ÁSIA COMO UM MÉTODO: BREVE APRESENTAÇÃO DE UM DEBATE POR TAKEUCHI YOSHIMI, YŪZŌ MIZOGUCHI E KUAN-HSING CHEN por Maria Francisca Theberge

 

Desde meados do século XX, intelectuais leste-asiáticos vêm formulando uma pergunta incômoda para os estudos asiáticos no Ocidente: é possível compreender a Ásia usando categorias forjadas para descrever a experiência europeia? Este texto apresenta um breve panorama do debate conhecido como "Asia as method", reconstruindo sua trajetória desde a palestra homônima de Takeuchi Yoshimi (1960), passando pela reformulação de Yūzō Mizoguchi em "China as method" (1989), até a síntese proposta por Kuan-Hsing Chen em "Asia as Method: Toward Deimperialization" (2013). O objetivo não é esgotar as nuances de cada autor, mas evidenciar a continuidade de um problema comum e, principalmente, apresentar o debate, ainda que de forma breve, a partir destas três obras.

Para Kuan-Hsing Chen, o real problema nos estudos asiáticos é que a teoria universalista ocidental não oferece ferramentas para compreender as realidades e História asiáticas, pois "há algo de errado com o recorte de referência"; portanto, "a tarefa não é bem a de conduzir uma crítica ideológica, mas de descobrir maneiras de romper este impasse analítico [ou paradigma]" (CHEN, 2013, p.217; 226, tradução nossa).

É por isso que Chen se insere na esteira da tradição asiática de produção historiográfica, retomando o debate de Takeuchi Yoshimi na palestra "Asia as method" (1960) e de Yūzō Mizoguchi no livro "China as method" (1989). Chen revisita essas proposições — e os trabalhos produzidos nas décadas seguintes por autores como Partha Chatterjee e Dipesh Chakrabarty — para formular um método comparativo que não se limita a "provincializar a Europa" nem a "globalizar" a produção historiográfica.

O que ele propõe é algo mais profundo: uma reconfiguração das próprias condições de produção de conhecimento, que desloca o centro de referência teórico para fora do eixo Ocidente-Oriente. É essa reconfiguração — e não apenas a inversão de qual região fala sobre qual — que distingue sua proposta das demais tentativas de superação do eurocentrismo discutidas neste texto. Outro aspecto fundamental para essas novas formulações é a continuidade do trabalho na revista Inter-Asia Cultural Studies: Movements, projeto em curso desde a década de 1990 e espaço de integração para muitos desses debates. A superação da inércia formulativa dos movimentos dos países da periferia do capitalismo só pode ocorrer com uma produção científica robusta que dê amparo a esses anseios.

A palestra de 1960 de Takeuchi Yoshimi, "Asia as method", apresenta um diálogo influente nos círculos intelectuais de Tóquio, onde Yoshimi ocupava posição de destaque como professor de Literatura na Universidade de Tóquio. Nela, o autor explora as possibilidades de métodos comparativos entre diferentes regiões e Estados da Ásia, tendo como objetivo principal transformar o próprio objeto de estudos "Japão" — país que o Ocidente havia consagrado como estudante-modelo da modernização europeia, por ser o único na Ásia a abraçá-la em sua totalidade (CHEN, 2013, p.246, tradução nossa).

Em sua trajetória, Yoshimi comparou aspectos da modernização japonesa com a trajetória chinesa, buscando entender como os dois processos se distinguiam. Esse exercício comparativo não era inédito: o próprio autor, na palestra, recupera exemplos de intelectuais como Bertrand Russell e John Dewey, que já haviam praticado esse tipo de comparação — uma prática que Yoshimi distingue entre a de intelectuais "de dentro" e "de fora" da região observada. É significativo notar que o texto de Yoshimi chega até nós no formato de palestra, e não de artigo ou tratado metodológico: isso explica por que ele é mais rico em exemplos práticos do que em formulações sistemáticas.

O que esses exemplos demonstram, em conjunto, é a impossibilidade de pensar a história do continente de forma isolada em fronteiras nacionais — seja no Japão, na China, nas Coreias ou no Oriente Médio. Como o próprio Yoshimi resume: "é isso que eu chamei de 'Ásia como método', e ainda assim é impossível dizer de forma definitiva o que isso quer dizer" (YOSHIMI, 2005, p.165, tradução nossa). Essa indefinição não é uma fraqueza do argumento, mas o ponto de partida que os autores seguintes — Mizoguchi e, depois, Chen — vão assumir como tarefa: dar a "Ásia como método" um corpo teórico mais explícito.

