Introdução
No cenário de transformações ideológicas que caracterizou o Japão Imperial [1868-1945], a figura do guerreiro medieval Kusunoki Masashige [1294-1336] foi resgatada e alçada ao ápice do panteão nacionalista. Esta comunicação propõe analisar Masashige como um autêntico "monumento" no sentido proposto no livro “História e Memória”, por Jacques Le Goff: uma construção deliberada da memória, projetada para evocar o passado e herdar uma autoridade perene. No contexto da modernização Meiji, esse monumento operou como o avatar máximo do “bushido”, o pretenso código ético dos samurais que, reconfigurado como uma "tradição inventada" nos moldes de Eric Hobsbawm em “A Invenção das Tradições”, redirecionou a virtude da lealdade dos antigos chefes guerreiros diretamente para a figura do Imperador.
Para compreender a gênese e a instrumentalização desse mito, o presente estudo investiga uma cadeia documental que se estende por séculos. A análise parte do “Taiheiki” [ou, mais especificamente, de trechos centrais desta obra contidos na coletânea de fontes primárias “Sources of Japanese Tradition”], crônica de guerra do século XIV que estabeleceu a mística inicial de Masashige e sua fidelidade inabalável ao Imperador Go-Daigo. Em seguida, examina-se a recepção e a difusão dessa narrativa na virada para o século XX, cruzando os escritos de intelectuais japoneses do período Meiji [1868-1912] até a primeira metade da Era Showa [1926-1945] [como Nitobe Inazo, Nukariya Kaiten e Yasuoka Masahiro] com os relatos de japonologistas ocidentais contemporâneos [como Lafcadio Hearn e William Griffis], que atestaram o impacto do herói no imaginário coletivo. Por fim, investiga-se a radicalização desse constructo por meio de documentos estatais, destacando o tratado ideológico Kokutai no Hongi [1937], e os registros de soldados e pilotos kamikaze, cujos sacrifícios na Segunda Guerra Mundial materializaram, em ato, o monumento de lealdade esculpido em torno de Kusunoki Masashige.
A Restauração Kenmu, o Taiheiki e o Japão Imperial
Durante o século XIV, ocorreu no Japão uma tentativa de derrubada do Xogunato e restauração do poder imperial. Este movimento foi liderado pelo Imperador Go-Daigo [1288-1339], que iniciou em 1331 uma guerra contra a regência da dinastia Hojo, que há décadas estava em crise, angariando um crescente número de simpatizantes e aliados entre a aristocracia, até conseguir derrubar o governo e consolidar, por um breve período, a restauração imperial [Morris, 2014].
Contudo, a Restauração Kenmu [1333-1336], o período de governo direto sob a tutela do Imperador Go-Daigo foi considerado ineficiente, corrupto, e, principalmente, foi acusado de não recompensar de maneira adequada aliados vitais para o processo de restauração, como o clã Ashikaga, cujo líder, Ashikaga Takauji [1305-1358], rompeu com o Imperador e iniciou uma revolta contra ele, derrubando-o do poder e iniciando um novo Xogunato, o do Período Muromachi [1336-1573], sob o comando da dinastia Ashikaga [Morris, 2014].
Esse processo resultou em um cisma dentro da corte imperial, o chamado Período das Duas Cortes [1336-1392], dividida entre apoiadores de Go-Daigo [Corte Sul], e de seu esforço de retorno ao poder, e de aliados do Imperador Komyo [1322-1380], que tinha o suporte dos Ashikaga [Corte Norte] e que legitimava o novo Xogunato. Essa situação se manteve até a década de 1390, quando Go-Daigo não estava mais vivo, e um acordo entre as duas cortes colocou fim à ruptura, e o Xogunato corrente foi definitivamente reconhecido [Morris, 2014].
