Introdução
As cortesãs japonesas, ou yūjo, foram amplamente representadas em pinturas ukiyo-e, muitas vezes lendo, escrevendo cartas ou compondo poemas. Neste estudo, o termo “cortesã” segue a definição de Cecilia Segawa Seigle: mulheres da indústria do sexo com altas habilidades artísticas e literárias, inseridas em um rigoroso sistema hierárquico (SEIGLE, 1993, p.5 tradução nossa) Entre as muitas habilidades das yūjo, poucas eram tão decisivas para alcançar o topo da hierarquia do bordel quanto a capacidade de escrever cartas e compor poemas. Como observa Keene (1971, p.246 tradução nossa), “a troca de cartas com os clientes constituía uma parte importante do ritual dos bairros dos prazeres [...] e possuir tanto uma bela caligrafia quanto um rico vocabulário era essencial para reter os melhores clientes”. Em Shikidō ōkagami, fruto de cerca de trinta anos de pesquisa de Fujimoto Kizan (1974) sobre os bairros dos prazeres, lê-se: “É lastimável que uma pessoa não saiba escrever, mas para uma cortesã, é um desastre” (tradução nossa). Essas habilidades não passaram despercebidas pelos estrangeiros que visitaram o Japão. Engelbert Kaempfer (1651–1716), médico alemão da Dutch factory entre 1690 e 1692, observou em A História do Japão (1727) que as cortesãs eram “assiduamente instruídas em dança, tocar instrumentos, escrever cartas e outras habilidades próprias desse sexo e dadas a uma vida de luxo” (Kaempfer, 1999, p.143 tradução nossa). Além de exímias poetisas, atuantes em círculos e concursos de kyōka, inclusive como juradas, elas figuram entre as primeiras mulheres a trocar correspondências com estrangeiros no Japão. Enquanto a historiografia privilegia documentos diplomáticos entre o xogunato e governantes estrangeiros, quase nada se estudou sobre as interações epistolares entre cortesãs e europeus. Este estudo se apoia sobretudo na pesquisa de Kazuo Katagiri, especialista nos intercâmbios culturais nipo-holandeses, que compilou cartas das yūjo pertencentes a Coleção Blomhoff, do Arquivo Nacional de Haia, onde analisa especialmente o papel dos tradutores nessas trocas. Neste estudo, proponho examinar algumas destas cartas com o intuito de compreender as técnicas de escrita utilizadas pelas cortesãs, bem como analisar de que forma a correspondência feminina contribuiu para a construção de vínculos afetivos, e culturais entre as cortesãs de Nagasaki e seus clientes holandeses em Dejima. A partir dessas cartas, procuro explorar como o domínio do nyohitsu e das convenções epistolares femininas permitiu às cortesãs projetar uma identidade letrada e refinada, transformando a escrita em um importante veículo de interação e intercâmbio cultural entre o Japão Tokugawa e o mundo europeu.
Maruyama: O Bairro dos Prazeres no Centro do Isolamento Nacional
A institucionalização dos bairros licenciados de prazer (yūkaku) foi um marco na história da prostituição no Japão do período Edo. Entre eles, destacam-se Yoshiwara (Edo), Shimabara (Quioto) e Shinmachi (Osaka), mas para o estudo das relações entre cortesãs japonesas e europeus, o caso de Maruyama, em Nagasaki, é central. Em contexto de intenso contato com estrangeiros, o bairro passou por mudanças após a repressão ao cristianismo e a política de isolamento (sakoku). Após a Revolta de Shimabara-Amakusa (1637–1638), o xogunato expulsou os portugueses, transferiu os holandeses para Dejima em 1641 e restringiu seus contatos com a população local. Nesse cenário, as cortesãs de Maruyama tornaram-se as únicas japonesas autorizadas a manter relações regulares com estrangeiros sob controle do governo Tokugawa (Karasawa, 2019, p.4 tradução nossa).
Esse contato precoce com estrangeiros contribuiu para uma cultura específica no yūkaku de Maruyama. Em muitos casos, os holandeses mantinham a mesma cortesã durante toda a estadia em Dejima, o que favorecia relações prolongadas: “No início do século XIX, a permanência de uma profissional do sexo em Dejima podia ser renovada indefinidamente…” (Stanley, 2012, p.79, tradução nossa). Isso sugere vínculos mais duradouros e íntimos entre cortesãs e clientes holandeses.
