NOTAS SOBRE A CONDIÇÃO FEMININA NO PERÍODO IMPERIAL TARDIO CHINÊS por Matheus Mazurkievicz Sekikawa

 

Entre os missionários ocidentais protestante que passaram a tomar a China imperial como local privilegiado de missionação, um indicativo apontado para a necessidade da conversão dos chineses à fé cristã foi a condição feminina dentro desta sociedade. Dentro do periódico missionário The Chinese Repository [1832-1851], editado pelos missionários estadunidenses Elijah Coleman Bridgman e Samuel Wells Williams, as mulheres são tomadas como um exemplo entre outros do efeito degenerativo do despotismo chinês. Este, no periódico, foi argumentado por Sekikawa (2026): “De modo geral, o argumento segue um esquema simples: Os chineses, como todos os humanos, são filhos de Deus, criados a sua imagem, com uma origem comum e naturalmente perfeitos; Em algum momento da história da humanidade, com a divergência das populações humanas, os chineses se estabeleceram no Leste e perderam a conexão com o sagrado cristão. Desta alienação, seguiu uma série de vícios cuja causa pode ser creditada à autoridade imperial, uma força de difusão da degeneração. A partir dos séculos sob esta condição, o caráter nacional chinês se consolidou por um apego à tradição e uma replicação de uma condição servil generalizada. A influência ocidental, nas vertentes do comércio e da religião, em especial esta última, seriam essenciais para regenerar um povo degenerado.” O “caráter nacional” seria o modo que os ocidentais fixavam a China em características particulares que denotam uma degeneração civilizacional decorrente do paganismo chinês. A condição feminina decorre, portanto, deste ambiente nacional.

 

A imagem da mulher chinesa é bem sintetizada por Williams, em artigo ao periódico. Segundo ele, “Uma dama chinesa completa é uma criatura destituída de toda vivacidade, aleijada tanto no corpo quanto na mente pela moda da sociedade; ela foi concebida para ser uma companheira de seu marido, mas age como sua escrava submissa; ela sabe bordar e talvez cuidar da casa, mas sua total falta de educação a torna capaz de fazer o capricho de seu marido, sem presumir pensar por si mesma” [Williams, 1840, p.540].

 

Esta imagem apresenta certa coerência dentro do periódico missionário e da comunidade ocidental que participava dele. Um fenômeno específico para o qual gravitavam ao produzir aquele estereótipo da mulher chinesa é o fenômeno social denominado pés-de-lotus, prática de enfaixamento de pés femininos até que fossem deformados buscando pés femininos pequenos. Para os missionários, a prática era um sintoma do caráter degenerado chinês por um sistema ético falho – o confucionismo ou a piedade filial. Ora simplemente aludidos em metáforas, “suas mentes são tão distorcidas como seus corpos” [Bridgman, 1835, p.537], também há artigos destinados a abordar o tema especificamente. Para Bridgman, seu propósito seria, simplesmente, a subjugação feminina, uma vez que impede a mobilidade. Já Lay, credita a prática à arrogância chinesa, mas que a deformação dos pés, se dificulta, não impossibilita a movimentação das mulheres [Lay, 1843, p.139].

 

Uma emancipação feminina passaria, necessariamente, por uma conversão ao cristianismo. Como Lay, que apresenta o argumento de modo mais explícito, coloca “Quando a luz celeste do cristianismo amanhecer neste lugar e começar a dissipar a névoa de um sistema diabólico de ética que há muito paira sobre a terra, uma das primeiras evidências de sua presença será a restauração de todos os direitos e privilégios da mulher justa” [Lay, 1843, p.140]

 

