A compreensão da globalização moderna frequentemente se ancora em narrativas macroeconômicas e político-institucionais. Contudo, ao reinterpretar esse fenômeno através da lente dos “segundos contatos” nos séculos XVII e XVIII, este pequeno ensaio investiga como a intensificação das trocas comerciais e a emergência de uma sociedade de consumo na Europa moldaram a percepção e a representação do “outro” não-europeu. Argumenta-se que a globalização, nesse período, se manifestou na profunda interdependência entre continentes, visível na circulação de mercadorias. Essa conectividade, contudo, não foi um processo neutro. Pelo contrário, ela se desenvolveu em uma estrutura de poder assimétrica, na qual a satisfação do desejo europeu dependia intrinsecamente da exploração e da subordinação de outras regiões do globo.
A Revolução do Consumo, impulsionada por bens extra-europeus como chá, café e açúcar, transformou hábitos e paisagens sociais na Europa enquanto teve como base material a violência estrutural do tráfico transatlântico e a reconfiguração estética e produtiva de culturas asiáticas para atender ao gosto ocidental. Nesse contexto, o consumo de mercadorias exóticas evoluiu para o “consumo do outro”, um processo simbólico e material que reduziu a complexidade das culturas não-europeias a representações simplificadas e palatáveis. A análise do Orientalismo, conforme conceituado por Edward Said, revela como essa “outrificação” se tornou uma mercadoria indispensável, transformando o Oriente em uma invenção destinada ao consumo intelectual e imaginativo.
Este ensaio explora, portanto, a intersecção entre a globalização, a sociedade de consumo nascente e a construção de uma hierarquia global de humanidade, na qual povos e territórios extra-europeus foram convertidos em bens de consumo, suas identidades e culturas subordinadas a uma lógica imperial que naturalizou a dominação ocidental.
A globalização e os segundos contatos
No livro O chapéu de Vermeer, Timothy Brook [2009] reinterpreta o conceito de globalização moderna afastando-o das grandes narrativas econômicas ou político-institucionais e se ancora na análise de imagens do cotidiano. Para tal, Brook recorre à análise de objetos presentes em cinco quadros de Vermeer, um de van der Burch e um prato de porcelana para explicar, através de pequenos detalhes, as dinâmicas do século XVII: segundo o autor, trata-se de um século não de primeiros contatos, mas de segundos contatos entre os europeus, asiáticos, americanos e africanos. Nesse período, os locais dos primeiros encontros se transformaram em pólos de interação permanente, no qual a circulação de pessoas e objetos foi organizada e burocratizada em uma rede comercial sistemática.
Brook destaca um mundo em que tudo estava em movimento constante, inclusive as mercadorias, que viajavam grandes distâncias para atingir os novos mercados consumidores. Ao analisar o quadro Oficial e a moça sorridente, de Vermeer, algo chama atenção: um oficial, que corteja uma moça, utiliza um chapéu de pele de castor. O detalhe parece simples, mas os castores estavam praticamente erradicados na europa no século XV. A presença desse objeto em uma cena doméstica holandesa sintetiza a complexidade das redes globais do século XVI: a existência daquela peça de vestuário dependia de uma vasta cadeia de segundos contatos, que se estendia por todo o globo. O chapéu só repousava sobre a cabeça do oficial porque o comércio transatlântico entre franceses e indígenas, no território que hoje compreende o Canadá, havia transformado uma matéria-prima exótica em um item de consumo acessível. O que antes exigia expedições transoceânicas e negociações em canais remotos, a globalização mercantil tornou disponível nas esquinas de Amsterdã, evidenciando que o cenário europeu já estava, irremediavelmente, permeado por fios que o conectavam ao resto do globo. O quadro O geógrafo, também de Vermeer, indica a exuberância de um mundo maior, globalizado e conectado. O geógrafo, marcado por seu impulso de conhecer o mundo, as rotas e terras em expansão, é também o desejo de conhecer o novo, o maravilhoso que se encontra no além mar. Assim, encarna uma curiosidade da nova mentalidade moderna, na qual o confronto com o novo se traduz nos contatos com o outro.
Além disso, a intensificação das trocas comerciais foram um catalisador para a interconexão cultural. Os "segundos contatos" entre europeus, asiáticos, americanos e africanos, mediados pelo comércio de mercadorias, resultaram em uma fusão de influências que se manifestaram no consumo e nas práticas culturais. A materialidade desses segundos contatos, para Brook, manifestou-se na transformação de objetos domésticos em símbolos dessa conectividade global. Itens como a porcelana chinesa e as peles de castor norte-americanas deixaram de ser curiosidades exóticas para se tornarem mercadorias integradas ao cotidiano europeu, simbolizando o que René Descartes descreveu em 1631 como um "inventário do possível" [Brook, 2009, p. 8].
