Em 2022, a população mundial atingiu 8 bilhões de
pessoas pela primeira vez na história. Foi, também, a primeira vez em que o
percentual de pessoas com 65 anos ou mais chegou a 10% do total da população —
o equivalente a 779 milhões de indivíduos.
Contudo, isso não é novidade para muitos acadêmicos
e instituições. Ainda em 1998, Kofi Annan afirmou em um discurso de abertura
nas Nações Unidas (ONU) que "estamos no meio de uma revolução
silenciosa. É uma revolução que vai muito além da demografia, com implicações
econômicas, sociais, culturais, psicológicas e espirituais profundas."
[Rowland, 2012].
Uma sociedade é considerada uma "sociedade
envelhecida" quando ultrapassa esse limiar de 10%. Apesar das diversas
disparidades demográficas e econômicas entre os países, a população mundial
como um todo pode ser classificada como uma população em processo de
envelhecimento pela primeira vez na história. Deixamos de ser uma sociedade
global jovem e tornamo-nos uma sociedade global envelhecida.
Como mencionado previamente, há grandes variações de
realidades demográficas simultâneas: enquanto a maioria dos países africanos é
composta de populações extremamente jovens, a Europa Ocidental e o Extremo
Oriente (com grande foco no Japão) já vivem uma realidade de países
super-envelhecidos. Estes não apresentam mais “apenas” 10% de sua população
total composta por idosos. Uma sociedade super-envelhecida possui o limiar de
20% (ou seja, 1 em cada 5 pessoas é idoso).
Para a ONU, o envelhecimento populacional é
interpretado como um indicador de sucesso: apenas nações que alcançaram padrões
elevados de qualidade de vida e expectativa de vida chegam a essa condição
[Rowland, 2012]. Em outras palavras, viver mais é, em geral, resultado de
melhores condições de saúde, educação e infraestrutura, dentre outros fatores.
Isso torna tal fenômeno simultaneamente uma conquista e um desafio.
O envelhecimento populacional é um fenômeno
demográfico que ocorre quando as seguintes transformações se manifestam em uma sociedade:
1. Aumento da expectativa de vida: as pessoas vivem
por mais tempo graças a avanços na medicina, saneamento básico e acesso a
serviços de saúde;
2. Crescimento da população idosa: devido ao ponto
anterior, esta parcela da população aumenta tanto em termos absolutos quanto em
proporção ao total;
3. Queda na taxa de fecundidade: menos nascimentos
ao longo do tempo resultam em uma população jovem e economicamente ativa que
apenas diminui, o que afeta a capacidade produtiva de um país no longo prazo.
Todos estes fatores fazem parte da progressão
socioeconômica de sociedades: à medida em que a qualidade de vida em um país
melhora, naturalmente sua população viverá por mais tempo e melhor. A maior
participação de mulheres nos estudos e no mercado de trabalho também alavanca
este processo de desenvolvimento social. A menor quantidade de nascimentos e o
aumento na quantidade de idosos são fenômenos naturais.
Esse desequilíbrio na balança demográfica leva a
mais uma consequência: a maior demanda por trabalhadores em setores que os
nativos tendem a rejeitar: como serviços domésticos, cuidado de idosos e
trabalhos manuais de baixa remuneração. Isso que pressiona os países a discutir
políticas de imigração.
Por que, contudo, fala-se tanto de sociedades
“bombas relógios”? Tais casos são específicos e extremos, sendo resultado desta
conjuntura demográfica. O Japão, a primeira sociedade super-envelhecida (ou
seja, a primeira que atingiu o limiar de 20% da população total) enfrenta estes
desafios há décadas.
Este país torna-se um estudo de caso deveras
interessante devido à sua situação demográfica: não apenas a quantidade de
idosos aumenta, como a quantidade de nascimentos diminui progressivamente a
cada ano, sempre quebrando recordes. O machismo permeia todas as camadas da
sociedade, forçando mulheres no mercado de trabalho a ainda ter que escolher entre
ter uma carreira ou uma família. Todos esses fatores mais uma política de
imigração fechada levam o Japão a ser uma grande “bomba relógio” e um país que
desbrava o que muitos ainda vivenciarão: a realidade de uma sociedade
super-envelhecida.
