ENTRE TRADIÇÕES E REIVINDICAÇÕES: DIÁLOGOS E LEITURAS DOS CLÁSSICOS CONFUCIONISTAS PARA MULHERES por Isabella Padula e Rozely Menezes Vigas Oliveira

 

Ao estudar as relações de gênero na China, é notável que um dos principais aspectos sócio-culturais aparentes seja a prática do Confucionismo, ou (ru), visto que desde o período da Dinastia Han (206 A.E.C. – 220 E.C.), com a oficialização do confucionismo como política oficial do governo, a prática foi amplamente difundida. Ao longo dos últimos dois milênios, a filosofia se provou a tradição intelectual mais proeminente do país. Sendo assim, diversos intelectuais e acadêmicos chineses contribuíram para a manutenção e renovação desta até os dias atuais. Apesar da maioria ser homens, houve também mulheres exemplares – a serem apresentadas a seguir – que não apenas colaboraram para a preservação das práticas morais e filosóficas, mas estabeleceram um novo modo de produção intelectual visando a educação de suas contemporâneas.

 

Essas produções educativas, embora muito valorizadas por terem sido produzidas por mulheres instruída, tornaram-se fontes de discussões sobre a perpetuação das práticas opressivas de gênero, aparentemente presente em seu conteúdo. De acordo com Li-Hsiang Lisa Rosenlee (2006: 119), até o século XVII, as obras eram vistas como fundamentais para uma identidade feminina amparada na alta cultura e tradição intelectual. Contudo, questionamentos intensificados nos séculos XIX e XX, de que as próprias autoras reforçaram comportamentos opressores fomentaram críticas ocidentais, ancoradas no pensamento anglo-saxão. De modo que o confucionismo foi apontado como violador das liberdades individuais, enquanto, críticas orientais, reforçadas pelo Partido Comunista rejeitaram radicalmente a filosofia, associando-a diretamente à raiz da inferioridade e ao mal-estar da China moderna (ROSENLEE, 2024: 12).

 

No entanto, apesar das críticas, nas últimas três décadas surgiram tentativas de resgatar a prática a fim de estabelecer uma aproximação entre a filosofia e um equilíbrio mais equitativo nas relações de gênero. Deste modo, a presente articulação se propõe a compreender as tradições confucionistas femininas, com ênfase em quatro autoras fundamentais, bem como apresentar críticas e defesas a seus trabalhos. Propõe-se também analisar a investigação contemporânea de feministas chinesas que buscam reconstruir conceitos confucionistas, como nei-wai e yin-yang – em geral, ambos os termos denotam distinções complementares que definem a adequação de duas esferas de gênero e a divisão normativa de trabalho –, perpetuados no passado e retomados a fim de fundamentar relações de gênero de forma mais equilibrada, com o intuito de,  simultaneamente, estabelecerem-se como alternativa aos cânones feministas de tradição anglo-saxã.

 

Os Quatro livros para mulheres, mais conhecidos pelo nome original 女四书 (Nü Sishu), são uma coleção de quatro textos compilados por Wang Xiang 王相, um escolar da Dinastia Ming (1368 – 1644 E.C.), filho de uma das autoras cujo texto está presente na compilação (PANG-WHITE, 2016: 17). A inspiração para o trabalho de Wang deve-se à proposta de estabelecer uma contraparte feminina ao já existente Quatro livros, 四書 (Sishu), uma coleção que exerceu grande influência na sociedade chinesa, em especial durante os séculos XIV a XIX (PANG-WHITE, 2016: 18).

 

Os livros que compõem a compilação são respectivamente: Lições para mulheres, 女誡 (Nüjie), escrito durante a Dinastia Han por Ban Zhao 班昭; Analectos para mulheres, 女論語 (Nü Lunyu), escrito durante a Dinastia Tang (618 – 907 E.C.) por duas irmãs, Song Ruoxi 宋若莘 e Song Ruozhao 宋若昭; Ensinamentos para a corte interna, 內訓 (Neixun), escrito durante a Dinastia Ming (1368 – 1644 E.C.) pela Imperatriz Renxiao Wen 仁孝文; e, por fim, Breves registros de modelos para mulheres, 女範捷錄 (Nüfan Jielu), escrito pela Madame Liu, mãe de Wang Xiang, também na Dinastia Ming –  seus trabalhos tem cerca de um século de distância temporal. Apesar dos livros terem sido compilados em um cânone da literatura chinesa, as obras apresentam singularidades, aprofundando temas próprios às autoras e seus contextos. Deste modo, antes de compreender os elogios e críticas feitos por leitores póstumos aos Quatro livros para mulheres, é necessário refletir sobre os conteúdos individuais e correlacionados dos textos.

