MEMÓRIA, SILÊNCIO E FANTASIA: A OBRA DE R. F. KUANG COMO ATO DE RESISTÊNCIA MEMORIAL SOBRE OS TRAUMAS DA CHINA MODERNA por Hellen Dhara Lins de Sousa Costa Silva e Elisabeth Mary de Carvalho Baptista

 

Em 2018, a escritora sino-americana R. F. Kuang publicou The Poppy War, primeiro volume de uma trilogia de fantasia histórica que, sob a aparência de um romance épico de magia e guerra, opera como um projeto deliberado de memória histórica. A obra ficcionaliza a Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945), o Massacre de Nanquim, as Guerras do Ópio e a Guerra Civil Chinesa, transpondo esses eventos para um universo fantástico que preserva, com notável fidelidade estrutural, a lógica política, espacial e humana desses episódios. Kuang dedicou o primeiro volume a Iris Chang, autora de The Rape of Nanking (1997), gesto que posiciona a trilogia não apenas como ficção, mas como continuidade de um trabalho memorial interrompido. O presente artigo se propõe a analisar a trilogia como um ato de resistência memorial, articulando as contribuições da Geografia com o conceito de memória, esquecimento e silêncio desenvolvido por Michael Pollak (1989), a fim de compreender de que modo a literatura fantástica pode operar como campo de disputa pela memória de traumas históricos que permanecem silenciados, especialmente no contexto ocidental.

 

O silêncio em torno dos crimes cometidos pelo Japão Imperial contra a população chinesa durante o século XX constitui um dos fenômenos mais complexos da memória histórica contemporânea. Diferentemente do Holocausto, cujos processos de memorialização, julgamento e reconhecimento institucional se consolidaram ao longo da segunda metade do século XX, os crimes da Segunda Guerra Sino-Japonesa ocupam um espaço profundamente ambíguo nas narrativas históricas globais. As estimativas historiográficas apontam entre duzentos mil e trezentos mil mortos civis e militares desarmados somente durante o Massacre de Nanquim, ocorrido entre dezembro de 1937 e janeiro de 1938, além de dezenas de milhares de casos de violência sexual sistemática (Spence, 1995; Chang, 1997). No entanto, esses eventos raramente figuram nos currículos escolares ocidentais, nos museus de história universal ou nas narrativas midiáticas que constroem o imaginário global sobre a Segunda Guerra Mundial.

 

É nesse contexto que o conceito de memória enquadrada, desenvolvido por Pollak (1989), oferece uma chave interpretativa fundamental. Para o sociólogo austriaco, a memória coletiva não é o registro neutro do passado, mas o produto de processos ativos de seleção, silenciamento e enquadramento que respondem às relações de poder vigentes em cada momento histórico. Pollak (1989) distingue entre as memórias dominantes, aquelas que circulam publicamente e gozam de legitimidade institucional, e as memórias subterrâneas, que sobrevivem de forma clandestina no interior dos grupos que as vivenciaram, aguardando condições favoráveis para emergir. O silêncio sobre os traumas da China moderna, portanto, não é ausência de memória: é o produto de uma disputa em que determinadas memórias foram sistematicamente suprimidas, tanto pelo contexto geopolítico da Guerra Fria quanto pelas próprias dinâmicas internas da política chinesa, que instrumentalizou seletivamente o passado colonial.

 

A contribuição da obra de Kuang reside precisamente em intervir nessa disputa. Ao renomear os eventos históricos, Nanquim torna-se Golyn Niis; as Guerras do Ópio tornam-se as Guerras da Papoula; o Japão imperial converte-se na Federação de Mugen; a China é ficcionalizada como o Império de Nikan, a autora não está apenas construindo um cenário de fantasia, mas operando sobre o que Pollak (1989, p. 9) denomina o trabalho de enquadramento da memória: a seleção consciente do que deve ser transmitido, como deve ser interpretado e para quem deve ser endereçado. A ficção atua, nesse sentido, como um dispositivo que contorna os filtros institucionais que regularmente censuram ou marginalizam certas memórias históricas.

