A REPRESENTAÇÃO DAS “MULHERES DE CONFORTO” EM “A GUERRA DA PAPOULA” DE REBECA F. KUANG por Alice Mikos Tigrinho

 

“A Guerra da Papoula” [2018], considerado um dos melhores livros de fantasia e ficção científica pela Forbes, acompanha a história de Fang Runin [Rin], uma órfã de guerra do Império Nikara que, para escapar de um casamento arranjado pelos seus pais adotivos, decide passar no Kenju, o exame imperial e assim adentrar a academia militar localizada na capital imperial, Sinegard. Dentro deste local, Rin sofre todo o tipo de ostracismo por não ser da elite de Nikara, além de se deparar com um poder que ultrapassa os limites da imaginação. Nesse romance de alta fantasia, a autora Rebeca F. Kuang, se inspira em eventos decorridos da guerra do ópio e da segunda guerra Sino-Japonesa [1938 - 1945] para compor o universo do livro.

 

Nascida em Guangzhou, em 1996, Kuang e sua família se mudaram para Dallas, nos Estados Unidos, quando ela tinha apenas quatro anos. Formada em história pela Universidade de Georgetown, ela seguiu a vida acadêmica no Magdalene College, em Cambridge, como ganhadora de uma bolsa Marshall de 2018, onde obteve um mestrado em filosofia com foco nos estudos chineses. No ano seguinte, ela estudou na University College, em Oxford, e recebeu a titulação de mestre em Estudos Chineses Contemporâneos. Kuang retornou aos Estados Unidos no outono de 2020 para fazer doutorado em Línguas e Literaturas do Leste Asiático na Universidade de Yale. Durante esse período ela concluiu a trilogia de “A Guerra da Papoula”, lançando mais dois livros: “A República do Dragão” [2019] e “A Deusa em Chamas” [2020]. Ela também lançou outros livros nos anos seguintes, como: “Babel” [2022], “Yellowface” [2023], “Katabasis” [2025] e, por último, “Taipei Story” [2026] todos ganhando o reconhecimento nacional e internacional ao serem indicados em diferentes premiações literárias.

 

Kuang se utiliza de aspectos históricos e sociais para a construção dos seus livros. Em entrevista para a Ifeoluwa Adeniyi [2021], ela revela que ao escrever ficção ela consegue se colocar na perspectiva desses agentes históricos e trazê-los para um local de humanização, desta forma, ela cria uma nova relação com a escrita baseando-se em experiências reais para criar conflitos, problemáticas e identidade ao mundo e seus personagens.

 

Em A Guerra da Papoula, o livro, a autora explora o contexto político e social da China no começo do século XX, mas para esse texto, iremos nos atentar a um acontecimento específico retratado: a existência de “mulheres de conforto” durante a trama. Vale ressaltar, que “mulheres de conforto”  é um termo utilizado pelo governo japonês como uma forma de diminuir a verdadeira prática que foi desenvolvida contra essas meninas: a escravidão sexual.

 

Segunda Guerra Sino-Japonesa e a escravidão sexual.

Durante 1937 a 1945, China e Japão entraram em guerra novamente [durante os anos de 1894 e 1895, ambos os países disputam pelo controle da Coreia, levando a conquista do território pelos japoneses], um conflito mais complexo e devastador do que o primeiro, marcado por massacres, atrocidades e violações de direitos humanos [Nunes, 2024, pg.9]. Dentre eles, a rede sistemática de tráfico sexual que se estendeu por diferentes países dominados pelo Império Japonês, como China, Coréia, Filipinas, entre outros. Estima-se que entre 50 a 200 mil mulheres tenham sido vítimas desse sistema, que teve início em 1932 e perdurou até o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945 [Nunes, pg36].

 

Embora esse processo tenha começado antes de 1937, com a construção de alguns bordéis ou “casas de conforto”, como eram chamadas pelos militares japoneses, elas eram consideradas pequenas e raras, localizando-se principalmente na China. O grande marco para a sistematização do sequestro, cárcere dessas mulheres e construção de novos bordéis ocorreu após o Massacre de Nanjing, quando militares japoneses invadiram a cidade de Nanjing [南京] e

 

“durante as seis semanas que se sucederam à queda da cidade, os militares japoneses perpetraram, com prisioneiros de guerra e civis, fuzilamentos em massa; enterraram pessoas vivas; queimaram pessoas; praticaram exercícios de baioneta e espada com civis, a fim de treinar soldados novos; estupraram em massa, com variados requintes de destruição psíquica e humilhação moral” [Silva, 2011, pg.6].

