ENTRE EMESA E ROMA: HELIOGÁBALO E AS CONEXÕES ORIENTAIS NO IMPÉRIO ROMANO (218-222 EC) por Carlos Augusto Lima Barros

 
Em seu estudo intitulado Rome in the East: the transformation of an Empire, o arqueólogo australiano, Warwick Ball [2000], aponta que o mundo oriental antigo se estabeleceu como importante centro de influência sobre o mundo romano, servindo como referencial sociocultural e até mesmo político:

 

“Voltamo-nos para Roma em busca de nossas próprias raízes culturais europeias. Mas a própria Roma voltou seu olhar para o Oriente. O Oriente romano exerceu um impacto imenso sobre a Europa de uma forma que nenhuma outra parte do império conseguiu. O cristianismo é o exemplo mais evidente, mas houve muitas outras formas, mais sutis, embora igualmente importantes, pelas quais o Oriente influenciou Roma desde o início de sua expansão imperial. O Oriente era a principal fonte de riqueza de Roma. No Oriente encontrava-se também a única outra grande potência, o Irã, que em termos culturais e militares rivalizou com Roma. Após o contato com as monarquias orientais, a própria Roma tornou-se uma monarquia. Das origens mitológicas em Tróia aos imperadores sírios de Roma, passando pelas influências religiosas, intelectuais e arquitetônicas orientais, o Oriente transformou Roma. Por meio desse contato, a civilização do Oriente Próximo transformou a Europa. A história de Roma é, em grande medida, a história de um fascínio pelo Oriente, fascínio este que se aproximou de uma verdadeira obsessão”. [Ball, 2000, p. 1]

 

A partir de tal citação, é possível se ter uma dimensão do impacto que a ascensão de um imperador de origem síria e vinculado a tradições culturais de Emesa, sua cidade natal, teve no contexto da Roma Imperial. Nascido em Emesa, importante centro religioso da Síria romana, Vário Avito Bassiano foi formado em um ambiente marcado por tradições locais, redes aristocráticas regionais e práticas religiosas que conectavam a Síria a espaços mais amplos do Oriente Antigo.

 

O estabelecimento de Vário Avito Bassiano, popularmente conhecido por Heliogábalo, nome latinizado em referência a sua divindade de adoração, como governante de um império que exercia domínio político sobre sua própria região de origem durante os anos de 218-222 EC, se insere em uma ampla rede de contatos, trocas e influências que o Oriente Antigo estabeleceu no contexto do mundo antigo, ainda que inseridas em estruturas de dominação imperial romana.

Permeado por intrigas, alianças políticas e influências de elites orientais em Roma, o reinado de Bassiano lega uma questão que ultrapassa a história ocidental de Roma e permite estabelecer o seguinte questionamento: como a trajetória de um jovem sírio evidencia a participação ativa de agentes e tradições orientais nas redes de poder, cultura e religiosidade do Império Romano durante o século III EC?

A partir do questionamento acima, esse artigo propõe analisá-lo como produto de redes de circulação que conectavam Roma à Síria, evidenciando a integração de elementos orientais na dinâmica imperial do século III EC, destacando a agência histórica de sociedades orientais na configuração do mundo romano

 

A influência emesena em Roma

O historiador palestino Irfan Shahid [1984], em seu estudo sobre as relações entre árabes e romanos na Antiguidade, argumenta que, quando os romanos chegaram à Ásia Ocidental no século I a.C., os grupos árabes da região já mantinham longas redes de contato com os selêucidas e ptolemeus, além de interações ainda mais antigas com povos semíticos como arameus e judeus [p. 8–9]. Nesse contexto, esses grupos não constituíam unidades isoladas, mas estavam inseridos em dinâmicas políticas e culturais que envolviam diferentes formações estatais e formas de dominação.

Mesmo após a incorporação progressiva dessas regiões ao Império Romano e, posteriormente, com a extensão da cidadania a todos os peregrinos por meio da Constitutio Antoniniana [212 EC], tais grupos mantiveram diferentes níveis de continuidade cultural e autonomia política, ainda que sob novas estruturas imperiais [Shahid, 1984, p. 9; 146]. Esse processo não implicou ruptura total, mas reconfiguração das formas de interação entre elites locais e poder imperial.

Nesse sentido, a região de Emesa, cidade de origem de Vário Avito Bassiano, constitui um exemplo significativo dessas dinâmicas. A historiadora síria Maamoun Abdulkarim [2023] destaca que o sítio arqueológico de Emesa (atual Homs) apresenta ocupação desde o terceiro milênio AEC, mas sua consolidação urbana e política intensifica-se sobretudo no período romano. A análise de um corpus de 303 inscrições evidencia a coexistência de nomes semíticos associados a elites locais e nomes greco-latinos, indicando processos simultâneos de continuidade dinástica e integração às estruturas culturais e administrativas do Império [p. 145-149; 155].

