O termo “marcial” possui raiz etimológica no deus Marte, uma personificação da guerra presente na mitologia romana. Diante disso, ao classificarmos uma determinada prática como marcial, estamos enfatizando que se trata de luta desenvolvida entorno do belicismo, de contextos de guerra, de revolta, de motins, de resistências etc. Conforme Gilbert de Oliveira Santos:
“No contexto das práticas corporais é o aspecto marcial do gesto que diferencia as artes marciais de outras práticas e conhecimentos sobre o corpo, ou seja, a origem e o desenvolvimento do gesto marcial pressupõem a ideia de um combate e isto lhe confere certas particularidades” [Santos, 2014, p.1].
É sob este prisma de combate que buscamos tratar as práticas corporais aqui citadas.
As raízes históricas da capoeira
As origens mais longínquas da capoeira remetem ao Brasil Colonial, podendo ser mapeada suas primeiras aparições no Rio de Janeiro, ainda na segunda metade do século XIX. Entretanto, as raízes mais profundas da capoeira se encontram no continente Africano. Sua ancestralidade pode ser rastreada em lutas, danças, rituais e práticas corporais como o N’golo e danse de la guerre.
O desenvolvimento da capoeira emergiu como a respostas mais imediata dos africanos escravizados ao sistema que os oprimia. Por isso, categorizamos a capoeira como uma arte marcial afro-brasileira essencialmente emancipatória.
Vale acrescentar que a Capoeira, ao longo do processo histórico, passou por diversas mudanças e adaptações, sendo inclusive influenciada sutilmente através de interações com outras artes marciais.
Capoeira e as artes marciais japonesas
O contato da capoeira com práticas estrangeiras intensificou-se na primeira metade do século XX, em um momento de busca pelo reconhecimento da capoeira como símbolo nacional. Um marco importante, amplamente documentado pela impressa da época, foi quando o capoeira Cyriaco lutou com Sada Miyako, um japonês mestre de jiu-jitsu. A vitória de Cyriaco sobre Sada Miayako deu combustível para entusiasta da arte marcial afro-brasileira, que passaram a usar o ocorrido para enaltecer a superioridade da capoeira frente a outras modalidades. Vale ressaltar que o confronto ocorreu em um contexto no qual a Marinha brasileira introduzia o jiu-jitsu como método de treinamento para seus marinheiros. Segundo Marcelo Moraes e Silva:
“O primeiro instrutor de jiu-jitsu na Marinha foi Sada Miyako. Contudo, suas atividades não ficaram restritas ao ensino da arte marcial à marinhagem, visto que ele realizou diversas apresentações de jiu-jitsu em teatros, bem como participou de alguns combates, desafiando praticantes de outras modalidades de luta como o boxe, a luta livre e o savate. [...] Contudo, o combate entre Sada Miyako e Cyriaco iria mudar o curso dos acontecimentos. Tal confronto obteve ampla repercussão, pois nesse embate o brasileiro derrotaria o japonês, com a aplicação de um golpe denominado “rabo de arraia”, o que foi amplamente utilizado por setores nacionalistas da imprensa” [Silva, 2023, p.5].
Desde então, proliferaram registros de capoeiristas desafiando praticantes de outras modalidades. Esses duelos foram essenciais para a construção da identidade da capoeira, sendo imortalizado em cantos tradicionais, como na letra de “Foi no clarão da Lua”:
“Foi
Foi no clarão da Lua
Que eu vi acontecer
Num vale tudo com o jiu-jitsu
O capoeira vencer (mas foi)”
Para além dos duelos, também é possível identificar influência técnicas de outras lutas, sobretudo na capoeira regional desenvolvida por Mestre Bimba. Conforme análise de Rômulo Meira Reis et al (2020), a capoeira regional incorporou elementos da lua greco-romana, jiu-jitsu, judô e a savata (box francês).
“Nesse ensejo, umas das evidências mais latentes registradas por Lacé Lopes (2002 e 2006) é a explicação contida no livreto que acompanha o primeiro disco “Curso de Capoeira Regional – Mestre Bimba”, onde é possível perceber a explicitamente a existência de outras lutas: “Seu espírito criador fez um aproveitamento da savata, jiu-jitsu, greco-romana e do judô”, frase esta que foi suprimida das edições seguintes do disco" [Reis, 2020, p.104].
