Introdução
Mao Zedong (1893-1976) é um dos mais importantes líderes marxistas da história, governando a China de 1949 até 1976. Apesar da notoriedade de Mao se constituir a partir de seus escritos marxistas, ele já havia produzido artigos e ensaios antes de seu encontro com o marxismo. Esses artigos e ensaios, que são as partes menos conhecidas e estudadas de sua obra, contém em si vários tópicos que seriam posteriormente desenvolvidos por Mao após se tornar marxista. Nesses anos iniciais, as preocupações e os focos de atenção de Mao eram muito mais dispersos, abrangendo tópicos sobre sociedade, crítica cultural e até educação física. Neste momento de sua vida, Mao mandou artigos a serem publicados em jornais e revistas locais, como o 新靑年/Nova Juventude, por onde veio a conhecer os primeiros marxistas chineses.
É possível localizar a “conversão” de Mao ao marxismo em entre os anos 1918 e 1920, sendo plenamente convencido por ele ao final de 1920. Nesse primeiro momento de sua obra, os escritos de Mao foram dominados por artigos para a imprensa, normalmente comentando fatos políticos locais, de um caráter mais provincial, focando na província de Hunan. Os primeiros escritos que se tem notícia remonta ao início de sua idade adulta, quando Mao Zedong tinha 19 anos.
Anos 10: Formação do pensamento
Os primeiros escritos de Mao Zedong que se têm notícias são uma série de cartas e produções escolares que ele produziu entre 1912 e 1917 (SCHRAM, 1992, p. v-vi). No geral, são escritos fragmentários, sem uma aparente relação com o pensamento posterior de Mao, apesar de alguns poucos temas já terem expressão desde essa época. O período em que Mao escreveu esse material corresponde ao período final de sua educação escolar, por ocasião da sua graduação na Primeira Escola Normal Provincial de Hunan, em 1918. Mais da metade dessas cartas são endereçadas ao seu amigo 萧子升/Xiao Zisheng, com quem fundou, em 1918, a Nova Sociedade de Estudos Populares, uma organização estudantil local de onde viriam diversos quadros do Partido Comunista da China (KARL, 2010, pp. 12-13).
O primeiro texto de Mao que se tem registro é seu breve ensaio sobre Shang Yang, escrito durante seu período na Primeira Escola Secundária Provincial. Shang Yang foi um estadista do Período dos Estados Combatentes (475-221 a.c.), a quem foi creditado dois importantes feitos: reformar o Estado de Qin, permitindo que este fosse o primeiro estado unificado da história chinesa, e lançar as bases do que seria a 法家/Escola Legalista, uma das mais influentes escolas de pensamento da história chinesa.
De acordo com Wang (2020) e Meisner (2007), o legalismo tem uma importante influência no pensamento de Mao, sendo uma de suas fontes filosóficas. Nesse breve ensaio sobre 商鞅/Shang Yang, em duas páginas, Mao lamenta a incapacidade do povo chinês de valorizar bons modelos de governantes, levando o país a sua atual decadência, sendo Shang Yang um modelo de governante virtuoso a ser valorizado (SCHRAM, 1992, pp. 5-6). Mao escreveu esse texto em junho de 1912, um ano após a proclamação da república na China, em um momento de muita instabilidade política. O fim da monarquia manchu foi assinalada, entre outros fatores, pela crescente indolência dos seus governantes e sua fraqueza frente aos desafios impostos pelas potências ocidentais, em especial Reino Unido, levando à perda de legitimidade do governo e sua substituição pela república.
