O (IN)COMESTÍVEL NA CULINÁRIA DE DUNGEON MESHI: UMA HISTÓRIA AMBIENTAL MULTIESPÉCIES por Felipe Daniel Ruzene

 

Na superfície

Há algo de profundamente inquietante e, ao mesmo tempo, sedutor, na ideia de consumir aquilo que, em determinadas formações culturais, não deveria ser comido. Entre repulsa e curiosidade, ou luto e necessidade, o ato de comer revela-se menos como um gesto biológico do que como um campo denso de disputas simbólicas, éticas e ontológicas. Comer é sempre, em alguma medida, atravessar uma fronteira. No anime Dungeon Meshi [2024], essa fronteira é levada ao limite. Adaptação do mangá japonês de fantasia escrito e ilustrado pela mangaká Ryōko Kui, entre 2014 e 2023 em 14 volumes, seu enredo parte de uma premissa básica intrigante: um grupo de aventureiros em uma missão de resgate dentro de uma masmorra [dungeon], na qual sobrevivem cozinhando e comendo os “monstros” que encontram pelo caminho. Misturando elementos de fantasia medieval, programas culinários e jogos de representação (RPG), a série possui (até o presente momento) uma única temporada produzida pelo estúdio Trigger e licenciada pela Netflix.

 

Este breve ensaio propõe analisar as relações entre ética culinária, tabus alimentares e história ambiental multiespécies a partir de alguns poucos trechos de Dungeon Meshi, tomando sua narrativa como um artefato cultural privilegiado para refletir as transformações contemporâneas nas formas de pensar a alimentação, a alteridade e as fronteiras entre humano e não-humano. Em diálogo com o tema proposto – “Ásia em transe” –, partirei da hipótese de que a narrativa mobiliza um estado de suspensão e reconfiguração de normas culturais alimentares, no qual o incomestível torna-se comestível, instaurando uma zona de instabilidade ética, ontológica e simbólica, situação que encontra paralelos em diversas experiências históricas, a exemplo da escassez alimentar no Japão do pós-Segunda Guerra Mundial [veja Aldous, 2013]. Por certo, embora não se possa estabelecer uma relação causal direta entre Dungeon Meshi e a experiência histórica japonesa, é possível identificar uma ressonância na forma como o anime problematiza a instabilidade do comestível em contextos de escassez. A experiência nipônica após os anos 1945, marcada por crises alimentares e reconfiguração de hábitos dietéticos, evidencia como os tabus alimentares são contingentes e passíveis de transformação quando confrontados com a necessidade. Nesse sentido, a obra reinscreve, em categorias fantásticas, uma questão histórica recorrente: a fragilidade das fronteiras entre comestível e incomestível e das relações entre animais humanos e não-humanos em contextos de crise.

 

Do ponto de vista teórico, faço uso das reflexões de Michel Foucault [2020] acerca da dietética como prática de si, entendendo a alimentação não apenas como necessidade fisiológica, mas como técnica ética de constituição do sujeito. Nesse sentido, comer implica escolhas, regulações e saberes que produzem formas de subjetividade e pluralidade. Ainda, almejo mobilizar os campos da história ambiental e história multiespécies, entendida como uma abordagem não antropocêntrica que enfatiza as redes de interdependência entre diferentes formas de vida. Inspirada por debates contemporâneos nas humanidades, essa perspectiva permite compreender a alimentação como uma prática relacional, na qual consumir o “outro” implica incorporá-lo material e simbolicamente. Para tanto, apoio-me nas concepções da bióloga-filósofa Donna Haraway [2021] sobre espécies companheiras e da antropóloga Anna Tsing [2019] ao propor uma abordagem etnográfica multiespécies.

 