Independente dos reais sentimentos destes missionários para com as possíveis injustiças da sociedade chinesa, a construção da mulher chinesa como vítima da opressão tradicional masculina acompanhou os empreendimentos imperialistas estrangeiros contra a China imperial, que visavam “abrir” o império. Houve, dentro do corpo missionário do século XIX, conivência e cumplicidade ativa na violência imperial [Schelinger Junior, 1974]. Em nível discursivo, o argumento traz semelhanças à síntese de Gayatri Spivak, mirando o projeto de tipo “emancipador” das mulheres no contexto imperial britânico na Índia: “homens brancos salvando mulheres de pele escura de homens de pele escura” [Spivak, 2014, p. 94]. Na mesma linha da problematização da promessa emancipatória do imperialismo europeu, Dorothy Ko destaca a complicada história do enfaixamento de pés como locus de agência feminina que, quando condenada no período de modernização do século XX, colocava o fardo da tradição, enquanto atraso e estagnação, no corpo feminino assim como os estrangeiros imperialistas fizeram [Ko, 2005, pp.9-108].

 

A fixação na opressão feminina como signo de uma sociedade degenerada pelos ocidentais suscita, por outro lado, a questão da condição feminina na China do período imperial tardio, mas especialmente o período da dinastia Qīng [1644-1911].

 

De modo algum o destaque ao papel que a opressão feminina ocupa no discurso missionário implica em sua inexistência. A sociedade chinesa sujeitava as mulheres a uma série de violências. Uma fonte relevante destas é justamente um dos maiores romances da língua chinesa, O Sonho da Câmara Vermelha. Este ciclo de romances, escrito por Cáo Xuěqín, trata de uma família de elite chinesa em processo de decadência, enquanto narra um triângulo amoroso entre Jiǎ Bǎoyù e suas primas Lín Dàiyù e Xuē Bǎochāi. O tom realista da obra, apesar da presença do supernatural e de sequências de sonho [a discussão em torno do real e do irreal sendo um tema importante da obra] faz com que o romance seja um olhar privilegiado para a rotina dos chineses do século XVIII. Para fins historiográficos, é um registro extensivo do cotidiano de uma família de elite chinesa, levando em consideração a cultura material, as relações familiares, os afetos e as expectativas sociais sobre os homens e mulheres, assim como uma denúncia dos vícios desta sociedade – em especial da violência perpetrada contra as mulheres. Como havia descrito Hsia Chih-tsing [2015, p.226, 236-238], é um romance com muitas histórias secundárias, fugindo da narrativa principal, mas retratando aspectos variados da sociedade vista de dentro da Câmara Vermelha.

 

Muito do teor trágico do romance gira em torno das expectativas sociais sobre as mulheres chinesas. O casamento era o principal deles, uma vez que produzia um efeito traumático de desenraizamento da mulher de sua família para o complexo domiciliar de seu marido [Mann, 1997]. No capítulo 82, Lín Dàiyù tem um pesadelo sobre a possibilidade de se casar-se com alguém que não Bǎoyù. O trecho começa com preocupações em torno do fato da avó e a mãe de Bǎoyù não estarem realizando preparações para seu casamento com ele, e uma vez que Lín Dàiyù é órfã, morando “de favor” na casa dos Jia, ela não tem ninguém para advogar por ela. Indo dormir perturbada, ela é acordada por um serviçal a parabenizando por seu pai ter sido promovido, casado com outra mulher e arranjado com que ela fosse casada com um de seus parentes. Ela estava prestes a ser escoltada para longe de Jīnlíng – cidade ficcional, uma mistura de Nánjīng e Běijīng, onde se passa o romance. Aos prantos, ela implora à Avó, grande Matriarca Jia e quem detêm, no decorrer do romance, maior autoridade dentro do espaço familiar, que é indiferente à suas aflições. Ela recorre a Bǎoyù, que desinteressado e indiferente ao seu destino no geral, diz que ela pode ir ou ficar se quiser. Ela pergunta se ele quer que ela realmente fique, Bǎoyù diz que quer que ela fique. Contudo, ele diz, se ela duvida da sua honestidade, ela deveria olhar seu coração. Bǎoyù pega uma faca e corta o seu peito – sangue jorra e Lín Dàiyù tenta fechar a ferida às lágrimas. Bǎoyù procura seu coração em seu peito exposto e não o encontra. Ele morre, em tom tão indiferente quanto era seu usual. Lín Dàiyù acorda do pesadelo, tossindo sangue [Cáo, 1982, pp.58-68]. A cena, arrepiante quando lida, revela uma ansiedade tremenda com a ideia de deslocar-se por razão do casamento. Lín Dàiyù vai morar na residência Jiǎ logo no começo do romance, após a morte da mãe e sofre das ansiedades em questão, que são logo suavizadas pela avó, suas primas e seu primo. No pesadelo, desaparecendo estes alicerces, Lín Dàiyù se desespera. Para além do texto, sabemos que estas ansiedades eram relativamente comuns entre as mulheres chinesas.