 

O mais antigo deles foi escrito por Ban Zhao, conhecida por sua sabedoria em diferentes áreas do conhecimento, além de ter atuado de forma extraordinária e notável na corte do Imperador He 漢和帝 (79106 E.C.). A escritora compôs seu ensaio didático de forma inovadora, inaugurando uma tradição escrita voltada ao ensino feminino, cujas repercussões permanecem ainda no presente. Em sua mais ilustre obra, a autora emitiu suas observações sobre os comportamentos de mulheres de sua época, referenciando textos clássicos do Confucionismo, como Livro das músicas ou poesias, 诗经 (Shi jing), e o Livro dos ritos, 礼记 (Liji), além de dedicar parte de sua articulação à discussão teórica sobre as relações complementares entre yin-yang relacionando-as aos laços entre homens e mulheres das mais diferentes hierarquias familiares.

 

Essa associação foi algo relativamente recente para o Confucionismo da Dinastia Han, pois sua concepção deve-se à incorporação da filosofia como política educacional oficial do Império, no governo do Imperador Wu 漢武 (140 A.E.C - 87 E.C.) (PANG-WHITE, 2018: 9). No entanto, a analogia entre os conceitos e as relações de submissão foi enfatizada pela autora, segundo suas perspectivas: “o caminho de marido e mulher está intimamente ligado ao yin-yang, assim como a relação dos indivíduos com deuses e ancestrais.” (BAN In: BUENO, 2023: 9). Esta delimitação dos comportamentos de gêneros relacionados aos conceitos da filosofia chinesa impactaram diretamente as possibilidades de conduta das damas da época, o que é interpretado por críticas como o motor da subjugação das mulheres e justificativa cosmológica para a condição de inferioridade conferida a elas.

 

Em continuidade às autoras das obras, as responsáveis pela escrita de os Analectos para mulheres, 女論語 (Nü Lunyu), também destacam-se de suas contemporâneas por terem participado ativamente da vida pública do governo. As irmãs Song, Song Ruoxin 宋若莘 e Song Ruozhao 宋若昭, eram filhas de um acadêmico imperial confucionista, e acessaram os textos clássicos da filosofia ainda muito jovens, possibilitando seu destaque intelectual na corte (PANG-WHITE, 2018: 71). Inspiradas pela inovação de Ban Zhao, as irmãs criaram seu texto didático inserindo a autora como uma das personagens da narrativa enunciada por diálogos.

 

Os analectos foram estabelecidos através de conversas entre uma figura de autoridade feminina, considerada como a contraparte feminina de Confúcio, e uma aluna, atribuída à figura de Ban. Este formato foi utilizado como um recurso didático e literário para a composição do texto, assim, ao decorrer dos capítulos, as comunicações apresentam os recursos morais e disciplinares que deveriam ser adquiridos pelas leitoras. Em comparação ao texto anterior, a escrita das irmãs apresenta algumas novidades, como a expectativa de um público-alvo mais amplo, visando acessar mulheres que não pertenciam a famílias da corte. Por este motivo, as autoras pretenderam elaborar o texto de forma simultaneamente útil para as tarefas do cotidiano das mulheres e que estimulasse o comportamento desejado de acordo com as instruções confucionistas (PANG-WHITE, 2018: 74).

 

Os principais pontos defendidos pelas irmãs Song revelam as expectativas quanto aos comportamentos de maridos e esposas, além da relação das damas com os parentes mais velhos, de sua família. Para elas, as diferenças apareciam ainda na infância, quando os meninos deveriam ser direcionados à vida social pública, compreendendo-a como um meio para a participação política, enquanto as meninas deveriam permanecer no ambiente doméstico, aprender trabalhos manuais e cerimônias aos ancestrais (ROSENLEE, 2006: 82). 

 

Além disso, outro ponto fundamental mencionado pelas autoras refere-se à fidelidade e honra ao marido caso este viesse a falecer. As autoras dedicam um capítulo inteiro de sua interlocução para a honra ao marido falecido, e exemplificam as ações que deveriam ser seguidas pelas leitoras caso este inesperado ocorresse. Para elas, o comportamento ideal de uma boa moça seria o uso de vestes de luto por pelo menos três anos, a manutenção contínua da castidade, dedicação à proteção da família, além de administração dos bens e da educação dos filhos do casal (SONG, SONG, In: PANG-WHITE, 2018: 117).