 

A dimensão geográfica dessa operação memorial e central, distingue a análise que este artigo propõe de abordagens puramente literárias ou historiográficas. O worldbuilding de Kuang é geograficamente estruturado: o Império de Nikan reproduz a fragmentação territorial chinesa em províncias com características físicas, econômicas e culturais distintas; a Federação de Mugen reflete a superioridade naval do Japão imperial; Hesperia evoca as potências ocidentais que, no século XIX, impuseram a China os Tratados Desiguais e a abertura forçada ao comércio do ópio. Como demonstra Lacoste (2006), o conhecimento geográfico é constitutivamente político: a compreensão das posições relativas dos territórios, das rotas de acesso e das vulnerabilidades estratégicas é condição de possibilidade tanto para o exercício do poder quanto para sua resistência. Ao reinserir essa cartografia histórica no universo ficcional, Kuang produz um mapa da memória: uma representação espacial que torna visível a lógica do imperialismo e da dominação colonial que, como demonstra Said (1995), se perpetua tanto pelas armas quanto pelas narrativas culturais que os discursos oficiais produzem e naturalizam.

 

A própria autora confirma a intencionalidade dessa escolha ao declarar, em entrevista concedida a NPR em 2020, que escreveu o primeiro livro logo após ter lido sobre o Massacre de Nanquim, evento que desconhecia até a fase adulta, apesar de sua origem sino-americana. Essa confissão é metodologicamente reveladora: ela demonstra que o silêncio sobre os traumas da China moderna não é exclusivo ao mundo ocidental não-asiatico, mas atravessa as próprias diásporas asiáticas, atingindo inclusive indivíduos com vínculos familiares diretos com a região. A trilogia nasce, portanto, de uma experiência pessoal de descoberta tardia de uma memória que deveria ser partilhada, e é transformada em um projeto coletivo de transmissão dessa memória para um público amplo e majoritariamente jovem.

 

O conceito de esquecimento em Pollak (1989) é igualmente pertinente para compreender a estratégia narrativa de Kuang. Pollak distingue o esquecimento imposto, produto de processos ativos de silenciamento e censura, do esquecimento como resultado de disputas pela memória em que algumas versões do passado ganham e outras perdem. No caso dos traumas históricos da China, ambas as formas de esquecimento operam simultaneamente: o silêncio institucional, tanto japonês quanto ocidental, sobre os crimes de guerra; e a competição narrativa em que o Holocausto e os traumas da Europa ocuparam o centro simbólico da memória global do século XX, empurrando os sofrimentos asiaticos para suas margens. A ficção de Kuang intervém nessa competição ao oferecer um dispositivo narrativo capaz de mobilizar empatia, identificação e indignação em leitores que jamais chegaram às obras de Iris Chang ou às pesquisas de Rana Mitter (2013) sobre a China na Segunda Guerra Mundial.

 

A descrição do Massacre de Golyn Niis, que encerra o primeiro volume, constitui o momento mais politicamente arriscado e literariamente deliberado da trilogia. Kuang recusa o eufemismo e a suavização: as cenas de brutalidade extrema são narradas com uma precisão que reproduz os relatos documentados sobre as práticas perpetradas durante o Massacre de Nanquim. Essa escolha estética é, ao mesmo tempo, uma escolha ética e política. Hutcheon (1991) observa que a metaficção historiográfica problematiza a distinção entre história e ficção ao revelar que ambas são formas de narrativa sujeitas a escolhas, omissões e perspectivas. O que Kuang faz é radicalizar esse gesto: ao incorporar ao universo ficcional a brutalidade sem mediação, ela recusa a ficção o privilégio de ser apenas entretenimento e exige que o leitor confronte a realidade histórica que a narrativa veicula.

