DEBATES SOBRE O CONSUMO DA HALLYU NO BRASIL E AS SUAS ESTRUTURAS DE PARTICIPAÇÃO NA INDÚSTRIA DO FETICHE CULTURAL por Maria Caroline Sagais

  

O soft power, a meu ver, é a ferramenta pela qual nós iremos conhecer e ter um primeiro contato com os países do globo nos dias atuais. O conceito criado por Joseph Nye [2023] durante o final do século XX refere-se a influência não tangível que a cultura têm nas relações entre os países. A princípio, essa influência que é considerada leve e moderada tem uma potencialidade enorme se percebermos todo o nosso consumo de mídias externas e como isto influência nossa percepção sobre os países produtores dessas mídias. Neste sentido, o soft power é uma influência não física que se gere através da disseminação cultural a fim de evitar confrontos diretos e violentos entre os países em um mundo cada vez mais globalizado. Portanto, soft power é inerentemente e de modo cíclico, poder, diplomacia, propaganda e discurso. A visão que os países querem passar no circuito internacional, é indissociável da própria auto-imagem do país produtor, portanto é interessante para a História análise destes discursos.

 

Quando Nye elaborou este conceito no final da década de 1980, ele estava longe de pensar o caso sul-coreano com a Hallyu 한류, entretanto, é indiscutível a influência cultural e econômica que a Coreia do Sul vem adquirindo ao longo dos anos. Apesar da já crescente presença do Cool Japan クールジャパン desde meados  dos anos de 1990 no Brasil, parecia improvável que, por exemplo, produções audiovisuais do Leste Asiatico batessem de frente com produções estadunidenses na televisão e no cinema. No entanto, isto é algo que vem ocorrendo com os filmes e k-dramas coreanos nas diferentes plataformas de streaming do país e do mundo. Em especial no Brasil, é interessante perceber como esse consumo molda nossa percepção sobre a Coreia do Sul e os coreanos, mas este é um tópico que iremos tratar mais a frente.

 

A Hallyu, ou, Onda Coreana, é um fenômeno recente que vem intrigando várias áreas de pesquisa, seja na história, comunicação ou relações internacionais. O termo que a princípio era uma forma vexatória de ver a popularização dos produtos coreanos nos mercados asiáticos passa a ser uma marca nacional de auto-imagem do país [Won, 2017]. Com as mudanças nos consumos culturais, as linhas imaginárias que criamos para as nações se tornam cada vez mais porosas, complexificando os debates de recepção e produção. Nesse sentido, a análise crítica dos diversos casos de soft power’s do mundo contemporâneo tende a crescer dentro dos campos de pesquisas. Sendo perceptível que este movimento já se iniciou dentro das universidades e instituições de ensino do país.

 

Neste contexto, é preciso que debates mais aprofundados sobre os efeitos da Hallyu no Brasil sejam feitos para compreendermos como a disseminação da cultura coreana — aqui refiro-me em especial a indústria dos k-dramas e idols — atua na propagação de estereótipos do povo coreano, e ainda, de seu corpo por meio de padrões estéticos quase impossíveis de serem alcançados. Esse processo coloca os corpos como objetos a serem consumidos na indústria do fetiche,  que é uma fonte lucrativa considerando a base capitalista que engrena as relações de consumo [Keane, 2007, p. 43 - 46]. Esta relação vai desde os múltiplos merchandise colecionáveis relacionados aos seus grupos favoritos à constante disseminação de "homens perfeitos" pela indústria audiovisual. E ressalto, que isto não é o "mal da cultura asiática", invadindo os mercados mundiais, já que o próprio american way of life foi um estilo de vida consumido por diversos outros países. Contudo, é preciso um consumo consciente para que a representação não tome parte da sua coleção iconográfica do que deve ser um "bom asiático". Digo isto tanto no caso coreano quanto no japonês, dado todo o histórico da imigração japonesa no Brasil.

 

As raízes históricas deste imaginário e, consequente fetiche, podem ser traçadas pelo início das migrações asiáticas para o país no final do século XIX e início do XX, em que a imigração desses sujeitos era extremamente indesejada. Com  o passar do tempo e o apogeu econômico dessas minorias, eles passaram a ser vistas como uma “minoria modelo” [Nakamura; Ambra, 2025].

