Em 2 de setembro de 1945, ocasião da cerimônia de rendição das forças armadas japonesas na baía de Tóquio, o general Douglas MacArthur transmitiu via rádio um discurso endereçado à nação americana:
“Meus compatriotas, hoje as armas silenciaram [...] A missão sagrada foi cumprida [...] Uma nova era se inicia. Mesmo a lição da vitória traz consigo profunda preocupação, tanto para nossa segurança futura quanto para a sobrevivência da civilização [...] na bacia do Pacífico, vislumbra-se um novo mundo emancipado. Hoje, a liberdade está na ofensiva; a democracia está em marcha. Hoje, tanto na Ásia quanto na Europa, povos libertos saboreiam a doçura da liberdade [...]” [MacArthur, 1945. Tradução livre].
Esta cerimônia iniciou formalmente a ocupação do Japão. A história narrada por MacArthur utiliza de conceitos historicamente caros às sociedades ocidentais para, ao que parece, apresentar a ideia de que a vitória na Segunda Guerra Mundial não encerrou completamente o papel americano no mundo, em verdade, renovando-o ao ampliar sua missão nesta dita nova era. Assim, o 33° presidente dos Estados Unidos, Harry S. Truman comenta:
“Meus concidadãos americanos e o Comandante Supremo Aliado, General MacArthur, na Baía de Tóquio: os pensamentos e as esperanças de toda a América — na verdade, de todo o mundo civilizado — estão centrados esta noite no encouraçado Missouri. [...] Em primeiro lugar, vem um sentimento de gratidão ao Deus Todo-Poderoso que nos sustentou e aos nossos Aliados nos dias sombrios de grave perigo, [...] que agora nos viu vencer as forças da tirania que buscavam destruir sua civilização [...] esta é uma vitória da liberdade sobre a tirania [...] mas por trás de tudo isso estavam a vontade, o espírito e a determinação de um povo livre, que sabe o que é a liberdade, [...] esses princípios fornecem a fé, a esperança e a oportunidade que ajudam os homens a melhorar a si mesmos e a sua condição. [...] A ajuda de Deus nos trouxe a este dia de vitória. Com a sua ajuda, alcançaremos a paz e a prosperidade para nós e para todo o mundo nos anos vindouros” [Truman, 1945. Tradução livre].
Partiremos dessas falas para investigar a parte que cabe às palavras na operação de construção discursiva do Japão através, principalmente, de fontes produzidas pelo Estado americano.
Nesse sentido, para além da dimensão celebratória, há nesses enunciados uma articulação de conceitos caros à tradição política e moral ocidental (liberdade, civilidade, missão, providência, cristandade) que não apenas narra a vitória, mas organiza o mundo que se abria no pós-guerra, distribuindo posições a partir da nomeação de quem detém estes valores e aqueles que ainda precisam recebê-los.
Orientalismo e a ocupação do Japão
Em Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente, o acadêmico Edward Said questiona a noção de Oriente enquanto local geográfico, mas sim como uma construção política, intelectual e imaginada pelo Ocidente para justificar sua própria dominação colonial. Nessa obra, o autor estabelece que:
“O orientalismo é um estilo de pensamento baseado em urna distinção ontológica e epistemológica feita entre "o Oriente" e (a maior parte do tempo) "o Ocidente". Desse modo, uma enorme massa de escritores, entre os quais estão poetas, romancistas, filósofos, teóricos políticos, economistas e administradores imperiais, aceitou a distinção básica entre Oriente e Ocidente como o ponto de partida para elaboradas teorias” [Said, 2012, p. 14]. Said defende que uma declaração sobre o Oriente não retira sua autoridade do objeto que pretende descrever, ela se sustenta precisamente por haver deslocado esse objeto, tornando supérflua qualquer referência ao Oriente concreto e histórico, portanto, o valor, eficácia e aparente veracidade dessas declarações remete à sua capacidade de se representar como presença suficiente, autorreferente, dispensando o referente real. [Said, 2012, p. 15-33]. Retomando as palavras de MacArthur:
“Hoje em Tóquio, relembrando nosso compatriota, o Comodoro Perry, há 92 anos. Seu propósito era trazer ao Japão uma era de esclarecimento e progresso, levantando o véu do isolamento [...], mas o conhecimento da ciência ocidental adquirido com isso foi transformado em um instrumento de opressão e escravização humana. A liberdade de expressão, a liberdade de ação e até mesmo a liberdade de pensamento foram negadas [...] estamos comprometidos [...] em garantir que o povo japonês seja libertado dessa condição de escravidão [...] a energia da raça japonesa, se devidamente direcionada, possibilitará a expansão vertical em vez da horizontal. Se os talentos da raça forem canalizados para atividades construtivas, o país poderá se erguer de seu atual estado deplorável e alcançar uma posição de dignidade. [...] Hoje, a liberdade está na ofensiva; a democracia está em marcha.” [MacArthur, 1945. Tradução do autor].