 

Antes de abordar as ironias apontadas em críticas ao texto das irmãs Song – relacionadas às divergências entre seus discursos e suas atuações diante da vida pública –, é preciso voltar o olhar para as outras duas autoras, ambas da Dinastia Ming, que também integram esta coleção. A Imperatriz Renxiao Wen além de confucionista, mostrava-se devota do budismo (PANG-WHITE, 2016: 31). E por esse motivo, em seu livro a autora destaca que as damas deveriam depositar a atenção em cultivar não apenas um relacionamento estável com seu marido, mas que este fosse saudável e recíproco, para a segurança da própria mulher.

 

A imperatriz escreveu seu livro após notar uma lacuna preocupante nos métodos de ensino para garotas, pois apesar de reconhecer a importância dos escritos de Ban Zhao e das irmãs Song, em sua visão era necessário que fossem criados materiais didáticos mais completos e adequados para meninas e mulheres (PANG-WHITE, 2016: 34). Seu texto resultou em uma obra mais extensa, que apresentavam temas variados como o cultivo pessoal – práticas de aprimoramento moral e ético –, gestão da casa e também questões sociais e políticas, o que não apareceu diretamente nos livros anteriormente citados. Deste modo, com a proposta de estabelecer um novo manual de ensino para as jovens, a autora procurou demonstrar os conhecimentos necessários para as damas da corte – retornando ao público alvo mais elitizado, diferente do livro anterior.

 

Em diálogo com os clássicos confucionistas como os Analectos e o Livro dos ritos 礼记 (Liji), que proporcionaram um embasamento literário de autoridade, a autora evidenciou sua perspectiva de que o bem-estar de suas leitoras, e a harmonia dentro dos lares da corte chinesa eram elementos fundamentais para a construção de um império saudável. À vista disso, Renxiao demonstra o êxito da agência feminina no mundo público, e defende que a estabilidade de uma nação está intimamente ligada ao trabalho doméstico feminino, como é expresso no capítulo 17 de sua obra: “pode-se inferir disso que a harmonia interior gera harmonia exterior. A harmonia de uma família gera a harmonia de um país” (PANG-WHITE, 2016: 36). 

 

Percebe-se que apesar da autora se colocar como uma incentivadora da paz e harmonia de sua nação, por estar em um papel de imperatriz, suas defesas ainda aparecem como inovações aos textos anteriores. Os principais aspectos que podem ser identificados são: a apresentação de questões políticas às mulheres e o fornecimento de exemplos de relacionamentos matrimoniais harmoniosos, habilitando suas leitoras a reconhecer atitudes impróprias de seus maridos. No entanto, ao dialogar com os clássicos, Renxiao também reforçou a submissão feminina aos homens de sua família bem como a analogia entre yin-yang e os relacionamentos entre os gêneros, como apresentado pelas autoras anteriores.

 

Em continuidade, a última autora dos Quatro livros para mulheres, Madame Liu, diferencia-se das anteriores por não ter nascido em uma família da corte, apesar de demonstrar o domínio dos conhecimentos sobre os clássicos  (PANG-WHITE, 2016: 31). Em Breves registros de modelos para mulheres, Madame exibe mais de cem casos de mulheres virtuosas, a fim de demonstrá-las como exemplos a serem seguidos pelas leitoras, e distintivamente de suas antecessoras, a escritora faz afirmações perspicazes sobre a importância da educação das damas, colocando-as como ainda mais significativas do que a educação masculina. 

 

Ao expandir a tese da Imperatriz sobre a conexão entre a saúde familiar e a harmonia nacional, Liu argumenta que a base educacional das crianças, meninos ou meninas, dependia primordialmente, da formação da mãe. Para a autora, sem o conhecimento adequado, uma mulher estaria impossibilitada de preparar seus filhos para receber a educação sobre os ritos de forma apropriada. Além disso, a autora mencionou a saúde e preparação pré-natal que caberia a uma mulher, e caso esta não tivesse os conhecimentos adequados, poderia colocar a si e a seus filhos em risco (LIU, In: PANG-WHITE, 2018: 233), evidenciando de outra forma a importância da educação feminina.