A principal fonte histórica para os eventos do século XIV mencionados anteriormente é o “Taiheiki” [“Crônica da Grande Paz”], um texto de autoria tradicionalmente atribuída ao monge budista Kojima Hoshi [m. 1374], mas cuja composição se deu de forma coletiva, contemporaneamente e pouco posteriormente aos eventos narrados, e que, provavelmente, teve como autores principais monges zen-budistas próximos tanto à corte de Go-Daigo quanto aos Ashikaga. Esta crônica de guerra [gunki monogatari] que narra eventos, sobretudo militares, ocorridos entre 1318 e 1367 teve seu conteúdo popularizado por todo o Japão, não tanto pelo restrito público leitor, mas por artistas de rua que divulgavam seu conteúdo em suas apresentações. Embora tenha passado por críticas no meio acadêmico, este texto adquiriu um caráter de autoridade inquestionável para o nacionalismo pregado no período do Japão Imperial, sobretudo a partir da década de 1890 [Frédéric, 2008, p. 357, 1120; Varley, 1971, p. 125-126, 170-174].
Kusunoki Masashige
No contexto da luta de Go-Daigo pela restauração imperial, um personagem considerado central pela historiografia e pela memória japonesa é Kusunoki Masashige.
Kusunoki, um personagem que se destacou por sua lealdade e por sua genialidade estratégica, foi um dos principais comandantes do Imperador Go-Daigo durante seus confrontos, primeiramente com os Hojo e posteriormente contra os Ashikaga.
Segundo o Taiheiki, este guerreiro foi escolhido como um aliado central de Go-Daigo em função de um sonho que este teve enquanto estava refugiado em um templo budista após ser desalojado de Kyoto pelas tropas do Xogunato. Neste sonho, o Imperador teria visto “uma gigantesca árvore de folhagem perene e ramos densos”, sob ela estariam “grandes ministros de Estado” e um “assento principal, repleto de almofadas empilhadas”, “um assento voltado para o sul”, vazio. Ao despertar do sonho, o Imperador chegou à conclusão que “o sonho era uma mensagem enviada a ele pelos céus”, e, ao refletir sobre os caracteres para sul e árvore, percebeu que “ambos formavam um terceiro caractere: “kusunoki” [“canforeira”]. Go-Daigo então, ao amanhecer, mandou chamar o sacerdote chefe do templo e perguntou a ele:
"Há algum guerreiro nestas paragens chamado Kusunoki?" O monge respondeu: "Não ouvi falar de ninguém com esse nome por aqui. No entanto, a oeste do Monte Kongo, na província de Kawachi, vive um homem renomado na arte do arco e flecha, chamado Kusunoki Tamon Hyoe Masashige”. [CHRONICLE OF GREAT PEACE (TAIHEIKI): THE LOYALIST HEROES, 2001, p. 285-286]
Em suma, o Imperador interpretou o sonho como um sinal de que, para vencer, um combatente chamado Kusunoki deveria comandar suas tropas, e ordenou que esse homem fosse convocado, e, em contato com ele, recrutou-o para a sua causa.
Ao longo de toda a saga de luta pelo poder encabeçada por Go-Daigo, Kusunoki foi um de seus vassalos mais leais, permanecendo fiel ao Imperador até sua derrota final na Batalha de Minatogawa [1336], quando seu soberano foi derrubado do poder pelos Ashikaga. Ao fim dessa batalha, Kusunoki se suicidou por seppuku e, segundo o Taiheiki, seu último ato foi fazer suas as últimas palavras de seu irmão: "Meu desejo é renascer repetidamente, por sete vidas, nesta mesma existência, a fim de destruir os inimigos da Corte!" [CHRONICLE OF GREAT PEACE (TAIHEIKI): THE LOYALIST HEROES, 2001, p. 291], gesto encarado como uma demonstração de comprometimento sincero [makoto] com sua causa [Morris, 2014, p. 134].
Kusunoki Masashige se tornou o principal modelo para o ethos do “bushido” ["caminho do guerreiro"], termo que embora remonte ao século XVI, suas feições contemporâneas foram moldadas no Japão Imperial. O conceito ganhou projeção a partir da década de 1880, consolidando-se em 1899 com a publicação do livro “Bushido: The Soul of Japan”, de Nitobe Inazo, que sistematizou o código em torno de sete virtudes fundamentais: justiça, coragem, benevolência, cortesia, sinceridade, honra e lealdade [Benesch, 2014; Skoss, 2005; Nitobe, 2006].
A grande reconfiguração desse código moderno residiu na ressignificação da lealdade: a fidelidade, outrora devida pelos antigos samurais aos seus respectivos senhores [daimyo], foi redirecionada de forma centralizada à figura do Imperador Meiji [Benesch, 2014]. Assim, o bushido consolidou-se na modernidade como uma legítima "tradição inventada" nos moldes propostos por Eric Hobsbawm [2002]; isto é, um construto ideológico estruturado sobre uma suposta continuidade com o passado para inculcar novos valores e normas sociais no Japão moderno.
