A QUEDA DA DINASTIA QING: UMA APRECIAÇÃO TEÓRICA por Kamila Czepula

 

Introdução

A dinastia Qing [1645-1911] constituiu a última casa imperial a governar a China antes do advento da Repúblia, atravessando um longo período histórico global. De origem estrangeira (Manchu), os Qing fundaram um Estado rico, próspero e poderoso por séculos, mas caíram em um longo e paulatino processo de desagregação que solapou por completo sua existência – e a própria ideia de imperialidade chinesa. Em nosso breve texto, ensejamos apresentar algumas discussões sobre esse tema, ainda pouco conhecido do público brasileiro, e finalizar com uma perspectiva chinesa atual, buscando dar voz a essa historiografia sobre seus próprios problemas historiográficos.

 

Um problema teórico ocidental?

Embora o colapso da dinastia Qing seja histórico e evidente, muitas das discussões que permeiam as explicações de sua queda foram buscadas por intelectuais ocidentais. Permeando esse debate, estava a busca de um modelo histórico explicativo que servisse, essencialmente, a ideia de ‘leis do desenvolvimento histórico’, questão essencial nos debates europeus na virada do século 19 e 20. O fim da imperialidade, a criação da república e a tomada do poder pelos comunistas em 1949 representam fenômenos de difícil explicação, que parecem conectados a um longo processo histórico, complexo em suas fases e nuances. Nesse sentido, alguns pontos são considerados unânimes e referenciais: a decadência econômica, a ineficiência burocrática, as crises e revoltas internas, o atraso tecnológico e as pressões ocidentais sobre o governo tornaram a sustentação dos Qing um processo inviável. Contudo, cumpre observar as movimentações internas da sociedade chinesa, que tornaram esse processo de transformação um modelo bastante específico dentre as revoluções mundiais.

 

Gostaríamos de começar pelo excelente texto ‘A Ascensão da China’, de Maurício Carvalho Lyrio (2010). Em sua primeira parte, o autor examina o chamado “enigma do declínio chinês”, ou seja, como uma civilização que por séculos foi a mais avançada do mundo em termos econômicos, tecnológicos e culturais, mas entrou em decadência e se tornou, no século 19, uma nação fragilizada diante do Ocidente. Lyrio apresenta diferentes interpretações de historiadores e sociólogos para explicar esse processo, destacando como cada um identifica fatores estruturais, culturais ou políticos que contribuíram para a perda de dinamismo da China.

 

Entre os principais autores citados está John King Fairbank (2006), que ressalta a superioridade da China em relação a Roma e à Europa medieval, lembrando que invenções como pólvora, imprensa e bússola surgiram primeiro na China. Para Fairbank, o declínio decorreu da hipertrofia demográfica, que levou à valorização do trabalho humano em detrimento da mecanização, além da rigidez autocrática e do conservadorismo confuciano, que desprezava o comércio e o lucro. Em contrapartida, Will Durant (1935) também via a civilização chinesa como superior, destacando sua organização social, moral e filosófica, mas reconhecia que essa grandeza não impediu a decadência em função da estagnação tecnológica, econômica e política. Durant, de certa forma, reproduzia a ideia de que a dinastia caiu como todas as outras na história chinesa. Sinólogos mais recentes como Albert Feuerwerker (1990) e Jonathan Spence (1990) reforçaram a ideia de que até o século 16 a China era incomparável em produtividade e sofisticação, mas que perdeu terreno com a Revolução Industrial europeia. Teria sido a virada tecnológica, no século 19, o ponto de inflexão na nova ordem mundial. Apesar da China preservar sua independência, ela teve que ceder a diversos acordos desiguais, colocando-se numa situação humilhante. De acordo com esses autores, a China Qing poderia ser autossuficiente, mas não podia resistir aos influxos do capitalismo moderno, que abalaram profundamente seus pilares produtivos e sua participação na economia mundial.  

