Introdução
A literatura
hagiográfica da Primeira Idade Média Oriental — particularmente a produzida nos
domínios do Império Bizantino — notabilizou-se pela circulação de narrativas
das chamadas ‘santas travestidas’ [Constas, 1996, p. 1]. Trata-se de um
conjunto literário sobre mulheres que assumem identidades masculinas para
ingressar no meio monástico, do qual a obra anônima Vida de Marina/Marino,
datada do século VI, é um expressivo exemplar, tendo circulado em diversos
idiomas ao longo dos séculos, como grego, latim, siríaco, copta, árabe, etíope,
francês, alto-alemão e armênio. O presente estudo objetiva analisar a
hagiografia como parte de um projeto eclesiástico prescritivo focado na
domesticação da agência feminina, apresentando as mulheres como parte de uma ontologia
frágil e propensa ao mal que pode ser curada por meio do ascetismo.
Metodologicamente,
a fonte é analisada à luz do conceito de Poder Pastoral de Michel
Foucault [2014]. Sendo este uma tecnologia de governo das almas que combina
cuidado e dominação, exercido na narrativa de forma incontestável pela figura
do abade. É ele quem detém o monopólio da interpretação da conduta moral e
define a verdade sobre os sujeitos. Para compreender como esse poder atua sobre
o corpo da hagiografada, mobiliza-se também a noção de Performatividade de
Gênero [Butler, 2003], o modelo de Corpo Único [Laqueur, 2001] e o
conceito de Viriarcado [Gazalé, 2017]. Nesse horizonte
teológico-político-cultural, o gênero não reflete uma biologia imutável, mas
uma performance hierárquica na qual o corpo masculino era o paradigma da
perfeição, e o feminino, sua versão imperfeita e falha. Logo, para ascender à
santidade, a mulher precisaria afastar-se de sua ‘natureza’ intrínseca.
Para apreender a
profundidade dessa construção prescritiva, é imperativo situar a Vida de
Marina/Marino em seu contexto de produção. O século VI é marcado pela
ascensão do Episcopado Monárquico [Ubiña, 2016, p. 40-41] no Oriente, um
período caracterizado por tensões políticas prementes e disputas entre a autoridade
espiritual dos monges e a administração institucional dos bispos [Rapp, 2005,
p. 279]. Em um cenário de progressiva centralização do poder eclesiástico e de
investidas imperiais para subordinar os mosteiros à estrutura diocesana [Rapp,
2005, p. 137-147], a normatização do corpo feminino e seu enquadramento sob a
rígida governança da Igreja não eram preocupações secundárias: atuavam como uma
afirmação de autoridade e como um projeto de ordenamento sociopolítico.
A Vida de Marina
A Vida de
Marina/Marino, insere-se na tipologia literária de bios, cujo atributo
imanente manifesta um teor eminentemente laudatório e prescritivo, voltado para
a edificação de arquétipos morais. A crítica da fonte, aliada à historiografia
sobre a literatura monástica bizantina, permite-nos afirmar que a narrativa foi
redigida e circulada majoritariamente por indivíduos do sexo masculino
pertencentes à elite eclesiástica [Oliveira, 2022; Rubin, 2013, p. 486; Talbot,
1996, p. xiv]. Consequentemente, o texto não reflete a experiência medieval
feminina, mas sim o horizonte de expectativas e normatizações do clero sobre
essas mulheres. Nesse sentido, a obra consolida-se como uma espécie de
‘ventriloquismo’ do Poder Pastoral, pois o hagiógrafo estaria silenciando a
materialidade feminina para substituí-la por uma projeção didática das
expectativas teológicas de seu tempo [Oliveira, 2022]. Esse esforço alinha-se a
um projeto iniciado já no cristianismo antigo, por volta do século II
[Cavalcanti, 2014, p. 8; Martínez, 2014, p. 26; Meeks, 2003, p. 71], sob a
influência do mos maiorum romano, que visava restringir a atuação
feminina no contexto cristão.
