CDRAMAS HISTÓRICOS COMO OBJETO DE ESTUDO: UM PANORAMA INTRODUTÓRIO por Thaís Monise de Lima Xavier

 

Em meio a um mundo cada vez mais globalizado, as possibilidades de explorar novos horizontes historiográficos e metodológicos aumentam com frequência. Nesse contexto, destaco a possibilidade dos cdramas (conhecidos como doramas ou novelas chinesas no Brasil), em particular os históricos, como objetos de estudo de pesquisadores.

 

Cdramas foram “originados em 1958 como uma forma de propaganda do Partido Comunista Chinês” [Zhou; Dong, 2025, p. 7, tradução nossa] e, a partir da década de 1980, o gênero histórico progressivamente alcançou grande popularidade [Guo, 2015]. Os usos políticos dos cdramas não são mínimos: além de serem um instrumento de soft power para a diáspora chinesa e audiências internacionais [Ünal; Binark, 2024;  Sparks, 2015; Wang; Srijinda, 2025], também são utilizados para a transmissão de valores chineses como “dedicação para a ascensão do país, orgulho na sua civilização e cultura ancestrais, e preceitos éticos confucionistas” [Ünal; Binark, 2024, p. 185, tradução nossa].

 

Em 2005, o governo chinês já almejava “promover dramas de TV domésticos e aumentar sua competitividade no mundo” [Zhang, 2007, p. 31, tradução nossa]. Mas é a partir do governo de Xi Jinping (2013-presente) que a valorização dos mais diversos produtos culturais chineses é ampliada:

 

“Em 2013, o presidente Xi Jinping (2013-atual) afirmou que as lideranças chinesas precisam encontrar formas de contar e propagar a História da China para o mundo. Com isso, existiram fortes esforços para direcionar investimentos no intuito de ampliar a inserção internacional da mídia chinesa e difundir sua cultura em outros países. Essas iniciativas têm como objetivo construir novos imaginários sobre a China para além-mar e, assim, influenciar positivamente as narrativas que circulam sobre a nação e sua população.” [Camoça; Araujo, 2021, p. 189]

 

Assim, os cdramas produzidos a partir do governo de Xi Jinping:

 

“Podemos considerar os dramas televisivos como ferramentas discursivas do que Xi imagina para o futuro da China. (...) Cdramas históricos (...) contém mensagens conservativas e didáticas que se alinham com os ensinamentos do Partido Comunista Chinês.” [Ünal; Binark, 2024, p. 183, tradução nossa]

 

Haja vista a máxima “contar bem a história da China e divulgar eficazmente sua voz” [Wang; Soler, 2024, p. 251], a importância do gênero de cdramas históricos não deve ser subestimada: eles “florescem sob o único sistema de censura chinês” [Zhou; Dong, 2025, p. 12, tradução nossa] e são frequentemente utilizados para tecer comentários sobre as situações políticas atuais [Zhang, 2007; Zhou; Dong, 2025]. Tais representações do passado “não negam a existência de uma possibilidade de realidade (...), mas se coadunam com ela” [Cavalcante Neto, 2007, p. 107]. Assim, os cdramas históricos refletem, em sua essência, a relação da China com o seu passado e como o país lida com as suas próprias questões contemporâneas, sendo um elemento da cultura histórica chinesa no sentido mais simples e amplo das “relações das pessoas com o passado” [Grever; Adriaansen, 2025, p. 3]. Por ser o audiovisual um “espião da cultura histórica de um país, de seu patrimônio histórico” [Napolitano, 2008, p. 246], as “adaptações, omissões, falsificações que são apresentadas” [Napolitano, 2008, p. 236] podem ser objetos de estudo frutíferos para o historiador. Afinal, não é possível resgatar o passado como o foi ou retirá-lo da contemporaneidade na qual é representada.

