MEMÓRIA E SILÊNCIO: REFLEXÕES SOBRE A ATUAÇÃO DO JAPÃO NA CHINA DURANTE A SEGUNDA GUERRA SINO-JAPONESA (1937-1945) por José Gabriel Vieira Junior e Sirlene Pereira da Silva


É comum no imaginário popular sobre a segunda guerra mundial pensarmos no Japão somente como vítima. Nossa memória imediata nos leva a dois episódios importantes envolvendo os japoneses: o ataque à base naval de Pearl Harbor, em 1942, e a resposta estadunidense, momentos mais tarde, com o lançamento das bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki em 1945. É evidente que ambos os eventos são traumáticos. Entretanto, são mais profundos do que esta percepção imediata em vista das ações imperialistas do Japão no extremo oriente. Seus interesses regionais são perpassados por episódios de violência que merecem atenção e problematização. Aqui, focaremos em sua relação com a China. Assim, este trabalho tem como objetivo pensar as disputas de memória em torno da segunda guerra sino-japonesa. 

 

Diante dos limites de espaço deste artigo, buscamos refletir sobre a atuação japonesa à luz das contribuições propostas pelo sociólogo Michael Pollak (1989) sobre a memória e o silêncio. A intenção foi  compreender como essa memória traumática da guerra é mobilizada por ambos os países, na relação de rememoração e silêncio. Na primeira seção, tratamos do contexto que culminou na segunda guerra sino-japonesa, bem como ela terminou. Na segunda seção do texto, utilizando-se de notícias jornalísticas colocamos em contraste como os países valem-se dessa memória do conflito em seu contexto sócio-político, buscando problematizar as fronteiras entre memória e o silêncio. Por meio deste trabalho pretendemos contribuir com a discussão sobre as diferentes disputas de memórias envolvendo momentos históricos que muitas vezes não são problematizados com frequência, mas que carregam grande significado para a sociedade vítima do trauma, bem como para os perpetradores das violências.

 

A Segunda Guerra Sino-japonesa (1937-1945)

A Segunda Guerra Sino-japonesa teve início no ano de 1937 e, de acordo com o historiador Jean Chesneaux (1976), contou com apoio da maior parte da opinião japonesa (Chesneaux, 1976, p.52). O conflito se findou em 1945, com a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial. Chesneaux aponta que a guerra entre a China e o Japão marcou o início do conflito no Oriente. O enfrentamento se uniu ao conflito mundial em 1941, após o ataque do Japão à base militar estadunidense de Pearl Harbor no Havaí (Chesneaux, 1976,p.93).

 

De acordo com Kenneth C. Henshall (2004) a Guerra do pacífico teve início com o ataque dos japoneses à Grã-Bretanha na Malásia, pouco tempo antes do ataque aos estadunidenses (Henshall, 2004, p.172). A decisão de atacar os Estados Unidos e a Grã Bretanha se deveu a necessidade de recursos para manter a máquina de guerra japonesa. O ataque aos Estados Unidos foi motivado devido a limitação de exportações para o país e o congelamento de bens de japoneses nos EUA, especialmente o petróleo (Henshall, 2004, p. 169-172).

 

Antes do conflito entre China e Japão ter início na segunda metade da década de 1930, o Japão já possuía interesses no território. Henshall (2004) aponta que em 1931 ocorreu o Incidente da Manchúria, quando o Exército de Kwantung repetiu uma tática utilizada em 1921 que consistia em atacar e culpar os chineses para provocar um conflito. Dessa vez, ao explodir uma estrada de ferro nos arredores de Mukden, o grupo de oficiais que realizou a operação teve apoio das figuras do comando militar. O fato resultou  na ocupação japonesa na Manchúria e originou a República de Manchukuo, em 1932. Em 1934, a república foi renomeada como Império de Manchukuo tendo como líder Puyi, o último imperador da China (Henshall, 2004, p. 158-159). Manchukuo era um estado títere do Japão (Hobsbawm, 1995, p.147).