Além disso, Emesa estava inserida em importantes redes de circulação que conectavam o Mediterrâneo oriental ao interior sírio. Conforme o arqueólogo francês, Henri Seyrig [1959], sua posição geográfica a vinculava a eixos que incluíam Palmira, Apamea e o vale do Eufrates, conferindo-lhe relevância nas dinâmicas comerciais regionais [p. 184–185]. Nesse contexto, Emesa deve ser compreendida como um espaço urbano articulado a redes políticas, econômicas e culturais mais amplas do Oriente romano, no qual elites locais foram progressivamente integradas às estruturas imperiais.

Nesse sentido, a construção de uma dinastia emesiana, em finais do século II EC, no sistema romano não implicou uma simples dissolução de suas estruturas anteriores, mas um processo de aculturação seletiva, no qual elites locais mantiveram práticas religiosas, nomes próprios e formas de autoridade tradicional, ainda que operando dentro da gramática política imperial [Shahid, 1984, p. 10]. Em Emesa, essa permanência se expressa de modo particularmente significativo na continuidade da função sacerdotal associada à dinastia local, vinculando poder político e autoridade religiosa ao culto solar da cidade em honra ao deus de origem semítica, El-Gabal, conhecido popularmente como Elagabal.

É precisamente nesse ponto que se torna visível a centralidade das figuras femininas na construção dessa rede dinástica de influência. Julia Domna, descendente da linhagem sacerdotal de Emesa, ocupa posição decisiva na articulação entre poder provincial e poder imperial, ao lado de sua irmã Julia Maesa, ambas filhas do Sumo Sacerdote do deus El-Gabal, Caio Júlio Bassiano, que possuía descendência real emesena por meio das figuras de Caio Júlio Sohaemo Filocésar [54-73 AEC, filho de Sampsiceramo II, rei de Emesa por volta dos anos 14-42 AEC], rei-sacerdote de Emesa e Drusila de Mauritânia [descendente de Ptolomeu da Mauritânia, neto de Cleópatra VII] [Pousada, 2021, p. 99].

Júlia Domna seria a responsável pelo início de uma dinastia emesiana em Roma ao se casar com o ex-governador provincial, original de Leptis Magna [atual Líbia], Septímio Severo, que em 193 EC ascendeu como novo imperador romano, e ter dois filhos deste, os futuros imperadores Lúcio Septímio Bassiano (Caracala) [211-217 EC] e Públio Septímio Geta [217 EC]. Nesse processo, Domna não apenas conecta Emesa ao centro imperial, mas participa da constituição de um círculo político e intelectual no qual elites orientais assumem protagonismo na vida da corte romana [Lima Barros, 2025, p. 91; 148-150].

Posteriormente, Julia Maesa desempenha função central na continuidade dessa projeção dinástica, ao mobilizar as condições políticas que permitiram a ascensão de seus netos, Vário Avito Bassiano [Heliogábalo] e, posteriormente, Marco Júlio Gessio Bassiano Alexandre [Alexandre Severo, 222-235 EC] aos cargos de imperador romano. Acumulando diferentes títulos imperiais demonstrados em inscrições públicas e na numismática, por intermédio de Mesa o prestígio da linhagem sacerdotal de Emesa é continuado e reconfigurado como recurso de legitimidade política, sustentado pela atuação de figuras femininas que operam como mediadoras fundamentais entre redes regionais sírias e o centro imperial romano [Lima Barros, 2025, p. 153; 161].

A ascensão de Vário Avito Bassiano em 218 EC ao principado romano está inserida diretamente nessa rede de contatos, influência e participação emesena no poder que o precede, constituindo o ponto culminante desse longo processo de inserção. Ao longo de mais de dois séculos, a combinação entre prestígio sacerdotal, redes aristocráticas regionais, alianças matrimoniais e atuação política de membros da família severiana permitiu que uma linhagem originária da Síria romana acumulasse influência suficiente para disputar e ocupar o centro do poder imperial. Nesse sentido, o governo de Bassiano representa não apenas a chegada de um indivíduo ao trono, mas a manifestação mais visível de uma presença oriental que já atuava há décadas nos círculos dirigentes de Roma.

 

Heliogábalo: o imperador-sacerdote romano

Se a ascensão dos Severos havia introduzido uma influência emesiana indireta no centro do poder romano por meio de Júlia Domna e de sua posição como esposa de Septímio Severo, a chegada de Vário Avito Bassiano ao trono imperial representou uma mudança qualitativa nesse processo. Pela primeira vez, um membro da própria linhagem sacerdotal de Emesa, profundamente identificado com as tradições religiosas e políticas da cidade síria, alcançava diretamente o principado romano.

