Quando falamos em Ásia, a que exatamente estamos nos referindo? Embora pareça uma pergunta simples, ela revela uma das questões centrais dos Estudos Orientais contemporâneos. Em meio a guerras, deslocamentos populacionais, disputas de memória e transformações culturais, a Ásia frequentemente aparece associada à ideia de crise. Essa percepção, contudo, está relacionada às categorias utilizadas para definir o continente e produzir conhecimento sobre ele. Antes de discutir a crise, é necessário compreender como a própria ideia de Ásia foi construída.
A proposta deste trabalho parte dessa questão. O tema "Ásia em transe" é compreendido como uma possibilidade de reflexão sobre os fundamentos epistemológicos dos Estudos Orientais. O transe é pensado como um deslocamento das categorias que organizaram historicamente esse campo de pesquisa. A discussão, portanto, volta-se aos modos pelos quais a Ásia foi constituída como objeto de conhecimento, observando os processos que produziram determinadas formas de representação sobre o continente.
A crítica desenvolvida por Edward Said [1978] constitui um ponto de partida fundamental para essa discussão. Em Orientalismo, o autor demonstra que o Oriente foi produzido a partir de representações formuladas no Ocidente e associadas ao exotismo, à irracionalidade e à ausência de movimento histórico. Essas representações participaram da formação de um regime de saber que organizou diferenças culturais segundo interesses coloniais e imperiais. Nesse processo, sociedades com histórias, línguas e experiências distintas foram reunidas sob uma mesma categoria: o Oriente.
A partir dessa crítica, diferentes autores passaram a investigar os fundamentos epistemológicos que sustentaram a produção desse objeto de conhecimento. Chakrabarty [2000], por exemplo, chama atenção para a permanência da Europa como referência universal nas narrativas históricas modernas. Conceitos como modernidade, progresso, secularização e desenvolvimento, elaborados em contextos históricos específicos, foram transformados em parâmetros para interpretar outras sociedades. Esse movimento produziu narrativas nas quais diferentes experiências históricas passaram a ser compreendidas a partir de sua relação com o percurso europeu.
É nesse contexto que Chakrabarty [2000] formula a ideia da "sala de espera da história". Povos não europeus foram situados em uma posição de espera diante de uma modernidade apresentada como já consolidada pela Europa. Provincializar a Europa significa questionar essa centralidade, reconhecendo a historicidade de suas categorias e possibilitando outras formas de compreender a experiência histórica. Essa perspectiva permite analisar a Ásia considerando seus próprios processos históricos e suas múltiplas temporalidades.
Mesmo sabendo que Chakrabarty faz parte dos estudos subalternos, é interessante trazê-lo para reflexão.
As reflexões de Homi K. Bhabha [1994] ampliam esse debate ao deslocar a atenção para os processos de tradução e negociação cultural. Seu conceito de "entre-lugar" [in-between] descreve espaços nos quais identidades são produzidas, transformadas e colocadas em relação. Em oposição a uma compreensão das culturas como estruturas fixas, Bhabha propõe pensar a cultura como resultado de encontros, deslocamentos e disputas permanentes.
Essa perspectiva contribui para pensar a Ásia contemporânea a partir de seus movimentos internos e externos. Migrações, diásporas, intercâmbios culturais e transformações sociais tensionam interpretações baseadas em unidades culturais homogêneas. A ideia de "Ásia em transe" expressa esse movimento contínuo, marcado pela convivência entre diferentes temporalidades, experiências históricas e formas de pertencimento.
A partir dessas contribuições, este artigo investiga como determinadas imagens da Ásia foram produzidas e colocadas em circulação em periódicos especializados pertencentes ao acervo do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia [CEAO/UFBA]. Esses periódicos registram debates, escolhas editoriais e formas de representação que participaram da construção do conhecimento sobre o continente no Brasil. Em suas páginas encontram-se perspectivas formuladas por pesquisadores brasileiros, europeus, norte-americanos e asiáticos, permitindo observar diferentes maneiras de interpretar a Ásia em distintos momentos históricos.
