O estudo do fenômeno mundial do[s] fundamentalismo[s] religioso[s] se apresenta como necessário não apenas por suas características extensas, como também por sua intensidade em certas sociedades que se veem entre uma tradição religiosa e os desafios da modernidade. Os escritores Enzo Pace e Piero Stefani, em sua obra Fundamentalismo Religioso Contemporâneo, afirmam que
“não há dúvida de que o tempo presente nos coloca perante um fenómeno preocupante e ambivalente. Por vezes, a realidade supera a imaginação e certos acontecimentos dramáticos desmentem eventuais análises mais cautelosas. Acontecimentos, por isso mesmo, inimagináveis.” [Pace; Stefani, 2002, p. 5]
O termo fundamentalismo religioso é geralmente usado no contexto das religiões para indicar um apego inabalável a um conjunto de crenças irredutíveis, i.e. os fundamentos. Apesar de que o emprego do termo fundamentalismo no plural seria mais proporcional às realidades sociais observadas mundo afora, é possível traçar aspectos em comum aos fundamentalismos religiosos que, há décadas, habitam o Antropoceno, permitindo-nos, por este motivo, utilizar o termo no singular.
Uma característica comum aos fundamentalismos religiosos é o fato de nascerem em amplas tradições religiosas no mundo, como o judaísmo, o hinduísmo, o cristianismo, o islamismo, o budismo e o sikhismo. Com efeito, este último é praticado por 25 a 30 milhões de pessoas no mundo todo, 90% das quais habitam a Índia – sobretudo a região do Punjab –, espalhando-se predominantemente por Canadá, Reino Unido, Estados Unidos, Austrália e Itália, entre outros. É a quinta religião com mais adeptos no mundo, tendo na figura de Manmohan Singh [1932-2024] sua principal liderança política na história indiana recente, cumprindo dois mandatos completos como Primeiro Ministro da Índia de 2004 a 2014, na condição de primeiro sikh a ocupar o cargo político mais alto da maior democracia eleitoralmente quantitativa do mundo.
Outra característica comum repousa sobre a crença no princípio da inerrância da respectiva literatura sagrada, sejam os Vedas, o Tanakh, o Novo Testamento, o Qurʾān, o Tipiṭaka, o Ādi Śrī Guru Granth Sāhib Ji etc. Curiosamente, Pace e Stefani [2002, pp. 117-118] apontam exatamente para a centralidade do Ādi Śrī Guru Granth Sāhib Ji na vivência qualificada da “via do sikh” [sikh panth], fato esse que permitiria, para os autores, visualizar uma dimensão fundamentalista entre os sikhs de maneira mais fácil do que no âmbito hindu via neo-hinduísmo moderno, sobretudo pelo fato do sikhismo apresentar “uma estrutura simbólica originária potencialmente aberta a modalidades de radicalismo religioso que a longo andar se assemelham ao fundamentalismo.” O núcleo mais antigo do Ādi Śrī Guru Granth Sāhib Ji, O Nobre Livro Originário que é Senhor e Mestre Espiritual, é uma criação do terceiro chefe da comunidade, Amar Dās [1552-1574], constituindo-se numa série imensa de hinos religiosos antecedidos por um preâmbulo que recorda a fórmula fundamental sikh, continente dos dogmas e principais orações que cada devoto deve recitar todos os dias, de manhã e à noite. Estruturado em 1.430 angs [páginas] e 5.894 shabads [composições em versos] poeticamente expressos e musicados em uma forma rítmica de música clássica do norte da Índia, a obra teria adquirido sua versão definitiva pelo décimo e último guru humano, Gobind Singh [1666-1708], em 6 de outubro de 1708 E.C., sendo o Guru Granth Sāhib considerado o décimo-primeiro guru, soberano, final e eterno, seguindo a linhagem dos dez gurus humanos da religião. A principal língua usada em seu registro é conhecida como sant bhāṣā, relacionada tanto ao idioma punjabī quanto ao hindī e amplamente utilizada no norte da Índia medieval por defensores da religião devocional popular [bhakti], sendo seu texto impresso na escrita gurumukhī.