 

Conforme Henshall (2004), a Segunda Guerra sino-japonesa teve início em julho de 1937, após um inconveniente ocorrido na ponte Marco Polo. Tropas japonesas, que estavam perto de Pequim de forma legal, alegaram que foram vítimas de disparos dos chineses. Fato que o autor aponta como sendo possível de ter sido provocado pelos japoneses. Após o ocorrido houve um agravamento no conflito. Nenhum dos lados tentou recuar, mesmo que o início tenha se dado de forma acidental (Henshall, 2004, p. 167).

 

Não demorou para que as tropas japonesas chegassem à capital chinesa, Nanquim, que foi palco de grandes violências. De acordo com Henshall (2004), atos de brutalidade ocorridos na cidade foram filmados e fotografados. Contudo, na época que seu texto foi escrito, o Massacre de Nanquim era relegado e até mesmo negado por uma parcela de japoneses. O autor expõe que o mesmo poderia ser aplicado ao Japão ser o agressor (Henshall, 2004, p. 168). O massacre teve início no dia 13 de dezembro do primeiro ano do conflito, deixando um grande número de chineses mortos e mulheres estupradas.

 

Chesneaux (1975) aponta que nos anos de 1937 e 1938 o exército japonês avançou rapidamente sobre o território Chinês, tomando pontos como a bacia média e inferior do Yangzi, região onde ocorrem as quedas das cidades de Nanquim e de Hankou, e em torno de Cantão. Nesses territórios, as forças japonesas se assentaram. As tropas nacionalistas chinesas se recolheram em Xunquim, se mantendo em sua maioria em províncias do sul e do oeste, excetuando a costa. Os chineses formaram guerrilhas que se organizaram nas regiões de montanhas, na retaguarda das forças japonesas. Essas forças eram formadas majoritariamente pelos comunistas chineses. Até o ano de 1941 as forças chineses buscaram resistir à ação dos japoneses (Chesneaux, 1976, p.93-94).

 

Chesneaux (1976) aponta que o Japão estava ligado à Alemanha e à Itália pelo Pacto Anti-Komintern de 1936 e por acordos militares tripartidos de 1940. O apoio militar e material dos países ocidentais era limitado e o “muniquismo do Extremo Oriente” se mantinha, atingindo a Inglaterra e os Estados Unidos. A França vichista chegou a conceder ao Japão, em 1940, a instalação de bases aéreas na Indochina. A China, que resistiu à ocupação, inicialmente recebeu ajuda da União Soviética mediante a disponibilização de pistas da Ásia Central. Contudo, as pistas não dispunham de grande qualidade material. Em 1939, as forças soviéticas realizaram operações militares em território mongol. A União Soviética não manteve a ajuda à China devido ao crescimento da ameaça militar da Alemanha, que a pressionou a assinar um acordo de neutralidade com o Japão. A China ficou isolada até 1942 (Chesneaux, 1976, p.94).

 

Em 1941, com o ataque aos britânicos na Malásia e a base do Havaí, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha declararam guerra ao Japão. Apesar da expansão do conflito, Chesneaux (1976) aponta que o país manteve a sua supremacia no extremo oriente. Na China, ainda ocupava locais importantes e desenvolvidos  (Chesneaux, 1976, p.94).

 

A partir de 1942, a China passou a receber ajuda financeira e militar dos Estados Unidos. Contudo, houve uma rusga entre os dois governos quando os estadunidenses descobriram corrupção e mal uso da ajuda por parte do Kuomintang (Partido Nacionalista). Os Estados Unidos passaram a fornecer armas aos comunistas, fato que desagradou Chiang Kai-Shek, líder do Kuomintang. O acordo entre os estadunidenses e os comunistas foi revogado em 1944, devido ao desagrado de  Kai-Shek (Chesneaux, 1976, p.95). No momento em que a guerra sino-japonesa ocorreu as principais forças políticas na China eram o Kuomintang e Partido Comunista Chinês, que passaram suas desavenças para um segundo plano diante da invasão ao território.

