AS REVOLTAS DO ARROZ: BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE INSURREIÇÕES POPULARES NO JAPÃO EM MEIO A CONTEXTOS DE CRISES INTRA/INTERNACIONAIS por Felipe Chaves Gonçalves Pinto


Abertura

Em 2024, uma significativa alta no preço do arroz, alimento base da dieta japonesa, trouxe consigo lembranças de levantes populares originados pela inacessibilidade do alimento em tempos passados. Referenciando notadamente a “Revoltada do arroz de Taishô [1912-1926]” [1918] e a “Revolta do arroz de Heisei [1989-2019]” [1993], o movimento mais recente de insatisfação frente ao aumento dos preços começou a ser denominado como “Revolta do Arroz de Reiwa [2019-]”. Somando um aumento no preço de venda direta ao consumidor de mais de 100% durante o período de junho de 2024 até os primeiros meses de 2026 [ver RDS, s.d.], a atual crise na produção do arroz, contudo, não levou [ao menos em nível de percepção pública hegemônica] a população às ruas ou à construção de reivindicações populares mais enfáticas, apesar de existirem manifestações isoladas de pequenos produtores que exigiam respeito e valorização da produção local.

 

Conquanto o termo “revolta” tenha sofrido considerável banalização ao se referir tanto aos acontecimentos mais recentes quanto aos de 1993, há um horizonte de crise intra/internacional semelhante que os conectam. Isto é, a “Revolta” de 2024 foi marcada por uma instabilidade internacional oriunda dos conflitos contínuos pelos quais parte do planeta está passando, pela lógica econômica de uma capitalismo global e digitalizado e por consequências mais drásticas relacionadas às mudanças climáticas [ver Ogawa, 2024].

 

Em 1993, por sua vez, o cenário internacional era marcado principalmente pela dissolução da União Soviética (1991) e pela radical liberalização financeira encabeçada pelos Estados Unidos após a recessão dos anos 80. Internamente, a bolha econômica havia acabado de romper (1991) e o Japão entrava no que se convencionou a chamar de Década Perdida, o que se soma aos contratempos sócio-climáticos que assolaram boa parte do leste asiático naquele período, impactando diretamente a produção do cereal.

 

A Revolta de 1918, por outro lado, deu-se justamente em meio a Primeira Guerra [1914-1918] e a um êxodo rural motivado pela rápida industrialização das cidades japonesas que começavam a se inserir mais marcadamente no cenário da economia internacional. Esta perspectiva interna, assim, levou a diminuição da produção em um contexto em que havia uma alta demanda tanto interna quanto, considerando o cenário de guerra, externa, o que, junto à especulação de mercado, elevaram o preço do arroz. As reações desta Revolta foram, entretanto [e em contraste com as “Revoltas” posteriores], marcadas por efetivas insurreições violentas, uma vez que, como comentou Arahata Kanson [1887-1981] em meio aqueles acontecimento: “os cidadãos já não confiavam no Governo, pelo contrário: passavam a depositar sua confiança na violência” [Arahata, 1976, p. 129, tradução minha].

 

As questões que se apresentam como motivo para as breves considerações neste textos são, portanto, a partir de quando e através de quais movimentos a população voltou a depositar sua confiança no Governo enquanto resolutor de problemas e não mais na reivindicação direta?

 

Regressando à 1918

Enquanto um dos países Aliados e geograficamente distante dos conflitos, o Japão atravessou um cenário econômico bastante positivo durante a Primeira Guerra Mundial. Tomando proveito da economia de guerra e de sua posição no conflito, o país passou a oferecer grande quantidade de produtos industrializados para exportação aos Aliados em guerra. Nesse contexto, a capacidade fabril japonesa escalonou consideravelmente e, concomitantemente, o êxodo às cidades também se intensificou à medida que mais força de trabalho era demandada dentro dos centros industriais. Nesse cenário, a capacidade de produção no campo mingou, levando ao baixo nível de produção de arroz somado à alta demanda pelo alimento, ocasião propícia para a explosão do preço do cereal.