 

Noutro sentido, autores como Jared Diamond (1999) enfatizam fatores políticos e geográficos. Ele argumentou que a centralização precoce da China, embora inicialmente vantajosa, acabou por sufocar a inovação, já que decisões de um único governante podiam paralisar avanços tecnológicos, como ocorreu com a interrupção das expedições marítimas em 1433. Em contraste, a fragmentação europeia estimulava competição e inovação. Paul Kennedy (1988) seguiu linha semelhante, destacando como rivalidades europeias geraram uma “espiral ascendente” de progresso militar e econômico, enquanto a uniformidade chinesa limitava o desenvolvimento.

 

Já John Hall (1986) e Barrington Moore Jr. (1966) oferecem uma leitura sociológica: para eles, o problema não foi a força do Estado, mas sua captura pela burocracia confuciana e pela aristocracia agrária, que bloquearam o surgimento de uma classe mercantil autônoma e urbana. Hall considera que o Estado chinês era frágil e feudalizado, incapaz de promover dinamismo econômico, enquanto Moore Jr. aponta que o controle político da aristocracia fundiária manteve o país em condição pré-industrial. Essa visão se conecta à teoria de Mancur Olson (1984), segundo a qual sociedades estáveis tendem a se enrijecer por grupos de interesse que preservam privilégios em detrimento da inovação. No caso chinês, o mandarinato consolidou seus privilégios durante a estabilidade Ming, retardando escolhas econômicas e tecnológicas que poderiam evitar a decadência.

 

Em síntese, o texto de Lyrio nos traz um panorama teórico extenso sobre o declínio chinês, que não pode ser explicado por um único fator, mas por uma combinação de elementos: demografia, centralização política, conservadorismo ideológico, rigidez institucional e captura do Estado por elites. Essa diversidade de interpretações revela a complexidade do processo e ajuda a compreender como a China, que já foi a maior economia do mundo, perdeu protagonismo por séculos. Ao mesmo tempo, Lyrio sugere que esse passado ilumina o presente: hoje, a China reúne novamente condições materiais para ser uma grande potência, mas sua trajetória histórica mostra que escolhas políticas e sociais são decisivas para transformar potencial em êxito.

 

Todavia, é importante apontar uma questão premente nessas análises: em primeiro lugar, elas são de especialistas em economia ou mesmo em China (como caso de Fairbank), mas não de especialistas em dinastia Qing: segundo, elas partem de teorias e modelos ocidentais construídos a partir de leis históricas, cronológicas e macroculturais que não englobavam a China, mas foram transplantadas para ela. Isso significa, na prática, que a construção desses modelos discute os efeitos e os sintomas em busca de um diagnóstico, mas não necessariamente tinham pleno acesso as causas os condições que construíram esse panorama.

 

Ouvindo os sinólogos

Análises mais recentes sobre a crise Qing buscam aprofundar esse panorama, construindo pesquisas que fundem teorias ocidentais, chinesas e uma leitura mais direta das próprias fontes e documentos Qing. É possível observar que, a par da busca de uma ou outra questão que se sobreponha, esses novos trabalhos conseguem contemplar propostas mais abrangentes e complexas, afastando a história chinesa de buscas essencialistas ou simplificantes.

 

O primeiro deles é Daniel McMahon, no livro ‘Rethinking the Decline of China’s Qing Dynasty: Imperial Activism and Borderland Management at the Turn of the Nineteenth Century’ (2014). Nele, McMahon propõe uma revisão crítica da narrativa tradicional sobre o suposto declínio inevitável da dinastia Qing. Em vez de interpretar as revoltas e insurgências nas regiões fronteiriças como sinais de fraqueza e incapacidade governamental, McMahon argumenta que o Estado Qing respondeu de forma ativa, inovadora e dinâmica. A obra mostra que, no início do século 19, o governo imperial não se limitou a pacificar e reconstruir áreas afetadas, mas promoveu reformas abrangentes que revelam vitalidade política e administrativa. Um ponto central do livro é a análise das Reformas Jiaqing de 1799, que impulsionaram uma ideologia reformista nacional, fortaleceram a educação administrativa voltada para a ação prática, desenvolveram oficiais especializados em fronteiras e promoveram a circulação de boas práticas de gestão entre diferentes regiões. Essas medidas demonstram que o regime Qing buscava adaptar-se às circunstâncias difíceis e mutáveis, e que sua cultura política era capaz de enfrentar desafios contemporâneos. McMahon enfatiza que o Estado Qing não estava em colapso automático, mas sim engajado em processos de reconfiguração e modernização administrativa, especialmente nas áreas de fronteira, onde insurgências como a Rebelião do Lótus Branco exigiam respostas complexas. Por fim, McMahon defende que o declínio da dinastia Qing não deve ser visto como linear ou inevitável, mas como resultado de tensões entre esforços reformistas internos e pressões externas crescentes. O século 19 seria o grande momento de inflexão deste sistema, principalmente depois das Guerras do Ópio.

