Introdução
A intensificação das trocas entre Ásia e Ocidente impulsionou a circulação de artefatos Ming e Qing, centrais no consumo e imaginário europeus ao integrarem coleções privadas e museológicas. Por sua estética e carga simbólica, cerâmicas e porcelanas vincularam-se a estratégias de distinção social, exotização e à construção de representações sobre a China. Este artigo investiga como tais objetos circularam e foram apropriados, assumindo que o colecionismo promoveu uma ressignificação cultural ao integrá-los a sistemas de prestígio ocidentais após seu deslocamento original. A metodologia articula revisão bibliográfica à análise de acervos em Portugal, utilizando registros visuais para interpretar trajetórias materiais e simbólicas, estruturando-se entre o estado da arte e a contextualização histórica da produção.
Um breve estado da arte
A análise da circulação de artefatos das dinastias Ming e Qing no Ocidente exige, inicialmente, a compreensão do contexto histórico e cultural da China enquanto civilização produtora de bens materiais dotados de significados simbólicos próprios. Nesse sentido, a obra de Michael Wood, História da China: o retrato de uma civilização e de seu povo (2020), contribui para situar a cerâmica e a porcelana no interior de uma longa tradição cultural, política e estética, evidenciando a centralidade desses objetos na construção de identidades e práticas sociais chinesas.
De modo complementar, Emiliano Unzer, em História da Ásia (2021), oferece uma perspectiva regional que permite compreender a China em diálogo com o espaço asiático mais amplo e com os processos históricos que favoreceram a intensificação dos contatos com o Ocidente. Esses autores fornecem, portanto, o pano de fundo necessário para compreender os artefatos como expressões de sistemas culturais específicos.
A circulação de artefatos Ming e Qing pode ser interpretada pela história global e cultura material. Timothy Brook (2012) propõe que tais objetos atuam como mediadores de conexões transnacionais, revelando redes de comércio e fluxos culturais na circularidade moderna. Complementarmente, Liliana Felipa Lopes (2023) evidencia o impacto estético e a reinterpretação dessas porcelanas em novos contextos, oferecendo subsídios para compreender os processos de apropriação e ressignificação no Ocidente. Para além da circulação material dos artefatos, é fundamental problematizar os modos pelos quais a China foi representada no contexto ocidental. A teoria do Orientalismo, formulada por Edward Said, fornece um aporte crítico para compreender como o Oriente foi construído discursivamente a partir de relações desniveladas de poder.
As contribuições de Caroline Pires Ting (2019) aprofundam a reflexão sobre como o colecionismo e a musealização redefinem artefatos orientais por meio de processos de seleção e interpretação em acervos ocidentais. Este artigo busca contribuir com estudos que articulam a história material desses bens aos discursos museológicos em Portugal, focando em instituições não especializadas que, ao operarem de forma pouco contextualizada, moldam representações específicas sobre a China. Assim, os objetos Ming e Qing são analisados como dispositivos de mediação cultural, revelando tensões entre história, poder e representação na modernidade.
Entre a Dinastia Ming e a Dinastia Qing: continuidades e transformações na produção
e circulação de objetos chineses
A Dinastia Ming (1368–1644) marcou um período de reorganização política e fortalecimento do poder imperial na China, ao mesmo tempo em que consolidou práticas produtivas e artísticas que teriam impacto duradouro na história cultural do país. Nesse contexto, a cerâmica destacou-se como uma das expressões mais sofisticadas da cultura material chinesa, articulando técnica, estética e simbolismo político, e, claro, as marcantes cores azul e branco. A produção de porcelanas não se restringia ao uso cotidiano ou ritual, mas estava vinculada a mecanismos de legitimação do poder imperial e à afirmação de padrões culturais associados à corte.
A importância da cerâmica Ming residia na articulação entre avanços técnicos, controle estatal e organização do trabalho, integrando redes que extrapolavam o império. A transição para a Dinastia Qing (1644–1911) representou uma inflexão política, mas não produtiva: os Qing herdaram e reorganizaram os sistemas anteriores, preservando padrões técnicos e estéticos. Assim, o período Qing caracteriza-se pela intensificação e reorganização de processos já consolidados sob os Ming.