Tal lógica explicitada por Said materializa-se com precisão nos discursos supracitados. Ao evocar Deus ou, ainda, as expedições Perry ao Japão do xogunato Tokugawa e caracterizar Matthew C. Perry como missionário da civilização, inscreve-se a ocupação de 1945 numa continuidade histórica que a precede e a legitima. O Japão engendrado por essa representação não é o país histórico e concreto representado pela comitiva que assinou os instrumentos de rendição em 1945 a bordo do encouraçado estadunidense, mas uma figura construída por categorias selecionadas pelo enunciador.
O ponto de partida dessas falas nos parece semelhante, se não igual. Consiste na noção, simultaneamente ato de instituição, de que há, no Japão, um ideal, uma energia racial que pode ser conduzida em direção à uma dignidade idealizada. Disfarça-se uma dominação em forma de tutela; a ocupação, libertação. Se Michel Foucault tinha razão ao denotar que “Dizer uma coisa é um evento” [Foucault, 2001, p. 895], então, implica-se que esses discursos não são meros reflexos de uma vitória militar, mas acontecimentos que produzem sentido, posicionam sujeitos e organizam o mundo a partir de um lugar determinado. Constrói-se uma representação da sociedade japonesa como morada de civis que, enganados por seus líderes militares, necessitavam de orientação para reerguer-se. Estava justificada a ocupação pelos sete anos vindouros. Tal relação com o outro ou, melhor dito, a articulação feita por esses indivíduos de princípios e conceitos cria essa distinção de posições. É disto que a seção seguinte propõe tratar.
Ocupar e democratizar como obrigação
O ataque a base naval Pearl Harbor em dezembro de 1941 marca o ingresso dos Estados Unidos à Segunda Guerra Mundial, se tornando um membro dos Aliados, grupo de nações em guerra declarada contra os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Assim, Estados Unidos da América, Reino Unido e União Soviética, comumente referenciados como ‘Os três grandes’, foram responsáveis pela liderança estratégia de seu grupo na Segunda Guerra Mundial. Realizaram cinco conferências nas quais foram discutidas as estratégias militares a serem adotadas no curso da guerra e, também, para o pós-guerra. Vamos nos ater à ultima, sediada em Potsdam, assim, em 26 de julho de 1945 é enviada para a casa imperial do Japão a Proclamação definindo os termos para a rendição japonesa.
Nos termos definidos por este documento, fica clara a existência de dois objetivos principais: a construção de uma nova ordem no Japão, somente possível mediante a eliminação total do poder de autoridade daqueles lideres militaristas que teriam manipulado e enganado seu povo a entrar em guerra com o mundo; ademais, ficava estabelecido que, findado o governo desse grupo e aplicada a justiça a todos os criminosos de guerra, então, o Estado japonês deveria: “remover todos os obstáculos para o rejuvenescimento e o fortalecimento de tendencias democráticas entre os japoneses. Liberdade de fala, de religião e de pensamento, bem como o respeito pelos direitos humanos fundamentais devem ser estabelecidos” [Butow, 1954, p. 243. Tradução livre].
Da não resposta por parte do império japonês a estas exigências feitas decorreram os trágicos eventos em Hiroshima e Nagasaki na aurora do mês de agosto de 1945. 24 horas após o bombardeio de Nagasaki, em 10 de agosto de 1945, o Japão envia, através dos canais diplomáticos suíços, sua oferta de rendição ao então secretário de Estado americano James F. Byrnes que retorna no seguinte uma resposta. Nesta, comunicava-se ao Estado japonês que a autoridade do imperador estaria subjugada ao comando da ocupação a partir do momento de rendição.
Em 14 de agosto de 1945, a casa imperial japonesa publica um escrito de Hirohito clamando para o cessar de hostilidades e enunciando a aceitação de uma rendição incondicional, ademais, nesse imperial rescript o imperador Showa clama por uma união da nação orientada para acompanhar o progresso, em curso, do mundo. Sugiro com isso que nasce daí um movimento de colaboração que se estenderá por toda a ocupação e gira em torno da disseminação de narrativas enraizadas nessa articulação de conceitos que temos analisado até então. Em setembro daquele mesmo ano ocorreu na baia de Tóquio a cerimônia de assinatura dos instrumentos de rendição a bordo do navio americano USS Missouri, estabelecido como marco final da Segunda Guerra Mundial.