 

É curioso que um país como o Brasil, que tratava todos os países da Ásia como um conglomerado de culturas, línguas e etnias centralizado na figura do Japão, em menos de 30 anos passou a ter consciência histórica ensejada por meio do consumo cultural. E somente a partir deste consumo esse público passou a perceber o grande preconceito e desrespeito étnico racial que perpetraram (e ainda perpetuam) a qualquer sujeito amarelo no país. Os determinados "japas" ausentes de nome e identidade que podiam ter qualquer tipo de ascendência asiática — isto quando não eram sujeitos de ascendência indígena — evidencia não só ignorância étnico-racial para com o “outro” oriental, mas, também, para com a diversidade de seu próprio país.

 

Portanto, mesmo que este  debate seja muito mais profundo do que exponho aqui, é um debate necessário para que possamos nos conscientizar sobre como  as dinâmicas atuais de fetiche no consumo das culturas distantes da nossa funcionam. Ou seja, para que o nosso consumo não sirva como fomento de uma indústria do fetiche, que  vê outras  culturas a partir de uma ótica do  exotismo; de um imaginário orientalista; que pode ser imaginado, montado e editado à bel prazer dos telespectadores.

 

A auto imagem propagada pelo soft power, pode ou não fazer parte da intencionalidade do sujeito coreano, mas que apesar disto, é difundida institucionalmente pelas produções culturais do país. Neste sentido, o discurso da Coreia do Sul sobre a Coreia do Sul através do Soft power não necessariamente remete aquilo que os sujeitos coreanos pensam sobre o país, é preciso lembrarmos da divisão estatal e civil da sociedade coreana. Essa desconexão é expressa, por exemplo, com a propagação de romances e homens “perfeitos” nas novelas sul coreanas deixando de lado o grande problema que enfrentam as mulheres sul-coreanas dentro da sociedade. A representação não corresponde a uma imagem tangível da sociedade coreana, de mesmo modo, é impossível que a representação contemple a realidade como um todo.

 

Há uma tendência das potências com soft powers bem estabelecidos, como o caso dos EUA e do Japão, de propagar um estilo de vida ideal e excepcional, e isto é inerente à construções identitárias ditas como "tradicionais" e "únicas". Segundo Hayashi:

 

“é imperioso ressaltar que essa operação de apontar atributos tipicamente orientais – notadamente chineses, japoneses e sul-coreanos – não se estabelece somente a partir de um regime de forças advindo dos países do ocidente. Existem também manifestações desse ‘oriente’ que buscam acentuar essas diferenças no plano da alteridade. Em outras palavras, linhas de força que vêm do ‘oriente’ e que planificam tais diferenças e reforçam o Orientalismo de Said ([1995] 2007), ao procurar manter o maniqueísmo oriente/ocidente incandescente.” [Hayashi, 2023, p. 2]

 

O caráter de único passa a gerar no consumidor ocidental um desejo impulsionado pelas próprias propagandas de auto imagem do país produtor, e isso obviamente se agrava quando nos referimos aos países asiáticos. Para além do soft power, o orientalismo ampara um fetiche de possuir e subjugar esse outro oriental, seja pela absorção de determinada característica ou na obtenção do que o outro possui.

 

Acontecimentos não tão esporádicos

Nos últimos dois anos algo pontual vem me chamando atenção, isto é, a efervescência do consumo das diversas produções culturais advindas da Coreia do Sul. Enquanto uma pesquisadora da área, isto me deixa feliz. Entretanto, assim como muitos, me pego questionando sobre quando isto começou? Em que medida isso afeta nossa percepção sobre a Coreia do Sul e os coreanos?

 

Durante o ano de 2025, a cidade onde moro sediou a Hallyu Korean Festival e bem como  o KOFF (Korean Film Festival), ambos no mês de setembro. Isto nunca tinha acontecido antes, apesar de Curitiba ter uma grande quantidade de restaurantes, bares e estabelecimentos culturais japoneses, o mesmo não se pode ser dito sobre a Coreia. Nesse sentido, foi uma grande surpresa quando um dos festivais – o Hallyu Korean Festival – para promover a cultura coreana na cidade extrapolou a capacidade máxima de pessoas no local, e ainda, contou com a presença de pessoas de fora da cidade e do estado para prestigiar o evento.