Apesar dessas particularidades, práticas tradicionais se mantiveram, como a escrita de cartas. O letramento era central para o sucesso das cortesãs. O manual Yūjo Anmon (1796) já apontava as dificuldades da escrita epistolar feminina: “Mesmo uma cortesã já madura… sempre se vê em apuros com o início do texto…” (Chōshōken, 1796, p. 1, tradução nossa). O texto ensina diferentes tipos de cartas, de saudações formais a cartas de amor, evidenciando seu caráter performativo e estratégico. A escrita funcionava como ferramenta essencial do ofício, associada à construção de desejo e refinamento, em um contexto de forte exploração econômica e contratos de servidão por dívida. Como observa Magowan (2024, p.144 tradução nossa), as qualidades do nyohitsu como sinceridade, calor e emoção, eram fundamentais para incentivar o envolvimento afetivo dos clientes.
A seguir, analisaremos duas cartas endereçadas ao Capitão Jan Cock Blomhoff, que chegou a Dejima em 1809 como opperhoofd e, posteriormente, teve relação com a cortesã Itohagi. Entre as cartas enviadas ao capitão, algumas são atribuídas à cortesã Hana. Embora simples, esses textos permitem examinar a cultura epistolar das cortesãs, o domínio das convenções do nyohitsu e a construção de uma identidade feminina letrada e refinada diante de interlocutores holandeses.
Transcrição: ちらと文して申あけまいらせ候、誠に、それよりは御なつかしく存じまいらせ候。また、わたしくし事もこの方へまいりたく候ゆえ、いかくいたしてよろしく御ざ候やわたくし案じくらしまいらせ候とて何分よろしく御存じらせくだされ、
これよし御尋ね申しあけまいらせ候 また、申し上げたく事 やまやまおわしまし候へとも いまた御目文字様ながら候ゆえ、御けんのふしとあらあら申上げまいらせ候
まつは あらあら かしく あなた様 19日 花ゟ
Escrevo‑lhe apenas algumas linhas para dirigir-lhe a palavra. A verdade é que desde então tenho sentido muitas saudades de ti. Também eu, por motivos pessoais, desejaria ir até onde estais. Por isso, fico pensando se tudo estaria bem e se poderia contar com sua boa acolhida, o que me deixa inquieta. Peço, portanto, que me informe como estão as coisas. Há ainda muitas outras coisas que eu gostaria de lhe dizer, inúmeras mesmo; porém, como ainda não tive a oportunidade de vê‑lo pessoalmente, escrevo apenas estas poucas palavras para não ser inconveniente. Por ora, despeço‑me assim, de maneira breve. Meu querido. Dia 19. Hana” (Tradução nossa)
Transcrição:
か様 花ゟ
あなた様御こともわたくしへつきさそかしおんせつわ様とさつしあけまいらせ候またゝあなた様へおんめも節致し候ろて御はなしたき事やま〱つかせ候へともいまた御げんもなくすさて〱うらやましくそんじまいらせ候
さて又わたしくし事わなにこともあなた様へ よろしく御ねがいあけ候ゆえ
すこしハあんしんいたし候ゆへなにぶん〱此うえなからよろしくおねかいまいらせ候 わたくしどもさびしきにばかり候ろてくらしまいらせ候にち〱もあなた様のよろしくへんじおたのしみおもいまいらせ候
十一日
まつハ御めもふし様の
Julgo que Vossa Senhoria também deva estar preocupado comigo e que certamente tenha demonstrado grande consideração por mim. Além disso, desejo muito enviar-lhe uma carta e há tantas coisas que gostaria de lhe contar. Contudo, ainda não tive notícias suas, e por isso sinto-me cada vez mais saudosa e invejosa daqueles que podem vê-lo.
Quanto a mim, em tudo dependo da bondade de Vossa Senhoria e humildemente lhe peço seus favores. Por isso, sinto-me um pouco mais tranquila.
Suplico, portanto, que continue a tratar-me com benevolência, como sempre.
Nós passamos os dias apenas em solidão, e dia após dia aguardamos com expectativa uma resposta sua favorável.
Dia 11 Antes de mais nada, envio-lhe esta carta. (tradução nossa)
Antes de analisar o conteúdo, observa-se nas duas cartas a forte presença de kana, característica associada nos manuais do período a uma escrita feminina e elegante. Nas transcrições, os kanji são mantidos visando uma melhor compreensão do leitor, mas o predomínio do kana cursivo cria um efeito visual fluido entre os ideogramas. Esse uso não indica apenas feminilidade, mas também marca de letramento e classe, já que as yūjo eram treinadas para uma escrita refinada e eficaz do ponto de vista afetivo.
