A MISSÃO DO MADURAI NA ÍNDIA: UMA REFLEXÃO SOBRE O CASO DO CATEQUISTA JAPANADA (SÉCULO XVII) por Alexandre Cabús

 

Introdução

A atuação jesuítica no subcontinente indiano desenvolveu-se, de maneira geral, sob duas formas distintas. Aquelas regiões que estavam sob os auspícios do controle formal do Padroado Português no Oriente gozavam de apoio militar e, por conseguinte, contavam com a coerção como ferramenta de conversão dos nativos ao catolicismo. Por outro lado, havia um setor privado composto por um conjunto de estabelecimentos fundados por homens que, tendo deixado o serviço militar ou administrativo do Estado da Índia, integravam o comércio e as políticas locais, o que contribuiu significativamente para a expansão da presença portuguesa na região. Em termos teóricos, estes agentes estariam subordinados à autoridade do vice-reinado, mas se movimentavam com um grande espaço de liberdade. Dessa forma, estabeleceu-se uma rede de interesses paralelos de natureza predominantemente comercial, denominado Shadow Empire ou Império das Sombras. A lógica deste comércio de apoio privado concentrava-se, sobretudo, nas atividades interasiáticas e na obtenção de apoios de autoridades regionais. O setor informal do Império foi um elemento dinâmico da presença portuguesa, com grande relevância em diversas regiões da Ásia (DIFFEI; WINNUS, 1977).

É evidente que o processo missionário se delimitou de maneiras muito específicas nas regiões fora do controle direto do Padroado Português, muito por não contarem com a força da espada para abrir os caminhos para a cruz. Nesse sentido, sobretudo nas regiões ao Sul da Índia, devido ao intenso contexto político caracterizado por guerras internas e externas aos reinos, muitos missionários fizeram uso de práticas que adaptassem o catolicismo aos costumes locais, buscando um certo grau de inserção na organização social por castas para que assim pudessem converter as populações “por dentro” de sua lógica, evitando grandes perseguições.

A região no entorno da cidade de Madurai, centro da cultura tâmil localizada no extremo sul da península indiana, enquadrava-se nesse cenário de presença informal do aparato imperial luso. Por configurar um grande polo cultural e religioso para os grupos residentes no sul do subcontinente, tal território ganhou centralidade na iniciativa missionária no primeiro quartel do século XVII. O espaço tornou-se palco de inovações e de amplos debates acerca de práticas evangelizadoras que visavam superar as dificuldades de contato impostas pelo sistema de castas (SALES, 2015).

O jesuíta italiano Roberto de Nobili merece destaque por ter sido o primeiro a elevar as metodologias adaptativas ao extremo na região do Madurai, tornando-se um brâmane sanyasi, asceta caracterizado por um estado extremo de abnegação, com o objetivo de converter as elites locais. Para que isso fosse possível, o jesuíta abandonou o uso do português, adotou as vestimentas e o corte de cabelo característicos da casta, além de se recusar a manter contatos com aqueles que eram conhecidos como paranguis, termo utilizado para caracterizar europeus, sobretudo portugueses, que por conta de seus hábitos que conflitavam com as normas de pureza locais, eram considerados intocáveis (AGNOLIN, 2020).

No decorrer do século XVII, as práticas adaptativas se reajustaram constantemente na região do Madurai, ao passo que o corpo missionário foi renovado por membros formados em contextos mais propícios para sua utilização. Neste sentido, Sales (2015) chama atenção não somente para os padres brâmanes, ou sanyasi, como Roberto de Nobili, mas também para os jesuítas que atuaram como padres pandares ou belalas que passaram a integrar o corpo de membros da Companhia. O tipo de estratégia seguida por estes inacianos se tornou decisiva para o progresso no território de maneira a ter menos resistência. Em 1640 iniciou-se oficialmente esta estratégia a partir da ação do jesuíta Baltazar da Costa, primeiro missionário a vestir-se como um pandar, estratégia direcionada especificamente às castas mais baixas, mas que não representava risco ao descumprimento das normas de pureza locais, podendo assim se relacionar também com as castas consideradas mais puras (CHAKRAVARTI, 2014).