 

As mulheres foram as principais vítimas desse contexto, Nunes [2024] comenta que mulheres de todas as faixas etárias, sofriam não apenas tortura física e humilhação pública, mas também foram submetidas a violações, estupros e assassinatos. Segundo Baillot [2023], o número de vítimas de todas as idades varia entre 8 a 20 mil.

 

Após esse incidente, os militares japoneses expandiram a quantidade de “estações de conforto” para impedir que outros massacres e estrupos em massa acontecessem, também era uma forma de impedir e controlar que doenças venéreas se espalhassem entre os soldados. Desta forma, as estações de conforto eram um espaço de violência, onde a escrava pertencia a um mestre, ou mestres [Rolim, 2018, pg. 4]. Diversos relatos das violências que aconteceram nesses locais só foram revelados ao final dos anos 1980, quando a pesquisadora Chung Ok Yoon, denunciou internacionalmente essa prática.

 

A Guerra da Papoula e as mulheres de conforto

Em entrevista [2021], Kuang, relata que escreveu o livro Guerra da Papoula quando ainda era uma estudante da graduação. A inspiração veio ao visitar seus avós na China, ela cita

 

“A Guerra da Papoula veio de um lugar muito pessoal; Eu às vezes descrevo o livro como 560 páginas de uma fantasia de vingança, porque esse era o estado emocional que eu estava depois de descobrir sobre o Massacre de Najing pela primeira vez. Esses sentimentos persistem em tantos chineses e membros da diáspora chinesa” [Kuang, 2021, tradução própria].

 

Assim, a autora relata em seu primeiro livro, uma sucessão de acontecimentos inspirados na guerra, apresentando no vigésimo primeiro capítulo, esse que dá início à terceira parte do romance, a narrativa de dois acontecimentos que marcam o ápice da crueldade do exército da Federação de Mungen, a representação do Japão no livro, que é narrado como uma

 

 

“[...] nação ambiciosa que cresce rápido, com uma população protuberante numa ilha minúscula. Imagine um país altamente militarizado com mais gente do que a própria terra consegue sustentar, sem ter para onde expandir. Imagine que seus líderes militares propagam uma ideologia de que são deuses e possuem o direito divino de estender o império pelo hemisfério oriental” [Kuang, 2022, pg.57-59].

 

Ou seja, um país com ímpeto imperialista e que se utiliza da ideia de superioridade racial, oriunda de um ultranacionalismo atrelado ao xintoismo e à rápida modernização [Rolim, 2018, pg.4], para subjugar outras nações e povos.

 

Ao passar por diversas provações, a equipe de Rin finalmente chega a cidade de Golyn Niis, onde um massacre aconteceu. Nessa cidade, a protagonista encontra alguns antigos companheiros dos dias em que ainda estudava na academia militar, sendo uma delas Sring Venka, uma personagem que atua como uma das antagonistas na primeira parte da história.

 

Venka é a filha de um político influente de Ninkan, recebendo treinamento em combate e estudo desde pequena, apesar dos desejos de sua família para que ela se casasse com um homem rico, Venka decidiu que queria se alistar no exército e ingressou no Keju. Ao começar a guerra, ela foi designada para a Sexta Divisão em Golyn Niis. No entanto, durante a emboscada da Federação, Venka não foi morta como os outros soldados da divisão, mas mantida em uma "casa de repouso" — o nome dado para as “casas de conforto” dentro do livro — e estuprada coletivamente por soldados mugeneses antes de ser dada como morta. Ela foi violentamente abusada e, como resultado, ambos os braços ficaram fisicamente incapacitados. Como citado trecho abaixo:

 

“Rin mal conseguiu reconhecer Venka quando foi vê-la naquela noite. Seus cabelos lindos haviam sido cortados de qualquer jeito, como se alguém tivesse os atacado com uma faca. Seu olhar antes vivaz estava vidrado e sem brilho. Os dois braços haviam sido quebrados na altura do pulso e estavam em tipóias” [Kuang, pg. 410 - 411].

