A Palestina contemporânea encontra-se como um dos espaços mais emblemáticos para compreender a noção de “Ásia em transe”, proposta pelo 9º Simpósio Eletrônico de Estudos Orientais 2026. Esse transe não se limita à instabilidade política ou à intensificação dos conflitos armados, mas manifesta-se como uma condição estrutural de crise que atravessa dimensões territoriais, simbólicas, culturais e, de modo decisivo, informacionais. A guerra na Palestina, especialmente em sua fase recente, não pode mais ser interpretada exclusivamente como disputa geopolítica clássica, se constitui também como uma guerra pela informação, pela memória e pela legitimação narrativa.
Nesse contexto, que se propõe analisar a Palestina como um território em transe informacional, no qual a produção, circulação, controle e apagamento da informação tornam-se centrais para a dinâmica do conflito. A partir de aportes teóricos, buscou-se compreender como os regimes de informação operam em contextos de violência prolongada e como a disputa por visibilidade e legitimidade se inscreve no plano informacional global.
A noção de regime de informação, conforme discutida por autores como Frohmann (1995) e Gomez (2012), permite compreender a informação não como um fluxo neutro, mas como um campo estruturado por relações de poder, instituições e práticas sociais. No caso palestino, observa-se um regime informacional profundamente assimétrico, na qual os atores estatais como corporações tecnológicas e grandes conglomerados midiáticos atuam de forma decisiva na definição do que pode ser visto, dito e reconhecido como verdade.
A circulação de imagens e narrativas sobre a Palestina evidencia essas assimetrias, as fotografias de destruição, testemunhos de civis e registros de violações de direitos humanos são frequentemente submetidos a processos de moderação algorítmica que limitam sua visibilidade. As plataformas digitais operam, assim, como mediadoras ativas da realidade, filtrando conteúdos com base em critérios que muitas vezes permanecem opacos. Esse fenômeno pode ser analisado à luz daquilo que Gomez e Cianconi (2017) denomina de ética da informação, na medida em que coloca em questão a responsabilidade dos sistemas informacionais na produção de conhecimento e na mediação da verdade.
Ao mesmo tempo, a Palestina tornou-se um espaço de intensa produção informacional descentralizada. As redes sociais, dispositivos móveis e plataformas digitais permitiu que sujeitos historicamente marginalizados produzisse e disseminasse suas próprias narrativas.
Esse movimento tensiona os regimes tradicionais de informação, criando fissuras no monopólio discursivo de grandes instituições. No entanto, essa ampliação da voz não ocorre sem conflitos, pois essas mesmas plataformas também são espaços de vigilância, controle e desinformação.
A desinformação, aliás, constitui um elemento central no transe informacional palestino. A circulação de conteúdos manipulados, a edição seletiva de imagens e a produção de narrativas enviesadas evidenciam o caráter estratégico da informação no conflito. Como apontam Floridi (2011) e Fallis (2015), a desinformação não é apenas um erro ou distorção, mas pode ser entendida como uma prática intencional que visa influenciar percepções e decisões. No contexto da Palestina, essa prática se articula com interesses geopolíticos e ideológicos, contribuindo para a construção de versões concorrentes da realidade.
Outro eixo fundamental dessa análise refere-se à memória e ao arquivo. A destruição sistemática de infraestruturas culturais como bibliotecas, universidades, centros de documentação, configura-se como uma forma de violência epistemológica. Trata-se de um processo de apagamento que busca não apenas eliminar registros do presente, mas comprometer a própria possibilidade de construção histórica futura. Nesse sentido, a guerra atinge não apenas corpos e territórios, mas também o conhecimento e a memória coletiva.
As iniciativas de arquivamento digital distribuído, muitas vezes conduzidas por organizações independentes ou coletivos ativistas, emergem como estratégias de resistência. Esses arquivos digitais tornaram espaços de memória viva, capazes de preservar evidências e narrativas que poderiam ser apagadas pelos mecanismos tradicionais de poder.