A arquitetura
narrativa desenhada para essa exortação moral pode ser delineada de forma
sucinta. O enredo tem início quando Eugênio, pai da jovem Marina, decide
retirar-se para um mosteiro. Diante do desejo da filha de acompanhá-lo, o pai
inicialmente recusa, justificando que “[...] é através dos membros do seu sexo
[feminino] que o diabo trava guerra contra os servos de Deus” [LSMM, 7,
3, tradução nossa]. Para contornar esse obstáculo, Marina corta os cabelos,
adota o hábito masculino e assume o nome Marino, ingressando no ambiente
claustral. O ápice da provação ascética de Marino ocorre fora dos muros do
mosteiro: ao pernoitar em uma estalagem, o monge é falsamente acusado de
estupro pela filha do estalajadeiro, que havia, na verdade, engravidado de um
soldado.
Diante da
acusação e da fúria do abade, Marino não revela sua identidade; submetendo-se
em um autodomínio silencioso, assumindo a culpa por ter ‘pecado como homem’ [LSMM,
9, 11] e sendo expulso do cenóbio. A confirmação de sua identidade ocorre
apenas após a sua morte. Durante a limpeza de seu cadáver, a anatomia feminina
é atestada pelos monges, configurando o milagre da vitória do espírito ascético
sobre a matéria defeituosa, resultando em sua póstuma santificação. Ademais, a
obra descreve a cura milagrosa da filha do estalajadeiro, que, após a mentira,
terminara possuída por um demônio, sendo liberta apenas junto ao túmulo sagrado
da santa.
A disposição
deste enredo serve de alicerce para a tese central da narrativa: a hagiografia
não celebra a mulher em si, mas a superação ontológica da mulher. Um paradoxo
estruturante rege a inteligibilidade de gênero da obra: para ascender à santidade,
Marina precisou deixar de ser, visual e socialmente, mulher. A narrativa
estabelece que o feminino, quando deixado em seu estado ‘natural’ ou laico, é
intrinsecamente um canal para o vício e para o diabo. A operação pedagógica do
texto diagnostica a natureza feminina como uma patologia espiritual latente.
Segundo Thomas
Laqueur [2001], durante a Antiguidade, a medicina romana apresentaria o corpo
feminino como uma versão imperfeita do corpo masculino. Já no cristianismo,
essa noção teria sido consubstanciada por uma visão de maior porosidade ao
pecado e à influência demoníaca, por exemplo. A hagiografia em questão busca
reforçar justamente esta ontologia, ‘comprovando-a’ ao introduzir a filha do
estalajadeiro.
Desprovida de
tutela e ascese, ela corporifica a mulher natural, suscetível ao mal e ao
pecado, que cede à luxúria, dissimula através da calúnia e, inevitavelmente,
converte-se em um receptáculo habitado pelo diabo. Diante disso, a hagiografia
oferece uma ‘cura’: a virilização. A masculinização performática de Marina não
subverte a hierarquia patriarcal, e sim a reforça. Exige-se da mulher a
obliteração de suas particularidades e a rigorosa adoção de prerrogativas
viris. A santificação de Marina não é um reconhecimento da agência feminina, e
sim uma forma de recomendar o apagamento de uma identidade, o silêncio
obsequioso, e uma total submissão para contrapor uma ‘natureza’ tida como
perigosa, normatizando, por fim, o corpo feminino sob a governança
eclesiástica.
A prescritividade
é explícita ao final da obra, exortando os fiéis a “[...] zelosamente emular a
abençoada Marina e sua paciente perseverança, para que no dia do julgamento,
possamos encontrar misericórdia diante de nosso Senhor Jesus Cristo, a quem
pertencem a glória e o domínio pelos tempos dos tempos. Amém” [LSMM, 12,
21, tradução nossa].
