MALCRIADA POR PENSAR: A TRANSGRESSÃO DO SILÊNCIO EM MALCRIADA (1913) DE NOE ITÔ (1895–1923) por Carolina Benkert e Joy Nascimento Afonso

 

Noe Itô (1895–1923) destacou-se como uma das figuras mais radicais do feminismo japonês nas primeiras décadas do século XX. Escritora, tradutora, ensaísta e uma das editoras-chefes da primeira revista feminista japonesa, Seitô (1911–1916), Noe utilizou a literatura como espaço de enfrentamento às normas patriarcais que delimitavam a vida das mulheres no Japão moderno. Sua produção literária caracteriza-se pela problematização das relações entre gênero, subjetividade e poder, frequentemente expondo as tensões vividas por mulheres submetidas às expectativas de docilidade, obediência e submissão familiar. Nesse sentido, seus textos não apenas recuperam experiências femininas marginalizadas pela historiografia tradicional, mas também transformam a literatura em espaço de elaboração política da experiência íntima.

 

Em Malcriada (1913), Noe constrói uma narrativa centrada na personagem Toshiko, jovem que retorna de Tóquio para Kyushu após concluir seus estudos. A viagem, no entanto, não representa apenas um deslocamento geográfico, mas simboliza sobretudo um retorno forçado à ordem patriarcal da qual a personagem havia temporariamente escapado. Em Tóquio, Toshiko experimentou formas mais amplas de autonomia emocional e intelectual; ao regressar para a casa da família, vê-se novamente submetida ao casamento arranjado que lhe foi imposto. A narrativa desenvolve-se justamente a partir desse conflito entre desejo individual e obrigação familiar, revelando os mecanismos através dos quais a subjetividade feminina é disciplinada e reinterpretada socialmente.

 

Enquanto aguarda o trem de volta para Kyushu, Toshiko relembra a despedida dolorosa do homem por quem está apaixonada em Tóquio. As recordações da noite anterior intensificam sua angústia diante do futuro que a espera. O casal prolonga a despedida caminhando pela cidade, segurando-se pelas mãos e buscando pequenos pretextos para permanecer junto por mais tempo. A delicadeza desse momento, entretanto, é constantemente atravessada pela vigilância social representada pelos familiares e acompanhantes que monitoram o comportamento da jovem. A tensão torna-se evidente quando Toshiko reage com irritação às repreensões de Tanaka, homem que os acompanha durante parte do trajeto. Sua reação, embora discreta, já evidencia a dificuldade de acomodar-se plenamente ao papel feminino esperado.

 

Ao chegar a Kyushu, Toshiko é recebida pelo tio e por Nagata, homem com quem deverá se casar. A presença do noivo produz imediato desconforto e intensifica sua sensação de aprisionamento. Em casa, a recepção da mãe e da avó lhe proporciona um breve sentimento de acolhimento; contudo, a permanência de Nagata faz retornar o peso da imposição familiar. Exausta emocionalmente, Toshiko recolhe-se ao quarto e desaba em lágrimas assim que consegue permanecer sozinha. Ainda assim, sua dor não é interpretada pela família como expressão legítima de sofrimento, mas como demonstração de imaturidade e insubordinação. A tia, incomodada com sua atitude, afirma que Toshiko é “malcriada” e sugere que Nagata seja firme com ela após o casamento. Assim, o conto encerra-se evidenciando não apenas o isolamento emocional da personagem, mas também a incapacidade da estrutura familiar de reconhecer sua recusa como manifestação legítima.

 

Mais do que narrar um conflito individual, Malcriada expõe os mecanismos pelos quais comportamentos femininos dissidentes são convertidos em desvios morais. A designação “malcriada”, que dá título ao conto, constitui um elemento central da narrativa precisamente porque opera menos como descrição objetiva do comportamento de Toshiko e mais como instrumento disciplinador. Em nenhum momento a personagem realiza ações explicitamente transgressoras. Sua resistência manifesta-se de forma contida: evita conversar com Nagata, demonstra desconforto diante da situação e expressa desejo de recolher-se ao quarto. Ainda assim, tais atitudes bastam para que seja percebida como inadequada.

 

Nesse sentido, a “malcriação” de Toshiko não decorre de um excesso de fala ou rebeldia explícita, mas justamente de sua incapacidade de desempenhar plenamente o ideal feminino esperado pela família. O conto evidencia como a ordem patriarcal exige das mulheres não apenas obediência prática, mas também adesão emocional às estruturas que as subordinam. Não basta aceitar o casamento arranjado; é necessário aceitá-lo com serenidade, gratidão e docilidade. A recusa silenciosa de Toshiko torna-se ameaçadora porque rompe essa expectativa de conformidade afetiva.