Para além desse primeiro ensaio sobre Shang Yang, suas anotações de sala de aula, e cartas que trocou com amigos, Mao começou a escrever publicamente em 1917, com o lançamento do ensaio Estudo de Educação Física. Este artigo saiu na Nova Juventude, um dos mais importantes jornais culturais da época, apresentado a ele por 楊昌濟/Yang Changji (1871-1920), professor de filosofia e importante figura na vida de Mao. Esse ensaio, sinteticamente, argumenta pelo ensino de educação física como um instrumento de fortalecimento nacional, sendo uma boa educação física necessária para uma nação vigorosa e capaz de se impor no cenário internacional (MAO & RONALDSON, 2021, p. 1-15). A abertura deste ensaio exemplifica essa preocupação com o fortalecimento da nação:
“Nossa nação carece de força. O espírito militar não tem sido incentivado; a condição física da população se deteriora a cada dia. Esse é um fenômeno extremamente preocupante. Os promotores da educação física não compreenderam a essência do problema e, portanto, seus esforços, embora prolongados, não têm sido eficazes. Se esse estado continuar, nossa fraqueza aumentará ainda mais. Alcançar nossos objetivos e fazer sentir nossa influência é uma questão externa, um efeito. O desenvolvimento de nossa força física é uma questão interna, uma causa. Se nossos corpos não forem fortes, sentiremos medo assim que virmos soldados inimigos. Como, então, poderemos alcançar nossos objetivos e conquistar respeito? A força depende do treinamento, e o treinamento depende da autoconsciência. [...].” (MAO, [1917] 2021, p. 1) (Tradução minha)
Após a publicação desse ensaio, Mao se tornou um frequente escritor de artigos e ensaios para jornais de circulação local. De acordo com Schram (1992), entre 1917 e 1918, Mao escreveu 19 artigos e cartas de que se tem registro. A onda de artigos e publicações viria em 1919, ano em que Mao esteve em Beijing e que, por conta da doença de sua mãe, retornou para Changsha, em Hunan. Nesse ano, Mao escreveu 63 artigos, em sua maioria para o jornal 湘江评论/Crítica do Rio Xiang, fundado pelo autor.
Neste periódico, foram publicados dois importantes artigos escritos por Mao no final de seu período pré-marxista: “A Grande União das Massas Populares” e o “Suicídio da Senhorita Zhao”, publicado inicialmente em uma série de 10 artigos separados. Este primeiro, escrito no calor do Movimento 4 de Maio, conclama a união das massas populares para a derrubada do estado e das elites decadentes. Já esse segundo trata de uma série de problemáticas na relação entre gêneros no contexto chinês, focando na questão do casamento como uma instituição especialmente opressiva para as mulheres chinesas (SCHRAM, 1992, pp. 378-388) (Ibidem, pp. 421-448).
Durante seus primeiros anos escrevendo publicamente, Mao publicou em dois lugares: o jornal Crítica do Rio Xiang e a revista Nova Juventude. Fundado em 1919, a Crítica do Rio Xiang foi um jornal de vida curta, sendo uma das primeiras publicações comunistas na China, e uma das primeiras a ser perseguidas por esse motivo (LI JUI, 1977, pp. 106-120). Apesar de ter tido apenas 5 números, ao longo de três meses, essa foi a primeira experiência de Mao organizando uma publicação e escrevendo a maior parte dos artigos do jornal, sendo o principal fiador da sua linha editorial. O jornal foi escrito no dialeto provincial de Hunan, com o objetivo de popularizar a distribuição.
Contudo, o mais importante veículo que Mao publicou em seus anos iniciais foi na revista Nova Juventude. Fundada por 陈独秀/Chen Duxiu (1879-1942) em 1915 como uma revista cultural, a Nova Juventude foi o mais influente periódico desse tipo na China das décadas de 10 e 20. Como principal veículo de circulação de ideias radicais e reformistas, foi uma tribuna privilegiada de debates entre uma geração de intelectuais chineses emergentes após o fim da monarquia (CHAN, 2003, pp. 31-32). Muitos desses intelectuais se radicalizaram a partir de 4 de maio de 1919 e se engajaram na fundação do Partido Comunista da China (PCCh), com Chen Duxiu como seu primeiro secretário geral.
A virada ao marxismo no pensamento de Mao começa em idos de 1918 e se consolida em 1920, com sua “conversão” ao marxismo e a rejeição do anarquismo e do liberalismo. Tanto sua estadia em Beijing, a partir de 1918, quanto seu contato com estudantes chineses que residiam na França, como parte de um programa de trabalho-estudo, foram aproximando Mao do marxismo-leninismo (KARL, 2010, p. 13). Seu contato com os fundadores dos PCCh na Universidade de Beijing, sua participação em grupos de estudos marxistas, e a popularização do marxismo na China a partir de 4 de maio de 1919 foram eventos decisivos na formação de Mao enquanto marxista.