 

Acrescenta-se a isso o ágio sobre o alimento que os comerciantes [muito deles, no cenário de economia de guerra e de alto crescimento econômico, membros da “classe” de “novos-ricos”] cobravam da população. Além disso, em concordância com as práticas de aumento de preço, a distribuição do cereal era organizada por um modelo orientado pelo lucro. Isto é, com a instauração dos primeiro grandes latifúndios em uma lógica capitalista durante o primeiro grande crescimento industrial do país [1886] [ver Nakanishi, 2019], a produção do arroz também passou por uma concentração significativa, o que, por sua vez, permitiu uma maior manipulação da circulação do produto. Assim, o arroz era produzido em uma determinada localização para ser exportado para outra em que poderia ser vendido por um preço ainda maior, o que encarecia o valor do cereal também na região produtora e, consequentemente, aumentava o lucro final [para mais detalhes ver Nakamura, 2002].

 

É justamente nesse contexto que se inicia a Revolta do Arroz de 1918. Mobilizadas por uma percepção já antiga e arraigada de que o preço do arroz subia toda vez que os navios chegavam ao porto e partiam com alimento, mais de duas dezenas de mulheres, esposas de estivadores da região, impediram que estes carregassem os navios comerciantes com o cereal no porto da cidade Nakaniikawa-gun, localizada na Baía da Província de Toyama, na região central do país [Tamura, 1990]. Como a região de Toyama era um ponto estratégico de escoamento de arroz para Hokkaido, ilha mais ao norte do país, muitos levantes do tipo começaram a ocorrer por toda a extensão da Baía.

 

Inicialmente, esses movimentos, conquanto frutos de ação direta, não envolviam a mobilização de estratégias abertamente violentas, mas devido ao aumento da tensão decorrente das repressões estatais, a violência [principalmente a patrimonial] começou a ser o denominador comum desses levantes. É nesse processo de radicalização que a Revolta ganhou força e se espalhou rapidamente, irradiando da Região de Kansai [centro-sul japonês] para quase todo o país [para mais detalhes, ver Enishi, 1990; Fukasawa, 2022].

 

Tomie diferencia “cidadania”, “direitos humanos” e “direito à existência” no contexto da sociedade japonesa, principalmente naquela em que a Revolta de 1918 ocorreu, para investigar as consequências e os motivos para o levante popular massivo que se deu. Na leitura de Tomie, a Revolta não se originou, como uma análise mais comprometida dos acontecimentos pode sugerir, através da reivindicação popular por direitos de cidadania ou “humanos”, mas sim pela necessidade das pessoas se manterem vivas. Isto é, a revolta era, antes, resultado de uma percepção generalizada de risco existencial da própria população comum japonesa e, nessa perspectiva, o recurso de reação encontrado foi justamente a violência, o que encontra respaldo em movimentos populares/camponeses pregressos [ver Tomie, 2017].

 

Ainda assim, era comum que a classe de intelectuais [à esquerda e à direita] interpretassem a Revolta tanto como um movimento pró quanto contra a “modernidade” Meiji. Não cabendo aqui um aprofundamento nessas questões, procura-se apenas assinalar que o caráter difuso e espontâneo dos levantes propiciaram uma disputa pelo seu significado político paralelamente ao intrínseco não-reconhecimento das necessidades básicas do povo, o que implica no descompasso entre o fato e as interpretações que se seguiram ao fato [Tomie, 2017]. Contudo, a despeito da distância interpretativa, a percepção do ímpeto violento era um consenso. Ilustrações do período oferecem oportunidade de entrever os desfechos desses levantes:

 

Fonte: Sakurai, 1950.

 

Como pode ser observado, a força militar foi o principal obstáculo das insurreições populares, que já empregavam estratégias espontâneas de destruição patrimonial, saques aos silos e estabelecimentos de comerciantes, incêndios etc.

 

O aumento na escala dos levantes e de sua violência afligiam boa parte da elite cultural/econômica do país, principalmente aquela que não se considerava “radical” [esta, na completa marginalidade desde 1911 devido ao chamado Período de Inverno dos Movimentos de Esquerda Radical [ver Pinto, 2024], recebia a Revolta com simpatia e esperança]. Yosano Akiko [1872-1942], um dos nomes mais famosos da modernidade japonesa, criticou, por exemplo, os levantes naquela ocasião. Ao mesmo tempo em que criticava os governantes pela inaptidão em conseguir mitigar o sofrimento da população, dizia-se “profundamente desesperada com as insurreições do povo. Estas são ainda menos sérias do que os Levantes Camponeses do Período Tokugawa [...]. Penso que é um anacrônico movimento por comida que almeja punir os novos-ricos” [Yosano, 1918, p. 28, tradução e grifos meus]. É justo pontuar que Yosano, contudo, não censura o levante das mulheres em Toyama, mas sim a escala que os movimentos tomaram desde então, isto é, critica justamente a revolta popular violenta e generalizada.