Durante o período Qing, a ampliação das trocas comerciais com o Ocidente conferiu novo significado à produção de cerâmicas, porcelanas e a outros objetos chineses. No deslocamento entre contextos culturais, os objetos perderam parte de suas funções originais e adquiriram novos sentidos, sendo reinterpretados como distinção social e sofisticação estética. Tais aspectos são abordados tanto por Lopes (2023) quanto por Brook (2012). Embora essas dinâmicas já estivessem presentes no período Ming, foi sob os Qing que a circulação desses artefatos adquiriu caráter mais sistemático, articulando-se a acordos comerciais e a portos estrategicamente controlados pelo Estado.
O Tratado de Kyakhta (1727) e o porto de Cantão estabeleceram circuitos regulares onde a porcelana Qing, por sua excelência técnica, tornou-se um objeto de circulação global. A produção apresentava uma ambiguidade funcional, pois enquanto peças imperiais atendiam ao consumo interno, outras eram adaptadas ao gosto europeu em centros de mediação como Cantão e Macau. Essa dualidade gerou percepções contrastantes no Ocidente, a China estetizada da exportação versus o prestígio da raridade imperial, consolidando a porcelana como mediadora cultural entre a tradição chinesa e as projeções do desejo ocidental. (Wood, 2020)
Colecionismo, circularidade e consequências no mundo moderno
A intensificação das trocas entre a China e a Europa, a partir da expansão marítima dos séculos XVI e XVII, criou as condições históricas para a circulação de objetos chineses em escala inédita. As rotas comerciais estabelecidas no contexto das navegações europeias conectaram espaços, permitindo o fluxo de mercadorias e a ampliação da circularidade de ideias, práticas culturais e formas de consumo. O mundo estava cada vez mais conectado.
Timothy Brook explica esse contexto como o período de improvisação. Ou seja, o século XVII foi “uma época em que foi preciso ajustar o modo de agir e pensar para transpor as diferenças culturais encontradas, para se esquivar de ameaças imprevistas e reagir com cautela a oportunidades igualmente inesperadas”. (Brook, 2012, p. 32). Portanto, o momento de descobertas já tinha passado e o imperialismo ainda estava se desenrolando, era o momento de relacionar e interagir com todas as culturas.
Michael Wood observa que, no século XVII, a queda dos Ming inseriu a China em uma nova ordem mundial célere, afetada por crises econômicas globais e pela expansão marítima europeia no nanyang. Como mediador estratégico, Portugal utilizou Macau e Goa para integrar a China às redes atlânticas, transformando Lisboa em um centro de entrada de porcelanas valorizadas por sua técnica e simbolismo. A demanda ocidental reorientou parte da produção artesanal chinesa, vinculando esses objetos ao fluxo da modernidade emergente. Contudo, a modernidade Qing foi também um processo interno, segundo Wood, tratou-se de uma resposta às transformações sociais e demográficas para estabilizar a ordem política e moral. Esse cenário, unido à circularidade global, fomentou o colecionismo como prática de distinção e preparou as ressignificações culturais hoje reinterpretadas em acervos museológicos portugueses.
Museus portugueses e a visualização da China Ming e Qing
Os museus europeus atuam como espaços de ressignificação que organizam narrativas específicas sobre a China. Diferente de centros especializados, o Museu de Setúbal demonstra como espaços menos centrais revelam processos de apropriação por meio de acervos fragmentados. A exposição transita da história local para o “Colecionismo de Artes do Islão e da Ásia”, reunindo doações privadas e legados, como os de Olga Morais Sarmento e Ana Duarte. Essa transição evidencia que os objetos chineses foram integrados menos como testemunhos de sua própria história e mais como registros das experiências individuais de seus proprietários, consolidando a imagem do “Outro” a partir de trajetórias particulares.