A Representação
Feminina
A operação
pedagógica da Vida de Marina/Marino inicia-se muito antes das práticas
ascéticas da protagonista ou da calúnia que ela sofre, instaurando-se no
momento da ruptura do secular para o sagrado. A hagiografia estabelece, desde
as suas premissas inaugurais, uma tensão estrutural que se desdobra por meio da
proposição de duas categorias ontológicas e arquetípicas para o sujeito
feminino: a ‘mulher natural’ e a ‘mulher viril’.
Quando a jovem
Marina demonstra o desejo de acompanhar o seu pai, Eugênio, ao cenóbio,
depara-se com uma recusa justificada não por questões pragmáticas, mas pela
periculosidade metafísica de seu sexo. Eugênio adverte categoricamente a filha,
como vimos anteriormente, que é através das mulheres que o diabo trava guerra
contra os servos de Deus. A partir desta fala, a narrativa consolida a premissa
de que a mulher, em sua condição laica e natural, é intrinsecamente um vetor de
contaminação que ameaça os cristãos.
A hagiografia
oferece uma ‘demonstração empírica’ deste diagnóstico através da introdução da
figura antagônica representada pela filha do estalajadeiro. Esta personagem
atua como o paradigma da mulher laica. Abandonada à sua inclinação tida como
natural e desprovida da tutela religiosa, ela corporifica o arquétipo misógino
[Gazalé, 2017, p. 31, 80, 113] que associa mulheres à matéria, à passividade e
à dissimulação. Ao ceder aos desejos carnais engravidando de um soldado e,
posteriormente, dissimulando a sua falha ao acusar falsamente o ‘jovem e belo’
[LSMM, 9, 9] monge Marino de violação sexual, ela atesta a incontinência
congênita atribuída ao feminino.
A tessitura do
texto revela que o corpo desta ‘mulher profana’ é intrinsecamente vulnerável,
permeável tanto ao desejo carnal quanto à calúnia e, fatalmente, à posterior
possessão demoníaca. Após a morte de Marina, a filha do estalajadeiro reaparece
na hagiografia, mas desta vez possuída por um demônio, confessando a sua
mentira diante do túmulo da santa. A possessão funciona como a materialização
incontestável de sua essência corrompida: ela converte-se, visível e
concretamente, no instrumento do diabo que Eugênio temia. O demônio confessa a
verdade que a pecadora ocultou, operando sob a lógica pastoral do exorcismo não
apenas como cura, mas como um exame da alma que extorque a verdade escondida e
restabelece a ordem tutelar da Igreja [Foucault, 2020, p. 96; p. 490]. Ela
representa a contraprova necessária à tese do hagiógrafo e o arcabouço justificatório
para a misoginia institucional do episcopado em ascensão.
Em contraposição
à falibilidade da filha do estalajadeiro ergue-se a figura de Marina, a
personificação da mulher viril. Ela performa uma obliteração social e visual de
seu gênero, engajando-se em um rigoroso percurso ascético de negação de si. A
sua virtude máxima reside no momento em que, confrontada com a falsa acusação
de estupro pelo abade, recusa-se a revelar sua anatomia feminina dizendo
“Perdoe-me, pai, pois pequei como homem” [LSMM, 9, 11, tradução nossa] e
aceitando de maneira totalmente submissa a sua consequente punição.
Ao contrário da
mudez imposta às mulheres no mundo romano e da injunção paulina de subordinação
feminina [Meeks, 2003, p. 71; Gazalé, p. 114], a ausência de defesa de Marino
caracteriza-se como um ‘silêncio viril’. Readaptado da moral estóica, esse
silêncio exige perfeito autodomínio, a contenção das paixões e um controle de
si. Marina, destarte, performa [Butler, 2003] o autocontrole inabalável de um ‘vir
perfeito’, provando que a sua virilidade ascética controla o seu ser.