Chamamos atenção para a ausência do imperador Hirohito, que não esteve presente nesta e em nenhuma das audiências dos japoneses acusados de envolvimento em crimes de guerra do Tribunal para o Extremo Oriente, popularmente conhecido como tribunal de Tóquio. Isso poderia ser explicado mediante às minutas das reuniões do State-War-Navy Coordinating Committee (SWNCC), visto que, como essa fonte indica, já havia consenso dentro do departamento de Estado americano, anterior à resposta dada por Byrnes à oferta de rendição do Japão, de que Hirohito não deveria estar presente na humilhante cerimonia de rendição.
Segundo o U.S initial Post-Surrender Policy for Japan, produzido pelo comitê supracitado em 11 de agosto de 1945 ficavam fixados os objetivos gerais da ocupação, destacamos aquele que definia que os Estados Unidos buscariam a criação das condições garantidoras de que o Japão não iria tornar-se um perigo para a paz e segurança do mundo novamente. Assim, determinando como objetivos especificamente políticos a abolição do militarismo e do “nacionalismo militante”; o encorajamento de tendências liberais e democráticas; e desenvolvimento de um governo “pacífico e responsável”. Estes objetivos sublinham o conteúdo que compunha o núcleo da política reformadora empregada na ocupação americana do território japonês.
Ao passo que estas primeiras movimentações da ocupação começavam em setembro de 1945 e, portanto, desenhava-se com mais clareza os termos nos quais a reforma político-econômica, social e educacional do Japão teria de seguir ou, melhor dito, consolidava-se um movimento reformador pensado para, simultaneamente, expelir da sociedade japonesa elementos marcados por conexões com uma dita tirania e, também, inserir e disseminar amplamente ideologias liberais e democráticas. Ademais, um relatório do SWNCC determinava que o comandante da ocupação não deveria tomar quaisquer atitudes contra o imperador que o colocasse como criminoso de guerra. Pouco tempo depois, uma diretiva especial redigida pelo departamento de Estado confirmava, estavam proibidas quaisquer tentativas de levar Hirohito a tribunal junto aos detestados militares.
Definidos os objetivos gerais da ocupação, seus alvos quanto às reformas e garantida a manutenção do imperador Hirohito, tem-se que o processo de ocupação dar-se-ia através de um governo indireto. Por conseguinte, o tratamento de Hirohito por parte do Estado norte americano pode ser compreendido como parte de uma política tutelar em que a instituição imperial funcionaria como mediadora da relação entre Estados unidos e cidadãos japoneses. Como bem denotou MacArthur em sua transmissão nacional de rádio, as qualidades da raça japonesa poderiam, e deveriam ao que suas palavras indicam, ser direcionadas para que a terra do sol nascente se reerguesse, MacArthur ocultou apenas que tal orientação foi pensada para ser conduzida não pelos americanos diretamente, mas por aquele percebido como “líder espiritual” do Japão [Doolittle, 1991, p. 281. Tradução livre]. Das fontes analisadas, sustenta-se a hipótese de que conceitos como democracia e liberdade são ativados não somente pois compõem os objetivos oficiais da ocupação, mas como instrumentos discursivos que construíram o Japão como objeto de tutela, legitimando a presença americana nos sete anos seguintes.
Palavras, imagens e a construção do outro japonês
Os primeiros imigrantes japoneses que chegam aos Estados Unidos ficaram conhecidos como issei que quer dizer literalmente primeira geração, lá desembarcaram por volta do final do século XIX e cuja maioria era composta por homens provavelmente em busca de construir frutíferas colônias japonesas. Com a mudança do século, o fluxo de japoneses em migração para os Estados Unidos aumentava significativamente, porém, a criação da California Alien Land Law e, posteriormente, o Immigration Act of 1924 acabaram por reduzi-lo consideravelmente.