 

Em contrapartida, o livro ‘Uncertainty in the Empire of Routine: The Administrative Revolution of the Eighteenth-Century Qing State’ (2022), de Maura Dykstra, analisa como a dinastia Qing, ao longo do século 18, promoveu uma transformação silenciosa e profunda em sua burocracia, baseada na padronização de relatórios, prazos e rotinas administrativas, que acabou constituindo uma verdadeira “revolução administrativa”; o objetivo inicial era fortalecer o controle do centro sobre as províncias e garantir maior previsibilidade no funcionamento do Estado, mas o resultado foi paradoxal, pois quanto mais informações circulavam entre autoridades locais e o governo central, mais problemas eram revelados — corrupção, negligência, colusão — e isso alimentava uma sensação crescente de crise e declínio, mesmo em um momento de robustez institucional; Dykstra mostra que pequenas mudanças acumuladas, como a exigência de relatórios detalhados e a “casificação” (criação de casos, processos) de cada problema em registros formais, criaram uma burocracia obcecada por papéis e dados, redefinindo as bases epistemológicas do Estado Qing, mas também gerando o que ela chama de “armadilha da informação”, em que o excesso de dados não produzia confiança, mas incerteza; ao longo do reinado de Qianlong (1735–1796), essa dinâmica se intensificou, levando à convicção de que a dinastia estava em decadência, mesmo quando sua capacidade administrativa era mais sofisticada do que nunca. Dykstra, portanto, contribui para repensar a história do Estado Qing, mostrando que não se tratava de uma burocracia estática, mas de um sistema em constante transformação, e dialoga com debates mais amplos sobre governança e burocracia, revelando que a coleta massiva de informações pode fragilizar em vez de fortalecer o poder central; em síntese, a autora demonstra que a revolução administrativa do século 18, baseada na rotina e na padronização, foi tanto solução quanto problema, pois ao mesmo tempo que ampliou o controle estatal, produziu incerteza e ansiedade, oferecendo uma reflexão relevante para compreender não apenas o passado chinês, mas também os dilemas contemporâneos de Estados que lidam com excesso de dados e complexidade administrativa.

 

Já André Bueno, em seu texto “Educação, Confucionismo e as Crises Chinesas” (2023) discute como o confucionismo moldou profundamente a estrutura social e política da China, especialmente através da educação e da burocracia, e como esse legado esteve ligado tanto ao florescimento quanto às crises históricas do país. O confucionismo, ao valorizar a ordem, a hierarquia e a moralidade, criou um sistema educacional voltado para a formação de elites letradas que, por meio dos exames imperiais, garantiam acesso ao poder e à administração estatal. Esse modelo produziu estabilidade e coesão durante séculos, mas também gerou rigidez e resistência a mudanças, já que o foco estava na repetição dos clássicos e na preservação da tradição, em detrimento da inovação científica ou tecnológica. O texto mostra que, em momentos de crise, como durante o declínio da dinastia Qing, essa estrutura educacional e ideológica contribuiu para a incapacidade de adaptação diante das pressões externas e internas, reforçando a fragilidade do Estado. Ao mesmo tempo, ressalta que o confucionismo não deve ser visto apenas como obstáculo: ele também forneceu uma base ética e institucional que permitiu à China manter sua unidade por longos períodos. A análise evidencia o paradoxo central: a educação confuciana foi ao mesmo tempo motor de estabilidade e causa de estagnação, criando elites comprometidas com a ordem mas pouco abertas à transformação. Assim, o texto sugere que compreender a relação entre confucionismo, educação e crises é fundamental para entender tanto o passado quanto os dilemas contemporâneos da China, que ainda lida com o legado dessa tradição na busca por modernização e desenvolvimento.