O texto expositivo do museu revela que os artefatos provêm de doações privadas (como os legados Sarmento e Duarte/Pereira) vinculadas a viagens e trajetórias profissionais. Ao destacar o percurso biográfico do colecionador, o museu reforça uma leitura que desloca o objeto de seu contexto original, enquadrando-o como uma curiosidade cultural subordinada à narrativa e ao desejo ocidentais, conforme ilustrado na figura 1, texto indicativo informava:
“As coleções representativas de Artes e Culturas extraeuropeias, incluindo as que resultaram da miscigenação e encontro de culturas, como a Arte Indo-Portuguesa, ou as que foram realizadas para exportação para mercados europeus e americanos, existem no Museu de Setúbal desde a sua fundação e instalação no Convento de Jesus, em 1961. Um dos legados que o constituíram logo de início, o de Olga Morais Sarmento, integra algumas peças de proveniência asiática e islâmica, adquiridas muito provavelmente em Paris, onde aquela escritora residiu largas décadas. Outras peças de origem extraeuropeia estão entre os acervos iniciais, assim como entre as peças depositadas pelo Museu Nacional de Arte Antiga, aquando dessa instalação do Museu, nomeadamente um pote de porcelana chinesa de exportação do reinado de Quianlong. Mais porcelana de exportação, entre outras peças de proveniência asiática, deu entrada com o legado de Maria Manuela Pereira Jordão, que integra peças outrora pertencentes à cantora lírica Luisa Todi e aos seus descendentes, legado em que também se encontram peças indo-portuguesas, objetos, esses expostos noutras salas. O maior contributo para a constituição de uma secção de Artes e Culturas do Islão e da Ásia, inteiramente pertinente num museu de Arte e de História de Setúbal, cidade que ao longo de toda a sua história foi e é um porto de mar aberto ao mundo, resultou do legado de Ana Duarte e de Fernando António Baptista Pereira, fruto de viagens de trabalho realizadas sobretudo na China, mas também na Índia e no Norte de África, na década de 90 do século XX e já no presente século.” (Museu de Setúbal, 2025, acervo pessoal)
No Museu de Setúbal, a presença de artefatos Ming e Qing concretiza a ressignificação abordada. Ao serem inseridos na ala “extraeuropeu”, os objetos perdem suas funções originais e tornam-se curiosidades culturais. A disposição espacial e a carência de contextualização histórica, evidenciadas nos registros visuais, reforçam uma leitura ocidentalizada que privilegia o olhar colecionista em detrimento do significado cultural original.
Figura 1 - Vista geral da sala
Fonte: As autoras. Museu de Setúbal/Convento de Jesus, 2025.
A primeira peça analisada, figuras 2 e 3, é um jarro, ou pote, de porcelana atribuído à Dinastia Qing, datado do reinado do imperador Qianlong (1735–1796). O objeto apresenta forma bojuda, com base estreita, corpo volumoso e tampa com botão superior, configuração recorrente na produção cerâmica chinesa do período.
A superfície do jarro é decorada por uma composição na qual predominam tons de vermelho, verde, azul e dourado, distribuídos em motivos florais. Destacam-se grandes flores, possivelmente peônias, associadas, na tradição chinesa, à prosperidade, à nobreza e à beleza, em específico a própria família imperial. Segundo o estudo de Lopes (2023), as cores utilizadas na peça aproxima-se da estética da famille rose, caracterizada pela introdução de tons rosados e esmaltes mais suaves, que ganharam destaque sobretudo a partir do século XVIII.
Os aspectos do jarro evidenciam o refinamento técnico da porcelana produzida durante o reinado de Qianlong, período reconhecido pelo auge da sofisticação estética e pela intensificação da produção destinada tanto ao consumo interno quanto à exportação, inclusive era frequentemente apontado em relatos europeus. Como explica Unzer:
“Nos dias do governo de Qianlong, a China ainda era enorme e próspera em
comparação com todas as outras nações. Não só tinha a maior população do mundo,
mas também um terço do produto interno bruto do mundo.” (Unzer, 2018, p. 207)
Nesse sentido, o pote não pode ser compreendido apenas como objeto decorativo, mas como expressão de um sistema artístico e simbólico próprio da cultura chinesa que foi ressignificado pelo olhar ocidental no contexto do colecionismo.