 

As conferências de Yalta, em 1944, e de Potsdam, em 1945, definiram os objetivos dos Aliados na Segunda Guerra Mundial na Ásia oriental. Em 14 de agosto do mesmo ano foi firmado o tratado sino-soviético, que contribuiu para fortalecer os aliados na região. A máquina de guerra japonesa se desfez com a combinação de forças dos aliados e guerrilhas populares no Vietnã, Malásia, Birmânia e, principalmente, na China. Além disso, da ação dos soviéticos na Manchúria. Em agosto de 1945, após dois ataques a bombas atômicas, o Japão se rendeu (Chesneaux, 1976, p.95). A rendição do Japão marcou o fim da Guerra Sino-japonesa, assim como o da Segunda Guerra Mundial no Oriente.

 

Ressentimento e silêncio no tempo presente

Em 2025 a China realizou, no dia 13 de dezembro, o 12° Dia Nacional em Memória das Vítimas do Massacre de Nanquim. A cerimônia contou com a presença de Shi Taifeng, político do Comitê Central do Partido Comunista Chinês e chefe do Departamento de Organização do Comitê Central do Partido, e 8.000 representantes de diferentes círculos sociais. Em seu discurso, Taifeng expôs a intenção da cerimônia em lembrar as vítimas do Massacre de Nanquim, dos chineses que morreram devido a invasão dos japoneses, dos mártires e heróis nacionais que lutaram na Guerra de Resistência do Povo Chinês mediante agressão japonesa e dos amigos de outros países que contribuíram na luta do povo chinês contra os invasores japoneses.

 

As cerimônias memoriais aconteceram nas províncias de Hubei e Jiangxi e nas regiões administrativas de Hong Kong e Macau. A cerimônia memorial foi instituída no dia 27 de fevereiro de 2014 pela Assembleia Popular Nacional da China que determinou o dia 13 de dezembro como o Dia Nacional em Memória das Vítimas do Massacre de Nanquim (CGTN, 2025). Apesar do Japão ter emitido um pedido de desculpas à China, os chineses não consideram o ato como sincero (BBC, 2025).

 

A cerimônia ocorreu em meio ao crescimento das tensões geopolíticas entre a China e o Japão sobre Taiwan. Tanto a cerimônia quanto às tensões remetem a um passado que não passou para os dois países e é rememorado de forma distinta por ambos, a saber a Segunda Guerra sino-japonesa e a Segunda Guerra Mundial. O conflito regional entre China e Japão foi o palco do Massacre de Nanquim, onde o estado chines defende que houve 300.000 mortos. Ambos os conflitos envolvem essas nações em disputas de memória, onde cada uma ocupa uma posição diferente em sua própria sociedade. A China, ressentida pelas mortes perpetradas pelos japoneses em seu território e o Japão, como vítima das bombas atômicas ao fim do conflito mundial.

 

O teatro de guerra do pacífico, de uma forma geral em nossa sociedade ocidental, é menos falado. E dentro dele, as ações imperialistas do Japão em países da região. Em nossa reflexão, tratamos de um conflito regional envolvido por um conflito mundial que foi palco de grandes violências, como as perpetradas pela Alemanha nazista. Nesse amplo cenário de barbáries, consideramos importante olhar para momentos pouco discutidos a fim de compreender o seu desenvolvimento e suas reverberações.

 

Dessa forma, tomamos que a história sobre a Segunda Guerra Sino-japonesa é um momento possível de observar tais reverberações, visto que a sua memória é perpassada pelo ressentimento do povo chinês e silêncio do povo japonês em relação às suas ações como perpetradores. Passados oitenta e um anos do fim do conflito, ainda é possível observar as disputas de memórias em seu entorno no tempo presente. Conforme Michael Pollak (1989), os conflitos e disputas são momentos de interesses para pesquisas, pois evidencia as batalhas de memória (Pollak, 1989, p.4). Nesse caso, observamos a sua permanência como rememoração de um lado e silêncio do outro.