 

Nesse sentido, o ato de representar o passado é complexo e envolve várias camadas:

“A vasta maioria das representações do passado depende de um enredo que dá sentido ao passado para quem o cria e para seu público. Isso vale para autobiografias, memórias coletivas, historiografia acadêmica, mídias populares, reencenações históricas e até mesmo peças musicais. O enredo tem uma função mediadora em três níveis. Primeiro, ele media entre eventos individuais, experiências e a história como um todo. Um evento individual ganha significado a partir da maneira como é configurado no enredo. O enredo, por sua vez, é mais do que a soma dos eventos relatados, pois uma história como totalidade contém um certo “pensamento”. Segundo a estruturação narrativa conecta uma ampla gama de atores heterogêneos, situações, significados, interações e resultados inesperados. Terceiro, o enredo media entre o tempo do relógio e o tempo vivido, ao criar uma unidade temporal própria.” [Grever; Adriaansen, 2025, p. 13]

 

Conscientes dessas questões, é recomendado, na produção dos cdramas históricos, a cautela na representação de figuras e eventos históricos reais [Guo, 2015] e o afastamento de quaisquer críticas aos “princípios fundamentais” [Creemers, 2015, p. 51, tradução nossa] do governo chinês. Tais recomendações no formato escrito não são disponibilizadas para o público [Zhou; Dong, 2025]; dessa forma, o estudioso que estiver interessado em se aprofundar na censura sob os cdramas depende de discursos de oficiais e da análise das tendências do gênero.

 

Ademais, a censura nos cdramas foi fortemente afetada pela transição iniciada em 2013 e finalizada em 2018 do órgão estatal Administração Estatal de Imprensa, Publicação, Rádio, Filme e Televisão para a Administração Nacional de Rádio e Televisão, que significou um “controle intensificado do Partido Comunista Chinês na televisão” [Zhou; Dong, 2025, p. 8, tradução nossa]. As ramificações dessa transição merecem estudos cada vez mais aprofundados para mensurar seus efeitos.

 

Assim, independente do período histórico em que o cdrama se passa, sua produção é sujeita à diversos fatores que podem possibilitar os mais variados estudos.

 

Os cdramas no Brasil

A questão dos cdramas ocupam progressivamente mais espaço nos ambientes acadêmicos ocidentais, como reflexo de sua relação com o passado chinês e do papel ascendente da China na geopolítica internacional, possuindo uma bibliografia cada vez mais consolidada e ampla em língua inglesa, frequentemente provenientes de chineses ou membros da diáspora chinesa, que abrange desde questões mais voltadas à censura chinesa à representações de períodos específicos da China pelos cdramas.

 

Na academia lusófona, esse cenário ainda é escasso. Devido à onda coreana, conhecida internacionalmente como Hallyu Wave, existe uma predominância de textos acadêmicos sobre kdramas (novelas coreanas), englobando as mais diversas áreas do conhecimento. Em contrapartida, os cdramas estão lentamente ocupando uma predominância maior graças à popularização de plataformas de streaming voltadas ao leste asiático, como Rakuten Viki, iQIYI, WeTV, Youku, dentre outros, nos últimos anos [Wang; Soler, 2024]. Os esforços do próprio governo chinês para ampliar sua influência cultural no Brasil também são evidentes:

 

“Por meio da Embaixada da China e dos Institutos Confúcio, o governo chinês não tem poupado esforços na promoção da cultura chinesa e dos dramas televisivos chineses no Brasil, alcançando resultados encorajadores. Através desses dramas, os espectadores brasileiros são expostos a uma variedade de elementos culturais chineses, incluindo a história da China e a sucessão de dinastias – que diferem bastante da trajetória histórica do Brasil –, bem como a culinária, vestimentas tradicionais (hanfu), costumes e hábitos sociais – como o conceito de guanxi no ambiente de trabalho – e virtudes tradicionais chinesas como a piedade filial, o respeito aos mais velhos e o cuidado com os mais jovens.” [Wang; Soler, 2024, p. 253-254]

 

Cabe destacar também que, em comunidades de fãs brasileiros de cdramas, o gênero histórico possui mais adesão, algo comum na preferência internacional de cdramas [Wang; Soler, 2024].

 

Em vista do exposto, é provável que a popularidade dos cdramas, impulsionados pelo próprio governo chinês, somente cresça ao longo do tempo. É oportuno que a academia brasileira acompanhe esses desdobramentos, afinal, as possibilidades de estudo são vastas.

