Introdução
O que significa sonhar? O que é o sonho? Perguntas, aparentemente simples, que atravessam milênios de pensamento humano sem encontrar resposta única. Ao longo da história o que predominou foi uma ideia de que o sonho representa uma espécie de presságio de algo que está por vir ou algo ligado ao campo espiritual que tem uma razão de ser, mesmo que às vezes obscura. Para Sigmund Freud, o sonho não é ruído da mente adormecida, mas expressão cifrada do desejo inconsciente — "a via régia para o conhecimento do inconsciente" [Freud, 2019, p. 562]. Para o neurocientista Sidarta Ribeiro, os sonhos operam como simulações preditivas: a mente, durante o sono, recombina experiências passadas para antecipar o futuro, funcionando como um verdadeiro "oráculo biológico" [Ribeiro, 2019, p. 47]. Já o pensamento budista propõe um deslocamento mais radical: o sonho não é apenas fenômeno noturno, mas metáfora da própria condição humana. No Sutra do Diamante, Buda enuncia que tudo que é condicionado assemelha-se a um sonho, a uma ilusão, a uma bolha na água — e que a existência desperta compartilha dessa mesma natureza fugaz [Conze, 1958].
Essas três perspectivas, embora partam de territórios distintos — a clínica, a neurociência e a filosofia oriental —, convergem num ponto inquietante: o sonho revela algo sobre a estrutura do real que a vigília prefere encobrir — e é precisamente esse 'algo' que a superstição tenta, a seu modo, nomear. De uma parte, é nessa convergência que o presente artigo se situa. A partir do budismo, busca-se compreender como a tradição oriental elaborou o sonho não como superstição residual, mas como dispositivo ontológico — uma janela para a natureza ilusória da existência. Freud e Ribeiro entram não como referenciais centrais, mas como interlocutores que permitem iluminar, por contraste e aproximação, a singularidade do olhar oriental sobre o fenômeno onírico.
Contudo, merecem destaque aqui também dois pensadores da antiga tradição chinesa: Zhuang Zhou (ou Chuang Tzu) e Wang Chong. Respectivamente, nesses casos, temos: de um lado uma perspectiva que compartilha um pouco dessa ideia de fugacidade budista já citada, chamando atenção para o limitado e bipartido conhecimento cotidiano em prol do absoluto, do irmanamento do Dao, do fluxo da natureza. Zhuang Zhou se preocupa em demonstrar o engessado raciocínio de senso comum baseado nas dicotomias entre “falso e verdadeiro” ou “real e aparente”, que nos levam a perspectivas estáticas acerca das coisas, ignorando o eterno fluxo cósmico, incluindo a própria forma como se pensa o sonho. Por outro, em Wang Chong, o que se tem é a defesa de uma abordagem não supersticiosa dos sonhos com base na própria insuficiência da justificativa. É um filósofo preocupado em dar uma explicação materialista de mundo, a começar pela ordem cósmica (Céu - Tian), que se separou da terra (Di) após o caos primitivo; sendo ambas substâncias materiais [Botton Beja, 2026]. Ou seja, apontando os limites dessas tentativas mais espiritualistas, que tentam encontrar um sentido último ou metafísico para o que experienciam enquanto dormem; Wang Chong leva adiante uma crítica desse tipo de justificativa. Ainda que Wang Chong não tenha recusado totalmente as antigas crenças ancestrais [Botton Beja, 2026; Cheng, 2023], como presságios (em certa medida, também fantasmas), sua perspectiva diante dos sonhos é de forte crítica.
Neste sentido, o presente trabalho objetiva reunir essas formas de pensamento, compará-las no que tange à temática dos sonhos e realizar a crítica das justificativas espiritualistas ou místicas para esse fenômeno que tanto perpassa a vida humana.