 

A partir de Pollak entendemos que as memórias de determinado grupo podem ser aprisionadas em determinados contextos e libertas em outros. Desse movimento, emerge o ressentimento que constrói o palco das disputas de memória. Tal disputa pode ser observada entre a China e Japão no tempo presente sobre a Segunda Guerra sino-japonesa, onde de um lado temos uma nação que enquadra e desenvolve políticas de memória em relação ao  ocorrido enquanto a outra se refugia no silêncio sobre o assunto e desenvolve a sua própria memória de vítima em outro conflito, a saber na cerimônia de oitenta anos do ataque a bomba atômica em Hiroshima em 2025 (BBC, 2025).

 

O silêncio, conforme Pollak (1989), pode se desenvolver pelo receio de não encontrar uma escuta ou mesmo pelo receio da culpa que a sociedade que recebe essa memória irá projetar naqueles que as compartilham (Pollak, 1989, p.6). Contudo, é importante também reconhecer sua intencionalidade em vista de uma recusa de um Estado em se responsabilizar ao se tornar perpetrador de violências tanto internas quanto externas.

 

A memória da guerra, ocupa assim, locais diferentes nas sociedades chinesa e japonesa, mas as tomamos como memórias marginais de uma forma geral nas discussões sobre  história da Segunda Guerra Mundial. Dessa forma, concordamos com Pollak (1989) ao apontar que: “Distinguir entre conjunturas favoráveis ou desfavoráveis às memórias marginalizadas é de saída reconhecer a que ponto o presente colore o passado. Conforme as circunstâncias, ocorre a emergência de certas lembranças, a ênfase é dada a um ou outro aspecto. Sobretudo a lembrança de guerras ou de grandes convulsões internas remete sempre ao presente, deformando e reinterpretando o passado. Assim também, há uma permanente interação entre o que é vivido e o  aprendido, o vivido e o transmitido. E essas constatações se aplicam a toda forma de memória, individual e coletivo, familiar, nacional e de pequenos grupos [...] (Pollak, 1989, p.8-9).

 

A relação entre as conjunturas apontadas por Pollak, assim como as formas que o presente afeta o passado, nos leva a pensar em aspectos como os limites entre ser vítima e perpetrador de violências. No caso do conflito entre a China e Japão observamos que as suas fronteiras são porosas e ligadas a memória compartilhada por uma sociedade sendo esta sempre sujeita a disputas, silêncios e esquecimentos. A interação entre o que foi vivido e o que é transmitido para as futuras gerações em relação às violências praticadas evidencia um limite que podemos alcançar, mas não é um encerramento da questão.  É necessário, nessa relação, considerar o quanto o político colore o presente e esse passado.

 

Referências

José Gabriel Vieira Junior é graduado em História pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Atualmente é mestrando em História Social das Relações Políticas pela mesma instituição, com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Espírito Santo (FAPES), por meio do Edital n° 19/2025 - PROCAP 2026. Também é pesquisador vinculado ao Laboratório de Estudos em História do Tempo Presente (LABTEMPO-UFES), e ao grupo de pesquisa Dimensões do Regime Vargas e seus Desdobramentos (UERJ/CNPq). O presente trabalho foi realizado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), por meio do Edital n° 19/2025 - PROCAP 2026. E-mail: bielcampooss23@gmail.com

 

Sirlene Pereira da Silva é graduada em História pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e mestranda do programa de pós-graduação em História Social das Relações Políticas na mesma instituição. É pesquisadora vinculada ao Laboratório de Estudos em História do Tempo Presente (LABTEMPO-UFES) e bolsista CAPES. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001. E-mail: sirlenesilvaft0@gmail.com.

 

CHESNEAUX, Jean. A Ásia oriental nos séculos XIX e XX. Tradução: Antonio Rangel Bandeira. São Paulo: Livraria pioneira Editora, 1976.