Essa dinâmica pode ser interpretada à luz do conceito de ecologia da informação, proposto por Davenport (1998), que enfatiza a interdependência entre diferentes elementos do ambiente informacional. Na Palestina, essa ecologia é profundamente marcada por tensões entre controle e resistência, centralização e descentralização, visibilidade e invisibilidade. A informação circula em um ambiente instável, onde sua existência e permanência são constantemente ameaçadas.
É necessário considerar o papel dos algoritmos na organização da visibilidade informacional, como destacam Gillespie (2018) e Beer (2017), os algoritmos não são neutros, incorporam valores, interesses e lógicas específicas que influenciam diretamente o que é priorizado ou ocultado. Isso significa no contexto palestino que a visibilidade de determinadas narrativas pode ser amplificada ou reduzida com base em critérios que não são transparentes, reforçando desigualdades já existentes.
A noção de mediação da informação, também se mostra central para esta análise. A informação não chega ao público de forma direta, mas mediada por múltiplos agentes: jornalistas, plataformas, algoritmos, instituições. Cada uma dessas mediações implica escolhas, recortes e interpretações que influenciam a construção do sentido. Essas mediações são atravessadas por disputas políticas intensas, o que torna ainda mais complexa a construção de uma narrativa compartilhada.
Outro aspecto relevante diz respeito à relação entre informação e poder, como argumenta Foucault (1979), o poder não se exerce apenas por meio da força, mas também pela produção de saberes e discursos. A Palestina, nesse sentido, pode ser entendida como um campo de disputa epistemológica, onde diferentes atores buscam impor suas versões da realidade. A informação torna-se, assim, um instrumento de poder, capaz de legitimar ações, mobilizar apoios e influenciar decisões políticas.
Essa perspectiva dialoga diretamente com a dimensão política do conhecimento. Buckland (1991), ao discutir os diferentes significados da informação, já apontava para a necessidade de compreender a informação não apenas como dado, mas como evidência e construção social. Essa construção é constantemente tensionada por interesses conflitantes, o que reforça a necessidade de uma análise crítica dos processos informacionais.
Também é fundamental abordar a dimensão ética dessa problemática, pois a circulação de imagens de sofrimento, a exposição de corpos e a espetacularização da violência levantam questões importantes sobre os limites da informação. Até que ponto a visibilidade contribui para a conscientização, em que medida pode reproduzir formas de exploração simbólica? Quem tem o direito de narrar o sofrimento alheio? Essas questões exigem uma reflexão ética profunda, que considere tanto o direito à informação quanto a dignidade humana.
A ética da informação, nesse contexto, não pode ser reduzida a normas técnicas ou diretrizes abstratas, que deve ser pensada como um compromisso com a justiça informacional, isto é, com a garantia de que diferentes vozes possam ser ouvidas e reconhecidas em condições equitativas. Isso implica questionar as estruturas de poder que organizam o campo informacional e buscar alternativas que promovam maior pluralidade e inclusão.
Assim, ao analisar a Palestina como um espaço em transe informacional, buscou-se contribuir para uma compreensão mais ampla dos conflitos contemporâneos, destacando o papel da informação na configuração das disputas globais. A Palestina não é apenas um território em guerra, mas um campo de batalha simbólico onde se decide o que será lembrado, esquecido ou distorcido.
Nesse sentido, a proposta em dialoga diretamente com o tema “Ásia em transe”, evidencia que a crise que atravessa o continente asiático não é apenas política ou cultural, mas também profundamente informacional, ou seja, compreender essa dimensão é pensar não apenas o presente, mas também as possibilidades futuras de construção de memória, justiça e reconhecimento.
Referências
Dr. Alexander Willian Azevedo é professor no Departamento de Ciência da Informação na Universidade Federal de Pernambuco, e coordenador Setorial de Extensão e Cultura do Centro de Artes e Comunicação (CAC/UFPE).
BEER, David. The social power of algorithms. Abingdon: Routledge, 2018.