Esta segunda característica nos leva ao terceiro aspecto, o da astoricidade da verdade e da literatura sagrada que a encerra, pois a razão humana sequer deveria ousar adaptá-la às novas condições que se produzem no decurso dos tempos. Fundamentalistas sikhs acreditam que o Guru Granth Sāhib é a personificação da verdade e contêm a chave para a iluminação e, portanto, para a salvação da alma, uma vez que, para eles, Bani [a Palavra] veio diretamente da Realidade Suprema [Waheguru] para os gurus sikhs, de modo que cada conceito, código moral e verdade espiritual contido no Guru Granth Sāhib está absolutamente correto, rejeitando-se, com isso, críticas seculares ou pontos de vista alternativos [Munson, 2026].
Uma quarta característica é o primado do mito da fundação, baseado no estabelecimento de um modelo ideal de sociedade do passado, igualmente presente nas respectivas literaturas sagradas. O fundamentalismo sikh busca ressuscitar a sociedade igualitária, sem castas e socialmente justa, exemplificada pelos primeiros gurus sikhs [1469-1708], como um antídoto para a alegada decadência moral moderna e a opressão sociopolítica. O conceito de Halemi-raj – algo como um “Estado de Bem-Estar Social” –, derivado da filosofia sikh, aponta para um modelo ideal de sociedade fundada em valores morais, como a compaixão, em normas teológicas e no bem-estar de todas as pessoas, sem discriminação de gênero, casta, país, raça ou posição social. Kaur [2021, p. 59] menciona não apenas a contribuição da filosofia de vida dos primeiros gurus sikhs para a emancipação das mulheres, mas também a introdução do conceito de democracia teológica pelo décimo guru sikh, Gobind Singh, que admitia pessoas de todas as castas [altas e baixas] na comunidade khalsa – ordem de praticantes sikhs predispostos a morrer em defesa da fé [ver abaixo] –, contribuindo para o esvaziamento da instituição do sistema de castas. A visão de tal sociedade teria sido posta em prática pelo Mahārāja Ranjīt Singh [1780-1839], que fundou a primeira República Sikh, de 1799 a 1839, incorporando os valores da tradição sikh [cf. Kaur, 2021, p. 61a, n. 3].
Uma quinta característica é o endereço desses fundamentalismos aos marginalizados da sociedade de um ponto de vista sócio-econômico ambivalente, ou seja, dirigidos tanto àqueles que foram recentemente excluídos do poder quanto aos emergentes impedidos de preencher suas novas aspirações. Embora os ensinamentos fundamentais forneçam um modelo inclusivo e progressista, a aplicação estrita dos ideais agrários do século XV E.C. aos complexos Estados-nação modernos gera debates sobre sua praticidade. Os princípios fundamentais estabelecidos por Guru Nānak Dev e os gurus subsequentes idealizavam uma sociedade baseada na igualdade de gênero, na erradicação do sistema de castas, no serviço altruísta [seva] e na defesa dos oprimidos [deg-teg-fateh]. Modernos movimentos sikhs classificados como fundamentalistas tentam restaurar a “pureza” da antiga irmandade do khalsa para combater o materialismo e o ressurgimento de hierarquias tradicionais não-sikh [Jacob, 1990].
Uma sexta característica situaria os fundamentalismos religiosos entre a crise da política tout court e o mundo moderno, i.e. o fundamentalismo religioso seria um jogo complexo entre o que seus representantes apontam como decadência moral da política e o esforço para retornar aos fundamentos últimos da ação humana na mesma sociedade política. Assim, uma perspectiva religiosa “fundamentalista” geralmente entra em conflito com muitos valores de cidadania secular da maioria das culturas matriciadas em parâmetros europeus e norte-americanos de sociedade, calcadas, pelo menos em teoria, em questões como o código penal, os direitos sociais de comunidades de gênero, como os LGBTQIAPN+, o reconhecimento da condição civil e legal de algumas etnias, e as liberdades de culto, de atividade política e de expressão. [cf. Bruce, 2008, pp. 8-14; Pace; Stefani, 2002, pp. 15-23; Robertson, 2004, pp. 199-200; Touraine, 2006, pp. 86-95]. Neste âmbito, Almond, Sivan e Appleby [1992, p. 404] ressaltam que “O programa e a organização dos movimentos fundamentalistas terão sido afetados, por um lado, pelos auspícios e pela estrutura da ameaça secular à sua sobrevivência e, por outro, pela estrutura e composição de sua tradição religiosa.”