 

HENSHALL, Kenneth. Os excessos da ambição: A guerra do pacífico e as suas consequências . In: História do Japão. 2ª ed. Lisboa: Edições 70, 2004. p.151-189.

 

HOBSBAWM, Eric. Contra o inimigo comum. In: A Era dos Extremos: O breve século XX 1914-1991. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.144-177.

 

POLLAK, Michael. Memória , Esquecimento, Silêncio. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 2. n. 3, 1989, p.3-15.

 

https://www.bbc.com/portuguese/articles/c39d9ldxvkzo

https://www.bbc.com/news/videos/cwye6k0xn7zo

https://portuguese.cgtn.com/2025/12/13/ARTI1765593907704886

 

12 comentários:

  1. Que texto rico! Considerando que o artigo utiliza a perspectiva de Michael Pollak para interpretar as disputas entre memória e silêncio, como os autores avaliam os limites dessa abordagem para explicar um fenômeno que também envolve estratégias estatais de política externa, nacionalismo e diplomacia da memória? A incorporação de outros referenciais teóricos, como Pierre Nora, Aleida Assmann ou Jeffrey Olick, poderia ampliar ou modificar as conclusões apresentadas? Hellen Dhara Lins de Sousa Costa Silva

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    1. Prezada Hellen, boa noite. Obrigada por sua pergunta.
      Realmente, os conceitos mobilizados por Pollak sobre a memória não dão conta sozinhos de entender essa questão, que é complexa. Isso porque estamos tratando de duas sociedades que lidam de formas diferentes com essa memória. Compreender as estratégias estatais de política externa, o nacionalismo e a diplomacia da memória exigem uma ampliação do arcabouço teórico e o aporte em outras disciplinas como, por exemplo, das Relações Internacionais. A análise que fizemos é breve devido ao espaço e ao recorte trabalhado, mas acreditamos ser sim possível a ampliação a partir de autores como Pierre Nora. Apesar de não conhecermos Aleida Assmann e Jeffrey Olick, observamos que trabalham com a memória e, por isso, acreditamos que possam sim contribuir com o aprofundamento teórico da questão analisada. Agradecemos a sugestão dos autores.

      Cordialmente,
      Sirlene Pereira da Silva e José Gabriel Vieira Junior.

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  2. Vocês utilizam o Pollak, mas fiquei pensando no Pierre Nora e o conceito de Lugares de Memória. Partindo do conceito do Nora:

    Na visão de vocês, a obra de Kuang pode ser entendida como um meio de difusão da memória ou ela própria se tornaria um lugar de memória, justamente porque preserva e reatualiza uma experiência histórica diante das tentativas de esquecimento promovidas pelos perpetradores e das disputas em torno da memória coletiva?

    José Gabriel Vieira Junior

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    1. Fico feliz com a pergunta, ela puxa um ponto que nosso artigo não desenvolve, já que trabalhamos com Pollak e não com Nora, mas que acho pertinente pensar agora, provocada pela sua colocação.