A ascensão de Bassiano não foi construída em Roma, mas no Oriente. Após o assassinato de Caracala em 217 EC e a tomada do poder por Macrino, Júlia Mesa retornou para Emesa acompanhada de suas filhas e netos, preservando a imensa fortuna acumulada durante décadas de proximidade com a corte imperial [História Augusta, IX, 1-6, p. 166-167; Herodiano, V, 3, 1-7, p. 248-250]. Instaladas novamente em sua cidade de origem, Mesa e sua família mobilizaram os vínculos locais construídos pela antiga dinastia sacerdotal emesiana, articulando uma alternativa política ao novo governo.

As fontes destacam que Bassiano possuía cerca de quatorze anos e exercia o sacerdócio do deus solar Elagabal em Emesa, posição que lhe conferia prestígio religioso e ampla visibilidade entre os habitantes da região e os soldados estacionados na Síria [Herodiano, V, 3, 1-7, p. 248-250]. Sua imagem pública estava profundamente associada à Síria: vestia-se segundo costumes locais, conduzia cerimônias religiosas no grande templo de Elagabal e era reconhecido como representante de uma tradição sacerdotal que remontava às elites dirigentes da cidade [História Augusta, I, 6-7, p. 188-189; Herodiano, V, 3, 1-7, p. 248-250].

Foi nesse contexto que Júlia Mesa mobilizou recursos financeiros, alianças familiares e a memória da dinastia severiana para construir a candidatura de seu neto. Segundo Herodiano, a aristocrata difundiu entre os soldados a ideia de que Bassiano seria filho natural de Caracala, ao mesmo tempo em que prometia recompensas econômicas às tropas que apoiassem o retorno de sua família ao poder [Herodiano, V, 3, 8-12, p. 250-251]. A estratégia encontrou terreno fértil entre contingentes militares já descontentes com Macrino, permitindo que Bassiano fosse proclamado imperador em um acampamento militar próximo a Emesa sob o nome de Marco Aurélio Antonino, em referência a outros imperadores romanos anteriores [História Augusta, IX, 1-6, p. 166-167; Dião Cássio, LXXIX, 31, 1-4, p. 409-411].

A proclamação de Bassiano foi seguida por um conflito militar contra Macrino, no qual as legiões orientais desempenharam papel decisivo. Após uma série de deserções e derrotas, Macrino foi forçado a fugir, sendo posteriormente capturado e executado juntamente com seu filho Diadumeniano. A vitória garantiu a chegada ao trono de um jovem sacerdote de Emesa, cuja ascensão havia sido construída longe de Roma e profundamente vinculada às redes políticas, familiares e religiosas da Síria [Dião Cássio LXXIX 39; 4-6; 40; 1-2, p. 429;431; Herodiano, V, 4, 1-12, p. 251-254; História Augusta, X, 1-3, p. 167].

O reinado estabelecido por Bassiano pode ser compreendido como um momento de maior visibilidade de elementos culturais e religiosos oriundos da Síria no centro do poder imperial, no qual as três principais fontes que o abordam, Dião Cássio, Herodiano [escritores greco-romanos] e o compilado de biografias imperiais latino, História Augusta, se detêm na representação de um governante que mantinha práticas culturais e religiosas associadas à sua origem síria, frequentemente descritas pelos autores como incompatíveis com as tradições romanas. Contudo, essa identidade sírio-emesiana não se manifesta apenas nas narrativas produzidas por autores greco-romanos. Ela também pode ser observada na documentação material associada ao seu governo, especialmente nas inscrições e na numismática imperial, que evidenciam a presença de referências religiosas e políticas vinculadas à sua origem oriental.

Fonte: https://www.wildwinds.com/coins/ric/elagabalus/RIC_0144.jpg.

 

Na moeda acima, Bassiano é representado no anverso com seu busto laureado, trajando vestes militares e acompanhado da legenda IMP ANTONINVS AVG [Imperator Antoninus Augustus], títulos que enfatizavam sua condição de imperador romano. No reverso, contudo, a composição desloca a atenção para um elemento diretamente associado à sua origem síria: a pedra sagrada de Emesa, símbolo físico do deus Elagabal, transportada em uma quadriga e acompanhada da inscrição SANCT DEO SOLI ELAGABAL [Ao sagrado deus Sol Elagabal]. Diferentemente de representações tradicionais do panteão romano, a escolha de representação no reverso da moeda do imperador o conecta diretamente a sua origem oriental, ao mesmo tempo que divide lugar com um anverso permeado pela titulatura imperial romana.

Essa justaposição entre anverso e reverso não deve ser lida como uma simples oposição entre dois universos culturais distintos, mas como a produção simultânea de diferentes regimes de legitimidade dentro do mesmo objeto monetário. Nesse sentido, a moeda não apenas representa o imperador e o deus, mas organiza uma relação entre eles em termos de autoridade política e religiosa que não pode ser reduzida a uma equivalência estável entre “Roma” e “Oriente”.

Fonte: https://www.wildwinds.com/coins/ric/elagabalus/RIC_0200.jpg.