BUCKLAND, Michael. Information as thing. Journal of the American Society for Information Science. (JASIS), v.45, n.5, p.351-360, 1991.
GOMEZ, Maria Nelida Gonzalez de. Regime de informação: construção de um conceito. Informação & Sociedade: Estudos, v. 22, n. 3, 2012.
GOMEZ, Maria Nelida Gonzalez de; CIANCONI, Regina de Barros (Org). Ética da Informação: Perspectivas e Desafios. Niterói: PPGCI/UFF, 2017.
DAVENPORT, Thomas H. Ecologia da informação: por que só a tecnologia não basta para o sucesso na era da informação. São Paulo: Futura, 1998.
FALLIS, Don. What is Disinformation? Library Trends, v. 63, n. 3, p. 401-426. 2015.
FLORIDI, Luciano. The Philosophy of Information. Oxford University Press, 2011.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
FROHMANN, Bernd. Taking Information Policy Beyond Information Science. Canadian Journal of Information and Library Science, 1995.
GILLESPIE, Tarleton. Custodians of the Internet. Yale University Press, 2018.
Alexander, parabéns pelo texto. Trata-se de uma questão de urgência.
ResponderExcluirA questão que ficou pipocando ao ler o seu texto foi: diante do controle algorítmico, muito bem apontado por você, em que medida os arquivos digitais resistentes aos discursos dominantes conseguem furar a rede ideológica global no curto e longo prazo?
Muito Obrigado pela primeira pergunta, respondendo essa é uma questão central e, a meu ver, constitui um dos principais dilemas da ecologia informacional contemporânea. Os arquivos digitais de resistência possuem uma capacidade real de romper, ainda que parcialmente, os mecanismos de apagamento promovidos pelos regimes dominantes de informação. No curto prazo, entretanto, sua capacidade de "furar" a rede ideológica global é limitada pelo próprio funcionamento das plataformas digitais. Os algoritmos de recomendação, as políticas de moderação de conteúdo, a concentração da infraestrutura tecnológica em poucas corporações e a assimetria de recursos comunicacionais fazem com que essas narrativas permaneçam, muitas vezes, restritas a circuitos específicos de ativistas, pesquisadores e grupos já sensibilizados para a temática.
ExcluirContudo, considero que o impacto desses arquivos não deve ser avaliado apenas por sua capacidade imediata de alterar a opinião pública. Seu papel mais importante talvez seja impedir o apagamento definitivo da memória. Ao preservar documentos, imagens, testemunhos e evidências, esses acervos mantêm aberta a possibilidade de futuras reinterpretações históricas, de responsabilização jurídica e de revisão crítica das narrativas oficiais. Em outras palavras, eles funcionam como dispositivos de resistência temporal.
No longo prazo, a dinâmica tende a ser distinta. A história demonstra que inúmeros arquivos inicialmente marginalizados tornaram-se, posteriormente, fontes fundamentais para a reconstrução de acontecimentos históricos e para a revisão de consensos políticos. O valor desses arquivos reside justamente na sua permanência. Ainda que invisibilizados hoje, permanecem disponíveis para novas gerações, para pesquisadores, organismos internacionais e processos de justiça transicional.
Entretanto, não acredito que sua simples existência seja suficiente para romper a hegemonia informacional. A resistência precisa ser acompanhada por estratégias de mediação, preservação distribuída, indexação, tradução, interoperabilidade e circulação em diferentes ecossistemas informacionais. Sem essas práticas, o arquivo corre o risco de existir apenas como um repositório invisível.
Penso que a disputa não ocorre apenas pela produção da informação, mas principalmente pela disputa da visibilidade. O verdadeiro campo de batalha contemporâneo desloca-se do acesso ao registro para os mecanismos que determinam o que será encontrado, recomendado, compartilhado e legitimado.
Olá, professor Alexander. Primeiramente, parabéns pelo texto elaborado. Gostaria de saber se, em seus estudos foi encontrada alguma manifestação de resistência pelo povo palestino, seja em blogs, seja em redes sociais? Caso isso tenha ocorrido, como se deram essas manifestações?