Em meados da década de 1880 e mais solidamente na década de 1890 [sobretudo após a publicação do “Rescrito Imperial para a Educação”], o governo Meiji iniciou o projeto de samuraização do Japão, no qual a tradição samurai existente antes da Era Meiji passou a ser valorizada e instrumentalizada pelo Estado, e o bushido, o pretenso código de comportamento dos samurais, seria adotado como o guia ético dos japoneses, para que os valores e comportamentos dos antigos guerreiros japoneses passassem a permear toda a população [Befu, 1985, p. 52], e, com isso, Kusunoki Masashige acabou adotado como o modelo ideal de súdito do Imperador.
Isso ocorreu porque desde os movimentos de valorização da figura imperial iniciados na Era Tokugawa [Kokugaku e Mitogaku], que trariam ideias que lançariam as bases para a realização da Restauração Meiji no século XIX, Kusunoki Masashige já passava a ser resgatado e valorizado. Sobre ele, Arai Hakuseki [1627-1725] [1982, p. 185], um dos mais influentes intelectuais do período, em seu livro “Tokushi Yoron” [“Lições da História”], escreveu:
“Entre os vassalos leais, Kusunoki Masashige deve ocupar o primeiro lugar, pois, [...], ele foi o único em todo o Japão a permanecer leal e, com seu pequeno contingente, resistiu às vastas forças das províncias orientais [...] por um tempo considerável, até que opositores do Xogunato começaram a se levantar aqui e ali.”
A devoção imperial atribuída a Kusunoki fez dele um modelo para Yoshida Shoin [1830-1859], um militante pela restauração imperial e mentor de alguns dos principais líderes do processo da Restauração Meiji, como Yamagata Aritomo [1838-1922], que posteriormente seria Primeiro Ministro, que seriam ideologicamente influenciados por ele nesse e em outros aspectos [Morris, 2014, p. 409].
Posteriormente, no século XIX a Restauração Kenmu e seus protagonistas seriam adotados como um precedente para a vitoriosa Restauração Meiji [1868]. Assim Go-Daigo e seus aliados seriam heroicizados e divinizados [Kusunoki foi divinizado com o título honorífico de “Dai Nanko”, “O Grande Senhor Kusunoki”] enquanto seus oponentes seriam vilanizados pela memória coletiva e na versão oficial presente nos livros didáticos do Ministério da Educação [Fujitani, 1996, p. 89; Varley, 1971, p. 152-186]. Assim, com a valorização de Go-Daigo e seus aliados como predecessores da causa imperial, a reputação de Kusunoki atingiu sua forma completa, como o grande modelo de lealdade ao Imperador.
Dessa forma, vários santuários e outros monumentos foram construídos em homenagem aos heróis da Restauração Kenmu, entre estes podemos destacar o Santuário de Minatogawa, construído em 1872 em homenagem a Kusunoki, no local de seu derradeiro combate e também uma estátua equestre em estilo ocidental, dedicada a este mesmo guerreiro, e inaugurada na praça em frente ao palácio imperial em 1900. Além disso uma canforeira, em clara referência ao herói Kusunoki, “marca o local onde a carruagem funerária do Imperador Meiji foi exposta ao público após as cerimônias fúnebres [Fujitani, 1996, p. 16-17, 89, 124].
A partir da década de 1890, após a publicação do Rescrito Imperial para a Educação” o sistema educacional e os livros didáticos passaram a ser direcionados para a orientação ética dos estudantes pela “reverência ao Imperador e amor ao país”. Um artifício para isso era o estudo de “qualidades pessoais de grandes figuras do passado” [Varley, 1971, p. 163-164]. Estes personagens históricos, nem todos japoneses, eram usados para ilustrar o cultivo de virtudes específicas, como Minamoto Yoshiie [1039-1106] para o cultivo do conhecimento, Sócrates para a bravura, e, é claro, Kusunoki Masashige para a lealdade [Kikuchi, 1909, p. 158].