 

Eram centenas de pessoas em busca de experimentar topokki 떡볶이, kimbap 김밥 e hanbok's 한복 para sentir de perto o que vem sendo mostrado nas telas das plataformas de streaming. Sendo estes, alguns dos pequenos símbolos que temos iconograficamente marcados no imaginário do que é Coreia do Sul

 

Ao caminhar dificilmente pela feira me vi encarando Totoro’s, personagens de anime アニメ e guiozas 餃子. Pensei comigo mesma, "estou eu alucinando com meus objetos de pesquisa?" Apesar do pensamento relativamente recorrente à quem está escrevendo uma monografia, dissertação ou tese, meus olhos não me enganaram. Sim, durante a feira coreana haviam vários símbolos advindos da cultura nipônica, não é algo tão chocante assim, pois há a tendência de quem consome a cultura coreana, não se restringir à ela e vice-versa. O choque, entretanto, foi pela falta percepção de grande parte do público de que ali estavam presentes personagens e símbolos de culturas diversas.

 

Novamente, me peguei surpresa pela minha própria ignorância  do mundo, já que na minha pequena bolha acadêmica, era óbvio que o Totoro, tão icônico e amado símbolo do Studio Ghibli, advinha de uma produção de animação japonesa, entretanto,  isso não significava que esta noção era compartilhado por todos. Considero que avançamos muito desde o final de 1990 e anos 2000 quando tudo que advinha da Ásia era encaixado no guarda-chuva do Japão — neste sentido o próprio termo dorama ドラマ. Contudo, ainda considero que não estamos em um patamar justo para com o respeito e conhecimento da cultura que consumimos. Seria um problema de não haver divulgação das pesquisas realizadas dentro da academia? Seria um problema de curadoria nos eventos? Estas são algumas questões que acredito que devemos pensar coletivamente.

 

Ainda no ano de 2025, houve a polêmica relativa aos encontros fraudulentos no site K-drama Date, site que oferecia supostos encontros com um “Oppa gringo bonito que realiza sua fantasia” e que dentre os diversos pacotes possíveis,  oferecia um chamado de “K-Experiência Íntima” que  proporcionava “um nivél mais profundo de contato fisico, pensado para criar um momento exclusivo, romantico e envolvente” com as clientes. Após o início das investigações do Consulado Geral da República da Coreia no Brasil, o site passou por algumas alterações, remodelando seu conteúdo, que no menor dos casos, eram xenofóbicas, generalizantes e oportunistas. Ao navegar pelo site, agora intitulado “J-drama Date Tokyo”, ele oferecia uma experiência de realização de fetiche pelo turismo, cultura e corpo coreano com direito à recordações instagramáveis. Utilizando-se do burburinho nas redes sociais, o site pretendia abranger não somente o público consumidor de cultura coreana, mas também de cultura japonesa.

 

Imagem 1 -Oppa Coreano


Fonte: K-drama Date, 2025.

 

Imagem 2 - Experiência ideal




Fonte: K-drama Date, 2025.

 

 

Entre os motivos de choque advindos do próprio site, foi possível ver um movimento pequeno, mas considerável, de mulheres nas redes sociais que sentiram interesse em consumir o produto oferecido — que neste caso, era um homem supostamente coreano. Esse acontecimento mostra que,  por mais absurda que fosse a constituição desse site, o surgimento dele ocorre porque há uma procura sistemática por consumo fetichista da cultura coreana e, de modo geral, da asiática também. Neste sentido, Park é certeira quando diz que se:

 

“De um lado, o reconhecimento manifesta-se na popularização dos conteúdos coreanos e nas homenagens coerentemente contextualizadas com responsabilidade à cultura; de outro, a estereotipação surge quando essa popularização vem acompanhada de superficialidade, generalizações, fetichização étnica, idealização de pessoas e culturas coreanas como exóticas e apropriações descontextualizadas (uso de símbolos ou elementos coreanos sem atenção ao seu significado original ou à participação de um profissional sobre a cultura coreana)” [Park, 2025, p. 8].

 

Há, portanto, uma cumplicidade de fatores que interferem na nossa construção de imaginário sobre o outro oriental, neste caso o coreano na sociedade brasileira. Esse corpo que saiu  da completa ignorância e repulsa passou ao patamar de ser visto com olhos de desejo, isto é, objeto de consumo e posse ocidental. Para Park, essas manifestações tendem e “podem reforçar visões orientalistas – que colocam o Oriente como objeto de consumo e fantasia do Ocidente – além de invisibilizar vozes e gerar processos de desaculturação entre os indivíduos de origem coreana residentes no Brasil” [Park, 2025, p. 8].