O levantamento realizado no acervo do CEAO identificou títulos relacionados à Ásia, organizados em diferentes eixos geográficos e temáticos. O conjunto reúne publicações dedicadas ao Japão, China, Índia, Coreia, Palestina, Israel, Vietnã e Filipinas, além de estudos sobre as diásporas síria e libanesa e publicações que abordam o chamado "Oriente" em uma perspectiva mais ampla. Também foram identificados diferentes gêneros textuais, como livros acadêmicos, relatórios institucionais, anais de eventos, obras memorialísticas e textos de divulgação. Esse conjunto evidencia a diversidade das formas pelas quais o conhecimento sobre a Ásia circulou e adquiriu legitimidade no contexto brasileiro.
O objetivo da pesquisa não está em estabelecer qual imagem da Ásia seria a mais adequada. O interesse está em compreender como essas representações foram construídas, quais referências orientaram sua elaboração e quais disputas atravessaram esse processo. Ao acompanhar a circulação desses discursos nos periódicos do CEAO, torna-se possível discutir os pressupostos que organizaram os Estudos Orientais e pensar caminhos de investigação para o campo.
Os periódicos como lugares de produção da Ásia
Os periódicos preservados no acervo do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia [CEAO/UFBA] permitem acompanhar esse movimento a partir do Brasil. A catalogação realizada demonstra que diferentes países asiáticos aparecem associados a determinados campos de interesse, revelando que a construção do conhecimento sobre a Ásia ocorreu por meio de recortes temáticos específicos.
O Japão constitui o conjunto mais expressivo do acervo, reunindo publicações relacionadas principalmente à imigração japonesa no Brasil, aos processos de integração das comunidades nipônicas e às relações estabelecidas entre Brasil e Japão. Obras como O japonês no Nordeste Agrário, de Waldemar Valente, A assimilação e integração dos japoneses no Brasil, de Hiroshi Saito e Takashi Maeyama, e Os japoneses no Brasil, de Leila Maekawa, evidenciam como a presença japonesa foi frequentemente analisada a partir das experiências migratórias, dos processos de adaptação social e das relações entre identidade, memória e pertencimento. Também se destacam materiais relacionados aos marcos históricos da imigração, como o documento resultante do simpósio promovido pelo governo federal sobre os 70 anos da migração japonesa no Brasil [1978], que revela o interesse institucional em registrar e interpretar essa presença no país.
Israel e Palestina aparecem em outro conjunto temático, relacionado aos conflitos políticos no Oriente Médio, ao sionismo, ao antissemitismo e às disputas territoriais envolvendo a questão árabe-palestina. As obras dedicadas a esses temas revelam uma produção marcada pelos acontecimentos políticos internacionais e pelas diferentes formas de interpretação dos conflitos envolvendo judeus, árabes e o Estado de Israel.
A China aparece associada a temas como filosofia, medicina tradicional, literatura, arte, religião e economia. O conjunto de obras sobre o país revela uma aproximação que frequentemente passa pela valorização de tradições culturais e sistemas de pensamento chineses. Destacam-se publicações dedicadas à medicina chinesa, à acupuntura, à arte do chá, à literatura, à cerâmica, à pintura e à filosofia confucionista, além de estudos voltados às dinastias chinesas e a contextos específicos como Macau. Esses materiais demonstram como a China foi frequentemente apresentada a partir de suas tradições históricas e culturais, articulando elementos filosóficos, artísticos e sociais.
A Índia concentra obras relacionadas à religião, filosofia, história e cultura. O título Cultura e Civilização Indiana [1968], de Gertrude Emerson Sen, publicado pelo Centro de Estudos Afro-Orientais [CEAO] na série Estudos, constitui um exemplo significativo desse conjunto. A obra, produzida a partir de uma iniciativa vinculada à Embaixada da Índia no Brasil, apresenta ao público brasileiro uma introdução à história e à cultura indiana, revelando também os processos institucionais envolvidos na circulação de determinadas imagens sobre o país. O acervo reúne ainda materiais relacionados às tradições religiosas indianas, manifestações artísticas, culinária e às conexões históricas estabelecidas entre a Índia e outros territórios, como a antiga Guiana Britânica.
A Coreia aparece em obras dedicadas tanto às questões políticas quanto às manifestações culturais. Entre os materiais identificados, encontram-se estudos sobre a divisão entre Coreia do Sul e Coreia do Norte, além de publicações voltadas às artes coreanas, incluindo cerâmica, pintura e poesia, bem como trabalhos relacionados aos períodos dinásticos da história coreana.