A importância de Kusunoki para o imaginário coletivo dos japoneses da Era Meiji foi notado pelos japonologistas que viveram no Japão na época, como Lafcadio Hearn [1850-1904] para quem a figura de Kusunoki Masashige esteve presente desde as suas primeiras até as últimas impressões sobre o país, sendo alguém que ele denominou como “o mais nobre dos heróis e patriotas japoneses” [Hearn, 2009, p. 396; Hearn, 2022, p. 34], enquanto William Elliot Griffis [1843-1928] [2006, p. 216-217] de forma um pouco mais eloquente afirma que:
“Dentre todas as figuras da história japonesa, a de Kusunoki Masashigé destaca-se pela pureza de seu patriotismo, pelo desprendimento em sua devoção ao dever e pela serenidade de sua coragem. O povo refere-se a ele com ternura reverente e, com uma admiração que transcende as palavras, vê nele o espelho de uma lealdade imaculada.”
Também se nota que intelectuais japoneses deram grande importância ao fiel vassalo do Imperador Go-Daigo. Nitobe Inazo [1862-1933] [1909, p. 234], o mais influente autor sobre o moderno conceito de bushido escreveu que “cada um de nós deve aspirar, no mínimo, a alcançar e, se possível, superar a grandeza conquistada por [Yoshida] Kenko na eloquência e por Kusunoki na lealdade”. No início da Era Taisho, o teólogo budista Nukariya Kaiten [1867-1934] [2006, p. 37] afirmou que em matéria de “lealdade, a sabedoria, a valentia, e a prudência de Masashige não apenas são únicas na história do Japão, mas talvez na história da humanidade”, enquanto o matemático, professor e Ministro da Educação [1901-1903] Kikuchi Dairoku [1855-1917] [1915, p. 380] o denominou como “um dos tipos ideais de coragem e lealdade no Japão”. Na Era Showa, o filósofo Yasuoka Masahiro [1898-1983] [2013, p. 109-111, 126] identificou Kusunoki como um homem que evocava os ideais nietzscheanos do “além do homem” e do “eterno retorno” [notadamente por seu desejo de poder dar sete vidas contra os inimigos do Imperador], e também o melhor exemplo do “mais solene e sagrado dos atos do Bushido japonês; [...] matsuri, do verbo matsurau: obedecer a algo sagrado [o Imperador]”.
Também os ideólogos do Ministério da Educação prestaram seu culto a Kusunoki no conteúdo do “Kokutai no Hongi” [1949, p. 84] [“Princípios Essenciais da Entidade Nacional do Japão”], publicado em 1937, bem em meio a agitação da “Guerra de Quinze Anos” [1931-1945] travada pelo Japão Imperial. No terceiro capítulo desse panfleto doutrinário, é mencionado que “O espírito de Kusunoki Masashige, de servir a nação ao longo de sete vidas está ainda mais agora [no contexto de guerra] comovendo profundamente as pessoas”. Este texto coloca o dever da lealdade ao Imperador como algo perene na essência do caráter nacional japonês, com expressões que remontam aos poemas do Manyoshu, nos séculos VII e VIII, passando por toda a era dos samurais e chegando até os tempos modernos. Como aponta Emiko Ohnuki-Tierney [2002, p. 74-75], esta é uma construção feita usando como prova documental expressões isoladas de lealdade de vassalos imperiais [como o próprio Kusunoki] generalizadas para toda a população pela propaganda do Estado Imperial.
Nos turbulentos anos finais do Japão Imperial, entre a década de 1930 e o ano de 1945, o General e Ministro da Guerra [1931-1934] Araki Sadao [1877-1966] considerava os soldados do Exército Imperial como “a espada de Kusunoki” [Orbach, 2017, p. 217-218], enquanto, entre os pilotos kamikaze, Kusunoki era uma das principais referências para o observação do bushido e o principal modelo de lealdade ao Imperador, sendo sua simbologia amplamente difundida entre eles.
Monumento do Bushido
A transfiguração de Kusunoki Masashige no Japão Imperial exemplifica com precisão a operação pela qual um registro histórico é convertido em monumento.
