Introdução
O
Japão ascendeu a posição de potência econômica a nível internacional após a
Segunda Guerra Mundial. Com sua derrota, o país foi ocupado pelos Estados
Unidos até 1952, sofrendo alterações em sua estrutura econômica, social e
política (Pyle, 2007) Graças a manutenção do aparato de segurança dos Estados
Unidos, o Japão pôde focar em sua recuperação econômica, alcançando o posto de
segunda maior economia do mundo na década de 1980 e, consequentemente, sendo
visto como ameaça a posição dos Estados Unidos. Contudo, a decadência econômica
na década de 1990 e a participação aquém do esperado do Japão na Guerra do
Golfo (1990-1991) mancharam a imagem do país internacionalmente (Catalinac,
2007). O trauma desse período, após décadas se vendo como um país avançado e
com boas condições para sua classe média (Pyle, 2007) ainda assombra o país,
que equilibra a adaptação a uma nova realidade em meio às cobranças do passado
e alterações profundas no internacional. Essa realidade afeta o Japão
atualmente em sua busca por uma nova identidade internacional.
A
transformação no país anormal
Desde
sua abertura para o mundo após quase três séculos de isolamento no século XIX
(Akamine et al 2017), o Japão seguiu o caminho interpretado como incomum dentro
da Ásia. Em um período que marcaria o começo do chamado “século de humilhações”
para a China (Tingyang, 2021) em meio a transformações internas o Japão
conseguiu evitar o avanço imperialista sob o território que o constituía
(Hoppens, 2015). Observando os exemplos de Estados Unidos e das potências da
Europa, como também do exemplo negativo da China (Tingyang, 2021), o Japão
seguiu o lema de fortalecer o exército e enriquecer o país (富国強兵, fukoku kyôhei) após
as mudanças trazidas pelo fim do xogunato após séculos e pelo acontecimento da
Revolução Meiji. Com a ideia de fortalecer seu papel como um país legítimo
dentro do cenário internacional e um exemplo civilizatório dentro da Ásia
(Akamine et al 2017), o Japão buscou fortalecer suas próprias fronteiras, como
pode ser visto no avanço sobre o Reino de Ryûkyû, atual Okinawa e o território
de Ezo, atual Hokkaido (Correia, 2025). Em meio ao avanço sob esses
territórios, o Japão foi visto como um exemplo dentro da Ásia por potências
como os Estados Unidos, participando da intervenção na China contra a Rebelião
dos Boxers (1899-1901) e atuando junto ao lado vencedor na Primeira Guerra
Mundial, sentando-se a mesa para a criação da Liga das Nações, mantendo os
territórios da Coreia e Taiwan sob seu domínio (MacMillan, 2001; Shimazu, 1998)
Contudo,
a participação do Japão não duraria muito em meio a recusa dos países membros a
adotar uma cláusula de igualdade racial (MacMillan, 2001; Shimazu, 1998), a
crise de 1929 de Nova York e as condições econômicas menos favoráveis dos anos
a seguir. Em 1931, o Japão invadiu a Manchúria, na China, mantendo uma ocupação
extremamente violenta (Hoppens, 2015). Com o ataque a Pearl Harbor, no Havaí,
em 1941, o Japão entrou em guerra oficialmente com os Estados Unidos. Os anos
que seguiram foram de destruição no país, especialmente em Okinawa, mais ao sul
do país, e colocada em uma posição de inferioridade no entendimento coletivo do
Japão (Correia, 2025; Tanji, 2006). A província foi colocada como a primeira
linha de defesa perante o avanço dos Estados Unidos, resultando em mais de cem
mil mortes dos locais durante a década de 1930 até 1945 (Correia, 2026).
Após
o fim da Segunda Guerra Mundial, o Japão foi ocupado pelos Estados Unidos e
Okinawa foi mantida sob jurisdição americana até 1972. Vendo ser necessário que o Japão se tornasse
um aliado em meio a ameaça da União Soviética e da ascensão da China Comunista,
os Estados Unidos terminaram a ocupação a medida em que pôde manter um
contingente militar dentro do território japonês (Pyle, 2007). Nesse sentido,
as décadas de 1950 até 1970 foram de muitos protestos em grandes centros como
Tokyo, mas também em lugares como Okinawa (Kapur, 2018) para que o país não
sofresse novamente com as consequências da presença militar (Inoue, 2022). Mas,
o Japão acabou renovando o tratado de segurança com os Estados Unidos que
mantinha a presença das bases militares, especialmente em Okinawa que até a
atualidade mantem a maior parte dessa presença na província (Correia, 2026).