 

Como podemos notar, a nova geração de autores repensa a dinastia Qing não como uma entidade imperial decadentista, mas como um governo que, como tantos outros, teve momentos de poder e depois, de fragilização. Uma combinação de fatores internos e externos formou um panorama de crise que tornou impraticável a continuidade do Estado – e diante disso, alternativas e modelos estrangeiros foram buscados para reconstruir o país, experiência que a China já vivenciara em outros momentos históricos do passado.

 

E a visão dos chineses?

Até aqui, apresentamos as discussões empreendias por autores ocidentais; mas e os chineses, o que pensam sobre isso? É necessário dizer que não há uma única resposta, e a academia chinesa é profícua na produção de debates e teorias sobre esse tema. Contudo, gostaríamos de apresentar o texto de Zhu Hu, que sintetiza de forma excelente algumas destas questões tais como são colocadas no ambiente acadêmico chinês, e que revelam para nós algumas direções sobre esse debate na própria China.

 

Seu artigo, intitulado “盛衰之理: 关于清朝嘉道变局性质的不同阐释及其反思” [A lógica do auge e do declínio: diferentes interpretações e reflexões sobre a natureza da transição Jia-Dao da dinastia Qing], discute como a historiografia chinesa e internacional interpretou o período das dinastias Jiaqing (1796–1820) e Daoguang (1820–1850), tradicionalmente visto como a transição da prosperidade para o declínio da dinastia Qing. O autor identifica três grandes modelos explicativos que marcaram os estudos sobre esse período e reflete sobre suas limitações, propondo novas perspectivas.

 

O primeiro modelo é o da “visão de ciclo dinástico”, que entende o período como parte da lógica tradicional de ascensão, auge e declínio dos impérios chineses. Desde o início do século XX, muitos historiadores classificaram Jiaqing e Daoguang como a fase de “meio declínio” (zhongshuai), marcada por corrupção, crises fiscais, rebeliões internas e pressões externas. Essa abordagem, embora influente, tende a reduzir a complexidade histórica a uma narrativa repetitiva de decadência inevitável. É a armadilha de pensar (e aceitar) os ciclos dinásticos como incontornáveis e fatais, reproduzindo um mecanismo da historiografia tradicional chinesa.

 

O segundo modelo seria a “visão de desenvolvimento das formas sociais”, predominante na historiografia marxista chinesa após 1949. Aqui, o período é interpretado como expressão da desintegração do feudalismo e do surgimento de elementos capitalistas. A intensificação da concentração de terras, o empobrecimento dos camponeses, a corrupção administrativa e as revoltas populares seriam sinais de que a velha ordem estava em colapso. Essa leitura enfatiza contradições de classe e mudanças estruturais, mas muitas vezes simplifica a diversidade das dinâmicas sociais. Fica claro, para Zhu Hu, que a própria visão marxista chinesa buscava, num primeiro momento, adequar sua reinterpretação da história dentro de parâmetros marxistas ocidentais; depois, num segundo momento, a história foi reescrita já dentro de um padrão marxista-chinês (ou, Maoísta), que resignificou muitas das ideias marxistas dentro de uma cosmovisão sínica. Termos como ‘império escravagista feudal’ só existem na história chinesa, e respondiam, principalmente na década de 1950 e 1960, a um desejo de se inserir numa cronologia mundial. Contudo, autores marxistas mais atuais revisaram essa ideia, pretendendo definir a cronologia chinesa de forma autônoma, e redimensionando a compreensão do papel chinês na economia mundial no século 19 e 20.

 

O terceiro modelo seria o da “visão de transição da sociedade tradicional”, que ganhou força a partir das décadas de 1980 e 1990. Ele vê o período como o início da transformação da China em direção à modernidade, marcada pela incapacidade da ordem tradicional de sustentar-se diante de novas pressões internas e externas. Segundo Zhu, diversos autores destacaram que rebeliões, militarização e mudanças sociais entre 1796 e 1864 revelavam não apenas decadência, mas também o início de uma transição estrutural, marcando a inserção da China numa dimensão globalizada.