 

Uma série de relatos foram legados a nós em forma de poemas por mulheres de elite chamadas guīxiù, distintas como damas cultivadas, educadas e bem letradas, que se mantinham isoladas nos aposentos internos das mansões chinesas e afastadas dos homens. No romance, Bǎoyù é uma grande exceção, que convive, para o estranhamento de muitos, com as mulheres. Geralmente, o casamento na China era exógamo – ou seja, a mulher partia de seu núcleo familiar para o núcleo de seu marido. Esta era uma tremenda ruptura na vida de uma menina – a idade média do casamento entre as mulheres era de 16 a 18 anos e até a menopausa, esperava-se que ela produzisse filhos, preferivelmente. Por todo este período, esperava-se que as guīxiù permanecessem isoladas com a família do marido. A angústia provocada pela condição de isolamento pode ser encontrada em poemas sobre o Duplo Sete – um festival que ocorria no sétimo dia do sétimo mês lunar em que se comemorava a unificação da estrela Vega [a Dama Tecelã] com a constelação de Aquila, conhecida como Vaqueiro – a reunião de dois amantes. Apesar de comemorar a reunião, vários poemas de mulheres durante o período sublinham, justamente, a separação e o isolamento [Mann, 1997, pp.45-121].

 

Para além da angústia e sofrimento legados por O Sonho da Câmara Vermelha, há outra faceta importante da condição feminina na China durante a Dinastia Qīng, o trabalho na manufatura. Uma fonte de destaque que evidencia a importância deste aspecto são as “Imagens Comissionadas de Lavoura e Tecelagem” Gēngzhī Tú, produzidas pelo poeta Lóu Shú no século XII, durante a dinastia Song, que trazia poemas e ilustrações retratando o espaço rural da região do Baixo Yangtzé neste período, especialmente imagens que retratam as etapas da lavoura do arroz e da tecelagem da seda. Retomada pontualmente nos séculos seguintes, as “Imagens” tomaram fôlego sistemático no final do século XVII e por todo o século XVIII com o investimento de seguidos imperadores em revisitar as “Imagens” as fazendo circularem e realizarem intervenções inéditas no conjunto, que chamo de “Imagens Comissionadas”. O primeiro destes foi o imperador Kāngxī, seguido por seus sucessores Yōngzhèng, Qiánlóng e Jiāqìng. Cada um deles trouxe novidades em termo de poemas, prefácios e imagens inéditas. Para fins práticos, assim como de acesso a imagens de qualidade, irei me deter às “Imagens Comissionadas” por Kāngxī, que datam de 1696. Estas são as bases para as intervenções dos imperadores seguintes. As “Imagens” do século XII eram constituídas de 45 imagens acompanhadas por poemas, 24 etapas da tecelagem de seda e 21 etapas da lavoura de arroz. A versão de Kāngxī tem 46 imagens, cada atividade com a metade exata, 23 quadros para cada. Foram acrescentadas duas vinhetas do processo de lavoura, com a omissão das etapas originais e a produção de duas etapas inéditas. [Hammers, 2021]

 