Década de 20: Marxismo
A partir de sua ida a Beijing (1918) Mao teve contato com as ideias do marxismo, mundialmente difundidas após a Revolução Russa de 1917. A convivência dos dele nos círculos intelectuais por onde circulou o permitiu ter acesso a textos até então inéditos em mandarim, colocando-o em contato com os debates mais atuais do marxismo à época. Com o retorno de Mao a Hunan (1921) começou sua produção marxista propriamente dita.
De acordo com Chan (2003), Mao teve acesso a partes das obras de Marx, Engels e Lênin, através de traduções para o mandarim. Em Beijing, Mao passou a maior parte do seu tempo trabalhando na Universidade de Beijing e convivendo em seus círculos intelectuais. Por conta disso, é possível afirmar que Mao teve contato com importantes trabalhos de Marx e Engels, por conta de traduções realizadas em primeira mão pelo grupo de estudos marxistas da Universidade de Beijing, coordenado por Chen Duxiu e 李大釗/Li Dazhao. Entre as obras estudadas estavam: A Questão Judaica (1843); A Sagrada Família (1844); O Manifesto Comunista (1848); Trabalho Assalariado e Capital (1849); trechos d’O Capital (1867); Guerra Civil na França (1871), este um texto particularmente importante para o grupo; e Crítica do Programa de Gotha (1891).
De Lênin, este grupo traduziu: O Estado e a Revolução (1917); Imperialismo: O Estágio Superior do Capitalismo (1917) e Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo (1920). Surpreendentemente, até alguns textos do Leon Trotsky (1879-1940) tiveram tradução para o chinês: Bolchevismo e a Paz Mundial (1918) e Comunismo e Terrorismo (1920). Por ser fluente em mandarim e no dialeto de Hunan, Mao estava a par do conteúdo dos textos traduzidos e participou das discussões teóricas sobre eles, sendo esta sua base teórica marxista.
Entre 1918 e 1921, Mao reside intermitentemente entre Beijing, Shanghai e Changsha, circulando entre essas cidades a cada poucos meses (SCHRAM, 1992, p. xlii). Apesar de não ter participado do Movimento 4 de Maio em Beijing, por conta de uma doença de sua mãe que o obrigou a retornar a Hunan, Mao organizou protestos, associações e sindicatos enquanto estava em sua província natal, chegando a derrubar o governador local da província. Apenas após a fundação do PCCh, em 1921, o jovem comunista pôde retornar para sua província e se dedicar ao movimento sindical local. Entre 1921 e 1923, em Hunan, segundo ele mesmo, Mao ajudou a organizar pelo menos vinte sindicatos de trabalhadores de ferrovias e de mineiros (KARL, 2010, p. 22).
Nesses primeiros anos após a fundação do PCCh (1921), mas antes da Primeira Frente Única com o Guomindang (1923), os textos escritos por Mao tinham um caráter fortemente sindical. Os textos produzidos pelo autor foram em sua maioria artigos para jornais, manifestos, declarações públicas de sindicatos, cartas para amigos, documentos políticos, relatórios de reuniões com autoridades políticas e dísticos (SCHRAM, 1994, pp. v-vii). A coletânea organizada por Schram (1994), contabiliza 25 textos escritos por Mao no biênio 1921-22. O caráter dessa produção bibliográfica demonstra a centralidade do trabalho sindical nos primeiros anos de Mao pós fundação do PCCh, em detrimento do trabalho teórico marxista. Contudo, o massacre de 7 de fevereiro de 1923 iria reorientar decisivamente o trabalho de Mao.
Como reconhecimento por seu trabalho na organização sindical em Hunan, Mao foi incorporado em 1923 ao Comitê Central do PCCh, passando a integrar a direção permanente do partido em Shanghai. Pouco antes de sua mudança, porém, o crescimento do movimento operário despertou a reação de Wu Peifu, o principal caudilho chinês da época. Temendo a criação de um sindicato unificado dos ferroviários da estratégica linha Beijing-Hankou, Wu ordenou uma violenta repressão. Após a greve geral deflagrada em 4 de fevereiro, seus exércitos massacraram trabalhadores e desmantelaram sindicatos e associações operárias, prendendo diversos militantes comunistas (KARL, 2010, p. 23).