O Vietnã aparece em títulos voltados tanto à introdução cultural quanto aos conflitos políticos do país. A obra Hô Chi Minh [1968], de Jean Lacouture, constitui um exemplo importante para pensar as mediações envolvidas na produção do conhecimento sobre a Ásia. A trajetória do líder vietnamita aparece no acervo por meio de uma biografia escrita por um autor francês, publicada em língua francesa, evidenciando que a circulação de conhecimentos sobre determinados países asiáticos também ocorre por meio de perspectivas externas aos próprios contextos analisados.
As diásporas síria e libanesa aparecem em obras como a coleção Brasil Líbano-Sírio, de Jamil Safady, e O Líbano no Brasil, de Jorge Safady. Esses materiais deslocam a discussão sobre Ásia para o campo das migrações e das relações estabelecidas entre comunidades de origem árabe e a sociedade brasileira, evidenciando que o conhecimento sobre o continente também foi construído a partir de experiências diaspóricas.
O conjunto de obras classificadas como “árabes” reúne discussões sobre literatura, islamismo, cultura e contextos nacionais diversos, incluindo Turquia, Irã e outros países árabes. Esses materiais também abordam revoluções, relações internacionais e conflitos envolvendo diferentes grupos sociais e políticos, demonstrando a diversidade de perspectivas reunidas sob uma mesma classificação.
As Filipinas aparecem em títulos relacionados à economia, demografia, migração e relações com o Japão. Embora em menor quantidade, essas obras ampliam a compreensão sobre as conexões históricas e políticas estabelecidas entre diferentes regiões asiáticas.
Por fim, outras obras tratam do chamado “Oriente” em uma perspectiva mais ampla, reunindo debates sobre Terceiro Mundo, eventos acadêmicos, movimentos políticos e perspectivas feministas. Nesse conjunto, destaca-se Orient et Occident, peuvent-ils se comprendre? [1958], de Fradier, publicação vinculada à coleção da UNESCO. A obra é particularmente relevante porque problematiza a própria separação entre Oriente e Ocidente, questionando categorias utilizadas historicamente para organizar diferenças culturais e intelectuais.
Esses conjuntos demonstram que a ideia de Ásia presente no acervo não foi construída a partir de uma única perspectiva. Ela resulta de diferentes recortes temáticos, interesses acadêmicos e contextos históricos. Os títulos preservados no CEAO revelam que o continente foi interpretado a partir de múltiplos caminhos: migração, religião, arte, conflitos políticos, filosofia, diplomacia e relações internacionais. A Ásia, nesse sentido, aparece como uma categoria construída por diferentes práticas de produção e circulação do conhecimento.
Considerações finais
Esta pesquisa partiu da necessidade de problematizar uma categoria frequentemente tomada como evidente: a Ásia. Ao longo do trabalho, foi possível observar que ela não constitui um referente neutro ou estável, mas uma construção histórica atravessada por tradições intelectuais, interesses políticos e formas específicas de produção do conhecimento.
A crítica de Edward Said [1978] foi fundamental para compreender como o Oriente foi constituído como objeto de saber em relação a projetos coloniais e imperiais. As contribuições de Chakrabarty [2000] e Bhabha [1994] ampliam essa discussão ao evidenciarem os limites de categorias universais e os processos de negociação, tradução e deslocamento presentes nas experiências culturais. Essas perspectivas permitem compreender a Ásia como um espaço marcado por diferentes temporalidades, trajetórias históricas e formas de pertencimento.
A análise do acervo do Centro de Estudos Afro-Orientais [CEAO/UFBA] demonstrou que essas disputas também estão presentes na circulação do conhecimento no Brasil. Os periódicos e obras catalogados revelam diferentes formas de representar sociedades asiáticas, reunindo estudos acadêmicos, documentos institucionais, obras de divulgação e narrativas memorialísticas. Esse conjunto evidencia que o conhecimento sobre a Ásia foi produzido a partir de múltiplos lugares, idiomas e tradições intelectuais.
Os resultados da pesquisa também mostram que o acervo não constitui um conjunto homogêneo. As obras analisadas registram diferentes processos de circulação, apropriação e legitimação do conhecimento, permitindo observar como determinadas imagens sobre a Ásia foram construídas e transformadas ao longo do tempo. Nesse sentido, o CEAO se apresenta como um espaço privilegiado para investigar a formação dos Estudos Orientais no Brasil e as redes intelectuais que participaram desse processo.