Deslocando esse referencial para o universo ficcional de Dungeon Meshi, observa-se que a ingestão de “monstros” (prática inicialmente marcada como tabu) passa a operar como um campo de experimentação ética, no qual se redefinem os critérios de comestibilidade, pureza e perigo que rompem com a categoria “humano”. Sua dinâmica interespécies é radicalizada: monstros deixam de ser apenas inimigos ou obstáculos e passam a ser integrados ao cotidiano alimentar dos personagens, desmantelando as fronteiras entre caça, cozinha e convivência, reconfigurando a percepção dos limites que definem as espécies. Neste “transe alimentar”, tradições culinárias são tensionadas e transformadas, permitindo vislumbrar formas alternativas de coexistência entre espécies. Essa inflexão teórica permite reler o discurso do mangá/anime não apenas como narrativa de sobrevivência e culinária, mas como experimentação diante das fronteiras entre espécies. Ao converter monstros em alimento, a obra desloca essas criaturas do campo da ameaça para o da nutrição, produzindo uma reconfiguração que atravessa corpo, cultura e linguagem. O monstro deixa de ser algo a ser eliminado e passa a ser alguém que pode constituir os considerados “humanos”. Ao definir a própria “humanidade” de maneira multiespécie, englobando diferentes corpos (homens, elfos, pequeninos, anões, gnomos, orcs, entre outros), a figura antropocêntrica se desfaz e, desde já, abre-se à dissolução das fronteiras entre humanos e seus “outros”.

 

Descendo as masmorras

Panelada de cogumelos andante, torta de plantas comedora de gente, basilisco assado, omelete de mandrágora, tempurá de morcego gigante, sopa de armadura viva… essas e outras iguarias, no mínimo pouco ortodoxas, são centrais à narrativa de Dungeon Meshi. A história acompanha um grupo de aventureiros por antigas masmorras à procura de um tesouro escondido no Reino Dourado. Após uma primeira incursão frustrada, o humano Laios, a elfa Marcille e o pequenino Chilchuck retornam aos andares inferiores para salvar Falin, irmã de Laios, antes que ela seja totalmente digerida por um dragão que foram incapazes de derrotar em virtude da fome e do cansaço. Sem dinheiro ou mantimentos e inspirados por um guia culinário de calabouço, eles decidem sobreviver cozinhando os monstros que encontram no caminho. Auxiliados pelo anão Senshi, cozinheiro dedicado aos monstros da masmorra há uma década – não à toa, seu nome significa “investigador” no idioma dos anões [Kui, 2024, p. 37]. O roteiro descreve as jornadas pelos diversos níveis da masmorra, incluindo cenários, armadilhas e monstros que surgem, com especial atenção às refeições preparadas pela equipe.

 

A cozinha, aqui, assume um papel decisivo. Ela não apenas transforma a matéria bruta em alimento, mas opera como dispositivo de mediação entre espécies. É no ato de cozinhar que o monstro é despojado de sua alteridade radical e reinscrito em uma lógica de comestibilidade. Temperar, cortar, ferver, assar – atos que participam ativamente da produção de uma nova prática discursiva. O que era perigoso torna-se nutritivo, o que era repulsivo torna-se saboroso e o “outro” é ressignificado como companheiro de um mundo no qual a vida e a morte estão em jogo [Haraway, 2021, p. 75]. A técnica culinária, nesse contexto, é também uma técnica de domesticação e compartilhamento da existência. Essa domesticação, contudo, não implica a eliminação completa da alteridade, ao contrário, ela a reinscreve sob novas formas e corporalidades [Tsing, 2019, p. 40]. Comer o monstro não é simplesmente neutralizá-lo, mas estabelecer com ele uma relação ambígua, na qual incorporação e diferença coexistem [Haraway, 2008, p. 87]. O “outro” não desaparece, mas persiste como traço, como memória material inscrita no corpo daquele que o consome. É nesse ponto que a história multiespécies oferece uma chave interpretativa para a alimentação como um espaço privilegiado de encontro e tensão entre diferentes formas de vida.

 