 

Referências

Thaís Monise de Lima Xavier é Mestranda no Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). É membro do grupo de pesquisa Observatório da Ásia (OASIA).

 

CAMOÇA, Alana; ARAUJO, Mayara. Desocidentalizando a imagem sobre a China: um olhar sobre o contrafluxo midiático chinês no Brasil. Intus-Legere Historia, Viña del Mar, v. 15, n. 1, p. 186-204, 2021. Disponível em: https://intushistoria.uai.cl/index.php/intushistoria/article/view/421. Acesso em: 21 jun. 2026.

CAVALCANTE NETO, Faustino Teatino. “Nova História Política e considerações sobre os conceitos de cultura política e representações.” Cadernos de História UFPE. Dossiê: histórias e teorias, v.4, n.4, 2007. Disponível em: https://bit.ly/4tC1br8. Acesso em: 20 jul. 2025.

CREEMERS, Rogier. “Evaluating media policy: objectives and contradictions.” In: Routledge Handbook of Chinese Media. Editado por Gary D. Rawnsley e Ming-yeh T. Rawnsley. Londres: Routledge, 2015, p. 47-64.

GREVER, Maria; ADRIAANSEN, Robbert-Jan. “Cultura Histórica - um conceito revisitado.” Clio, Recife, 2025. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/398788328_Cultura_Historica_um_conceito_revisitado. Acesso em: 01 jun. 2026. (Tradução de Arnaldo Szlachta e Willian Junior Bonete)

GUO, George Dawei. “Contemporary Chinese historical television drama as a cultural genre.” In: RAWNSLEY, Gary D.; RAWNSLEY, Ming-yeh T. (Ed.). Routledge Handbook of Chinese Media. Londres: Routledge, 2015. p. 372-388.

NAPOLITANO, Marcos. “Fontes audiovisuais: a história depois do papel.” In: PINSKY, Carla Bassanezi (Org.). Fontes históricas. São Paulo: Contexto, 2008. p. 235-290.

SPARKS, Colin. “China, soft power and imperialism.” In: RAWNSLEY, Gary D.; RAWNSLEY, Ming-yeh T. (Ed.). Routledge Handbook of Chinese Media. Londres: Routledge, 2015. p. 27-46.

ÜNAL, Selva; BINARK, Mutlu. “How past-present-future interconnect in China: CDramas as a tool of cultural governance and the possibility of a ‘Chinese wave’ in the case of GenZ.” Connectist: Istanbul University Journal of Communication Sciences, 2024, v. 67, p. 177-208. Disponível em: http://bit.ly/46bYkdZ. Acesso em: 22 mai. 2025.

WANG, Ying Zi; SOLER JORGE, Marina. “Produções Seriadas Chinesas no Brasil: A Disseminação por Plataformas de Streaming e a Formação de Comunidades de Fãs Brasileiros.” Imagem: Revista de História da Arte, São Paulo, Brasil, v. 6, n. 1, 2025. Disponível em: https://periodicos.unifesp.br/index.php/img/article/view/20614. Acesso em: 21 jun. 2026.

WANG, Y.; SRIJINDA, P. “The communication value of traditional Chinese cultural content in costume dramas.” Journal of Cultural Analysis and Social Change, [s. l.], v. 10, n. 4, p. 2171-2180, 2025. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/398653160_The_Communication_Value_of_Traditional_Chinese_Cultural_Content_in_Costume_Dramas. Acesso em: 05 mai. 2025.

ZHANG, Xiaoling. “Globalisation of Chinese TV drama: challenges and opportunities.” Critical Studies in Television, [s. l.], v. 2, n. 2, p. 31-46, 2007. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.7227/CST.2.2.5. Acesso em: 05 mai. 2026.

ZHOU, Lulu; DONG, Ruo. “Television adaptation of Empresses in the Palace: rewriting antiheroines, female violence, and heterosexual romance.” Adaptation, v. 19, n. 1, 2026, apaf040. Disponível em: https://bit.ly/4vYONmH. Acesso em: 19 abr. 2026.