 

Por fim, Zhu Hu argumenta que, embora cada modelo tenha contribuído para a compreensão do período, todos apresentam limitações epistemológicas: o ciclo dinástico é excessivamente determinista, a visão marxista tende a reduzir a história a categorias rígidas de modo de produção, e a perspectiva da transição tradicional corre o risco de projetar retrospectivamente a modernidade sobre o passado. Para superar essas limitações, Zhu propõe uma abordagem baseada na história social prática, que busca integrar diferentes dimensões — política, econômica, cultural e social — e compreender os processos de mudança em sua complexidade concreta. Isso implica redefinir os critérios para identificar o “declínio”, evitar fragmentação temática e reconhecer o valor do período Jiaqing-Daoguang como objeto autônomo de estudo, não apenas como apêndice da “era de ouro” Qing ou prelúdio da crise do século 19. O chamado “período Jia-Dao” não deve ser visto apenas como uma fase de decadência, mas como um momento crucial de transformação, em que se revelam tanto os limites da ordem imperial quanto as sementes de novas dinâmicas sociais. A reflexão de Zhu Hu convida a repensar metodologias e categorias, propondo uma visão mais integrada e menos teleológica da história chinesa.

 

Conclusão

Como podemos notar, o texto de Zhu Hu nos leva a repensar os problemas na escrita histórica quando esta é aplicada à China. Se por um lado nossos modelos e paradigmas constroem uma base instrumental relativamente sólida para efetuar pesquisas, por outro, o caso chinês nos apresenta questões inéditas, que não podem ser simplificadas, e que requisitam uma nova abordagem epistêmica. Mesmo temporalmente tão próxima, a dinastia Qing constitui um problema histórico complexo, de longa duração, que escapa mesmo as nossas compartimentações cronológicas e conjunturais tradicionais. Por outro lado, elas ensejam uma reescrita histórica global, no qual a China e a Ásia desempenham um papel crucial nas transformações mundiais.

 

Referências

Kamila Czepula é doutora em História pela UFRRJ.

 

BUENO, ANDRÉ. Educação, Confucionismo e crises chinesas na virada dos séculos 19-20. In: ASSUMPÇÂO, Luis Filipe; FORNIS, Cesar; CAMPOS, Carlos Eduardo; MONTEIRO, Angelo. (Org.). Encontros Transatlânticos Diálogos Interinstitucionais em História, Patrimônio Cultural e Educação. 1ed.Vassouras: Editora Universidade de Vassouras, 2023, v. , p. 117-134.

 

DIAMOND, Jared. Guns, Germs and Steel: The Fate of Human Societies. New York: W.W. Norton & Company, 1999.

 

DURANT, Will. The Story of Civilization. Volume I: Our Oriental Heritage. New York: MJF Books, 1935.

 

DYKSTRA, Maura. Uncertainty in the Empire of Routine: The Administrative Revolution of the Eighteenth-Century Qing State. Cambridge: Harvard University Press, 2022.

 

FAIRBANK, John King. China: A New History. Cambridge: Harvard University Press, 2006.

 

FEUERWERKER, Albert. “Chinese Economic History in Comparative Perspective”. In: ROPP, Paul (ed.). Heritage of China: Contemporary Perspectives on Chinese Civilization. Berkeley: University of California Press, 1990. p. 224-241.

 

HALL, John. Power & Liberties: The Causes and Consequences of the Rise of the West. London: Penguin Books, 1986.

 

KENNEDY, Paul. The Rise and Fall of the Great Powers. Londres: Unwin Hyman, 1988.

 

LYRIO, Mauricio. A ascensão da China como potência: fundamentos políticos internos. Brasília : FUNAG, 2010

 

MCMAHON, Daniel. Rethinking the Decline of China's Qing Dynasty: Imperial Activism and Borderland Management at the Turn of the Nineteenth Century.London: Routledge, 2014.

 

MOORE Jr., Barrington. Social Origins of Dictatorship and Democracy. New York: Penguin, 1966.

 

OLSON, Mancur. The Rise and Decline of Nations: Economic Growth, Stagflation, and Social Rigidities. New Haven: Yale University Press, 1984.