A derrota do movimento sindical teve consequências profundas para o PCCh. Em poucas semanas, anos de trabalho organizativo foram praticamente destruídos, reforçando entre seus dirigentes a percepção de que o partido, ainda pequeno e frágil, não conseguiria enfrentar sozinho os caudilhos regionais e o imperialismo estrangeiro (SCHWARTZ, 1979, p. 48). Essa avaliação, somada às orientações de Mikhail Borodin (1884-1951), representante do Comintern na China, levou à formação da Primeira Frente Única entre o PCCh e o Guomindang (GMD), cuja principal proposta era reunificar o país e combater a influência imperialista.
Mao foi decisivamente a favor dessa aliança, defendendo a filiação de membros do PCCh no GMD e a formação de um bloco entre os comunistas e a ala à esquerda do GMD. Por ser um partido mais frouxo nos seus critérios de filiação, o GMD era muito ideologicamente diverso e significativamente maior que o PCCh. O Guomindang abarcava comunistas, social-democratas, intelectuais liberais e militares anticomunistas, chegando até a ter milícias protofascistas. Frente a essa diversidade, os comunistas chineses propunham uma aliança com os setores mais progressivos do GMD, buscando uma liderança alinhada aos interesses do PCCh e do Comintern (Ibidem, p. 57). Essa estratégia durou até 1927, quando a Frente Única colapsou frente aos ataques dos nacionalistas aos comunistas e a ala à esquerda do GMD preferiu repactuar com os elementos mais conservadores do partido.
Entre 1923 e 1927, Mao elaborou 100 documentos, que vão de transcrições de intervenções suas em congressos e reuniões a poemas e artigos em jornais, além de resoluções partidárias, documentos e relatórios (SCHRAM, 1994, pp. vi-x). Desses 100 documentos, dois são importantes marcos para o desenvolvimento de seu pensamento: “Análise das Classes na Sociedade Chinesa” (1926) e “Relatório Sobre Uma Investigação Feita em Hunan a Respeito do Movimento Camponês” (1927), também conhecido como Relatório de Hunan.
“Análise das Classes na Sociedade Chinesa” também foi escrito por Mao Zedong em 1926, como a primeira análise mais detida sobre o caráter das classes no contexto chinês. Esse é uma dos principais artigos da trajetória de Mao, e foi escolhido pelo PCCh para ser o primeiro artigo da coletânea oficial de obras escolhidas de Mao Zedong. Nesse texto, Mao faz um panorama das principais classes presentes na sociedade chinesa, que seriam: os senhores de terras e a burguesia compradora, a média burguesia, a pequena burguesia, o semi-proletariado, o proletariado e o lumpemproletariado. A partir desse estudo, os camponeses tiveram seu potencial revolucionário observado por Mao, com as devidas nuances dada a sua própria heterogeneidade como classe social, sendo considerados por Mao parte do semi-proletariado e parte do proletariado agrícola.
O Relatório de Hunan foi onde Mao aprofundou a análise do movimento camponês e de sua dinâmica política, estudando as associações camponesas, suas influências locais e os embates entre elas e os grandes proprietários de terra. Essas associações eram espaços de auto-organização da classe camponesa, realizando obras de infraestrutura locais, organizando milícias armadas para sua autodefesa e enfrentando os sistemas de autoridade tradicionais (autoridade estatal, familiar, religiosa e patriarcal). Nessas associações Mao viu as potenciais sementes da revolução, mais férteis e propícias para construir o PCCh do que nas cidades e entre o proletariado urbano. A importância dos camponeses, em especial os camponeses pobres, para a revolução foi destacada por Mao nesse relatório.
O ponto de virada na relação do PCCh com o GMD foi o Massacre de Shanghai, em abril de 1927. Fortalecido politicamente, Chiang liderou a Expedição do Norte, campanha militar bem-sucedida que, com apoio soviético, derrotou os principais caudilhos e promoveu a reunificação formal da China sob o governo nacionalista. No entanto, o sucesso da expedição também ofereceu a oportunidade para eliminar a influência comunista. Em abril de 1927, após um levante comunista facilitar a tomada de Shanghai pelas forças nacionalistas, as tropas de Chiang promoveram um massacre contra comunistas e seus aliados, marcando o rompimento definitivo entre as duas forças (MEISNER, 2008, p. 64).