9 comentários:

  1. Prezada, Thais! Parabéns pelo seu texto, achei a proposta muito interessante! Vi que um dos pontos ressaltado no seu texto é que os cdramas tem um propósito (e investimento) político. Partindo da perspectiva de uma entusiasta de cdrama, gostaria de saber como você percebe a censura de cdramas danmei de fantasia, seria esse nicho mais afetado por não trazer em suas narrativas aspectos considerados pertinentes pelo governo?

    Atenciosamente,
    Larissa Gabrieli

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Olá, Larissa, obrigada pela pergunta! Infelizmente não tenho muitas leituras sobre o caso dos danmeis, mas concordo que deve ser um dos gêneros mais afetados dos cdramas. No meu entendimento, desde que o romance não seja “explícito”, a censura deixa passar, mas se o romance não for implícito só é transmitido internacionalmente, como aconteceu recentemente com ABO Desire. Nesses casos em que só é permitida a transmissão internacional infelizmente não sei te dizer se eles passam pelo olhar rigoroso da censura. Mas nos que são aprovados, mesmo que o casal esteja quase gritando que estão juntos, ainda devem cumprir o propósito dos cdramas e transmitir valores. The Untamed fez isso com sucesso, embora depois tenha passado por várias polêmicas que levou até mesmo ao banimento do site de fanfics AO3 na China.

      Atenciosamente,
      Thaís Monise de Lima Xavier.

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  2. Ana Carolina Romão Gonçalves dos Santos9 de julho de 2026 às 23:21

    Olá, Thaís!
    Seu texto está magnífico, parabéns!
    Foi possível compreender de forma muito bem estruturada o panorama atual dos cdramas, especialmente no que se relaciona ao cenário brasileiro. Minha pergunta é como você enxerga o desafio na busca por bibliografias confiáveis nas pesquisas voltadas aos cdramas? Em particular, de que maneira seria possível manter uma certa amplitude do assunto sem se manter sempre ficado na predominância de fontes governamentais chinesas? no momento é possível o cenário acadêmico brasileiro fazer isso? Se sim, poderia indicar algumas bibliografias mais diversificadas?

    Desde já, agradeço!

    Atenciosamente,
    Ana Carolina Romão Gonçalves dos Santos

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    1. Olá, Ana Carolina, obrigada pela pergunta!

      Acredito que o cenário acadêmico brasileiro para cdramas ainda está dando seus primeiros passos. Na área de História, são raríssimos os trabalhos sobre cdramas no geral. As áreas de Comunicação e Relações Internacionais estão um pouco mais avançadas nesse sentido, mas é comum que se estude a disseminação de cdramas junto a outras produções do leste asiático, como kdramas e jdramas. Dessa forma, infelizmente ainda é necessário depender, no mínimo, do inglês. Acho importante ressaltar que muitos artigos acadêmicos sobre o tema são feitos por asiáticos, sejam de países influenciados culturalmente pela China, pelos próprios chineses ou membros da diáspora chinesa. Isso significa uma amplitude de visões e, de certa forma, um afastamento de possíveis visões marcadas por referenciais orientalistas.

      Em relação às fontes governamentais chinesas, nas minhas pesquisas minha fonte principal é, em sua grande maioria, os próprios cdramas. As fontes governamentais tem seu valor, mas é frutífero articulá-las com a análise dos cdramas, matérias jornalísticas, bibliografia sobre cdramas, o período histórico representado, sobre o audiovisual, etc. Assim, é possível dialogar com um panorama mais amplo.

      Algumas bibliografias em português que auxiliam a pautar os cdramas no cenário brasileiro:

      SANTOS, Aline; DANTAS, Guibson. O drama televisivo como estratégia de soft power da República Popular da China: o caso da série Amor Eterno. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 46., 2023, Belo Horizonte. Anais [...]. São Paulo: Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 2023. Disponível em: https://bibliotecadigital.ufrgs.br/handle/10183/267216. Acesso em: 05 ago. 2025.
      VELOSO, Juliana; SCHLITTLER, Matheus Mendes; LA CARRETTA, Marcelo. A Tradução intersemiótica do universo do dorama Yanxi Palace para o jogo Legend of the Phoenix. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE JOGOS E ENTRETENIMENTO DIGITAL (SBGAMES), 23., 2024, Manaus/AM. Anais [...]. Porto Alegre: Sociedade Brasileira de Computação, 2024. p. 708-719. Disponível em: https://sol.sbc.org.br/index.php/sbgames/article/view/32349. Acesso em: 05 ago. 2025.
      XAVIER, Thaís Monise de Lima. Qin em Perspectiva: Narrativas Históricas e Ficcionais em The King’s Woman. 2025. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em História) — Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2025. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/bitstream/123456789/37402/1/Xavier%2C%20Tha%C3%ADs%20Monise%20de%20Lima%20%20TCC.pdf. Acesso em: 5 maio 2026. 一 Como a produção em português ainda é limitada, indico meu TCC por focar justamente na área da História.

      Algumas bibliografias internacionais que também acho muito interessantes:

      XUE, Mengjie. The Transmission Effect of Costume Dramas on International Social Media. Journal of Education, Humanities and Social Sciences, [S.l.], v. 1, p. 82-85, jul. 2022. Disponível em: https://drpress.org/ojs/index.php/EHSS/article/view/642. Acesso em: 01 mai 2025.
      YING, Zheng. Big heroine dramas in contemporary China: Costume, authenticity, and an alternative history of women of power. Studies in Costume & Performance, vol. 5, n. 2, p. 211–238, dez. 2020. Disponível em: http://bit.ly/4nbinjn. Acesso em: 01 jul 2025.

      Atenciosamente,
      Thaís Monise de Lima Xavier.

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  3. Olá, Thaís! Parabéns pela sua pesquisa, seu texto está interessantíssimo e muito claro!

    Você menciona que os cdramas são utilizados também para transmitir valores e preceitos éticos e que existe certa cautela na representação de figuras históricas. Nesse sentido, eu gostaria de te perguntar: como são representadas as figuras históricas femininas sob esses dois pontos?

    Obrigada!

    Atenciosamente,
    Maria Eduarda Siqueira Leite

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    1. Olá, Maria Eduarda, obrigada pela pergunta!

      A representação de figuras históricas femininas pode ser bastante variada. Por exemplo, eu estudo a representação de Qin no período dos Estados Combatentes nos cdramas. No TCC defendi que o cdrama The King’s Woman representou seu protagonista, Ying Zheng (que mais tarde se tornaria Qin Shi Huang), de forma complexa, como um mal necessário para o fim do caos dos Estados Combatentes; a cautela na representação de figuras históricas se faz presente aqui, mesmo que o cdrama exponha inúmeros defeitos do personagem, ainda é necessário representá-lo como necessário para esse momento histórico, afinal, estamos falando do homem que unificou a China. É interessante ver como a mãe dele, Zhao Ji, também é representada. Em The King’s Woman, seguindo um capítulo dos Registros do Grande Historiador (Shiji) suspeito de adulterações posteriores, Zhao Ji é vista como promíscua (Ying Zheng é filho de outro homem, não do pai oficial dele; na viuvez, ela teve um caso com um homem que ela disfarçou como eunuco e teve filhos com ele) e sofre bastante (Ying Zheng a humilha, seu amante é morto, seus filhos são mortos, etc) durante toda a história como consequência. Em Legend of Haolan, em que a Zhao Ji é a protagonista e mocinha da história, o capítulo suspeito de adulteração não é seguido e, portanto, sua representação é muito mais simpática.

      Paralelamente, gosto de estudar cdramas de harém imperial. O ambiente é hostil e é comum que o arco narrativo apresente mocinhas que tiveram que endurecer para sobreviver ao harém. Mesmo assim, ocorre a transmissão desses valores chineses: Wei Yingluo de Story of Yanxi Palace, por exemplo, é extremamente esperta e pode ser implacável nas suas vinganças, mas não deixa de seguir valores confucionistas como integridade e resiliência (Wang; Srijinda, 2025).

      Em suma, mesmo as protagonistas mais anti-heroínas devem transmitir esses preceitos éticos. Sinto que a questão da cautela na representação de figuras históricas se aplica mais aos homens do que às mulheres, e especialmente aos homens que têm um papel importante na história, então as produções podem esticar um pouquinho a corda quando se trata de figuras históricas femininas.