Michel Foucault
[2020], ao investigar a transformação semântica e prática da obediência na
transição do estoicismo romano para o paradigma cristão, evidencia a ruptura
entre esses dois modelos. O filósofo aponta que, enquanto a direção estóica
buscava dotar o indivíduo de razão para que exercesse um domínio soberano sobre
suas próprias vontades e paixões, tornando-se mestre de si mesmo, o
cristianismo inverte essa lógica ao ter como alvo a renúncia irrestrita do
querer. Nesse contexto, as práticas ascéticas exigidas aos monges — como jejuns
e vigílias — só adquirem sua função plena se atravessadas por uma obediência absoluta,
capaz de extinguir a vontade própria do sujeito. Trata-se do paradoxo de uma
‘tenacidade em não querer’, em que a submissão ao abade conduz o asceta não à
soberania sobre si, mas a um esvaziamento total no qual ele passa a querer
apenas o que Deus quer:
“[...] a ascese
exigida ao monge não se resume ao fato de obedecer: os jejuns, as vigílias, as
orações, o trabalho, as obras de caridade são igualmente requeridos. Mas para
poder conduzir a uma humildade em que a vontade própria terá desaparecido, toda
ascese deve ser feita na forma geral da obediência. Pode-se assim medir a
distância que separa a direção cristã daquela que se passava, por exemplo,
entre os estoicos. A perspectiva desta última era essencialmente estabelecer as
condições de um exercício soberano da vontade sobre si mesma. Tratava-se de
conduzir o dirigido ao ponto de virada em que ele se tornaria mestre de si
mesmo e de tudo aquilo que pudesse dele depender. O que implicava que
aprendesse a distinguir o que dependia de sua vontade e aquilo que não era de
seu domínio; e que armasse essa vontade com uma razão que tinha o triplo papel
de fixar esta divisão, definir a conformidade à ordem do mundo, e dissipar os
erros da opinião que conduzem à desordem das paixões ou ao excesso dos desejos.
Em contrapartida, a direção cristã tem por alvo a renúncia à vontade. Ela
repousa sobre o paradoxo de uma tenacidade em não querer. A submissão ao mestre
que é seu instrumento indispensável jamais conduz ao ponto em que pode se
estabelecer a soberania sobre si mesmo, mas ao ponto em que, despojado de todo
domínio, o asceta só pode querer o que Deus quer” [Foucault, 2020, p. 168].
Foucault [2020]
também adverte que a obediência atua como a condição basilar para o exercício
da dominação eclesiástica, pois exige que o sujeito exerça a sua vontade contra
si mesmo. Esse processo de anulação ocorre por meio da subditio [a
aceitação da autoridade do outro], da patientia [a não resistência] e da
humilitas [a renúncia de si]. Longe de ser uma ferramenta passageira, essa
obediência é estruturante: ela é simultaneamente o ponto de partida e o
resultado final da direção pastoral. É precisamente essa teia de submissão que
aprisiona Marina, moldando-a para que abdique integralmente de suas vontades e
defesas para aceitar passivamente os ditames do abade.
“[...] a
obediência constitui, portanto, um exercício da vontade sobre si mesma e contra
si mesma. Querer o que os outros querem em virtude do privilégio intrínseco e
formal que detém a vontade do outro, pois ela vem do outro: é a subditio.
Querer não querer, querer não se opor nem resistir, querer que a vontade
própria não seja obstáculo à vontade do outro: é a patientia. Não querer
querer, renunciar à menor das vontades próprias: é a humilitas. E este
exercício da obediência, no lugar de ser um simples instrumento para a direção,
constitui com esta um círculo indissociável. A obediência é a condição inicial
para que a direção possa realizar seu trabalho [...] ela é o instrumento
essencial da ação do diretor; ela é a forma geral da relação entre este e o
dirigido; ela é, enfim, o resultado ao qual a direção conduz, resultado que
coloca o dirigido em posição de aceitar indefinidamente, em vez da sua e no
lugar desta, uma vontade outra” [Foucault, 2020, p. 166].