Figuras 2 e 3 - Pote da Dinastia Qing, império Qianlong
Fonte: As autoras. Museu de Setúbal/Convento de Jesus, 2025.
O segundo artefato analisado compreende dois covilhetes da Dinastia Qing (período Jiaqing, 1796–1820), exemplares da “Porcelana da Companhia das Índias”. Diferente do objeto anterior, estes exibem um escudo pseudo-heráldico central, evidenciando a incorporação estratégica de símbolos europeus para adequação ao mercado de exportação. Conforme Brook (2012), essa prática remonta aos ceramistas de Jingdezhen que, já em 1620, adaptavam sua produção ao aprenderem ativamente sobre as preferências estrangeiras. Assim, a hibridização decorativa não foi um processo passivo, mas uma resposta comercial deliberada à alta demanda global. (Brook, p. 83-34).
Além disso, Brook afirma que “a
circulação de objetos decorativos não ia só da China para a Europa. Os objetos
e pinturas europeus também circulavam na China”. No entanto, os objetos de
terras estrangeiras não tinham o mesmo lugar no sistema simbólico chinês, pois
não tinham os mesmo valores, apenas causavam curiosidade, diferentemente da
Europa, como tem sido apresentado ao longo do trabalho que deu novos
significados aos objetos. (Brook, 2012, p. 82-89)
Figuras 4 e 5 - Covilhetes e Detalhamento dos Covilhetes
Fonte: Fonte: As autoras. Museu de Setúbal/Convento de Jesus, 2025.
Entre os objetos expostos na ala dedicada às Artes do Islão e da Ásia, destaca-se um bule em cerâmica de Yixing, cuja coloração vermelho-acastanhada intensa e decoração paisagística remetem a tradições estéticas consolidadas durante a Dinastia Qing. Produzidas a partir de argilas específicas da região de Yixing, essas peças são associadas à cultura do chá e valorizadas tanto pelo refinamento técnico quanto pela dimensão simbólica de seus motivos decorativos.
Segundo Lopes (2023), a cerâmica chinesa intensificou o diálogo com o mercado europeu a partir do século XVIII. O bule de Yixing do acervo exemplifica essa tradição: sem vidrado e produzido com argilas de Jiangsu — como o zisha (roxo), zhusha (vermelhão) e benshanglü (verde). A peça atesta a sofisticação técnica de Yixing e sua integração aos circuitos globais de circulação de objetos descritos pela autora. (2023, p. 123).
Figura 6 - Bule da Dinastia Qing de argila Yixing
Fonte: As autoras. Museu de Setúbal/Convento de Jesus, 2025.
Apesar de representar a tradição de Yixing (Dinastia Qing), o bule no museu
revela um deslocamento de sentido, em que sem contextualização profunda, o
objeto é reduzido à estética. Esse processo, visível na comercialização em
leilões online, confirma que seu valor no Ocidente é uma construção histórica
pautada por relações de mercado e poder. Paralelamente, o museu exibe artefatos
funerários Ming, como mesas de oferendas e figuras de cortejo, que perdem seu
caráter ritual original. Destinados a assegurar o estatuto na vida além-túmulo
e a continuidade entre vivos e mortos, esses objetos têm seus significados
sobre ancestralidade fragmentados pela musealização isolada.
A mesa de oferendas, em miniatura, remete às práticas de culto aos ancestrais, fundamentais na tradição chinesa. Em contextos funerários, tais mesas simbolizavam a manutenção dos vínculos. Ao ser deslocada para o espaço museológico, porém, essa peça perde o seu caráter ritual e relacional, passando a ser apresentada como um artefato estético.
