicionamento do atual presidente da Coreia do Sul?

    Muitíssimo obrigado pela atenção e pelo seu trabalho fantástico!! Estou desde já curioso em receber suas respostas.

    Caso no futuro queira trocar algumas figurinhas sobre a questão das "mulheres de conforto", meu e-mail é mauriciolbrdias@gmail.com.

    Cordialmente,
    Maurício Dias.

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    1. CAMILLY EVELYN OLIVEIRA MACIEL9 de julho de 2026 às 23:37

      Olá, Maurício! Obrigada pelos elogios e pelas considerações.
      De fato, o “1998” e “1991” foram erros de digitação, obrigada por me avisar!
      Agradeço também pelo interesse em conversar mais sobre o assunto posteriormente, vou entrar em contato!

      Em relação às perguntas:
      1) Acredito que a internacionalização foi fundamental porque deslocou a discussão de uma disputa bilateral entre Japão e Coreia do Sul para uma questão internacional de direitos humanos e violência sexual em conflitos armados. Li no trabalho de Hicks (1997) que em Taiwan, foi criado o Taipei Women's Rescue Foundation e na Filipinas o Task Force on Filipina Comfort Women, ambas as organizações articularam buscas por sobreviventes do sistema, desenvolveram pesquisas sobre o “sistema de conforto” e também apoiam a luta por justiça e reconhecimento das vítimas. Atualmente, estou lendo o livro “Chinese comfort women” de Peipei Qiu, Su Zhiliang e Chen Lifei, que apresenta o panorama na China, estou gostando bastante!

      2) De fato, o acordo de 2015 marginalizou as vítimas do sistema, uma vez que não contou com a participação das sobreviventes e nem levou em consideração muitas de suas demandas. Acredito que Lee Jae Myung, da mesma forma que Moon Jae In, também priorizou a estabilidade da Coreia do Sul, uma vez que romper diplomaticamente com o Japão traria questões geopolíticas complexas para a Coreia do Sul. Porém, ao fazer isso, o presidente deixa a questão das “mulheres de conforto” sem uma solução, continuamos em um impasse. Concordo com Sarah Soh quando ela diz que tanto o governo japonês quanto o sul-coreano demonstraram, ao longo dos anos, diferentes formas de negligência em relação à questão das "mulheres de conforto", embora essa reflexão tenha sido apresentada em uma obra publicada em 2008, ela continua pertinente diante das limitações das iniciativas de reparação e reconhecimento.

      Atenciosamente, Camilly Evelyn Oliveira Maciel

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  6. Prezada Camilly. Ler seu texto foi muito elucidativo em relação a situação vivenciada pelas mulheres coreanas no recorte temporal da Segunda Guerra Mundial. Duas perguntas me ocorreram por que li recentemente que os espaços onde essas mulheres deveriam ocupar se denominava "casas de conforto", mas que seria uma forma de expressar machista, não muito aceita. Você tem alguma informação sobre este aspecto? Lendo também os comentários já postados, fiquei curiosa em saber se existe alguma ação concreta de reparação ou compensação para as mulheres coreanas sobreviventes ou tudo ainda está no âmbito dos discursos? Parabéns pelo estudo. Cordialmente, Elisabeth Mary de Carvalho Baptista.

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    1. CAMILLY EVELYN OLIVEIRA MACIEL9 de julho de 2026 às 23:29

      Olá, Elisabeth! Obrigada!
      De fato, existe um debate sobre essa nomenclatura. Muitos pesquisadores, as próprias sobreviventes e as organizações de direitos humanos criticam o uso literal da palavra "conforto", porque ela suaviza a violência vivida pelas vítimas. Eu, particularmente, utilizo a expressão "mulheres de conforto" entre aspas justamente para indicar que se trata de uma denominação histórica, e não de um termo que descreva adequadamente a experiência dessas mulheres. As aspas funcionam como um distanciamento crítico em relação ao eufemismo empregado na época.
      Em relação à segunda pergunta:
      Houve algumas iniciativas concretas, mas elas permanecem insuficientes e bastante controversas. Ao longo das últimas décadas, o governo japonês realizou pedidos de desculpas em diferentes momentos e também foram criados mecanismos de compensação financeira. O exemplo mais conhecido é o Asian Women's Fund, que oferecia apoio financeiro às sobreviventes. No entanto, de acordo com Sarah Soh (2003; 2008) muitas vítimas e organizações (como o Korean Council) rejeitaram esse fundo porque ele era financiado majoritariamente por doações privadas, e não por indenizações oficiais do Estado japonês. Para elas, isso não representava o reconhecimento da responsabilidade jurídica do governo
      Segundo o Research Team Of The War & Women’s Human Rights Center (2020), em 2015, o Japão e a Coreia do Sul firmaram um acordo que previa um novo fundo de apoio às sobreviventes. Porém, esse acordo também foi amplamente criticado pois foi negociado sem a participação das próprias mulheres vítimas do sistema e também por declarar a questão como "final e irreversível". Muitas sobreviventes entenderam que não havia justiça sem verdade, responsabilização e participação das vítimas no processo.
      Portanto, podemos dizer que existiram ações concretas, mas a principal reivindicação das sobreviventes, que é o reconhecimento oficial da responsabilidade do Estado japonês, um pedido de desculpas e uma reparação considerada justa pelas próprias vítimas, continua sendo objeto de disputa.

      Atenciosamente, Camilly Evelyn Oliveira Maciel

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