O mesmo autor
aponta que o monge busca a abdicação plena de suas vontades para alcançar um
estado de condução externa ininterrupta. Para Foucault [2020], não basta
obedecer para obter um resultado específico; o ascetismo exige obediência em
tudo e em todos os momentos. O efeito prático da subditio é transformar
o sujeito em alguém que age unicamente para ser guiado: pela regra, pelo
diretor espiritual ou pelos irmãos de hábito. Não há mais espaço para ações
autônomas, pois qualquer resquício de vontade individual é substituído pela
submissão contínua a ordens alheias, garantindo que a relação de obediência
colonize a existência do monge até as suas menores frações.
“[...] não se
trata de obedecer só na medida em que essa submissão poderia permitir atingir
um resultado, deve-se obedecer em tudo. Nenhum aspecto da vida, nenhum momento
da existência deveria escapar à forma da obediência. Aquele que é dirigido deve
fazer com que a menor de suas ações, mesmo aquela que mais parece escapar de
sua própria vontade, seja submetida à vontade daquele que dirige. A relação de
obediência deve atravessar a existência até suas menores partes. É a subditio,
cujo efeito é que em todas as condutas o monge deve agir de modo a ser
conduzido. Conduzido pela regra, conduzido pelas ordens do abade, pelas ordens
de seu diretor, eventualmente até pelas vontades de seus irmãos, pois se é
verdade que estas não emanam de um superior ou de um ancião, têm o privilégio
de serem vontades de um outro. Não devemos então distinguir o que se faz por si
mesmo e o que se faz de acordo com o conselho de um outro. Tudo deve ser feito
sob ordem” [Foucault, 2020, p. 161-162].
Diante do
exposto, voltemos nossos olhares para o colapso da performance de Marina:
durante a limpeza de seu cadáver, os monges descobrem sua anatomia feminina.
Diferentemente do que se poderia supor, essa desnudação forçosa não anula a
virilidade de Marina, mas a amplifica. O relatado assombro por parte dos monges
no momento da descoberta evidencia que o milagre celebrado pelo texto repousa,
precisamente, na constatação material de que o ascetismo pôde subjugar com
tamanho êxito uma matéria tida como defeituosa. Exigiu-se de uma mulher a performance
de um monge. Ao chancelar a sua santidade no momento pós-morte, o clero celebra
a vitória incontestável da ascese sobre as ‘fraquezas’ da ‘natureza’ feminina,
normatizando o corpo da mulher sob a obediência eclesiástica.
Considerações
Finais
A performance
ascética de Marina não desafia o sistema teológico-político-cultural vigente;
pelo contrário, era concebida como uma espécie de ‘aperfeiçoamento’ ontológico,
uma ascensão em direção ao paradigma perfeito — isto é, a mulher viril. O fato
de a narrativa ter sido massivamente difundida, preservada e copiada por monges
durante séculos atesta a popularidade e o valor disciplinar da obra. A
virilização prescrita não representa uma falha no controle da Igreja sobre as
mulheres, mas é o próprio instrumento de domesticação em pleno funcionamento.
A rigidez
hagiográfica evidencia seu caráter prescritivo. Segundo a historiografia, esses
relatos clericais visavam forjar modelos de conduta alinhados a objetivos
teológicos e políticos, em vez de biografias factuais. O arco narrativo culmina
em uma diretriz comportamental: a exortação final compele a audiência a emular
a obediência e o silêncio da monja, consolidando a obra como um manual de
conduta.
Por conseguinte,
a análise aponta que a Vida de Marina/Marino condiciona a salvação
feminina à emulação daquela que aceitou a anulação de sua ‘natureza’ e
submeteu-se, em silêncio, à autoridade religiosa. A santidade de Marina é
chancelada porque ela oblitera as marcas de sua particularidade feminina —
diagnosticada na obra como frágil, defeituosa e suscetível ao diabo — para
abraçar a virilitas. A submissão de Marina, por mais contraditório que
nos possa parecer, é a manifestação de sua virilidade, pois demonstra que ela
conseguiu governar a si mesma com tanta tenacidade e temperança que deixou de
ser — espiritual e performaticamente — uma mulher.