A compreensão do fundamentalismo sikh passa não apenas por esses aspectos comuns aos fundamentalismos religiosos em geral, como também pelo estudo histórico dos fatos que apontam para suas origens e seu desenvolvimento no subcontinente indiano, até alcançar outros países e continentes mundo afora. O estabelecimento bem sucedido dos muçulmanos na região do Punjab, noroeste do subcontinente indiano, iniciou-se em 711-712 E.C., após as expansões militares omíadas em direção ao sul da mesma região, concretizando-se em 1021 E.C. sob o Império Ghaznavida, centrado em Lahore, no atual Paquistão, desencadeando uma reação defensiva dos hindus, concretizada no reforço do puritanismo das castas superiores e na marginalização social e religiosa dos indivíduos das camadas sociais mais inferiores. Ao penetrar nestas classes mais baixas, o Islã se misturou com símbolos e ritos hindus, originando um sincretismo popular rejeitado tanto pelas castas superiores quanto pelos doutos islâmicos fiéis aos chefes locais. Este contexto de difícil identidade religiosa se tornou um campo fértil para o surgimento do sikhismo.
O sikhismo surgiu no fim do século XV E.C. e início do século XVI E.C. na região do Punjab a partir da pregação de Guru Nānak Dev [1469-1539], um hindu nascido no clã bedi da casta khatri. Uma miscelânea de devocionalismo hindu e piedade muçulmana, o sikhismo enfatiza a união com um Deus único, proíbe o culto aos ídolos e se opõe, como supracitado, ao sistema de castas hindu. Segundo Sunil K. Salu [2002, p. 248], o sikhismo está mais próximo das tradições hindus do que das tradições islâmicas, sendo inclusive considerado por alguns hindus como parte ou ramo do próprio hinduísmo, o que, por sua vez, deu origem à preocupação sikh sobre como manter a ortodoxia interna e a separação de sua identidade religiosa de modo a não ser absorvida pelo hinduísmo. Nānak Dev propôs uma reforma religiosa que pudesse ser resumida na seguinte afirmação: “Não existem hindus nem muçulmanos. Que caminho hei de seguir, então? Seguirei o caminho de Deus. Deus não é hindu nem muçulmano e o caminho que sigo é o caminho de Deus.” [Pace; Stefani, 2002, p. 119]. O monoteísmo pregado por Nānak Dev anuncia um só Deus criador que não se deixa conhecer totalmente pelo ser humano, que O escuta e é chamado a constantemente purificar sua alma até alcançar a santidade, ou a experiência mística de fusão com Deus. Santo é todo aquele que pode aspirar à função de guia de outros irmãos na fé e se apresentar como modelo ascético a ser imitado no serviço a Deus e à comunidade de fiéis.
A comunidade desempenha também um papel forte na teologia de Nānak Dev. Visto que seu projeto religioso era para leigos, o sikhismo não possui uma comunidade monástica, e convida seus fiéis a comprometerem-se no mundo, seguindo um método de salvação ao qual todos são chamados, sem distinção de classe social. A organização comunitária favoreceu a expansão dos sikhs, a ponto de se tornarem uma força religiosa socialmente marcante, muito devido à sucessão carismática por via pessoal. Tal presença começou a incomodar o império mogul [c. 1526-1857], ao norte da Índia, provocando a morte de dois gurus sikhs – uma delas do quinto guru sikh em Jahangir, em 1605 –, fatos estes que teriam conduzido a uma tradição militar entre os sikhs para melhor se defender de agressões externas. Na esteira desses acontecimentos o último Guru, Govind Singh [1666/1676-1708], instituiu uma ordem de monges-guerreiros prontos a combater e morrer em defesa da fé contra ataques de potências islâmicas e hindus, o supracitado khalsa, ou Comunidade dos Puros.
Devido ao fato de muitos gurus sikhs terem sido governantes de reinos sikhs, não existe separação entre religião e Estado no sikhismo [Salu, 2002, p. 248]. Fundamentada na doutrina central de mīrī pīrī – estabelecida em 1606 pelo sexto Guru, Guru Hargobind Ji –, a fé sikh exige uma fusão perfeita e harmoniosa entre o poder temporal/político [mīrī] e a autoridade espiritual [pīrī]. Apesar de terem permanecido leais aos britânicos quando tiveram seu reino anexado – recebendo inclusive recompensas em terras e trabalho, principalmente no exército britânico –, os sikhs trocaram seu apoio aos britânicos pelo congresso indiano, sobretudo depois do massacre de Amritsar em 1919, no qual 379 indianos foram mortos e 1200 feridos por tropas britânicas. Desde a colonização britânica o templo de ouro de Amritsar sempre foi um foco de resistência sikh, mesmo depois da independência indiana, quando foi prometido ao Punjab um status de província autônoma pelo governo indiano, que nunca se cumpriu.