      Na minha visão, a obra de Kuang pode ser lida como um lugar de memória no sentido que Nora propõe, e não apenas como um meio de difusão. Nora distingue os meios de memória, que seriam os ambientes vividos onde a memória circula de forma espontânea dentro de um grupo, dos lugares de memória, que surgem justamente quando esse meio vivido se rompe ou desaparece, exigindo uma construção simbólica deliberada para que a memória não se perca. Um lugar de memória nasce da ausência de espontaneidade, ele precisa ser fabricado, reativado, comemorado, porque a experiência direta já não existe mais para sustentá-lo sozinha.
      Isso se aplica bem ao caso de Kuang. Ela mesma relata, em entrevista, que teve acesso fragmentado e tardio a essa memória, através de histórias soltas dos avós e não de uma transmissão familiar organizada. Ou seja, o meio vivido de memória, aquele que sustentaria naturalmente a lembrança dentro da família e da comunidade chinesa diaspórica, já estava rompido ou enfraquecido quando ela escreveu. A trilogia nasce exatamente desse vazio, e é isso que a aproxima do conceito de Nora. Ela não reproduz uma memória viva que já circulava, ela constrói simbolicamente um substituto para essa memória, com nomes próprios ficcionais que funcionam como marcos narrativos, Golyn Niis para Nanquim, a Federação de Mugen para o Japão imperial, o que é próximo do gesto que Nora descreve como constitutivo de um lugar de memória, a criação de um ponto simbólico que passa a concentrar e reter aquilo que não tem mais sustentação espontânea.
      Acho interessante também pensar na diferença em relação ao lugar de memória que vocês descrevem no texto de vocês, o Dia Nacional em Memória das Vítimas do Massacre de Nanquim. Esse é um lugar de memória no sentido mais clássico de Nora, produzido pelo Estado, ritualizado, com data fixa, funcionando dentro de uma política de memória nacional. Já a trilogia de Kuang seria um lugar de memória de outra natureza, não institucional, não estatal, produzido por uma autora individual e inserido num mercado editorial global. Gosto dessa comparação porque mostra dois lugares de memória distintos disputando o mesmo silêncio, um oficial e nacional, outro literário e transnacional, convivendo com o esquecimento e a negação do lado japonês que vocês descrevem no texto de vocês.
      Talvez a chave, nessa leitura que estou propondo agora, esteja em pensar que a obra funciona primeiro como veículo, ela leva a informação histórica a um público que nunca teria acesso a ela de outra forma, mas o efeito acumulado desse veículo, sua repetição, sua permanência e releitura constante por comunidades de leitores, acaba produzindo justamente aquilo que caracteriza um lugar de memória segundo Nora, um ponto fixo e simbólico ao qual as pessoas retornam para reatualizar uma memória que não têm mais como viver diretamente. Nesse sentido, defendo que ela nasce como veículo e se consolida como lugar.

      Por Hellen Dhara Lins de Sousa Costa Silva

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  3. Olá, Gabriel e Sirlene. Primeiramente, gostaria de parabenizar ambos pelo excelente texto. Sem dúvidas, uma contribuição importante sobre as disputas de memória que ocorrem entre China e Japão. Minha dúvida surge a partir do conceito mobilizado por vocês neste texto. Na percepção de vocês, em qual medida a indústria cultural japonesa e chinesa pode contribuir para o silêncio e o esquecimento dessas memórias, bem como para o resgate e o debate destas memórias no seio da opinião pública internacional sobre esses traumas de um passado que não passa?

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    1. Prezado Edvan, boa noite. Obrigada por sua pergunta.
      Em nossa percepção acreditamos que na indústria cultural japonesa e chinesa a contribuição para o esquecimento e para o silêncio ocorrem de maneiras diferentes. No caso da China, observamos que é uma nação que busca recordar dessa memória através de processos rememorativos. No que se refere à indústria cultural, a continuação e aprofundamento desses processos não contribuíram com o silêncio ou esquecimento, mas sim com o enquadramento de uma memória nacional. O silêncio, nesse caso, se daria devido ao enquadramento dessa memória que seria compartilhada pela nação. No caso do Japão, a indústria cultural do pós-guerra buscou atuar a fim de promover o esquecimento dos crimes cometidos durante o conflito. Nesse momento, a partir de um processo de ocidentalização e a criação de uma nova imagem do Japão, a indústria cultural tornou-se um grande alicerce do soft power japonês, atuando para produzir uma imagem para o mundo de um país pacifico e tecnológico. Para o sucesso desse empreendimento, esquecer o passado imperialista e de aliados aos nazistas era um aspecto fundamental. Assim, as ações criminosas do Japão na China não faziam parte desta política memorial e, sendo assim, é praticado o silêncio a respeito.

      Cordialmente,
      Sirlene Pereira da Silva e José Gabriel Vieira Junior.