 

A natureza dos levantes começou a viabilizar novas formas de protesto, os mais conhecidos sendo as manifestações dos mineiros das minas de carvão espalhadas pelo país. Conquanto seja complexo para a historiografia atestar a intensidade e a penetração desses protestos devido a falta de material, sabe-se que houve o amplo uso de força letal por parte do estado contra os mineiros em greve. Os jornais da época também dão vislumbres dessa violência generalizada ao relatarem que os mineiros manipulam dinamites contra as forças do estado [o que, entretanto, também precisa ser colocado em suspeição devido ao caráter das reportagens]. Nessa mesma perspectiva, a memória dos conflitos legou, por exemplo, ilustrações como a abaixo, que, novamente, também são produtos culturais feitos a posteriori e comprometidos com uma leitura específica dos acontecimentos:

 

Fonte: Yamamoto, 1973.

 

A Revolta foi contida pela força estatal, mas o cerco do governo tornou-se incapaz de controlar, naquela ocasião, a organização de trabalhadores em sindicatos, de grupos políticos dissidentes e outros levantes populares, o que ensejou boa parte dos movimentos sociopolíticos radicais que se deram logo em seguida. Mas isso já é outra história.

 

Mais uma vez em 2026

Retornando a 2026, a alta no preço do arroz derrubou ministros, propiciou parcas compensações financeiras e intervenções estatais no mercado de cereais. Mais recentemente, a primeira-ministra, diante da crise anunciada do petróleo decorrente do ataque norte-americano ao Irã e do inevitável aumento de preços, anunciou o desejo de zerar o imposto sobre os alimentos, ao mesmo tempo em que a taxa básica de juros do país subiu ao maior nível em mais de 30 anos.

 

Neste mesmo ritmo, a Nikkei 225, índice de ações da Bolsa de Valores de Tóquio, cresceu quase 150% nos últimos cinco anos, tendo como ponto de alavancagem justamente 2024 [início do aumento de preço do arroz] em que ultrapassou a máxima histórica de 1989 [em plena bolha financeira] e subiu além dos 40,000 pontos. Logo em seguida, em uma ascensão inédita, galgou, no período entre junho de 2025 e junho de 2026, de 40,000 para surpreendentes 72,000 pontos. Ganha-se dinheiro como nunca.

 

Para continuar com a numeralha: um estudo mostrou que quase 60% das famílias japonesas relataram que em 2024 tiveram dificuldade para fechar as contas e, dentre estas, 28% relataram muita dificuldade [Adachi, 2025]. Outro estudo mostrou que o gasto em alimentação em 2024 foi o maior em 43 anos [Naito, 2025]. Além disso, de janeiro de 2024 à janeiro de 2026, o salário real da população somou apenas cinco aumentos mensais contra 19 perdas salariais no mesmo período, incluindo uma perda anual total de 17,2% em 2025 [Trading..., s.d.].

 

Tal qual em 1918, há um grande acúmulo econômico interno e restrito que se ergue sobre a alta generalizada de uma necessidade básica do ser humano, o alimento, acompanhada da desvalorização salarial no país. Há, também analogamente aquele contexto de 1918, um cenário internacional pouco auspicioso, envolto em guerras, anseios expansionistas [imperialistas], escalada de repressão e sufocamento de divergências. Enquanto “novidade” a ser somada, há a crise climática anunciada que promete períodos de instabilidade ainda mais drásticos e aptos a comprometer a capacidade de produção alimentícia significativamente [para não falar do impacto na qualidade de vida no planeta como um todo]. Não houve, contudo, insurreições capazes de mobilização massivas como as de 1918.

