Será que, na atualidade, deveria ser considerado algo comum não termos registros imagéticos de lugares ou acontecimentos? Esse é um questionamento levantado pela Pedagolítica no lançamento do quadrinho Giz, de sua autoria, que aconteceu no ano de 2025, no Resistencia Pub em São Paulo. Giz é uma obra de ficção, lançada por financiamento coletivo durante o ano de 2025, pela editora Mistifório. A Mistifório foi fundada no ano de 2023 e está centrada na publicação e criação de obras brasileiras inéditas com artistas diversos. No site da editora eles definem como parte de sua proposta editorial a iniciativa de utilizar especificidades da linguagem dos quadrinhos como um espaço de disputa para o imaginário dos leitores.
A HQ Giz se insere nessa definição. Ainda que se constitua como uma obra de ficção, é uma história que parte de uma situação contemporânea, a ocupação israelense em Gaza e as políticas de controle e aniquilamento da população palestina na contemporaniedade. Para tanto, a história Giz apresenta a trajetória de Hannah, uma garota que vive na faixa de Gaza, e o cotidiano dessa criança frente a uma nova ofensiva do exército de ocupação, que faz com que ela seja forçada a fugir de sua casa com a família, em busca de um campo de refugiados. Nesse caminho, ela enfrenta violência, medo e fome, em várias situações que representam o caos da guerra. A personagem representa também a resistência da imaginação infantil frente as dificuldades da guerra, já que hannah é uma criança que desenha. Ela conseguiu salvar um único giz de cera, de cor magenta, a única cor em um quadrinho desenhando em preto e branco. Com o giz, os momentos de tensão são amenizados pelas histórias, projeções de futura e lembranças do passado. Giz é uma HQ que mescla trauma, presente, passado e futuro com uma mensagem de resistência. É importante salientar que a obra contou com a consultoria histórica e política de Ualid Rabah, presidente da FEPAL - a Federação Árabe Palestina do Brasil, e que a instituição apoiou a publicação como um espaço de denúncia contra as violações de direitos humanos, bem como um espaço em que a memória do povo palestino aparecesse como argumento principal.
Para o espaço deste texto, propomos a discussão desse quadrinho como um espaço didático de descolonização para o Ensino de História. Se entendemos que a construção de sentidos históricos pode contribuir, no sentido de não apenas informar sobre o conflito, mas apontar e problematizar as estrturas de dominação, que nem sempre aparecem nos espaços de informação sobre o confronto. De maneira geral, as informações que temos acesso sobre a questão palestina que se dedicam pouco, ou muito pouco em apontar as assimetrias de poder. Este posicionamento passa a sensação de uma simetria artificial entre os difrentes grupos atingidos em combate. O caráter colonial do estado de Israel tende a desaparecer em reflexões dessa natureza. Histórias que retratam o cotidiano, lugares e pessoas invisíveis para a grande mídia, já foram retratadas em quadrinhos, no que tange a questão da Palestina e o jornalista Joe Sacco ficou famoso por sua reportagem quadrinizada do conflito. Na obra Giz, de Pedagolitica temos uma escolha semelhante, a partir de uma “ficção baseada em acontecimentos reais”. Ainda que hannah não seja uma sobrevivente em gaza sua história reflete a situação de uma série de pessoas. É nesse sentido que entendemos que este tipo de narrativa pode contribuir para a chamada didática da colonização.
A Didática da Descolonização propõe que o ensino de história não deve apenas "informar" sobre um conflito, mas desvelar as estruturas de dominação. No trabalho com a HQ giz, papel da narrativa de descolonização: É dar voz às epistemologias palestinas, tratando a resistência não como "terrorismo" ou "caos", mas como uma resposta histórica a um processo de expulsão e negação de direitos fundamentais.
Quadrinhos com temas históricos são narrativas históricas gráficas e de maneira geral podemos dizer que a narrativa histórica é a forma por excelência da "expressão do pensamento histórico e da aprendizagem da formação histórica” [Fronza, p.46]. Portanto pode ser tornar uma grande ferramenta didática do profissional de história. Esse entendimento do papel narrativo do quadrinho aparece em análises teóricas dessa mídia, em autores como Eisner e McCloud [2005] os quais colocam as HQ como “uma antiga forma artística ou método de expressão humana centradas na narrativa por meio de texto e imagens. Além deles, o quadrinho pode mobilizar lembranças de questões vividas ou estudadas, ligando a narrativa dos quadrinhos a uma série de referências específicas de cada leitor o que permite estabelecer vínculo entre leitores e narrativas.
O conceito de timing trazido por Eisner pode ser valioso para o professor de história, pois o ato de ler os quadrinhos é como mover-se no tempo do espaço das imagens, oferece assim um mapa temporal ao leitor para desenvolver “um sentido da experiência humana no tempo” [Rüsen, p. 54]. A formação histórica é o espaço do transcendente. O espaço para desenvolver a “faculdade representativa de lidar livremente com a experiência do passado” [Rüsen, p.132]. A abordagem usual no que diz respeito ao uso dos quadrinhos em sala de aula, no ensino de história, se concentra em utilizá-lo como espaço de confrontação e fixação do conteúdo, ferramenta de ilustração de um determinado assunto, ou como fonte da época em que foram produzidas.