 

A confluência disto tudo que ocorreu durante o ano de 2025 foi expressa no lançamento da série-documentário “Meu Namorado Coreano” na plataforma de streaming Netflix, em Janeiro de 2026. Reforçando estereótipos e mergulhando no sucesso da onda coreana, a série é um desserviço a uma visão crítica que tantos pesquisadores ao redor do país, fandoms conscientes e pessoas amarelas tentam disseminar, problematizando as mídias de consumo e sua recepção. No artigo “Em Busca do “Meu Namorado Coreano”: heteropessimismo e masculinidade suave em uma produção original da Netflix Brasil” (2026) as pesquisadoras evidenciam o papel que o audiovisual coreano, e, em especial, o consumo de k-dramas — que foi intensificado durante a pandemia de Covid-19  — possuem para os ideais de relacionamento, e consequentemente expectativas de gênero em relacionamentos heteroafetivos, de modo que:

 

“Nas mídias sociais, observa-se a recorrência de discursos que associam os K-dramas a um perfil idealizado do homem coreano, já que essas narrativas exibem modelos de relacionamento heterossexual considerados mais “respeitosos”.”[Castellano; Mazur; Meimaridis; Moura, 2026, p. 2].

 

Portanto, a potencialidade das produções culturais para a construção de um discurso colaboracionista à indústria do fetiche não pode ser ignorada. Dado que tanto a produção quanto o consumo são intrinsecamente ligados ao produzir e propagar o fetiche dos corpos asiáticos em contexto local e global. O intuito deste texto foi de ampliar um debate que vem se tornando cada vez mais pertinente, visando fortalecer a relação interseccional entre o público acadêmico das diversas áreas de conhecimento para com o público fora da universidade. Considero que este é um debate de interesse de ambas as partes, pois,  para que haja a pesquisa sobre o produto e seu consumo, se necessita de um entendimento sobre os consumidores desses produtos/mídias. Espero que o pequeno debate abordado possa contribuir aos estudos emergentes da cultura coreana no país e a disseminação de conhecimento sobre a Hallyu.

 

Referências

Maria Caroline Sagais é discente no Programa de Pós-graduação em História na Universidade Universidade Federal do Paraná (UFPR) na linha de Cultura e Poder. Graduada em História, Memória e Imagem pela mesma instituição, trabalha com os temas de História da Coreia, Japão Imperial, representação no audiovisual e as relações histórico-culturais entre ambos os países. Membro do Grupo de Estudos Afro-Asiáticos (GEAFRAS) e do Núcleo de Estudos Japoneses (NEJAP).

 

CASTELLANO, Mayka; MAZUR, Daniela; MEIMARIDIS, Melina; MOURA, Ana Rochele. EM BUSCA DO “MEU NAMORADO COREANO”: heteropessimismo e masculinidade suave em uma produção original da Netflix Brasil. IN: ENCONTRO ANUAL DA COMPÓS, 35., 2026, Natal (RN). Anais eletrônicos… Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), 2026. Disponível em: <https://publicacoes.softaliza.com.br/compos2026/article/view/15456> acesso em: 22 jun. 2026.

 

HAYASHI, Renan Kenji Sales. SOB A DERME DO IDEOGRAMA: FETICHE . Revista Conexão Letras, [S. l.], v. 18, n. 29, 2023. DOI: 10.22456/2594-8962.132845. Disponível em: <https://seer.ufrgs.br/index.php/conexaoletras/article/view/132845>. Acesso em: 25 jun. 2026.

 

KEANE, Michael. Rethinking Structures of Dominance, Translation Effects, and Export Models. In: KEANE, Michael; FUNG, Anthony; MORAN, Albert. New Television, Globalization, and the East Asian Culture Imagination. Hong Kong: Hong Kong University Press, 2007. p . 39 - 57.

 

NAKAMURA, Aline; AMBRA, Pedro. DO PERIGO AMARELO À MINORIA MODELO: Ambivalências dos estereótipos da população amarela no Brasil. Psicologia e Sociedade, Porto Alegre, vol. 37, p. 1 - 14, 2025.

 

NYE, Joseph S. Soft Power and Great-Power Competition: Shifting sands in the balance of power between the United States and China. Cambridge: Springer, 2023.