Neste outro exemplo de moeda pertencente a numismática do imperador, aqui se tem uma perspectiva ainda mais profunda de divisão entre suas representações. No anverso, observa-se a manutenção da linguagem política tradicional romana, com a titulação imperial IMP ANTONINVS PIVS AVG [Imperator Antoninus Augustus Pius Augustus] e a representação do busto laureado e drapeado, marcando sua inserção formal no repertório iconográfico dos imperadores do principado. Trata-se de uma imagem que reafirma sua autoridade enquanto imperador, inscrita nos códigos visuais convencionais de legitimação do poder em Roma.

No reverso, contudo, essa continuidade é deslocada por uma formulação de natureza explicitamente religiosa, na qual o imperador é representado como SVMMVS SACERDOS AVG (Sumo Sacerdote Augusto). A cena o apresenta em trajes togados, realizando um sacrifício diante de um altar, em associação direta ao culto de Elagabal, o que evidencia não apenas sua função ritual, mas a centralidade da dimensão sacerdotal em sua identidade política. Diferentemente da moeda anterior, em que o deus era figurado como objeto de veneração separado do imperador, aqui ocorre uma sobreposição mais intensa entre figura imperial e função religiosa, na qual o próprio Augusto é inserido no interior da prática cultual.

Essa articulação iconográfica evidencia a coexistência de diferentes registros de autoridade no interior da imagem monetária, na qual a legitimidade imperial não se restringe à esfera política tradicional, mas é também produzida por meio de sua vinculação direta ao sacerdócio do deus solar de Emesa. Nesse sentido, a moeda não apenas representa duas dimensões distintas do poder, mas organiza visualmente sua interdependência, tensionando os limites entre função imperial e função sacerdotal no interior da própria linguagem numismática, criando uma significação cultural múltipla de sua representação.

Como argumenta o teórico literário indiano, Homi Bhabha [1998], os processos de significação cultural não se estruturam a partir de identidades fixas ou totalizadas, mas emergem em espaços de enunciação marcados pela ambivalência e pela negociação de sentidos [p. 51-52; 64-65]. Nesses espaços, elementos culturais distintos não coexistem como blocos autônomos, mas são continuamente rearticulados em novas formas de representação, nas quais a autoridade é produzida precisamente no intervalo entre referências diversas. A moeda de Bassiano pode ser compreendida a partir dessa lógica, na medida em que articula, em um mesmo suporte, a titulatura imperial romana e a presença do culto solar de Emesa, sem que uma dimensão elimine ou absorva completamente a outra [p. 63-65; 227-229].

Nesse sentido, a leitura de Bhabha (1998) permite compreender essa composição não como a simples justaposição de duas esferas de poder, mas como um processo de enunciação marcado pela ambivalência e pela negociação contínua de sentidos. A autoridade imperial não aparece como um dado fixo ou plenamente coerente, mas como algo produzido justamente no intervalo entre códigos culturais distintos, nos quais o signo romano de soberania e a gramática religiosa oriental são constantemente rearticulados. Assim, a moeda não apenas representa uma duplicidade funcional entre imperador e sacerdote, mas evidencia que essa distinção é instável e constantemente renegociada no próprio ato de sua representação, produzindo uma forma de legitimidade que depende dessa tensão constitutiva entre pertencimentos culturais diversos.

Para além desse aspecto mais específico, é possível ampliar a leitura ao considerar que a trajetória de Bassiano não apenas articula registros simbólicos distintos no interior de sua representação, mas também expressa formas de circulação de poder que deslocam o eixo tradicionalmente centrado em Roma. Como propõe Kuan-Hsing Chen (2010), pensar a partir de “Ásia como método” implica abandonar a lógica de um único centro de referência e compreender as formações históricas como constituídas por múltiplos regimes de inter-referência, nos quais diferentes experiências regionais produzem modos alternativos de leitura do mundo e de si (p. 212-214).

Aplicada ao caso em questão, essa perspectiva permite interpretar a ascensão de Bassiano não apenas como incorporação do Oriente ao interior do Império Romano, mas como a emergência de uma rede de legitimidade em que práticas religiosas, dinásticas e políticas da Síria e de Emesa passam a funcionar como pontos ativos de produção de autoridade imperial. Assim, Roma deixa de ser o único centro irradiador do poder e passa a integrar um campo mais amplo de negociações históricas, no qual o Oriente não é apenas objeto de representação, mas também instância produtora de referenciais políticos e simbólicos (Chen, 2010, p. 222-223; 254-255).

Ao mobilizar simultaneamente referenciais políticos romanos e elementos vinculados à sua matriz cultural emesena, Bassiano reconfigurou parcialmente as formas de legitimação do poder imperial, posicionando-se como um agente cuja autoridade se constituía na articulação entre diferentes regimes culturais. Nesse processo, sua atuação evidencia não apenas a incorporação do repertório oriental ao interior das práticas imperiais romanas, mas também a circulação ativa de formas de poder provenientes da Síria, que passam a interferir na própria gramática de representação do principado. Sua inserção nesse contexto de crescente presença de elites e dinâmicas políticas oriundas do Oriente revela, assim, a constituição de uma rede mais ampla de interações, na qual identidades políticas e culturais não se apresentam como blocos estanques, mas como elementos em permanente negociação e reconfiguração no interior do espaço imperial.