As “Imagens Comissionadas” retratam, ou pretendem retratar, as etapas de duas atividades econômicas importantes: o cultivo de arroz e a produção de seda. Segundo Li Bozhong [1998], o Yangtzé passa por transformações importantes que efetivamente tornam possível que argumente como a região era a mais desenvolvida do império. Para Li, a região é palco de uma intensa racionalização no que toca a atividade econômica. Ao olharmos para os mapas, vemos a divisão da China em macrorregiões e aquilo que chamo de Baixo Yangtzé e a região de Jiāngnán, foco do estudo de Li Bozhong. Nesta, observa-se uma crescente e clara separação das atividades econômicas entre homens e mulheres. Que o cultivo de plantas com bom retorno econômico – como o algodão e as amoreiras, cujas folhas eram o alimento dos bichos-da-seda – além do arroz, usado desde a alimentação até o pagamento de impostos, com uma grade especialização na escolha de regiões topograficamente propícias para o cultivo, acrescentado à diminuição da média da propriedade rural por família se comparado à séculos anteriores e o investimento pesado em tecnologias de melhoramento do solo, seja a irrigação ou o uso intensivo de adubos, com a rotação eficiente das culturas dentro de um mesmo ano, manteve-se similar, quando não maior que a produção bruta dos séculos anteriores, com somente metade da população hábil na lavoura, indica para Li que houve um aumento da produtividade per capita na região. A lavoura tornou-se atividade eminentemente masculina, e as mulheres retraíram-se para o espaço doméstico. Contudo, este também era um espaço economicamente produtivo. Na casa, as mulheres organizavam a manufatura de algodão e seda. No caso da seda, as mulheres ocupavam-se na grande parte das etapas produtivas da tecelagem de seda. Podemos identificar claramente a divisão de gênero nas “Imagens comissionadas”. Na seção da lavoura, nota-se que a maioria das personagens são homens, com a eventual presença feminina. E na seção da tecelagem, a maioria das pessoas trabalhando são mulheres, com a eventual presença masculina.

 

O que se espera notar, breve e provisoriamente, é que a construção estrangeira de China no século XIX esbarra em um cenário muito mais complexo da experiência vivida chinesa. A suposta mulher chinesa desprovida de vivacidade era, pelo contrário, uma agente – literária e econômica – extremamente ativa e importante durante o período imperial tardio. Esta realidade não implica na inexistência de violências rotineiras contra mulheres, nem em uma apologia nostálgica a um período pré-moderno, mas uma revisão de uma imagem particular desta China imperial, cuja construção é situada no imperativo moderno de abrir a China.

 

Referências  

Matheus Mazurkievicz Sekikawa é Bacharel em História pela Universidade Federal do Paraná, Mestre e Doutorando pela mesma instituição. Membro do Grupo de Estudos Africanos e Asiáticos (GEAFRAS]

 

BRIDGMAN, Elijah Coleman. Small Feet of the Chinese females; remarks in the origin of the custom of compressing the feet; the extent and effects of the practice; with an anatomical description of a small foot. The Chinese Repository, V.3, n.12, 1835, pp.537-542

CÁO, Xuěqín. The Story of the Stone. Volume IV: The Debt of Tears. Traduzido por John Minford. Londres: Penguin Books, 1982

HAMMERS, Roslyn Lee. The Imperial patronage of Labor Genre Paintings in Eighteen-Century China. Nova Yorke: Routlefge, 2021

HSIA, Chih-tsing. The Classic Chinese Novel: a Critical Introduction. Hong Kong: The Chinese University Press, 2015

KO, Dorothy. Cinderellas’s Sisters: a Revisionist History of Footbinding. Berkeley; Los Angeles: University of California Press, 2005

LAY, G. Tradescant. Remarks on the Chinese character and customs. By G. Tradescant Lay. The Chinese Repository, V.12, n.3, 1843, pp.135-142

LI, Bozhong. Agricultural Development in Jiangnan, 1620-1850. New York St. Martin's Press, 1998

MANN, S. Precious Records: Women in China’s Long Eighteenth Century. Stanford: Stanford University Press, 1997

SCHELESINGER JUNIOR, Arthur. The Missionary Enterprise and Theories of Imperialism. In: FAIRBANK, John King. The Missionary Enterprise in China and America. Cambridge: Harvard University Press, 1974