Os filhos, nascidos em sua maioria dentre as décadas de 1930-40, desses primeiros colonos foram chamados de Nisei, essa segunda geração que apesar de estarem assimilando o estilo de vida e cultura norte americana foi drasticamente afetada pelos eventos de 7 de dezembro de 1941 em Pearl Harbor, como resultado o então presidente Franklin D. Roosevelt declara guerra contra o império japonês no dia seguinte. Ademais, dois meses depois, emite a Executive order 9066, autorizando a criação de zonas vigiadas por militares destinadas a todos os indivíduos de descendência japonesa que se encontravam vivendo nos Estados Unidos. Começava-se a acreditar que existiam, dentre os japoneses residindo naqueles estados ao Oeste, sabotadores infiltrados, como é o caso de John McCloy — secretário de guerra adjunto à época e crente de uma ameaça de sabotagem — que, segundo Shirley Ann Higuchi, fora “um advogado republicano de Wall Street que via sabotadores por toda parte” [Higuchi, 2020, p. 25. Tradução livre].
McCloy certamente não é uma exceção, o início da Guerra do Pacífico não só criou as condições necessárias para essa paranoia quanto a possibilidade de missões de espionagem e sabotagem em solo americano, como também foi momento oportuno para o publicar e disseminar de representações acerca do Japão. A construção discursiva do outro que se materializa nas falas de MacArthur e Truman não se restringe ao registro do discurso político formal. Ela encontra expressão igualmente sistematizada no campo audiovisual, onde a produção de imagens sobre o Japão cumpriu função análoga. São muitas as fontes que poderiam aqui ser articuladas, contudo, analisaremos três casos. Um diz respeito à uma animação de alta popularidade e que foi produzida por um estúdio de cinema fundado em Hollywood, as outras duas são produtos de agências de inteligência ligadas ao Estado estadunidense. Ambas inseridas no mesmo recorte temporal.
O episódio da célebre animação do Superman, intitulado de Japoteurs, originando-se da união das palavras japoneses e sabotadores em inglês, foi lançado pela Paramount Pictures em setembro de 1942. Na trama, japoneses infiltrados sequestram o maior avião do mundo recém-construído pelos Estados Unidos e atentam contra a vida de Lois Lane, sendo derrotados pelo Superman. Na figura abaixo vemos o vilão da história no momento em que ameaça lançar Lane do avião.
Fonte: https://archive.org/details/japoteurs-1942
Utilizando caricaturas e estereótipos tipicamente racistas (traços fisionômicos exagerados, dentição protuberante, óculos de aros grossos e a figura do infiltrado disfarçado de cavalheiro), compôs-se uma série de produções que representavam negativamente os países do Eixo, com especial expressão no caso dos japoneses. Não por acaso, a figura do sabotador disfarçado, visível na imagem acima, ecoa diretamente a paranoia institucional que levou à Executive Order 9066 e ao internamento dos nisei. Para entender tais escolhas visuais e narrativas disseminadas não se pode tomá-las como acidentais.
Em 1945 o Office of Strategic Services apresentava Japanese Behavior, produzido pelo Field Photographic Branch para o Schools & Training Branch. Ambas eram divisões desta primeira instituição. Abaixo, um recorte do texto que introduz a primeira cena desse filme.
Fonte: https://archive.org/details/gov.archives.arc.40150
Sob pretexto de uma análise socioantropológica baseada no cinema nipônico pré-1941, o documentário se apresenta, já em sua cartela de abertura, como empreendimento científico. Ao afastar as representações anteriores como distorcidas, é proposto substituí-las por conhecimento factual e científico, contudo, denotamos que essa empreitada pressupõe um japonês essencial e cognoscível pelo olhar ocidental. Este documentário é conduzido por um narrador, não identificável segundo registros do National Archives, que estabelece como finalidade do filme descobrir e interpretar as diferenças e semelhanças dos japoneses em relação aos Estados Unidos. Há uma predominância da articulação de conceitos como Oriental e Ladder Behavior (que seria uma espécie de patologia oriunda da extrema devoção ao imperador e à rígida estrutura hierárquica), consolidando uma teorização acerca dos japoneses e sua sociedade a partir, precisamente, daquela distinção básica entre Ocidente e Oriente detalhada por Said.
O documentário Know Your Enemy: Japan foi produzido pelo Departamento de Guerra dos Estados Unidos sob direção de Frank Capra, com o objetivo de educar os soldados americanos sobre o Japão. Já em sua cartela de abertura, se enuncia com uma clareza incomum que o filme conta a história dos Japoneses no Japão, para quem as palavras liberdade e democracia ainda não têm significado.