 

A reflexão que a protagonista Fang Runin desenvolve após testemunhar o massacre de Golyn Niis é emblemática da função memorial que Kuang atribui a sua obra. Ao questionar por que o massacre aconteceu, Rin articula, de forma condensada, os mecanismos que tornam possíveis os genocídios: a desumanização do outro, a lógica binária da guerra que elimina a possibilidade de meio-termo e a racionalização da violência de massa como necessidade estratégica. Esses mecanismos não são ficcionais: eles descrevem processos históricos documentados, tanto no contexto da Segunda Guerra Sino-Japonesa quanto em outros episódios de violência genocida do século XX. A dimensão ficcional é o que permite que essa reflexão alcance leitores que não estão dispostos a ler um livro de história, mas que, ao acompanhar a trajetória de Rin, chegam às mesmas perguntas que os historiadores formulam.

 

Do ponto de vista da disputa pela memória no tempo presente, a obra de Kuang adquire uma relevância política que transcende o campo literário. O Japão mantém, até o momento contemporâneo, uma postura ambígua em relação ao seu passado imperialista: reconhecimentos parciais e frequentemente revertidos por declarações de líderes políticos que relativizam ou negam a extensão dos crimes de guerra tem sido uma constante nas relações sino-japonesas nas últimas décadas. Esse processo de negação parcial é, nos termos de Pollak (1989), uma forma ativa de reconfiguração da memória coletiva em favor dos interesses do grupo dominante. A trilogia de Kuang, ao ser lida por milhões de jovens leitores ocidentais, introduz nesses circuitos globais de memória uma perspectiva que normalmente não têm acesso a eles: a perspectiva das vítimas, narrada por uma descendente de chineses, transformada em fantasia épica e distribuída pelos canais da indústria cultural globalizada.

 

O espaço ficcional de Nikan, com sua divisão provincial, suas fronteiras contestadas e suas hierarquias étnicas, pode ser lido, na perspectiva de Chartier (1990), como uma representação que visa dar visibilidade a experiências silenciadas. Para Chartier, as representações do mundo social são sempre determinadas pelos interesses dos grupos que as produzem e configuram um campo de disputa em que o que está em jogo são as imagens que os grupos constroem de si mesmos e dos outros. Ao construir Nikan como um espelho ficcional da China histórica, Kuang opera sobre esse campo de representações, questionando as narrativas que legitimam o imperialismo e invisibilizam suas vítimas. A memória subterrânea que Pollak (1989) descreve encontra, na ficção de Kuang, um canal de transmissão que a narrativa histórica convencional não oferece: a capacidade de mobilizar a identificação emocional como instrumento de consciência política.

 

Santos (1996) demonstra que o espaço geográfico é indissociável dos processos sociais que o produzem: ele não é apenas palco dos acontecimentos, mas agente ativo que condiciona e é condicionado pelas relações de poder. A trilogia de Kuang incorpora essa concepção de forma precisa: o espaço de Nikan não é um cenário neutro, mas uma materialização das contradições históricas que a narrativa explora. A pobreza estrutural da Província do Galo, de onde vem Rin, não é um detalhe biográfico: ela reproduz a marginalização histórica das regiões interiores da China em relação aos centros costeiros integrados ao comércio internacional. A superioridade naval de Mugen não é uma conivência de enredo: ela reproduz a assimetria tecnológica e militar que permitiu ao Japão imperial impor sua dominância sobre um território incomparavelmente maior.

 

A análise aqui proposta aponta para uma dimensão frequentemente negligenciada nos estudos sobre a obra de Kuang: sua função como instrumento de memória coletiva em disputa. A trilogia não se limita a entreter ou a informar sobre acontecimentos históricos pouco conhecidos no Ocidente. Ela opera sobre o que Pollak (1989) denomina as condições de emergência das memórias subterrâneas: aquelas que, após longos períodos de silêncio, encontram o momento e o canal adequados para vir à tona. A popularidade global da trilogia, seu alcance entre leitores jovens e sua capacidade de mobilizar debate público sobre temas como imperialismo, genocídio e responsabilidade histórica indicam que a ficção de Kuang constitui um evento de memória: um momento em que experiências que permaneciam confinadas aos grupos diretamente afetados conquistam circulação mais ampla e visibilidade global.