Com a ruptura da Primeira Frente Única, se seguiu um terror generalizado contra os comunistas. Mais de 80% dos filiados ao PCCh foram mortos, incluindo um de seus fundadores, Li Dazhao (KARL, 2019, p. 34). Culpado pelo desastre que se abateu, Chen Duxiu foi destituído do cargo de secretário-geral e foi ostracizado pelo movimento comunista. O PCCh estava em frangalhos, sem norte e sem direção, levando a uma situação em que as células regionais se tornaram autônomas em relação ao comitê central.
Nesse momento, Mao já não estava mais na direção do partido, mas conservava uma importante influência nas regiões onde atuou. Após a ruptura com os nacionalistas, Mao organizou a Revolta da Colheita de Outono, em setembro de 1927, na fronteira das províncias de Hunan e Jiangxi, que foi rapidamente esmagada pelos nacionalistas. A repressão a essa revolta levou Mao e seus companheiros a recuar para as montanhas de Jinggang, onde organizaram a primeira base de guerrilha rural (Ibidem, p. 37). A base de Jinggang foi o primeiro refúgio revolucionário de Mao Zedong e 朱德/Zhu De, estabelecida em 1927 nas montanhas de 井冈山/Jinggangshan, onde se iniciou a organização de guerrilhas camponesas. Essa base serviu como embrião para o Soviete de Jiangxi, fundado em 1931, que se tornou a principal área controlada pelo Partido Comunista da China até 1934.
Conclusão
Os escritos de Mao pré-Guerra Civil Chinesa podem ser divididos em dois momentos: o pré-marxista e após sua adesão ao marxismo. Na sua era pré-marxista, Mao focou em comentários políticos cotidianos, cartas para seus amigos e reflexões sobre a decadência nacional pela qual passava a China. Após sua opção pelo marxismo, seus textos ganham um caráter muito mais crítico ao cenário político, sendo muitos deles documentos internos ou intervenções suas em movimentos de massa. Antes da sua aproximação do campesinato, a reflexão sobre o trabalho sindical ocupava grande parte do tempo de Mao como organizador.
É possível afirmar que antes da Guerra Civil Chinesa, que levou Mao à liderança da nação chinesa, seus escritos já tematizam as principais injustiças que afligiam a China. O conflito entre classes, a opressão de gênero e a construção cotidiana de movimentos que buscavam resolver esses conflitos são parte desses documentos e análises da sociedade chinesa no início do século XX. A radicalização de Mao e seu engajamento político é o retrato mais acabado da ruptura de uma geração chinesa com o seu passado, visto como uma âncora presa ao atraso.
Referências
Luis Guilherme Nobrega Amorim - mestre e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS-USP)
CHAN, A. Chinese Marxism. London: Bloomsbury Academic, 2003.
KARL, Rebecca E. Mao Zedong and China in the Twentieth-century World. London: Durham University Press, 2010.
LI JUI. The Early Revolutionary Activities of Comrade Mao Tse-tung. New York: Publisher White Plains, 1977.
MAO ZEDONG; RONALDSON, Astrid. Mao Zedong: The complete works. Iconoclast Publishing, 2021.
MAO, Z.; SCHRAM, S. R. Mao’s road to power: Revolutionary writings, 1912-1949. The pre-Marxist period, 1912-1920. London: Routledge, 1992. V. 1
______________________ Mao’s road to power: Revolutionary writings, 1912-1949. National Revolution and Social Revolution, Dec. 1920-June 1927. London: Routledge, 1994. V. 2.
MEISNER, M. Mao Zedong: A political and intellectual portrait. Cambridge: Polity Press, 2007.
SCHWARTZ, B. Chinese Communism and the Rise of Mao. New York: Harvard University Press, 1979.
Olá, Luis Guilherme. Achei seu texto muito interessante! Enquanto lia, fiquei com a impressão de que, mesmo antes da adesão ao marxismo, já existia uma preocupação constante de Mao com a regeneração nacional que aparece não apenas na política, mas reverbera em outras dimensões da sociedade. No meu texto, tentei articular a prática da pintura de paisagem com o socialismo chinês e percebo a importância dos escritos de Mao, ainda que não os tenha considerado diretamente neste momento. Você teria pistas a esse respeito? Ou, dito de outra forma, existem indícios de que, ainda nesse período pré-marxista, Mao demonstrasse alguma preocupação mais específica com a arte ou com a cultura como instrumentos de transformação da sociedade? Ou essa dimensão só ganha maior centralidade em sua produção posterior?