Quadrinhos, podem, para além disso, figurarem como espaço de exploração e entendimento da cultura histórica de determinada sociedade. Nesta perspectiva, cultura histórica tem relação direta com o modo que uma sociedade se conecta com o passado – visto aqui de maneira ampla. Estudar cultura histórica refere-se a busca pelo entendimento do desenvolvimento social da experiência histórica e a tentativa de se traduzir um objetivo na vida de uma comunidade, manifestos em diferentes meios. Assim a cultura histórica é a elaboração do conhecimento histórico por distintos agentes sociais e espaços. Para Rüsen, a cultura histórica é uma configuração particular que permite experimentar e interpretar o mundo, e envolve a descrição e analise da orientação da prática de vida e a construção de identidades dos indivíduos. Neste sentido, o fenômeno da cultura histórica é uma espécie de manifestação presente nas sociedades modernas, que necessita de uma compreensão comum e coletiva das histórias singulares, o papel da memória histórica no espaço público.
Ao considerar-se que a relação do indivíduo com um artefato cultural – no caso deste texto, os quadrinhos – é parte de um processo de construção do conhecimento em que o consumidor e o dado se amalgamam e dialogam constantemente, faz sentido ampliar o espectro das análises das relações possíveis entre quadrinhos e ensino, para como estes quadrinhos organizam-se como objetos de formação histórica e de afirmação dos usos públicos do conhecimento histórico.
A Formação do Estado de Israel, o conflito com a Palestina e seus espaços na memória
Após a Primeira Guerra Mundial, a Palestina passou ao controle britânico, e a Resolução 181 da ONU, de 1947, propôs a partilha do território em dois Estados, um judeu e outro árabe. A proclamação do Estado de Israel, em 1948, desencadeou uma guerra imediata, que culminou na criação de Israel e a expulsão de centenas de milhares de palestinos, um evento conhecido como Nakba - ou a catástrofe. Desde então, sucessivos conflitos, ocupações militares e processos de assentamentos israelenses em territórios palestinos têm marcado a vida na região. A Faixa de Gaza e a Cisjordânia são hoje palco de bloqueios, violência estrutural e violações de direitos humanos. As notícias que chegam, dificilmente se centram em questões dos indivíduos, centrando-se em ofensivas, movimentos geopolíticos e números de mortes. Dessa forma, a narrativa quadrinizada pode se configurar como um espaço importante em apresentar esse contraponto, passando dos números para a vivência humana em relação ao espaço do conflito e o preço dessa experiência.
Conforme discutem Andrade et al. [2011], esse exercício envolve um movimento de descentramento, no qual suspendemos julgamentos ancorados em valores atuais para compreender experiências marcadas por contextos específicos. Quando aplicada em relatos de refugiados palestinos, como o mobilizado pela protagonista Hannah, no quadrinho Giz , a empatia histórica revela que essas trajetórias não decorrem de escolhas individuais, mas de processos históricos de ocupação, violência estrutural e deslocamento forçado. Esses registros, vindos de arquivos e depoimentos, aproximam o passado e o presente de forma a evidenciar a humanidade desses processos.
Neste sentido, o trabalho com quadrinhos históricos, ainda que sejam quadrinhos ficicionais podesem ser considerado como um momento no sentido de preservar essa memória? A gente sabe, hoje em dia, que os processos de memorização são fundamentados em escolhas – o indivíduo, ou a coletividade é quem escolhe os fragmentos do passado que preserva para si mesmo, o que dá dimensão a sua vida individual e os espaços de construção da cultura histórica e das memórias coletivas desse passado. São essas escolhas que atuam diretamente no imaginário sobre o mundo. Entendemos portanto, que a leitura de quadrinhos como parte do processo de trabalho com o ensino de história podem ser considerados uma ferramenta de reflexão, de memória e de sentido. Especialmente em temáticas que não encontram todo o espaço em outras frentes da experiência e do entendimento humano na atualidade, como é o caso da questão palestina.
Referências
Dr. Janaina de Paula do Espírito Santo é professora do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa, e do Mestrado em História da mesma instituição.
ANDRADE, Breno Gontijo; RODRIGUES JÚNIOR, Gilmar; ARAÚJO, Alexis
Nascimento; PEREIRA, Júnia Sales. "Empatia histórica em sala de aula: relato e análise de uma prática complementar de se ensinar/aprender a História”. in: História & Ensino, Londrina, v. 2, n. 17, p. 257-282, jul./dez. 2011.
EISNER, Will. Quadrinhos e arte sequencial: princípios e práticas do lendário cartunista. São Paulo: WMF Martins, 2005
FRONZA, Marcelo. Ensinar e aprender história: História em quadrinhos e canções: metodologia, ensino médio. Curitiba: Base Editora, 2010
PEDAGOLÍTICA; OWADA, Maurício. Giz. São Paulo: Mistifório, 2025.