Os periódicos e materiais analisados mostram que cada publicação carrega escolhas, contextos e perspectivas particulares. É nesse movimento que o tema encontra seu sentido: a Ásia permanece em transformação, assim como os modos de representá-la e interpretá-la.
Referências
Maria Clara de Deus Oliveira Gomes da Silva, é graduanda de Letras Vernáculas com Português como língua estrangeira da Universidade Federal da Bahia, e integrante do grupo de pesquisa Oriente em Movimento.
Dr. Milan Puh, é professor de educação da Universidade de São Paulo, e coordenador do Grupo de Pesquisa Línguas e Culturas em Movimento.
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Tradução de Myriam Avila, Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998
ELÍBIO JÚNIOR, Antônio Manoel; LIMA, Marcos Costa; ALMEIDA, Carolina Soccio Di Manno de. Provincializar a Europa: a proposta epistemológica de Dipesh Chakrabarty. Revista Brasileira de História & Ciências Sociais, v. 7, n. 13, jul. 2015. Disponível em: http://dx.doi.org/10.14295/rbhcs.v7i13.303.
SANCHES, Manuela Ribeiro. Traduzir “o que ainda não compreendo.” Um diálogo com Provincializing Europe. Práticas da História: Journal on Theory, Historiography and Uses of the Past, n. 11, p. 125-141, 2020. Disponível em: www.praticasdahistoria.pt.
BAYARD, Pierre. Como falar dos livros que não lemos? Tradução de Rejane Janowitzer. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007..
INGOLD, Tim. Against space: place, movement, knowledge. In: INGOLD, Tim. Lines: a brief history. London: Routledge, 2007. p. 88-103..
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Tradução de Tomas Rosa Bueno. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Interessante estudo, eu já tentei buscar artigos sobre Ásia na revista mas tive algumas dificuldade pois a maior parte das edições traz textos sobre temas africanos e afro-brasileiros; como vocês fizeram a busca: consultaram os índices de cada edição da revista ou usaram alguma estratégia ou ferramenta de busca específica? Também gostaria de entender melhor o objetivo da pesquisa, este levantamento das publicações sobre vários tópicos asiáticos na "Afro-Ásia" visa uma continuidade de pesquisas discutindo algumas destas publicações encontradas, por exemplo analisando categorias, conceitos ou referenciais teóricos recorrentes?
ResponderExcluirOlá, tudo bem?
ResponderExcluirObrigada pelo elogio e comentário.
Esse trabalho com o CEAO foi um trabalho quase que bibliográfico e arquivista, foram dois anos de pesquisa física, indo até a biblioteca e vendo livro por livro. A nossa pesquisa derivou dois datas-base, um de um acervo restrito que só pesquisadores tem acesso, esse ainda está em fase de desenvolvimento, porque os livros só possuem neste acervo, sem conteúdo online, e sem possibilidade de empréstimo. E o segundo que vamos publicar em breve é o catálogo voltado apenas para as temáticas asiáticas, tiradas do acervo circulante, com obras um pouco mais recentes, e com um acesso mais facilitado.
Só um pequeno adendo, não é uma pesquisa que foca tanto nas questões "Afro", a gente pesquisa e debate em cima dos materiais encontrados no acervo, caçando os materiais referentes a Ásia ou temáticas afins, como países africanos que são islâmicos, mas aí o objeto de análise é o islã, não exatamente o país.
Sobre pesquisar em revistas, existe o International Institute for Asian Studies (IIAS), atualmente é o mais instituto voltado para os estudos asiáticos no "ocidente".
E sobre a segunda pergunta, não é seja um levantamento sobre publicações de vários tópicos, foi um levantamento para entender o que se tem sobre a Ásia no acervo do CEAO, que historicamente foi se afastando dos estudos asiáticos e focando nos estudos afros, mas o que se tem sobre isso lá?
A pesquisa tem esse teor, e aqui eu trouxe alguns poucos exemplos para demonstrar que são visões muito abertas e diversas de países distintos. E que existem diferentes narrativas, os países falando de si mesmos, os europeus falando deles, as embaixadas supervalorizando, e por aí vai...
Eu costumo fazer mais análises em apresentações orais, apresentando em congressos. Mas vou levar em consideração a ideia de escrever mais essas análises, obrigada!