O ESTUDO DAS VIRTUDES PRESENTE NO PENSAMENTO CONFUCIONISTA NO INÍCIO DA ERA DOS OUTONOS SÉCULO V A.C por Lunna Sant’Anna Souza Arthur Bertolo Pazeto

 

Introdução

Poucas figuras da História Chinesa merecem o destaque de uma personagem como Confúcio e certamente nenhuma conquistou o mesmo lugar que ele na História Mundial. O pensamento confucionista excedeu na civilização chinesa o espaço da mera filosofia política, redefinindo para sempre a posteridade, tanto à nível intelectual, quanto à âmbito cultural tendo em vista sua preocupação com a preservação dos costumes e da tradição chinesa por meio da educação. Há quem diga que ele é o grande responsável por ter tornado possível a existência de uma identidade Han e mesmo da nação que a China se tornou na modernidade.

 

Através da análise dos Analectos também conhecidos como Diálogos de Confúcio, a investigação objetiva compreender o Estudo das Virtudes no complexo pensamento de Confúcio durante o século V a.C. Os Analectos [Lunyu 論語] constituem documentos os quais reúnem as primeiras ideias do Confucionismo, abarcam diálogos entre Confúcio e seus discípulos e informações importantes a respeito de seu pensamento e vida (Ni, 2023, p. 84).

 

 O Confucionismo integra parte da tradição chinesa do Leste Asiático. O processo de elaboração dessa forma de pensamento está atrelado às mudanças ocorridas no âmbito político, social, econômico, religioso e cultural, conforme sustenta Yao Xinzhong (2000). Para entendê-lo como um sistema tradicional de valores ou estilo de vida cabe refletir sobre sua origem e as transformações pelas quais passou ao longo do tempo. Durante a alternância das dinásticas chinesas no poder o Confucionismo sofreu mudanças e adaptações a partir das novas demandas políticas e sociais, sendo aos poucos, fortalecido (Xinzhong, 2000, p.4).

 

O cenário político no qual o filósofo viveu denominado “Primavera e Outono” refletiu em sua trajetória intelectual. Nesse sentido, o artigo propõe analisar as dinâmicas políticas internas ocorridas durante o século 5 a.C na Antiguidade chinesa a fim de compreender a elaboração do pensamento do autor, o pensamento humanista de Confúcio, as Virtudes e o Dao do Estudo.

 

Uma Nova Era para a sociedade chinesa: O Período Primavera e Outono

De acordo com Li Feng (2013) professor de História e arqueologia dedicado ao campo de estudos sobre China Antiga da Universidade de Columbia, o filósofo chinês Confúcio viveu num período de transição entre a Dinastia Zhou Ocidental e o período Primavera e Outono. O momento histórico divide a “Antiguidade’’ e “Pós – Antiguidade’’ nos estudos a respeito da China Antiga. As mudanças ocorridas nesse momento emolduraram o início de uma nova era para a sociedade do Rio Amarelo, tendo em vista a consolidação de grandes regimes imperiais (Li, 2013, p. 162).

 

Sobre esse período histórico, Yao Xinzhong (2000) analisa que nessa primeira fase o Confucionismo adquiriu uma forma clássica. Confúcio e seus discípulos realizaram os primeiros trabalhos para criar uma nova filosofia fundamentada na antiga tradição e a apresentaram como o caminho para a paz e harmonia (Xinzhong, 2000, p.7).

 

O período Primavera e Outono também conhecido como Zhou Oriental, teve início a partir da realocação da corte real Zhou após ter sido restaurada por parte do novo rei denominado Ping, o antigo príncipe exilado para a localidade de Luoyang ao oeste de Henan na confluência dos rios Lu e Yi. A ocorrência de um colapso ocorrido na defesa das forças militares Zhou no Oeste, a perda do vale do alto rio Jing e os constantes conflitos políticos entre a nova corte e o pretendido rei da antiga região da capital ocasionaram a mudança (Li, 2013, p. 163). 

 

Ao passo que as mudanças políticas aconteciam, intensas movimentações populacionais migratórias das terras altas ocidentais para a localidade das planícies centrais e orientais circundavam a realidade da China nos tempos antigos (Li, 2013, p. 163). A organização político-administrativa contou com o surgimento de estados, em grande parte alocados em regiões periféricas, protegidos por montanhas e rios, no interior dos grupos subdesenvolvidos e não pertencentes aos Zhou. Uma vez que residiam em lugares mais distantes, gozavam do privilégio de expandir seus domínios políticos e absorver recursos sociais e econômicos (Li, 2013, p. 164). 

