ENTRE FRONTEIRAS MÓVEIS: CORPO, PERTENCIMENTO E A DISPUTA PELA "CULTURA CHINESA" NO JOGO DO DRAGÃO E DO LEÃO EM SÃO PAULO por Jingyi Xiong

 

Introdução

No dia 21 de março de 2026, no Largo da Batata, em São Paulo, assisti a uma cena que condensa o problema central deste ensaio. Sete leões de cores distintas subiam ao palco movidos por dois grupos: crianças sino-brasileiras de dez a quinze anos e jovens brasileiros vestidos com uniformes estampados de dragões. À frente, sem microfone, Marco Junior, instrutor de kung fu, conduzia a coreografia com gestos e olhar.

Quando uma criança perdeu a força no braço, uma instrutora brasileira assumiu temporariamente sua posição sem interromper a performance. Em outro momento, ela devolveu a posição ao menino segundos depois. A cena era rápida, quase imperceptível para quem observava o efeito final. Mas ela me pareceu reveladora: a continuidade da performance dependia de trocas silenciosas, correções e redistribuições momentâneas de autoridade corporal.

A pergunta que ela suscita não é "o que há de autêntico no dragão e no leão chineses?", mas algo mais produtivo do ponto de vista antropológico: quando a "cultura chinesa" é performada por corpos que não são chineses, ensinada por mestres que não nasceram na China e reivindicada tanto por descendentes de migrantes quanto por praticantes brasileiros sem ascendência asiática, o que está sendo chamado de "China"?

O argumento deste ensaio é que não há uma "China" unívoca no campo observado. Aparecem pelo menos três formas de construção da China: como repertório de símbolos disponíveis para a performance pública; como comunidade ritual da qual se pode participar corporalmente sem compreender todos os seus códigos internos; e como centro espiritual de origem, buscado por praticantes brasileiros sem ascendência chinesa.

Para sustentar esse argumento, mobilizo material de três situações de observação: o Festival de Culturas Asiáticas, no Largo da Batata (21 de março de 2026); a celebração do aniversário de Mazu, na Avenida Paulista (10 de maio de 2026), na qual atuei como participante-observadora; e a visita ao Centro Cultural Shàoshèng, em Santa Cecília (18 de maio de 2026). Essas cenas não constituem uma etnografia completa, mas permitem acompanhar tensões relevantes: quem ensina e quem aprende, quem é reconhecido como portador legítimo de uma tradição e como a ideia de cultura chinesa muda conforme passa do palco para a rua e da comunidade chinesa para o público brasileiro.

1. Caminhos metodológicos: uma tentativa de escrita etnográfica

Este trabalho se limita a três situações de observação e deve ser lido como uma tentativa de escrita etnográfica, isto é, um exercício de descrição situada acompanhado de reflexão analítica. O objetivo não é transformar episódios pontuais em retrato completo de uma comunidade, mas observar como, em cenas concretas, diferentes sentidos de "China" são produzidos, disputados e incorporados.

A escrita em primeira pessoa corresponde ao modo como o campo se apresentou. Em um dos episódios, participei fisicamente do cortejo; em outro, fui posicionada pelos interlocutores como alguém que, por ser chinesa e falar mandarim, teria legitimidade particular para conversar com mestres ligados à cultura chinesa. Minha presença não foi detalhe secundário, mas parte das condições de produção do material analisado.

A reflexão de Peirano (2014), ao afirmar que "etnografia não é método", desloca a etnografia de uma simples técnica de coleta de informações para uma forma de produzir conhecimento antropológico. Nesse sentido, as cenas descritas aqui não ilustram uma teoria anterior: foram o ponto de partida para perguntar o que se chama de "China" quando uma prática cultural chinesa circula por São Paulo. Ao mesmo tempo, reconheço os limites do exercício: as análises propostas devem ser lidas como hipóteses interpretativas, não como conclusões definitivas.

2. A China como problema antropológico e sinológico

A proposta de pensar a China a partir do encontro entre Sinologia e Antropologia orienta este ensaio. Dialogo com Macedo (2021), ao tratar a Sinologia como campo historicamente construído, e com Bruckermann e Feuchtwang (2016), ao pensar a China também como campo etnográfico e problema teórico.

No caso analisado, "China" não designa apenas um país. Ela aparece como símbolo visual em um festival, tradição ritual em uma procissão, horizonte espiritual para mestres brasileiros e herança para descendentes chineses. O problema não é definir previamente o que seria a China verdadeira, mas perguntar de qual China se fala em cada contexto.

Manuela Carneiro da Cunha (2017), ao discutir "cultura" e cultura, ajuda a pensar essa passagem. A "cultura chinesa" no campo observado funciona como categoria mobilizada pelos próprios sujeitos para reivindicar reconhecimento, estabelecer fronteiras e produzir valor simbólico. Perguntar "isso é autêntico?" produziria uma resposta normativa. Mais interessante é perguntar como a autenticidade é construída, por quem e em que situação.