Habitando as ruínas

Um interessante exemplo da relação entre espécies na obra é a interdependência de Senshi com os golems, apresentada no quarto episódio do anime e no segundo volume do mangá. Com corpos humanoides, os golems são constituídos por materiais terrestres – como lama, terra e pedra, de modo que, conquanto não sejam comestíveis aos viajantes, Senshi vê neles canteiros para cultivo e companheiros no calabouço. Por um lado os golems oferecem as condições ideais de temperatura e umidade para o crescimento das plantas, protegendo-as contra pragas e possíveis ladrões, por outro as plantações fortalecem o solo e criam raízes, essenciais à sobrevivência dos golems. Essa relação de apropriação mútua, assemelha-se àquela denominada pela antropóloga Anna Tsing [2019] como uma “diversidade contaminada”. Ou seja, a multiplicidade de novas formas de vida e adaptações colaborativas que emergem em ecossistemas perturbados – quer sejam cogumelos matsutakes nas ruínas do capitalismo ou golems como campo de cultivo em masmorras amaldiçoadas. Segundo Tsing [2019, p. 23], a diversidade contaminada pode parecer monstruosa: “mas é quem somos e o que temos disponível como parceria para uma terra habitável.” Desenvolve-se, portanto, uma relação simbiótica na narrativa de Dungeon Meshi, na qual o grupo de aventureiros obtém nos golems legumes e verduras necessários à sua sobrevivência, enquanto estes seguem vivos e seguros por causa da relação de cultivo. Nessa associação benéfica para ambos, o risco de inanição para uns e extinção para outros é superada, mesmo em meio às mudanças no ecossistema do calabouço, causadas pela crescente interferência empreendida na busca de riquezas e minérios. Tal cenário se torna um bom exemplo de espaço marcado pela “perturbação lenta”, isto é, aquele cujos impactos antropogênicos ainda permitem relações de existência multiespécie e nutrem colaborações interespecíficas [Tsing, 2019, p. 23-24]. Nesse sentido, mais do que um retorno à natureza pura ou estado originário, torna-se necessário “viver nas ruínas” a partir de resistências colaborativas.

 

Como se observa no roteiro do anime: “As paisagens globais de hoje estão repletas desse tipo de ruína. Ainda assim, esses lugares podem ser animados apesar dos anúncios de sua morte; campos de ativos abandonados às vezes geram novas vidas multiespécies e multiculturais. Em um estado global de precariedade, não temos outras opções além de procurar vida nessa ruína.” [Tsing, 2019, p. 7].

 

Fazendo parentes

Outro momento relevante apresenta a relação peculiar, novamente de Senshi, com uma kelpie, criatura aquática metamorfa da mitologia celta, a quem carinhosamente apelida de Anne no sétimo episódio do anime e segundo volume do mangá. Senshi e Anne desenvolveram um vínculo de “parentesco” [kin], com ele ofertando afeto e alimento à égua marinha. Todavia, assim que ele tentou montá-la para atravessar um rio, seus instintos de caça levaram-na a atacar Senshi, carregando-o ao fundo do rio para afogá-lo. O roteiro é acurado em expor como os próprios aventureiros já estão incluídos no círculo alimentar daquele calabouço e como eles: “vivem e morrem juntos, inclusive ao matar” [Haraway, 2021, p. 27]. Anne torna-se uma espécie companheira para Senshi, com quem compartilha a existência até o último minuto. Segundo Donna Haraway [2021], as “espécies companheiras” abrangem seres, tanto humanos quanto não-humanos, cujas relações se caracterizam por um emaranhamento de codependência, colaboração e transformação recíproca, pondo em questão a dicotomia entre natureza e cultura. Mas o coflorescimento multiespécie suscita verdades simultâneas e contraditórias, uma delas é a de que: “nem todas as espécies companheiras são amigáveis” [Haraway, 2021, p. 33]. Para edificar uma ética capaz de lidar com tais distinções, é preciso habitar o problema, reconhecer-se como mais um “bicho” [critter] que está ligado a diversos outros em interdependência mútua, inclusive para viver e morrer com responsabilidade em tempos precários [Haraway, 2023, p. 13-14]. Assim, a própria kelpie Anne, companheira em coevolução, codomesticação e alteridade significativa, também é convertida em alimento, deslocando as posições entendidas como privilegiadas naquele ecossistema e rompendo com a consciência que demarca toda relação interespécie como exclusivamente cooperativa ou competitiva.

 

Nos termos de Donna Haraway [2016, p. 215]: “Somos companheiros, cum panis, juntos à mesa. Somos aqueles que estão em risco uns com os outros, somos a carne uns dos outros, que comem e são comidos, e ficamos com indigestão, estamos, no sentido de Lynn Margulis, na conjuntura simbiogenética de viver e morrer na Terra.” – eis o caso da microssociedade do calabouço em Dungeon Meshi.