 

Por fim, a respeito do desenvolvimento político atividades de campanhas militares ocasionaram a obtenção de novos territórios. Todavia, os inúmeros confrontos impactaram de forma negativa a política dos estados e a mentalidade das pessoas (Li, 2013, p. 190). A conjuntura histórica caracterizada por mudanças políticas, realocação da corte real Zhou e a transição de governo trouxe incertezas para a população. Pensadores como Confúcio objetivaram solucionar esses problemas através da Filosofia e resgate da tradição chinesa.

 

A História de Zhou Oriental através da Linguagem Poética

No decorrer do século VI a.C, a dinastia Zhou instaurou uma espécie de regime político-econômico denominado Fengjian, o qual dividiu o império em várias localidades provinciais e reinos. Conforme a ordenança imperial cada governante desses territórios estava sob às ordens do imperador Zhou, em troca de obediência e fidelidade possuíam autonomia no âmbito administrativo. Entretanto, tal como discute André Bueno (2019) com o passar do tempo tendo em vista o advento dos conflitos internos, a dinastia não conseguiu estabelecer total controle das regiões, o que resultou na independência desses locais. Além disso, os administradores provinciais criaram seus próprios reinos e leis (Bueno, 2019, p. 14). 

 

A atmosfera de violências ganhou notoriedade na China antiga, as produções literárias tais como o Shujing [Tratado das Histórias] e as Chunqiu [Primaveras e Outonos] narravam com preocupação a respeito das batalhas, dos guerreiros, e graves crises. Na obra o Tratado das Poesias há um lamento sobre a persistência das guerras (Bueno, 2019, p. 14).

 

A ausência do imperador na dinastia Zhou foi alvo de grande preocupação, haja vista que, o “mandato do céu’’ não poderia ser cumprido. De acordo com a teoria política, o imperador era responsável por equilibrar a ordem cósmica da natureza de todas as coisas. Nesse contexto de incertezas políticas, diversos pensadores elencaram propostas para solucionar os problemas, um deles foi Confúcio, filósofo, o primeiro historiador chinês, defensor da educação como instrumento de prevenção das crises de ordem social (Bueno, 20219, p. 15).

 

Por fim, conforme discutido as transformações políticas, sociais e econômicas ocorridas durante a época de Confúcio considerado o pai da educação na China, consolidaram uma nova fase de desenvolvimento na história chinesa. Nesse processo, para além da historiografia é indiscutível a importância das produções poéticas destinadas a narrar os acontecimentos políticos desastrosos em decorrência da atmosfera caótica promovida por parte das guerras no período analisado.

 

O Pensamento Humanista de Confúcio

Antes de abordarmos a proposta, é necessário que se façam algumas considerações importantes. Pretende-se neste texto trazer os principais pontos que compõem o pensamento de Confúcio, como alguns conceitos e ideias fundamentais que permitem compreender o que foi proposto por este autor tão importante da história chinesa. Muitos destes conceitos foram reinterpretados por outros autores da Escola Confucionista ao longo da história, até mesmo influenciados por outras tradições de pensamento como o legismo, o taoísmo e o budismo. Porém, não pretendemos discutir a evolução histórica do Confucionismo, mas traçar contornos gerais daquilo que os seguidores do Mestre julgaram ser importante nos séculos após sua morte.

 

O cenário político no qual o autor estava imerso se tratava de um momento crucial para a história chinesa como um todo. A desagregação da ordem política da Dinastia Zhou Oriental colocara todo um sistema social em cheque. A insubordinação crescente dos estados em relação ao Filho do Céu [天子], provocou um sentimento de incerteza e crise em relação ao futuro. Surgiram então muitos pensadores que propuseram soluções para esta situação, alguns contemporâneos entre si, outros pouco mais tardios, mas havia algo em comum entre quase todas estas escolas de pensamento que surgiam: todas elas ofereciam um Dao []. Mas o que seria um Dao?