Referências
Bibliográficas
Ricardo Russo Carvalho é graduando em História,
bacharelado e licenciatura, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(UERJ); bolsista com financiamento do Programa Institucional de Bolsas de
Iniciação Científica (PIBIC/UERJ); membro do Programa de Estudos Medievais
(PEM/UERJ), tanto no âmbito do projeto de extensão (DEPEXT), quanto do grupo de
pesquisa (CNPq); além disso, integra o Grupo de Estudos sobre Hagiografia e
Santidade (Agios/UFF).
Wendell dos Reis Veloso é Professor Adjunto de
História Medieval da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); é Doutor
(2019) e Mestre (2014) em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (PPHR/UFRRJ) com bolsa CAPES-DS,
graduado em licenciatura (2009) e bacharelado (2011) em História pela
Universidade Gama Filho. Possui estágio de Pós-Doutorado pelo PROFHistória da
Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (2023-2024). É membro da
Hagiography Society e da ABREM (Associação Brasileira de Estudos Medievais).
Também é pesquisador dos seguintes grupos de pesquisa cadastrados no CNPq: PEM
- Programa de Estudos Medievais da UERJ (do qual é um dos líderes) e da UFRJ;
do LabQueer - Laboratório de Estudos das Relações de Gênero, Masculinidades e
Transgêneros/UFRRJ; do Agios - Grupo de Estudos sobre Hagiografia e
Santidade/UFF e do Repertorium: Laboratório de Estudos Medievais (UFES).
Life of St. Mary/Marinos. Trad: Nicholas
Constas. In: Talbot, Alice-Mary (Org.). Holy Women of Byzantium: Ten Saints’
Lives in English Translation. Washington, DC: Dumbarton Oaks, Trustees for
Harvard University, 1996.
Butler, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da
identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2003.
Cavalcanti, Juliana. Mulheres em Paulo:
observações metodológicas e um breve balanço historiográfico. Fato &
Versões - Revista de História, Campo Grande, p. 1-15, 2014.
Constas, Nicholas. Life of Mary/Marinos:
Introduction. In: Talbot, Alice-Mary (Org.). Holy Women of Byzantium: Ten
Saints’ Lives in English Translation. Washington, DC: Dumbarton Oaks, Trustees
for Harvard University, 1996, p. 1-6
Foucault, Michel.
Do Governo dos Vivos: Curso no Collège de
France (1979-1980). Tradução de Nildo Avelino. São Paulo: Editora WMF Martins
Fontes, 2014.
Foucault, Michel. História da sexualidade vol. 4:
as confissões da carne. Edição estabelecida por Frédéric Gros. Tradução de
Heliana de Barros Conde Rodrigues e Vera Portocarrero. São Paulo: Paz e Terra,
2020.
Gazalé, Olivia. Le Mythe de la Virilité: un Piège
pour les Deux Sexes. Paris: Éditions Robert Laffont, 2017.
Hourani, Guita.
The Vita of Saint Marina in the Maronite Tradition. Parole de l’Orient, Kaslik, v. 38, p. 15-42,
2013.
Laqueur, Thomas Walter. Inventando o sexo: corpo
e gênero dos gregos a Freud. Tradução de Vera Whately. Rio de Janeiro: Relume
Dumará, 2001.
Martínez, Iker Magro. Mulier virilis. La
masculinización del modelo femenino en el cristianismo primitivo: de Tecla a
Melania Junior, 2014, Mestrado, Universidad del País Vasco, Vitória-Gasteiz,
2014.
Meeks, Wayne A.
G. The First Urban Christians: the social world of the Apostle Paul. 2. ed. New
Haven; London: Yale University Press, 2003.
Oliveira, Clarissa Mattana de. É Possível
Escrever uma História das Mulheres a partir de Hagiografias Femininas
Alto-Medievais (Séculos V a X) In: Sacralidades Medievais. Goiânia, 24 jun.