 

O prenúncio antropofágico

Há de se notar, porém, como a narrativa ainda mantém determinadas barreiras entre espécies a partir de um certo grau biologicista e reducionista de “humanoide” – isso é, os monstros se tornam comestíveis a partir de um afastamento dos caracteres associados à aparência humana. Tal fato é evidenciado ao se depararem com sereias e homens-peixe, quando de passagem pelo quarto nível do calabouço no volume três e episódio sete. Por serem monstros híbridos, semi-humanos, é mencionado por Chilchuck a impossibilidade ética de se consumi-los, afinal sua estrutura e características eram muito semelhantes às deles. Contudo, é interessante observar como Laios reage à fala do amigo. Ele se questiona sobre o que seria a categoria “humanoide”, afinal as vacas e os porcos estariam biologicamente mais próximos do ser humano do que seres com guelras, escamas e nascidos de ovos. Por certo, a narrativa não está apresentando uma defesa ao consumo de espécies que lembram a humana, mas procura tensionar nossas interdições, apresentar hipocrisias alimentares interespécies e desmontar argumentos biologicistas. A crítica recai sobre a dissonância ética que os humanos demonstram ao categorizar certas espécies como matáveis e outras não, colocando-nos, uma vez mais, como centro absoluto das relações. O consumo alimentar em si não é foco desta crítica evidenciada em Dungeon Meshi, mas a própria lógica antropocêntrica e biopolítica através da qual indivíduos não-humanos se tornam matáveis [Haraway, 2008, p. 38]. Nossa verdadeira proibição, como argumenta Haraway [2008, p. 97-107], deveria ser a transformação de toda uma espécie em seres matáveis. Essa abordagem não eliminaria a morte em si, mas proporcionaria uma alternativa ao extermínio sistemático que caracteriza a indústria alimentar atual, pautada pela ideia de que certas formas de matar podem ser consideradas eticamente “legítimas”.

 

Em verdade, a preocupação de Chilchuck em consumir um monstro de “aparência humana” se dá por um constante perigo que se esgueira pelas sombras da masmorra: o tabu do canibalismo. Esse prenúncio antropofágico, proveniente da recôndita ameaça de consumo da própria espécie ou de monstros símiles a si mesmo, vem à luz ao apresentar a história pregressa de Senshi – relatada no vigésimo terceiro episódio do anime e sétimo volume do mangá. Na juventude, ele foi o membro mais jovem de um pequeno grupo de mineiros que se aventuraram pelas masmorras à procura de riquezas. Porém, quanto mais fundo avançavam, maior era a ganância e maiores os riscos de jamais voltarem à superfície. Sem alimentos e sem encontrar a saída, os anões começaram a ser paulatinamente atacados por um grifo – ave mitológica híbrida de águia e leão. Com o passar do tempo, sobraram apenas três membros do grupo até que, certa noite, após dias sem comida, o líder Girin e o severo Briggan se desentenderam e saíram do abrigo para discutir, mas apenas um deles retornou. Girin afirmou que foram atacados pelo grifo, mas o companheiro não sobreviveu. Dizendo ter vencido a ave, preparou uma sopa com a suposta carcaça do grifo e saiu, nunca mais voltando. O enredo explora como Senshi por muito tempo não teve certeza se a carne que comeu era de grifo ou de seu amigo Briggan, o que o assombrou em diversas refeições por muitos anos. Assim, toda vez que preparavam um novo monstro, os sabores serviam de possível anúncio da refeição criminosa.

 

A cozinha do impossível

Para além desse evento, os tabus relacionados aos limites da alimentação estão recorrentemente presentes na narrativa. No mangá, as personagens se questionam: “Está tudo bem para nós comermos isso?” [Kui, 2024, p. 39] e no anime o narrador questiona ao público: “Será que é mesmo certo comer algo assim? Foi isso o que todo mundo pensou, mas ninguém disse uma palavra a respeito”. O temor ético de estar se alimentando de um “outro” senciente confronta as personagens de Dungeon Meshi com o tabu antropofágico, mas, como rememora Haraway [2008, p. 80]: “Por mais que tentemos nos distanciar, não há modo de viver que não seja também o modo de alguém, não apenas algo, morrer diferencialmente.” Se há um transe em jogo no calabouço, ele não se limita à suspensão momentânea de normas alimentares. Trata-se, antes, de um transe ontológico: um estado no qual as categorias que organizam a experiência – humano e monstro, alimento e ameaça, eu e “outro” – tornam-se instáveis, abrindo espaço para novas formas de existência. Nesse sentido, a cozinha do impossível não é apenas um recurso narrativo, mas uma figura crítica que nos obriga a repensar aquilo que tomamos como dado: que comer é sempre, também, tornar-se. O medo de Marcille é ser contaminada pelos monstros ao comê-los, o medo de Senshi é se tornar, ele próprio, monstruoso a partir de sua dietética. Dessa consciência surge a “regra de ouro” que define Senshi: só tomar para si o estritamente necessário ao consumo. Constantemente preocupado com a manutenção do ecossistema do calabouço, o anão possui uma forte crença da mínima interferência na busca de devolver à masmorra o que dela retira. Isso fica evidente ao observar que, talvez somente à exceção do Dragão Vermelho (a quem precisam derrotar para salvar Falin), os aventureiros não caçam deliberadamente os monstros para consumo. Nesse sentido, Tsing [2019, p. 43] bem sintetiza como mesmo nas associações coletivas pautadas pelo mutualismo multiespécie, como no processo de micorrização: “Há muitas maneiras de comer e compartilhar comida.”