De modo semelhante, os pares de figuras de cortejo funerário, como a figura do albardeiro, estavam associados à ideia de acompanhamento na vida após a morte. Essas figuras compunham verdadeiros cortejos simbólicos, representando servidores, guardiões ou personagens ligados ao status do falecido, reforçando hierarquias sociais e concepções de ordem mesmo no além, como aponta Ting:
“Estes grupos de figuras de terracota [...] eram destinadas a acompanhar na vida além-túmulo membros da alta sociedade chinesa com o propósito de assegurar o seu estatuto social e afastar os maus espíritos. [...] Não deveriam ser vistas novamente. Uma vez no túmulo, assumiam suas posições imutáveis.” (Ting, 2019, p. 31)
No contexto original, tais objetos expressavam crenças espirituais e estruturas
políticas e sociais da Dinastia Ming. Diferentemente do propósito empregado
nesses artefatos quando colocados no Museus do Oriente, em Lisboa, o contexto
da explicação da autora, no Museu de Setúbal, são expostos de formas isoladas,
o que contribui para a redução de seu significado histórico e cultural.
A inclusão de uma Torre Funerária da Dinastia Han (Figura 8), alheia ao recorte Ming-Qing, acentua a carência de critérios curatoriais e de articulação cronológica no acervo. Sem contextualização histórica ou ritual, o conjunto funerário é apresentado de modo fragmentado, subordinando o significado original dos objetos a uma lógica ocidental. Essa prática prioriza a visualidade e o exotismo, negligenciando as complexas funções sociais e religiosas que fundamentaram a criação desses artefatos.
Figuras 7 e 8 - Miniatura de Mesa de Oferendas e Pares de figuras de cortejo funerária
Fonte: As autoras. Museu de Setúbal/Convento de Jesus, 2025.
A análise revela que persiste uma leitura descontextualizada dos objetos orientais em museus contemporâneos. Contrariando a bibliografia especializada, como Lopes (2023), que prioriza a complexidade histórica e simbólica, o espaço estudado reforça o distanciamento cultural e a exotização. Registros visuais confirmam como a disposição das peças promove sua ressignificação sob uma lógica ocidental. Assim, o museu atua como um dispositivo de produção de sentidos, onde estética e poder articulam narrativas sobre o passado e o “Outro”.
Considerações finais
Este artigo analisou a apropriação de artefatos Ming e Qing pelo colecionismo europeu, demonstrando que sua trajetória foi tanto material quanto simbólica e discursiva, influenciando as representações ocidentais da China na modernidade. É necessário, no entanto, relativizar a visão de que a interconexão global iniciou-se apenas no século XVI. A circularidade medieval, via rotas comerciais e redes islâmicas, já promovia o fluxo de saberes e objetos; a modernidade apenas elevou esse processo a um fenômeno estrutural de maior escala, velocidade e impacto.
Nesse cenário, os objetos chineses atuaram como mediadores interculturais privilegiados. Como sugere Timothy Brook (2012), a mobilidade global do século XVII encurtou distâncias e permeabilizou fronteiras, intensificando o desejo europeu pela riqueza simbólica da China e integrando artefatos distantes às expectativas de consumo e prestígio do Ocidente.
A apropriação desses artefatos não foi neutra: ao serem deslocados, os objetos Ming e Qing foram reinterpretados por categorias europeias de prestígio e distinção social. Sob o olhar orientalista descrito por Edward Said, a China foi simultaneamente desejada e reduzida a um repertório exótico e decorativo. A análise do Museu de Setúbal confirma essa lógica, onde a exposição descontextualizada de rituais e histórias reforça a percepção do 'Outro' exótico em detrimento da complexidade cultural original. Conclui-se que a musealização no Ocidente não apenas transformou significados materiais, mas produziu narrativas políticas sobre a China, exigindo um questionamento crítico das formas contemporâneas de representar o Oriente.
Referências
Thaiza Pessanha Medeiros é graduada em História pela Universidade Federal do Espírito Santo.
Renata Lorencette Cavalcanti é mestranda em História pelo PPGHIS da Universidade Federal do Espírito Santo, bolsista pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
BROOK, Timothy. O chapéu de Vermeer: o século XVII e o
início do mundo globalizado. Tradução de Maria Beatriz de Medina. Rio de
Janeiro: Record, 2012.