 

Conforme apresentado, tanto a Imperatriz Renxiao Wen como a Madame Liu defendem perspectivas de agência feminina, seja politicamente através do vínculo entre o âmbito familiar e o âmbito público sejapela defesa da educação das mulheres como o princípio da educação de uma nação. Estas asserções são elogiadas por feministas contemporâneas por defender os propósitos femininos e demonstrar um senso de irmandade entre as mulheres (PANG-WHITE, 2016: 39). No entanto, as obras foram elaboradas dentro das limitações da época, e se tratou de uma obra escrita em um contexto em que poucos tinham acesso ao ensino letrado. Em adicional, as autoras reforçaram a submissão feminina e a distinção das atuações de gênero de acordo com os respectivos âmbitos internos e externos – referindo-se aos preceitos de nei-wai (PANG-WHITE, 2018: 127) –, o que foi mencionado nas críticas aos textos.

 

Embora fundamentais para a literatura feminina chinesa, as obras de Ban Zhao, da Imperatriz Xu e de Madame Liu sofreram críticas quanto ao disciplinamento dos corpos, especialmente em Yuan (2002), Star (2002) e Noddings (2010). Ao associarem o confucionismo à opressão de gênero, essas análises simplificaram suas interlocuções e minimizaram suas agências, reduzindo os textos a visões unilaterais e misóginas (ROSENLEE, 2006: 48).

 

Como exemplo das simplificações, os conceitos de yin-yang, apresentados no trabalho de Ban, são frequentemente reduzidos a um paradigma dualista de concepção de gênero, pertencente a uma lógica interpretativa ocidental. A diferença sexual, como é percebida no Ocidente, reforçada pela cultura, faz parte do fundamento irredutível da organização do mundo, como afirma Michelle Perrot em seu livro As mulheres ou o silêncio da história, de modo que as buscas de mulheres por maior equidade geram crises identitárias masculinas correspondentes às tentativas, tornando a repressão social mais evidente (PERROT, 2005: 473). Pode-se afirmar que esta perspectiva é derivada de óticas influenciadas por uma lógica cartesiana, como propõe a filósofa Rosenlee, em seu trabalho Confucianism and Women: A Philosophical Interpretation. (2006: 49). A autora afirma que homens e mulheres, segundo a lógica mencionada, não são apenas diferentes como ontologicamente opostos e díspares, desta forma, impor a visão ocidental à lógica correlativa dos conceitos yin-yang, é à priori, a imposição de uma visão de mundo que não pertence às lógicas analisadas.

 

Uma crítica que pode-se apontar, especialmente sobre os discursos emitidos pelas irmãs Song, é a divergência evidente entre suas defesas sobre a manutenção da castidade de viúvas e a dedicação total das mulheres ao ambiente doméstico, e suas condutas – distoantes da norma. A contradição justifica-se por as escritoras terem pertencido a uma pequena elite intelectual da corte de mulheres acadêmicas, as quais desfrutavam de algumas liberdades especialmente na Dinastia Tang – um dos períodos imperiais da China reconhecidos pela prosperidade e por ser menos repressivo quanto aos gêneros. Inegavelmente, os privilégios foram alcançados apenas por algumas mulheres, exceções, e isso é percebido no texto das irmãs.

 

Considerando que o público-alvo dos Analectos para mulheres consistia em damas que não faziam parte da elite e que, portanto, não possuíam a liberdade de evitar o matrimônio, as irmãs Song procuraram destacar os comportamentos exemplares. O objetivo era orientar essas jovens na busca pela harmonia para que elas pudessem demonstrar domínio das virtudes e cultivar bons hábitos, respeitando os limites impostos por suas realidades sociais (PANG-WHITE, 2018: 73). Todavia, as críticas sobre a ironia dos ensinamentos e o exemplo demonstrado por elas não deixa de serem válidos, além de que as agências incentivadas pelas autoras não enfrentavam a realidade impostas às leitoras, mas propunha-se a auxiliá-las a manejar as imposições para que exercessem relativa autonomia, conscientes de suas condições.

 

Quanto às críticas destinadas aos textos da Imperatriz Renxiao Wen e de Madame Liu, por ambas terem vivido durante a Dinastia Ming, e, assim, compartilhado um contexto histórico, filosófico e político relativamente semelhante, as preocupações destinadas aos seus trabalhos também compartilham diálogos. Um dos principais aspectos reprovados por concepções feministas quando o enfoque é o período das autoras, é a prática crescente de suicídio de viúvas e valorização da castidade levados ao extremo, o que as escritoras não chegaram a se opor e ainda incentivavam a pureza de suas leitoras. Porém, a acusação da omissão por parte das escritoras parece injusta, visto que ambas sugerem que nenhuma virtude se sobrepõe a outra, assim, o incentivo ao suicídio de viúvas seria necessariamente oposto à piedade filial – entendida como a submissão e respeito aos pais e sogros (PANG-WHITE, 2018: 75).