Contudo, essa integração não foi um processo neutro; Timothy Brook utiliza a metáfora budista da "Teia de Indra" [Brook, 2009, p. 22] para ilustrar que, na rede global do século XVII, cada sociedade funcionava como uma pérola que refletia todas as outras, criando uma teia de interdependência na qual as ações em um nó da rede repercutiam inevitavelmente nos demais. Assim, a globalização não se manifestaria apenas no nível das grandes rotas ou impérios, mas sobretudo na incorporação dessas conexões globais à vida social ordinária, visível nos espaços domésticos, nos hábitos de consumo e nas formas de sociabilidade da modernidade nascente.
Para além disso, o conceito de globalização adquire contornos importantes para pensar a construção do outro durante a modernidade enquanto um fenômeno caracterizado pela integração de diferentes regiões do planeta. Pim de Zwart e Jan Luiten van Zanden distinguem duas abordagens principais para definir o termo: a "globalização suave" (soft globalization, definida como a interação sustentada entre as massas de terra mais densamente povoadas de maneira a vinculá-las de forma profunda e permanente através de elementos econômicos, demográficos e culturais, a exemplo do estabelecimento de Manila em 1571, considerado o momento do início da globalização por inaugurar um link direto entre América e Ásia [2018, p. 2] e a "globalização dura" (hard globalization), que foca especificamente na integração dos mercados de fatores e mercadorias através da convergência de preços entre mercados distantes, impulsionada pela redução dos custos de transação, como fretes e barreiras monopolísticas [2018, p. 2–3].
A sociedade do consumo e o consumo do outro
A globalização permitiu não somente o contato com o outro, mas também a circulação de mercadorias produzidas por esse outro. Cabe ressaltar que a circulação de mercadorias produzidas pelo outro transformou-se no principal vetor de conectividade. Entretanto, a circulação desses bens não era um processo neutro, sendo frequentemente mediada por assimetrias de poder e pelo uso da força. A prata, extraída em larga escala nas minas de Potosí e do México, tornou-se central nas trocas globais, permitindo que os europeus adquirissem na Ásia outros bens manufaturados, como sedas e especiarias.
Esse crescente interesse por bens extra-europeus promoveram a chamada Revolução do Consumo na Europa, marcada pela transição de uma economia de subsistência, na qual os bens eram valorizados pela tradicionalidade, para uma dinâmica regida pela moda e pela novidade. Esse processo marcou diversos setores comerciais, dentre os quais o vestuário e os têxteis, marcados pela "febre indiana" de tecidos de algodão leves e coloridos (chitas e calicos), que passaram a substituir as pesadas lãs europeias, a cultura material, através de louças de porcelana chinesa e suas cópias europeias, e os novos itens domésticos, como a xícara, o relógio e as cômodas (commodes) [De Zwart; Van Zanden, 2018, p. 251; Kwass, 2022; Riello, 2009]. Por fim, outro setor destacado é o da chamada revolução psicoativa, que se refere ao consumo de substâncias coloniais que alteravam o estado de consciência e os rituais de sociabilidade, como o chá, o café, o tabaco e o chocolate, acompanhados por grandes quantidades de açúcar. O consumo desses "alimentos-droga" transformou mercadorias exóticas e medicinais em itens de necessidade cotidiana, reestruturando a dieta europeia e impulsionando a criação de espaços como as casas de café, que se tornaram polos de debate político e circulação de informações [Kwass, 2022].
Se, por um lado, a Revolução do Consumo possibilitou uma transformação do cotidiano Europeu, por outro, uma transformação também ocorreu fora da Europa: a base material dessa revolução foi profundamente assimétrica: a disponibilidade desses produtos de desejo como açúcar e tabaco dependia do sistema de plantações nas Américas, sustentado pelo tráfico transatlântico e pela exploração violenta da mão de obra escravizada. A África tornou-se o elo indispensável que sustentava a base material do consumo europeu nas Américas: a força de trabalho. Na Ásia, as Companhias das Índias Orientais (como a VOC holandesa e a EIC britânica) infiltraram-se em redes comerciais pré-existentes e impôs enclaves fortificados e utilizou pressão militar para garantir monopólios sobre produtos locais como porcelana e chá, além de uma grande reconfiguração estética para atender aos caprichos do gosto europeu adotando novas cores padrões e iconografias de seus produtos para satisfazer a demanda por um exotismo domesticado. Esse fenômeno criou produtos híbridos que, embora celebrados na Europa como símbolos de sofisticação [Kwass, 2022, p. 95, 123–4], representavam na origem a subordinação técnica e estética do produtor asiático à demanda de mercado do colonizador. A Globalização, bem como a Revolução do Consumo, portanto, consolidaram-se em uma estrutura de poder no qual a satisfação do sujeito ocidental era intrinsecamente dependente da submissão e da "outrificação" do resto do globo.