      Atenciosamente,
      Thaís Monise de Lima Xavier.

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  4. Ana Helena Leite De Araujo9 de julho de 2026 às 23:57

    Olá, Thaís!

    Muito interessante este tema! Fiquei bem curiosa para pesquisar mais sobre isso. Tenho várias perguntas hahaha

    Você considera que os cdramas históricos devem ser analisados principalmente como fontes para compreender a História da China ou como fontes para compreender a China contemporânea? Ou acredita que as duas perspectivas podem ser conciliadas?

    Considerando o crescimento dos cdramas no Brasil, você acredita que eles já estão conseguindo desempenhar um papel semelhante ao da Hallyu sul-coreana como instrumento de soft power, ou ainda existe uma diferença significativa entre os dois fenômenos?

    Em alguns momentos, os cdramas modificam ou romantizam acontecimentos históricos. Em que momento essas alterações deixam de ser apenas escolhas narrativas e passam a influenciar a construção da memória histórica do público?

    Aguardo ansiosamente pelas suas colocações. Desde já, obrigada!

    Atenciosamente,

    Ana Helena Leite de Araujo

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    1. Olá, Ana, obrigada pelas perguntas e pelo interesse!

      Primeiro, acredito que seja possível utilizar os cdramas históricos como fontes para entender o passado chinês com algumas aspas. Afinal, é impossível resgatar o passado como realmente foi e o passado acaba inevitavelmente sendo transformado por uma tradição histórica e historiográfica, além de ser impulsionado por demandas e ideologias do presente. No geral, classifico meu mestrado e trabalhos adjacentes como análise dos usos do passado chinês pela China contemporânea. Mesmo assim, através dos cdramas é possível vislumbrar uma janela desse passado, baseado em fontes e culturas historiográficas. Dificilmente um cdrama histórico vá inventar algo implausível ou distorcer totalmente acontecimentos históricos importantes. O curso oficial da história deve ser seguido.

      Quanto ao crescimento dos cdramas no Brasil, ainda não acredito que esteja no mesmo nível da Hallyu Wave. Por exemplo, que eu saiba nenhum cdrama chegou ao Top 10 da Netflix Brasil, enquanto kdramas frequentemente ocupam esses lugares desde a pandemia. Todavia, não descarto que cdramas se equiparem à kdramas no quesito popularidade no futuro próximo. Ando percebendo que a comunidade “dorameira”, seja brasileira ou internacional, anda migrando cada vez mais para os cdramas, sejam modernos ou históricos. Não cheguei a trazer os trechos, mas as autoras que citei no texto, Wang e Soler (2024), apontam que muitos fãs andam sentindo que kdramas estão se prendendo muito à uma fórmula, muito influenciada pelo audiovisual ocidental, e perdendo suas particularidades. Não sei se existem artigos sobre isso, mas acredito que para fãs do gênero histórico a vasta variedade de dinastias chinesas pode ser um atrativo também ao considerarmos que mais da metade dos kdramas históricos se passam na dinastia Joseon, não há tanta variedade nesse sentido.

      Por último, acredito que os cdramas ajudam a reforçar mentalidades já inscritas na sociedade chinesa. No máximo, acredito que cdramas focados em mulheres podem influenciar na memória histórica do público, promovendo valorização e conversas sobre o papel das mulheres na história. Fora isso, quando esses cdramas conquistam grande influência, é comum que o governo chinês fique de olho nos desdobramentos. Um caso é o dos cdramas de harém imperial, Empresses in the Palace, Ruyi’s Royal Love in the Palace e Story of Yanxi Palace; em 2019, um jornal vinculado ao governo nomeou alguns supostos efeitos negativos desse gênero como glorificação imperial, propagação da cultura da luxúria e hedonismo, etc. Como consequência, ocorreu uma visível queda em produções de harém imperial. Quanto ao público internacional, acredito que cdramas com certeza podem influenciar na produção da memória histórica.

      Atenciosamente,
      Thaís Monise de Lima Xavier.

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