SEKIKAWA, Matheus Mazurkievicz. A China pelo "Mundo de papel": juízos de fixidez e degeneração no periódico missionário "The Chinese Repository" (1832-1851). 2026. 191f. Dissertação (Mestrado em História) - Setor de Ciências Humanas, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2026

SPIVAK, Gayatri C. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte Editora UFMG, 2010

WILLIAMS, Samuel Wells. Neu Heo, or the Female Instructor; a treatise on the education of females in morals, conversation, manners, and domestic employments. By Luhchow of Fuhkeën. 2 vols. 12mo. 1730. The Chinese Repository, V.9, n.8, 1840, pp.537-559

12 comentários:

  1. Estimado Matheus,

    Muito obrigado por compartilhar sua pesquisa! É sempre um prazer poder ler sobre investigadores de China no Brasil, em especial com uma análise bastante apurada ao longo de uma larga temporalidade.

    Minha pergunta, bastante pontual, vai em direção ao objeto religioso. No início do texto, você nos trouxe a visão de missionários protestantes acerca do lugar da mulher. É uma compreensão, como você bem traz, bastante negativa e, de certa forma, um reflexo da visão ontológica que se tinha da China nesse momento.

    Porém, é curioso como ela contrasta com a visão dos primeiros missionários católicos, que chegaram à China no final do século XVI, nos momentos de decadência Ming. A principal marca nas fontes de época é um certo silêncio, ou ausência, do feminino, que é referido sempre de forma pontual e passageira. Por mais que tenhamos um aspecto religioso envolvido, até que ponto podemos pensar isso como uma transformação dentro da visão europeia, de um lado, e da própria transformação do papel da mulher ao longo dos séculos, do outro?

    Muito obrigado!

    Cláudio César Foltran Ulbrich

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    1. Prezado,

      Obrigado pela pergunta. Pensar o substrato sobre o qual estes missionários partiam para realizar os juízos negativos sobre as mulheres é certamente um desafio, pois envolve uma variedade de lastros. Na minha dissertação, eu optei por realizar um rastreamento bastante circunscrito: falar da mulher chinesa era falar sobre a necessidade de abrir a China. Contudo, certamente há tanto uma biblioteca colonial produzida desde séculos anteriores, que não envolve somente a China, como outras civilizações pagãs (vide a referência a Spivak), como também desenvolvimentos de uma moral burguesa na Europa e nos Estados Unidos com uma ênfase no ambiente doméstico como tipicamente feminino. Creio que esta mudança possa ser creditada justamente a esta condição tutelada da mulher ocidental dentro de sua sociedade, que eventualmente, a partir da metade do século XIX, é exportada por organizações filantrópicas femininas cuja função seria educar as mulheres do mundo colonial nos padrões morais "modernos", um "imperialismo benevolente", como coloca a historiadora Carol C. Chin em um artigo muito interessante sobre missionárias na China.

      Agradecido,
      Matheus Mazurkievicz Sekikawa

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  2. Prezado

    A forma como você contrapõe o discurso missionário à experiência concreta das mulheres está bem construída.

    Fiquei pensando numa questão, Você usa um romance de elite e fontes iconográficas ligadas ao patrocínio imperial para contestar o estereótipo missionário. Isso me faz pensar sobre questões relacionadas à critica de nossa fontes, assim, como você pensa o limite das fontes que você utiliza? será que essas fontes, por virem de camadas altas ou de produção estatal, não acabam mostrando principalmente a experiência feminina de elite e das camponesas ligadas à manufatura da seda e, portanto, deixando de lado outras camadas da sociedade chinesa?

    Você pretende discutir os limites das conjecturações possíveis? Ou não? Penso, e só penso mesmo pois não lido com esse tipo de fonte, que o próprio discurso missionário também generalizava "a mulher chinesa" e isso talvez seja um tópico interessante.