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  4. Olá!

    Texto deveras interessante.

    O conceito de "memória marginalizada", utilizado no texto, pode ser aplicado à forma como a Segunda Guerra Sino-Japonesa aparece nos currículos escolares brasileiros?

    Obrigado.

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    1. Prezado Wilian, boa noite. Obrigada por sua pergunta.

      Tomamos que sim, pois esse tópico não aparece nos currículos escolares brasileiros. Há um enfoque no que podemos chamar de “velha histórica política”, no qual apenas os grandes eventos referentes à Segunda Guerra Mundial são ensinados, sobretudo a partir da perspectiva ocidental.

      Cordialmente,
      Sirlene Pereira da Silva e José Gabriel Vieira Junior.

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  5. José Gabriel, parabéns pelo texto e pela pesquisa! Gostei muito da aplicação dos conceitos trabalhados por Pollak e Nora sobre os silêncios de memórias individuais ou coletivas marginalizadas.

    Particularmente também utilizo os autores e pesquiso o mesmo tema, com ênfase em fontes sobre as vítimas do Sistema de Conforto da época. É sempre engrandecedor conhecer outros pesquisadores que se dediquem a esse período com ênfase nas memórias.

    Minha pergunta é sobre essa marginalização das memórias mencionada no texto. Em sua perspectiva os limites que as vítimas encontraram no coletivo para enunciar as experiências vividas sobre o período da Guerra estão relacionadas de alguma forma com as políticas de Estado dos países de origem das pessoas afetadas? Como o distanciamento das responsabilidades do Japão aparece como um dificultador deste processo?

    Sucesso na pesquisa!

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    1. Prezada Isabella, boa noite! Obrigada por sua pergunta.

      Os limites que as vítimas encontram é não ter ninguém para compartilhar essas memórias. O silêncio pode ocorrer de forma voluntária, mas também de maneira involuntária. Para tomar consciência de um ocorrido histórico, a partir das memórias que os permeiam, é preciso que o grupo que porta essa memória as compartilhe. Esse acontecimento vai depender de diferentes fatores e entre eles da política de Estado. Conforme discutimos, no caso da China, observamos um Estado que busca desenvolver políticas de memória ao passo que, no caso do Japão, temos um Estado que se refugia no silêncio e desenvolve a sua própria memória de vítima. Destacamos também que dentro das políticas de memória do trauma pode ocorrer um processo de homogeneização do trauma. Nesse desenvolvimento, as memórias individuais não são consideradas, e em vista disso há um tipo de memória traumática comum, como se todos os indivíduos tivessem passado pelo trauma da mesma forma. Esse processo não considera as formas distintas que as violências atingiram a cada um em sua historicidade particular.

      Cordialmente,
      Sirlene Pereira da Silva e José Gabriel Vieira Junior.

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  6. Ótimo artigo! Parabéns, José Gabriel e Sirlene.

    Conforme discutido no artigo, a partir de Pollak, os conflitos de interesse constituem contextos propícios para o surgimento de disputas de memória. Nesse sentido, considerando a Segunda Guerra Sino-Japonesa e as diferentes memórias construídas sobre esse conflito, seria possível compreender que, no caso japonês, o silenciamento sobre a guerra pode ser interpretado não apenas como uma forma de evitar a lembrança de memórias dolorosas, mas também como uma produção intencional do silêncio?

    Por Lunna Sant’Anna Souza

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  7. Prezada Lunna, boa noite. Obrigada por sua pergunta.

    Consideramos que sim. Isso porque no pós-guerra a política do Japão era a de se distanciar do passado da Segunda Guerra Mundial e desenvolver uma visão externa de um país desenvolvido e pacifico. Nesse sentido, recordar de suas ações imperialistas na região e os crimes cometidos na China não contribuiria para a nova imagem do país.

    Cordialmente,
    Sirlene Pereira da Silva e José Gabriel Vieira Junior.

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