As
décadas de 1970 e 1980 foram de grande avanço econômico para o Japão, com o
país ascendendo a posição de segunda maior economia do mundo (Kushner, 2015).
Contudo, como já relatado, à medida que o Japão ganhava maior destaque
internacionalmente, também era cobrado que o país tomasse um papel mais
proativo (Kawato, 2015; Catalinac, 2007). Mas, seguindo a chamada Doutrina
Yoshida, nomeada assim devido ao primeiro-ministro Shigeru Yoshida, o Japão
focou em sua própria recuperação econômica e em se manter sob o guarda-chuva de
segurança dos Estados Unidos (Pyle, 2007). Mesmo que o país tenha recuperado
parte da capacidade militar, através da criação das Forças de Autodefesa do
Japão em 1954, ainda era algo mantido na esfera policial doméstica, não sendo
equivalente a capacidade militar (Pyle, 2007).
Tal
situação piorou com a Guerra do Golfo (1990-1991). O Japão contribuiu
financeiramente, mas não enviou apoio humano, sofrendo críticas intensas
internacionalmente (Catalinac, 2007). Em meio a crise econômica do que ficou
caracterizado como a década perdida no país (Kushner, 2015), a perda de
legitimidade internacionalmente a medida em que Coreia do Sul e China cresciam
na região acabou por levar a uma crise de identidade da política externa
japonesa que dura até a atualidade.
Devido
a amarra constitucional do artigo 9 de sua constituição, a literatura ocidental
classificou o Japão como um país “anormal”. O país era considerado uma potência
internacional, mas não atuava dessa forma no quesito da manutenção da segurança
internacional (Welch,2011).
A
mudança no paradigma internacional e a busca por uma nova identidade
Com
a chegada da década de 2000 e a continuidade da ascensão da China e de outros
países do chamado Sul Global, o Japão viu a necessidade de reafirmar sua
relevância internacional. Dominado pelo Partido Liberal Democrata de forma
ininterrupta desde 1955 (Hrebenar, 1995), ideias de mudanças na capacidade de
despacho militar do Japão avançavam a medida em que políticos como Junichiro
Koizumi (2001-2006) e Shinzo Abe (2012-2020) chegavam ao poder.
No
entanto, tentativas de rearmamento por parte do Japão eram e continuam a ser
vistas com desconfiança por seus vizinhos. Devido ao passado imperialista do
país, países como China e as duas Coreias veem tal possibilidade como algo
bastante negativo para a região (Hoppens, 2015). Logo, a política externa do
Japão para com seus vizinhos está constantemente pesando nessa balança.
Dessa
forma, o Japão está buscando se adaptar em relação a mudança que começou a
acontecer nos anos 1990 e que continua em marcha. Eventos como a crise de 2008,
a criação de grupos multilaterais que tiram o foco dos Estados Unidos, como o
BRICS, a saída do Reino Unido da União Europeia, são alguns dos elementos que
demonstram esse novo mundo ao qual o Japão parece ainda não saber como se adaptar.
Ao
mesmo tempo, a situação doméstica do país também não é a mesma da Guerra Fria.
O custo de vida tornou-se muito mais elevado na atualidade (Power; Fleuri,
2026) e a crise de natalidade cria um problema em instituições de previdência
que o país não está perto de solucionar (NHK News). Concomitantemente, junto
aos discursos de governos de extrema direita que ganharam espaço na política
internacional na última década, discursos similares também aparecem mais no
Japão em relação a questão migratória. O país tem pouco mais que 3% de sua
população composta por estrangeiros (Nihon Keizai Shimbun, 2025), mas ainda
assim estes são tornados bode expiatório em relação aos problemas do país.