LOPES, Liliana Filipa Teixeira. A influência estética da porcelana chinesa no
design e produção de porcelanas portuguesas nos séculos XVIII e XIX: um estudo
comparativo sobre serviços de chá. Dissertação (Mestrado em Estudos
Interculturais Português/Chinês), Universidade do Minho, Braga, 2023.
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Tradução de Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
TING, Caroline Pires. Colecionismo orientalista e interação cultural entre China, Macau e Portugal. Tese (Doutorado em Artes). Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.
UNZER, Emiliano. História da Ásia. São Paulo: Contexto, 2018.
WOOD, Michael. História da China: o retrato de uma civilização e de seu povo.
Tradução de Cláudio Carina. Rio de Janeiro: Record, 2020.
Anexo
Peças analisadas
Peças Chinesas
POTE / JARRO
Arte Chinesa
Porcelana
Dinastia Qing. Período Qianlong (1736-1795)
Depósito Museu Nacional de Arte Antiga
MSCJ
475
COVILHETES
China/Companhia das Índias
Porcelana
Dinastia Qing, Período Jiaqing (1796-1820)
Coleção Mara Manuela da Costa Pereira Jordão
MSCJ 4851/CR.98, MSCJ 4952/CR.99
BULE
China
Cerâmica de Yixing policromada
Século XIX
Peça da Dinastia Qing (última dinastia imperial chinesa) em argila de Yixing (atualmente cidade) na provincia chinesa de Jiangsu.
Coleção Maria Manuela da Costa Pereira Jordão
Maria Manuela da Costa Pereira Jordão Collection
MSCJ
4941ICR88
MINIATURA FUNERÁRIA DE MESA DE OFERENDAS
Arte Chinesa
Terracota vidrada
Dinastia Ming (1368-1644 d.C.)
Adquirida em Macau (Século XX, década de 90)
Coleção Ana Duarte e Fernando António Baptista Pereira
MSCU
5891/CR.211
PAR DE FIGURAS DE CORTEJO FUNERÁRIAS
Arte Chinesa
Terracota vidrada
Dinastia Ming (1368-1644 d.C.)
Adquiridas em Hong Kong (Século XX, década de 90
Coleção Ana Duarte e Fernando António Baptista Pereira
MSCU
5887/CR210 e MSCJ 5894/CR.213
FIGURA DE CORTEJO FUNERÁRIA (Albardeiro)
China
Grés vidrado
Dinastia Ming (1368-1644 d.C.)
Adquirido em Macau (Século XX, década de 90)
Coleção Ana Duarte e Fernando António Baptista Pereira
MSCJ
5872 CR.198
FIGURA DE CORTEJO FUNERÁRIA
Arte Chinesa
Terracota com vestígios de vidrado
Dinastia Ming (1368-1644 d.C.)
Adquirida em Hong kong (Século XX,década de 90)
Coleção Ana Duarte e Fernando António Baptista Pereira
MSCJ 5882/CR206
MINIATURA FUNERÁRIA DE TORRE DE VIGIA
China
Terracota pintada
Dinastia Han (206 a.C.-220 d.C.)
Adquirido em Hong Kong (Século. XX década de 90)
Coleção Ana Duarte e Fernando António Baptista Pereira
MSCJ 5005/CR.214








Olá, Thaiza e Renata! Gostei muito das reflexões que vocês promoveram. É sempre muito importante pensar na ressignificação de artefatos em movimentos quase sempre também violentos. Lembro particularmente das reflexões da Bénédict Savoy a esse respeito e também em discussões que prezam pelas devoluções de obras a seus países de origem. No Museu do Estado de Pernambuco, aqui em Recife, tem uma grande coleção de porcelanas em exibição permanente, o que mostra o amplo alcance dessas práticas. Fiquei super curiosa com algumas questões e talvez vocês possam me ajudar a respeito: i) As diferentes formas das porcelanas possuíam significados específicos na cultura chinesa? ii) Da mesma forma, as cores, os motivos decorativos e as técnicas empregadas carregavam simbolismos próprios? iii) E, por fim, havia diferenças significativas entre as peças produzidas para exportação ao mercado europeu e aquelas destinadas ao consumo interno ou à circulação em outros contextos asiáticos?