2022. Disponível em: https://sacralidadesmedievais.com/textos/f/é-possivel-escrever-uma-história-das-mulheres Acesso em 15 mar. 2026.
Rapp, Claudia.
Holy Bishops in Late Antiquity: The Nature of Christian Leadership in an Age of
Transition. Berkeley: University of California Press, 2005.
Rubin, Miri. Cults of Saints. In: Judith
Bennett, and Ruth Karras (orgs.), The Oxford Handbook of Women and Gender in
Medieval Europe, Oxford Academic, 16 dez 2013. DOI: https://doi.org/10.1093/oxfordhb/9780199582174.013.006. Disponível em: https://academic.oup.com/edited-volume/34370/chapter-abstract/291514117?redirectedFrom=fulltext. Acesso em: 1 abr.
2026.
Talbot,
Alice-Mary. General Introduction. In.:_______ (Org.). Holy Women of Byzantium:
Ten Saints’ Lives in English Translation. Washington, DC: Dumbarton Oaks,
Trustees for Harvard University, 1996.
Ubiña, José
Fernández. Origen y Consolidación del Episcopado
Monárquico. In: Acerbi, Silvia; Marcos, Mar; Torres, Juana (Orgs.). El Obispo
en la Antigüedad Tardía: Homenaje A Ramón Teja. Madrid: Editorial Trotta, 2016.
p. 37-51.
eu fiquei um pouco confusa sobre a virilidade de marina/o, na parte da acusação, porque ela seria mais viril deixando que uma mentira atacasse a própria virilidade dela/e? a virilidade é associada ao controle de si e ela/e se deixa ser condiderada como descontrolada/o ao supostamente ter cedido ao desejo
ResponderExcluirAna Luiza Lima Barreto da Silva, tinha esquecido de assinar
ExcluirPrezada Ana,
ExcluirAgradeço imensamente pela leitura atenta e pela sua excelente reflexão. A sua dúvida é totalmente compreensível e, na verdade, aponta para o centro do paradoxo estruturante que rege as questões de gênero na obra analisada.
Você observa bem ao notar a aparente contradição: a falsa acusação proferida contra Marina envolve justamente a total falta de controle sobre os próprios desejos carnais, uma característica que a obra atribui à mulher tida como ‘natural’. No entanto, a virilidade de Marina na narrativa não se comprova por meio da refutação dessa mentira para resguardar a própria imagem perante os outros monges, mas sim pela forma como ela reage internamente e externamente à acusação e à punição.
Quando confrontada e expulsa do cenóbio, a ausência de defesa de Marina caracteriza-se como o que chamamos de um ‘silêncio viril’. Readaptado da moral estóica, esse silêncio exige um perfeito autodomínio, a contenção das paixões e o controle de si. Ao aceitar a acusação de maneira inabalável e proferir "Perdoe-me, pai, pois pequei como homem" em completa submissão, Marina performa o autocontrole de um "vir perfeito", provando que a sua virilidade ascética é o que de fato domina o seu ser perante a provação.
Para compreendermos a profundidade dessa dinâmica, precisamos fazer o que sugiro ao final do meu texto, isto é, devemos observar a ruptura conceitual entre o modelo estóico e o modelo cristão de obediência, conforme evidenciado por Michel Foucault. Enquanto a tradição estóica visava que o indivíduo utilizasse a razão para exercer um domínio soberano sobre si mesmo e ser mestre de suas vontades, o cristianismo subverte essa lógica, tendo como alvo a renúncia irrestrita e total do querer. A ascese cristã exige uma obediência absoluta, capaz de extinguir a vontade própria, repousando sobre o paradoxo de uma tenacidade em não querer.