 

Referências

Me. Carlos Augusto Lima Barros é Mestre em História e conexões atlânticas pela UFMA. Desenvolve pesquisas em torno do estudo do Oriente e África antiga, com ênfase em noções de conexão, circularidade, cultura, poder e representação.

 

Fontes Primárias

DIÃO CÁSSIO. Dio’s Roman History. Traduzido por Earnest Cary. London/Harvard: William Heinemann, Harvard University Press (The Loeb Classical Library). Nine Volume, books LXXI-LXXX, 1957.

 

HERODIANO. Historia del Imperio Romano después de Marco Aurelio. Tradução de Juan J. Torres Esbarranch. Madrid: Editorial Gredos, 1985.

 

HISTÓRIA AUGUSTA. Vidas de Hélvio Pertinaz, Dídio Juliano, Severo, Pescénio Nigro, Clódio Albino, Antonino Caracala, Antonino Geta, Opílio Macrino, Diadúmeno Antonino, Antonino Heliogábalo. Tradução do latim, introdução, notas e índice de Cláudia A. Teixeira, José Luís Brandão e Nuno S. Rodrigues. Coimbra: Universidade de Coimbra, CECH, volume II, 2021.

 

Bibliografia

 

ABDULKARIM, Maamoun. The Population of Emesa and Its Region in the Roman Period. In: MATTHIAE, Paolo (ed.). Studia Eblaitica: Studies on the Archaeology, History, and Philology of Ancient Syria, v. 9. Wiesbaden: Harrassowitz Verlag, 2023, p. 145–156.

 

BALL, Warwick. Rome in the East: the transformation of an Empire. Londres: Routledge, 2000.

 

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.

 

CHEN, Kuan-Hsing. Asia as Method: Toward Deimperialization. Durham; London: Duke University Press, 2010.

 

LIMA BARROS. Carlos Augusto. O Oriente ascende em Roma: uma análise das representações documentais do imperador romano Heliogábalo (218-222 d.C.). Dissertação (Mestrado em História e Conexões Atlânticas: Culturas e Poderes) – Universidade Federal do Maranhão: São Luís, 2025.

 

POUSADA, Alfonso Daniel Fernández. El último vuelo del Fénix: Heliogábalo, la piedra solar y el Cometa Halley. Egiptología 2.0, n. 22, enero de 2021, p. 98-146.

 

SHAHÎD, Irfan. Rome and the Arabs: a prolegomenon to the study of Byzantium and the Arabs. Washington, D.C.: Dumbarton Oaks Research Library and Collection, 1984.

 

SEYRIG, Henri. Antiquités syriennes. Syria: Archéologie, Art et histoire, v. 36, n. 3–4, 1959, p. 184–192.

13 comentários:

  1. Prezado Sr. Carlos Augusto Lima Barros,

    desde já gostaria de deixar aqui meus cumprimentos pela comunicação.

    Tendo em vista o fato de Sexto Vário Ávito Bassiano ocupar o espaço de poder máximo no Imperium Romanum e divulgar suas origens culturais e pertenças religiosas em meio à sociedade romana através das moedas presentes no texto, pergunto se não houve (i) nenhuma reação mais consistente da cúpula política do Imperium mediante os hábitos de Heliogábalo ou (ii) se há registros de descontentamento ou reprovação da sociedade romana em si, que tivessem induzido-o a mudar a direção de sua atuação como imperador ou, ao menos, a amortecer a densidade de suas medidas...

    Desde já agradeço pela atenção.

    Atenciosamente,

    Matheus Landau de Carvalho.

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    1. Muito obrigado pelo comentário e pergunta, Matheus. Sobre seu questionamento, quando se olha para as fontes temos poucas ou nenhuma informação sobre esse aspecto da recepção do imperador, mas podemos tecer algumas possíveis reflexões. Olhando para o aspecto da recepção pela elite mais tradicional romana, Dião Cássio, seria uma forte referência e sua preferência em abordá-lo seu aspecto cultural pela ótica do exotismo demonstraa uma recepção negativa em relação a aspectos de sua cultura oriental, da mesma forma as fontes afirma que sua própria avó, Mesa, em uma ocasião teria pedido para que ele troucasse suas roupas por vestes tradicionais romanas, por temer que ele fosse considerado efeminado. A Históra Augusta, em um tom de anedotas, afirma que ele era cruel com o povo, colocando animais peçonhentos ou ariscos como prêmios de loteria, soltava cobras pela noite e se satisfazia pela manhão em ver os resultados ou mesmo que distribuiu grandes quantias de dinheiro do alto de um espaço e as pessoas abaixo que tentavam pegar eram pisadas umas pelas outras. Já Herodiano afirma que as práticas religiosas do imperador eram realizadas publicamente e possuíam uma organização bastante teatralizada, envolvendo inclusive membros da aristocracia romana, o que nos leva a pensar que provavelmente a população tinha acesso a algumas dessas práticas e tinha conhecimento do novo deus oriental que chegou a terra romana, já que autores falam que Elagabal já era conhecido em Roma antes de Heliogábalo, porém de forma mais tímida e também porque o Oriente já tinha um longa história de trocas com Roma, inclusive religiosamente falando.