Além disso, a democratização desses bens extra-europeus tem outra face de extrema relevância: mais do que uma simples “outrificação”, ou seja, mais do que criar o outro a fim de consolidar uma identidade europeia, dependeu da redução sistemática de seres humanos à desumanização, à condição de "coisa". O consumidor europeu, ao ingerir o açúcar produzido nas Antilhas, usar a porcelana produzida na China ou vestir os têxteis indianos, estava, em última análise, consumindo a força de trabalho, a saúde e a própria vida do produtor, cujas condições de existência era preterida em prol da eficiência produtiva que abastecia os mercados da Europa.
Consumir e definir o outro: a construção do orientalismo através do
consumo
O oriente era moda. O uso de termos “febre indiana”, “febre chinesa” representa a consolidação dessa Revolução que redefiniu a cultura material entre 1650 e 1800. Jessica Hanser identifica que o consumo de chá seduziu os ingleses, que eram retratados como “sem controle” frente ao mercado asiático. A autora cita uma passagem de Joseph Addison ao jornal The Lover em 1715, argumentando sobre a “febre chinesa”: uma doença que acometia principalmente mulheres e tomava conta de toda a vida [Hanser, 2012, p. 54].
Essa atração pelo Oriente carregava uma dimensão ideológica fundamental, vinculada ao que Edward Said [2001] define como a construção do "orientalismo". O consumo dessas mercadorias produzidas pelo outro se tornou, por fim, também o consumo do outro. Ou seja, trata-se da transmutação do ato de adquirir mercadorias globais em uma prática de "consumo do outro". Esse processo, para além de operar nas dimensões econômicas de troca, fundamentou-se em uma reestruturação material e simbólica da alteridade, na qual o produtor estrangeiro foi reduzido a uma mercadoria ou a uma representação palatável ao desejo ocidental. O consumo, por sua vez, era mediado por um processo de "domesticação do exótico", no qual a complexidade real das culturas asiáticas era simplificada e reduzida a ícones palatáveis ao gosto ocidental. Ao consumir a mercadoria, o europeu consumia também uma representação do outro, fixando o Oriente em uma condição de passividade. Essas "febres", pois, representam a face visível de uma outrificação.
A transmutação do ato de adquirir mercadorias globais em uma prática de "consumo do outro" constitui um dos pilares fundamentais para a compreensão da modernidade e das assimetrias estabelecidas pela globalização primordial. Quando consumir os bens produzidos pelo outro tornou-se insuficiente para as ambições das grandes potências, o próprio produtor e sua cultura foram convertidos em objetos de estudo e consumo. O poema Fancies on a tea-cup, de Thomas Hood [1836] retrata bem essa transição. O autor narra que ao contemplar porcelanas chinesas, ele também consegue contemplar os costumes chineses. Em uma xícara, ele não apenas bebe o chá, mas é transportado para uma cena da “realidade” chinesa: vê as borboletas, o clima delicado, as flores exuberantes, os belos templos, águas sinuosas e os terríveis dragões. Os costumes chineses, aprendidos em sua xícara, são “extravagantes, mas não bárbaros”. O autor do poema não somente consome a porcelana e o chá, ele consome também a china e o chinês. Ele fala sobre e pelo outro que está imobilizado na louça. Ele interpreta o sorrisos, maneiras e olhares das figuras representadas em suas porcelanas como se estas fossem confissões involuntárias de sua cultura.
O Chinoiserie, estilo estético europeu inspirado nos motivos chineses, também é um exemplo desse processo. Mais do que consumir bens produzidos na China, a Europa passa a tornar-se produtora do oriente. Além disso, o ocidente estava "consumindo" uma versão simplificada e idealizada do outro. Além do Chinoiserie, muitas outras imitações ganharam espaço na Europa. Em Delft, por exemplo, muitas olarias passaram a adaptar suas produções para imitar, com faiança, a porcelana azul e branca oriental.