 

PARK, In Sung. Representação da Cultura Coreana no Brasil Contemporâneo: os desafios da sensibilização cultural diante do orientalismo. 2025. 47 p. Trabalho de Conclusão de Curso (Artigo) em Gestão de Projetos Culturais e Organização de Eventos, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2025.

 

WON, Yong-jin. Hallyu: Numerous discourses, one perspective. In: JIN, Dal Yong; YOON, Tae-Jin. The Korean wave evolution, fandom, and transnationality. Lexington Books, 2017, p 23 - 40.

12 comentários:

  1. Começar parabenizando, seu texto apresenta uma discussão atual, bem fundamentada e relevante. Chama atenção, sobretudo, a capacidade da autora de aproximar referenciais teóricos de acontecimentos recentes, demonstrando sensibilidade para relacionar fenômenos culturais contemporâneos às estruturas históricas que os sustentam. A utilização de exemplos concretos foi muito feliz, tornou a argumentação acessível e fortalece a pertinência do debate.



    Ao longo da leitura, contudo, surgiu uma questão que considero interessante para aprofundar a pesquisa. Embora o texto sustente que o consumo da Hallyu pode contribuir para a construção de um imaginário fetichizado sobre os sujeitos coreanos, permanece uma dúvida sobre os limites dessa relação causal. Em alguns momentos, a argumentação parece aproximar a expansão da cultura coreana e a intensificação da fetichização como processos diretamente relacionados, mas não fica totalmente claro em que medida esse fenômeno decorre das estratégias de soft power e da própria indústria cultural sul-coreana, e em que medida resulta da recepção e da ressignificação promovidas pelos consumidores brasileiros, mediadas por dinâmicas locais de racialização e orientalismo. Não sei se me fiz claro, minha leitura está correta? pretende desenvolver mais a respeito de como distingue (se é que é possível ou se entende mais como fenômenos socialmente amarrados) a responsabilidade da produção cultural daquela atribuída aos processos de recepção e apropriação no contexto brasileiro.

    Att,
    Victor Hugo de Mattos Trindade.

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  2. Muito obrigada pela leitura, Victor! Eu fico muito feliz pelos elogios mas principalmente pela sua pergunta a qual é bem pertinente para o debate.
    Eu acredito que há uma relação de cumplicidade, mas não sei definir ainda em que medida um afeta o outro, se é que isto é possível tangificar. Pois, tanto há uma intenção de venda de auto-imagem pelo soft powe sul-coreano que beira quase à um auto-orientalismo [termo ultilizado pelo Iwabuchi Koichi para exemplificar o caso japonês, mas acredito que se aplica um pouco aqui] bem como uma fetichização antecipada da recepção mesmo sem essa intenção de venda da auto-imagem. Então é complexo estabelecer limites nesses movimentos tão fluídos que são a disseminação e recepção da cultura outra.
    São alguns dos enigmas que eu estou tentando desvendar na minha dissertação, se é que isto é possível hahaha. Novamente, muito obrigada por sua leitura!

    Atenciosamente, Maria Caroline.

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  3. Olá, Maria! Minha pesquisa também aborda a questão da "minoria modelo" no contexto brasileiro. Nesse sentido, surgiu uma dúvida durante a leitura do seu trabalho. Na sua visão, o fetiche produzido pelo consumo da Hallyu tem como objeto especificamente o corpo coreano ou acaba sendo deslocado para uma categoria racial mais ampla, isto é, para corpos amarelos de maneira geral? Como você diferencia essas duas dimensões?

    Atenciosamente,
    Bingzhang Wang

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    1. Olá, Bingzhang! Eu acredito que pode influenciar sim outros corpos amarelos, mas eu vejo que no nicho de quem consome espeficicadamente cultura coreana há uma consciência um pouco maior sobre as diferenças étnicas dos povos do Leste Asiático (considerando este por conta de toda a cultura pop que chega da China, Japão e Coreia do Sul). Entretanto, para um público consumidor não tão engajado possa parecer um conglomerado homogêneo de culturas, considerando isto no Brasil né, que tem um contato específico de contato com imigrantes chineses e japoneses principalmente. Os esteriótipos que os atingem são diferentes, mas hoje em dia eu acho que a influencia da Hallyu pode sim respingar na percepção desses outros corpos amarelos.

      Desejo sucesso na sua pesquisa! Muito obrigada por ler.

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  4. Olá, Maria!

    Espero que esteja bem.