 

Entre abstrações de mercado, bilionários e trilionário, fortunas virtuais invisíveis [mas nem por isso menos reais] e facilmente re-alocáveis, gerenciamentos globais de informações regidos por lógicas digitais inapreensíveis para o cérebro humano, atomização de experiências individuais através de algoritmos inacessíveis, inteligências artificiais gerativas, caos climático, guerras ininterruptas, entre tudo isto há o ser humano que, talvez perdido, busca meios com que sobreviver neste planeta. Existe, no meio de tudo isto, o ser humano sem saber bem como apreender essa quantidade assustadora de variáveis, números, operações e, diante da indefinição em que se transformou o gestão “automatizada” [que se quer “neutra” porque “natural” e “natural” porque “neutra”] das crises sociais, percebe-se paralisado sem saber bem para onde direcionar sua justa indignação. Se num passado não tão distante era relativamente simples identificar a origem da opressão em gananciosos comerciantes e donos de latifúndios exploratórios e, assim, reconhecer nestes os algozes a serem derrubados, hoje o mercado se “auto-regula”, os latifúndios estão cotados em bolsa através de fundos imobiliários rurais e grandes conglomerados do agronegócio, fundos de índices tem gestão passiva [automatizada] etc. e o “rastro” da origem da opressão se dilui consideravelmente.

 

Retomando a constatação feita por Arahata de que os japoneses já não confiavam no Governo, mas na violência, para impor suas reivindicações em 1918, a pergunta que fica é, portanto, como continuar confiando na ação direta se a própria possibilidade de identificar o alvo desta ação esfumaça-se? Apesar da materialidade da exploração ser incontornável, o nível de abstração com que esta se dá emperra um comprometimento mais imediato com uma mobilização espontânea e mais enérgica, uma mobilização que escape da rede de contenção estatal/capital.

 

E então?

William Andrews [2016, p. 307, tradução minha] escreveu: “uma revolução pós-guerra é sequer possível no Japão? Provavelmente não”. Parafraseando, é possível dizer: “há perspectivas de que a alta no preço do arroz junto ao cenário de crise geral intra/internacional insuflem novas insurreições capazes de criar coesão espontânea e generalizada tais como as de 1918 no Japão? Provavelmente não”.

 

Atualmente a curva ascendente no preço do cereal começa finalmente a iniciar uma lenta mas, ao que tudo indica, progressiva queda. Não houve manifestações expressivas por parte da população, não houve levantes populares como em 1918. Há de se notar, contudo, que o cenário não está resolvido e pode novamente degringolar com os instáveis movimentos de abertura e fechamento do Golfo Pérsico, por onde, além de petróleo e gás natural, passa também parte significativa dos fertilizantes agrícolas japoneses. Há de se notar também que se vive em um contexto de policrise [Morin, Pedretti, 2025] em que a atual não anuncia outra coisa senão a vinda de novas crises talvez ainda mais intensas.

 

Há ainda a se notar que, junto a dominação gestionária [Boltanski, 2013] na qual se desdobraram os métodos de controle de dissidência sociopolítica, existe uma “tradição” governamental japonesa bastante efetiva de repressão que se equilibra entre a franca violência estatal [execuções sumárias em prisões ou em contextos de caos social, como o Grande Sismo de 1923, aprisionamentos indiscriminados, assassinatos de ativistas, repressão da própria população com uso de força letal e mortes decorrentes desses contextos [Kanda Michiko [1937-1960]; Asuma Inejiro [1898-1960]] etc.] e o completo desprezo diante desse movimentos. Como Andrews [2016, p. 307-308, tradução e grifos meus] comenta na conclusão de seu trabalho:

 

“O que é consistente é que o PLD [Partido Liberal Democrata] e outros governos sempre ignoraram qualquer movimento de protesto em grande escala, por mais grave que fosse [...]. Eles não toleram oposição; não oferecem compromisso. Há apenas um adiamento até que o movimento acabe perdendo o ímpeto. O governo tem demonstrado desprezo perpétuo por seus cidadãos, excluindo suas vozes dos debates e avançando diante dos protestos e da raiva porque eles ‘sabem o que é melhor’. O Triângulo de Ferro formado pelo governo do PLD, pela burocracia e pelas grandes empresas reina supremo [...] No final de 2013, o ministro do governo Shigeru Ishiba descreveu as multidões que protestavam pacificamente contra o novo projeto de lei de segredos de Estado como ‘terroristas’.”

 

Fica-se a dúvida, então, de que tipo de “tradição” realmente está em jogo. São as estratégias de repressão japonesa que se especializaram notavelmente ou há uma apatia generalizada da população que encontra respaldo em outras localidades do planeta? Quero dizer, a putativa “passividade” da população diante deste cenário de crise perene é traço formativo ou resultado de sofisticadas e inapreensíveis ferramentas de repressão? Ovo ou galinha?