 

Pós-refeição

Em resumo, argumento que a temática dietética em Dungeon Meshi funciona como discurso que torna o “incomível”  não apenas viável, mas normativamente aceitável dentro de um novo regime de verdade e ética culinária que recria a relação entre espécies. Sua narrativa não apenas reconstrói tabus alimentares, também produz novos modos de habitar um mundo marcado pela agência não-humana. Modos nos quais a sobrevivência depende da capacidade de reconfigurar fronteiras, de negociar com o “outro” e de reconhecer que o humano não se define por oposição absoluta, mas por relações contínuas de troca, incorporação e transformação interespécies. Assim como observam Tsing [2019] e Harraway [2023], ao proporem outras formas de habitarmos o atual cenário de crise ecológica a partir de dinâmicas coletivas multiespécies, o mangá (e o anime dele derivado) constroem uma realidade fantástica na qual a alimentação e a culinária se tornam centrais aos relevantes debates de história ambiental e histórias multiespécies. Se estamos emaranhados e dependemos de outras espécies para existir, ao invés de fugir dos conflitos é preciso “ficar com o problema”. Nos termos de Ryōko Kui [2024, p. 40]: “Neste lugar de comer ou ser comido, não há tal coisa como presa ou predador. Porque comer é um privilégio daqueles que conseguem sobreviver.”

 

Referências

Felipe Daniel Ruzene é doutorando e mestre pelo Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal do Paraná (PPGHIS/UFPR), sob orientação da Prof.ª Dr.ª Renata Senna Garraffoni. E-mail: felipe.ruzene@ufpr.br.

 

ALDOUS, Christopher. “A dearth of animal protein: reforming nutrition in Occupied Japan (1945-1952)”. In: CWIERTKA, Katarzyna (Org.). Food and War in Mid-Twentieth-Century East Asia. Londres/Nova York: Routledge, 2013. p. 53-72.

DUNGEON MESHI. Direção de Yoshihiro Miyajima. Tóquio: Studio Trigger, 2024. Netflix.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 2: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2020.

HARAWAY, Donna. When species meet. Mineápolis: University of Minnesota Press, 2008.

HARAWAY, Donna. Manifestly Haraway. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2016.

HARAWAY, Donna. O manifesto das espécies companheiras: cachorros, pessoas e alteridade significativa. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.

HARAWAY, Donna. Ficar com o problema: fazer parentes no Chthluceno. São Paulo: N-1 Edições, 2023.

KUI, Ryōko. Delicious in Dungeon: calabouços e delícias. vol. 1. Barueri, SP: Panini Brasil, 2024.

TSING, Anna. Viver nas ruínas: paisagens multiespécies no Antropoceno. Brasília: IEB, 2019.

8 comentários:

  1. Felipe Lomba Ferreira7 de julho de 2026 às 11:09

    Olá, me chamo Felipe Lomba Ferreira, sou mestrando em História pela UEPG e antes de realizar minha pergunta gostaria antes de parabenizá-lo pelo ensaio. Dungeon Meshi é para mim uma obra por qual tenho muito carinho justamente pelos debates que a mesma propõe no campo da ética e na história ambiental. Minha pergunta é a seguinte: a obra poderia ser lida como uma uma forma de conscientizar nosso modo histórico de consumir e nos alimentar, considerando a atual indústria alimentícia que terceiriza o trabalho, a morte e junto com isso, a culpa de matar e a responsabilidade por tal ato?

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    1. Felipe Daniel Ruzene8 de julho de 2026 às 17:16

      Olá, Felipe! Como vai?