A mente que sonha: entre o inconsciente e o ilusório
Para compreender o que o pensamento oriental elaborou acerca dos sonhos, é necessário primeiro situar o problema a partir de onde ele mais frequentemente tem sido colocado no Ocidente: a questão do sentido. Tanto na tradição popular — que associa sonhos a presságios, mensagens divinas ou sinais do destino — quanto nas primeiras tentativas científicas de interpretação, o sonho é tratado como portador de um conteúdo oculto que aguarda decifração. Essa tensão entre o sagrado e o racional, contudo, não é inaugurada pela modernidade. Já em Aristóteles, conforme recuperado por Freud, o sonho "não é enviado por deuses, não é de natureza divina, mas sim de natureza demoníaca, pois a natureza é demoníaca e não divina [...] o sonho não decorre de uma revelação divina, mas resulta das leis do espírito humano" [Aristóteles apud Freud, 2019, p. 25]. O sonho, portanto, já era reclamado para o campo do humano muito antes da psicanálise. É justamente nessa linhagem que Freud se insere e radicaliza.
Em A Interpretação dos Sonhos (1900), Freud sustenta que o sonho não é mensagem do além nem acaso neurológico, mas produção do próprio sujeito. O sonho é realização disfarçada de um desejo inconsciente — aquilo que o aparelho psíquico, sob a censura da vida desperta, não pode formular diretamente. O trabalho do sonho opera por condensação e deslocamento, transformando o conteúdo latente em conteúdo manifesto, o desejo em imagem [Freud, 2019]. Ao fazer isso, Freud desloca radicalmente o sonho do campo do sobrenatural para o campo do sujeito: o sentido do sonho não vem de fora, mas de dentro — e esse dentro é o inconsciente. A superstição, portanto, não seria erro puro, mas intuição mal endereçada: ela percebe que o sonho *significa*, mas projeta esse significado no transcendente quando ele pertence ao próprio desejo do sujeito.
Sidarta Ribeiro, a partir de uma perspectiva neurocientífica, aprofunda essa interiorização do sentido onírico. Em “O Oráculo da Noite” [2019], Ribeiro argumenta que os sonhos são simulações preditivas: durante o sono REM, o cérebro recombina memórias recentes e antigas para gerar cenários que antecipam possibilidades futuras. Essa função não é residual — é adaptativa. O sonho seria, nessa leitura, uma forma de inteligência biológica, um mecanismo evolutivo de preparação para o porvir [Ribeiro, 2019]. O que as tradições chamaram de "sonho profético" encontraria aqui uma explicação não mística: não é como se o sonho prevesse o futuro por intervenção divina, mas que ele *simula* futuros prováveis com base na experiência acumulada do sonhador. A superstição captura uma função real — a dimensão antecipatória do sonho — mas a interpreta através de uma moldura sobrenatural que obscurece seu mecanismo.
Tanto Freud quanto Ribeiro, portanto, operam uma mesma operação crítica: retiram o sonho do campo do sagrado e o restituem ao campo do humano. O que difere é o nível de análise — um trabalha o sujeito psíquico, o outro o organismo biológico. Mas ambos convergem na recusa de um sentido externo, transcendente, que viria de fora para dentro. É aqui que o pensamento oriental entra não como confirmação, mas como aprofundamento e, em certos aspectos, como radicalização dessa recusa.
O budismo, em seu núcleo filosófico, não interpreta o sonho — ele o utiliza como modelo epistemológico. No Sutra do Diamante, a existência inteira é comparada ao sonho: tudo que é condicionado — percepções, sentimentos, formações mentais — possui a mesma consistência fugaz de uma bolha na superfície da água [Conze, 1958]. Isso significa que o problema não é o sonho noturno ser ilusório enquanto a vida desperta seria real: ambos partilham da mesma natureza impermanente. A distinção entre sonhar e estar acordado é, ela mesma, produto de uma mente que ainda não reconheceu sua própria condição. O conceito budista de avidya — ignorância fundamental — designa precisamente esse não-reconhecimento: a tendência da mente em tomar como sólido e permanente aquilo que é processual e contingente [Harvey, 1990].
Nesse sentido, a superstição onírica representa, para o budismo, uma dupla ilusão: primeiro, toma o sonho como mensagem real de uma realidade exterior; segundo, pressupõe que existe um "eu" estável que recebe essa mensagem. Ambas as premissas são negadas pela ontologia budista. O anatta — não-eu — dissolve a ideia de um sujeito fixo que sonha e que poderia ser interpelado pelo divino. O que existe é um fluxo de processos mentais interdependentes, sem substância permanente por baixo. O sonho, longe de ser janela para o além, é espelho da impermanência que já constitui o que chamamos de "nós mesmos".