Segundo Jacques Le Goff [1990, p. 536-537], a essência do monumento reside na sua capacidade de evocar e perenizar a memória coletiva, atuando como um canal voluntário de preservação social que vai além do mero testemunho textual. Antes de sua apropriação estatal na Era Meiji, a mística de Masashige sobreviveu na memória coletiva japonesa justamente por meio dessa dinâmica: embora assentada na matriz textual do Taiheiki, sua verdadeira força de influência social residiu na tradição oral dos artistas de rua, cujas apresentações popularizaram o herói para além do restrito público leitor. Assim, podemos ver que a diferença fundamental entre documento e monumento reside no fato de este último ser voluntariamente selecionado pela sociedade para recordar o passado idealizado que ela escolheu lembrar. O Estado Meiji operou essa seleção, convertendo a crônica medieval em um "monumento linguístico" que respondeu a uma dupla "intenção de edificação, no significado de elevação moral e de construção de um edifício" [Le Goff, 1990, p. 545-546]. O que transformou o documento em monumento foi sua sistemática utilização pelo poder como o avatar perfeito do bushido e do serviço incondicional ao trono.
Essa monumentalização da memória encontra ressonância direta nas reflexões de Peter Burke [2000, p. 74-75] sobre a transformação da memória social pela escrita e sua posterior materialização em "representações" na sociedade moderna. No Japão contemporâneo, a memória nacional não apenas foi expressa, mas ativamente moldada por meio de monumentos públicos, como observou Fujitani [1996]. Para além disso, a eficácia pedagógica desse projeto estatal dependeu da criação de um "esquema" conceitual. De acordo com Burke [2000, p. 77-78], os esquemas conceituais projetam lembranças de uma época sobre outra, transfigurando a realidade histórica em narrativas mitológicas e estereotipadas, habitadas por figuras heroicas de forte apelo simbólico. Dessa forma, Masashige foi inserido nesse esquema a-histórico como o súdito arquetípico atemporal. Suas ações no século XIV foram plastificadas para encarnar as virtudes exortadas no Kokutai no Hongi [1949], que pretendia projetar uma linhagem ininterrupta de lealdade absoluta ao soberano remontando à época dos poemas do Manyoshu [séculos VII e VIII].
Finalmente, este processo culmina naquilo que Burke [2000, p. 80-81] define como a legitimação da memória social, caracterizada pela "legitimação de ações no presente com referência ao passado". Ao transformar Kusunoki em um monumento do bushido, o aparato imperial japonês buscou justificar as demandas geopolíticas e sociais de seu próprio tempo. A devoção inabalável do herói serviu de lastro moral para naturalizar a conscrição militar e a obediência civil exigidas pela modernização acelerada de Meiji. Na primeira metade do século XX, essa legitimação pelo passado foi levada às suas últimas e mais radicais consequências: a conduta monumentalizada de Masashige ofereceu o substrato ético e estético que justificou o sacrifício dos soldados das forças armadas imperiais, sendo o caso mais extremo o dos pilotos kamikaze. Diante da crise da Segunda Guerra Mundial, o ato de dar a vida pelo Imperador não era visto como uma novidade trágica, mas como a reatualização legítima de um dever histórico esculpido séculos antes na memória da nação.
Conclusão
A trajetória da memória de Kusunoki Masashige expõe os mecanismos refinados pelos quais a história é retrabalhada para atender às urgências políticas e ideológicas da modernidade japonesa. Dessa forma, o comandante medieval foi resgatado pelo Estado Meiji e moldado como o sustentáculo de uma "tradição inventada". Esse processo ofereceu uma base ética maleável e rigorosamente centralizada na figura imperial, servindo como o elo ideal para converter uma ética samurai outrora descentralizada em um nacionalismo de massas homogêneo e altamente disciplinado.
A análise desenvolvida nesta comunicação demonstra que Masashige operou, fundamentalmente, como um monumento nos moldes propostos por Jacques Le Goff e Peter Burke. Da organicidade das apresentações orais dos artistas de rua à solenidade planejada dos monumentos públicos, a narrativa de sua fidelidade imaculada foi voluntariamente selecionada para fixar na memória coletiva um passado idealizado. A criação desse "esquema" conceitual permitiu ao aparato estatal dissimular o anacronismo histórico, fundindo as diretrizes doutrinárias do Kokutai no Hongi ao sacrifício derradeiro dos soldados e pilotos kamikaze na Segunda Guerra Mundial.