A reprodução, na Europa, do oriente representa o auge desse processo de domesticação do exótico. Como observa Michael Kwass (2022), mercadores e produtores europeus atuaram como corretores culturais que modularam a estranheza das mercadorias asiáticas, tornando-as palatáveis ao gosto doméstico por meio de hibridismos. A representação tornou-se mais valiosa que a autenticidade porque o simulacro permitia ao Ocidente consumir uma versão simplificada, passiva e idealizada do outro, destituindo a cultura original de sua profundidade histórica e transformando-a em ornamento e moda.
A relação entre o consumo desses itens exóticos e a atitude textual, formulada por Edward Said [2001, p. 102] permite compreender como as novas tendências de representação operaram como um dispositivo epistemológico de dominação. Segundo Said, a atitude textual ocorre quando a complexidade da realidade é preterida em favor de descrições contidas em livros ou modelos pré-existentes, os quais adquirem tamanha autoridade que passam a criar a própria realidade que pretendem descrever. No contexto da Revolução do Consumo, esse processo se transpõe do suporte escrito para o visual: o consumidor europeu não buscava a China histórica, mas sim a validação de um repertório iconográfico já sedimentado em sua cultura, transformando o objeto oriental em uma representação que torna o original supérfluo.
Conclusões
A intersecção entre a globalização e a Revolução do Consumo, além de reconfigurar as rotas comerciais e hábitos domésticos europeus, estabeleceu as bases materiais e epistemológicas para a invenção e subordinação do "outro". O orientalismo, nesse contexto, transcende a sua definição estritamente geográfica ou literária para se revelar como uma engrenagem intrínseca à lógica de consumo globalizada. A necessidade europeia de domesticar o exótico e torná-lo palatável fez com que a própria "outrificação" se tornasse uma mercadoria indispensável. Nesse sentido, para além da globalização ter contribuído para os novos hábitos cotidianos e para a integração cultural entre as distintas partes do globo, ela também permitiu que o Ocidente projetasse sua autoridade para moldar, controlar e falar pelo resto do mundo, transformando o "Oriente" em uma invenção destinada ao consumo intelectual e imaginativo.
Essa lógica de dominação, representação e consumo não atingiu exclusivamente o "Oriente" asiático, mas estendeu-se a todo o mundo conectado por essa nova teia de interdependência, englobando de forma sistêmica a Ásia, a África e as Américas. A assimetria que caracterizou esses "segundos contatos" operou em múltiplas frentes: enquanto a Ásia via sua cultura, estética e história reduzidas a simulacros passivos como o Chinoiserie, as Américas e a África foram submetidas a uma violência estrutural indissociável desse mesmo processo. A extração de prata, o sistema de plantations e o tráfico transatlântico reduziram terras e corpos humanos à condição de "coisa", desumanizando-os para sustentar a base material que permitia o deleite europeu.
Portanto, a globalização e a sociedade de consumo nascente, para além de integrar mercados, forjaram uma hierarquia global de humanidade. Os povos e territórios extra-europeus deixaram de ser vistos simplesmente como produtores ou fornecedores de bens de consumo; eles próprios, juntamente com sua força de trabalho, suas identidades, suas culturas e suas representações, foram convertidos nos bens de consumo que alimentaram a modernidade europeia. O ato de consumir, assim, consolidou-se como um ato de império, no qual vestir um tecido indiano ou beber uma xícara de chá adoçado com açúcar caribenho significava, em última instância, naturalizar a subordinação de todo o resto do globo.
Referências
Luiza Locatel é mestranda em História Social das Relações Políticas pelo PPGHIS da Universidade Federal do Espírito Santo. Estuda os trabalhadores da indústria têxtil inglesa durante a Revolução Industrial.
BROOK, Timothy. Vermeer’s hat: the seventeenth century and the dawn of the global world. London: Profile Books, 2009.
DE ZWART, Pim; VAN ZANDEN, Jan Luiten. The Origins of Globalization: World Trade in the Making of the Global Economy, 1500-1800. 1. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2018.
HANSER, Jessica. Teatime in the North Country: Consumption of Chinese imports in North-East England. Northern History, v. 49, n. 1, p. 51–74, mar. 2012.
HOOD, Thomas. Whims and oddities : in prose and verse. [S.l.]: London : C. Tilt, 1836.
KWASS, Michael. The Consumer Revolution, 1650–1800. 1. ed. [S.l.]: Cambridge University Press, 2022.