O texto das cartas é marcado por abundantes formas honoríficas e humildes, como moushiake mairase sōrō, zonji mairase sōrō e otazune moushiake mairase sōrō. A combinação de verbos honoríficos como mairu (参る) e a fórmula sōrō (候), junto a expressões como makoto ni on-natsukashiku zonjimairase sōrō (“sinto muitas saudades de Vossa Senhoria”), sabishiki ni kurashimairase sōrō (“passamos os dias em solidão”) e watakushi anji kurashimairase sōrō (“tenho vivido preocupada”), indica o uso do nyohitsu, estilo epistolar feminino do período Edo. Segundo Magowan (2024, p. 131 tradução nossa), o nyohitsu vai além da semântica, funcionando como um recurso de construção de vínculos afetivos, mediação de relações e expressão de emoções à distância. As cartas seguem o modelo do Yūjo Anmon, tendo como objetivo central manter o vínculo com o destinatário por meio da expressão de saudade, preocupação e solicitação de resposta. Não é possível determinar, contudo, se sua produção partiu diretamente da cortesã ou se foi orientada pelo bordel como estratégia de fidelização do cliente.
Conclusão
É interessante observar que o hábito das cortesãs de escrever cartas aos clientes após suas visitas continuou sendo praticado, mesmo quando os clientes não eram de nacionalidade japonesa. Cartas criam expectativa, fidelizam clientes, constroem intimidade e este era o principal objetivo dos proprietários das casas de tolerância e suas cortesãs. Assim, mesmo quando o destinatário não dominava o japonês, a carta preservava sua função social: prolongar o vínculo, controlar o tom da relação e afirmar o refinamento da escritora. Entretanto, para que estas cartas fossem compreendidas pelo destinarário, a ajuda de tradutores era essencial. Segundo Karasawa, 2019, p.7 tradução nossa), “em Dejima, havia vários intérpretes holandeses e, a maioria dos holandeses habitantes da ilha, começando pelo chefe da companhia comercial, quase sempre contavam com a ajuda deles para realizarem suas tarefas”. Entretanto, Katagiri (2018, p.72 tradução nossa) mostra a existência de intérpretes e tradutores japoneses proficientes em holandês e que também atuavam como mediadores na comunicação entre as yūjo e os holandeses, sobretudo na tradução de correspondências entre eles. Surge, então, a questão: por que cartas dirigidas a europeus enfatizam uma identidade textual profundamente japonesa, em vez de recorrer diretamente a tradutores? A própria materialidade dessas cartas sugere que seu valor não residia apenas na mensagem, mas na sua “japonesidade” estética, associada ao nyohitsu. Não raro, mesmo incompletas para o leitor estrangeiro, eram preservadas e levadas à Europa, indicando que funcionavam também como objetos culturais. Ou seja, o cliente holandês não recebia apenas uma mensagem; recebia um objeto cultural que representava a feminilidade japonesa cultivada. Nesse sentido, o nyohitsu operava como capital cultural e forma de mediação social, permitindo às cortesãs projetar uma identidade feminina cultivada diante de interlocutores estrangeiros. Embora simples em conteúdo, essas cartas revelam o domínio das convenções epistolares e devem ser compreendidas dentro do rígido controle do xogunato sobre o contato com estrangeiros, no qual registros, autorizações e juramentos regulavam tais interações, como observado em Chaiklin (2022, p.10 tradução nossa), “as jovens autorizadas a frequentar os espaços destinados aos holandeses precisavam passar por procedimentos especiais de registro, e tanto elas quanto os proprietários dos bordéis deviam prestar juramentos de sangue comprometendo-se a não se envolver em atividades ilícitas, como contrabando ou conversão ao cristianismo”. Tais medidas revelam que as interações entre cortesãs e estrangeiros eram cuidadosamente monitoradas pelas autoridades e integravam uma política mais ampla de gestão dos contatos com o exterior.
Nesse contexto, as cortesãs desempenhavam um papel que ultrapassava o entretenimento. Entre os poucos japoneses autorizados a manter contato direto com os holandeses, elas contribuíam para projetar a imagem de uma sociedade culta e fiel às suas tradições, conforme desejava o regime Tokugawa. Por meio da escrita e das convenções do nyohitsu, demonstravam não apenas habilidades letradas, mas também valores associados à feminilidade culta e ao refinamento cultural.