Em
meio a instabilidade política da democracia com um partido no poder de forma
ininterrupta a quase 80 anos, a insatisfação com a aliança com os Estados
Unidos também se mostra presente. Após a eleição de Takaichi Sanae em outubro
de 2025 ao cargo de premiê e sua posição de alinhamento aos EUA, diversos
protestos foram realizados nas cidades do país (Mori, 2026). Criticando
tentativas de questionar o artigo 9 da constituição e apoio do governo ao
ataque contra o Irã em fevereiro, os protestos se juntam aos diversos que
acontecem desde o fim da Segunda Guerra Mundial em Okinawa contra a presença de
bases militares estadunidenses que ocupam parte da província (Correia, 2026).
Antes considerado um pilar essencial, tal aliança torna-se alvo de críticas em
questão ao ataque a soberania japonesa e medidas como as tarifas do presidente
Donald Trump.
Considerações
Finais
Desde
a década de 1990, o Japão passa por uma crise de identidade acerca de que
posição tomar no cenário internacional. As tentativas de maior militarização
sofrem repúdios por seus vizinhos ao mesmo tempo em que um papel passivo também
é alvo de críticas por aliados históricos como os Estados Unidos. No entanto, a
presença dos Estados Unidos no país também é algo criticado, como visto no caso
de Okinawa e no receio de maior envolvimento do Japão em um conflito internacional
por parte dessa aliança. A decisão de atuar mais ativamente em relação a
segurança internacional trará uma série de mudanças para o Japão, mas ainda é
incerto se isso é algo que acontecerá ou não. Em meio a incerteza, o país
parece ainda tatear as cegas para descobrir qual identidade quer expor ao mundo
como ator de relevância.
Referências
biográficas e bibliográficas.
Aline
Gomes de Albuquerque Correia é doutora em Relações Internacionais pelo
Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro e pesquisadora vinculada ao Grupo de Estudos e Pesquisa em Ásia
Pacífico (UEPB).
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Terrell, Lina; Huey, Robert N. The Ryukyu Kingdom: Cornerstone of East Asia.
Honolulu: University of Hawaiʻi press, 2017.
Catalinac, Amy L. Identity Theory and Foreign Policy:
Explaining Japan’s Responses to the 1991 Gulf War and the 2003 U.S. War in
Iraq. Politics & Policy, v. 35, n. 01, p.
58-100, 2007.
Correia,
Aline Gomes de Albuquerque. Cooperação E Insegurança: A Militarização De
Okinawa Sob A Justificativa Da Segurança Internacional. Em Tese, Florianópolis,
v. 23, 2026, p. 01-26.
Correia, Aline Gomes de Albuquerque. Tecendo
Rotinas De (In)Segurança: Práticas, Bases Militares e Espaços de Insegurança
Ontológica em Okinawa e no Havaí. Tese (doutorado) em Relações Internacionais.
Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2025.
Hoppens, Robert. The
China Problem in Postwar Japan. London: Bloosmbury Academic, 2015.
Hrebenar, Ronald J.
The Japanese Party System. Colorado: Westview Press, 1992.
Kapur, Nick. Japan at the Crossroads. Conflict and
Compromise after Anpo. Massachusetts & London: Harvard University Press,
2018.
Kawato, Yuko.
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Studies in Asian security. Stanford, California: Stanford University Press,
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Kushner, Barak.
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Macmillan, Margaret. Paris, 1919. Six Months That
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https://www3.nhk.or.jp/nhkworld/en/news/backstories/4884/> Acesso em 24 de
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Power, John; Fleuri, Johann. In Japan’s election,
voters hope for relief from rising prices. Al Jazeera, 2026. Disponível em: <
https://www.aljazeera.com/economy/2026/2/7/in-japans-election-voters-hope-for-relief-from-rising-prices>
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Pyle, Kenneth B. Japan Rising: the resurgence of
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Shimazu, Naoko. Japan, Race and Equality. The Racial
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Tingyang, Zhao. All
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Acesso em 24 de junho de 2026.
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ResponderExcluirAo longo do texto, a aliança com os Estados Unidos aparece tanto como um elemento de fortalecimento quanto de limitação da autonomia japonesa. Até que ponto o Japão possui margem para redefinir sua política externa sem romper essa aliança? Saudações, Elaine Alves da Silva.