 

Afinal, novamente parafraseando Andrews, “uma revolução pós-guerra é sequer possível em qualquer lugar deste planeta em que armas de destruição em massa, mísseis hipersônicos capazes de atravessar todo o globo, tecnologias de neutralização digital etc. estão a um botão de distância? Provavelmente não”. Isto é, uma revolução, a não ser que forças hegemônicas assim o queiram, não é provável, tampouco próxima.

 

Mas insurreições não são revoluções. E a pergunta se repete: e então? E então... Qualquer conclusão para este texto senão o desconcerto soaria, a mim, mentirosa. Insurreições acontecem diariamente, nas brechas da vida que segue à revelia. É o pavio que detonaria a Revolta [e, quem sabe, a revolução] que foi devidamente sabotado pela dominação gestionária e, nisto, as insurreições individuais não assomam à superfície, não ganham capilaridade, coletividade e tendem a sumir na multidão de outras insurreições e [hoje mais do que nunca: infinitas] distrações do dia-a-dia. Talvez, no fim, o uso de “revolta” para descrever as movimentações em torno do aumento do preço do arroz em 2024 esconda a certeza não-dita de que o que falta é o pavio. O fogo está aí, como sempre esteve, ainda que ativamente ignorado e, caso seja necessário, pronto para ser suprimido violentamente.

 

Por fim, lembro que o Período Taishô, palco da Revolta de 1918, foi marcado também pela expansão imperialista japonesa que, pouco depois, descamba no facismo aberto. Talvez não seja mera coincidência as atuais inclinações do Estado japonês numa esfera maior de movimentação da extrema-direita mundial [ainda que o termo homogenize uma realidade complexa]. O que aguarda o Japão? Aventa-se, no país, um retorno legal da força de ataque militar japonesa [até o momento, ainda denominada de “autodefesa”]; o veto à exportação de material militar letal, como caças, navios e mísseis, foi derrubado em 2026 após 50 anos; foi aprovado para o ano de 2026 um aumento de quase 10% no gasto militar do país; rusgas bélicas com a China são publicizadas etc., etc... O que aguarda o Japão e o mundo como um todo nos próximos anos?

 

A história se repete, diria Marx. Primeiro como tragédia e, talvez, acrescentaria, novamente enquanto tal. Mas não cabe aqui qualquer vaticínio senão que há de sempre existir, ainda que pouca, esperança e indignação.

 

Referências

Felipe Chaves Gonçalves Pinto é professor do Departamento de Letras Clássicas e Orientais, do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É também o coordenador do projeto Arroz e Flores: antologia de literatura rebelde japonesa [www.arrozeflores.art.br], no qual são congregados e publicados traduções e estudos sobre a literatura rebelde japonesa.

 

ADACHI, Natsumi. “60% of Japanese households struggling to make ends meet”. The Asahi Shimbun, 25, jul. 2025. Disponível em: https://www.asahi.com/ajw/articles/15886644.

 

ANDREWS, William. Dissenting Japan: a history of Japanese radicalism and

counterculture, from 1945 to Fukushima. Londres: Hurst & Company, 2016.

 

ARAHATA, Kanson. “Taishô seidai no ikki”. In: Arahata Kanson chosaku-shû. Tóquio: Heibonsha, p. 129-130, 1976. Disponível em: https://doi.org/10.11501/12241497.

 

BOLTANSKI, Luc. “Sociologia da crítica, instituições e o novo modo de dominação gestionária”. Sociologia & Antropologia, vol. 3, n. 6, p. 441-463, 2013. DOI: https://doi.org/10.1590/2238-38752013v364.

 

ENISHI, Ichizô. “Ôsaka no komesôdô”. In: ÔZAWA, Masamichi. Domin no shisô: taishû no naka no anakizumu. Tóquio: Shakai hyôron-sha, p. 122-127, 1990.

 

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MORIN, Edgar; PEDRETTI, Claudio. “The Polycrisis Demands a Renewed Humanism”. In Project Syndicate, 22 set. 2025. Disponível em: https://www.project-syndicate.org/commentary/renewed-humanism-required-to-meet-global-challenges-by-edgar-morin-and-claudio-pedretti-2025-09.

 

NAITO, Hisashi. “Japan household spending on food in ’24 hit highest level in 43 years”. The Asahi Shimbun, 3 mar. 2025. Disponível em: https://www.asahi.com/ajw/articles/15626262.