O caso de Japanada

O financiamento da Província do Malabar, jurisdição que abarcava a Missão do Madurai, à semelhança do que ocorria nas demais províncias sob a tutela do Padroado Português, realizava-se por vias distintas e complementares entre si. As rendas oriundas da Coroa portuguesa, as chamadas ordinárias, exerciam papel fundamental nos territórios em que o monarca detinha o padroado. Entretanto, atrasos e inconsistências nos repasses de tais verbas eram comuns, sendo frequentes os relatos dos padres jesuítas acerca da escassez de recursos destinados pelos oficiais régios ao contingente missionário e aos colégios (SALES, 2015)

Esse cenário manifesta-se ao longo da década de 1660 nas queixas dos padres de Travancor sobre as dificuldades de subsistência decorrentes da carência de meios, agravada pela redução de mil-réis no orçamento das ordinárias régias. Os próprios problemas financeiros da Província Jesuítica do Malabar espelhavam o contexto de retração portuguesa diante das disputas entre os diferentes agentes europeus e asiáticos. Como aponta Sales (2015), o orçamento dedicado à missão era muitas vezes percebido pela administração colonial como um impeditivo para a manutenção do aparato militar.

Em contextos como os que compreendiam os territórios da Missão de Madurai, em que o corpo missionário era consideravelmente diminuto se comparado à extensão geográfica sob o cuidado de cada jesuíta, fazia-se indispensável a atuação de catequistas que, na ausência dos padres, atuavam como representantes da Igreja naquelas comunidades. As fontes revelam que o sustento desses catequistas provinha da própria arrecadação interna das comunidades em que estavam inseridos; por conseguinte, a falta de verba é apontada como o fator essencial para a dificuldade de estabelecer novos catequistas e, por extensão, de ampliar as fronteiras da missão.

A última metade do século XVII representou um período de retração do empreendimento missionário jesuítico na Província do Malabar. A intensificação das disputas locais originadas com a dissolução de Vijayanagara, o estabelecimento de outras ordens missionárias, a crescente ação protestante e a perda da capital da dita província através da iniciativa holandesa são apontadas pela historiografia como possíveis causas dessa retração (SALES, 2015).

Contudo, a historiografia também salienta que a única missão da Província Jesuítica do Malabar situada no subcontinente indiano que apresentou algum tipo de crescimento no período foi a Missão do Madurai. Por mais curiosa que possa ser tal constatação, não existem esforços que busquem analisar as razões que levaram a Missão do Madurai a ser a única iniciativa jesuítica a demonstrar crescimento, seja em número de indivíduos convertidos, como em estabelecimentos erigidos (igrejas, capelas, santuários e outros), na parcela indiana da Província Jesuítica do Malabar (SALES, 2015).

Um caso específico que ilustra o contexto é o do catequista Japanada, cristão pária (setor mais baixo da organização em castas, em que seus indivíduos eram considerados intocáveis) morador da região da Serra. Em uma carta datada de 1683 que tinha como objetivo contestar algumas queixas direcionadas aos jesuítas pelos frades da Propaganda Fide, em especial o Frei Pedro Paulo, carmelita descalço, é relatado o caso de Japanada, catequista afastado da função pelos jesuítas por ser acusado de roubos. Como forma de retaliação, Japanada escreveu uma série de cartas endereçadas ao Frei Pedro Paulo se queixando da falta de cuidados dos padres pandares junto a cristandade da Serra, localizada no interior da região do Madurai. Ao visitar tal localidade a fim de averiguar a queixa, Pedro Paulo e Japanada são recebidos por diversos párias que saudaram o catequista como se este fosse um guru e diziam estar felizes por terem gurus de sua casta. O documento segue evidenciando que as demais castas negaram contato junto ao carmelita, uma vez que este se apresentou sem os trajes típicos dos padres pandares e teria tratado publicamente com as castas mais baixas. Este contexto gerou revolta do padre carmelita por acreditar que os jesuítas teriam sido os responsáveis em impedir o contato dele com os nativos, o que resultou em acusações formais junto a Santa Sé contra os missionários da Companhia de Jesus daquela região.