3. Entre o palco e a rua: a China como repertório público

No Festival de Culturas Asiáticas, a "cultura chinesa" aparecia sobretudo como repertório visual e sonoro mobilizado em um evento público. O número de dragão e leão era apresentado dentro de uma programação que reunia referências chinesas, japonesas e coreanas sob o rótulo genérico de "culturas asiáticas".

Essa justaposição revela algo estrutural: para grande parte do público brasileiro, as diferenças internas da Ásia tendem a importar menos do que o efeito geral de uma experiência reconhecível como "asiática". O dragão, a cor vermelha, os tambores e os uniformes funcionam como sinais associados à "cultura chinesa", mesmo quando o público não conhece a origem da prática, suas variações regionais ou seus contextos rituais.

No palco, a continuidade do dragão dependia de uma coordenação prática entre crianças sino-brasileiras, jovens brasileiros, comandos em português e substituições momentâneas. A cultura, aqui, não é uma ideia que paira acima dos corpos: ela existe como ritmo, força, memória muscular e atenção coletiva. Ao mesmo tempo, quando tudo é apresentado como "asiático", a especificidade chinesa corre o risco de se diluir em uma estética mais ampla da diferença cultural.

4. O corpo em campo: segurar a pérola do dragão

Minha entrada na procissão de Mazu não foi planejada. Matiana, instrutora de artes marciais e colega do Instituto Confúcio, perguntou se eu "queria ir brincar de dragão". Não fui eu quem se aproximou de um "objeto de pesquisa", fui convocada por uma rede de relações pessoais. Em campo, era antes de tudo "alguém que veio ajudar".

Coube-me segurar a pérola do dragão, função que exigia menos coordenação técnica. Essa posição revelou-se um ponto de observação privilegiado: eu caminhava à frente, via o cortejo se abrir diante de mim e, ao mesmo tempo, sentia uma fração do esforço físico coletivo. Eu guiava, mas não comandava; participava, mas não dominava. A análise de Guarino-de-Almeida (2022) sobre o corpo nas artes marciais chinesas é pertinente aqui: o corpo não aparece como simples instrumento de execução, mas como lugar de formação e produção de conhecimento.

O momento de maior densidade reflexiva veio com a chuva. Quando o temporal se intensificou, fomos instruídos a buscar abrigo, pois "o dragão pode molhar, mas o leão é de pelo, não pode". Pouco depois, um participante chinês explicou que era Mazu lavando o caminho, protegendo para que o ano fosse próspero. A chuva, que para mim era contratempo, para outros era bênção. Esse episódio mostrou os limites da minha posição em campo: ser chinesa não significava ter acesso automático ao sentido das práticas observadas.

5. A casa como portal: o Centro Cultural Shàoshèng

Em 18 de maio, visitei o Centro Cultural Shàoshèng, em Santa Cecília. O espaço é organizado a partir da tríade qi-jing-shen da medicina chinesa. Um de seus fundadores, o mestre Gil, descreveu o lugar não como academia, mas como "portal": um espaço pensado para conduzir quem entra a uma atmosfera cultural inteira.

Gil é um homem negro, nascido na periferia da zona norte de São Paulo, que começou a praticar kung fu após assistir, na televisão, a filmes de artes marciais chinesas. Márcio, o segundo mestre presente, pratica há quarenta e dois anos e narra sua relação com a cultura chinesa por meio de um vocabulário espiritual: fala de uma "ligação de vida passada" e do momento em que, ao pousar em Pequim, sentiu que estava "voltando para casa".

Questionado sobre por que os praticantes brasileiros superam em número os chineses na escola, Márcio respondeu: "os chineses, eles próprios, não dão tanta atenção e importância à sua própria cultura tradicional". A frase pode ser lida como crítica ou como forma de legitimar a presença brasileira no campo: se os próprios chineses não valorizam suficientemente sua cultura, aqueles que a praticam com dedicação podem reivindicar para si uma forma de fidelidade.

Gil sublinhou que não é chinês e que, ainda assim, dedica a vida à prática e à transmissão da cultura chinesa. Para ele, essa cultura "não é algo que só pode pertencer aos chineses", mas um patrimônio que pode ser reapropriado por pessoas diferentes. A legitimidade, em sua fala, não vem da etnia, mas do compromisso, do estudo e da continuidade.

6. Corpo, pertencimento e transmissão

As três cenas mostram que a cultura chinesa, no jogo do dragão e do leão em São Paulo, é produzida por corpos em movimento. Em vez de perguntar apenas quem "possui" a cultura chinesa, é preciso perguntar quem a pratica, quem a sustenta, quem a ensina e quem é reconhecido como capaz de transmiti-la.

A transmissão cultural não segue uma linha étnica simples. Ela passa por redes de amizade, escolas, eventos, convites, projetos sociais, viagens e afetos. Ao mesmo tempo, participar não é o mesmo que pertencer plenamente. No cortejo de Mazu, meu corpo estava dentro, mas minha compreensão era parcial. No Shàoshèng, os mestres brasileiros demonstravam compromisso profundo, mas ainda precisavam afirmar sua legitimidade diante da possibilidade de serem vistos como "não chineses". No festival, a performance era reconhecida como chinesa, mas o enquadramento "asiático" diluía parte de sua especificidade.