    Att,
    Victor Hugo de Mattos Trindade

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    1. Prezado,

      Obrigado pela pergunta. Realmente, é importante destacar os limites das fontes no que toca a "facticidade" desta condição chinesa. As "Imagens Comissionadas" podem ser entendidas como uma idealização da vida econômica chinesa, e portanto um papel idealizado e harmonioso da mulher nesta sociedade. "O Sonho da Câmara Vermelha", por outro lado, é um romance, e a devida crítica em torno de sua ficcionalidade deve ser atentada, e mostra o lado mais cruel da vida das mulheres de elite. O romance aborda eventualmente a condição de mulheres de outro status social, mas geralmente associadas à família, que prestam-lhes serviços. De modo algum são fontes suficientes para compreender a condição feminina na China no período, mas retratam, pelo viés que lhes pertence, algo dela. O discurso missionário certamente generalizava a mulher chinesa uma vez que os missionários do período não tinham capacidade de investigar a China como um todo, ainda circunscritos espacialmente pelos tratados desiguais. Ainda que uma distinção fizessem entre as mulheres chinesas e manchu, justamente pelo enfaixamento dos pés que só as primeiras faziam. Uma anedota muito interessante é que um dos missionários, Gutzlaff, leu o romance e escreveu uma resenha. Nela, o missionário confunde Baoyu por uma mulher. Então há muita informação desencontrada nas fontes missionárias sobre as chinesas.

      Agradecido,
      Matheus Mazurkievicz Sekikawa

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  3. Caro Matheus, gostei muito do seu texto! No sentido de reforçar a ideia de que a visão dos missionários seria orientalista, qual seria, contudo, o contraponto chinês? Qual literatura podemos acessar para compreender o outro lado?
    saudações,
    André Bueno

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    1. Prezado,

      Obrigado pela pergunta. Uma vez que não sou um especialista em história das mulheres na China imperial tardia deve haver uma série gigante de fontes que não conheço que podem ser interessantes. Uma vez que toquei no aspecto das pinturas, há uma série de retratos de mulheres chinesas do período. Não me lembro de ter visto um catálogo centralizado delas, mas estão espalhadas em repositórios digitais. Também há uma gama de poesia escrita por mulheres, o livro de Susan Mann trata de modo magistral sobre, e de romances do período, "O Sonho da Câmara Vermelha" é o mais famoso deles, mas ainda há outros. Eu diria que a literatura, sobretudo o romance como mostra Mann, ainda é o caminho mais interessante para compreender não só o contraponto chinês, mas o contraponto das mulheres chinesas.

      Agradecido,
      Matheus Mazurkievicz Sekikawa

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  4. Rodrigo Kmiecik Passos9 de julho de 2026 às 15:45

    Matheus,

    Parabéns pelo texto! Minha pergunta é um pouco tangencial. Gostaria de ouvir mais de você sobre a representação da natureza nessas "Imagens Comissionadas". Suponho que poderíamos afirmar que essa natureza é tão "idealizada" quanto as relações sociais e a divisão do trabalho representados nas imagens; são, afinal, todas elas, construções mediadas por escolhas, sentidos, e usos ao longo do tempo. Aí pergunto: de que modo isso se dá em relação à paisagem, à disposição dos elementos naturais e aos demais elementos gráficos que compõem as cenas? Na sua leitura, que tipo de relação humano/natureza essas imagens buscavam construir?