Enfim, o caso de Kusunoki Masashige revela como o poder político é capaz de metamorfosear o documento histórico em monumento ideológico. A trágica derrota de um guerreiro medieval em Minatogawa foi despida de sua especificidade histórica e revestida de uma aura de perenidade. Mais do que um herói nacional, o Kusunoki imperial tornou-se um espelho normativo e um imperativo ético, demonstrando que a monumentalização do passado não visa apenas explicar o que foi, mas sim prescrever, com força coercitiva e estética, as ações e os sacrifícios exigidos dos sujeitos no presente.
Referências
Edelson Geraldo Gonçalves é Doutor em História Social das Relações Políticas pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
Mail: edelsongeraldo@yahoo.com.br
ARAI, Hakuseki. Lessons from History: The Tokushi Yoron. St Lucia, Londres, Nova York: University of Queensland Press, 1982.
BEFU, Harumi. Japan: An Anthropological Introduction. Tóquio: Tuttle, 1985.
BENESCH,
Oleg. Inventing the Way of Samurai: Nationalism, Internationalism
and Bushido in Modern Japan. Oxford: Oxford University Press, 2014.
BURKE, Peter. Variedades de História Cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
CHRONICLE OF GREAT PEACE (TAIHEIKI): THE LOYALIST HEROES. In. DE BARY, Theodore; KEENE, Donald; TANABE, George; VARLEY, Paul (Org). Sources of Japanese Tradition: Volume One: From Earliest Times to 1600. p. 284-291. Nova York: Columbia University Press, 2001.
FUJITANI, Takashi. Splendid Monarchy: Power and Pageantry in Modern Japan. Berkeley, Los Angeles, Londres: University of California Press, 1996.
GRIFFIS, William Elliot. The Mikado’s Empire. A History of Japan from the Age of Gods to the Meiji Era (660 BC–AD 1872). Berkeley: Stone Bridge Press, 2006.
HEARN, Lafcadio. Glimpses of Unfamiliar Japan. Glasgow: Good Press, 2022.
HEARN, Lafcadio. Japan: An Attempt at Interpretation. Tóquio: Tuttle Publishing, 2009.
HOBSBAWM, Eric. Introdução: A Invenção das Tradições. In: HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (org.). A Invenção das Tradições. p. 9-23. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
KIKUCHI, Dairoku. Japanese Education: Lectures Delivered in the University of London. Londres: John Murray, 1909.
KIKUCHI, Dairoku. BRINKLEY, Frank. A History of the Japanese People: From the Earliest Times to the End of the Meiji Era. Nova York e Londres: The Encyclopedia Britannica Co, 1915.
KOKUTAI NO HONGI: Cardinal Principles of the National Entity of Japan. Cambridge: Harvard University Press, 1949.
LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1990.
MORRIS, Ivan. The Nobility of Failure: tragic heroes in the history of Japan. Kumamoto: Kurodahan Press, 2014.
NITOBE, Inazo. Thoughts and Essays. Tóquio: Teibi Publishing Company, 1909.
NITOBE, Inazo. Bushido: Alma de Samurai. São Paulo: Tahyu, 2006.
NUKARIYA, Kaiten. A Religião dos Samurais. São Paulo: Tahyu, 2006.
OHNUKI-TIERNEY, Emiko. Kamikaze, Cherry Blossoms, and Nationalisms: The Militarization of Aesthetics in Japanese History. Chicago e Londres: University of Chicago press, 2002.
ORBACH, Danny. Curse on this Country: The Rebellious Army of Imperial Japan. Ithaca, Londres: Cornell University Press, 2017.
SKOSS, Diane. Bushido. In: HOROWITZ, Marianne Cline (Org). New Dictionary of the History of Ideas Volume 1. p. 251-253. Detroit: Thomson Gale, 2005.
VARLEY, H Paul. Imperial Restoration in Medieval Japan. Nova York e Londres: Columbia University Press, 1971.
YASUOKA, Masahiro: The Japanese Ethos: A Study of National Character. Honolulu: Honolulu Foundation, 2013.
Olá, Edelson! Parabéns pelo excelente texto, gostei particularmente da forma como você articula Jacques Le Goff, Peter Burke e Eric Hobsbawm para demonstrar que Kusunoki Masashige deixa de ser apenas um personagem histórico para tornar-se um verdadeiro monumento ideológico, cuja memória é mobilizada pelo Estado na construção do nacionalismo japonês. A análise das fontes e a conexão entre a monumentalização da memória, a invenção das tradições e a instrumentalização do bushido conferem grande consistência ao trabalho.