RIELLO, Giorgio. The globalization of cotton textiles : Indian cottons, Europe and the Atlantic World, 1600-1850. In: RIELLO, Giorgio; PARTHASARATHI, Prasannan (Eds.). The spinning world : a global history of cotton textiles, 1200-1850. Pasold studies in textile history. Oxford: Oxford University Press, 2009. p. 261–287.
SAID, Edward W. Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
Olá, Luisa, que texto interessante e agradável de ler! Me lembrou também o F. Braudel, com base em Wallerstein, explicando a formação da economia-mundo na modernidade. E é impressionante como o interesse europeu pelos produtos orientais não reverteu em benefício dos povos asiáticos devido a esta formação da assimetria entre europeus e asiáticos, e o fato de estes últimos serem tornados um outro a ser consumido! Já quando os países europeus quiseram impor seus produtos após a era industrial, eles se beneficiaram disto. Você poderia comentar mais sobre a formação desta assimetria, no seu ponto de vista e dos autores com quem você tem dialogado?
ResponderExcluirTambém gostaria de perguntar, já que você trouxe exemplos de produtos da Ásia oriental como tecidos indianos e porcelanas chinesas, se você tem encontrado casos sobre interesse por produtos do Oriente Médio ou territórios islamizados... Obrigado!
Fabrício Oliveira Soares
Olá Fabrício, obrigada pela pergunta!
ExcluirEm primeiro lugar, é necessário destacar que o mundo globalizado permitiu consumos de ambos os lados, tanto dos europeus, como explorado no texto, quanto dos asiáticos. É nesse período que o tabaco (que tem origem americana) chega na ásia, a pimenta (Capsicum), também de origem americana, se populriza. Essas trocas acontecem dos dois lados. Entretanto, essas assimetrias são bem presentes e, evidentemente, permeadas pelo poder colonial, pela exploração de recursos, pela mão de obra, pela violência física e simbólica. Pim de Zwart e Jan Luiten Van Zanden (2018) abordam bem essas questões através da História Econômica, demonstrando como essas interações resultaram em um enriquecimento da europa e um empobrecimento da ásia, comparando, por exemplo, a evolução dos salários reais na China, Japão, Londres, bem como análises aproximadas do PIB per capita de algumas regiões na Asia e faz o mesmo para as Américas.
No meu caso de estudos, que é a indústria têxtil inglesa, é interessante reparar que essa assimetria também aparece de outras formas. Na relação colonial entre índia e Grã-Bretanha, vale ressaltar que no inicio da modernidade a índia era a principal fabricante de tecidos do mundo. Entretanto, o enriquecimento proporcionado pela Companhia das Índias Orientais permitiu grande investimento em tecnologias, o que possibilitou que a Grã-Bretanha tivesse vantagem de custos sobre os tecelões manuais indianos, resultando na invasão dos têxteis de algodão britânicos nos mercados globais e na própria Índia por volta de 1820 (época que estudo). Além da competição tecnológica, o governo colonial britânico impôs medidas de protecionismo assimétrico, protegendo seu mercado interno contra tecidos indianos por meio de tarifas, ao mesmo tempo em que obrigava a Índia a permanecer aberta às importações inglesas.
No caso dos produtos do Oriente Médio e territórios islamizados, tive contato com algumas questões, apesar de não ser meu foco. Enquanto consumidores, participaram ativamente da Revolução do Consumo, com o chá, café, tabaco e tecido, casas de café se popularizaram pelo Cairo e pela Índia, por exemplo. Mas também se tornaram objeto de consumo e desejo. O Michael Kwass (2022) destaca bem isso ao destacar o interesse da Europa por café. As primeiras casas de café da Europa eram inspiradas no Império Otomano, e as famosas tulipas da Holanda também se popularizaram durante a "mania das tulipas", vindas da Turquia.
Um outro exemplo que gosto muito é o das cerâmicas de Isnique (İznik), na Anatólia, que foram produzidas em decorrência do contato com as porcelanas chinesas. Por conta disso, eram decoradas em azul e branco, como as chinesas, mas com motivos turcos, que visavam imitar o prestígio e o valor simbólico da porcelana chinesa.