Fonte: https://archive.org/details/28232BKnowYourEnemyJapan
Ao afirmar que liberdade e democracia são palavras desconhecidas no Japão o filme pressupõe que esses valores existem plenamente em outro lugar nos Estados Unidos e que caberia a esse outro lugar transmiti-los. É a mesma lógica dos discursos de MacArthur e Truman e que no interstício entre a guerra e a ocupação ganha renovada urgência.
Não podemos nos deixar enganar, o sociólogo Pierre Bourdieu nos diz: “não existem palavras neutras” [Bourdieu, 2008, p. 26] e nos convida a estuda-las como fruto de um processo seletivo praticado por sujeitos. Assim, faz-se necessário, se quisermos tentar dar conta de seus significados e efeitos, ater-nos menos à estrutura linguística desses textos e mais àquilo que diz respeito ao universo que os permeia, isto é, questionar por que essas pessoas escolheram determinadas expressões (liberdade, civilização, missão, energia racial, etc.) e não outras. Não devemos entender tais escolhas como acidentais, mas, antes, como mecanismos pelo qual sujeitos e instituições buscam galgar reconhecimento e legitimidade, o direito de falar e de ser entendido como correto, como portador de ideias dignas de serem seguidas. Não só poetas, romancistas, filósofos, administradores imperiais como levantou Said, mas, acrescentamos, generais, presidentes e diretores de cinema operam dentro da mesma lógica descrita pelo autor. Isso implica ao menos duas exigências inseparáveis para o historiador: assumir permanentemente uma postura de estranhamento em relação ao passado e, por conseguinte, não tomar como dado aquilo que tem sua gênese em relações sociais e de poder.
Referências
Victor Hugo de Mattos Trindade é mestrando em História pelo programa de pós graduação em História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, integra o grupo de estudos Africanos e Asiáticos (GEAFRAS-UFPR) e desenvolve suas atividades e produções no âmbito acadêmico sob financiamento da CAPES.
BOURDIEU, Pierre. Economia das trocas linguísticas: o que falar quer dizer. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.
BUTOW, Robert J. C. Japan's Decision to Surrender. California: Stanford University Press, 1954.
FOUCAULT, Michel. Entretien avec Michel Foucault. In: Dits et Ecrits II, 1976–1988. Paris: Gallimard, 2001.
DOOLITTLE, James H. I Could Never Be So Lucky Again: General James H. "Jimmy Doolittle with Carrol V. Glines". Nova Iorque: Bantam Books, 1991.
SAID, Edward. Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente. Tradução: Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
HIGUCHI, Shirley Ann. Setsuko’s Secret: Heart Mountain and the Legacy of the Japanese American Incarceration. Wisconsin: The University of Wisconsin Press, 2020.
MACARTHUR, Douglas. Speech at the Surrender of Japan, 1945. Disponível em: https://www.history.navy.mil/research/archives/digital-exhibits-highlights/vj-day/surrender/macarthur-speech.html.
TRUMAN, Harry S. Radio Address to the American People After the Signing of the Terms of Unconditional Surrender by Japan, 1945. Disponível em: https://www.presidency.ucsb.edu/documents/radio-address-the-american-people-after-the-signing-the-terms-unconditional-surrender.


Prezado Victor,
ResponderExcluirA escolha de articular os discursos de MacArthur e Truman com as produções audiovisuais da época foi muito feliz, mostrou bem que a construção do Outro não fica restrita aos discursos oficiais, mas atravessa a cultura visual e midiática como um todo. E a forma como você conectou a Proclamação de Potsdam e as diretivas do SWNCC com a ideia de "missão civilizadora" deu uma consistência muito legal ao argumento, mostrando que a ocupação não foi uma ruptura, mas uma continuidade de uma lógica imperial que já vinha sendo desenhada. A aplicação do Said foi precisa, e o fato de você ter notado que a ausência do imperador na cerimônia de rendição não foi acidental.
Fiquei com uma questão enquanto lia: se o discurso da ocupação se apoia na ideia de que o Japão precisava ser "libertado" e "tutelado" para alcançar a civilização, será que essa mesma retórica não foi apropriada e ressignificada pelos próprios japoneses, incluindo o imperador e as elites políticas, para negociar sua sobrevivência institucional e, quem sabe, limitar o alcance das reformas americanas? No final do texto você menciona essa "colaboração", mas fiquei querendo ver esse ponto mais desenvolvido: a construção do Japão como objeto de tutela teria sido, em algum grau, um jogo de mão dupla entre ocupantes e ocupados?