 

SPENCE, Jonathan. The Search for Modern China. New York: Norton, 1990.

 

ZHU, Hu. 盛衰之理: 关于清朝嘉道变局性质的不同阐释及其反思. [A lógica do auge e do declínio: diferentes interpretações e reflexões sobre a natureza da transição Jia-Dao da dinastia Qing]. 史学理论研究 [Estudos de Teoria Historiográfica] n. 2, p. 89–95, 2021.

10 comentários:

  1. Obrigado pelo texto, Kamila. Tenho pensado bastante no que constitui o desenvolvimento enquanto um problema historiográfico, especialmente mirando a contestação de seu proceder inevitável baseado na trajetória da modernidade ocidental. Minha questão vai ao encontro disto. Eu achei interessante que você trouxe algumas referências que trazem especificamente uma releitura da burocracia chinesa no período porque parecem estar em um diálogo bem acirrado com a tese do Fairbank da incapacidade da corte chinesa se adaptar para lidar com os estrangeiros vindos da fronteira sul e não da "tradicional" fronteira norte. A isso, Fairbank credita a estagnação da tradição confucionista. Mas em que medida eficiência burocrática implica em desenvolvimento ou prosperidade? Uma corrente que não apareceu no texto que auxiliaria na controvérsia é justamente a Escola da Califórnia e as respostas a ela. Roy Bin Wong e Kenneth Pommeranz pertencentes a ela, Philip C. C. Huang na contestação e Li Bozhong com uma leitura interessantíssima da vida econômica chinesa do período são referenciais interessantes para expandir o debate e problematizar a tese do declínio necessário de uma civilização estagnada que inevitavelmente levaria à modernização. Li em especial vai de encontro a algumas teses levantadas como a do desenvolvimento tecnológico associado à condição bélica particular à Europa e à noção de estagnação econômica no período anterior a 1850 em Jiangnan.

    Matheus Mazurkievicz Sekikawa

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    1. Caro Matheus, obrigado por sua pergunta e colocações. De fato, este texto se trata de um bosquejo sobre algumas das teorias mais conhecidas, e nosso objetivo foi demonstrar, ao final, que muitas dessas concepções ainda são dominadas, de certa forma, por ideias orientalistas e/ou modelos de 'leis da história' com os quais temos que lidar com muito cuidado. Algumas delas, em particular, são muito limitadas, e careciam de dados aprofundados e documentos, além de partir de uma episteme desenvolvimentista ocidental (como é o problema em relação a burocracia, por exemplo). Vou conferir as sugestões colocadas, e agradeço novamente pelas ponderações.
      Kamila Czepula

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  2. Ótimo texto. É muito importante fugir do estilo comum de pesquisa e estudos que há no ocidente para tentar enxergar outros detalhes diante das fontes. Contudo, fiquei confuso com certo aspecto. De acordo com Maura Dykstra, houve uma reforma administrativa que potencializou uma incerteza em informações devido o tanto de números que apareciam para as pessoas e que revelavam cada vez mais os problemas sobre a sociedade naquele momento. Entretanto, tendo em vista o que André Bueno apresenta, a educação era muito fechada e havia uma elite muito rígida e fechada. Como ocorre a disseminação de informações para as classes populares sendo que, ao menos de acordo com Bruno Motta em seu trabalho de conclusão de curso sobre Lu Xun, a população não tinha tanto acesso ao mandarim, sendo necessário a criação de um mandarim simplificado a partir da década de 20? Era divulgado de forma oral? Se sim, como?