O budismo tibetano leva essa ideia às últimas consequências nas práticas do Dream Yoga (Milam), parte dos Seis Yogas de Naropa. O praticante é instruído a reconhecer, dentro do próprio sonho, que está sonhando — o que no contexto ocidental seria chamado de sonho lúcido —, não como exercício de controle, mas como treinamento para reconhecer a natureza ilusória de toda experiência, incluindo a morte. O Bardo Thodol — conhecido no Ocidente como o Livro Tibetano dos Mortos — descreve os estados intermediários entre morte e renascimento como estruturalmente similares ao estado onírico: visões intensas, sem ancoragem no corpo físico, que o praticante despreparado tomará como reais [Fremantle; Trungpa, 1975]. Reconhecer o sonho como sonho é, portanto, ensaio para reconhecer o “bardo” como bardo — e, em última instância, para reconhecer a própria vida desperta como o sonho coletivo que o budismo sustenta que ela é.
A tradição chinesa acrescenta nuances importantes a esse quadro. Zhuang Zhou, importante expoente do pensamento taoísta, no texto que leva seu nome — o Zhuangzi —, formula o problema com uma elegância desconcertante. No célebre trecho do sonho da borboleta, ele narra ter sonhado ser uma borboleta e, ao despertar, não saber ao certo se era Zhuang Zhou que havia sonhado ser borboleta ou uma borboleta que agora sonhava ser Zhuang Zhou [Zhuangzi, trad. Watson, 1968]. O ponto não é cético no sentido de desespero — não é um "nada é real". É antes uma crítica ao engessamento das categorias: a distinção entre "real" e "aparente", entre "sonho" e "vigília", é produto de um raciocínio de senso comum que opera por dicotomias fixas, ignorando o fluxo contínuo do Dao. Para Zhuangzi, a sabedoria não está em resolver a questão — borboleta ou homem? — mas em habitar o fluxo sem se apegar à resposta. A superstição, nesse registro, seria o equívoco de querer fixar um sentido onde o Dao flui sem parar.
Essa tomada de posição de Zhuangzi ou, como preferir, Zhuang Zhou, é bem nítida em alguns outros momentos de sua obra, como nos textos “O peso das emoções” e “O eu e o mundo”. Respectivamente, merecem ser colocados aqui alguns trechos:”O homem que busca conhecer o todo alarga seu intelecto; quem investiga os detalhes afina os sentidos. O homem que anela a grande Palavra queima com o fogo da convicção; quem disputa minúcias sabe guiar os outros por labirintos de aporias. Ao dormirem, contudo, suas mentes não repousam. Despertos, fadigam seus corpos. Afiguram-se inúteis, tais buscas, e as emoções que suscitam” [Zhuang Zhou, 2022, pág. 87]. Assim como no sonho da borboleta, o fixar de um sentido em meio à pura espontaneidade do Dao não tem cabimento. Trata-se de uma medida que ignora a si próprio como parte e produto desse grande fluxo. O prostrar-se junto ao inefável é que deve ser retomado. No segundo texto supracitado, essa ideia também comparece: “Um dia destes, acordei para a seguinte coisa: se não houvesse a Grande Espontaneidade, não haveria um “eu”. Sem o “eu”, não seria possível colher da Grande Espontaneidade a vida, tomando-lhe uma porção de suas energias vitais” [Zhuang Zhou, 2022, pág. 90]. Daqui se pode concluir o seguinte: quem se coloca fora da Grande Espontaneidade, não consegue ser feliz. Aqui, o caráter real ou irreal dos sonhos perde o sentido, pois se trata de um registro estanque. Neste caso, a recusa da superstição é, ao mesmo tempo, a recusa de toda e qualquer forma de resposta absoluta, mesmo que científica. Pode-se falar até mesmo de uma saída pela tangente em comparação à postura budista ou à freudiana, visto que estas duas tentam fornecer uma solução, enquanto o taoísmo clássico só ignora essa discussão. Em primeiro lugar, vemos em Wang Chong uma crítica feroz: “(...) Mas o que vemos em nossos sonhos é sempre interpretado como tendo algum outro significado e, de qualquer forma, não é real. Como