Atenciosamente
Beatriz Bahiense Tavares
Prezada Beatriz,
ExcluirAgradeço muito pelo comentário e pelas observações extremamente generosas sobre o texto. São leituras que enriquecem muito o texto e estão em consonância com meus pensamentos para os próximos passos da pesquisa.
Sobre a pergunta: sim, e essa é justamente a aposta que venho desenvolvendo para o plano de redação do capítulo principal da dissertação de mestrado. O texto apresentado no evento se deteve na construção do discurso a partir do ocupante, mas ele deixa em aberto, propositalmente, o outro lado dessa equação: o que os próprios japoneses, e sobretudo o imperador, fizeram com esse discurso uma vez que ele chegou até eles. Resta saber até que ponto vou conseguir adentrar nessa questão pelo tempo que resta.
Minha hipótese de trabalho é que Hirohito não foi um receptor passivo da retórica da "tutela civilizadora", mas um agente que a assimilou e a ressignificou como instrumento de sobrevivência institucional. O próprio Ningen-sengen (Escrito imperial sobre a construção de um novo Japão/Declaração de Humanidade, janeiro de 1946) pode ser lido nessa chave: ao abrir mão da divindade, mas preservar o trono, o imperador — e, talvez, a burocracia palaciana ao seu redor, penso sobretudo em figuras como Kido Kōichi — negociou os termos de sua própria permanência dentro do vocabulário que os ocupantes já haviam fornecido (democratização, progresso, ruptura com o "militarismo").
Quanto à elite, penso em tratá-la de forma secundária dentro dos limites de tempo do mestrado: do lado japonês, nomes como Kido e Yoshida Shigeru, que atuaram como intermediários na tradução dessas categorias para a sobrevivência do sistema imperial; do lado estadunidense, se o tempo permitir, a atuação de assessores como Bonner Fellers, que já defendiam a preservação do trono antes mesmo da rendição, por razões estratégicas de governo indireto. Mas o núcleo da análise permanece no imperador (é ele quem melhor permite, em minha visão, observar esse "jogo de mão dupla" que o comentário aponta tão bem: o mesmo discurso que os ocupantes usam para justificar a tutela é apropriado pelo ocupado para limitar o alcance dessa mesma tutela. Fico muito grato pela pergunta.
Atenciosamente,
Victor Hugo de Mattos Trindade.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirPrezado Victor, qual foi o peso das pesquisas de Ruth Benedict na construção da imagem do japonês no pós-guerra imediato? Em que medida "O crisântemo e a espada" é uma ferramenta para que a ocupação conheça melhor os ocupados?
ResponderExcluirPrezado Emannuel,
ExcluirAgradeço muito pela pergunta, pois, ela toca num ponto que, de fato, ficou de fora do recorte deste texto e que dialoga diretamente com o argumento que trouxe.
O Crisântemo e a Espada, pelo o que me recordo de leituras prévias, nasce de uma encomenda institucional, ou seja, Ruth Benedict foi contratada pelo Office of War Information dos Estados Unidos, durante a Guerra do Pacífico, para produzir um estudo de cunho antropológico e que fornecesse informações sobre o comportamento japonês como um todo. Em especial, comportamento político no livro em questão. Como a pesquisa de campo no Japão era impossível durante o conflito, Benedict recorreu ao método que ficaria conhecido como "cultura à distância" (Goldman, 1995, p. 130) o conhecimento antropológico por ela produzido acerca do Japão foi produzido sem contato direto com o objeto e a partir de fontes mediadoras e isso inclusive já foi alvo de extensa critica em artigos. Benedict via a cultura assim como um indivíduo que possui uma personalidade única, toda uma sociedade compartilha uma "configuração" geral (um padrão de pensamentos e hábitos).
O livro de Benedict na verdade nasce em forma de relatório encomendado. O O.W.I solicitou, por volta da primeira de 1945, que a antropológa escrevesse sobre o tema. É importante lembrar que desde Pearl Harbor, um misto de sentimentos e ações contra japoneses se desenvolveu nos Estado Unidos, cito, a titulo de exemplificação: a criação dos centros de realocamento (Ver Brian Masaru Hayashi, 2004; John Howard, 2008; Lane Ryo Hirabayashi, 2000), mas também as audiências em meados de 1942 sobre imigração e “alien sabotage”. “Ela realizou sua ‘pesquisa de campo’ entre nipo-americanos que viviam nos Estados Unidos e escreveu o Relatório 25, intitulado ‘Padrões de Comportamento Japonês’ [...] pouco antes de os Estados Unidos lançarem a bomba atômica sobre Hiroshima” (Stille, 2003, tradução nossa).