ResponderExcluirEi, Kerolayne! Muito obrigada pela leitura do nosso capítulo e pelas questões levantadas. Ficamos muito felizes em saber que o texto suscitou esse tipo de reflexão. A aproximação que você faz com as discussões da Bénédicte Savoy é muito pertinente, ela se preocupa justamente em ampliar o debate sobre circulação, patrimônio e os deslocamentos. Anotamos essa referência em História da Arte para pesquisas futuras. Também gostamos muito da sua menção ao Museu do Estado de Pernambuco, não tivemos a chance de conhecer ainda, mas seria ótimo estudar a respeito.
ExcluirSobre a primeira questão, as formas das porcelanas e de outros artefatos chineses dificilmente podem ser compreendidas apenas por sua dimensão funcional. Em muitos casos, elas estavam profundamente relacionadas a práticas rituais, religiosas e funerárias, como trabalhado no capítulo. Por outro lado, Caroline Pires Ting (2019) amplia essa interpretação quando ela trabalha o “Gabinete do Letrado” na sua tese. Nesse caso, a cerâmica passa por um processo de cultivo pessoal, deixando de lado o seu carácter apenas utilitário para ser um símbolo de erudição. Ting destaca que objetos como os pinceleiros (pinceleiros em Fên-Ting) e os lavadores de pincéis foram peças de “luxo intelectual” feitas em porcelana blanc de Chine de Dehua, muitas vezes decoradas com dragões em alto-relevo que simbolizavam a vigilância e o poder do erudito a serviço do império. Considerei um exemplo interessante de como os significados das cerâmicas, dentro do seu lugar de produção, também poderiam ser subjetivos, pessoais. Ainda para além do que trouxemos no capítulo, Liliana Filipa Lopes (2023) também mostra que a própria forma de determinados utensílios, como os bules de Yixing, estava diretamente ligada ao tipo de argila empregada e à experiência do preparo e consumo do chá entre os letrados, revelando que forma, materialidade e prática cultural eram dimensões inseparáveis.
As cores, os motivos decorativos e as técnicas também carregavam significados bastante complexos. E, aqui, novamente citamos Lopes (2023), pois ela demonstra que muitos elementos decorativos eram escolhidos por associações simbólicas e até linguísticas. Não foi trabalhado com profundidade no nosso capítulo, mas é válido mencionar que o peixe (yú), por exemplo, remetia à abundância, enquanto o morcego (fú) evocava felicidade devido à homofonia presente na língua chinesa. Nesse mesmo caminho, Ting (2019) acrescenta ainda que figuras como o dragão de cinco garras constituíam símbolos exclusivos da autoridade imperial, aparecendo nas porcelanas e em vestimentas oficiais. As próprias cores obedeciam a hierarquias sociais bem definidas: o amarelo estava associado ao imperador e o branco, em determinados períodos, relacionava-se à pureza e ao budismo. Podemos citar também o Verde (Céladon) que invocava a aparência do jade, símbolo de autoridade espiritual e status social. Desse modo, em seu contexto de produção, os detalhes compõem todo um jogo linguístico sofisticado da cultura chinesa que, ao serem deslocadas, essas peças acabam perdendo parte desses significados.
ExcluirSobre a sua terceira, de fato, havia diferenças importantes entre as peças destinadas ao consumo interno e aquelas produzidas para exportação. Em diálogo com Timothy Brook (2012), procuramos mostrar que os artesãos chineses não foram agentes passivos desse processo. Pelo contrário, eles compreenderam rapidamente as preferências dos mercados europeus e passaram a adaptar formas, decorações e até funções dos objetos para atender a essa demanda. Liliana Lopes (2023) evidencia esse movimento ao demonstrar, por exemplo, a introdução de asas nas chávenas para evitar queimaduras e o aumento do tamanho dos bules para acomodar o uso de leite e açúcar, hábitos característicos do consumo europeu. Da mesma forma, como ilustrado pelas figuras em nosso capítulo, escudos heráldicos, brasões familiares e cenas cristãs passaram a integrar a decoração de inúmeras porcelanas produzidas especificamente para exportação. Enquanto isso, a produção voltada ao consumo interno permanecia mais vinculada aos códigos estéticos e simbólicos da tradição chinesa, preservando padrões associados ao prestígio da corte e das elites letradas.