 

 

Considerações finais

Seria um erro ignorar as influências positivas que os textos geraram para as mulheres da época, pois eles possibilitaram a ampliação ao acesso de aprendizados dos clássicos confucionistas às damas. Como testemunhos da ampliação, houve à época um aumento na publicação e circulação de textos de poesia, peças teatrais, romances e caligrafias femininas (TAN, 2021: 10), atestando a influência das autoras e a agência das mulheres. Em complemento, especialmente a Madame Liu, ajudou a promover os ensinamentos ao público mais amplo, apresentando exemplos de mulheres exemplares da elite aristocrática mas também de cortesãs, criadas e mulheres de classe baixa, estabelecendo afinidades entre as damas (PANG-WHITE, 2018: 217).

 

Quanto às críticas modernas e o afastamento do confucionismo durante o período de ascensão do Partido Comunista, ficou evidente que as raízes para o patriarcalismo estrutural vão além do que o incentivo às práticas da filosofia. Em consonância à fala de Rosenlee em seu texto Feminismo confucionista (2006: 121), a subjugação das mulheres não foi mitigada pela remoção e perseguição da suposta ideologia feudal, sexista e fixa. Na realidade, as mulheres passaram a sofrer com novos problemas, como a dupla jornada de trabalho e a procura por filhos homens, inflamada pela política de filho único (TAN, 2021: 13).

 

Diante desse cenário, a filósofa Rosenlee propõe um retorno aos estudos dos textos confucionista, argumentando que os conceitos de yin-yang e nei-wai oferecem contribuições para flexibilizar os papéis que uma pessoa, seja homem ou mulher, possa assumir em benefício do equilíbrio social. A intelectual enfatiza a necessidade de desconstruir as disparidades vigentes na nação, defendendo que a apropriação teórica do confucionismo por mulheres chinesas atualmente pode representar a organização de trajetórias independentes das normas liberais traçadas pelos feminismos ocidentais (2022: 189). Dessa maneira, o seu projeto visa oferecer instrumentos teóricos próprios e autênticos para articular as vivências, dilemas e aspirações do universo feminino sem descredibilizar mulheres chinesas do passado.

 

Referências Bibliográficas

Isabella Padula é graduanda em Bacharelado e Licenciatura na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e pesquisadora de Iniciação Científica com financiamento FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), desenvolvendo pesquisa sobre o período da ocupação japonesa na China (1931-1954), com experiência em tradução de fontes primárias do mandarim para o português. Como colaboradora e orientadora do projeto, a Dra. Rozely Menezes Vigas Oliveira é professora substituta na UERJ-FFP e pesquisadora de pós-doutorado em História da Ásia no IFCH-UNICAMP. Membro da Asociación Latinoamericana de Estudios de Asia y África – Brasil (ALADAA-Brasil) e da comissão organizadora da Rede de Pesquisadores Visões da Ásia. Autora de capítulos e artigos sobre a vida conventual feminina na Ásia portuguesa, e do livro “Nas clausuras de Goa: a comunidade das mônicas no Monte Santo e sua economia espiritual (1606-1721)” (2023).

 

Fontes:

BAN, Zhao. Lições para Mulheres. Tradução de André Bueno. In: BUENO, André (org.). Textos da China Antiga. Rio de Janeiro: Projeto Orientalismo/UERJ, 2023.

LIU, Shi. Short Records  of Models for Women (Nüfan jielu). pp.211-294. In: PANG-WHITE, Ann A. The Confucian Four Books for Women: A New Translation of the  Nü Sishu and the Commentary  of Wang Xiang. Nova York: Nova York, 2018 

SONG, Ruoxi; SONG, Ruozhao. Analects for Women (Nü lunyu). pp 71-119.  In: PANG-WHITE, Ann A. The Confucian Four Books for Women: A New Translation of the  Nü Sishu and the Commentary  of Wang Xiang. Nova York: Nova York, 2018 

XU, Yihua. Teachings for the Inner Court (Neixun). pp. 121-207. In: PANG-WHITE, Ann A. The Confucian Four Books for Women: A New Translation of the  Nü Sishu and the Commentary  of Wang Xiang. Nova York: Nova York, 2018

 

Bibliografia:

NODDINGS, Nel. The Maternal Factor: Two Paths to Morality. Berkeley: University of California Press, 2010.

PANG-WHITE, Ann A. Confucius and the Four Books for Women (Nü Sishu «女四書»). In: FOUST, Mathew; TAN, Sor-Hoon (org.). Feminist Encounters with Confucius. Nova York: BRILL, 2016. p. 15–39. 