ExcluirOlá, Luciano. Obrigado pela interação com texto, sua pergunta é bastante pertinente e dialoga diretamente com uma das reflexões que procurei desenvolver no texto.
ExcluirSim, embora o objetivo do trabalho não tenha sido realizar uma análise empírica específica das redes sociais, a literatura e os acontecimentos recentes mostram que a resistência palestina também ocorre no plano informacional. Diante das limitações impostas aos meios tradicionais de comunicação e das dificuldades enfrentadas pela imprensa em diversas regiões do conflito, muitos palestinos passaram a utilizar blogs, redes sociais como instagram e plataformas digitais como telegram como espaços de registro, denúncia e preservação da memória.
Essas manifestações ocorrem de diferentes formas. Uma delas é o compartilhamento cotidiano de fotografias, vídeos e relatos produzidos pelos próprios moradores, transformando celulares e redes sociais em verdadeiros arquivos distribuídos do conflito. Também são frequentes iniciativas de documentação colaborativa de ataques, destruição de patrimônio cultural, deslocamentos forçados e violações de direitos humanos. Em muitos casos, essas informações são posteriormente preservadas por organizações independentes, pesquisadores e projetos de arquivamento digital, justamente para evitar seu desaparecimento ou apagamento.
Ao mesmo tempo, esse processo revela uma tensão important, as mesmas plataformas que possibilitam a circulação dessas narrativas também exercem mecanismos de moderação algorítmica, redução de alcance, remoção de conteúdos e suspensão de perfis, muitas vezes justificadas por políticas automatizadas de segurança. Isso faz com que a resistência informacional palestina seja constantemente atravessada por disputas em torno da visibilidade. Produzir informação tornou-se apenas parte do desafio, garantir que essa informação permaneça acessível e alcance diferentes públicos tornou-se igualmente importante.
Acredito que essa seja uma das grandes transformações dos conflitos modernos: hoje, a disputa não acontece apenas sobre quem controla um espaço geográfico, mas também sobre quem produz, preserva e legitima as narrativas que permanecerão na memória coletiva. Nesse sentido, os blogs, as redes sociais e os arquivos digitais tornaram-se instrumentos fundamentais de resistência, ainda que permanentemente submetidos às disputas políticas, tecnológicas e algorítmicas que caracterizam o atual ecossistema informacional.
Olá, professor. Gostaria de saber se poderia me informar se há no Brasil grupos de pesquisa ou estudos que abordam a questão informacional como símbolo de resistência palestina? Se há iniciativas em universidades públicas ou privadas? Grato pela contribuição. Att. Luciano Araujo Monteiro
ExcluirAutor da pergunta: Jeferson do Nascimento Machado.
ResponderExcluirOlá, professor Alexander. Parabéns não apenas pelo texto, mas por contemplar uma questão tão urgente em nossos tempos. Pensei em muitos textos enquanto lia o seu, principalmente os escritos de Susan Sontag. Diante da dor dos outros é uma dessas referências que infelizmente parecem atemporais. Laboratório Palestina, de Antony Loewenstein, é outra leitura tão necessária quanto perturbadora. Tenho particularmente me preocupado com essas questões, porque, assim como outros autores também chamam a atenção, percebo estratégias “bélicas”, para dizer o mínimo, aplicadas em contextos não “bélicos” – o que não é exatamente uma novidade na história, mas talvez o seja em termos de alcance. É nesse sentido que pensei também no Max Fisher, com A máquina do caos, mais diretamente sobre o contexto informacional. Será que poderíamos pensar nessas questões também por meio da possibilidade da sua reprodutibilidade em outros contextos? É exagero pensarmos que os mecanismos de apagamento e/ou manipulação da informação permanecem restritos ao conflito ou tendem a se tornar modelos globais de gestão da informação?