O caso de Japanada chama bastante atenção e aponta para o horizonte de possibilidades presente no esforço em analisar este tipo de relato. Em uma breve passagem é possível perceber como um indivíduo utilizou das diferentes estruturas simbólicas presentes em benefício próprio. Primeiro, atuando como catequista, Japanada era visto pelos indivíduos de sua casta como uma espécie de guru, o que lhe garantia prestígio junto ao seu grupo. Contudo, ao ver seu privilégio ameaçado, o catequista mostra entender do contexto missionário daquela região, apresentando críticas a Companhia de Jesus para os representantes da concorrência, os padres carmelitas que atuavam pela Propaganda Fide. Além disso, o ato de Japanada em acompanhar o Frei Pedro Paulo e não o alertar frente as dinâmicas próprias da organização de castas naquele território foi fator primordial para aumentar os atritos entre as duas instituições concorrentes.

Acreditamos que este esforço em analisar as representações da agência nativa através dos relatos dos jesuítas se faz extremamente necessário na direção de buscar refletir a respeito do funcionamento no Madurai no século XVII. É evidente que o apoio das comunidades nativas, que decidiram se converter ao catolicismo através da ação dos padres jesuítas foi um fator essencial para a perpetuação do empreendimento missionário. Nesse sentido, casos como o de Japanada nos permitem perceber os impactos da manutenção de certos status conseguidos através da conversão ao catolicismo nas sociedades locais, como o de catequista.

Conclusão

A chave para pensar a problemática proposta reside na maneira como a atuação missionária dos membros da Companhia de Jesus foi desenvolvida na região do Madurai, privilegiando a participação nativa no processo de conversão e, principalmente, na sua manutenção.

Em um contexto de proeminência de grupos que buscavam domínio sobre a influência dos nativos, os jesuítas levaram vantagem por terem uma tradição estabelecida na região junto a diversos grupos locais. Além disso, a maneira na qual se dava a conversão e a manutenção da cristandade através dos esforços dos inacianos abria possibilidades para a ascensão social dos grupos convertidos, dentro da lógica de divisões por casta. Isso se dava na direção contrária do rebaixamento de status que o indivíduo convertido enfrentava ao aderir ao cristianismo por intermédio de agentes de outras ordens religiosas. A conversão através do intermédio jesuítico se mostrava vantajosa também frente a possibilidade da permanência dos indivíduos nos cultos locais, uma vez que isso significaria a manutenção de seu status social vigente, em grande maioria das vezes baixo.

Para tanto, acreditamos que as razões que levaram a Missão do Madurai ser a única a apresentar crescimento no interior da Província do Malabar na Índia no final do século XVII podem ter sua origem na soma de um contexto desfavorável, que implicou na retração das outras missões, junto ao modo específico de atuação dos padres jesuítas naquela região. O resultado teria levado os nativos a encontrarem na conversão ao cristianismo através do intermédio dos inacianos a melhor alternativa frente as possibilidades existentes. 

Referências

Alexandre Cabús é doutorando pelo Programa de Pós-graduação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (PPHR-UFRRJ) e desenvolve pesquisa sobre a atuação da Companhia de Jesus na Missão do Madurai, Índia século XVII, sob orientação das Professoras Doutoras Patrícia Souza de Faria (UFRRJ) e Célia Cristina Tavares (UERJ-FFP).

 

Fontes

ARSI, Goana et Malabarica, Goa 19  Affonso Gasp. Prov. Malab. - 04/10/83 - ff. 43-49/ 50-71/ 72-79/ (Refutatio accusationum diatarum ad Congr. de Propaganda.)

 

Referências Bibliográficas

AGNOLIN. Adone. O amplexo político dos costumes de um jesuíta brâmane na Índia: A acomodação de Roberto de’ Nobili em Madurai e a polêmica do Malabar (séc.XVII). Niterói: Eduff. São Paulo, 2020.

CHAKRAVARTI, Ananya. The many faces of Baltasar da Costa: imitatio and accommodatio in the seventeenth century Madurai mission. Etnográfica. Revista do Centro em Rede de Investigação em Antropologia, v. 18, n. 1), p. 135-158, 2014.

DIFFIE. BAILEY W. e WINIUS. George D. Foundations of the Portuguese Empire, 1415- 1580 (Minneapolis: University of Minnesota Press, 1977).