ResponderExcluirOi, Elaine, bom dia! Muito obrigada pela pergunta! Essa é realmente a questão que, a meu ver, será essencial de ser pensada daqui para a frente na política externa japonesa. Se a aliança garantiu espaço ao Japão para ascender a posição de potência econômica, por outro lado alguns também afirmarão que ela também fez com que o Japão tivesse que limitar sua participação internacional e não repensar a questão das amarras constitucionais. Enquanto ainda temos uma maioria conservadora no parlamento japonês que afirma que é primordial que seja revista a constituição e que o Japão volte a ter força militar como um “país normal” (seguindo a ideia de que um país soberano teria o monopólio da violência e o direito de usar força para se defender), também é comum ver um discurso relativamente parecido em algumas esferas da esquerda japonesa em que essa dependência dos Estados Unidos coloca o país em uma posição de submissão e aliado de suas iniciativas unilaterais ao redor do mundo. Posições mais críticas vão afirmar que o Japão ficou muito confortável em estar sob a proteção estadunidense e que isso se tornou um “mau hábito” que não levou o país a buscar um posicionamento mais independente. No entanto, como você questionou e como eu tentei deixar claro ao longo do texto, a influência dos EUA no Japão após 1945 é imensurável, de modo que acho que só agora, na década de 2020, pós pandemia de COVID-19 e com o início da segunda administração Donald Trump em 2025, em que o Japão também foi alvo de tarifas pesadas, que a ideia de um Estados Unidos aliado absoluto começa a se dissipar. Logo, eu acho que é algo que vai ser discutido e repensado nos próximos anos a depender tanto do andar da administração atual dos EUA, como também dos acontecimentos ao redor do mundo. Então, oficialmente, no plano material, o parlamento poderia sim ir atrás dessa autonomia. Por outro lado, como um pilar dessa política externa de mais de 70 anos, somado com interesses da sociedade civil, crítica do aumento do custo de vida, e vizinhos como China e as duas Coreias, que estão sempre lembrando do papel imperialista do Japão no início do século XX, é algo que não dá para simplesmente chegar e decidir mudar do dia para a noite. Espero ter conseguido dar uma resposta satisfatória e fico aberta a maiores questionamentos.
ExcluirParabéns Aline pelo texto!!!!!!!
ResponderExcluirNa sua opinião esse novo período de rearmamento que o Japão está passando, você enxerga (de acordo com suas pesquisas e você própria como pesquisadora) como uma forma do Japão ter receio desse largo crescimento militar que a China está empreendendo ao longo desses últimos 10 anos ou como novamente o Japão está tentando novamente se consolidar como uma potência na região da Ásia e Pacífico (como havia feito no período do Imperialismo do final do século XIX e primeira metade do século XX)?
Mais uma vez lhe parabenizo pela temática e pelo texto!!!!!!
Comentários: José Raimundo Neto (esqueci de colocar meu nome... kkkk)
Excluir
ExcluirOi, José Raimundo, muito obrigada pela questão!! Eu creio que é algo multifatorial, com certeza tem a influência da ascensão chinesa (e de outros países da região como Índia também no aspecto militar e econômico) que influencia essa busca do Japão por se tornar uma potência novamente. A posição do que chamam na literatura de “potência média” e que é atribuída algumas vezes ao Japão é uma posição confortável até o momento em que ele começou a ser questionado por, na visão de países como Estados Unidos, não assumir a responsabilidade necessária para manutenção da paz internacional (vide as críticas sofridas no período da Guerra do Golfo). Então, assumir essa posição de potência caminha junto com a necessidade de enfrentar essa ascensão chinesa na região, especialmente se você considerar que a China foi, durante o período inicial do Japão como estado-nação (considerando o fim do século XIX e começo do XX) usada como exemplo para o que não deveria ser. Logo, é uma junção tanto de fatores materiais como ontológicos que se refletem na realidade. Espero ter conseguido responder sua pergunta de forma satisfatória e no mais fico aberta a outras perguntas.
Ola Aline!
ResponderExcluirObrigado pelo texto!