ResponderExcluirGratidão pelas generosas palavras e, sobretudo, pelas referências, que enriquecem esse debate. Concordo plenamente que obras como Diante da dor dos outros, de Susan Sontag, Laboratório Palestina, de Antony Loewenstein, e A máquina do caos, de Max Fisher, ajudam a compreender que o conflito contemporâneo não se limita ao campo militar, mas envolve disputas permanentes pela produção, circulação e legitimação da informação.
ExcluirAcredito que essa seja exatamente uma das questões centrais do nosso tempo: a Palestina pode ser compreendida não apenas como um caso particular, mas como um laboratório de práticas informacionais que tendem a extrapolar os limites do conflito armado. Não me parece exagerado pensar que muitos dos mecanismos empregados em contextos de guerra como a vigilância digital, moderação seletiva de conteúdos, monitoramento algorítmico, desinformação estratégica e controle da visibilidade, sejam posteriormente incorporados às formas ordinárias de governança informacional.
Esse movimento dialoga com um fenômeno recorrente na história das tecnologias: instrumentos desenvolvidos em situações excepcionais acabam sendo naturalizados e difundidos para a administração cotidiana da vida social. No ambiente digital, essa transição parece ocorrer de forma ainda mais rápida, porque as mesmas plataformas, infraestruturas e algoritmos utilizados em zonas de conflito operam simultaneamente nos demais contextos sociais.
Sob essa perspectiva, penso que a Palestina evidencia tendências que ultrapassam sua realidade específica. O que está em disputa ali não é apenas uma narrativa sobre um conflito regional, mas formas de gestão da visibilidade, da memória e da legitimidade informacional que podem ser reproduzidas em diferentes países e contextos políticos. Em outras palavras, a exceção corre o risco de se tornar norma.
Professor Alexander, agradeço a resposta e reflexões. Concordo que pensar a Palestina para além de sua dimensão local nos ajuda a compreender movimentos mais amplos. Fico muito feliz em poder discutir sobre esses assuntos e espero que possamos seguir construindo mais espaços de troca. Parabéns novamente pelo trabalho!
ExcluirParabéns pelo texto, Alexander — é uma contribuição corajosa por trazer para a Ciência da Informação um objeto tão urgente, e achei especialmente potente a ideia da destruição de arquivos, bibliotecas e universidades como uma violência que compromete não apenas o presente, mas a própria possibilidade de construção histórica futura. Fiquei matutando na sua resposta ao comentário, quando você sugere que a exceção corre o risco de se tornar norma — a ideia da situação como uma espécie de laboratório de práticas informacionais que depois se difundem. Você pensa em desenvolvê-lo como uma linha própria, mapeando por quais mecanismos concretos essa passagem do excepcional ao ordinário se daria?
ResponderExcluirAlinie Nascimento
Muito obrigado pela leitura Alinie. Fico muito feliz que essa ideia tenha chamado sua atenção, porque ela tem ocupado cada vez mais minhas reflexões. De fato, considero que esse é um desdobramento importante da pesquisa e pretendo desenvolvê-lo de maneira mais sistemática.
ResponderExcluirO que me interessa investigar são justamente os mecanismos dessa transição do excepcional para o ordinário. Penso, por exemplo, na normalização de discursos de segurança nacional, na banalização da censura, na legitimação do apagamento documental e na crescente aceitação social de tecnologias de vigilância e controle informacional. Quando essas práticas deixam de ser percebidas como medidas temporárias e passam a integrar políticas permanentes, produzem efeitos duradouros sobre a memória coletiva e sobre o próprio direito à informação.
Na ciência da informação, acredito que esse debate pode contribuir para compreendermos que os regimes de informação não se organizam apenas pela produção e circulação de documentos, mas também pela sua supressão deliberada. O apagamento informacional, nesse sentido, torna-se uma tecnologia de poder tão relevante quanto a produção da informação, dialogando com estudos sobre políticas de memória, práticas documentárias e regimes de informação.
Sua pergunta, inclusive, reforça para mim que esse argumento merece uma investigação própria, talvez como uma agenda de pesquisa dedicada a compreender como estados de exceção acabam redefinindo, de forma permanente, as práticas informacionais.