SALES. Maria de Lurdes Ponce Edra de Aboim. Do Malabar às Molucas: os Jesuítas e a Província do Malabar (1601-1693). Tese de doutoramento em História. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa. 2015.

8 comentários:

  1. Prezado Sr. Alexandre Cabús,

    desde já gostaria de deixar aqui meus cumprimentos pela comunicação.

    Gostaria, igualmente, de fazer duas perguntas a partir do seguinte trecho:

    “[…] regiões que estavam sob os auspícios do controle formal do Padroado Português no Oriente gozavam de apoio militar e […] contavam com a coerção como ferramenta de conversão dos nativos ao catolicismo. Por outro lado, havia um setor privado composto por um conjunto de estabelecimentos fundados por homens que, tendo deixado o serviço militar ou administrativo do Estado da Índia, integravam o comércio e as políticas locais, o que contribuiu significativamente para a expansão da presença portuguesa na região”

    • Até que ponto a realidade político-social da atuação jesuítica na Índia se aproximou e se afastou da experiência das missões/reduções jesuíticas no Brasil? É possível visualizar as mesmas metodologias e arregimentação social e inculcação doutrinária, ou existem diferenças tão nítidas a ponto de não ser possível identificá-las como a mesmíssima proposta de método e objetivo?
    • Existem provas ou indícios que até na Índia os jesuítas tiveram o “Ratio Studiorum” como instrumento literário e doutrinário de conversão dos nativos?

    Desde já agradeço pela atenção.

    Atenciosamente,

    Matheus Landau de Carvalho.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Prezado Matheus,
      Muito obrigado pelas perguntas tão pertinentes!
      Eu não diria ser possível observar exatamente as mesmas metodologias ou estratégias por parte dos jesuítas nos contextos brasileiro e indiano. Mas, sim, existia um fator comum nas abordagens dos padres jesuítas, especialmente aqueles que eram designados a atuar em territórios fora do controle formal do aparato militar português. Acredito que esse fator pode ser entendido através da ideia de acomodação, que busca refletir acerca das estratégias utilizadas pelos inacianos para diminuir as diferenças culturais entre as populações nativas e os próprios padres, possibilitando assim um maior contato e, por sua vez, uma maior chance de realizar o processo de conversão. A ideia de acomodação foi um elemento fundamental na constituição da Companhia de Jesus, com inspirações do discurso paulino presentes nos escritos fundadores de Inácio de Loyola. Desse modo, é possível perceber iniciativas similares, como as comparações feitas entre o tupi e o grego, e o sânscrito e o latim. Entretanto, ressalto que as abordagens, por mais similares que possam parecer, não podem ser vistas como idênticas, já que o que as moldava e ditava a atuação de cada jesuíta era o contexto em que este estava inserido.
      Sobre a Ratio Studiorum, acredito que sim. Embora a formação dos membros da Companhia de Jesus no período estudado se desse em boa parte na Europa, as províncias de Goa e do Malabar contavam com uma quantidade significativa de colégios, nos quais esses missionários terminavam suas formações iniciadas em solo europeu.
      Espero ter conseguido responder às perguntas.
      Atenciosamente,
      Alexandre Cabús

      Excluir
    2. Prezado Sr. Alexandre Cabús,

      agradeço imensamente pela resposta. Com efeito, eu tendo a seguir os mesmos pontos que você explanou em tua resposta, algo como diretrizes teológico-metodológicas nas missões jesuíticas mundo afora de modo geral conjugadas com as exigências particulares de cada contexto de atuação. Confesso que saber de algum dado certo, irrefutável, do uso do 'Ratio Studiorum' nas missões jesuíticas na Índia - ou algum tipo de relação de seu uso concatenado com os desafios indianos locais - me atiça sobremaneira a curiosidade...

      Excluir
  2. Caro Alexandre,

    Que grande prazer sempre poder ler uma boa pesquisa sobre os esforços missionários na Ásia, tema que me é muito caro. Meus parabéns pelo texto e pelo trabalho no tema.