 

A escolha de Noe de introduzir explicitamente o termo “malcriada” apenas no desfecho da narrativa é particularmente significativa. Até esse momento, o leitor acompanha os acontecimentos a partir da interioridade de Toshiko, compartilhando sua angústia, sua sensação de aprisionamento e seu sofrimento diante da separação amorosa. Quando a tia finalmente nomeia seu comportamento como “malcriação”, a narrativa evidencia o funcionamento de uma lógica disciplinadora que reinterpreta a experiência subjetiva feminina segundo critérios morais impostos pela autoridade familiar. A nomeação não descreve a experiência vivida pela personagem, mas a reorganiza discursivamente de modo a neutralizar seu potencial contestatório.

 

Essa dinâmica aproxima-se das reflexões propostas por Spivak acerca das limitações impostas à fala feminina em estruturas de poder. Na leitura de Spivak (1988), o silêncio da mulher subalterna não deve ser entendido como ausência de pensamento ou passividade, mas como resultado de condições sociais que impedem que sua fala seja reconhecida como legítima. Em Malcriada, Toshiko pensa, sente e resiste constantemente; contudo, sua subjetividade não encontra espaço de escuta dentro da estrutura familiar. Sua dor é reduzida a capricho, sua recusa é reinterpretada como insolência e sua angústia converte-se em defeito de caráter. Assim, o conto evidencia que o problema não está na inexistência de voz, mas nas condições que impossibilitam seu reconhecimento.

 

Ao mesmo tempo, a resistência de Toshiko não permanece restrita ao plano interior. Impedida de expressar verbalmente sua oposição, a personagem desloca sua recusa para o corpo. Os gestos corporais tornam-se, então, formas silenciosas de contestação. Durante o trajeto com Nagata, Toshiko acelera o passo, caminha à frente dele, evita escutá-lo e recusa a proximidade física imposta pela situação. A narrativa descreve:

 

“Ao se despedirem, Toshiko saiu apressada, sem olhar para trás, pisando firme no hakama. Ela sabia que sua atitude incomodava Nagata, mas não suportava ouvir sua voz, que a fazia estremecer. Caminhar lado a lado era impossível. Toshiko acelerou o passo, desesperada, enquanto o paciente Nagata a seguia.” [Noe, 1913, p.7, tradução nossa]

 

O corpo transforma-se, assim, em espaço privilegiado de manifestação da subjetividade interditada. Quando a fala não pode ser plenamente articulada, os movimentos corporais passam a carregar a tensão entre submissão e resistência. A recusa de Toshiko manifesta-se no ritmo da caminhada, na distância física que impõe, no desejo de isolamento e na incapacidade de sustentar a performance de docilidade esperada.

 

Essa dimensão corporal da resistência pode ser articulada também às discussões de Nancy Fraser sobre reconhecimento discursivo e desigualdade estrutural. Para Fraser (1997), a participação efetiva na esfera social não depende apenas da possibilidade formal de falar, mas das condições que tornam determinadas vozes reconhecíveis e inteligíveis. Grupos subordinados frequentemente têm seus desejos e experiências deslegitimados antes mesmo de serem plenamente formulados. Em Malcriada, Toshiko ocupa precisamente essa posição: embora experimente intensamente o conflito que atravessa sua vida, não dispõe de um espaço social capaz de validar sua recusa. Sua subjetividade permanece aprisionada entre a obrigação de obedecer e a impossibilidade de expressar abertamente sua resistência.

 

Desse modo, a narrativa de Noe evidencia como o patriarcado não atua apenas por meio da coerção explícita, mas também através de mecanismos sutis de interpretação moral. A resistência feminina, quando não encontra formas legítimas de expressão, é convertida discursivamente em problema comportamental. Ao transformar sofrimento em “malcriação”, a família neutraliza a dimensão política do conflito e reafirma sua autoridade sobre o corpo e os desejos da personagem.

 

Assim, Malcriada ultrapassa os limites de uma narrativa intimista para tornar-se uma crítica incisiva às estruturas sociais que regulam a feminilidade. Ao acompanhar a interioridade de Toshiko, Noe revela os custos emocionais da submissão patriarcal e evidencia como até mesmo pequenos gestos de recusa podem adquirir profundo significado político. A personagem não realiza grandes atos de rebeldia; sua resistência manifesta-se justamente nas fissuras, nos silêncios e nos movimentos mínimos através dos quais tenta preservar alguma autonomia diante de um destino já traçado. É nesse espaço entre submissão e recusa que a narrativa constrói sua potência crítica, transformando a experiência íntima feminina em denúncia das estruturas sociais que procuram silenciá-la.

 

Referências

Carolina Benkert é Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Letras da Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da UNESP-Assis, com foco em Literatura Comparada e Estudos Culturais, tendo como tema a escritora japonesa anarquista feminista Noe Itô, vida e obra, focada na tradução e análise do conto Malcriada (1913). Atualmente, é professora substituta na mesma instituição, ministrando Literatura Japonesa I.