podemos provar isso? Quando em sonho percebemos um homem vivo, este homem, visto em nosso sonho, não nos encontra no dia seguinte... O visconde de Qian de Zhao estava doente e por cinco dias não recebeu ninguém” [Wang Chong, 2023, pág. 23]. Esta maneira de encarar o problema aponta para a própria experiência cotidiana como medida para diferenciar aquilo presenciado enquanto dormia daquilo visto já acordado. As fronteiras entre o que é real e o que é apenas sonho, ainda que este último possa ter um sentido ligado a um desejo inconsciente, são rompidas tão logo quanto acorda, como apontou Wang Chong. Visconde de Qian, então, teria recebido alguém nos seus sonhos, mas como obra de um dado do inconsciente. Já conforme Sidarta Ribeiro, considerando a anterior exposição de suas ideias, trata-se de uma conjunção de experiências, memórias acumuladas pelo Visconde de Qian que o levou a vislumbrar um acontecimento futuro. A crítica de Wang Chong era sobretudo endereçada às tradições que ele considerava enraizadas na totalidade social, desde as “pessoas comuns”, passando por estudiosos e até membros das classes dominantes [McLeod, 2017]. Trata-se de um profundo questionamento de mitos e ritos antigos/ancestrais. A temática envolvendo os sonhos, então, compõe uma parte desse itinerário questionador.
Conclusão
O que emerge desse percurso — de Freud a Ribeiro, do budismo a Zhuangzi e Wang Chong — é uma convergência notável entre tradições radicalmente distintas. Todas recusam, cada uma a seu modo, a explicação sobrenatural ou supersticiosa, em alguma medida, do sonho. Todas reconhecem no fenômeno onírico algo que pertence à própria estrutura da mente ou da existência — e não a uma ordem exterior ou do além que se comunicaria com o sujeito adormecido. A superstição, nesse panorama, aparece não como origem do pensamento sobre os sonhos, mas como seu obstáculo: a tendência de projetar para fora o que é, em todos esses sistemas, assunto do dentro. Tendência esta que se prende a um misticismo que não é encontrável na vida cotidiana, sendo este utilizado como um recurso para dar um sentido: seja a algo que se deseja e está latente; seja a algo que não se consegue explicar racionalmente.
Referências
Arthur D´Elia dos Santos é doutorando em filosofia pela UERJ e graduando em Letras português/alemão pela UERJ.
Yuri Rita de Paula é graduando em psicologia pela Universidade Estácio de Sá.
BOTTON BEJA, Flora. Wang Chong: un filósofo confuciano no ortodoxo. Estud. Asia Áfr. [online]. 2026, vol.61, n.1 [citado 2026-05-18], e3123. Disponible en: <http://www.scielo.org.mx/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2448-654X2026000100401&lng=es&nrm=iso>. Epub 23-Feb-2026. ISSN 2448-654X. https://doi.org/10.24201/eaa.v61i1.e3123.
CHENG, Anne. História do pensamento chinês. Rio de Janeiro: Vozses, 2023.
CHONG, Wang. Lunheng. Discursos balanceados. Rio de Janeiro: Projeto Orientalismo/UERJ, 2023.
CONZE, Edward. Buddhist Wisdom Books: The Diamond Sutra and The Heart Sutra. London: Allen & Unwin, 1958.
FREMANTLE, Francesca; TRUNGPA, Chögyam. The Tibetan Book of the Dead: The Great Liberation Through Hearing in the Bardo. Boston: Shambhala, 1975.
FREUD, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos. Tradução de Renato Zwick. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
HARVEY, Peter. An Introduction to Buddhism: Teachings, History and Practices. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.
MCLEOD, Alexius. Wang Chong, o del razionalismo anticonformista. Entrevista concedida a Stefano Bigliardi. 2017. Disponível em: Wang Chong, o del razionalismo anticonformista | L’Ateo | UAAR.
RIBEIRO, Sidarta. O Oráculo da Noite: a história e a ciência do sonho. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
ZHOU, Zhuang. O imortal do Sul da China: uma leitura cultural do Zhuangzi/Zhuang Zhou. São Paulo: UNESP, 2022.