Após a introdução das reformas democratizantes e a independência da Índia em 1947, os sikhs não só perderam privilégios antes estendidos pelos britânicos às minorias religiosas, como também ricas fazendas em consequência da separação com o Paquistão. Pelo fato de não terem sido compensados proporcionalmente pelas perdas, iniciou-se um movimento por uma província separada de falantes do idioma punjabī dentro da Índia, a Punjabī Sūbā [“Província ou Estado Punjabī”]. Esta pressão política foi liderada pela organização partidária Śiromaṇi Akālī Dal [“Partido Eterno Supremo”]. As exigências sikhs por esta província baseavam-se em diferenças linguísticas e étnicas com a população de falantes do hindī no Punjab, e não religiosas, sendo consistente com a proposta do Congresso indiano nos anos de 1950 para reorganizar os estados de acordo com os idiomas. Porém, a crise no Punjab em fins da década de 1980 envolvendo um movimento dissidente sikh, o terrorismo e a retaliação hindu divergiam muito de suas exigências anteriores pela Punjabī Sūbā. Na década de 1970 uma minoria ativa do khalsa não aceitou alguns compromissos políticos firmados entre o Governo central indiano e os chefes sikhs com relação ao controle dos conflitos provocados pelo modelo de autonomia administrativa reivindicada para o Punjab: foi o bastante para gerar uma seita dissidente com o objetivo de constituir uma falange eleita de monges-guerreiros prontos a lutar contra a injustiça e a opressão do poder central indiano por meio de uma radicalização maior dos ideais do khalsa. Esta seita organizou-se numa rede de escolas, instituições e seminários destinados à expansão do consenso e recrutamento de militantes dispostos a reviverem o modelo do crente que combate até o martírio na defesa da própria fé, conhecido como sant.
A década de 1970 começa a testemunhar um enrijecimento de iniciativas fundamentalistas sikhs e sua militância separatista impulsionados pelo movimento em prol do Khalistān, i.e. “Terra dos Puros”, com o objetivo de estabelecer uma terra natal independente, contabilizando nesse processo cerca de 20.000 mortes entre 1978 e 1993. A ideia de um Estado sikh independente foi apresentada nas negociações que antecederam a partição da região do Punjab entre Índia e Paquistão, quando estes dois países se tornaram independentes em 1947 [Jain, Patel, 2023]. Décadas mais tarde, grupos radicais comandados por Jarnail Singh Bhindranwale [1947-1984] declararam guerra santa contra o Governo indiano em 1982, reivindicando a independência do Punjab [Pace; Stefani, 2002, p. 121]. A esta altura sikhs radicais entraram em choque com hindus e com sikhs moderados em sua reivindicação de proteger e promover os interesses da fé e da comunidade sikh. Em 1984, Bhindranwale ocupou o supremo assento da autoridade temporal, terrena, do sikhismo, o Akal Takht – inserido na doutrina do mīrī pīrī e constituinte do complexo arquitetônico do Templo Dourado [Harmandir Sahib] em Amritsar – junto com militantes armados, levando o Governo indiano à Blue Star [1-10 de junho], uma operação militar sangrenta que causou a morte de 493 civis e 83 militares, além da destruição do próprio Akal Takht e da biblioteca que continha cópias originais dos textos mais sagrados do sikhismo, resultando, entre outros, numa profunda polarização social.