Assim, a carta pode ser entendida tanto como evidência das práticas de letramento feminino quanto como parte de uma estratégia mais ampla de representação cultural nos limitados espaços de contato com o exterior. As correspondências das cortesãs ilustram bem a lógica do sakoku: não a ausência de contato, mas sua regulamentação. Dirigidas aos holandeses, essas cartas reinscreviam tradições japonesas em um contexto transnacional, fazendo da escrita das yūjo uma forma de diplomacia íntima capaz de estabilizar relações, negociar diferenças e projetar uma imagem de refinamento feminino para além das barreiras linguísticas.
Esse fenômeno também pode ser compreendido à luz do interesse que muitos holandeses demonstravam pela cultura erudita japonesa. Desde o século XVII, funcionários da Companhia Holandesa das Índias Orientais colecionavam manuscritos, pinturas, objetos de arte e livros japoneses, ao mesmo tempo em que procuravam compreender costumes, literatura e formas de sociabilidade locais. Alguns visitantes de Dejima registraram admiração pela caligrafia japonesa, pela poesia e pelo refinamento estético das cortesãs. Nesse contexto, cartas redigidas segundo as convenções do nyohitsu, com sua linguagem elegante e aparência visual cuidadosamente elaborada, não apenas atendiam às expectativas culturais japonesas, mas também correspondiam ao fascínio dos holandeses por elementos considerados distintivamente japoneses. A valorização da cultura clássica japonesa por parte desses interlocutores estrangeiros pode ter contribuído para que as cortesãs enfatizassem, em sua escrita, formas tradicionais de expressão e refinamento cultural.
Referências
Juliana Stracciolano é Doutoranda na University of Illinois Urbana-Champaign
CHAIKLIN, Martha. Unseasonal winds of love: a history of prostitution and the foreign community in early modern Nagasaki. U.S.-Japan Women's Journal, n. 61, p. 1–33, 2022.
CHŌSHŌKEN. Yūjo anmon (遊女案文). Naniwa: Kawachiya Sōbei; Ōgiya Risuke, 1796.Disponível em: https://dl.ndl.go.jp/pid/2539863
FRÓIS, Luís. História de Japam. Ed. José Wicki. Lisboa: Biblioteca Nacional de Lisboa; Secretaria de Estado da Cultura, 1976–. 5 vol.
FUJIMOTO, K.; NOMA, K. Shikidō ōkagami. Tokyo: Yagi Shoten, 1974.
KAEMPFER, Engelbert. Kaempfer's Japan: Tokugawa culture observed. Tradução de Beatrice M. Bodart-Bailey. Honolulu: University of Hawai‘i Press, 1999.
KARASAWA, Mutsumi. Edo jidai ni okeru Maruyama yūjo no jittai to sono imeejii Oranda jin Toujin tono kakawari wo chūshin toshite( 江戸時代における丸山遊女の実態とそのイメージ―阿蘭陀人・唐人との関わりを中心として). Kyoto: Kyoto University of Foreign Studies, 2019. Disponível em:
https://lab.kuas.ac.jp/~jinbungakkai/pdf/2019/h2019_06.pdf. Acesso em: 15 jun. 2026.
KATAGIRI, Kazuo. Dejima yūjo to Oranda tsūji (出島遊女とオランダ通詞). Tokyo: Bensei Shuppan, 2018.
KEENE, Donald. Landscapes and portraits: appreciations of Japanese culture. Tokyo; Palo Alto: Kodansha International, 1971.
MAGOWAN, Helen Louise. Reading the lines: Edo period nyohitsu and the construction of meaning through script form. [S.l.: s.n.], 2024.
SEIGLE, Cecelia Segawa. Yoshiwara: the glittering world of the Japanese courtesan. Honolulu: University of Hawai‘i Press, 1993.
STANLEY, Amy. Selling women: prostitution, markets, and the household in early modern Japan. Berkeley: University of California Press, 2012.
WATANUKI, Toyoaki (綿抜豊昭). Edo no koibumi: iiyoru, kudoku, mono ni suru (江戸の恋文―言い寄る、口説く、ものにする). Tokyo: Heibonsha, 2014.