________. The Confucian Four Books for Women: A New Translation of the  Nü Sishu and the Commentary  of Wang Xiang. Nova York: Nova York, 2018 

PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Tradução de Viviane Ribeiro. Bauru: EDUSC, 2005

ROSENLEE, Li-Hsiang Lisa. Confucianism and Women: A Philosophical Interpretation. State University of New York Press, Albany, 2006. 

________. Confucian Feminism: A Practical Ethic for Life. London: Bloomsbury Academic, 2024. 

STAR, Daniel. Do Confucians Really Care? A Defense of the Distinctiveness of Care Ethics: A Reply to Chenyang Li. Hypatia, v. 17, n. 1, p. 77–106, 2002.

TAN, Sor-hoon. From women’s learning (Fuxue) to gender studies: Feminist challenges to Modern Confucianism. In: Human Beings or Human Becomings: A Conversation with Confucianism on the Concept of the Person. Albany: State University of New York Press, 2021. p. 1-22 

YUAN, Lijun. 2002. Ethics of Care and Concept of Jen: A Reply to Chenyang Li. Hypatia, v. 17, n. 1, p. 107-129, winter 2002. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/pdf/3810584.pdf. Acesso em: 23 jun. 2026.

10 comentários:

  1. Olá, Isabela e Rozely, o texto de vocês é ótimo! Só li Lições para Mulheres e conhecia de nome os demais, então achei muito interessante explorá-los através de vocês.

    Os Analectos para Mulheres chamaram bastante a minha atenção, haja vista o contexto histórico da dinastia Tang, considerada uma das dinastias mais progressivas da história chinesa. Durante a pesquisa, vocês perceberam transformações nas ideias apresentadas pelas quatro autoras ao longo dos séculos ou as diferenças aparecem mais em função do contexto específico de cada uma?

    Atenciosamente,
    Thaís Monise de Lima Xavier

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    1. Cara Thais,
      Agradeço muito pela pergunta!
      Sem dúvidas, ao ler as quatro obras considerando sua dimensão temporal e o contexto social e político em que foram produzidos, é bastante nítido que algumas preocupações morais específicas atingiam mais algumas autoras do que outras. Além de diferenças nas composições textuais mesmo, que modificaram-se entre os textos. Ademais, diferenças entre público-alvo dos textos é outro elemento a se destacar, visto que não partiam apenas de iniciativas pessoais, mas fazia parte de movimentos intelectuais e podem ser observados em outros textos da mesma época. No entanto é muito interessante observar como as agências pessoais das autoras também apareceram em seus textos. Como Ban Zhao mencionar em sua introdução seus filhos, e colocar-se numa posição humilde de uma mãe que não pôde instruí-los adequadamente, e por isso buscar educar outras damas como uma forma de evitar que isso ocorra com outras mães. Ou mesmo as irmãs Song que iniciam seu texto mais preocupadas com as "gerações seguintes" não seguirem os passos das mulheres exemplares.

      Quanto à dinastia Tang, é também interessante que apesar de que Ban Zhao, a autora anterior às irmãs Song, ter participado ativamente em papéis políticos do governo, em seu tempo não havia uma palavra específica para designar essas mulheres que ocupavam tais cargos - o que passou a existir durante a vida política das irmãs Song. Elas receberam títulos honoráveis de 女官, título feminino de 尚宮. Essas modificações linguísticas podem nos permitir compreender que mesmo estes casos excepcionais passaram a ocupar o cenário social e linguístico.
      Novamente agradeço pela pergunta,
      Isabella Padula.

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  2. Olá, Isabella e Rozely. Eu acho muito interessante o texto de vocês.

    Gostaria de fazer uma pergunta sobre o conceito de yin-yang. No texto, ele aparece como um conceito confucionista, especialmente na leitura de Ban Zhao e nas interpretações feministas contemporâneas. No entanto, o yin-yang também possui uma longa tradição em outras correntes do pensamento chinês, sobretudo no daoismo e na cosmologia clássica. Na visão de vocês, quais são as principais diferenças e aproximações entre a concepção confucionista e a concepção daoista de yin-yang? Essa associação entre yin-yang e os papéis de gênero é algo próprio da tradição confucionista da dinastia Han ou já estava presente anteriormente na cosmologia chinesa?