 

Esta é uma parte sensível da escrita do livro, descrevendo com detalhes as violências que ela sofreu durante seu cárcere no local. Como a primeira fala que ela tem dentro do diálogo com Rin

 

“— Eles nos chamam de banheiros públicos — falou Venka de repente. Rin parou a dois passos da porta. Então a compreensão recaiu sobre ela e o sangue ficou gelado. — O quê? — Achavam que eu não entendia mugenês — contou Venka, com uma tentativa amedrontadora de risadinha. — Era assim que me chamavam quando estavam dentro de mim” [Kuang, pg. 411].

 

A narrativa se estende,

 

“— Sabe como doía? Eles estavam dentro de mim, ficaram dentro de mim por horas e não paravam. Eu desmaiava sem parar, mas sempre que recuperava a consciência, ainda estavam lá, um homem diferente em cima de mim, ou talvez o mesmo homem… Ficaram todos iguais depois de um tempo. Foi um pesadelo, e eu não conseguia acordar” [Kuang, pg. 411].

 

É interessante comparar com relatos de sobreviventes das “estações de conforto”, assim percebemos semelhanças nos discursos, como no testemunho de Jan Ruff O’herne para a Audiência da Câmara dos Representantes de 2007, em que ela relata a sua experiência dentro de uma das “casas de conforto”

 

“Ele me jogou na cama e arrancou todas as minhas roupas. Então, ele passou a sua espada por todo o meu corpo nu, e brincou comigo igual um gato faz com um rato. Eu tentei lutar com ele, mas ele se manteve em cima de mim, me prendendo embaixo do seu corpo pesado. As lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto ele me estuprava da forma mais brutal possível. Eu achei que ele nunca fosse parar” [O’herne, 2007, tradução nossa].

 

Em ambos os extratos, as vítimas — neste caso, colocamos Venka não apenas como um personagem de ficção, mas uma mulher “real” — relatam violências  [sexual, física e psicológica], acometidas sobre ambas. O abuso sexual sofrido por elas vai muito além da concepção de controle do corpo feminino e exaltação da masculidade, se enquadrando em outro tipo de violência sistemática, o estupro de guerra, que é comumente utilizado como estratégia de guerra, haja vista que as mulheres do espaço dominado são mais vulneráveis a serem utilizadas como objeto sexual, assim, nasce a concepção de novo domínio a ser estabelecido e executado [Martins, 2019, pg.18]. 

 

Para Martins [2019], essas mulheres subjugadas como objetos que precisam ser possuídas, conquistadas e controladas, passam a ser vistas como parte do território. A vista disso, o estupro deixa de ser apenas uma violência para controle e destruição do corpo, mente e reputação e passa a ser, como dito anteriormente, um ato ataque a nação/país. Vale ressaltar, que em muitas dessas sociedades o ‘valor’ de uma mulher está atribuído a sua ‘pureza’ sexual, ou seja, ao realizar o ato de abuso, o perpetrador da violência faz com que a vítima carregue consigo para sempre as mazelas da crueldade sofrida [p. 21]. 

 

Conclusão

Com base na análise apresentada, pode-se concluir que "A Guerra da Papoula", de R.F. Kuang, deixa de ser apenas uma alta fantasia para se qualificar como uma obra de denúncia histórica e memória cultural. A autora, valendo-se de sua formação acadêmica e de sua própria experiência como membro da diáspora chinesa, não apenas constrói um mundo fictício, mas o faz a partir de um diálogo com a realidade histórica.

 

A abordagem de Kuang, ao humanizar agentes históricos e dar voz às vítimas através de personagens como a Sring Venka, desvela a crueldade de sistemas como o da escravidão sexual, traçando um paralelo direto com os relatos de sobreviventes reais. A autora utiliza a literatura como um espaço para processar a história e denunciar a violência sistêmica. Desse modo, Kuang se consolida, já em seu primeiro livro, como uma escritora que consegue unir a ficção e realidade de forma que sua narrativa se torna um instrumento de reflexão sobre como as atrocidades do passado ecoam no presente.