Enquanto lia seu texto, me surgiu uma dúvida acerca dessa identidade que o Japão escolhe expor ao exterior. Quero dizer, me parece que uma constante japonesa é justamente essa indeterminação diante da própria imagem que deseja exportar. Isto é, é claro que há um posicionamento mais institucionalizado, mas este esconde rusgas internas e que, forçosamente, implicam no silenciamento de dissensos também internos. Meiji, apesar da "restauração", abarca um intenso debate exatamente sobre qual posição o Japão deveria ocupar enquanto "estado moderno" no jogo internacional. A saída, como se sabe, foi pela via da excepcionalidade do país, o que deságua nos movimentos imperialistas que se seguira. Mas essa posição que "abraça" a "modernidade Meiji" não era um consenso mesmo entre as elites políticas do país, o que também tensionava internacionalmente a imagem do Japão (vide suicídio do General Nogi, por exemplo). Ora o Japão era "vendido" e "consumido" como exemplo de desenvolvimento "moderno", ora havia um movimento contrário que apontava para Edo e costumes do antigo regime e, ora, ambas as narrativas se sustentavam. O período pré e pós Segunda Guerra, em igual medida, passa por essa mesma indefinição. Ora se tem uma percepção do Japão como vitima-agressor e, ora, como agressor-vítima (e a ordem reflete como se interpreta o papel internacional do Japão na Segunda Guerra).
Enfim, para não alongar muito o comentário, o que queria saber é se você tem algo para comentar acerca dessas instabilidade de identidade que, na leitura que faço, parece ser uma constante na criação e exportação de uma identidade internacional japonesa.
att.
Felipe Chaves Gonçalves Pinto
Oi, Felipe, muito obrigada pelo comentário! A meu ver essa instabilidade é algo que assombra o Japão desde o fim do isolamento do século XIX e que até o momento eles não conseguiram resolver de forma “satisfatória”. Não existe uma identidade totalmente estável todo o tempo, podemos dizer que agentes, sejam indivíduos ou sejam grupos como Estados ou movimentos sociais, tem identidades múltiplas e que vão mudar com o tempo. No caso do Japão, no entanto, o país parece sempre ocupar uma posição muito instável nesse sentido, sempre estando nessa ambiguidade. Ora o país avançado, comparado a China e o resto da Ásia no início do século XX, ora ainda um país asiático de gente não branca, se comparado aos EUA e Europa central. Ora uma vítima das bombas atômicas, mas também indiscutivelmente um agressor até 1945. E, mais recentemente, uma potência econômica, mas que não tem capacidade militar legítima para atuar como um “país de verdade”. Então, se formos inferir de forma quase psicológica, o Japão é um país ansioso por uma identidade estável, mas que nunca consegue chegar a esse patamar. Durante alguns anos, isso se manteve na imagem de ser um país avançado tecnologicamente, mas que não corresponde tanto a realidade atual, com ascensão de China, Índia e outros países nesse aspecto. Acho que o país ainda está buscando essa resposta para sua identidade, de modo a alcançar a chamada segurança ontológica, na percepção de autores da sociologia e psicologia, e a forma de chegar a tal ponto vai depender. Para o Partido Liberal Democrata e sua ala a extrema direita, isso só vai ser possível quando o Japão voltar a “normalidade” de ter capacidade militar e isso se reflete nas tentativas do falecido Shinzo Abe e da atual premiê Sanae Takaichi de mexer na constituição. Então, existe a possibilidade de nos próximos anos vermos a mudança de postura do país no cenário internacional. Não dá para cravar como ela vai acontecer, mas creio que não tem como o Japão ficar muito mais tempo na posição de parceiro dos EUA sem querer resolver essa “instabilidade” que sente. Espero ter conseguido responder de forma satisfatória e fico aberta para maiores discussões caso deseje.
ExcluirMuito obrigado pela detalhada resposta, Aline!
ExcluirMuito interessante esse texto. Minha questão é no sentido de até que ponto essa discussão de qual seria o papel do Japão no cenário economico internacional, já que o capitalismo tardio meio que nivela a crise no sentido de concentração de renda e precarização do trabalho, por exemplo, como algo que permeia a realidade de vários países, ou uma tensão na própria opinião pública e memória japonesa, questionando e/ou re-significando as relações com os Estados Unidos por exemplo.Obrigada!
ResponderExcluirJanaina de Paula do Espírito Santo.