ResponderExcluirDurante a leitura, uma questão me chamou bastante a atenção. Seu texto demonstra de maneira convincente como o Estado Meiji e, posteriormente, o Estado Imperial foram capazes de transformar a figura de Kusunoki em um modelo normativo de lealdade e sacrifício. Entretanto, essa análise privilegia, sobretudo, a construção "de cima para baixo" dessa memória oficial. Minha dúvida é: até que ponto esse processo foi efetivamente apropriado pela sociedade japonesa de forma homogênea?
Em outras palavras, seria possível afirmar que essa monumentalização encontrou adesão social ampla e espontânea ou haveria evidências de disputas, resistências ou interpretações alternativas em relação à figura de Kusunoki Masashige, especialmente entre grupos intelectuais, religiosos ou políticos que não compartilhavam integralmente do projeto nacionalista do Estado? Pergunto isso porque toda política de memória, por mais eficiente que seja, costuma conviver com memórias concorrentes, silenciadas ou mesmo resistentes.
Nesse sentido, seria interessante compreender se Kusunoki foi apenas um "monumento do Estado" ou se também se tornou um "monumento da sociedade". Essa distinção me parece relevante, pois permitiria avaliar até que ponto o sucesso do nacionalismo imperial decorreu exclusivamente da capacidade coercitiva das instituições ou também da internalização social desses símbolos e narrativas. Talvez essa reflexão contribua para ampliar ainda mais a discussão sobre os limites e a eficácia dos processos de monumentalização da memória na construção das identidades nacionais.
Olá Alexander. Obrigado pela leitura e pelo comentário. Você tem razão ao observar que o culto a Kusunoki foi sobretudo um instrumento de poder estatal, a partir da Era Meiji. Mas desde a Era Tokugawa (1600-1868) esse culto também tinha um lastro popular bem visível (embora não seja possível quantificá-lo), não só no movimento Kokugaku, que contestava o poder do Xogunato e reverenciava o Imperador, como também nas artes populares, envolvendo desde artistas de rua até o teatro bunraku e kabuki, no qual peças sobre Kusunoki eram apresentadas trocando os nomes dos personagens históricos e deslocando a ação para outros períodos históricos, para driblar a censura do Xogunato, que proibia peças teatrais com temas políticos sensíveis. A história dos 47 ronins era outro exemplo da mesma situação. E mesmo na Era Meiji, já com o culto a Kusunoki adotado pelo Estado, o santuário dedicado a ele em Minatogawa historicamente, desde sua sua fundação, recebe sempre muitos peregrinos.
ResponderExcluirEdelson Geraldo Gonçalves
Olá, professor Edelson. Espero que esta mensagem o encontre bem.
ResponderExcluirPrimeiramente, gostaria de parabenizá-lo pelo excelente texto. A forma como o senhor articula Le Goff, Burke e os demais autores para demonstrar como o culto a Kusunoki se tornou um monumento e, de certa maneira, um exemplo do culto aos antepassados presente no Shinto é brilhante.
Na verdade, professor, não tenho nenhuma dúvida ou questão, até porque, por sua forte influência, acabei me direcionando a estudar essas mesmas temáticas.
Gostaria apenas de aproveitar o momento e o espaço para agradecer por todo o apoio e ajuda desde 2021. Aquela disciplina de História do Japão, ministrada durante o seu pós-doc, influenciou profundamente o historiador e o professor que me tornei, bem como as pesquisas que busco desenvolver agora no mestrado e, futuramente, no doutorado. Essa influência também se reflete naquilo que busco transmitir aos meus jovens alunos e alunas, ao ensiná-los que estudar com afinco e trabalhar com honestidade são grandes virtudes pelas quais ainda vale a pena lutar.
Deixo aqui o meu muito obrigado e os meus votos de que, em breve, possamos tomar um café ou uma cerveja, como uma simples forma de agradecimento por tudo.
Um grande abraço do seu aluno, Edvan.
Agradeço a cortesia Edvan. Li o seu texto, e fico feliz que esteja conduzindo um bom trabalho.
ResponderExcluirNos vemos no futuro.
Att. Edelson Geraldo Gonçalves.