O fundamentalismo sikh foi dos mais importantes assuntos políticos da Índia em meados da década de 1980: a primeira-ministra Indira Gandhi [1917-1984] procurou minimizar a força política da Śiromaṇi Akālī Dal ao encorajar a separação entre a facção extremista interna e o partido, apesar da pouca representatividade política da organização no Punjab. Além disso, Indira apoiou o líder da Federação Estudantil Sikh, Bhindranwale, como um meio de enfraquecer mais ainda a Akālī Dal, que respondeu ao mobilizar forças de nacionalismo religioso através da cadeia de templos sikhs do partido no intuito de unir sua força base. Como consequência, os esforços do partido do Congresso para cindir a Akālī Dal levaram ao surgimento da militância sikh, à desordem civil e à falta de controle de ambas as partes [Salu, 2002, p. 249]. Na tentativa de conter os esforços sikhs, Indira ordenou um ataque ao templo de ouro de Amritsar, que foi parcialmente destruído, junto com 576 mortes. Em resposta, a primeira-ministra foi assassinada por dois de seus guarda-costas sikhs em 31 de outubro de 1984. Isso desencadeou violentos e indiscriminados motins e massacres de retaliação anti-sikh por toda a Índia, com mais de 3.000 mortes.
Em 23 de junho de 1985 militantes do grupo separatista Babbar Khālsa [“Tigres da Verdadeira Fé”] explodiram sobre o Oceano Atlântico, na costa da Irlanda, um avião da Air India que viajava do Canadá para a Índia no voo 182, matando 331 pessoas a bordo [Lionel, 2026; Rae, 2005, p. 4]. Junto da Babbar Khālsa, a Federação Internacional da Juventude Sikh [International Sikh Youth Federation, ISYF] realizou assassinatos preferencialmente direcionados a hindus e sikhs dissidentes, massacres em ônibus e ataques com armas brancas contra civis e funcionários do Estado da década de 1980 até a década de 1990.
Para além do movimento geopolítico do Khalistān, relatórios de inteligência da diáspora sikh e estudos acadêmicos recentes destacam confrontos localizados ocasionais, em geral decorrentes de divergências sobre a administração dos templos sikhs [gurudwaras], de tensões de casta, principalmente no Punjab, e da profanação do livro sagrado. [Jain, Patel, 2023]. Para Rupam Jain e Shivam Patel, embora o movimento pró-Khalistān tenha pouca adesão atualmente na Índia, ele conta com pequenos focos de apoio entre setores da diáspora sikh na Grã-Bretanha, na Austrália, nos Estados Unidos e no Canadá, o país com a maior população de sikhs fora do Punjab. Em abril de 2023, a Índia prendeu Amritpal Singh, um autoproclamado pregador e separatista sikh, sob a alegação de que ele reacendeu os apelos pela criação do Khalistān, o que gerou temores de novos episódios de violência no Punjab. No mesmo ano, o estado indiano criticou o Canadá por permitir a participação de um carro alegórico em um desfile que retratava o assassinato de Indira Gandhi, considerando isso uma glorificação da violência separatista sikh. Frequentes manifestações e atos de vandalismo perpetrados por separatistas sikhs e seus apoiadores contra missões diplomáticas indianas no Canadá, no Reino Unido, nos Estados Unidos e na Austrália também incomodam bastante o governo indiano, que tem buscado maior segurança junto aos governos locais.
Referências biográficas
Matheus Landau de Carvalho é bacharel e licenciado em História com habilitação em Patrimônio Histórico pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2009. Especialista [2010], Mestre [2013] e Doutor [2023] pelo Programa de Pós-graduação em Ciência da Religião [PPCIR], pela mesma Universidade. É membro do NERFI [Núcleo de Estudos de Religiões e Filosofias da Índia] e da ABHR [Associação Brasileira de História e Pesquisa das Religiões].
Referências bibliográficas
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BRUCE, Steve. Fundamentalism. 2. ed. Cambridge: Polity Press, 2008.
JACOB, T. G. Sikh fundamentalism: a distorted Socio-Political Response to Neo-colonial Transformation. In: JACOB, T. G. Chaos in Nation Formation: case of Punjab. New Delhi: Odyssey Press, 1990, Chapter 7.
JAIN, Rupam; PATEL, Shivam. What is the Khalistan movement and why is it fuelling the India-Canada rift? New Delhi: Reuters, 2023. Disponível em: <https://www.reuters.com/world/what-is-khalistan-movement-why-is-it-fuelling-india-canada-rift-2023-09-19/>. Acesso em: 23 jun 2026.
KAUR, Gurdeep. Vision of an Ideal Society: Insights from Sikh Teachings on Gender Equity. International Journal of Social Science and Education Research, Volume 3, Issue 2, 2021.