 

Nesse sentido, a trilogia pode ser compreendida como um ato literário de resistência ao silêncio histórico: um projeto que utiliza os recursos da fantasia épica, do worldbuilding geograficamente estruturado e da identificação emocional para inserir, nos circuitos globais de memória, uma perspectiva que os mecanismos institucionais de esquecimento tendem a excluir. A contribuição da Geografia a essa leitura reside em evidenciar que o espaço ficcional não é apenas um cenário, mas um campo de memória: uma representação que materializa, em sua própria estrutura territorial, as relações de poder, dominação e resistência que a narrativa histórica convencional frequentemente abstrai. Ler a trilogia de Kuang geograficamente é, portanto, ler os traumas da China moderna a partir de uma perspectiva que os situa no espaço e no tempo, restituindo-lhes a concretude que o silêncio histórico se esforçou por apagar.

 

Referências

Hellen Dhara Lins de Sousa Costa Silva é graduanda em Licenciatura Plena em Geografia pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI), Campus Poeta Torquato Neto, Teresina (PI). Desenvolve pesquisa na interseção entre Geografia, Literatura e História, com ênfase na análise espacial de narrativas literárias e na representação geográfica em obras de fantasia histórica, em especial a trilogia "A Guerra da Papoula", de R. F. Kuang.

 

Elisabeth Mary de Carvalho Baptista é Doutora em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC, 2010), com Pós-doutorado em Geografia pela Universidade Federal do Piauí (UFPI, 2019). Professora Associada II em Dedicação Exclusiva do Curso de Licenciatura Plena em Geografia da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), Campus Poeta Torquato Neto, e coordenadora do Núcleo de Estudos sobre a Zona Costeira do Estado do Piauí (NEZCPI). Membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí (IHGPI). Atua nas áreas de geografia física, geomorfologia costeira, zona costeira, geoconservação, geoturismo, educação ambiental, geografia e literatura e geografia cultural.

 

CHANG, Iris. The Rape of Nanking: The Forgotten Holocaust of World War II. New York: Basic Books, 1997.

 

CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990.

 

HARRIS, Sheldon H. Factories of Death: Japanese Biological Warfare, 1932-45, and the American Cover-Up. New York: Routledge, 2002.

 

HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria e ficção. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

 

KUANG, R. F. A Guerra da Papoula. Tradução de Fernanda Abreu. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022.

 

KUANG, R. F. A República do Dragão. Tradução de Fernanda Abreu. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2023a.

 

KUANG, R. F. A Deusa em Chamas. Tradução de Fernanda Abreu. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2023b.

 

LACOSTE, Yves. A geografia: isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. Campinas: Papirus, 2006.

 

MITTER, Rana. China War with Japan, 1937-1945: The Struggle for Survival. London: Allen Lane, 2013.

 

NPR. R. F. Kuang discusses The Poppy War. National Public Radio, 2020. Disponível em: https://www.npr.org. Acesso em: jun. 2026.

 

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.

 

SAID, Edward W. Cultura e imperialismo. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.

 

SPENCE, Jonathan D. Em busca da China moderna: quatro séculos de história. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

7 comentários:

  1. Parabéns pelo excelente texto! Nossos textos dialogam em muitos aspectos e gostaria de trocar mais figurinhas assim que possível.

    Como vocês entendem o ato de narrar da autora de acontecimentos que ela não viveu, e de certo modo obteve conhecimento por meio da educação dos pais, já que ela foi cedo para os Estados Unidos. A formação nos Estados Unidos tem algum impacto sobre a forma com que a autora narra sobre a China ou sobre os contextos apresentados na obra?