    Minha pergunta é bastante pontual. No texto, você discorre brevemente sobre a questão da atuação de outras ordens (em especial as mendicantes) como um ponto de atrito com os jesuítas. Isso é bastante sabido no caso da China, que eu trabalho, onde os missionários mendicantes se interpunham com um modelo alternativo de prédica, no que culminou na (assim chamada) Questão dos Ritos. Isso também é presente na missão do Madurai? Como funcionou a intervenção ou reticência desses mendicantes quanto ao modelo jesuíta na região? A recusa ao modelo mendicante e aderência ao jesuíta no caso de Japanada pode explicar esse crescimento incomum da missão do Madurai?

    Muito obrigado!

    Cláudio César Foltran Ulbrich

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Prezado Cláudio,
      Muito obrigado pelas perguntas!
      Sim, no caso da Missão do Madurai é possível observar a também conhecida "Querela dos Ritos Malabares". Muito similar aos ritos chineses, por se tratar de uma abordagem diretamente inspirada no caso de Matteo Ricci, a Querela teve uma guinada muito interessante a partir de 1623, com a promulgação da bula Romanae Sedis Antistes, de Gregório XV. Esta permitia a continuidade do modelo missionário iniciado por Roberto de Nobili que, inspirado em Ricci, se vestia e se comportava como um brâmane, visando superar as limitações de contato impostas pela organização em castas. Devido a essa liberação, no contexto abordado no artigo, já na segunda metade do século XVII, as fontes chamam a atenção para o fato de que essa forma de atuação por parte dos jesuítas era grandemente difundida e amplamente utilizada no contexto das missões no sul do subcontinente indiano, sendo vista quase como obrigatória para o missionário que ali desejasse atuar.
      No mesmo contexto de permissão dos ritos, foi criada a Congregação para a Propaganda Fide em 1622, que rivalizou com a Companhia de Jesus na busca pela hegemonia do trabalho missionário na região. Os padres da Propaganda se opunham ao uso da estratégia de Nobili, o que causava uma série de conflitos, uma vez que os jesuítas eram impedidos pelos limites da organização em castas de estabelecer contato com eles, o que poderia colocar em jogo o prestígio social protegido pelo seu "disfarce" e comprometer o desenvolvimento da missão.
      Venho trabalhando com a hipótese de que casos como o do catequista Japanada evidenciam que o crescimento da Missão do Madurai no período estudado se deve ao fato de que os jesuítas eram o único grupo missionário que conseguia obter acesso a essas regiões do interior, devido às suas estratégias de adequação à organização social em castas. Dessa forma, em um período de crescentes iniciativas por parte de agentes concorrentes, os jesuítas encontraram nos espaços do interior da Missão do Madurai uma exclusividade de atuação resguardada pela rigidez da organização em castas e possibilitada pelas estratégias adaptativas tão singulares à Ordem.
      Espero ter conseguido responder as perguntas.
      Atenciosamente,
      Alexandre Cabús

      Excluir
  3. Prezado Alexandre Cabús,

    Parabéns pelo excelente trabalho investigativo e pela comunicação, que corroboram um tema que muito me interessa: a intersecção entre as dinâmicas de estratificação social na Índia e os processos de conversão durante a presença portuguesa na região.
    A compreensão de que a conversão das elites locais — especificamente os brâmanes na Índia — era a chave para o sucesso da evangelização na Ásia é um dos temas centrais na história das missões. A estratégia de focar no topo da pirâmide social (chamada de "conversão pelo topo" ou "acomodação") foi defendida tanto por jesuítas portugueses quanto por italianos, que viam nos brâmanes os formadores de opinião da sociedade indiana. Neste sentido, sabemos que a historiadora croata Ines G. Županov (1999; 2005) explora como os jesuítas operavam na "fronteira" cultural indiana e como a obsessão pela conversão dos brâmanes moldaria, inclusive, a produção de conhecimento ocidental sobre o hinduísmo e o sistema de castas, como é possível observar séculos depois no Homo Hierarchicus (1970) de Dumont.
    Lendo seu texto e atentando-me para o fascinante exemplo do catequista jesuíta Japanada, um pária convertido, gostaria de saber se a documentação consultada lhe permite questionar e/ou confrontar esta suposta predileção pela conversão brâmane. Além disso, quais os principais grupos de casta convertidos que você identificou?
    Pergunto porque, na documentação administrativa do final do século XVI que consultei até o momento, tenho observado duras críticas aos brâmanes. Eles são vistos como os responsáveis pela manutenção da idolatria entre os convertidos, por expulsá-los de suas famílias e por destituí-los de seus bens (BAL 46-XI-6 Fol. 599-607v). Sendo assim, a expulsão da elite intelectual e sacerdotal seria a melhor estratégia para desestabilizar a hierarquia social nativa (BAL 46-XI-6 Fol. 611-613).