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    2. Prezado Sr. Carlos Augusto Lima Barros,

      agradeço demais pela resposta. Com efeito, é possível perceber nela, sim, iniciativas não apenas de pressão direta de dentro da cúpula política do Imperium, como também de amortecimento - se é que entendi - de alguma pressão social da parte de Heliogábalo que viesse a se instalar por conta das origens asiáticas do mesmo Sexto Vário Ávito Bassiano...

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  2. Carlos, gostei muito do texto. A reconstrução da ascensão do Heliogábalo ficou bem amarrada, e o uso das Julias (Domna e Mesa) como agentes ativos da rede de poder. A leitura das moedas também ficou boa, principalmente a segunda, com o SVMMVS SACERDOS AVG.
    Fiquei pensando numa provocação em cima disso. Agora, algumas questões: Você descreve a relação ali como "duplicidade funcional entre imperador e sacerdote" — isso poderia ser dialogado com o problema que Kantorowicz trabalha em The King's Two Bodies? a ideia de que o soberano carrega dois corpos, um temporal e outro sagrado, e que a legitimidade do poder depende de como essa tensão é administrada. Talvez seja um caminho interessante para você explorar num próximo trabalho: pensar não só o efeito discursivo dessa duplicidade, mas o mecanismo mesmo de legitimação por trás dela o que muda quando os dois corpos, em vez de se reforçarem, vêm de tradições religiosas distintas e talvez incompatíveis entre si?
    Ademais, por que esse "experimento" de fusão durou tão pouco e terminou em damnatio memoriae? Seria possível pensar isso como um limite estrutural do próprio sistema romano de legitimação (algo que ele não conseguia absorver e não apenas como um problema de personalidade ou de "excesso" do imperador) como as fontes antigas sugerem?

    Att,
    Victor Hugo de mattos Trindade

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    1. Muito obrigado pelo comentário, Victor. Agradeço pela provocação/sugestão, realmente agregaria em muito nos meus estudos e seria uma nova forma de pensar Heliogábalo como um imperador-sacerdote, penso que a tensão nesse caso estaria justamente em ele conseguir se estabelecer como alguém legítimo, mesmo em meio a sua pouca idade e ascensão longíqua de Roma.
      Sobre seu questionamento, a trajetória de Heliogábalo, tal como narrada pelas fontes literárias, me lembram muito de Akhenaton do Egito, pois os escritores tendem a reforçar um desejo profundo do imperador em querer instaurar uma espécie de monoteísmo em Roma, no qual Elagabal seria a figura divina central. Contudo se olharmos também para a numismática e epigrafia percebemos que em nenhum momento ele abandonou as tradições romanas, mas buscou uma mescla delas com suas tradições emesianas. Em minha disssertação sobre o imperador eu parti do princípio de que não foi um princípio único que o fez ser preterido em relação ao seu primo, Alexandre Severo, que também advinha da Síria e era seu parente próximo. O que me parece é que Heliogábalo falhou em conseguir equilibrar o uso de sua auctoritas, ou seja, sua autoridade e poder de forma que abarcasse também a aristocracia mais tradicional e sua legião, ele teria se aproximado muito mais de outras figuras orientais, e uma destas, sua avó, Mesa, ao perceber que ele estava perdendo apoio se virou contra ele, o que me parecer ter sido um ponto fundamental para que ele perdesse também sua proteção nessa rede de alianças, pois ela tinha uma grande influência. Para além disso, acredito que contribuiu o fato de que sua forte devoção a Elagabal teria sido visto com temor pela camadas mais tradicionais, porque alterava a importante estrutura religiosa de Roma, que hierarquizava os seus deuses e os deuses estrangeiros. Por fim, a corte de Heliogábalo parecia preferir pessoas que não condiziam com o padrão romano, o que me leva a pensar em possíveis retaliações. A Danação de Memória que ele sofreu pode ser vista como uma união de todos esses aspectos, aliada a uma propaganda política de seu sucessor e de sua avó, que permaneceu viva, como uma dissociação de sua imagem e confirmação de que não eram "iguais a ele"

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  3. Wendell dos Reis Veloso7 de julho de 2026 às 20:09

    Prezado Carlos Barros, saudações. Parabéns pelo seu texto. Meus comentários são mais dúvidas ligadas à curiosidade. (I)Quais as fontes disponíveis para o estudo do Heliogábulo. o corpus é formado apenas pelas moedas e os textos que você citou ou existem outras documentações que nos permitem "vê-lo" por outros viéses? (II) A literatura que o acusava de não respeitar o mos maiorum romano o descrevia em quais termos? Obrigado desde já. Wendell dos Reis Veloso.