Por que o envelhecimento populacional importa fora
do contexto demográfico? À primeira vista, tal fenômeno pode parecer resumido
ao mundo das estatísticas populacionais. Contudo, ele vai muito além: qualquer
mudança demográfica significativa pode impactar profundamente as capacidades
econômicas e militares de um país (dois dos pilares centrais de seu poder
nacional, soberania e influência no mundo).
Essas transformações combinadas reduzem a
produtividade e restringem o crescimento do PIB. Lee et al. [2011] observam que
a Ásia está envelhecendo mais rapidamente do que qualquer outra região no
mundo; além disso, as taxas de fecundidade atingiram mínimas históricas.
Yenilmez [2014] aponta para um conflito potencial
entre longevidade e desenvolvimento econômico. Para o autor, o impacto do
envelhecimento sobre a economia é considerado absolutamente negativo: os custos
de cuidado com a população idosa, a redução da poupança, os gastos com
aposentadorias e a instabilidade no mercado de trabalho geram problemas
estruturais severos. Como o desenvolvimento econômico de um país depende do
consumo interno e do investimento, a redução do consumo pelos idosos (que
destinam grande parte da renda a serviços de saúde) provoca desequilíbrio
econômico e dificulta o crescimento. O autor sustenta ainda que populações
idosas consomem mais do que produzem e, consequentemente, tornam-se
economicamente dependentes das gerações mais jovens, que são mais produtivas.
Os maiores desafios enfrentados pela Ásia e que se
aplicam, em grande medida, aos países em desenvolvimento como um todo
(incluindo o Brasil) segundo Lee et al. [2011], são:
a) Desenvolver sistemas socioeconômicos que
funcionem de forma sustentável diante do crescimento contínuo da população
idosa: implicando em medidas como reformar sistemas previdenciários, ampliar
redes de saúde e repensar o mercado de trabalho;
b) Sustentar um crescimento econômico robusto mesmo
em um contexto de envelhecimento acelerado: resultando em investimentos em
produtividade, tecnologia e, frequentemente, políticas de imigração.
Uma população economicamente ativa cada vez menor
precisa sustentar uma população idosa em expansão contínua. E mais, os jovens o
fazem sem a certeza de que terão condições de se aposentar quando chegarem à
velhice. A queda na produtividade desacelera a economia ou pode até mesmo
paralisar ou até mesmo piorar as capacidades econômicas de um país. Com menos
capital disponível, os governos precisam decidir onde devem alocar recursos. Em
democracias, a tendência é que as prioridades reflitam os interesses do grupo
etário mais numeroso e politicamente ativo, que é justamente a população idosa.
Vide o fenômeno da “democracia prateada”.
Essa redução da capacidade produtiva tende a ser
acompanhada de uma diminuição das capacidades militares, o que pode aumentar a
vulnerabilidade estratégica de um país e intensificar percepções de insegurança
no plano internacional. Ao todo, essa mudança demográfica provoca uma
transformação profunda na estrutura política, social, militar e econômica dos
Estados, bem como em seu planejamento de longo prazo.
Vale destacar alguns casos concretos. O Japão possui
uma das maiores expectativas de vida do mundo — 84,3 anos para ambos os sexos —
e sua taxa de fecundidade caiu pelo sexto ano consecutivo, atingindo 1,30 em
2021, em parte porque as mulheres estão se casando mais tarde ou optando por
não se casar para continuar trabalhando [WHO, 2023; Siripala, 2023].
O Brasil, por sua vez, já se encontra abaixo da taxa
de reposição populacional (o nível mínimo necessário para manter o tamanho da
população estável ao longo das gerações, estimado em aproximadamente 2,1 filhos
por mulher).
Embora muitas sociedades já sejam tecnicamente
classificadas como sociedades envelhecidas, é a combinação de maior longevidade
com menor número de filhos que provoca o desequilíbrio demográfico que os
pesquisadores consideram preocupante. Essas mudanças reduzem a produtividade,
restringem o crescimento do PIB e podem até mesmo diminuir permanentemente as
capacidades econômicas e militares de um país.