    Atenciosamente,
    Bingzhang Wang

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    1. Olá, Bingzhang. Agradeço pela pergunta!
      A priori, de acordo com as bibliografias que utilizei a diferença entre yin-yang na perspectiva dos textos confucionistas em relação a como os conceitos se apresentam no daoísmo e na cosmologia chinesa pré-Han é justamente a humanização dos termos e a associação deles às relações humanas. Por não me debruçar sobre yin-yang especificamente na minha pesquisa, ainda não tive a oportunidade de ler os textos clássicos que vou citar, como fontes. No entanto, conforme me foi apresentado por bibliografias que estudam o yin-yang a partir de sua associação às relações humanas, o conceito existiu e foi muito trabalhado em tempos bem anteriores à Dinastia Han, como aparece no Shijing, a primeira obra preservada na qual os termos aparecem. Em shijing, yin é relacionado à chuva e ao tempo nublado, enquanto yang é relacionado ao sol e à secura. Inclusive epistemologicamente o termo se refere ao lado escuro e lado claro de uma montanha. E mesmo no início da Dinastia Han, a associação entre yin-yang e as relações de gênero ainda não eram a norma, apesar de aparecer em trabalhos como Chunqiu fanlu (Luxuriant Dew of the Spring and Autumn), do acadêmico r Dong Zhongshu. Acredito, por isso, que esta associação é o diferencial do termo no desenvolver do confucionismo, sendo a Ban Zhao em seus trabalho que tive a oportunidade de estudar como fonte uma das escritoras responsáveis por fazer esta conexão. Como a autora traz no capítulo "Marido e Esposa", "O Caminho de marido e mulher está intimamente ligado ao Yin e ao Yang, assim como a relação dos indivíduos com deuses e ancestrais". Mesmo ainda em seu trabalho yin-yang está tão associado às relações de gênero quanto aos deuses e ancestrais, de modo que a relação dos termos com a cosmologia chinesa não é algo dissociado, e foi modificando-se com a influência do confucionismo acadêmico.

      Agradeço mais uma vez pela pergunta,
      Isabella Padula.

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  3. Cara Isabella, gostei muito do seu texto. Penso que muitos desses textos sofrerem intervenções, por parte de autores masculinos, em suas edições posteriores, o que causa uma dificuldade grande de interpretação. Você acredita que esses textos representam formas de resistência, são manuais de conduta ou devem ser entendidos, ainda, para além de nossas categorias usuais de análise?
    Meus cumprimentos,
    André Bueno

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    1. Caro André, fico lisonjeada com sua pergunta.
      De fato é muito pertinente considerar as influências diretas e indiretas que os olhares masculinos impuseram nos textos das autoras. Seja em edições no próprio texto das fontes originais como também interpretando-os à luz dos próprios interesses, de modo que a intenção por trás dos discursos sejam modificadas. Mesmo com modificações dos originais, acredito que as versões que pude acessar dos textos são obras ricas para analisar as relações sociais. Em minha percepção, entendo que os textos devem ser interpretados de forma crítica, como resultado de vidas excepcionais, de mulheres que fugiam à normativa social mas também possuíam acessos que lhes proporcionaram a elaboração (e preservação) de seus textos. Sendo também necessário compreender que a formulação da compilação final dos quatro textos apresentados foi realizado por um homem, Wang Xian, de modo que ele próprio realizou um processo consciente e minucioso de escolha e teceu diversos comentários sobre suas fontes, interferindo em seu conteúdo até no ato de escolha em enunciá-los como os textos fundamentais, apesar dos textos já circularem previamente e apresentarem intenções próprias.

      Agradeço pela pergunta,
      Isabella Padula.

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  4. Prezadas Isabella e Rozely, que alegria me deparar com o texto de vocês! Estou iniciando meus estudos sobre a obra da professora Li-Hsiang Lisa Rosenlee e gostaria que pudéssemos trocar ideias de pesquisa!
    Eu tenho trabalhado em uma hipótese de classificar o feminismo confucionista dentro do que Luciana Ballestrin chama de "feminismos subalternos", pois me parece que há algumas semelhanças teóricas e epistemológicas entre essa visão de Rosenlee e outras feministas do Sul Global como a feminista decolonial latinoamericana María Lugones e a militante do mulherismo africana Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí. Estou chamando essa aproximação teórico-metodológica (e, de certa forma, também ontológica, me parece) de "diferentes mas não desiguais". Ainda é um embrião de pesquisa futura, já que meu doutorado está focado em outro objeto de pesquisa no momento, mas gostaria muito de saber o que lhes parece essa hipótese, se conhecem o trabalho de Lugones, Oyěwùmí, Ballestrin e se lhes parece que esse tipo de comparação teórica é válida.
    Se quiserem, vamos trocar contatos para continuar em diálogo.
    Abraços,
    Christiane dos Santos Luciano - Doutoranda em Estudos de Gênero e Sexualidades no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Cataina.