      Agradeço muito pela pergunta, xará. Penso que essa é uma leitura bastante pertinente da obra. Não que Dungeon Meshi constituia uma crítica direta à indústria alimentícia contemporânea, mas certamente oferece ferramentas para problematizá-la. Enquanto nosso sistema alimentar tende a terceirizar o trabalho, a morte e, consequentemente, a responsabilidade ética envolvida na alimentação, a narrativa faz exatamente o contrário: obriga seus personagens a reconhecerem que comer é sempre entrar em relação com outras formas de vida – “viver e morrer juntos”, diria Haraway. A obra não questiona apenas o que comemos, mas como nos relacionamos com aquilo que comemos, tornando visíveis os vínculos ecológicos, sociais e morais que buscam-se apagar no presente. Nesse sentido, acredito que sua principal contribuição não seja defender ou condenar determinadas práticas alimentares, mas nos lembrar de que não existe alimentação sem responsabilidade, existem apenas diferentes maneiras de assumir (ou de invisibilizar) os custos éticos de nossos modos de vida.

      Muito obrigado pelo debate!

      Felipe Daniel Ruzene.

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  2. Denilson J. Carvalho Rosa8 de julho de 2026 às 19:08

    Parabéns pelo excelente trabalho! É fascinante ver um tema trico ser articulado de forma interessante e odos animes.
    Pensando justamente no episódio da kelpie Anne, em que o parentesco construído colide com a necessidade de transformá-la em alimento, de que maneira você percebe a técnica culinária atuando para processar não apenas a matéria, mas o próprio luto de se incorporar um companheiro de existência?

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    1. Felipe Daniel Ruzene9 de julho de 2026 às 10:29

      Olá, Denilson! Tudo bem?

      Obrigado por sua pergunta e pelos gentis comentários. Acredito que uma possibilidade de resposta seja a de que, no episódio de Anne, a técnica culinária deixa de ser apenas um conjunto de procedimentos voltados à preparação do alimento e passa a atuar como uma mediação ética diante da perda, assumindo a forma de um verdadeiro ritual. Ao cozinhar a kelpie com quem havia estabelecido uma relação de parentesco, Senshi não apaga o vínculo construído, mas performa um rito fúnebre que torna suportável a incorporação daquela que foi, simultaneamente, companheira e ameaça. A técnica culinária, nesse caso, talvez não procure reduzir Anne à condição de recurso, mas reconhecer e ritualizar esse "morrer juntos" que acompanha o viver em um mundo multiespécies. Penso que sua leitura é bastante pertinente ao sugerir que a culinária processa não apenas a matéria, mas também o luto. Como rito funerário, a cozinha permite que a alimentação não implique nem o esquecimento da companheira (alguém, não algo) nem o apagamento ético da violência predatória (inerente ao matar para viver), mas constitua um gesto de memória e responsabilidade. Assim, esse episódio não elimina a alteridade, ao contrário, complexifica as relações alimentares em Dungeon Meshi, apresentando a culinária como uma prática ética de elaboração da perda e de reconhecimento da interdependência entre espécies. Há, portanto, a meu ver, uma associação muito relevante entre técnica culinária e luto neste episódio.

      Espero ter conseguido responder seus questionamentos. Agradeço pelo debate!

      Felipe Daniel Ruzene.

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  3. Que trabalho interessante! Você estabelece um paralelo entre a suspensão de normas alimentares na masmorra e a experiência histórica do Japão no pós-Segunda Guerra, marcada pela escassez e reconfiguração de hábitos dietéticos. Poderíamos interpretar a “cozinha do impossível” de Senshi não apenas como uma fantasia de sobrevivência, mas como uma crítica à memória traumática da fome, onde o tabu (como o canibalismo ou o consumo de monstros) deixa de ser uma questão de moral absoluta para se tornar uma contingência política?

    Renata Lorencette Cavalcanti

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    1. Felipe Daniel Ruzene10 de julho de 2026 às 08:59

      Olá, Renata. Como está?