LIONEL, Baixas. The anti-Sikh Pogrom of October 31 to November 4, 1984, in New Delhi. 9 de junho de 2009. Disponível em: <http://bo-k2s.sciences-po.fr/mass-violence-war-massacre-resistance/fr/document/anti-sikh-pogrom-october-31-november-4-1984-new-delhi>. Acesso em: 25 fev 2026.
MUNSON, Henry. Fundamentalism. In: Encyclopædia Britannica, Inc., 2026. Disponível em: <https://www.britannica.com/topic/fundamentalism>. Acesso em: 23 jun 2026.
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RAE, Bob. Lessons To Be Learned. Ottawa: Air India Review Secretariat, 2005.
ROBERTSON, David. Fundamentalism. In: The Routledge Dictionary of Politics. 3. ed. London: Routledge, 2004, pp. 199-200.
SALU, Sunil K. Religion and Politics in India: The Emergence of Hindu Nationalism and the Bharatiya Janata Party [BJP]. In: JELEN, Ted Gerard; WILCOX, Clyde [ed.]. Religion and Politics in Comparative Perspective. Cambridge: Cambridge University Press, 2002, cap. 11, p. 246.
TOURAINE, Alain. Um novo paradigma: Para compreender o mundo hoje. Petrópolis: Vozes, 2006.
Prezado Matheus
ResponderExcluirSeu texto oferece um panorama muito bem documentado sobre o fundamentalismo sikh, articulando com clareza as características gerais dos fundamentalismos religiosos com a especificidade histórica e teológica do sikhismo. A forma como você conecta a estrutura da fé sikh, especialmente a centralidade do Guru Granth Sāhib, a doutrina mīrī pīrī e a instituição do khalsa, com os desdobramentos políticos do movimento Khalistān confere ao trabalho uma consistência analítica notável. Além disso, a atenção à diáspora sikh e às tensões contemporâneas demonstra que você não está tratando o fenômeno como algo restrito ao passado ou à Índia, mas como uma questão global e em curso.
Uma questão que me surgiu enquanto eu lia seu trabalho, e que talvez possa tensionar seu argumento, diz respeito à relação entre a estrutura teológica do sikhismo e a emergência do fundamentalismo. Se, por um lado, a doutrina mīrī pīrī exige uma fusão entre autoridade espiritual e poder temporal, o que teoricamente abre espaço para uma politização radical da fé; por outro lado, os ensinamentos dos primeiros gurus enfatizavam a igualdade, o serviço altruísta e a abertura a todas as castas. Nesse sentido, o fundamentalismo sikh seria uma "distorção" desses princípios originais, ou seria uma consequência lógica, ainda que extrema, da própria estrutura da tradição, que já continha em si a semente de uma militarização e de uma centralidade política da comunidade? Em outras palavras: o khalsa e a doutrina mīrī pīrī seriam, em alguma medida, combustíveis para o fundamentalismo, ou o fundamentalismo representaria uma ruptura com a tradição que os antecede?
Atenciosamente,
Beatriz Bahiense Tavares
Prezada Beatriz Bahiense Tavares,
ExcluirDesde já peço desculpas pela demora na resposta. Esta semana foi muito densa para mim, e até agora só tive tempo de responder às respostas às minhas perguntas – inclusive a tua, sobre tua Comunicação, pelo que eu agradeço muito ;) – e apenas no presente momento estou conseguindo atender adequadamente ao único questionamento a mim feito. (continua...)
Beatriz, muito provavelmente o poder político – encarado aqui por mim enquanto expressão da ‘realpolitik’, que acredito seja o sentido implícito em tua pergunta – não era visto com estas perspectivas “negativas”, moralmente degeneradas, para as expectativas existenciais dos dez primeiros gurus sikhs diretamente responsáveis pela elaboração da doutrina e do conteúdo do ‘Ādi Śrī Guru Granth Sāhib Ji’, mas bem provavelmente um espaço imbuído de otimismo na promoção do bem-estar geral de quaisquer praticantes que lhes seguissem, sendo mais circunscrito à governança dos súditos e não às disputas, diríamos, mais “maquiavelianas” pela cúpula do poder na comunidade sikh. Com efeito, aquela Verdade soberana, indestrutível, omnipresente, as “crenças irredutíveis” que menciono no terceiro parágrafo da Comunicação, que os praticantes sikhs veem por trás de suas crenças – como qualquer praticante de qualquer crença, religiosa, secular etc – acabaria servindo como uma espécie de garantia infalível de resolução das adversidades e reveses empíricos do dia-a-dia mais a longo prazo, seja para fundamentalistas ou não, de modo que, acredito eu, os fundamentalistas religiosos mundo afora tendem a tomar certas iniciativas concretas de intervenção que, num primeiro momento, serviriam para eles como, talvez, um mal necessário provisório e imediato em nome de um ‘summum bonum’ maior e inerente às mesmas expectativas confessionais existencialmente “mais elevadas” que trazem consigo. (continua...)