Prezada Juliana,
ResponderExcluirDuas dimensões me parecem especialmente promissoras lendo seu texto. A primeira diz respeito ao que você caracteriza como caráter "performativo e estratégico" da escrita epistolar. Entendo que a carta, ao seguir as convenções do nyohitsu, não apenas expressa sentimentos, mas atua sobre a relação, construindo vínculo e projetando uma imagem de refinamento. Nesse sentido, a escrita não seria um reflexo de uma identidade preexistente, mas um ato que a produz na própria interação com o destinatário, o que é particularmente relevante quando esse destinatário é estrangeiro e depende de tradutores para compreender a mensagem.
A segunda dimensão diz respeito à circulação dessas cartas para além do Japão. O fato de terem sido preservadas e levadas à Europa sugere que funcionavam como objetos culturais que representavam, para os holandeses, algo da "japonesidade", uma feminilidade cultivada, um refinamento estético e uma alteridade desejável. Isso me leva a pensar na tensão entre duas dinâmicas: de um lado, a agência das cortesãs, que utilizavam a escrita como ferramenta de trabalho para fidelizar clientes estrangeiros; de outro, a recepção ocidental, que transformava essas cartas em objetos de fascínio e coleção, alimentando um imaginário orientalista sobre o Japão. Nesse sentido, por que os holandeses valorizavam tanto levar essas cartas, escritas em japonês, muitas vezes sem que eles próprios as lessem diretamente, de volta para a Europa? E o que essa preservação revela sobre o lugar que as cortesãs ocupavam na construção de uma imagem do Japão para o Ocidente? E por fim, seria possível, a partir dessas cartas, entender a agência dessas mulheres?
Beatriz Bahiense Tavares
Beatriz Bahiense Tavares
Querida Beatriz
ExcluirMuito obrigada pelo comentário e pelas perguntas tão bem formuladas.
Respondendo à questão sobre o porquê de os holandeses valorizarem tanto essas cartas a ponto de levá-las para a Europa, eu arriscaria alguns fatores. O primeiro deles, como mencionei no artigo, diz respeito à valorização de obras "orientais" já naquela época e à apreciação pelo exótico, visto que a escrita japonesa provoca uma forte admiração por sua complexidade e beleza, o que poderíamos considerar um pré ou proto-orientalismo.
Outros dois fatores, que não cheguei a abordar no trabalho, seriam:
1. A dinâmica da conquista e do status: Acredito que tais cartas serviam como prova do status masculino e social dos holandeses, comprovando não só que estiveram no Japão, mas que tiveram acesso ao bairro de prazeres e às cortesãs , algo muito ligado à validação do ego masculino da época.
2. A dimensão afetiva: Muitos holandeses mantiveram as cortesãs como companheiras, chegando a coabitar com elas; alguns, inclusive, constituíram uniões estáveis e tiveram filhos. Sendo assim, há um componente emocional evidente no desejo de preservar a carta de um amor ou de uma paixão vivida durante aquele período.
Em relação à agência das cortesãs, se ela existia, era fortemente mediada e controlada. Devemos considerar que o contexto era o do período Sakoku e que, apesar da relativa liberdade que elas possuíam se comparadas às cortesãs de outros bairros (como Yoshiwara e Shimabara), havia uma vigilância severa e diversas regras estipuladas pelo xogunato.
Espero ter respondido às suas perguntas. Graças ao seu comentário tão enriquecedor, percebi que este tema pode ser expandido de diversas formas. Muito obrigada!