    Cordialmente,
    Thays Alves Rodrigues

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Prezada Thays,
      Muito obrigado pelas perguntas!
      No caso da Missão do Madurai, realmente, existiu um esforço inicial por parte do missionário Roberto de Nobili em focar na atuação junto aos brâmanes, pelos motivos muito bem apresentados por você. Entretanto, esse movimento se deu somente no período inicial do desenvolvimento das práticas adaptativas na região, já que a abordagem de Nobili era exclusivamente direcionada aos brâmanes, sendo o jesuíta impedido de estabelecer contatos junto aos setores considerados inferiores da sociedade e, por sua vez, de convertê-los.
      Com a liberação da prática em 1623, formou-se um cenário mais propício a novas interações e formulações de novas estratégias. É nesse contexto que se insere a trajetória de Baltazar da Costa, jesuíta português responsável por estabelecer uma estratégia similar à de Nobili, mas que lhe permitia estabelecer contato com todos os setores da sociedade, sem colocar em risco o status de pureza e alto prestígio. Essa estratégia, baseada no disfarce através da figura dos sábios "pandaras", foi criada tendo em vista a baixa taxa de conversão das iniciativas que focavam seus esforços somente junto aos brâmanes e, principalmente, o grande índice de apostasia deste grupo.
      No contexto abordado no artigo, o foco da atuação dos jesuítas era principalmente junto aos grupos pertencentes à casta sudra e grupos párias, o que não excluiu a atuação junto aos brâmanes, mas demonstrava números de conversão mais expressivos.

      Excluir
  4. Prezado Cláudio,
    Muito obrigado pelas perguntas!
    Sim, no caso da Missão do Madurai é possível observar a também conhecida "Querela dos Ritos Malabares". Muito similar aos ritos chineses, por se tratar de uma abordagem diretamente inspirada no caso de Matteo Ricci, a Querela teve uma guinada muito interessante a partir de 1623, com a promulgação da bula Romanae Sedis Antistes, de Gregório XV. Esta permitia a continuidade do modelo missionário iniciado por Roberto de Nobili que, inspirado em Ricci, se vestia e se comportava como um brâmane, visando superar as limitações de contato impostas pela organização em castas. Devido a essa liberação, no contexto abordado no artigo, já na segunda metade do século XVII, as fontes chamam a atenção para o fato de que essa forma de atuação por parte dos jesuítas era grandemente difundida e amplamente utilizada no contexto das missões no sul do subcontinente indiano, sendo vista quase como obrigatória para o missionário que ali desejasse atuar.
    No mesmo contexto de permissão dos ritos, foi criada a Congregação para a Propaganda Fide em 1622, que rivalizou com a Companhia de Jesus na busca pela hegemonia do trabalho missionário na região. Os padres da Propaganda se opunham ao uso da estratégia de Nobili, o que causava uma série de conflitos, uma vez que os jesuítas eram impedidos pelos limites da organização em castas de estabelecer contato com eles, o que poderia colocar em jogo o prestígio social protegido pelo seu "disfarce" e comprometer o desenvolvimento da missão.
    Venho trabalhando com a hipótese de que casos como o do catequista Japanada evidenciam que o crescimento da Missão do Madurai no período estudado se deve ao fato de que os jesuítas eram o único grupo missionário que conseguia obter acesso a essas regiões do interior, devido às suas estratégias de adequação à organização social em castas. Dessa forma, em um período de crescentes iniciativas por parte de agentes concorrentes, os jesuítas encontraram nos espaços do interior da Missão do Madurai uma exclusividade de atuação resguardada pela rigidez da organização em castas e possibilitada pelas estratégias adaptativas tão singulares à Ordem.
    Espero ter conseguido responder as perguntas.
    Atenciosamente,
    Alexandre Cabús

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.