 

A palavra Dao em mandarim pode significar caminho, via, ou mesmo método, e já era usada no Livro das Mutações [Yi Jing] para se referir aos caminhos da natureza ou modos de ação. Mas foi com Lao Zi, fundador do taoísmo filosófico, que a palavra Dao se torna um conceito metafísico, entendido como o princípio gerador do cosmos e que rege a própria realidade (Zhang, 2013, p.11-19). Esse conceito aparece posteriormente em várias correntes de pensamento, porém, cada uma delas apresenta uma ideia completamente distinta de Dao. Se analisarmos todas as propostas, chegaremos à conclusão de que Dao é o caminho que deve ser seguido para trazer a harmonia à natureza e a sociedade (o pensamento chinês tende a não separar o mundo natural do elemento humano).

 

O Dao do Estudo

O Dao segundo Confúcio, é o que o pensador denomina como Estudo. O ideograma [xué] pode ser traduzido tanto como Estudar tanto como Aprender, refletindo a concepção chinesa de que o aprendizado passa necessariamente pelo processo de estudo, e se não aprendeu, não estudou de fato (Bueno, 2019). Portanto, ambas as traduções aparecem por aqui portando o mesmo significado.

 

O Estudo que Confúcio propõe abrange a aquisição de conhecimentos formais através da leitura de textos e o desenvolvimento de habilidades técnicas, mas por outro lado trata-se de um processo de aperfeiçoamento moral, no qual os indivíduos buscariam aprimorar-se moralmente através do cultivo de determinadas virtudes éticas.  Estando as pessoas em constante processo de aprimoramento, cada um poderia exercer suas funções na sociedade de forma mais justa, sábia e correta.

 

Nisto consiste a prática do Dao – as relações sociais se dariam de maneira harmônica quando todos exercessem suas determinadas posições com Humanidade. Podemos observar no pensamento de Confúcio um forte caráter social. Para ele, o estudo e o cumprimento das funções sociais não são elementos isolados, mas sim dois lados de uma mesma moeda.

O entendimento do que seria o Dao para Confúcio está em perfeito acordo com sua posição diante do contexto político de seu tempo. Ele entendia o desrespeito cada vez mais recorrente da aristocracia para com os Ritos [ Li], como a causa fundamental da perturbação da ordem, e dos conflitos crescentes.

 

Os Ritos na época de Confúcio, eram normas sociais que regiam toda a vida das pessoas, sobretudo da aristocracia, desde etiqueta, a Direito, e deveres religiosos. Eles definiam desde coisas básicas, como o lugar determinado em que se deve sentar à mesa, com que gesto se deve saudar visitantes e representantes diplomáticos, de que forma deve-se subir os degraus da corte; a coisas mais sérias, como o tempo que se deve guardar o luto e que danças e rituais eram exclusivos do monarca Zhou.  Com a perda gradual do prestígio e da autoridade do clã real, além da insubordinação política, líderes de vários países começaram a usurpar as prerrogativas rituais do Filho do Céu (Sinedino, 2012, p.72-73).

 

Na perspectiva de Confúcio, a ordem político-social da Dinastia Zhou representava o que havia de melhor diante do Céu, e isso talvez ajude a explicar por que o Dao confucionista propõe que a solução para os conflitos de sua época, seja que as pessoas se atenham às próprias posições sociais e cumpram suas funções de forma virtuosa. Portanto, o pensamento confuciano não possui interesse em subverter a hierarquia social estabelecida — longe disso, na verdade. 

 

Nos Analectos (livro que registra os diálogos de Confúcio com seus discípulos e outras figuras), há diversas passagens que citam a figura do Junzi [君子]. Este termo é traduzido, por vezes, como “Homem Nobre” ou “Homem de Bem”, mas que significa, literalmente, “Filho de Senhor”. Nos textos antigos, se refere à um membro da nobreza, mas sendo ressignificada por Confúcio, a palavra ganha uma conotação moral, passando a representar não só a posição de nascimento de um homem, mas seu valor moral. No pensamento confucionista, Junzi passa a se referir a um modelo de perfeição eminentemente moral, ou seja, representa o exemplo para aqueles que se dedicam ao Estudo, de certa forma um objetivo; em oposição ao Xiaoren [小人], um indivíduo de caráter desprezível, desleal e sem escrúpulos (Cheng, 2008, p.69-70).

 

Para Confúcio não interessa se a natureza humana é boa ou má. Como toda ideia parte antes de um entendimento específico sobre a natureza humana, o grande diferencial de Confúcio é seu entendimento que todo homem consegue desenvolver-se (virtuosamente e tecnicamente), através do processo de Estudo para se tornar uma pessoa melhor (Cheng, 2008). 