Fico feliz que minhas perguntas tenham provocado (de maneira positiva) a expansão da sua pesquisa. Seguindo a linha do provocar, ainda me questiono que mesmo sendo mediadas e controladas, o quanto da pra ver nessas cartas o que essas mulheres queriam, sentiam e pensavam. Mesmo que fosse um trabalho com muitas vigias, elas ainda tinham intimidade e um, literal, trabalho a fazer com seus clientes, então, o que é trabalho e o que é amor? O que é a cortesã e o que é a mulher atrás dela negociando, lutando, pensando? Seu comentário me fez lembrar de duas coisas: Primeiro, a introdução livro "Women and Gender in the Early Modern Low Countries, 1500–1750", que a pesquisadora Martha Howell vai dizer: "Thus, for the most part we read not of women who overturned the patriarchal regime but of those who “negotiated the system” to protect their interests, who “worked around” the constraints of law to achieve a goal not intended by the law, or who “strategically positioned themselves” in ways that benefited them, all suggesting that agency was achieved by circumventing rather than confronting or altering conventional norms." (p.24). Ademais, lembro também, logo do começo, em "Problemas de Gênero" em que a Judith Butler cita Foucault para dizer que o sistema jurídico não apenas regulam a vida política, como também produzem os sujeitos. Essas mulheres por serem constantemente vigiadas e provavelmente terem regras de conduta, estão sendo "produzidas" mas o "sistema" nunca consegue ser 100% dominador, gênero e o sujeito precisam ser reproduzidos e repetidos o tempo todo para parecerem reais, essa repetição está fadada a falhar. Essas cortesãs podem ser constantemente vigiadas e terem as relações mediadas mas a repetição sempre falha. E é ai que entra a agência, nas falhas de repetição. E sigo na pergunta, nessas cartas, não dá para ver nada do que é dessa mulher negociando, pensando, decidindo por ela(s) mesma(s)?
ExcluirOlá, Juliana-sensei!
ResponderExcluirMuito obrigado pela chance de ler um pouca de sua pesquisa, foi bastante instrutiva e abriu um novo espaço de reflexão na minha cabeça.
Queria fazer uma pergunta mais simples. Olhando as imagens em anexo ao seu texto, reparei que há ali algumas inscrições entre linhas que parecem letras cursivas do alfabeto latino. Tentei baixar as imagens para analisar melhor, mas não consegui. Você poderia me dizer o que são essas inscrições entrelinhas?
Mais uma vez, muito obrigado pela chance de ler seu texto!
att.
Felipe Chaves Gonçalves Pinto
Oi, Felipe sensei! Obrigada pelo comentário. As inscrições entre linhas em alfabeto latino às quais você se refere são as palavras traduzidas pelos tradutores oficiais. Estão escritas em holandês, e os tradutores costumavam inserir apenas as palavras-chave ao invés de traduzir a frase inteira. Por isso vemos as palavras soltas entre uma linha e outra. Eu abordei esse tema em um outro artigo que enviei para um congresso de tradução. Se for publicado, eu te aviso! Um abraço.
ExcluirQue legal!! Me enviei sim, por favor!
ExcluirObrigado pela resposta :)
Bom dia, Juliana-san.
ResponderExcluirGostei muito da forma como você trabalha a escrita das cartas para além de sua função comunicativa, mostrando-a como uma prática performativa e estratégica de construção de vínculos e de uma identidade feminina letrada. Enquanto lia, fiquei pensando se essa performance poderia ser entendida não apenas como uma exigência do sistema dos bairros de prazer, mas também como um espaço de atuação das próprias cortesãs. Nesse sentido, você enxerga essa identidade feminina projetada nas cartas apenas como um instrumento de exploração econômica ou acredita que ela também poderia funcionar como um recurso de agência para as próprias cortesãs?
Carolina Benkert
Olá, Carolina! Obrigada pelo comentário e pela pergunta. Tenho refletido continuamente sobre o espaço de atuação das cortesãs e sobre a possibilidade de identificarmos alguma forma de agência por trás de cada obra escrita por elas. Até o momento, ainda não cheguei a uma conclusão. Seja na composição de poemas ou nas cartas dirigidas aos holandeses, parece sempre haver um enquadramento maior ao qual elas respondem.
ResponderExcluirNo caso da poesia, as cortesãs participavam de círculos literários nos quais os temas eram previamente definidos, como estações do ano, flores sazonais, entre outros, de modo que a composição se orientava por convenções estabelecidas. Quanto às cartas enviadas aos holandeses, torna-se difícil determinar até que ponto é possível reconhecer a “voz” da cortesã, já que havia uma vigilância constante do xogunato, além de regras rígidas que elas precisavam cumprir.
Para chegar a uma conclusão mais sólida, ainda preciso continuar lendo e analisando as cartas destinadas aos holandeses, bem como outros materiais produzidos por elas. Espero ter respondido à sua pergunta. Mais uma vez, agradeço pelo comentário.
Olá, Juliana. Parabéns pela sua excelente pesquisa. Seu trabalho muito me encanta, adoraria ler mais! Achei fascinante a sua leitura do nyohitsu como uma forma de 'diplomacia íntima' e capital cultural. Porém, também me chamou atenção a afirmação de que essas mulheres estariam inseridas em um contexto de exploração econômica e servidão por dívida, seguindo manuais epistolares como o Yūjo Anmon.