McCLOUD, Scott. Desvendando os quadrinhos. São Paulo: MBooks, 2005
RÜSEN, Jörn. Razão histórica: teoria da História: os fundamentos da ciência histórica”. Brasília: UnB, 2001.
RÜSEN, Jörn.História viva: formas e funções do conhecimento histórico. Tradução de Estevão de Rezende Martins. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2007.
Depois de ler o texto, entendi que a autora defende o uso dos quadrinhos como uma importante ferramenta para o ensino de História, principalmente quando o objetivo é desenvolver uma visão mais crítica sobre os acontecimentos históricos. A HQ Giz é apresentada como um exemplo de como uma narrativa em quadrinhos pode aproximar o leitor da realidade vivida pelo povo palestino, valorizando aspectos humanos que muitas vezes não aparecem nas notícias ou nos livros didáticos. Também compreendi que a proposta da didática da descolonização é incentivar os estudantes a refletirem sobre as relações de poder, os processos de dominação e a importância de considerar diferentes perspectivas na construção da História. Dessa forma, os quadrinhos deixam de ser apenas um recurso ilustrativo e passam a contribuir para a formação do pensamento crítico, da memória histórica e da empatia em relação às experiências de outros povos.
ResponderExcluirPergunta: Considerando que os quadrinhos podem apresentar interpretações e pontos de vista específicos sobre um fato histórico, como o professor pode utilizá-los em sala de aula para estimular o pensamento crítico dos alunos sem que eles confundam a narrativa da obra com uma representação única e definitiva da realidade histórica?
Anderson da Silva Schmitt
Oi Anderson! Obrigada pela pergunta! A narrativa quadrinizada é uma ferramenta importante justamente pq possibilita que múltiplas realidades históricas sejam consideradas. Explico: Dificilmente, ao optar pelo trabalho com um quadrinho histórico ele chega ao leitor, sozinho, pq o professor como mediador, trás outras informações. E no caso da questão da leitura do quadrinho Giz, é quase uma "leitura a contrapelo", como lembram Benjamin e Thompson. Isso pq a questão Palestina também é algo que as agências de notícias se encarregam de divulgar, mas, raramente, do ponto de vista do indivíduo ou da vida cotidiana, como o quadrinho faz.
ExcluirJanaina de Paula do Espírito Santo.
Olá, Profa. Janaina, como a Sra avalia e compara as perspectivas que os estudantes tinham antes com a que desenvolveram após a atividade com a HQ "Giz"? E o que tem sido constatado neste avaliação/comparação?
ResponderExcluirFabrício Oliveira Soares
Oi Fabrício, obrigada pela pergunta. Ainda não trabalhei com esse quadrinho em sala de aula, é uma outra fase da pesquisa. Como trabalho com quadrinhos há muitos anos, entretanto, posso te dizer que de maneira geral os quadrinhos permitem que o conhecimento histórico possa ser problematizado a partir de um conceito de "empatia histórica". Esse é um conceito da área da educação histórica desenvolvido por Peter Lee, que fala da importância de entender a perspectiva histórica e as limitações individuais dos indivíduos, em diferentes temporalidades. Leituras como giz permitem que os alunos enxerguem de maneira mais clara que a história é feita de pessoas como eles, o que ajuda na discussão. Para além disso, como se trata de uma questão contemporânea, ajuda a balizar e problematizar o discurso midiático sobre a questão. Que normalmente reduz a violência a reações e números.
ResponderExcluirJanaina de Paula do Espírito Santo
Oi, professora!
ResponderExcluirGostei muito da proposta do texto, principalmente por mostrar como os quadrinhos podem ser pensados como um espaço de formação histórica e não apenas como um recurso didático. Eu sou muito adepta ao uso de HQ para diferentes contextos de uso dentro das salas. Achei super interessante a articulação entre memória, cultura histórica e descolonização, deixou o argumento bem consistente e me fez pensar no papel dessas narrativas hoje. Fiquei curiosa sobre uma coisa: até que ponto existe o risco de uma HQ engajada ser vista como menos legítima no ensino de História justamente por assumir um posicionamento político?
Maria Clara de Deus Oliveira Gomes da Silva
Olá Maria Clara! Muito interessante sua pergunta. Do ponto de vista teórico, toda escolha do professor é política, mesmo quando ele diz que está sendo neutro. O compromisso ético, portanto estaria em deixar claro a natureza dessa escolha. Na vida cotidiana em sala de aula sabemos que não é tão linear assim. Acredito, nesse caso, que trabalhar com a ideia da história de um dia a dia, chamando a atenção para o custo humano de um conflito como a questão Palestina tenha a legitimidade garantida pela sua escolha de como a temática se apresenta, e que é um contraponto crítico necessário às outras abordagens que tratam as mortes, a fome, a violência como números ou efeitos colaterais. A legitimidade estaria nessa escolha consciente em tratar da questão pelo ponto de vista humano, de descolonização do pensamento.
ResponderExcluirJanaina de Paula do Espírito Santo.