    Gostaria de parabenizá-la pelo texto. Gostei muito dele e acho muito importante o debate sobre a fetichização dos homens e mulheres sul-coreanos. Queria fazer duas perguntas.

    Considerando que você tem contato com a cultura japonesa, gostaria de perguntar se você conhece o conceito de "cultura inodora", formulado por Koichi Iwabuchi. Quando você aborda que existem personagens japoneses sendo atribuídos à Coreia do Sul, será que a cultura japonesa e coreana possam ter sido influenciadas por essa neutralidade nas produções culturais, tornando difícil distinguir mas mais aceitável consumir e com isso essa homogeneização é agravada?

    Também, sobre os corpos masculinos sul-coreanos serem fetichizados no ocidente. O imaginário desses corpos que vem sendo construído pelo K-pop e outras produções culturais, antes eram rejeitados por sua masculinidade suave, mas hoje, percebemos que há um aumento significativo na procura de relacionamentos com homens sul-coreanos. Você acredita que impacta na visão dos próprios sul-coreanos ou ascendentes de maneira que gera mais resultados positivos ou negativos na visão de si? Os homens coreanos podem usar dessa fetichização como "benefício" para se relacionar com outras mulheres não-coreanas?

    Estou ansiosa para saber suas ponderações.

    Abraços,

    Gabriela Alves Silva.

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    1. Olá, Gabriela! Muito obrigada pelas perguntas, são ótimas hahaha

      Sobre a primeira, sim. Tive contato com este conceito do Koichi na minha pesquisa e durante um laboratório (eu utilizo muito ele, acho um divo). Eu acredito que sim a cultura inodora é muito potente na função de homogenizar todo o Leste Ásiatico como o próprio autor coloca, pois torna mais "palatavél" aos olhos ocidentais consumir uma mídia não marcada pela a região que a produz, a princípio. Digo a princípio considerando um primeiro contato e ainda o inicio da popularização da Hallyu e do Cool Japan no Ocidente durante os anos 90/2000, porque agora parece haver a busca justamente pelo país de produção, por exemplo "sei que k-dramas são bons segundo fulano mas já os c-dramas não irei ver" algo assim, será que me fiz entender? hahaha Acho que a homogenização vem mais das pessoas que veem a popularização dessas produções culturais de fora do consumo.

      Sobre a segunda pergunta, eu acho esse um movimento muito interessante na verdade, como determinados corpos passam a se tornar "têndencia" (e isto no caso de corpos amarelos em geral só se agrava pelas questões de orientalismo) sendo que anteriormente eram ignorados e até repudiados. Em uma visão totalmente pessoal, eu acho que sim, os homens coreanos se aproveitam muito dessa popularização e fetichização. Principalmente quando é para se relacionar com estrangeiras que visitam o país, é só pensarmos na piada do Hongdae Boy que apesar de piada possui com pouco de verdade, tantos relatos de brasileiras sobre isso...Ao meu ver, as mulheres coreanas são as mais prejudicadas com esse fetiche.

      Muito obrigada por seus comentários!
      Atenciosamente, Maria Caroline.

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  5. Ana Helena Leite De Araujo8 de julho de 2026 às 18:45

    Maria Caroline, muito importante o conteúdo que você abordou!

    Achei interessante você mencionar sobre essa dualidade entre o interesse genuíno pela cultura coreana e a fetichização dela. Pensando na indústria cultural sul-coreana como um instrumento de soft power, você acredita que tal fetichização dos idols também foi planejada pela indústria? Se sim, acredita que ela ocorre de maneiras diferentes nos cenários doméstico e internacional?

    E, pensando que a Hallyu pode reforçar estereótipos sobre a Coreia do Sul, você acredita que esse fenômeno ocorre de forma semelhante com outros países asiáticos que também utilizam o soft power, como o Japão, ou existem especificidades no caso coreano?

    Além disso, você argumenta que a academia deveria dialogar mais com o público consumidor da Hallyu. Na sua visão, quais estratégias seriam mais eficazes para aproximar a pesquisa acadêmica dos fãs e contribuir para um consumo mais crítico da cultura coreana?

    Estou ansiosa pelos seus comentários. Desde já, obrigada!