Mesmo adeptos da capoeira angola utilizavam a vertente regional para reafirmar sua identidade marcial frente a outras práticas. O relato de Mestre Sergipe sobre sua chegada em Curitiba é ilustrativo e torna evidente essa tática:
“Quando cheguei aqui era época do Bruce Lee, era a explosão do kung fu, do karate, do judô. E cada academia de karate tinha o dia inteiro de aula e cada aula tinha 30 alunos. Isso de manhã, imagine de noite (...) E a Capoeira não tinha nada. Se eu ficasse só na Capoeira angola, que é um jogo lento rasteiro, o pessoal ia dizer: Mas isso é uma brincadeira! Porque o povo não entende a malícia da Capoeira do toque de angola. Aí eu vi a necessidade de dizer É regional! E subia nas paredes, dava mortal, brigava com carateca, batia e apanhava, tinha que mostrar que era uma luta de validade também. Para sobreviver no mercado. Para sobressair então até coloquei na academia durante muitos anos a placa de Capoeira regional, e também conhecia porque eu vivi na época de Mestre Bimba e Mestre Pastinha, eu vivi junto até os 20 anos. Então eu conhecia o estilo. Até ensinei as sequências um tempo, mas o meu mestrado, a minha Capoeira eu tô definido na Capoeira angola pura” [Sergipe apud PORTO et al, 2010, p. 172].
Mestre Sergipe chegou a incorporar, momentaneamente, o sistema de graduação por faixas oriundo dessas artes marciais, utilizando-as como um mecanismo de padronização e hierarquia [Sergipe apud PORTO et al, 2010]. Outras academias de capoeira seguiram caminho similar, como o grupo Farol da Bahia, dirigido por Mestre Piton, que inicialmente se inspirou nas academias de artes marciais clássicas para estruturar seu espaço, onde conviviam a capoeira, o caratê e a dança [Correio de Notícias ,1990, s/p].
A propósito, um aspecto bastante peculiar da capoeira paranaense, a partir da década de 70, foi o compartilhamento da academia com outras modalidades. Além de uma forma de reduzir os custos de aluguel, evidencia-se um companheirismo entre os mestres.
Capoeira e as artes marciais chinesas
É conhecida a fotografia de Mestre Pernambuco realizando um movimento de kung Fu com um de seus alunos nas Ruinas do Largo da Ordem, em Curitiba. Esse registro demonstra uma relação interessante entre o wushu (Arte Marcial) e a capoeira, expressando que existia apreço de muitos mestres pelas modalidades chinesas.
A hipótese é que não se tratava de um simples processo de aculturação devido aos sucessos dos filmes de Bruce Lee. Embora a circulação desta filmografia tenha auxiliado na difusão, a incorporação de movimentos da marcialidade chinesa por capoeiristas sugere uma percepção de afinidades estética e gestual entre ambas as práticas corporais.
As razões históricas pelas quais as artes marciais chinesas e a capoeira foram desenvolvidas são, obviamente, distintas. Sobre isso, Santos sugere que:
“A China, diferente do Brasil, possui uma tradição histórica de guerras e conflitos que repercutiu sobremaneira em suas práticas corporais, por isso, Andraus (2012) aponta que a capoeira não se estabelece da mesma forma na sociedade brasileira como o wushu na China, pois lá como igualmente em outros países da Ásia, Europa e Oriente Médio, o treinamento marcial era, de fato, um treinamento para a guerra” [Santos, 2014, p.1] .
Contudo, é preciso salientar que a capoeira também se desenvolve em um contexto de “guerra cotidiana” entre escravizados e as forças repressivas, além de ter presença em conflitos como a Guerra do Paraguai. Além disso, como define Fernandes:
“O termo guerra não se limita a um conflito corporal, seja em pequena escala ou grande. Podendo ser uma guerra por libertação, uma guerra entre classes, etc. Acontece que estamos tão habituados a pensar as lutas e guerras apenas como algo ligado ao combate corporal, seja esportivo ou real, que temos dificuldade de vermos algumas práticas marciais como luta. Esse é o caso da Capoeira Angola, mas também do Tai Chi Chuan” [Fernandes, 2023, p.84].
O encontro entre capoeira e wushu ocorre, conforme aponta Santos (2014), na dimensão poética e lúdica do gesto. “Assim como a capoeira, o wushu torna-se uma dança guerreira ou uma prática que transita entre o jogo, teatro, luta e dança [Santos, 2014, p.1].