ResponderExcluirMuito obrigado pela pergunta, Kerolayne!
ExcluirA questão da regeneração nacional realmente constitui um dos eixos centrais do pensamento de Mao Zedong desde seus primeiros escritos. Já em seus textos da juventude, antes da adesão ao marxismo, observa-se uma preocupação constante com o fortalecimento da nação chinesa, como no seu ensaio sobre 商鞅/Shang Yang. Seu primeiro texto de intervenção pública, sobre a importância da educação física, evidencia a associação entre o fortalecimento dos indivíduos e a revitalização da China. Ao longo de sua trajetória, essa preocupação permanece presente e se traduz em sua atuação política e em grande parte de sua produção escrita, especialmente nos documentos elaborados durante a direção do Partido Comunista da China, ao invés de textos propriamente teóricos.
No que se refere à arte e à cultura, embora Mao somente desenvolva uma formulação teórica mais sistemática durante o período de Yan'an, sua trajetória intelectual demonstra desde o início uma valorização da esfera cultural. A publicação de seus primeiros textos na revista Nova Juventude, seu diálogo com o debate intelectual da época e escritos como O Suicídio da Senhora Zhao evidenciam seu envolvimento com as disputas culturais e sua compreensão da cultura como espaço de intervenção política, através de veículos de mídias, como jornais e revistas. Assim, ainda que uma elaboração conceitual mais consistente surja apenas na década de 1940, a dimensão prática da cultura já ocupava um papel relevante em sua atuação desde os primeiros anos.
Muito obrigada pela resposta, Luis Guilherme! Suas indicações realmente abrem muitas frentes de investigação. É muito interessante pensar na possibilidade da questão cultural funcionar como uma espécie de “fio condutor” para Mao. Muito sucesso para você em suas pesquisas!!!
ExcluirCaro Luis Guilherme, parabéns pelo texto que articula contexto histórico, pensamento político e prática revolucionária, permitindo compreender que os escritos de Mao não foram apenas reflexões teóricas, mas instrumentos de organização, mobilização e construção de uma nova concepção de Estado e de sociedade.
ResponderExcluirMinha questão é a seguinte: considerando que os escritos analisados foram produzidos em um contexto específico de luta revolucionária, fragmentação política e ameaça externa, até que ponto devem ser compreendidos como formulações teóricas de alcance universal ou como respostas históricas a problemas concretos enfrentados pela China naquele momento? Como evitar tanto a leitura que universaliza o pensamento de Mao para além de seu contexto quanto a interpretação que o reduz exclusivamente às circunstâncias históricas em que foi produzido, desconsiderando sua influência posterior sobre outros movimentos revolucionários e sobre a própria construção do Estado chinês?
Muito obrigado pela pergunta, professor Alexander. A questão que o senhor levanta remete justamente ao debate sobre a universalidade do pensamento de Mao Zedong, um tema amplamente discutido no interior da tradição marxista-leninista. De um lado, há quem compreenda o pensamento de Mao como uma aplicação do marxismo-leninismo às condições concretas da China. De outro, correntes maoístas defendem que ele constitui um desenvolvimento universal do marxismo, válido para diferentes realidades históricas.
ExcluirConsidero que o pensamento de Mao é profundamente moldado pelas circunstâncias específicas da China da primeira metade do século XX, como a fragmentação política, o imperialismo, o colonialismo, a guerra e a luta pela libertação nacional. Essas condições concretas orientam grande parte de suas formulações teóricas e de sua prática política.
Ao mesmo tempo, muitos dos problemas enfrentados por Mao, como o imperialismo, a dominação colonial, a questão nacional e as formas de exploração, não são exclusivos da experiência chinesa. São temas que também aparecem em outras tradições marxistas, especialmente aquelas desenvolvidas em contextos não europeus e anticoloniais. Assim, embora as respostas elaboradas por Mao sejam historicamente contingentes, elas dialogam com questões que possuem um alcance mais amplo.
Por isso, diria que a força do pensamento de Mao está justamente na articulação entre o particular e o universal. Ele parte das condições concretas da China, mas produz reflexões que dialogam com desafios compartilhados por diferentes experiências revolucionárias. Trata-se de um debate que permanece em aberto, mas entendo que essa relação dialética entre especificidade histórica e pretensão universal é uma das características mais importantes do pensamento maoísta.