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    1. Muito obrigado pelo comentário, Wendell. Temos três fontes literárias principais sobre o imperador, ou seja, as que apresentam maior detalhamento sobre suas vida e reinado, História Romana (Dião Cásssio), História Romana depois de Marco Aurélio (Herodiano) e a História Augusta, contudo ele também foi abordado em outras fontes como Breviarum (Eutrópio), Epítome de Caesaribus (Aurélio Vitor), História Nova (Zósimo), contudo todas essas o abordam pelo viés negativo, como uma tradição que se manteve ao longo da história. Existe uma única fonte que se mostra contrária a esse discurso e apresentou o imperador a partir de uma perspectiva positiva, contudo ela é do período da chamada Antiguidade Tardia e tem algumas problemáticas, Chronographia (João Malalas), recomendo a leitura da minha seguinte publicação "A representação do imperador romano Heliogábalo (218-222 d.C.) no escrito tardo-antigo Cronografia (sec. VI) de João Malalas disponível no seguinte link: https://letamis.ufes.br/sites/letamis.ufes.br/files/field/anexo/10_livro_poderes_traducoes_e_resistencias_i_-_antiguidade_e_alta_idade_media.pdf. Em relação a sua segunda pergunta, ele era representado como um sujeito efeminado, com práticas homoeróticas passivas, alguém que rejeitava os costumes romanos em prol de sua cultura oriental, se vestia como um sacerdote assírio, utilizava maquiagem e acessórios associados às mulheres, sacrificava crianças em honra a Elagabal, dava cargos de confiança a seus amantes ou a quem lhe pagasse, bem como narrações de causos mais específicos como a de que ele teria feito cair milhares de pétalas sobre um grupo de pessoas que morreram sufocadas, essa narativa inclusive foi a inspiração para o quadro "As rosas de Heliogábalo" de Lawrence Alma-Tadema (1888). Tais narrativas devem ser sempre lidas de um viés crítico, pois muitas nascem do desejo de sujar a memória do imperador e quando contrastadas com a narrativa de Malalas trazem diferentes reflexões.

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  4. Oi, Carlos! Li seu texto e achei muito interessante. Como estudante de Psicologia, fiquei fascinado com a riqueza de informações e referências que você reuniu ao longo da discussão. Eu conhecia muito pouco sobre Heliogábalo, mas seu texto amplia bastante essa compreensão. Ao longo da leitura, foi muito interessante perceber que ele não deve ser entendido apenas como uma "figura excêntrica", mas como expressão de processos históricos, culturais e políticos mais amplos.

    No entanto, fiquei com uma dúvida: por que Heliogábalo acabou sendo retratado e lembrado por muitos como uma "figura excêntrica"? Quais outros fatores contribuíram para essa construção?

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    1. Muito obrigado pelo seu comentário, Gabriel. Em relação as suas perguntas, se analisarmos de forma crítica as fontes primárias percebe-se que as narrativas apresentam algumas similaridades na forma como se preocupam em colocá-lo como alguém não somente "excêntrico", mas também maldoso e isso está relacionado justamente ao processo de danação de memória que o imperador sofreu e que é reforçado pelas fontes como explicada pela forma dissoluta com a qual ele viveu e reinou. Tais fontes são sempre posteriores ao seu reinado, com Dião Cássio sendo o mais próximo a este, mas tendo escrito a parte de sua História Romana que aborda o imperador durante o reinado do sucessor de Heliogábalo, seu primo, Alexandre Severo, logo é de se imaginar que houvesse um desejo profundo de reafirmar Alexandre não como uma extensão do imperador (já que eles eram parentes próximos e advinham da Síria), mas sim como alguém totalmente diferente, que respeitava os costumes romanos, diferentemente de seu primo, que não era dado à lúxuria ou vícios, diferentemente de seu primo, logo vejo muito como construções narrativas que misturam um viés claramente político com um pouco da historicidade que permeou o reinado de Heliogábao. Herodiano, que é o autor mais sóbrio em sua narrativa sobre o imperador, pode ser compreendido como uma leitura menos inviezada, contudo ainda atenta a construção de um legado negativo do imperador. Esses pontos parecem ter construído uma prática de memória que se perpetuou e continuou durante a Antiguidade Tardia e a Idade Média. Para além desse viés político, acrescentaria que sua aproximação de personalidades orientais em lugar da Aristocracia romana tradicional e ampla divulgação de seus costumes orientais parecem ter contribuído para que sua imagem fosse vista como um sujeito "exótico" que ultrapassava os limites de aceitabilidade do outro que Roma cultivava.