    Atenciosamente,

    Ana Helena Leite de Araujo

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    1. Olá, Ana! muito obrigada por suas perguntas hiper instigantes e sua leitura. Irei por partes haha

      Sobre a intencionalidade do fetiche dos idols, eu acredito que é planejado pelas grandes empresas sim, é uma estratégia clássica e eficiente em vender "produtos" (considerando que para estas empresas o idols são somente isto). Penso nisso quando comparamos por exemplo, One Direction em seu ápice, os integrantes não poderiam aparecer namorando ningém pois estragaria os fetiches e fantasias das fãs de casar e se relacionar com esses ídolos. Acredito que deva existir alguma diferença entre o que é consumido mais internamente no país, bandas menos conhecidas ou de outros genêros musicais, entretanto, não saberia responder quais são essas diferenças e suas dimenções (neste tópico falo mais do meu ponto de vista do que leituras aprofundadas sobre, me desculpe).

      Sobre a segunda questão, eu acredito sim que os outros softpower's como no caso japonês auxiliam em reforçar estereótipos bem consolidados no imaginário orientalista e ainda criar novos. O Japão sabe muito bem como fazer isto eficientemente, pois ele reconstruiu sua imagem para o exterior em pouco menos de 100 anos. Durante o século XX, hiper tumultuado o Japão se consolidou como potência imperialista entrando em guerras e conflitos tanto com o norte global quanto com os países asiáticos, como Coréia e China. A ilha, em menos de um século passou de inimigo declarado de guerra do Ocidente sendo determinado como um novo perigo amarelo à minoria modelo e nação exemplar de caráter honroso e tecnológico. Tradicional e moderno. (Desculpe se pareci muitoooo empolgada mas é que é um dos objetos da minha pesquisa essa percepção haha). Ainda estou estudando as específicidades do caso coreano, mas acredito que existam justamente pelo fato dos fluxos de proeminência (com seus altos e baixos) e historiocidade
      das outras culturas pop ásiaticas na própria Ásia, pois a Coreia do Sul se utilizou bastante de algumas estratégias de divulgação e formato que o Japão se utilizará anos antes no apogeu do Cool Japan (como a caso dos doramas e idols).

      Por fim, acredito que buscarmos mais espaços onde o público em geral está, como blogs, podcasts, eventos, fandoms é um bom começo nesse sentido. É um movimento que tenho tentado fazer, o primeiro passo para uma comunicação é querer fazer contato, né? E acho que nesse sentido o próprio simpósio é um bom caminho. Eu acho que ás vezes nós (acadêmicos em geral) nos fechamos demais dentro de nossa pesquisa e esquecemos que o por que fazemos tudo o que fazemos, o princípio deve ser a divulgação, quebrar a mentalidade de "minha pesquisa" exclusivamente e sim pensar no que isto pode ajudar dentro da sociedade. Pode parecer meio romântico e um tanto dificultoso (principalmente em inicio de carreira) mas buscar por exemplo plataformas acessiveis para fazer essa divulgação, acho que fazer uma "propaganda" é essencial hahaha

      Muito obrigada novamente, Ana! Espero ter conseguido responder à altura.
      Atenciosamente, Maria Caroline.

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  6. Boa tarde, Maria Caroline! Tudo bem?
    Primeiramente, gostaria de te parabenizar pelo texto e mostrar aqui meu incentivo para que continue pesquisando sobre o tema que te interessa <3

    Ao ler o texto, passei a refletir sobre como a fetichização dos corpos também pode influenciar a forma como crianças e adolescentes brasileiros percebem seus próprios corpos e constroem certos imaginários em relação aos corpos de pessoas de ascendência asiática. Vejo no contexto da maior visibilidade da cultura sul-coreana, principalmente nas redes sociais, que adolescentes brasileiros acreditam que existe a possibilidade de alcançar reconhecimento, fama ou uma vida idealizada na Coreia do Sul. Essa fetichização do corpo estrangeiro, pode também ser vista no "fenômeno do cavalo branco" na Coreia, que para adolescentes que exploram seu lugar no mundo e enfrentam a puberdade, muitas vezes pode ser vista como uma oportunidade de ser valorizado como indivíduo.
    Nesse contexto, muitos adolescentes parecem internalizar, ainda que de forma quase subconsciente, a percepção de que o corpo coreano ocupa um lugar de destaque dentro da indústria cultural e da produção criativa no ocidente. Ao mesmo tempo, alguns passam a se perceber como excluídos desse espaço e constroem uma fantasia de auto inserção nesse universo, construindo uma correlação do tipo: se um coreano pode ser visto como desejável no Brasil por ser “exótico”, então eu também poderia ser visto como desejável na Coreia por ser estrangeiro.
    Fico pensando em que medida essa lógica comparativa, junto a atração pelo "outro" e pela distinção, contribui para processos de adultização, objetificação e até exploração sexual de jovens. Quais estratégias poderiam ser adotadas para reduzir tanto o impulso de adolescentes que idealizam ir para a Coreia por parte dessa fantasia quanto a fetichização das pessoas asiáticas que já vivem no Brasil e que frequentemente são submetidas a esse olhar exotizante/exploratório?