 

Referências

Alice Mikos Tigrinho é graduanda em História — licenciatura, pela Universidade Federal do Paraná [UFPR]. Integrante do grupo PET História UFPR, desde de 2022, onde atuou como bolsista até o ano de 2025. Participa do Laboratório de Investigação em Corpo, Gênero e Subjetividade na Educação e Grupo de Estudos Africano e Asiáticos, ambos ligados ao Programa de Pós-Graduação em História da UFPR. E-mail: alicemtigrinho@gmail.com Lattes: http://lattes.cnpq.br/7629528649119344

 

ADENIYI, Ifeoluwa; KUANG, Rebecca F. Construção de mundos especulativos como um prisma refrator: uma entrevista com Rebecca F. Kuang. American Studies , v. 60, n. 3, p. 119-126, 2021.

 

BAILLIOT, Magali. O Massacre de Nanquim: Um episódio terrível na guerra sino-japonesa. Editora 50MINUTES.com, 2023.

 

Comfort Women Justice Coalition. CURRICULUM AND RESOURCES FOR “COMFORT WOMEN” DUCATION. 2018. disponível em: http://www.ComfortWomenEducation.org

 

KUANG, Rebeca F. A Guerra da Papoula. Intrínseca. Rio de Janeiro. 2022.

 

MARTINS, Ádria Luyse do Amaral. ESTUPRO DE GUERRA: a violação do corpo da mulher como arma contra o inimigo e a transgressão ao Direito de Desenvolvimento Feminino. Trabalho de Curso, apresentado como requisito parcial para obtenção de grau em Bacharel em Direito do Centro Universitário do Estado do Pará (CESUPA). Belém. 2019 

 

NUNES, Simone Henz. As atrocidades da Segunda Guerra Sino-Japonesa: o caso das “mulheres conforto”(1932-1945). Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado como requisito parcial para obtenção do título de Licenciado em História, pelo Curso de Licenciatura em História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). São Leopoldo 2024.

 

ROLIM, Maria EQ. As “mulheres de conforto”: o corpo como território. Rio de Janeiro, 2018.

 

SILVA, Rodrigo Abrantes. O MASSACRE DE NANQUIM: Memória, História, Reconciliação. Trabalho de conclusão do curso de especialização Compreendendo o Mundo Contemporâneo, promovido pelo Departamento de História da PUCRS. Rio Grande do Sul. 2011

16 comentários:

  1. Seu texto é muito interessante! Acredito que possa, futuramente, dialogar e interligar com o livro "Herdeiras do Mar" de Mary Lynn Bracht, é um livro com narrativa sobre mulheres coreanas durante a ocupação japonesa e a protagonista central acaba se tornando "mulher de consolo".

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  2. Seu texto é muito interessante! Acredito que possa, futuramente, dialogar e interligar com o livro "Herdeiras do Mar" de Mary Lynn Bracht, é um livro com narrativa sobre mulheres coreanas durante a ocupação japonesa e a protagonista central acaba se tornando "mulher de consolo". Para abordar e se aprofundar no contexto de mulheres de conforto você baseou-se somente no primeiro livro da trilogia? Ou pretende futuramente abordar nos outros livros? Lembro que é pouco abordado em A República do Dragão, mas mesmo sem utilizar o termo "mulheres de conforto" conseguimos observar as consequências de guerras que as mulheres sofriam. Hellen Dhara Lins de Sousa Costa Silva

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    1. Muito obrigada pelo comentário, Dharla. Sim, eu usei apenas o primeiro livro por ser um ensaio pequeno. Mas planejo utilizar toda a triologia para tentar entender como a os acontecimentos da guerra sino-japonesa ainda ressoam nos descendentes de vítimas/sobreviventes e na memoria nacional. Desta forma, pretendendo expandir para outros crimes de guerra além da escravidão sexual

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  3. Não conhecia a obra que você tornou fonte, achei muito interessante. Trata-se de uma parte de seu trabalho na graduação? se sim, fiquei interessado em saber mais sobre como tem trabalhado isso dentro de uma monografia.