    Outra pergunta que faço é: a obra ajuda em algum sentido ajuda a pensar na rememoração ou ressignificação dos espaços narrados? no modo de enxergar o local não apenas como o ato da violência, mas também o local como lugar de resistência ao perpetrador?

    Por José Gabriel Vieira Junior

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada pelo carinho e pelo interesse no texto, fico feliz que estejam dialogando e adoraria trocar mais ideias.

      Sobre sua primeira pergunta, vale um ajuste no dado biográfico. Kuang não teve acesso a esse trauma histórico exatamente pela educação dos pais. Ela nasceu em Guangzhou e a família se mudou para os Estados Unidos quando ela tinha 4 anos, crescendo em Dallas. O que ela relata em entrevista à revista Locus é que o cenário de fantasia funcionou como forma de processar tanto um trauma pessoal e familiar quanto histórias fragmentadas que ouvia dos avós sobre as experiências deles na Segunda Guerra na China. É bem próximo do que Pollak chama de memória subterrânea, transmitida de modo fragmentado e não sistemático. E como ela mesma conta na entrevista à NPR que já citamos no artigo, foi só na vida adulta que conheceu o Massacre de Nanquim.
      O que de fato lhe dá ferramentas para narrar não é tanto a herança familiar direta, mas uma formação acadêmica ocidental rigorosa e posterior à escrita do primeiro livro. Ela escreveu A Guerra da Papoula ainda graduanda, durante um ano sabático na China, e só depois cursou mestrados em Estudos Chineses em Cambridge, com dissertação sobre literatura de propaganda de autores do Nordeste chinês durante a Guerra Sino Japonesa, e em Oxford, seguindo hoje para doutorado em Yale.
      Isso reforça, a meu ver, a leitura via Pollak em vez de contradizê-la, pois há uma dupla mediação em jogo. A diáspora medeia o acesso fragmentado à memória familiar e a formação acadêmica ocidental medeia sua transformação em narrativa coerente e transmissível. A formação nos Estados Unidos não afasta Kuang da China narrada, ela é o instrumento que permite reconstruir, com aparato historiográfico, o que a memória oral por si só não entregava organizado.

      Sobre sua segunda pergunta, acredito que sim, e é um ponto que vale a pena desenvolver mais no nosso próprio texto. O espaço em Nikan não é só palco da violência. A Província do Galo, pobre e periférica, é também de onde nasce a força que desestabiliza o poder central. Isso dialoga com Santos, para quem o espaço é agente e não cenário passivo. Ao tornar o lugar do trauma também lugar de agência política, e não apenas de vitimização, a obra evita reduzir a vítima a objeto passivo da violência, o que conversa também com Chartier, que já mobilizamos no texto, já que toda representação é campo de disputa e nunca só registro. Nesse sentido, a ficção de Kuang ajuda a pensar o espaço não apenas como cicatriz, mas como território de reconstrução simbólica e de resistência.

      Deixo aqui o link da entrevista que mencionei para futuras consultas: https://locusmag.com/feature/r-f-kuang-distortions/

      Por Hellen Dhara Lins de Sousa Costa Silva

      Excluir

  2. Prezadas, boa tarde. Primeiro, gostaria de parabenizá-las pelo texto. Para mim, foi uma excelente leitura. A busca por compreender memórias de um momento traumático, como as que servem de base do livro de R.F Kuang, ao meu ver, é favorecida pela interdisciplinaridade. Dessa forma, vocês pensam ou já pensaram em estabelecer um maior diálogo com trabalhos de história que tratam de memórias traumáticas? Ou, no caso do objeto estudados por vocês, esse não seria um caminho a ser seguido?

    Cordialmente,
    Sirlene Pereira da Silva.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Prezada Sirlene, boa noite!
      Obrigada pela leitura e pela pergunta tão pertinente.