Simplificando, o método de crítica de Takeuchi opera fora da estrutura binária Oriente/Ocidente, avançado/atrasado. De um lado, ele propõe comparar os processos de modernização da Índia, da China e do Japão entre si e com a Europa. Por outro — e este é o movimento mais substancial —, ele sugere que apenas pela inter-referência entre lugares próximos ou que compartilham experiências históricas semelhantes podemos abandonar o erro de tentar "alcançar" um modo normativo de conhecimento, produzindo em seu lugar uma compreensão mais fundamentada e mais próxima da realidade histórica de cada região (CHEN, 2013, p.323, tradução nossa).

Pensando na superação dessas fronteiras, o japonês Yūzō Mizoguchi publicou décadas depois o livro "China as method", com o objetivo de dar continuidade à teorização de Yoshimi. Mizoguchi teve trajetória semelhante à de seu predecessor: também da área de sinologia japonesa, também professor de Literatura na Universidade de Tóquio e também nome de prestígio no campo. Buscando compreender os sentidos da modernização chinesa e japonesa e seus agentes de mudança, o autor desenvolve uma formulação própria — o materialismo histórico geocolonial [geocolonial historical materialism].

Em síntese, o método se apoia em um argumento central: a superação da comparação equivalente dos processos de modernização, rompendo com a filosofia da história que os marxistas ortodoxos pressupõem, e reconhecendo que a história mundial é composta por diversas histórias locais em diálogo entre si — não por uma história universal da qual as histórias locais seriam variações.

"Eu estou desenvolvendo a teoria da entidade-base [base-entity]. (...) A razão de ser chamada de teoria da entidade-base é, em suma, porque eu não quero ver a modernização da China simplesmente como um veículo passivamente respondendo aos impactos do Ocidente" (MIZOGUCHI, 1989, p.37, tradução nossa).

A principal contribuição da formulação de Mizoguchi para Chen está na mistura entre "o eu e o Outro" produzida pelo contato da entidade-base com o Outro. Assim, o estudo sobre a China não se encerra na China: ele a transcende e nos ajuda a compreender a totalidade do globo a partir de um ponto de observação que não é o europeu. É a partir dessa formulação que Chen, em "Asia as Method", constrói uma genealogia das tentativas de superar a dicotomia Ocidente/Oriente no campo da produção científica — priorizando o diálogo com o Sul Global, que entendemos como uma das incidências contemporâneas mais avançadas para a superação de paradigmas que a própria História Global pretende superar, mas não consegue.

Ásia como método é, portanto, um método comparativo de superação do paradigma analítico colonial e eurocêntrico, que desloca nossas âncoras de referência para a Ásia e o Terceiro Mundo. Como escreve Chen, essa proposta "não é um slogan, mas uma prática", que "inicia com a multiplicação das origens de nossas leituras para incluir aquelas produzidas em outras regiões da Ásia" (CHEN, 2013, p.255, tradução nossa).

A Ásia é um continente composto por 49 países e mais da metade da população mundial — e, ainda assim, permanece tema marginal nos espaços de circulação global da produção científica. Essa marginalidade não é apenas geográfica: ela é reproduzida pelos próprios critérios do que conta como teoria "geral" e do que conta como mero "caso local".

Criar espaços autorreflexivos para examinar esses problemas e comparar experiências em diálogo franco é, seguindo Chen, a única maneira de extinguir a figura do "informante nativo" — aquele intelectual cujo papel, dentro da divisão internacional do trabalho intelectual, é fornecer dados sobre sua região para que a teoria seja produzida em outro lugar. Romper com essa divisão exige um diálogo que seja, ao mesmo tempo, local e intercontinental: capaz de oferecer um arcabouço robusto para pensar as relações globais a partir de uma perspectiva que não tome o Ocidente como ponto de chegada nem como medida de comparação.

 

Referências

Maria Francisca Theberge é mestranda em História Social na UFRJ e graduada em História pela UFF.

 

CHAKRABARTY, Dipesh. Provincializing Europe. Postcolonial thought and historical difference. Princeton: Princeton University Press, 2008.

CHEN, Kuan-Hsing. Asia as method: Toward deimperialization. Duke University Press, 2010.

_________________. Takeuchi Yoshimi's 1960 ‘Asia as method lecture. Inter-Asia Cultural Studies, v. 13, n. 2, p. 317-324, 2012.

 

MIZOGUCHI, Yūzō. China as method. Inter-Asia cultural studies, v. 17, n. 4, p. 513-518, 2016.

 

YOSHIMI, Takeuchi. What Is Modernity? Writings of Takeuchi Yoshimi. Columbia University Press, 2005.