    Acho pertinente também que você busque, caso tenha desejo de continuar no tema, grupos como por exemplo o GEHISLIT que é composto por pessoas que se interessam justamente por questões que relacionam História e Literatura com o intuito de ampliar seu horizonte de problemáticas possíveis num futuro acadêmico.

    Victor Hugo de Mattos Trindade

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    1. Muito obrigada pela dica e comentário!
      Não é meu trabalho da graduação, mas pretendo seguir com esse tema para o mestrado, apenas vou ampliar o tema pegando outros crimes de guerra que aparecem durante o livro e focar na parte de trauma geracional. Mas tudo ainda está no mundo das ideias...

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  4. Muito interessante a análise feita para poder criar a reflexão sobre os ataques brutais do Japão. Mas, fiquei com uma dúvida, houve algum motivo para os relatos da violência demorarem tanto para serem divulgados? Ocorreram 40 anos depois, por uma sul-coreana. Era devido ao trauma ou realmente era algo difícil de ser acessado?

    Alisson Trindade Lima

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    1. Obrigada pelo comentário! Ainda não tenho leituras o suficiente por ser uma assunto extremamente complexo.
      Os relatos demoraram para serem divulgados por diversos motivos, um deles sendo a construção social desses países -- que sofrerem com a ocupação japonesa, principalmente a China -- "culpabilizava" essas mulheres, ou seja, elas cresceram dentro de um sistema patriarcal que as colocava como facilitadoras dessas violências e impedia que elas falassem sobre suas experiencias por conta do machismo e culpa que elas carregavam. Muitas dela, relatam que ao voltarem para suas casas eram recebidas com certa rejeição sendo direcionadas a não comentar sobre o assunto.

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  5. CAMILLY EVELYN OLIVEIRA MACIEL8 de julho de 2026 às 20:50

    Olá, parabéns pelo texto! Também pesquiso sobre o caso das “mulheres de conforto”, mas ainda não li a obra da Kuang. Vi que já recomendaram para você o livro "Herdeiras do Mar" de Mary Lynn Bracht, outra recomendação é a HQ “Grama” de Keum Suk Gendry Kim, este não é ficcional, é baseado no caso da sobrevivente Lee Ok Sun.
    Para além da personagem Sring Venka, há outras personagens no livro inspiradas nas “mulheres de conforto”?

    Camilly Evelyn Oliveira Maciel

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    1. Obrigada pelas indicações!!
      Dentro da primeiro livro Venka é a única a ser retratada como uma "mulher de conforto", a personagem é literalmente a representação de todas as violências que essas mulheres sofreram. Ao longa dos outros livros percebe-se outros tipos de violência sofrido por mulheres durante a guerra.

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  6. Parabéns pelo texto, Alice, é corajoso trazer um tema tão difícil quanto a escravidão sexual militar e fazê-lo com o cuidado que você demonstra, e achei certeiro o gesto de logo abrir marcando que “mulheres de conforto” é um eufemismo que encobre o que de fato foi. Gostei especialmente do momento em que você aproxima o testemunho da personagem Venka do depoimento de uma sobrevivente real, é uma justaposição que rende muito. Foi justamente aí que fiquei curioso: Kuang escolhe contar Nanquim através da alta fantasia, rebatizando os lugares e as nações, e ela própria chama o livro de “fantasia de vingança”. Você acha que essa mediação pela fantasia, o passo do real para o inventado, faz algo de distinto com a memória da atrocidade, revelando o que um relato direto talvez não alcançasse, ou você a leria mais como um espelho fiel dos fatos? Fiquei pensando no que se ganha (e no que se arrisca) ao representar um massacre histórico por essa via.