ExcluirVeja como registrei em minha Comunicação no parágrafo no qual introduzo a noção de ‘mīrī pīrī’: “a fé sikh exige uma fusão perfeita e harmoniosa entre o poder temporal/político [‘mīrī’] e a autoridade espiritual [‘pīrī’].” É possível visualizar claramente dois pontos de relatividade importantes para entendermos a falibilidade das expectativas se confrontadas pelas vicissitudes empíricas do cotidiano histórico: “fé sikh exige” – mas nada garante o que quer que se exija de maneira invencível dela, pois trata-se, de fato, de uma “fé”, uma “expectativa”, uma “crença”, uma projeção, e não uma certeza irrevogável na própria dinâmica em si da religiosidade sikh, ao meu ver pelo menos, apesar da convicção (relativa para nós de fora, absoluta na crença deles, ‘insiders’ da fé sikh) que a fusão sempre é/será “perfeita e harmoniosa entre o poder temporal/político (...) e a autoridade espiritual”... (continua...)
ExcluirAté onde me é possível visualizar, a comunidade sikh não “já continha em si a semente de uma militarização”, pois, acredito eu, isso se manifestou apenas com a morte dos dois gurus sikhs mencionados na Comunicação e somente por alguns sikhs e não necessariamente todos, levando, então, a uma tradição militar dos sikhs para melhor se defender de agressões externas, muito provavelmente pela interrupção do exercício de suas práticas… o estopim teria vindo DE FORA dos sikhs, o ‘khalsa’ só se afirma categoricamente como “uma ordem de monges-guerreiros prontos a combater e morrer em defesa da fé” somente EM FUNÇÃO DE “ataques de potências islâmicas e hindus” num primeiro momento, sendo convenientemente apropriado ao longo dos séculos, acredito eu, pelo fundamentalismo sikh – que não esgota em si todo o sikhismo – para reagir – como instrumento de suposta eficácia – aos desafios da modernidade que cito na primeira parte de minha Comunicação. (continua...)
ExcluirAssim, vejo o fundamentalismo sikh como uma ruptura com a tradição que o antecede, a “ ‘distorção’ desses princípios originais ” como você mesma coloca no questionamento feito à presente Comunicação, exatamente pela maneira como os fundamentalistas sikhs – que NÃO são TODOS OS SIKHS – adaptam/articulam os princípios ideais de sua fé com as circunstâncias históricas. Talvez indícios disso estejam não apenas na trajetória doutrinária de Nānak Dev – ao meu ver completamente dissonante da hostilidade dessas iniciativas fundamentalistas, ainda que oriundas de sikhs praticantes –, mas também no próprio ‘Ādi Śrī Guru Granth Sāhib Ji’. Aqui cabe uma percepção sobre esses fundamentalistas que, a priori, dizem tomar sua doutrina como PONTO DE CHEGADA, DE REMATE, NA PRÓPRIA RETÓRICA que empregam quando na verdade, para mim, acabam manuseando-a apenas como PONTO DE PARTIDA para que se encaixem em suas ATITUDES E OBJETIVOS COTIDIANOS MAIS IMEDIATOS, ou até os justifiquem. (continua...)
ExcluirEnfim, nada que escape aos métodos e estratégias político-religiosos inerentes a todos os fundamentalismo religiosos, sobretudo das maiores religiões em termos quantitativos de seus praticantes… claro que é um assunto – assim como o questionamento que lhe foi dirigido – que não se esgota nesta presente resposta, abrindo horizontes múltiplos de interpretações, críticas e desdobramentos que, acredito, não caberiam nem numa semana de diálogos, como no caso da duração desta semana de Simpósio Oriental… (continua...)
ExcluirEspero ter correspondido às expectativas da pergunta.
ExcluirDesde já agradeço pela atenção (e paciência).
Atenciosamente,
Matheus Landau de Carvalho.