3 comentários:

  1. Olá Maria,
    gostei dessa sua breve apresentação, indicando a continuidade de reflexão nos três autores. Apesar da centralidades desses estudiosos, você menciona autores indianos: Chatterjee e Chakrabarty, bem como dois ocidentais: Russell e Dewey, daí queria entender melhor qual é a relação deles com as obras que você cita e de que maneira isso permite a gente entender que a própria maneira como nós construirmos a nossa bibliografia representa um esforço de usar a Ásia como Método? E pensando mais nos métodos, você menciona em determinado momento que: "o estudo sobre a China não se encerra na China: ele a transcende e nos ajuda a compreender a totalidade do globo", para exemplificar que "história mundial é composta por diversas histórias locais em diálogo entre si — não por uma história universal da qual as histórias locais seriam variações", o que eu queria entender melhor, no sentido de você falar como o estudo sobre a china nos ajuda a entender essa totalidade já que a sugestão é trabalhar com histórias locais em diálogo?

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  2. Maria Francisca Soares Theberge8 de julho de 2026 às 16:40

    Olá, Milan Puh. Obrigada pela leitura atenta! A menção de Chatterjee, Chakrabarty, Russel e Dewey não foi uma escolha particular, mas é justificada pelo fato dos próprios autores que busco apresentar nesta comunicação os mencionarem.
    Na palestra "Ásia como Método"(disponível no livro "What Is Modernity?: Writings of Takeuchi Yoshimi"), Yoshimi expõe uma discussão sobre os processos de modernização asiáticos, revisitando hipóteses que ele mesmo havia formulado sobre a construção de uma tipologia da modernização asiática, de um "modelo chinês" e um "modelo japonês". Para a composição de seu argumento, menciona trabalhos de Russel e de Dewey, à medida que estes autores desenvolvem parte de suas obras preocupados com os processos de modernização na China e no Japão. Estes são somente dois dos autores ocidentais que ele cita no seu trabalho, justamente porque está preocupado também em dialogar com a compreensão que intelectuais e centros de pesquisa ocidentais têm acerca destes processos na Ásia. Essas menções não são feitas de forma acrítica, é claro. Yoshimi levanta pontos importantes na palestra, mas o que eu objetivava demonstrar é que, para a finalidade de apresentar o debate do "Ásia como Método", hoje popularizado e renovado por Kuan Hsing-Chen, é a ideia da construção de comparações entre diferentes experiências asiáticas como uma chave de superação da velha comparação Ocidente x Oriente, um velho binômio legado das experiências coloniais e imperiais legadas aos estudos das ciências sociais e humanas, que devemos nos empenhar em superar.
    Sobre a menção dos autores indianos Partha Chatterjee e Dipesh Chakrabarty, também se justifica pelo fato de Kuan Hsing-Chen trabalhar com estes autores para munir sua reflexão crítica acerca das atuais relações de produção do conhecimento e possibilidades de construir outros novos paradigmas. Em seu livro "Asia as method: Toward deimperialization", Chen estabelece um diálogo com as contribuições de Chatterjee a respeito do alargamento de proposições gramscianas como de "sociedade civil" e "sociedade política". Este alargamento se dá, sobretudo, pelas dificuldades de aplicação destas proposições em um contexto colonial ou "pós-colonial" indianos, portanto fora da Europa, urgindo a necessidade de repensar a ideia de sujeito e agenciamento; Chen vai buscar um diálogo crítico destas contribuições para pensar o contexto leste asiático. Ainda que em menor medida, Chen expressa em seu trabalho o engajamento com as contribuições de Dipesh Chakrabarty (especialmente "Provincializando a Europa"), sobretudo para pensar as assimetrias na produção e circulação de conhecimento entre a Europa e os não-europeus. Chen parece tentar trazer estas formulações pós-coloniais dos Estudos Subalternos para refletir especificamente sobre o Leste da Ásia.

    Sobre sua última pergunta, "como o estudo sobre a china nos ajuda a entender essa totalidade já que a sugestão é trabalhar com histórias locais em diálogo?". Quando eu menciono "totalidade do globo" não uso totalidade em um sentido de História Total. A ideia não é essa. E a ideia também não é que a história da China, especificamente, nos ajuda a compreender outras. Foi um exemplo para ilustrar como este esforço pode contribuir para a construção de novos paradigmas de análise que partam de um ponto de observação que não é o europeu. Mais do que uma preocupação bibliográfica, a preocupação de Kuan-Hsing Chen e dessa esteira de debates que busca ampliar é como repensar metodologicamente nossas pesquisas.

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  3. Wallace Andrioli Guedes8 de julho de 2026 às 22:52

    Olá, Maria. Parabéns pelo trabalho! Li "Asia as method", do Chen, recentemente e é de fato muito instigante. Uma coisa que me chamou atenção foi o diálogo com a ideia de "entidade-base" do Mizoguchi, em que Chen defende não haver essencialismo cultural na proposição do autor japonês. No entanto, confesso não ter ficado totalmente convencido disso. Gostaria de saber sua opinião a respeito. Obrigado!

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