Nesse sentido, ele funciona quase como um manual de tradução: fornece ao ocupante categorias que tornam o japonês legível/compreensível.
“Utilizando ferramentas da antropologia, ela [Benedict] apontou que o Japão [...] era, na verdade, bastante adaptável. Pelo contrário, segundo ela, as culturas baseadas na "culpa" — como as dos Estados Unidos [...] eram, de certa forma, mais difíceis de mudar. As culturas da vergonha [caso do Japão], por outro lado, respondem a padrões de comportamento honroso ou vergonhoso impostos externamente. Mude-se os padrões, disse ela, e o comportamento mudará. Assim, argumentava Benedict, era possível transformar o Japão trabalhando dentro das normas de sua cultura tradicional, em vez de tentar destruí-la.
Em outro memorando que escreveu para o governo, intitulado "O que fazer em relação ao Imperador", ela contestou aqueles que defendiam que a única maneira de mudar o Japão seria eliminar a instituição imperial:
‘A veneração à Casa Imperial é um princípio religioso rigoroso no Japão e, por mais que ofenda nações que professam outros princípios, ela desperta profunda lealdade entre os japoneses", escreveu ela. "Qualquer tarefa de reconstrução será menos difícil na medida em que contar com a chancela do Imperador, e mais difícil na proporção em que exigirmos a sua eliminação’”. Assim, fica fácil compreender o porquê “Franklin D. Roosevelt recorreu ao trabalho e aos conselhos dela ao lidar com o Japão após a Segunda Guerra Mundial.” (https://infoguides.rit.edu/deafsuffragists/benedict).
Espero ter conseguido esclarecer sua questão.
Atenciosamente,
Victor Hugo de Mattos Trindade
Excelente texto. Achei muito interessante a forma como você articula os discursos oficiais de MacArthur e Truman com produções audiovisuais e documentos estatais, demonstrando que a ocupação do Japão foi acompanhada por uma construção discursiva que transformava a dominação em tutela e a intervenção em missão civilizatória. O diálogo entre Edward Said, Michel Foucault e Pierre Bourdieu dá bastante consistência à análise, evidenciando como a linguagem, representação e poder operam conjuntamente na produção do "outro" japonês. Fiquei apenas com uma questão: você considera que essa lógica discursiva de tutela aplicada ao Japão apresenta especificidades em relação a outros contextos de ocupação e imperialismo norte-americano, ou seria possível compreendê-la como parte de um repertório mais amplo de construção do "outro" mobilizado pelos Estados Unidos ao longo do século XX?
ResponderExcluirAtenciosamente, Carlos Augusto Lima Barros
ExcluirPrimeiramente, obrigado pelos elogios e pela pergunta meu nobre.
ExcluirSua pergunta é complexa e devo confessar que não estudo nem estudei afinco outras empreitadas de ocupação dos Estados Unidos fora do contexto japonês (foco meu desde a graduação). Tenho pouca leitura acadêmica sobre para te fornecer uma resposta desenvolvida, contudo, por tratar-se de um tema absolutamente contemporâneo posso responder ainda que parcialmente.
Já digo de cara que há pontos possíveis de traçarmos convergencias e divergências. Se pegarmos, por exemplo, a ocupação estadunidense do Iraque e do Afeghanistão, veremos que a política estadunidense foi, sem duvidas, a de desmantelamento absoluto do aparato Estatal através de decisões que acabaram por dissolver o exército e o funcionalismo público, criando meio que um "vácuo de poder". Nesse sentido, zero utilização/apoio a um poder "local" (liberal ou não).
No caso japonês, é possível observar em documentação que, desde os anos da guerra, já se havia a ideia de que manter a "cara" do Estado japonês, ou seja, a estrutura imperial vigente no poder seria uma política efetiva e inteligente. Há, por outro lado, documentação posterior (me refiro aqui, por exemplo, ao Explaining U.S policy to Japan) à guerra que diz explicitamente que a ocupação iria utilizar sem apoiar a instituição imperial e esta só seria mantida caso fosse o desejo sincero dos japoneses (a mensagem democrática é clara eu acredito que não precisaria desenvolver esse ponto). Contudo, pretendo argumentar que isso trata-se de um "para inglês ver" visto que, na prática, o Departamento de Estado ordena o comando da ocupação a não tomar decisões que pudessem "incriminar" o imperador.