 

Na visão de Confúcio, o homem é compreendido em sua totalidade, independentemente das diferentes funções que exerce. Aquele que é um bom pai também é um bom ministro, um bom marido, um bom amigo e um bom filho. O homem de bem não pode praticar a justiça de forma seletiva, limitando-a a certas pessoas; ele deve exercer o bem para todos aqueles que compartilham de seu convívio. Além disso, o Mestre enfatiza a importância do diálogo e da troca de ideias como parte essencial do processo de aprendizado (Cheng, 2008), assim como do convívio com pessoas que compartilham propósitos semelhantes.

 

Portanto, o Dao proposto por Confúcio, esse que encontra sua expressão no convívio das pessoas humanas, se difere, diametralmente, do Dao taoísta de Laozi — do modo de vida recluso da contemplação do mundo natural.

 

As Virtudes do Estudo

Nos Analectos, o ensinamento do Mestre nos revela uma lista de virtudes necessárias éticas que permeiam o Estudo. Trataremos sobre algumas delas a seguir. A primeira diz respeito à Piedade Filial (Filialidade), um dos temos mais recorrentes nos Analectos. Está relacionada com o respeito, à obediência, o cuidado e o amor sincero de uma pessoa para com seus familiares, mas sobretudo para com seus pais. É considerada como a raiz da moralidade por ser nesta instituição em que primeiro os indivíduos aprenderiam valores morais.

 

Na visão de Confúcio, as demais relações sociais eram projeções das relações familiares em todos os sentidos. A relação entre pais e filhos é entendida como um exemplo primordial de respeito e obediência, logo, o Mestre chega à conclusão de que, se uma pessoa é filial em casa, tenderá a ser justa e respeitosa com os outros nos diversos âmbitos da vida (Sinedino, 2012, p.5-6).

 

Além disso, para o estudioso a família é uma estrutura hierárquica por excelência, assim como a sociedade, portanto, entende-se que o relacionamento parental serve como modelo para o relacionamento entre governantes e súditos. Estando estabelecida essa lógica, conclui-se que muitos problemas sociais são derivados de conflitos no seio da família, seja por falta de estruturação nesse ambiente, seja pela transmissão de maus valores. Por isso, em grande medida, a harmonia da sociedade deriva da harmonia familiar.

 

Tratemos, ainda, da virtude nomeada por Ren [], palavra esta que significa “humanidade”, traduzida por vezes como “qualidade humana”. Trata-se da virtude, possivelmente, mais citada ao longo dos Analectos por Confúcio, em passagens que dão grande importância a esse ideal. Apesar disso, o Mestre não se preocupa em dar uma definição explícita sobre o que seria o ren, mesmo que tenha colocado esse valor tão alto que não o atribuía nem a si mesmo (Cheng, 2008, p.71). 

 

A partir da leitura dos Analectos, podemos inferir que, o Ren é a virtude na qual estão resumidas todas as outras (Sinedino, 2012), trata-se da expressão prática do Dao do Estudo, na verdade do próprio objetivo do Estudo em si. Agir com Humanidade se refere a um tipo de comportamento em específico, o modo de ação do Junzi [Homem Nobre] de como devemos nos relacionar com os outros nas nossas relações sociais. Mais uma vez se observa a característica social da filosofia de Confúcio, em que as virtudes encontram seu propósito ao harmonizar os relacionamentos humanos.

 

A falta de conceituação de Confúcio sobre o Ren, não denota uma ausência de conhecimento pleno sobre do que se trata o ato de ser humano. A virtude da Humanidade, assim como a figura do junzi, não se tratam de ideal inflexível, cristalizado. Não se trata de alcançar um estado pleno do ser, no qual se atingiria o plano da “santidade” ou de uma “iluminação” (em um sentido budista amplo), mas de uma direção a qual devemos tender de forma perene, porque se o ser humano é perfectível indefinidamente, sempre conseguiremos nos tornar mais humanos.

 

Considerações Finais

O desenvolvimento da filosofia de Confúcio durante o período da Antiguidade Chinesa objetivou por meio da tradição chinesa criar um ideal de sociedade por meio do exercício das virtudes, o senso de Humanidade e o Dao do estudo a fim de garantir a plena harmonia social e criar possibilidades para que os indivíduos encontrem o caminho da paz.