    Alinie Nascimento

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    1. Muito obrigada pelo comentário!!!
      Em entrevista, Kuang diz que gosta de trabalhar com a fantasia e ficção justamente para trazer essa humanização aos fatos, ou seja, ela gosta de tentar imaginar e reproduzir como essa pessoas ficticias lidariam com algo não tão ficticio, dado que foi um acontecimento real.
      Logo, nos livros da Kuang, eu percebo um cuidado a mais ao tentar retratar essas violências e traumas do passado. Ela não escreve para ser algo fiel, mas sim para causar idententificação e transumanar suas histórias com o leitor

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  7. Rodrigo Kmiecik Passos9 de julho de 2026 às 15:06

    Alice,

    Sua fonte lida com uma especificidade de gênero literário, que é a fantasia, um tipo de literatura que sempre foi muito engajado a discutir problemas históricos, traumas e temores em relação ao futuro (este último mais no caso da ficção científica). No caso de Kuang, ela opta por explorar um passado traumático, em vez de futuros distópicos ou histórias alternativas. Nesse sentido, queria perguntar: na sua visão, por que será que Kuang opa pela fantasia em vez do romance histórico? Na sua leitura da obra, que elementos fantásticos você considera diferenciais na releitura literária que a autora faz dessas mulheres do passado, cujas dores são reais e perduram nas memórias das pessoas? Será que essa escolha modifica a forma como o leitor interpreta a violência narrada? Ademais, como sugestão, talvez seria interessante trazer atuores que discutam a questão da memória (como Aleida Assmann) e do trauma, e da relação destes com a ficção, para talvez aprofundar teoricamente algumas questões.

    att.,
    Rodrigo Kmiecik Passos

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    1. Muito obrigada pelo comentário.
      A própria autora diz em entrevista que gosta de trabalhar com a fantasia e a ficção como uma forma de representar o passado e traze-lo para que seu leitor consiga identificar e assimilar os acontecimentos do passado de forma mais empatica.
      O livro trata de outros acontecimentos que China sofreu durante esse período, como o massacre de Nanjing e a unidade 731. Porém, não se detém apenas as violências perpetradas pelo Japão Imperial, focando também na consequência da guerra do ópio (iniciada pela Inglaterra). A narrativa se inicia mostrando um país falido, com uma sociedade viciada em drogas, ópio principalmente, logo a autora se emprega dessa realidade e de outras questões culturias (como o uso de xamãs, elementos do taoismo e divindades) para a construção de um sistema mágico que se apropria de todos esses elementos.
      Então, na minha opinião, Kuang apenas escolheu a fantasia para conseguir construir um sistema de magia e um mundo que não caberia em um romance histórico.

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  8. Parabéns Alice. Textos como o seu são necessários para que possamos refletir sobre a forma como as mulheres foram e são tratadas em tempos de guerra como apresenta Kuang em sua trilogia. Ainda que a obra seja do gênero fantasia, proporciona reflexões, especialmente pela inspiração expressa pela autora em fatos relacionados aos embates entre Japão e China. Para além do romance, você já ponderou se debruçar sobre o gênero de Histórias em Quadrinhos (HQs), narrativa que se destaca na representação de aspectos sociais relevantes, do presente e do passado? Como por exemplo a HQ ou manhwa Grama de autoria de Keum Suk Gendry-Kim (sugerido inclusive em comentário anterior), que retrata a vida da ativista Ok-sun Lee ao longo da ocupação colonial na Coreia, evidenciando também as "mulheres de conforto"?

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  9. Parabéns Alice. Textos como o seu são necessários para que possamos refletir sobre a forma como as mulheres foram e são tratadas em tempos de guerra como apresenta Kuang em sua trilogia. Ainda que a obra seja do gênero fantasia, proporciona reflexões, especialmente pela inspiração expressa pela autora em fatos relacionados aos embates entre Japão e China. Para além do romance, você já ponderou se debruçar sobre o gênero de Histórias em Quadrinhos (HQs), narrativa que se destaca na representação de aspectos sociais relevantes, do presente e do passado? Como por exemplo a HQ ou manhwa Grama de autoria de Keum Suk Gendry-Kim (sugerido inclusive em comentário anterior), que retrata a vida da ativista Ok-sun Lee ao longo da ocupação colonial na Coreia, evidenciando também as "mulheres de conforto"?
    Elisabeth Mary de Carvalho Baptista

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    1. Obrigda pelo comentário
      Eu nunca pensei em ir para o gênero de quadrinhos, mas seria interessante comparar essas duas obras e como o trauma é retrada em gêneros tão distintos, mas que são comumente utilizados para denunciar diferentes tipos de violências. Talvez no futuro eu adicione Grama ao trabalho ou faça uma analise do quadrinho!!

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