Mais uma vez, agradecemos pela leitura cuidadosa e pelas excelentes questões!
Thaiza Pessanha Medeiros e Renata Lorencette Cavalcanti
Olá, Thaiza e Renata! Muito obrigada pela resposta tão cuidadosa! Gostei muito da forma como vocês ampliaram a discussão, trazendo os trabalhos da Caroline Pires Ting, Liliana Filipa Lopes e o Timothy Brook. São referências que certamente vou procurar. Essa discussão conversa bastante com algumas questões que tenho pensado por meio da pintura de paisagem chinesa, especialmente sobre a construção de sentidos a partir da materialidade e das escolhas formais. Obrigada mais uma vez pelos comentários e indicações! Desejo muito sucesso em suas pesquisas!
ExcluirCaras Thaiza e Renata, saudações! Gostei muito do seu texto, e tenho uma dúvida: em meio a decadência do período Qing no século 19, como ficou a apreciação da porcelana por parte dos europeus? Ela continuava a ser um objeto e fascínio exótico, ou sofreu uma diminuição de interesse?
ResponderExcluirKamila Czepula
Ei, Kamila, muito obrigada pela leitura atenta e pela pergunta! O declínio político da Dinastia Qing não significou, necessariamente, o desaparecimento do interesse europeu pelos objetos chineses. Na verdade, o fascínio permaneceu, mas assumiu novos contornos.
ExcluirComo comentamos ao longo do capítulo, a crescente demanda internacional contribuiu para uma produção mais padronizada voltada ao mercado externo, fenômeno que parte da bibliografia interpreta como uma perda de diversidade estética em determinados segmentos da porcelana de exportação. Nesse sentido, Liliana Filipa Lopes (2023) observa que muitas porcelanas de exportação do século XIX passaram a reproduzir fórmulas já consolidadas, com menor refinamento técnico e cromático quando comparadas às peças produzidas nos períodos anteriores. Assim, parte do encanto associado à novidade e ao exotismo foi se enfraquecendo à medida que esses objetos se tornavam mais familiares aos consumidores europeus.
Outro aspecto importante é, como Lopes (2023) aponta, que, nesse mesmo período, a Europa já havia dominado a técnica de fabricação da porcelana e desenvolvido importantes centros produtores, como Meissen e Sèvres. Como observa Timothy Brook, a intensificação das conexões globais alterou profundamente a circulação das mercadorias e também a forma como elas eram percebidas. Inserida nesse contexto, a porcelana chinesa deixou gradualmente de representar uma novidade absoluta para integrar um mercado internacional em consolidação.
Entretanto, isso não significa que o interesse europeu tenha desaparecido. Caroline Pires Ting (2019) mostra que a crise enfrentada pela Dinastia Qing e, posteriormente, a Revolução de 1911 produziram um efeito bastante particular sobre o mercado de antiguidades. Diante da instabilidade política, numerosas peças pertencentes a famílias ligadas à corte imperial passaram a circular no mercado, chegando a colecionadores, negociantes e museus ocidentais. O desejo, portanto, deslocou-se: se as porcelanas produzidas para exportação já não despertavam o mesmo entusiasmo, os objetos antigos, associados às grandes dinastias chinesas, passaram a ser vistos como testemunhos de uma civilização considerada rara, sofisticada e, aos olhos europeus, cada vez mais distante.
A sua pergunta é muito interessante porque evidencia justamente essa mudança de perspectiva. Podemos supor então que, em vez de desaparecer, o fascínio europeu pelas porcelanas chinesas foi sendo ressignificado. O interesse passou a privilegiar as peças também como antiguidades, patrimônio e peças de coleção. Obrigada novamente!
Thaiza Pessanha Medeiros e Renata Lorencette Cavalcanti.