ZHUANGZI. The Complete Works of Chuang Tzu. Tradução de Burton Watson. New York: Columbia University Press, 1968.
Caros Arthur e Yuri, gostei muito do texto de vocês! Minha colocação é a seguinte: no texto do Zhouli, do séc. 6 AEC, há uma descrição sobre a morfologia dos sonhos:
ResponderExcluirEle [o auxiliar do imperador] lida com as estações do ano em relação aos sonhos. Ele examina os momentos da reunião do céu e da terra. Ele distingue as emanações dos dois princípios, yang e yin. Pelas posições do sol, da lua, dos planetas, ele adivinha os presságios felizes ou desafortunados dos seis tipos de sonhos.
Os seis tipos de sonhos são: primeiro, os sonhos regulares; em segundo lugar, sonhos terríveis; terceiro, sonhos de reflexão ou vigília; quarto, os sonhos de assistir; quinto, belos sonhos; sexto, os pesadelos. No final do inverno, ele visita solenemente o imperador para perguntar se ele teve um sonho. Ele apresenta ao imperador os presságios deduzidos de sonhos felizes. O imperador cumprimenta-os com saudação.
Ele coloca os novos brotos de grãos na direção das quatro regiões, para oferecê-los aos maus sonhos (para os espíritos que enviaram os maus sonhos). Imediatamente o imperador ordena que se inicie a cerimônia de purificação, para expulsar o miasma pestilento.
Na taxionomia do sonhar por vocês proposta, onde se enquadraria essa visão?
meus cumprimentos,
André Bueno
Olá. Agradeço demais pelo elogio ao nosso texto e muito obrigado pela pergunta. Confesso que não conhecia essa referência citada por você.
ExcluirSobre sua questão,tenho umas coisas a dizer. Esses presságios oriundos dos sonhos felizes são como elementos que antecedem um acontecimento? Quer dizer, como uma prévia visão do que virá acontecer? Se sim, nós recusamos essa perspectiva acerca dos sonhos felizes, visto que não faria sentido pressupor a ideia de presságio, pois o sonho remete à interiorização dos aspectos vividos pelo indivíduo no seu dia-a-dia. Sobre os maus sonhos, não acreditamos terem sido enviados por espíritos. O que acontece é algum tipo de trauma ou experiência negativa ou medo que surge na vigília, podendo representar um desejo de que algo não aconteça ou medo de perder algo. De todo modo, é preciso entender que esses fenômenos podem, a depender da perspectiva exposta por nós, uma relação com desejo ou com o fluxo do dao ou até com o espelho da impermanência que somos.
Agradeço o comentário, André Bueno!
ExcluirComplementando a análise apresentada, a taxonomia do Zhouli exemplifica o que nosso trabalho identifica como a projeção do sentido onírico para o exterior (astros, espíritos e ritos), em oposição à interiorização defendida por Freud e Sidarta Ribeiro. A tradição antiga do Zhouli trata o sonho como se o sonhador fosse transportado para um mundo externo e espiritual. Nossa tese, no entanto, segue lógica semelhante à do filme Inception (A Origem): o sonho não é um evento que vem de fora, mas uma construção da própria mente do sujeito. No filme, os personagens usam um "totem" para diferenciar o sonho da realidade; em nossa análise, esse totem seria a crítica materialista de Wang Chong, que nos lembra que as visões do sono não possuem substância material e pertencem apenas ao indivíduo.
O que a tradição chama de "presságio", a neurociência reinterpreta como um "oráculo biológico": uma simulação preditiva baseada na experiência acumulada, e não uma mensagem divina. Além disso, a tentativa de classificar o sonhar em seis tipos rígidos contrasta com a crítica de Zhuang Zhou ao engessamento das categorias; para o taoísmo, o sonho deve ser compreendido como parte do fluxo do Dao, no qual distinções fixas entre "bom" e "mau" perdem o sentido. Assim, o Zhouli representa o obstáculo mencionado em nosso texto: o uso do misticismo para dar sentido a um fenômeno de ordem estritamente subjetiva.