A questão não é afirmar que a cultura chinesa pertence a todos indistintamente, nem que pertence apenas aos chineses. Trata-se de observar as condições concretas sob as quais ela se torna acessível, transmissível e legítima. Em São Paulo, ela não aparece como essência que viaja intacta da China para o Brasil, mas como campo de práticas, traduções, disputas e afetos.

7. Conclusão

As três cenas analisadas apontam para formas distintas de construção da China. No festival, ela aparece como repertório simbólico recombinável, com suas especificidades parcialmente diluídas pelo rótulo de "cultura asiática". Na procissão de Mazu, como comunidade ritual da qual participei fisicamente sem dominar sua gramática interna. No Shàoshèng, como centro espiritual e disciplinar, reivindicado por sujeitos sem ascendência chinesa.

O ensaio procurou mostrar que a cultura chinesa não circula apenas como símbolo abstrato: ela passa pelo corpo. Nesse campo, ela é performada, treinada, corrigida, sentida e negociada. A chuva como bênção, e não como contratempo, mostrou que ser chinesa não significa pertencer igualmente a todas as Chinas que circulam em São Paulo.

Este ensaio é, portanto, menos um retrato acabado do que um primeiro corte analítico. Suas perguntas permanecem abertas: como práticas chinesas são transmitidas em contextos diaspóricos? Quem pode reivindicar autoridade sobre uma tradição? E quantas Chinas se tornam possíveis quando deixamos de procurar uma essência única e passamos a observar as situações concretas em que ela é nomeada, praticada e disputada?

Referências biográficas

Jingyi Xiong é mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e professora de língua chinesa no Instituto Confúcio da Unesp. Sua pesquisa volta-se para a difusão, reinterpretação e prática intercultural das danças tradicionais chinesas do dragão e do leão em São Paulo. Contato: antonia.xiong@usp.br

Referências bibliográficas

BRUCKERMANN, Charlotte; FEUCHTWANG, Stephan. The Anthropology of China: China as Ethnographic and Theoretical Critique. London: Imperial College Press, 2016.

CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. "Cultura" e cultura: conhecimentos tradicionais e direitos intelectuais. In: CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. Cultura com aspas e outros ensaios. São Paulo: Ubu Editora, 2017. p. 304-369.

GUARINO-DE-ALMEIDA, Gabriel. Humanidade e animalidade nas artes marciais chinesas. Campos - Revista de Antropologia, v. 23, n. 1, p. 78-103, 2022.

MACEDO, Rogério Fernandes. Sinologia comparada: as bases da sinologia ocidental e a construção da sinologia chinesa com Wang Li. 2021. Tese (Doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Campinas, 2021.

PEIRANO, Mariza. Etnografia não é método. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 20, n. 42, p. 377-391, jul./dez. 2014.

RODRIGUES, Irene. Ser laowai: o estrangeiro antropólogo e o estrangeiro para os migrantes chineses entre Portugal e a China. Etnográfica, v. 16, n. 3, p. 547-567, 2012.

2 comentários:

  1. Olá Xiong.

    Você argumenta que existem "várias Chinas" produzidas em diferentes contextos. Minha dúvida é se existe algum limite para essa multiplicidade. Em que momento uma prática deixa de ser compreendida como "cultura chinesa" e passa a ser entendida como uma prática brasileira inspirada na China? Como você pensa essa fronteira ao longo da sua pesquisa?

    Atenciosamente,
    Bingzhang Wang

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    1. Olá Bingzhang!
      Essa pergunta toca na tensão central do meu argumento, e agradeço por formulá-la com tanta precisão.
      Minha posição é a seguinte: a multiplicidade tem limites, mas esses limites não são essenciais, são situacionais e continuamente negociados pelos próprios atores. O que me chamou atenção nas três cenas analisadas é que, apesar de suas diferenças, todas compartilham um elemento: "a China" permanece como ponto de referência para a legitimidade das práticas. Gil afirma que essa cultura "não pertence exclusivamente aos chineses", mas ao mesmo tempo posiciona a China como um "centro" do qual se extrai algo precioso para ser replantado no Brasil. Márcio critica os próprios chineses por não valorizarem sua cultura tradicional, mas essa crítica já pressupõe que existe uma "cultura tradicional chinesa" que vale a pena preservar e que serve como parâmetro.
      Por isso, respondendo diretamente à sua pergunta: Uma prática se torna predominantemente brasileira quando, embora inspirada na China, já não está mais ancorada nela; ou seja, quando os próprios atores deixam de precisar invocar “a China” para legitimar aquilo que fazem. No campo que observei em São Paulo, esse deslocamento ainda não ocorreu. A fronteira não desapareceu: ela apenas migrou de uma lógica de pertencimento étnico para uma zona de negociação constituída por compromisso, continuidade e relações de transmissão.

      Att,
      Jingyi Xiong

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