Considerações finais
As nuances da capoeira e as interações com as matrizes marciais asiáticas, revelam uma prática em constante reinvenção, que tacitamente transitou entre a ancestralidade africana e as exigências de modernização do século XX, estabelecendo diálogos com modalidades como o jiu-jitsu e o wushu, a capoeira não apenas incorporou novos elementos técnicos e organizacionais, como o conceito de sistema de graduação e o compartilhamento de academias, mas também reafirmou sua potencialidade marcial em contextos de disputa simbólica e nacionalista. Essa hibridização, longe de apagar suas raízes, serviu como uma tática de sobrevivência e legitimação, permitindo que diversos mestres posicionassem a arte marcial afro-brasileira em um mercado dominado pelas artes marciais estrangeiras.
Por fim, a intersecção entre a capoeira e as lutas orientais destaca uma dimensão poética e lúdica comum, onde o gesto oscila entre o combate real e a dança teatralizada. A resistência que define a capoeira, portanto, não se limitou ao período colonial, mas estendeu-se para uma "guerra cotidiana" por espaço e reconhecimento social. Conclui-se que a capoeira permanece como um símbolo de liberdade e adaptação, unindo eficiência técnica e plasticidade artística em uma narrativa contínua de afirmação da identidade brasileira.
Referências
Jeferson do Nascimento Machado é professor no CIEE-PR e doutorando em História pela UEM.
"FAROL da Bahia": jornal onde mestre Piton dá as dicas da capoeira. Correio de Notícias, Curitiba, ano 1, n. 19, p. s/p, 21 out. 1990.
REIS, Rômulo Meira; TRIANI, Felipe da Silva; TELLES, Silvio de Cassio Costa. Possíveis contribuições de outras lutas à capoeira. Revista Carioca de Educação Física, [s. l.], v. 15, n. 2, 2020.
SANTOS, Gilbert de Oliveira. Aproximações técnicas entre as artes marciais chinesas e a capoeira. EFDeportes.com, Buenos Aires, ano 19, n. 198, nov. 2014. Disponível em: http://www.efdeportes.com/. Acesso em: 11 abr. 2026.
FERNANDES, Felipe Araujo. Quando a arte e o artista se misturam: a Capoeira Angola e a luta pela liberdade. Revista Científica de Artes/FAP, Curitiba, v. 28, n. 1, jan./jun. 2023.
SILVA, Marcelo Moraes e. A construção de um improvável herói esportivo: o capoeira Cyriaco (1909-1925). Tempo, Niterói, v. 30, n. 1, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/tem/a/gtRgppzqLD6JRH8BqKxZ8mP/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 11 abr. 2026.
PORTO, L; NOVICKI, M; MASCARELLO, M L; GUIDES, A. Curitiba entra na roda: presença(s) e memória(s) da Capoeira na capital paranaense. Curitiba: Edição do autor, 2010.
Correção: onde diz "podendo ser mapeada suas primeiras aparições no Rio de Janeiro, ainda na segunda metade do século XIX.", leia-se século XVIII.
ResponderExcluirOlá, Jeferson. Parabéns pelo seu texto. Gostaria de saber, na sua opinião, que mecanismos jurídicos permitiriam que a capoeira, uma dança e luta que mescla características orientais pudesse fazer parte do currículo escolar da educação básica? Pergunto, pois em meio à existência da lei 10639/2003 há entraves que perpetuam o racismo estrutural na sociedade brasileira. Att. Luciano Araujo
ExcluirCaro Jeferson! Durante a leitura, uma questão me chamou bastante a atenção. Em diversos momentos, o texto evidencia que a incorporação de elementos das artes marciais asiáticas ocorreu como uma estratégia de fortalecimento da identidade marcial da capoeira e de sua inserção em um cenário competitivo dominado por modalidades estrangeiras.
ResponderExcluirEssa aproximação parece ter produzido um movimento simultaneamente paradoxal: ao mesmo tempo em que contribuiu para o reconhecimento público e institucional da capoeira, também pode ter reforçado critérios de legitimidade baseados em modelos organizacionais e estéticos externos, como sistemas de graduação, hierarquias formais e concepções de eficiência técnica típicas das artes marciais orientais.
Nesse sentido, pergunto: até que ponto esse processo de diálogo com as matrizes asiáticas pode ser compreendido como uma estratégia de fortalecimento da identidade da capoeira e, ao mesmo tempo, como um processo de reconfiguração de sua própria tradição?