 

Para tanto, o filósofo, grande defensor dos princípios educacionais, utilizou a educação como instrumento a fim de criar homens capazes de servir à comunidade na qual vivem, atuar com responsabilidade no cargo de governantes e principalmente respeitar o mandato do céu.

 

Através do Dao do Estudo o pensador propõe que a consolidação dos conhecimentos formais por meio da leitura de textos e o desenvolvimento de habilidades técnicas, corrobora para um processo de aperfeiçoamento moral. Nesse sentido, os indivíduos deveriam buscar o aprimoramento moral através virtudes éticas possibilitando a consolidação de uma sociedade ideal na qual cada indivíduo pudesse estar em constante processo de aprimoramento visando o bem comum mais justo.

 

Ao final do debate, é possível compreender que durante o século 5 a.C período de grande instabilidade política o surgimento da tradição Confucionista representou reação às incertezas da época. Era necessário o resgate da tradição chinesa para que os indivíduos pudessem exercer a Humanidade ou fazer o bem, a mais importante das virtudes, conforme discutido ao longo do artigo. Segundo o filósofo Confúcio, essa virtude possui grande importância, pois é através da Humanidade que os seres humanos podem ser naturalmente “bons’’ uns com os outros. Embora o pensamento Confuciano tenha sofrido mudanças ao longo do tempo, está enraizado na sociedade chinesa e sua forma de vida. Na forma de relacionamento interpessoal e consolidação dos ideais nacionais.

 

Referências

Lunna Sant’Anna Souza é graduada em História pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Arthur Bertolo Pazeto é graduado em História pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

 

BUENO, A. A Arte da Guerra Chinesa. 1. ed. [s.l.] Madras Editora, 2019.

CHENG, A. História do Pensamento Chinês. Tradução: Gentil Avelino Titton. 1. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2008.

CONFÚCIO; GIORGIO SINEDINO. Os analectos. [s.l.] São Paulo Ed. Unesp, 2012

FENG, Li. Early China: a Social and Cultural History. Cambridge University Press, 2013. Disponível em:

https://books.google.com.br/books/about/Early_China.html?id=TQNaAQAAQBAJ&redir_esc=y

GOLDIN, Paul R. Confucianism (Ancient Philosophies). New York: Routledge Taylor & Francis Group, 2014. Disponível em:

XINZHONG, Yao. An Introduction to Confucianism. Cambridge University Press, 2000.

NI, Peimin. The Analects. In: Jennifer Oldstone –Moore (Ed). The Oxford Handbook of Confucianism. Oxford: Oxford University Press, 2023. p. 84 -95. Disponível em: https://academic.oup.com/edited-volume/45499/chapter-abstract/392457048?redirectedFrom=fulltext

ZHANG, Dainian. Key Concepts in Chinese Philosophy. Traduzido por Edmund Ryden. Yale University Press, 2013.

6 comentários:

  1. Excelente texto! Parabéns aos autores.

    Ao longo do texto, vocês mostram que Confúcio recorre constantemente ao passado Zhou como modelo para solucionar as crises do seu tempo. Nesse sentido, esse "retorno à tradição" deve ser entendido como uma recuperação de uma ordem que realmente existiu ou como uma construção idealizada do passado, mobilizada para legitimar um projeto político e moral para o presente?

    Por José Gabriel Vieira Junior

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    1. Olá José Gabriel Vieira Junior. Agrademos por sua ótima pergunta.
      Confúcio viveu num período complexo caracterizado por intensas crises políticas tendo em vista a transição da dinastia Zhou ocidental e o período denominado Primavera e Outono no decorrer do século V a.C. O cenário de mudanças políticas e transição de governo resultou numa atmosfera de incertezas para a população chinesa nesse período.
      Tendo essa ótica, o filósofo e pensador Confúcio ao retomar a tradição chinesa objetivou ao a recuperação de uma ordem que de fato existiu antes da desagregação política, mas também podemos refletir sobre uma idealização desse passado.
      Lembre-se que para Confúcio a ordem político-social da dinastia Zhou representava o que havia de melhor diante do céu. Nesse sentido, retornar ao passado significa resgatar valores e tradições as quais foram perdidas.