Há um artigo interessante intitulado de "As Circunstâncias
Particulares de Tempo e Lugar Por Que a Ocupação do Japão
Teve Sucesso e a do Iraque Fracassou" de David Hunter-Chester que dá um panorama (com alguns problemas de se esperar de uma autoria militar) que eu li tem alguns meses e poderia ajudar na sua compreensão da pergunta.
Por fim, eu sinalizaria que são frutos de contextos distintos, a ocupação do Japão deve ser entendida dentro da lógica da Guerra Fria, já as outras que citei dentro da lógica da guerra ao terror pós 11 de setembro. Espero ter sido capaz de esclarecer algo.
Att,
Victor Hugo de Mattos Trindade
Olá, Victor! Primeiramente parabéns pelo texto, achei ele muito preciso e provocativo, neste sentido me invocou algumas questões.
ResponderExcluirAchei interessante que de modo semelhante como o Japão fez para ocupar a Coreia, Taiwan e afins com o discurso de tutela e proteção para com o Ocidente, os EUA se utiliza do discurso de tutela no território após a rendição japonesa.
Democracia e liberdade como conceitos que vão determinar os "racionais" nos processos de ocupação tanto japonesa na Coreia quando dos EUA no Japão. Neste sentido, o seu texto (que na minha leitura foi muito fluída e gostosa de se fazer) me lembrou muito do conceito/teoria do Datsu A Ron (voltar-se para o Ocidente) que é um discurso antecessor aos processo de ocupação do Japão nos territórios do Leste Asiático. Você já teve contato com esse discurso? Se sim, acredita que ele possa se relacionar com o discurso de autoridade ocidental pós redenção? Pergunto isso, pois ao meu ver o seu trabalho conversa muito com a dualidade dos discursos japoneses antes e durante o período imperialista, onde hora via no Ocidente o caminho pelo qual seguir em sua modernização e por outroras utilizava-se da replicação deste discurso na justificativa de anexação dos territórios ocupados, utilizando-se inclusive de palavras como "liberdade" e "modernidade" como atributos que possuía e podia ensinar aos países tutelados.
Novamente, seu texto está incrível, achei principalmente cara a breve análise de fonte que fez, estou ansiosa para ler mais coisas suas.
Atenciosamente, Maria Caroline Sagais.
Prezada Maria Caroline,
ExcluirAgradeço muito pela leitura e pelo comentário generoso!
Já houve falar sobre o Datsu-A Ron (脱亜論), mas sei pouco confesso. O ensaio atribuído a Fukuzawa Yukichi, se não me engano, defende que o Japão deveria "abandonar a Ásia" e alinhar-se ao circuito das nações consideradas “civilizadas” e” Ocidentais”.
O que me parece central na sua provocação é que esse mesmo gesto retórico de autoinclusão no polo civilizado é o que, décadas depois, sustenta o discurso colonial japonês sobre a Coreia e Taiwan: o Japão se apropria da gramática civilizatória ocidental (a mesma que Said descreve) para justificar sua própria expansão como missão tutelar, ensinando "liberdade" e "modernidade" a povos que, supostamente, ainda não as possuíam. Evidentemente que esse discurso é sempre tendencioso pro enunciador que é o que mais se beneficia disso tudo.
Quanto a relação disso com a ocupação: do Japão de 1885 para o do inicio do século XX muita coisa pode ter mudado, teríamos que analisar afinco outras fontes e, possivelmente, trabalhos nas áreas de ciências humanas que trataram e tratam do Datsu a ron para realmente saber acerca de sua perpetuação na sociedade japonesa. Esse seria um trabalho para outra pessoa fazer, está um pouco fora da minha alçada acredito. Se conhecer fontes e trabalhos que estudem o discurso japonês expansionista e imperialista por favor me sinalize, é possível que me interesse na dissertação do mestrado!
Por fim, e aqui trata-se de uma conjecturação minha, é bem possível que tenha relação, a afinidade japonesa pelo Ocidente (ao menos aqui tratando do governo de Hirohito) é bem evidente em meados da década de 1940. Acho ele um personagem curioso, há documentação que descreve o imperador como alguém que estava de acordo com a entrada em guerra contra os Estado Unidos. Nesse sentido que penso, e só penso mesmo, que dificilmente seus discursos e aparições publicas poderiam refletir de fato sua opinião (reconhecimento da autoridade ocidental), esse somente seria o caso se de fato Hirohito tenha mudado completamente sua perspectiva de mundo durante a guerra.
Atenciosamente,
Victor Hugo de Mattos Trindade