    Alisson Trindade Lima

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    1. Oi Alisson, agradeço pela pergunta. Entendo que os textos de Dykstra e Bueno se encontram em um problema comum: havia educação disponível, e que permitia alguma mobilidade social em direção à burocracia. A questão central eram os conteúdos e o programa; a educação Qing se tornou atrasada, repetitiva, conteúdista, com um apagamento da criticidade. Ou seja: ela preparava 'bons seguidores de ordens', mas não necessariamente quadros que pudessem encarar os desafios que estavam por vir no século 19. A burocracia tornou-se boa em reprimir os chineses, mas incapaz de defender a China. No mais, o projeto de reforma de mandarim no século 20 visou ampliar o acesso a educação e a participação política dentro de novos moldes. O chinês usado pela burocracia se revelara pouco adequado a conjuntura rápida da modernidade. Isso não significa, contudo, que não houvessem escolas abertas e meios para participar da governança no tempo do império: mas eles eram bem menor, em número, do que a China iria conhecer depois, principalmente a partir de 1950.
      Kamila Czepula

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  3. Uma pergunta mais simples, mas que me deixou curioso. A senhora titula o último tópico como ''visão dos chineses'', mas contém apenas o artigo de um. Não houve como colocar mais visões nesse texto? Se sim ou se não, queria saber se há recomendações de outros que tratem sobre o império Qing.

    Alisson Trindade Lima

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    1. Caro Alisson, como coloquei no texto, o debate é amplo na China, e indiquei Zhu Mu por condensar alguns dos problemas e críticas que permeiam essas discussões. Nesse caso, você se refere a materiais em chinês ou traduzidos da China? =)
      Kamila Czepula

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  4. Parabéns pelo texto, Kamila — é uma síntese rara pela generosidade em dar espaço à historiografia em língua chinesa (o Zhu Hu), algo a que quase não temos acesso por aqui. Achei especialmente feliz o arco que desloca a questão das “leis da história” para uma leitura mais atenta às dinâmicas internas do próprio período Qing, com McMahon e Dykstra. Fiquei pensando numa possível ponte: a chamada Escola da Califórnia (Pomeranz, Bin Wong, Li Bozhong) trabalhou justamente para dissolver a narrativa de estagnação/declínio no registro econômico, e me parece que poderia dialogar de perto com a “história social prática” que o Zhu Hu propõe. Você vê convergência entre essas duas frentes, ou elas partem de pressupostos difíceis de conciliar?

    Robson Lins Souza Damásio de Oliveira

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    1. Caro Robson, obrigado pela pergunta! Uma questão que fica clara é que, apesar dos estudos que mostram que a dinastia Qing estava longe de ser um dinastia 'decadente' - isto é, em crise perene desde o século 18 -, a partir principalmente da segunda metade do século 19, após as Guerras do Ópio, o império entra numa espiral de fragmentação e descontrole. Penso que é aqui que Zhu lança um olhar crítico chinês importante na ponderação sobre as teorias ocidentais. Podemos revisar os aspectos econômicos, mas não é só isso; podemos também pensar na questão política, mas não é só isso, e assim seguimos. Seu texto é uma proposta/alerta no sentido de contemplar uma cosmovisão das causas de um declínio evidente (já que depois de Qing, a China virou uma república), mas tentando escapar das armadilhas de uma teoria unívoca. Nesse sentido, a colocação que você fez é bem pertinente: Zhu consegue se aproximar das teorias da escola californiana, mas mantém também um distanciamento em termos de modelo histórico. =)
      Foi uma pergunta instigante, obrigada!
      Kamila Czepula

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  5. Gostei muito do texto, Kamila. Foi muito enriquecedor ter contato com tantas perspectivas diferentes, sobretudo a chinesa, que não é algo comum, principalmente no Brasil. Durante a leitura, pensei muito sobre as revoltas do século XIX — sobretudo a Rebelião Taiping — e suas interpretações historiográficas. Sei que alguns autores, como a Pamela Crossley, apresentaram alguns trabalhos que exploram a questão étnica durante o período Qing e como isso catalisou vários desses conflitos internos. Fiquei curioso em saber se a questão étnica durante a crise dos Qing tem ganhado mais espaço nos debates da historiografia chinesa contemporânea.

    Arthur Bertolo Pazeto

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    1. Caro Arthur, obrigado pela pergunta! Sim, no amplo quadro de crises que permeiam o final dos Qing, a questão étnica é fulcral, já que os Qing eram estrangeiros na China... então, os movimento sociais e étnicos catalisam vários dos sentimentos relativos ao problema da dominação estrangeira na país, para além das questões políticas e econômicas que assolavam a sociedade.
      Obrigada!
      Kamila Czepula

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