      Sim, esse diálogo com a historiografia sobre memórias traumáticas é um caminho que enxergamos como essencial. Esse texto foi inspirado na minha monografia e nela esse diálogo já aparece de forma mais aprofundada: trabalho a interlocução entre Geografia e Literatura tendo a História e a representação, conforme Chartier, como fio condutor, justamente porque o objeto exige isso. Os acontecimentos históricos retratados por Kuang (como por exemplo, o Massacre de Nanquim, as Guerras do Ópio, a Segunda Guerra Sino-Japonesa, entre outros eventos) são analisados em diálogo com historiadores como Spence, Mitter e Chang, o que nos permitiu compreender de que forma a autora ficcionaliza esses eventos e quais escolhas narrativas ela faz ao fazê-lo.
      No artigo do simpósio, essa dimensão histórica ficou mais condensada em função do espaço, mas ela está na base de todo o argumento. Então concordo com você! A interdisciplinaridade não é apenas um caminho possível nesse objeto, ela é praticamente inevitável.

      Atenciosamente,
      Hellen Dhara Lins de Sousa Costa Silva

      Excluir
    2. Obrigada pela resposta, Hellen. Espero poder ler mais do trabalho de vocês no futuro.

      Cordialmente,
      Sirlene Pereira da Silva.

      Excluir
  3. CAMILLY EVELYN OLIVEIRA MACIEL8 de julho de 2026 às 20:58

    Que texto incrível! Meus parabéns, pelo seu trabalho! Seu texto me motivou a ler o quanto antes a obra de Kuang, principalmente porque trabalho com o caso das “mulheres de conforto” e sei que o livro também traz cenas baseadas no caso do sistema de conforto.

    Pollak argumenta que as memórias subterrâneas emergem quando encontram condições sociais e políticas favoráveis. Você entende que o sucesso internacional da trilogia revela uma mudança nessas condições ou foi a própria obra que contribuiu para produzi-las?

    Camilly Evelyn Oliveira Maciel

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Prezada Camilly, boa noite!

      Obrigada pelas palavras e que conexão interessante com sua pesquisa sobre as mulheres de conforto, um caso que, como você bem sabe, exemplifica de forma brutal exatamente esse silêncio que discutimos no texto.

      Sua pergunta é das mais instigantes, e honestamente acredito que a resposta seja: os dois movimentos acontecem simultaneamente. A trilogia de Kuang emerge num contexto em que já havia certas condições se formando, como o crescimento dos estudos asiáticos no mundo anglófono, a maior visibilidade de vozes da diáspora asiática, e um movimento mais amplo de questionamento das narrativas históricas eurocêntricas. No Brasil, não é por acaso que a obra chegou exatamente num momento de crescimento expressivo do interesse por literatura asiática e por autores dessa origem, com um público leitor cada vez mais curioso e receptivo a essas narrativas. Esse contexto favorável foi determinante para que a trilogia encontrasse aqui o alcance que encontrou.
      Mas ao mesmo tempo, a obra em si contribuiu para ampliar e acelerar essas condições. Quando leitores que jamais chegariam a Chang ou Mitter passam a fazer perguntas sobre o Massacre de Nanquim por causa de um romance de fantasia, isso não é apenas reflexo de uma mudança, é produção de uma nova condição de possibilidade para que essas memórias subterrâneas circulem ainda mais amplamente.
      O próprio Pollak nos dá essa abertura ao falar que as memórias subterrâneas aguardam condições favoráveis, mas ele não diz que essas condições surgem sozinhas. Às vezes, uma obra é ela mesma parte do que cria essas condições.

      E já que você trabalha com as mulheres de conforto, aproveito para recomendar fortemente o livro Herdeiras do Mar de Mary Lynn Bracht, é uma obra que trata exatamente dessa memória de forma literária e muito sensível, e que certamente dialogará bem com sua pesquisa.
      Agradeço novamente as considerações e elogios, fico feliz em saber que, de alguma forma, consegui cativar alguém a ler os livros da Kuang.

      Atenciosamente,
      Hellen Dhara Lins de Sousa Costa Silva

      Excluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.