 

Joy Nascimento Afonso é Doutora em Estudos Literários pelo programa de Pós-Graduação “Literatura e Sociedade” na UNESP- Assis, tendo como tema de tese os diários femininos clássicos japoneses e suas influências na coletânea de contos “América Latina: traição e outras viagens”, da autora contemporânea japonesa Banana Yoshimoto.  Atualmente pós-doutoranda em crítica feminista na Nagoya University, como bolsista da Japan Foundation, pelo Programa de Estudos Japoneses. A professora é lotada no Departamento de Letras Modernas lecionando no curso de Graduação em Letras da Unesp-Assis ministrando as disciplinas de língua e literatura japonesa, desenvolvendo pesquisas nas áreas de literatura de autoria de mulheres e literatura moderna japonesa.

 

FRASER, Nancy. Justice interruptus: critical reflections on the “postsocialist” condition. New York: Routledge, 1997.

 

ITÔ, Noe. Wagamama, 1913. Disponível em: https://www.aozora.gr.jp/cards/000416/files/3617_7588.html

 

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Can the subaltern speak? In: NELSON, Cary; GROSSBERG, Lawrence (org.). Marxism and the interpretation of culture. Urbana: University of Illinois Press, 1988.

2 comentários:

  1. Olá Carolina e Joy!
    Obrigado pela oportunidade de ler o texto elaborado por vocês!
    Achei bem interessante a análise que vocês fizeram do conto. Lendo-a, me surgiu uma questão que, talvez, seja mais marginal, mas gostaria de expor. Há alguma razão para a tradução de "wagamama" ter sido feita através de "malcriada"? Como é um termo mobilizado em toda a argumentação, me pergunto os caminhos que levaram até essa tradução quando uma opção mais "próxima" e menos "marcada" pudesse ser feita como "egoista", "mimada", "manhosa" etc. Quero dizer, o "wagamama", no texto, aparece como oposto à atitude mais "mansa", " dócil" de Nagata (おとなしい青年), por exemplo. Nesse sentido, o conto me parece mais uma provocação (também) filosófica da autora diante das limitações da sociedade (que também é descrita enquanto ambígua [tanto lugar que pdoe ser acolhedor quanto cruel] tanto nesse conto quanto em outro textos de Noe).
    É daí que vem minha dúvida, uma vez que "malcriada" localiza a atitude de Toshiko, essa protagonista tão presente nos escritos de Noe, enquanto "desvio" moral, ao passo que "egoista" reforça as próprias ideias que Noe defendia naquele momento. "Egoísmo", no recorte filosófico em que Noe se enquadra, não é ofensa (so o é a partir de uma leitura enviesada da sociedade, diria a filosofia a qual se filia), é antes insurreição, rebeldia e formas de combate. Assim, "egoísmo" aí, na leitura que faço, é um termo que, acredito, dialoga diretamente com a produção ensaística da autora e outras manifestações por escrito que ela fez. Enquanto "malcriada" leva a discussão para o campo mais "moralizante", logo, para um outro lugar que não o filosófico (o que não é menos interessante, e que, por isso mesmo, gostaria de entender).
    att.
    Felipe Chaves Gonçalves Pinto

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    1. Olá, Felipe-san! Muito obrigada pela leitura e pela questão levantada. Acho que ela toca justamente em um dos pontos que me levaram à escolha de traduzir wagamama como “malcriada”.

      A escolha não foi feita pensando apenas em um equivalente lexical direto, mas a partir dos questionamentos que surgiram durante a análise do conto e também das próprias relações narrativas construídas pela autora. Eu considerei possibilidades como as que você levantou, mas entendi que essas opções poderiam direcionar a leitura para aspectos mais específicos da personalidade de Toshiko e talvez não contemplassem toda a ambiguidade presente no termo dentro do conto.

      Nesse sentido, “malcriada” foi uma escolha relacionada não somente ao comportamento individual da personagem, mas também à forma como Toshiko é vista pelos outros, especialmente pela sua família. Ela não aparece apenas como alguém que age em benefício próprio; ela também ocupa uma posição de confronto com as expectativas sociais e familiares.

      Além disso, a escolha do termo também partiu da tentativa de abarcar uma dimensão externa e uma dimensão interna da personagem. Por um lado, “malcriada” se relaciona ao modo como Toshiko se comporta e como suas atitudes são interpretadas socialmente. Isto é, como ela se coloca diante das pessoas ao seu redor e como rompe com determinadas expectativas de comportamento. Por outro lado, o termo também se aproxima daquilo que acontece em seu interior, da forma como ela pensa e questiona essas estruturas que tentam determinar seu lugar. Assim, não se trata apenas de uma atitude exterior de enfrentamento, mas também de uma postura interna de não conformidade.

      Por isso, pensei em “malcriada” não necessariamente como uma marca de desvio moral da personagem, mas como uma forma de evidenciar que Toshiko é percebida como alguém que rompe com aquilo que esperam dela. Ela é considerada “malcriada” justamente porque não aceita ocupar o lugar que lhe foi imposto, seja dentro da família, seja nas relações sociais que a cercam.

      Abraços,
      Carolina Benkert.

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