Em outras palavras, haveria o risco de que, ao buscar reconhecimento dentro de um paradigma marcial internacional, a capoeira passasse a adotar referenciais de legitimidade que não emergiram de sua própria matriz afro-brasileira? Ou seria mais adequado compreender esse fenômeno como uma expressão da própria capacidade histórica da capoeira de ressignificar influências externas sem perder sua identidade original?
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ExcluirCaro Alexander!
ExcluirAgradeço pela a eitura e pela provocação.
O que aconteceu na capoeira do século XX foi um processo de antropofagia cultural: ela engoliu alguns elementos da estética e da organicidade das artes marciais orientais para se fortalecer socialmente, mas digeriu isso à sua própria maneira. A adoção de cordas e uniformes gerou uma tradição inventada que serviu como tática de sobrevivência institucional e comercial frente ao domínio estrangeiro.
Contudo, como você bem pontuou, esse movimento cobra seu preço até hoje. Existe uma tensão permanente e atual na capoeira: de um lado, grupos que criticam essas mudanças, apontando-as como uma mercantilização que esvazia os fundamentos de resistência e emancipação da roda; de outro, aqueles que defendem que essa modernização foi o que permitiu à prática sobreviver e se expandir globalmente.
O texto aponta que os mestres de capoeira, como o Mestre Sergipe, recorreram ao sistema de graduação por faixas do jiu-jitsu japonês, a técnicas de outras lutas e até à própria denominação "Regional" para provar, no mercado competitivo, que a capoeira "também era uma luta de validade". Ao mesmo tempo, porém, o texto define a capoeira como uma arte marcial afro-brasileira essencialmente emancipatória, cuja legitimidade deveria advir da história de resistência dos escravizados, e não da imitação ou empréstimo de sistemas marciais estrangeiros hegemônicos. Diante disso: quando os mestres de capoeira se apropriam ativamente de formas técnicas e estruturas institucionais do jiu-jitsu japonês ou do wushu chinês para "comprovar" a eficácia marcial da própria prática, isso não sugeriria que, na sociedade brasileira do século XX, a legitimidade da capoeira como expressão cultural negra ainda dependia de sua validação por padrões marciais estrangeiros considerados mais "autorizados"? Essa estratégia de "autoafirmação através do padrão do outro" seria, de fato, uma evidência da agência e da capacidade de adaptação da capoeira, ou revelaria, ainda que simbolicamente, a posição estruturalmente subalterna ocupada pelas práticas culturais negras na busca por reconhecimento social?
ResponderExcluirJingyi Xiong
Caro(a) Jingyi Xiong,
ResponderExcluirSua provocação é cirúrgica e expõe a ferida do racismo. Para responder diretamente: essa estratégia foi as duas coisas ao mesmo tempo. Ela evidencia a subalternidade imposta às práticas negras e, simultaneamente, a agência tática dos mestres para sobreviver.
Não podemos esquecer o peso histórico: a capoeira foi criminalizada pelo primeiro Código Penal da República (1890), gerando prisões em massa. O próprio Mestre Bimba dizia que, na época, "a polícia perseguia um capoeirista como se persegue um cão danado". O fato de ele precisar omitir o termo "capoeira" e criar a "Luta Regional Baiana", adotando o modelo de outras lutas, mostra uma cultura encurralada. O Estado só aceitou validar a prática quando ela foi integrada ao projeto varguista de identidade nacional.
Para garantir a sobrevivência física e comercial da prática, os mestres usaram o espelhamento nas artes orientais (como faixas e uniformes) como uma tática de camuflagem. Adotaram essa roupagem externa para salvar o coração da roda.
Contudo, essa concessão criou uma armadilha. Este impasse emerge constantemente nos debates e tensões entre a capoeira angola e a capoeira de rua — que buscaram preservar suas próprias linguagens e a ancestralidade —, e as vertentes regional e contemporânea, que optaram pela esportivização. Mas mesmo a capoeira mais "tradicional" também foi influenciada por estas adaptações.
Essa abertura institucional abriu precedentes. Um reflexo atual disso é a "capoeira gospel", que esvazia a prática de seus cantos e fundamentos de matriz afro-brasileira para torná-la aceitável em certos templos e mercados religiosos.
Um abraço,
Jeferson Machado