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  5. Olá, Carlos. A leitura é muito rica e com uma discussão bem elaborada e cheia de detalhes que me prenderam a atenção. Acho fascinante o quanto Roma foi influenciada pelo povos das regiões do oriente tanto porque eles ocupavam essas regiões, como pelo próprio fascínio deles pelo peso cultural que o oriente representava no império romano.
    Fica meu questionamento/dúvida:
    O contexto da Roma nessa época era de fragilidade política para alguém tão "longe" do coração do império assumir como imperador? E quais eram as implicações políticas e culturais locais de alguém de outra região assumir como imperador?

    No mais, ótima leitura.
    Atenciosamente, Marcus Vinicius.

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    1. Muito obrigado pelo comentário, Marcus. Sobre sua dúvida, quando se fala sobre o século III para o Império Romano se fala em um período de alta instabilidade que vai culminar em governos curtos ocasionados por assassinatos, escassez de comida, guerras e ameaças às fronteiras romanas orientais e ocidentais, especialmente na segunda metade desse terceiro século. Quando se pensa especificamente na ascensão de Heliogábalo, podemos pensar em dois pontos principais, um que é muito bem elucidado por um escritor lá do século II EC, Tácito, que afirmou em sua obra "Histórias", "Revelou-se o segredo do Império: o imperador não precisava ser escolhido em Roma", tal afirmação pode ser compreendida que desse período em diante a principal missão de um futuro imperador era conseguir apoio o suficiente para ascender a tal posto, sendo que em Roma as principais figuras de poder eram o Senado e o exército, figuras centrais para ganhar apoio e também para se manter no poder. Já o segundo ponto é justamnete o que discuto no texto e trago por outros autores, o contato entre Oriente e Roma possuía um forte elo que se constituia por uma influência dupla e que no caso de Heliogábalo se transmitiu em uma inserção anterior a este por meio de sua avó, Júlia Mesa, e sua irmã, Júlia Domna. Uma das coisas que mais me fascina em Heliogábalo é justamente como a Síria romana, mesmo sendo uma região dominada por Roma, mesmo assim isso não impossibilitou que alguém pertencente de tal lugar ascendesse ao pósto imperador, estando munido das corretas alianças.
      Assumindo de outra região ou da própria Roma era esperado que os imperadores respeitasse o conjunto de normas e condutas romanas que o instituiam como um sujeito correto e juto, algo que pode ser compreendido através do termo "mos maiorum", sendo assim, o imperador passava por uma espécie de adequação ao sistema político e religioso e parece ser justamente nesse ponto que o imperador desagradou, pois teria instituído cargos políticos a si mesmo sem antes consultar o Senado, se vestia a moda oriental, instaurou de forma exacerbada o culto ao deus Elagabal, dentre outras práticas que eu vejo como uma "orientalização" do mundo romano.

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  6. Olá! Fantástica comunicação. Gostaria de saber como as Julias aparecem descritas nas suas fontes. Que atributos são atribuídos à elas. Se há alguma coisa relacionada a atribuição de masculinidade à elas.

    Obrigado!

    Atenciosamente,
    Cainã Lima.

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    1. Muito obrigado pelo comentário, Cainã. Eu gosto de pensar as Júlias a partir da ideia de uma dinastia feminina e oriental a chamada, Dinastia das Júlias, constituída pelas Júlias Domna, Mesa, Soémia, Mameia. Todas estiveram diretamente relacionadas ao poder político romano pelas suas ligações parentais com imperador e também de forma indireta pelas suas influências nos governos de seus esposos, filhos e netos. Nas fontes literárias, suas representações variam entre a figura da "mulher honesta" e a figura da "mulher devassa", ora sendo destacadas suas qualidades relacionadas ao apreço pelo costumes romanos, pela filosofia ou sobriedadade, ora seus defeitos como astúcia, devassidão e ganância. Mesa, particularmente, é a personagem que mais acho interessante pois ela parece mover diferentes engrenagens de poder para se manter em uma posição de privilégio, dessa forma, ela vive com sua irmã, após a morte desta ela consegue dar um golpe político para Heliogábalo ascenda, o influencia, ao perceber seu enfraquecimento o trai e se alia ao seu outro neto e se mantém viva mesmo após o assassinato de Heliogábalo, dessa forma ela consegue sobreviver e se inserir em quatro reinados diferentes (seu cunhado, Septímio Severo, seu sobrinho, Caracala e de seus dois netos). Outro aspecto interessante das Júlias é que estas serão representadas na numismática romana, recebendo homenagens nos períodos desses reinados acima destacados e também conquistarão títulos importantes que a colocavam em posição de destaque como os de Mãe da Patria ou de Mãe dos Acampamentos. No seguinte artigo eu faço um estudo sobre tais figuras: Poder feminino em coalização: dinastia das Júlias e Heliogábalo https://publicacoes.even3.com.br/book/experiencias-femininas-no-mundo-antigo-e-medieval-8511535

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