      Por Lunna Sant’Anna Souza

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  2. Olá, Lunna e Arthur. Primeiramente, gostaria de parabenizar ambos pelo excelente texto.
    No decorrer do escrito, vocês salientam em diversos momentos o papel fundamental da educação dentro do pensamento de Confúcio, enfatizando, sobretudo, a piedade filial. De uma perspectiva comparativa, o Japão durante o período Tokugawa buscou imbuir o confucionismo no cotidiano do povo, elevando o confucionismo como o ethos objetivado pelo shogunato Tokugawa. Do mesmo modo, durante o período Meiji, houve um processo parecido. Neste momento da história chinesa, durante o grande período Zhou ou algum outro período posterior, houve um esforço do Estado Imperial em efetivamente mobilizar o confucionismo e a piedade filial como instrumentos de edificação de um ethos social fundamental ao Estado para que se alcançassem os objetivos políticos deste Império?

    Cordialmente, Edvan.

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    1. Caro Edvan, obrigado pelo comentário e excelente pergunta. Durante o Período Zhou não houve qualquer chance de promoção do confucionismo por parte do monarca, que já muito enfraquecido, viu a desintegração completa de sua autoridade nas mãos de seus subordinados.
      Da dinastia Han até a dinastia Tang houveram diversos momentos em que o confucionismo foi promovido por imperadores, que o fizeram por convicção pessoal, e que nem por isso restringiram outras correntes de pensamento. A preocupação da Escola Confucionista com a educação e transmissão de seus valores, assim como a importância que davam ao estudo dos "Clássicos" (obras tradicionais de literatura, história e conhecimentos gerais de tempos antiquíssimos) talvez tenham sido as principais razões para o sucesso da ideologia ao longo do tempo, mesmo sem o apoio irrestrito dos governantes. Foi somente na Dinastia Song, com a consolidação dos exames imperiais que permitiam o ingresso na burocracia, e que exigiam o conhecimento do cânone confucionista, que podemos considerar o confucionismo como a ideologia oficial do império. Daí em diante, até o final do período imperial, a perspectiva política confucionista se torna hegemônica nos espaços de poder, e se consolidando como esse ethos fundamental.
      Sobre a Piedade Filial, existem alguns exemplos interessantes de como o estado quis promover esse ideal por meio da própria legislação. Na dinastia Tang, existia o crime de 不孝 (buxiao), que pode ser traduzido como "sem piedade filial", e incluía o ato de acusar ou amaldiçoar os pais ou avós; desampará-los, deixando-os sem sustento, ou mesmo ignorar o tempo adequado de luto (27 meses). Não sei se chega a se assemelhar ao caso japonês. Me corrija se eu estiver enganado, mas eu imagino que no caso da Era Meiji, a promoção do confucionismo fazia parte de um projeto nacionalista maior — se for isso mesmo, é algo que não aconteceu na China.
      Por Arthur Bertolo Pazeto

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  3. Cares Lunna e Arthur, parabéns pelo texto! Seria possível pensar a educação hoje, ainda, como uma formadora de virtudes? Essa não seria uma perspectiva transtemporal?
    saudações,
    André Bueno

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    1. Caro André, agradecemos pela pergunta! Acredito, sim, que a forma de educação defendida por Confúcio seja transtemporal, e que poderíamos pensar nossa educação desta forma.
      A preocupação que o Mestre tinha com a harmonização social através do exercício de virtudes transcende qualquer instituição social. Apesar de defender a ordem política dos Zhou e de instruir seus discípulos no estudo técnico e formal, o cerne da mensagem confuciana diz respeito à forma que um indivíduo deve se colocar perante o outro no convívio social. Não somente agir de forma correta na sociedade por mera convenção, mas escolher racionalmente aquilo que é bom e correto diante do Céu: nisto consiste a virtude da Humanidade. Em outras palavras, Confúcio enxerga a essência do homem, suas motivações e comportamentos; e talvez por isso a Escola Confuciana tenha vencido o teste do tempo e ao ponto de compor aquilo que conhecemos como cultura chinesa, enquanto outras escolas de pensamento da China tenham se entretido com questões mais "seculares".

      A educação moderna ocidental mais do que se preocupar demasiadamente com questões técnicas, parece ter se reduzido à reprodução de conhecimentos científicos básicos. Me parece que a educação na Antiguidade, no geral, tinha como papel primordial a elevação do espírito humano ao que as sociedades julgavam como belo e como verdadeiro, ou seja, o transcendente, o eterno. É claro que o entendimento do que é virtude pode variar com o tempo e lugar, mas é por sermos semelhantes aos antigos, que os fundamentos de sua educação ainda podem ser valiosos a nós.

      Atenciosamente,

      Arthur Bertolo Pazeto

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