A partir desse viés, e conforme explicitado no texto, percebemos que o momento da calúnia é a materialização dessa anulação da vontade por meio de três pilares fundamentais da obediência investigados por Foucault: a subditio (aceitar a autoridade do abade), a patientia (não se opor e não resistir à falsa acusação) e a humilitas (renunciar à defesa e à vontade própria). Essa rede de submissão é justamente o que molda Marina, garantindo que ela abdique integralmente de suas defesas para aceitar passivamente as ordens do abade.
Portanto, ao aceitar que a mentira ataque a sua reputação, ela consolida a sua verdadeira virtude. A submissão de Marina, por mais contraditória que nos possa parecer, é a manifestação máxima de sua virilidade. Ela demonstra que conseguiu governar a si mesma com tanta tenacidade e temperança ao anular sua própria defesa que deixou de ser — espiritual e performaticamente — uma mulher, abraçando o paradigma masculino e silenciando a matéria tida como perigosa.
Espero que esta explicação ajude a clarear a operação conceitual por trás da narrativa. Fico à inteira disposição caso queira aprofundar ainda mais o debate!
Ricardo Russo Carvalho
Parabéns pela comunicação, Ricardo! Muito instigante, como sempre.
ResponderExcluirA questão: a partir da ideia de "ventriloquismo", poderíamos considerar que, dado a sublimação da materialidade da personagem feminina em virtude de sua santificação, não seria possível pensarmos Marina como um sujeito e apenas pensá-la enquanto um artifício pedagógico desse episcopado monárquico para ensinar as mulheres? Tendo em mente o caráter prescritivo do texto, estaria tolhida a possibilidade de olharmos as mulheres de fato a partir dele e restaria apenas analisar o que esse episcopado pretendiam que elas fossem?
Atenciosamente,
Cainã Lima
Meu caro amigo Cainã,
ResponderExcluirAgradeço imensamente pela excelente reflexão. A sua leitura capta com precisão o cerne do argumento defendido no texto.
De fato, a partir da ideia de ‘ventriloquismo do Poder Pastoral’, não seria possível compreendermos Marina, dentro desta narrativa, como um sujeito histórico dotado de agência própria. A hagiografia em questão não tem o intuito de celebrar a mulher em si, mas sim a superação ontológica do ser mulher. Nesse processo, a materialidade feminina é deliberadamente silenciada pelo hagiógrafo, sendo substituída por uma projeção didática das expectativas teológicas de seu tempo. Sendo assim, Marina atuaria como um artifício pedagógico e um arquétipo moral. A operação do texto visa diagnosticar a ‘natureza’ feminina como uma patologia espiritual latente, oferecendo a virilização ascética como a sua respectiva cura.
No que tange à segunda parte de sua pergunta, a resposta é perfeitamente afirmativa: a possibilidade de acessar a experiência feminina medieval "de fato" a partir desta fonte encontra-se severamente tolhida. Como a crítica documental e a historiografia nos permitem afirmar, essa narrativa teria sido redigida e circulada majoritariamente por indivíduos do sexo masculino pertencentes à elite eclesiástica. Consequentemente, o texto não refletiria a vivência das mulheres medievais, mas sim o horizonte de expectativas e de normatizações do clero a respeito dessas mulheres. Pode-se questionar se algumas dessas histórias são reais? Sim. Pode-se indagar se essas estórias inspiraram mulheres a agirem de forma contrária ao que parece estar sendo prescrito? Sim. Mas quanto à essas e outras perguntas, seguimos sem respostas. O que nos cabe, neste momento, é analisar o que esse episcopado monárquico em ascensão pretendia que as mulheres fossem.
A Vida de Marina/Marino consolida-se, portanto, como um manual de conduta que culmina em uma exortação para que a audiência emule a obediência e o silêncio da monja. Trata-se de um projeto institucional de ordenamento sociopolítico que utiliza a normatização do corpo feminino como afirmação de autoridade. A santificação da personagem exige a obliteração de suas particularidades, funcionando como o arcabouço justificatório para a misoginia institucional do episcopado e como um instrumento de domesticação.
Obrigado e um abraço!
Ricardo Russo Carvalho