      Agradeço a pergunta. Uma interpretação como essa é certamente possível... O cuidado que procurei adotar ao mencionar a experiência histórica de escassez alimentar do Japão no pós-guerra foi deixar evidente que Dungeon Meshi não representa diretamente esse trauma histórico, mas mobiliza uma narrativa que ressoa com situações em que a necessidade desestabiliza categorias aparentemente "universais" sobre o que pode ou não ser comido. No contexto do mangá/anime, evoca-se constantemente a contingência histórica, política e cultural dos tabus alimentares e, ao problematizar essas interdições alimentares, interrogam-se os dispositivos que produzem os regimes de verdade acerca do matável e do comestível. Não se trata simplesmente de relativizar a ética, mas de mostrar como as questões morais são continuamente reconfiguradas pelas condições materiais de existência, sem jamais eliminar o desconforto ou a responsabilidade implicados no ato de comer. É justamente por isso que o medo de Senshi não se limita à inanição, mas também ao risco de tornar-se "monstruoso" por meio da própria dietética. Assim, sua regra autoconstituída de retirar da masmorra apenas o estritamente necessário reinscreve a alimentação em uma ética do cuidado e da reciprocidade multiespécie, em vez de reduzi-la a uma simples lógica de sobrevivência.

      Muito obrigado e espero ter respondido minimamente sua indagação!

      Felipe Daniel Ruzene.

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  4. Olá Felipe, gostei muito do seu trabalho! Nele você propõe que a obra instaura um “transe ontológico” onde as categorias de humano, monstro e alimento se tornam instáveis, também menciona que Laios questiona a categoria 'humanoide' ao notar que vacas e porcos são biologicamente mais próximos dos humanos do que as sereias. Se a humanidade em Dungeon Meshi é definida de maneira multiespécie (englobando elfos, anões, etc.), o tabu do canibalismo não se tornaria um obstáculo para a própria tese de dissolução das fronteiras antropocêntricas? Como manter uma “ética de não-extermínio” se a proximidade biológica continua sendo o principal critério para decidir quem é matável ou comestível?

    At.te.,
    Thaiza Pessanha Medeiros

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    1. Felipe Daniel Ruzene10 de julho de 2026 às 09:47

      Olá, Thaiza. Tudo bem?

      Muito obrigado pela excelente pergunta. Penso que essa tensão é justamente um dos pontos mais interessantes da narrativa... Minha leitura é de que Dungeon Meshi não consegue superar completamente o antropocentrismo, mas o torna visível como problema – a despeito de suas próprias contradições. Entendo o "transe ontológico" não como um estado final, mas como um campo de problematização em que as categorias continuam existindo, embora deixem de parecer naturais e passem a revelar seu caráter histórico, ético e político. Trata-se, portanto, não da eliminação definitiva das fronteiras entre humano e não humano, mas de sua permanente instabilização. A própria “humanidade” representada na obra passa a constituir uma comunidade multiespécie (reunindo humanos, elfos, anões, orcs, gnomos etc.), contudo, isso não significa que todas as fronteiras desapareçam, mas que elas deixam de ser tomadas como naturais e passam a ser continuamente problematizadas. Como argumento no texto, a obra ainda preserva determinadas barreiras entre espécies a partir de um critério biologicista de “humanoide”, e é precisamente por isso que o episódio das sereias é tão relevante: ao questionar por que animais biologicamente mais próximos dos humanos são considerados comestíveis enquanto aqueles seres não o são, Laios evidencia a inconsistência dos critérios que sustentam nossos tabus alimentares. A questão, portanto, não é substituir um critério por outro, mas revelar que toda classificação do matável e do comestível é histórica e discursivamente construída. Nesse sentido, a ética de não-extermínio (inspirada em Donna Haraway) não depende da eliminação de toda distinção entre espécies, mas da recusa em transformar qualquer espécie em uma categoria de vidas indiscriminadamente matáveis, deslocando o foco da identidade biológica para as relações de coexistência, responsabilidade e interdependência. Parece-me, portanto, que a presença constante do tabu do canibalismo não invalida a tese do “transe ontológico”, mas evidencia que essa transformação nunca se completa. A força da narrativa está justamente em convidar o leitor a habitar essa contradição (ou, nos termos de Haraway, “ficar com o problema”) em vez de oferecer uma solução definitiva para as fronteiras entre humano, monstro e alimento. Em outras palavras, Dungeon Meshi não cria um mundo em que o antropocentrismo tenha sido plenamente superado, antes, dramatiza as fissuras e os limites dessas categorias, propondo não abolir os marcadores de diferença, mas aprender a viver responsavelmente em meio a eles.

      Agradeço o debate e espero ter conseguido lhe responder!

      Felipe Daniel Ruzene.

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