 

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3 comentários:

  1. Parabéns pelo texto tão interessante, professor Felipe! Essa é uma temática da qual eu não possuía conhecimento prévio e o seu texto instigou profundamente a minha vontade de conhecer mais sobre o assunto.
    A minha questão parte de um interesse na questão de gênero, já que o senhor menciona que no contexto da Revolta de 1918 "mais de duas dezenas de mulheres, esposas de estivadores da região, impediram que estes carregassem os navios comerciantes com o cereal no porto da cidade Nakaniikawa-gun". Eu gostaria de lhe perguntar como esse protagonismo feminino foi percebido e recebido pelos diferentes grupos sociais (como os intelectuais, governo etc). Ademais, quero lhe perguntar como a participação feminina continuou a existir nos outros acontecimentos da Revolta de 1918 (e nas outras se for o caso). Me pareceu realmente fascinante o estopim da Revolta ter sido um movimento somente de mulheres.
    Agradeço muitíssimo pelo texto e pela atenção.

    Luiza.

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    1. Olá, Luiza!
      Muito obrigado pela leitura e pelo comentário atencioso!

      O início dessa primeira revolta realmente se deu através da ação dessas mulheres que, cabe notar, agiram a despeito da vontade dos homens que trabalhavam no porto em questão (um dos grupos de opositores dessas mulheres foram, justamente, esses homens). De início, a posição estatal foi mais complacente com essas ações diretas e grande parte dos intelectuais simpáticos aos movimentos "humanistas" eram simpáticos a essas mulheres. Elas eram comumente representadas como donas de casas que agiam por necessidades básicas e, portanto, legitimamente.

      Entretanto, com o passar do tempo e com a escalada pela qual essas insurreições passaram, houve uma repressão maior direcionada às pessoas envolvidas nessas ações diretas, incluindo aí também as mulheres. Nesse momento, já não havia necessariamente uma clivagem de gênero nas manifestações e a Revolta já tomava contornos mais massivos, envolvendo todo o espectro social. Mas é igualmente verdade que essas primeiras insurreicionistas ainda eram tratadas em uma chave diversa das que se seguiram.
      Uma das interpretações para esse primeiro protagonismo feminino na Revolta de 1918 fala da proximidade que as mulheres tinham com as tarefas cotidianas e com o preparo dos alimentos e, portanto, eram mais sensíveis a essas questões. Junto a isso, comenta-se também que a posição social que essas mulheres da zona portuária ocupavam estava localizada em um contexto cultural em que, sendo elas já mais velhas, possuiam poder para influir socialmente na comunidade. Isto é, fala-se do prestígio que elas tinham por serem mulheres daquela comunidade que já alcançaram certa idade e viviam por aquela comunidade, daí a força de barganha social que possuíam para impedir o carregamento dos navios: poucos tinham coragem para contrariar o que elas decidiam.
      Esse retrato meio que se repete nas outras "Revoltas" (apesar de não haver necessariamente o movimento de ação direta que houve em 1918). São as mulheres as primeiras a protestar contra os aumentos drásticos no preço dos alimentos nas outras ocasiões também. Mas, como comentei no texto, o que falta, parece, é o pavio para que essas fagulhas de revolta e insurreições cotidianas possam ganhar força para se tornarem efetivas revoltas populares.

      Espero que a resposta tenha ficado satisfatória, mas estou à disposição para conversarmos mais se você quiser!
      Mais uma vez obrigado pela leitura e pela generosa questão!

      Felipe

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    2. Muito obrigada pela atenciosa resposta, professor Felipe!

      Considero muito interessante pensarmos nessa noção do prestígio social dessas mulheres e a influência e o impacto social que elas tinham na comunidade. Acrescento que também considero desconcertante pensar como pouco mais de um século após a Revolta de 1918 a reconfiguração social experimentada pela sociedade japonesa (e por grande parte do mundo) tenha se dado de maneira a se instaurar tamanha dormência e conformacionismo. Essa transformação me faz questionar se a mudança do papel e prestígio social dessas mulheres em suas comunidades tenha tido alguma influência (por menor ou maior que seja) nessa falta do pavio para "acender" as revoltas populares efetivas.

      Novamente agradeço pela resposta tão elucidativa e esclarecedora.

      Luiza.

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