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  7. Esqueci de me identificar, desculpa~
    Att.: Ana Cecília Barroso

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  8. Boa tarde, Maria Caroline! Tudo bem?
    Primeiramente, gostaria de te parabenizar pelo texto e mostrar aqui meu incentivo para que continue pesquisando sobre o tema que te interessa <3

    Ao ler o texto, passei a refletir sobre como a fetichização dos corpos também pode influenciar a forma como crianças e adolescentes brasileiros percebem seus próprios corpos e constroem certos imaginários em relação aos corpos de pessoas de ascendência asiática. Vejo no contexto da maior visibilidade da cultura sul-coreana, principalmente nas redes sociais, que adolescentes brasileiros acreditam que existe a possibilidade de alcançar reconhecimento, fama ou uma vida idealizada na Coreia do Sul. Essa fetichização do corpo estrangeiro, pode também ser vista no "fenômeno do cavalo branco" na Coreia, que para adolescentes que exploram seu lugar no mundo e enfrentam a puberdade, muitas vezes pode ser vista como uma oportunidade de ser valorizado como indivíduo.
    Nesse contexto, muitos adolescentes parecem internalizar, ainda que de forma quase subconsciente, a percepção de que o corpo coreano ocupa um lugar de destaque dentro da indústria cultural e da produção criativa no ocidente. Ao mesmo tempo, alguns passam a se perceber como excluídos desse espaço e constroem uma fantasia de auto inserção nesse universo, construindo uma correlação do tipo: se um coreano pode ser visto como desejável no Brasil por ser “exótico”, então eu também poderia ser visto como desejável na Coreia por ser estrangeiro.
    Fico pensando em que medida essa lógica comparativa, junto a atração pelo "outro" e pela distinção, contribui para processos de adultização, objetificação e até exploração sexual de jovens. Quais estratégias poderiam ser adotadas para reduzir tanto o impulso de adolescentes que idealizam ir para a Coreia por parte dessa fantasia quanto a fetichização das pessoas asiáticas que já vivem no Brasil e que frequentemente são submetidas a esse olhar exotizante/exploratório?

    Att:. Ana Cecília Barroso

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  9. Olá, Ana! Muito obrigada por sua leitura e principalmente por seus comentários generosos. Adorei acompanhar suas contribuições.
    Concordo que esse movimento pode ocorrer e em certa medida é preocupante que o consumo não intermediado corretamente possa levar, principalmente jovens/adolescentes, a se compararem e aderirem à padrões estéticos asiáticos sem a compreensão adequada das problemáticas por trás disto e o quanto essa comparação (injusta a níveis de adequação de um corpo brasileiro à tais "tendências") é prejudicial a saúde mental destes jovens.

    Acredito que um caminho para burlar tanto essa "fantasia" de se encaixar aos padrões que são excludentes não só para um público ocidental de modo bem geral mas também aos próprios coreanos é o maior conhecimento/interesse sobre o país de produção das mídias que são consumidas, neste sentido o conhecimento, histórico, social e cultural é essencial para burlar esse consumo acrítico que parece permeiar nas redes sociais. De mesmo modo, vejo este como o caminho também para a não fetichização da população asiática no país que veem sofrendo em demasiado com esses "elogios" e "preferências" pessoais de pessoas que veem os corpos amarelos como posse a serem adquiridas. Enfim, eu acho que é um assunto um tanto polêmico e complexo e não sei em que medida consegui responder sua pergunta, mas em suma seria uma conclusão prévia alá et bilu "busquem conhecimento" hahaha mas é essencial que nós como profissionais da área façamos um esforço de compartilhamento de nossas pesquisas mas principalmente dos debates que ocorrem na universidade para o público geral. Novamente obrigada pelos comentários!

    Atenciosamente, Maria Caroline Sagais.

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