Segundo Horiai [2011], não existe uma "bala
prateada" (silver bullet no original). Ou seja, não há uma solução
única e perfeita capaz de resolver todos os desafios impostos pelo
envelhecimento populacional. A velocidade do declínio e do envelhecimento nos
países com populações mais velhas significa que os fatores socioeconômicos e
culturais envolvidos, bem como suas consequências, são significativamente
maiores e mais difíceis de administrar do que em países que envelhecem de forma
mais gradual.
O envelhecimento populacional é um processo
demográfico nacional pelo qual todos os países passarão em algum momento.
Compreender seu funcionamento e se preparar para ele com antecedência é
fundamental, uma vez que se trata de uma das maiores transformações do século
XXI e uma das principais forças a moldar tanto a política nacional quanto as
relações internacionais nas próximas décadas. E o Brasil precisa pensar nisso,
sendo que a sociedade brasileira já é considerada como uma sociedade
envelhecida.
Referências
Mestre Beatriz Kaori Miyakoshi Lopes é pesquisadora
sobre demografia e estudos asiáticos no NUPRI (USP).
HORIAI, M. Beyond the demographic transition: the case of Japan, 2021. University of Nevada, Las Vegas. Disponível em:
https://digitalscholarship.unlv.edu/thesesdissertations/987
Lee, S; Mason, A; Park, D. Why Does Population Aging Matter So Much for
Asia? Population Aging, Economic Security and Economic Growth, 2011. Disponível em: https://www.adb.org/publications/why-does-population-aging-matter-so-much-asia-population-aging-economic-growth-and
Rowland, D. Population Aging: The Transformation of Societies, 2012. In:
Series: Powell, J., Chen, S. (eds.). International Perspectives on Aging.
Australian National University: Springer Science.
World Health Organization. (2023). Japan. Available at
https://data.who.int/countries/392 Accessed 20 Oct. 2023.
World Health Organization. WHO's work on the UN Decade of Healthy Ageing
(2021–2030), 2023. Disponível
em: https://www.who.int/initiatives/decade-of-healthy-ageing
Accessed 21 Oct. 2017.
Yenilmez, M. Economic and Social Consequences of Population Aging the
Dilemmas and Opportunities in the Twenty-First Century, 2014. In Applied
Research in Quality of Life: The Official Journal of the International Society
for Quality-of-Life Studies, v. 9, n. 2, 2014.
Parabéns pelo texto, Beatriz! Sua análise amarra bem a importância desse fenômeno atual, evidenciando o quão urgente é agirmos agora para evitar um colapso estrutural e econômico nas próximas décadas.
ResponderExcluirMas uma questão que fico, Beatriz, é que se não existe uma 'bala prateada' e o Brasil envelhece sem a riqueza que o Extremo Oriente teve, quais caminhos devemos priorizar? Mais do que isso: o envelhecimento global é um desafio que o capitalismo conseguirá responder por si só, ou ele irá saturar e impelir uma mudança profunda no próprio sistema econômico vigente?
Olá Beatriz!
ResponderExcluirÓtimo texto, realmente a questão do envelhecimento populacional é algo muito atual que traz preocupação a diversos países. Como você mesma disse em seu texto, não existe uma solução perfeita; contudo, minha pergunta tenta situar as perspectivas do Brasil diante desse cenário. Ultimamente tenho analisado um pouco as perspectivas tecnológicas da China voltadas para o envelhecimento populacional, que avançam cada dia mais com rapidez assombrosa. É notório que já existem indústrias de grande porte com automação em massa lá, voltadas para a resolução da acessibilidade de seus próprios idosos.
Contudo, é possível visualizar sob a ótica de que o Brasil e a China têm cada vez mais proximidade, e as possibilidades econômicos que o BRICS vem trazendo são substâncias, então levanto a seguinte questão: seria possível assinalar que, num futuro próximo, a China poderia ser um grande apoio para contornar os impactos do envelhecimento populacional, especialmente de seus aliados econômicos, como o Brasil? Seja pela venda de tecnologia assistêncial ou pela fomentação de um novo sistema econômico, ou melhor dizendo, um capitalismo com possíveis reformas?
Desde já, agradeço!
Atenciosamente,
Ana Carolina Romão Gonçalves dos Santos