ResponderExcluirEu pesquiso narrativas hagiográficas femininas (vidas de santas) do Império Bizantino, e uma discussão que aparece com certa frequência em trabalhos recentes debate a ‘agência’ dessas mulheres. Porém, é difícil discutir agência dessas personagens quando muitas dessas obras — em especial as mais antigas — são redigidas por homens pertencentes à hierarquia eclesiástica e, além disso, assim como verifica-se no seu trabalho, essas narrativas hagiográficas seguem padrões de escrita e repetições, pois baseiam-se em obras prévias e estruturas retóricas configurando topoi. Sendo assim, acaba-se questionando até mesmo a existência de algumas delas.
No caso das yūjo, sabemos que elas não só existiram, como elas de fato redigiram essas cartas — ainda que seguindo um manual estrito. A partir disso, como você lida, em sua pesquisa, com a tensão entre a 'agência' dessas cortesãs ao projetarem sua identidade letrada e a afirmação de que essas cartas são primariamente 'produtos institucionais' dos bordéis, fabricados por exigência dos donos para a fidelização comercial dos estrangeiros? Seria possível rastrear a subjetividade real de algumas dessas yūjo por trás da vasta cortina de formalidades e manuais?
Ricardo Russo Carvalho
Olá, Ricardo!Muito obrigada pelo seu comentário enriquecedor. Seus questionamentos realmente tocam no cerne principal da pesquisa (a qual ainda está em fase inicial), que é como rastrear a subjetividade das yūjo por trás de um contexto permeado em formalidades e controle. As cartas que eu analisei (são apenas duas) para o artigo aqui exposto, são exemplos de cartas de fidelização comercial, pois era prática comum em todos os bairros dos prazeres do Japão (Yoshiwara, Shimabara, etc.). Porém, há mais de cem correspondências entre cortesãs e holandeses arquivadas, sendo algumas cartas de agradecimento, outras bem pessoais e até românticas. Infelizmente, não pude abordar toda a riqueza do conteúdo das cartas das cortesãs, mas ainda assim, era tradição entre as cortesãs escrever cartas de amor para seus clientes ainda que isso fosse uma mera performance. A grande questão é como resgatar “a voz” das cortesãs ou de qualquer outro sujeito historicamente subalternizado sem ignorar as estruturas de opressão dos bordéis, mas também manter um olhar humanizado, sem considerá-las como autômatas. Ainda pretendo levantar várias hipóteses, mas talvez uma abordagem plausível fosse observar onde e como as yūjo usavam as ferramentas opressoras do sistema para criar laços de afeto ou para expressar sua subjetividade. Mais uma vez, obrigada pelo comentário e pelas perguntas.
ExcluirCaraJuliana, a minha pergunta é direta: considerando que o texto demonstra a importância das cortesãs como agentes culturais e difusoras de práticas artísticas, até que ponto essa valorização histórica pode contribuir para invisibilizar as relações de exploração, desigualdade de gênero e restrição da autonomia feminina que também marcaram esse universo? Ou seja, como equilibrar uma leitura que reconheça seu protagonismo cultural sem romantizar as estruturas sociais que condicionavam suas trajetórias?
ResponderExcluirOlá, Alexander!
ExcluirSeu comentário sobre o equilíbrio é fundamental porque toca em um dos objetivos que tenho nesta pesquisa sobre a escrita das cortesãs. Quando iniciei a pesquisa sobre a escrita das cortesãs (poemas, cartas, etc.), o objetivo era evidenciar como elas tinham a capacidade de agir e influenciar mesmo em condições tão adversas. Equilibrar uma leitura que reconheça seu protagonismo cultural sem romantizar as estruturas sociais que condicionavam suas trajetórias como você mencionou, é um desafio, mas acredito que o acesso à cultura, à literatura e às artes era, muitas vezes, a única moeda de troca que possuíam para negociar alguma autonomia em um mundo que elas eram tratadas como mercadoria. A pesquisa ainda está em fase inicial, mas uma das preocupações que eu tenho é a de não romantizar o lado das cortesãs (como geralmente acabam fazendo) nem de colocá-las como vítimas. E, obviamente, fazer com que a valorização histórica delas não apague ou invisibilize a exploração e o sistema no qual estavam inseridas. Mais uma vez, obrigada pela provocação metodológica, pois é sempre importante não perder o foco.