Olá Luiza, gostaria de te perguntar o que você acha dessa assimetria Ocidente - Resto que aponta no trabalho? Pois, me parece que, no seu trabalho, aparece de um modo um tanto cristalizado, como se não houvesse uma resistência ou uso estratégico dessas relações com o Ocidente pelos agentes políticos de outros territórios, sendo que no século 17 ainda não havia uma hegemonia tão grande dos países europeus em muitas partes do mundo, principalmente na Ásia. Me parece que essa visão tua é bastante ocidentalizada, uma vez que você trouxe somente autores estrangeiros e em inglês, como você a falta de autores de outros contextos/espaços? E por fim, como essa pesquisa se conecta com a tua pesquisa de mestrado sobre a indústria têxtil inglesa na Revolução Industrial?
ResponderExcluirOlá, por algum motivo minha resposta não ficou anexada ao seu comentário, mas está logo abaixo.
ExcluirAt.te
Olá, Milan Puh, obrigada pelo comentário e pergunta.
ResponderExcluirBom, quero iniciar dizendo que eu estudo Inglaterra e indústria têxtil britânica. Portanto, minhas observações sobre o tema partem do diálogo entre meu objeto de estudos e o contexto que o permeia. Considerando isso, é impossível (1) pensar a Revolução Industrial sem pensar na relação da Europa com o mundo globalizado, (2) ignorar a produção de tecido indiana, que dominou os mercados têxteis com a "febre indiana" da modernidade. (3) desarticular a Revolução Industrial da Revolução do Consumo, tema que busquei discutir nesse pequeno ensaio de 3.000 palavras.
Diante disso, cabe ressaltar que as reflexões aqui contidas são resultado direto das discussões direcionadas para a minha dissertação. Além disso, o objetivo do ensaio é refletir sobre a domesticação dos símbolos do oriente enquanto objetos de consumo. Discuto que, para além da globalização ter contribuído para os novos hábitos cotidianos e para a integração cultural entre as distintas partes do globo, ela também permitiu que o Ocidente projetasse sua autoridade para moldar, controlar e falar pelo resto do mundo, transformando o "Oriente" em uma invenção destinada ao consumo intelectual e imaginativo. Isso não significa, de forma alguma, que não exista uma resistência dos agentes subalternos, muito menos que não exista um uso estratégico desses agentes para benefício próprio. Não concordo, pois, que o texto tenha uma perspectiva cristalizada, apenas que esse processo não foi o foco do meu texto. Embora houvesse resistência e agência, não tê-las como foco não significa negá-las. Inclusive, pensar a agência desses sujeitos é igualmente importante. Não acredito que essa assimetria seja simplesmente aceita, de forma passiva. No meu estudo, trabalho com a resistência dos trabalhadores têxteis à modernização e industrialização, destacando-os não como sujeitos passivos das transformações vindas de cima, mas como sujeitos capazes de se articularem, resistirem (no sentido de James Scott) e se apropriarem das políticas de modernização para reivindicarem suas necessidades e pautas. Seja por meio da preguiça, da quebra de máquinas ou da apropriação de leis feitas para puni-los. Cabe ressaltar que essa lógica de pensamento não se aplica apenas para os trabalhadores do contexto que investigo, mas para trabalhadores chineses, indianos, indígenas, etc. Não devemos partir da premissa de que os sujeitos históricos, pelo fato de "estarem no passado", são passivos, carentes de agência.
Sobre a escolha de autores, acho que vale a pena destacar, novamente, que esse pequeno ensaio é paralelo ao meu tema de pesquisa, e, portanto, a escolha de trabalhar com eles faz sentido para o meu problema. Além disso, o uso de autores como Michael Kwass, Timothy Brook e Jan de Vries se justificam pelo fato de eles serem especialistas na análise da Revolução do Consumo especificamente na Europa. Entretanto, apesar de não estarem aqui citados (formato de citação exige que seja referenciado apenas o que for citado), outros autores, como Victor Li e sua interpretação de "globalorientalization", Anandi Ramamurthy em sua magnífica análise de anúncios comerciais de produtos retratando a África e a Ásia e, principalmente, Prasannan Parthasarathi (sobre a grande divergencia, sobre a substituição da indústria têxtil indiana pela britânica, e pelo enriquecimento da europa com a exploração colonial) foram consultados para a elaboração do texto (Parthasarathi também para minha dissertação).
Por fim, minha dissertação está conectada a esses temas pelo contexto e pelas abordagens teóricas feitas: a inegável intersecção entre globalização e consumo é ponto essencial para a industrialização inglesa, que se fortalece com o dinheiro das explorações coloniais e se direciona para substituir o mercado dominado pela "febre indiana" ao mesmo tempo que desestrutura a produção desses mesmos territórios através de assimetrias de poder.