    Um abraço,
    Rodrigo Kmiecik Passos

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    1. Prezado,

      Obrigado pelo comentário. Vou confessar que esta ainda quero me aprofundar neste tema no que toca as "Imagens Comissionadas". O que posso dizer por agora é que apesar da idealização da obra no que toca a natureza chinesa, uma vez que não é a pintura de uma vila ou cidade ou propriedade em particular, mas um esboço sintetizado da vida econômica de Jiangnan, acho que há muito de correto na representação das imagens em especial em como esta natureza não era intocada, mas já interpelada pela ação humana. Nesta condição de já estar em uso, o que é destacado nas imagens é justamente o trabalho e como os chineses aproveitam da natureza trabalhada para seu sustento. Na seção primeira das "Imagens" que trata da rizicultura, isto fica claro pelo palco da atividade ser diques, barragens e regiões alagadas artificialmente para o cultivo. Destaca-se também o uso de animais de carga para a realização de preparo da terra. Agora, de que modo estas representações criam um tipo específico de relação humano/natureza não sei dizer. Uma referência na história ambiental chinesa, Mark Elvin, comenta que há um descompasso entre o arcabouço ideológico disponível entre os chineses do período e sua ocupação efetiva do território, marcado pelo abuso e pela constante erosão. Creio que as "Imagens", direcionadas para retratos da vida econômica, privilegiavam o uso da natureza pelo trabalho. Mas ainda é algo a ser investigado futuramente.

      Agradecido,
      Matheus Mazurkievicz Sekikawa

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  5. Excelente texto. Gostei especialmente da forma como você parte da construção discursiva missionária para, em seguida, confrontá-la com fontes produzidas na própria China, evitando tanto reproduzir os estereótipos orientalistas quanto romantizar a sociedade Qing. O diálogo entre The Chinese Repository, O Sonho da Câmara Vermelha, Dorothy Ko e Susan Mann torna a argumentação bastante sólida e evidencia que a condição feminina só pode ser compreendida a partir de suas múltiplas experiências e formas de agência. Fiquei, contudo, com uma curiosidade: você pretende aprofundar, em pesquisas futuras, como as próprias mulheres chinesas responderam ou reagiram às narrativas missionárias e imperialistas do século XIX, ou considera que esse diálogo entre representações ocidentais e vozes femininas chinesas já está suficientemente contemplado pelas fontes que utilizou?
    Atenciosamente, Carlos Augusto Lima Barros

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    1. Carlos, obrigado pela pergunta. Posso dizer com tranquilidade que as fontes em questão não são suficientes para contemplar a condição feminina na China. Como diz o título, a comunicação é uma nota sobre o tema, uma vez que minha pesquisa atual não gira em torno de estudos de gênero ou história das mulheres, mas vi a necessidade de me aprofundar durante o trajeto. Certamente há outras fontes que não utilizei ou que não conheço de autoria feminina. Em uma resposta anterior indiquei a poesia escrita por mulheres como fonte importante. Espero profundamente que minha pesquisa atual ainda demande que eu olhe para as mulheres chinesas, uma vez que está em seu início.

      Agradecido,
      Matheus Mazurkievicz Sekikawa

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  6. Olá, Matheus. Parabéns pelo texto, gostei muito da leitura. Você saberia dizer se os missionários mencionam em algum de seus materiais a procedência dessas mulheres, ou só descrevem uma figura ampla e estereotipada do que seria essa mulher chinesa mesmo?

    At.te,

    Arthur Bertolo Pazeto

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    1. Arthur, obrigado pela pergunta. Esta é uma questão muito importante. A maioria dos missionários antes de 1842 só tinha contato com mulheres chinesas em Macau e Cantão, ou no Sudeste Asiático, onde havia uma grande comunidade de diáspora comercial chinesa. Depois da Primeira Guerra do Ópio e o tratado de 1842, que abre mais portos para a presença estrangeira, eles passam a conhecer mais mulheres em outras regiões da China, ainda muito na costa. Com o progredir do século XIX e a assinatura de diversos tratados desiguais, que abrem cada vez mais o território chinês para os estrangeiros, os missionários conhecem mais sobre a diversidade desta condição feminina. Posso dizer com base no período até 1851 que as mulheres chinesas são tanto estereotipadas quanto nota-se, por parte dos missionários, o quanto eles ainda desconhecem sobre elas. Este desconhecer, por outro lado, viria a informar o alinhamento do corpo missionário protestante à violência imperialista com o objetivo de abrir a China e modernizá-la. Também para conhecer a condição feminina e libertá-las do jugo patriarcal, parecido com a síntese da Spivak, "homens brancos salvando mulheres de pele escura de homens de pele escura"

      Agradecido,
      Matheus Mazurkievicz Sekikawa

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