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    1. Cara Christiane, fico muito feliz com seu comentário! Claro, podemos trocar contatos. Sinta-se à vontade para me contactar pelo email isabella.padula09@gmail.com.

      Meus estudos sobre as perspectivas da autora Lisa Ronsenlee vai justamente neste caminho de entende-la à luz da emergência dos "feminismos subalternos" de Ballestrin. Também bebo da fonte de Spivak para compreender a subalternidade feminina, e gosto de relacioná-la às ideias de Rosenlee. Infelizmente não coube no meu texto, em razão da limitação de caracteres, um trabalho mais elaborado sobre a situação teórica da autora para apresentá-la como parte deste fenômeno epistêmico, no entanto era uma das minhas intenções caso houvesse mais espaço!
      Também realizo uma pesquisa sobre outro objeto, de modo que este artigo é resultado de meu interesse paralelo à temática e pretendo aprofundar as abordagens apresentadas futuramente.

      Seria maravilhoso poder compreender mais sobre a sua visão acerca das autoras, sinta-se à vontade para falar mais sobre.
      Agradeço mais uma vez pelo comentário,
      Isabella Padula

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  5. Ana Helena Leite De Araujo9 de julho de 2026 às 23:54

    Isabella e Rozely,

    O artigo de vocês é muito interessante! Fiquei cheia de perguntas!

    Primeiro, vocês argumentam que muitas críticas ocidentais simplificam o confucionismo. Como evitar o movimento contrário, ou seja, minimizar práticas historicamente opressivas em nome do respeito ao contexto cultural?

    Além disso, gostaria de saber se na opinião de vocês existe atualmente um feminismo confucionista consolidado na China ou se ele ainda permanece principalmente como um projeto acadêmico. Considerando o crescente interesse do governo chinês pelo resgate do confucionismo nas últimas décadas, vocês acreditam que essas releituras feministas possuem espaço dentro desse movimento oficial ou permanecem restritas ao meio universitário?

    Ansiosa pelas ponderações de vocês. Desde já, muito obrigada!

    Atenciosamente,

    Ana Helena Leite de Araujo

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    Respostas
    1. Olá, Ana Helena,
      Fico muito feliz com seu interesse e pelas perguntas.
      Respondendo à primeira, acredito que haja uma diferença fundamental entre poder criticar práticas opressivas e danosas a mulheres sem criticar um conceito cosmológico que sequer tem origens referentes às relações de gênero, mas que foram associadas postumamente. É preciso ter muito cuidado para não criticar uma cultura altiva aos olhos ocidentalizados, o que aparece em muitos textos feministas quando se analisa as práticas morais chinesas, principalmente associadas a yin-yang. É evidente que muito da cosmologia chinesa e do confucionismo conviveu com práticas de gênero submersivas, no entanto como aqui no ocidente não culpamos pensadores que ecoam na raiz do pensamento ocidental pela tradição patriarcal persistente, também não devemos fazer isso com os pensadores não-ocidentais. Além disso, em diálogo com a proposta de Spivak sobre a narrativa de mulheres subjugadas, em "pode o subalterno falar?" Parece-me arriscado a denúncia de feministas ocidentais sobre supostas "práticas opressivas" quando esta não aparece entre as preocupações principais de reivindicação de gênero pelas próprias pessoas inseridas naqueles contextos. Esta é uma proposta que vai além de respeitar uma cultura, mas propõe-se a entender o contexto específico e não impor visões incabíveis ao universo social. No entanto, parece-me justo analisar o impacto que correntes de pensamento geraram sobre a percepção de um grupo social, e assim, entender como isto se reflete em práticas opressivas ou não.

      Quanto às perguntas sobre a aplicação da proposta teórica em movimentos feministas na China, acredito que, até hoje, não há uma efetividade da teoria do feminismo confucionista, apesar de evidentemente as feministas na China terem reivindicações próprias e modos de reivindicar diferente das feministas ocidentais, dadas as especificidades e tamanho da China hoje. Até onde ocnheço, as reivindicações se manifestam na esfera digital e literária de forma independente, em podcasts de enorme alcance como o Stochastic Volatility (随机波动) e o The Weirdo Podcast (不合时宜). Além da leitura de obras clássicas de autoras como Ding Ling redefinem a consciência de gênero no país.

      Agradeço mais uma vez pelas perguntas,
      Isabella Padula

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