A MEMÓRIA DA GUERRA NO DISCURSO DO NOBEL DE KENZABURO OE (1994) por Vitor Yukio Ivasse Alves

 

Existe um paradoxo intrínseco à reconstrução histórica. A afirmação pode parecer polêmica. Entretanto, se acompanharmos a relação entre tempo e memória, chegaremos inevitavelmente ao núcleo desse paradoxo: à medida que nos afastamos da experiência da catástrofe, enfraquece a consciência de sua relevância, embora a compreensão do presente continue a depender da preservação desse passado. Em sua formulação mais simples, o paradoxo decorre da constatação de que toda paz carrega consigo a memória de uma violência anterior. Quando uma sociedade perde de vista as ruínas sobre as quais edificou o próprio presente, corre o risco de esquecer os limites que a resguardam do retorno da barbárie. À medida que os sobreviventes desaparecem e os testemunhos se tornam cada vez mais escassos, cresce a urgência de construir formas de mediação capazes de assegurar a transmissão intergeracional de uma memória histórica cuja significação não se esgota com o decurso do tempo.

 

A questão comporta, contudo, uma dimensão adicional. Embora o passado continue indispensável à compreensão do presente, a passagem do tempo produz, simultaneamente, os instrumentos que tornam essa compreensão possível e as condições que colocam sua preservação em risco. O mesmo processo histórico que amplia nossa compreensão de determinados acontecimentos reduz, progressivamente, a proximidade com aqueles que os testemunharam. Cada geração herda um volume maior de informações, expresso na multiplicação de documentos oficiais, correspondências, diários, fotografias, registros audiovisuais, arquivos governamentais antes inacessíveis, depoimentos reunidos por historiadores, pesquisas acadêmicas, estudos comparativos e interpretações formuladas por diferentes correntes teóricas. Em contrapartida, dispõe de uma quantidade cada vez menor de experiências diretas. Em muitos aspectos, é precisamente por meio dessa troca desigual que a história avança.

 

Dentre os muitos eventos que se distanciam gradualmente da memória viva – isto é, da memória preservada por seus próprios testemunhos – sem perder sua influência sobre o presente, poucos têm um papel comparável à Segunda Guerra Mundial [1939–1945]. Mais de oitenta anos se passaram desde o fim do conflito. O período é suficientemente extenso para que uma parte crescente da população mundial nunca tenha convivido com aqueles que o presenciaram diretamente. Simultaneamente, é impossível entender muitos aspectos da ordem atual sem retornar ao passado da guerra. Não somente porque seus efeitos ainda estão presentes nas relações internacionais ou nos rearranjos políticos resultantes de sua destruição. Há um motivo mais essencial. O conflito continua sendo um dos principais referenciais para o mundo contemporâneo ao abordar temas como violência, responsabilidade, soberania, trauma e paz. Em 1994, quase cinquenta anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, Kenzaburo Oe [1935–2023] usou a tribuna do Prêmio Nobel para refletir sobre uma das questões fundamentais do Japão pós-guerra: a preservação da memória histórica traumática como requisito para a reconstrução da sociedade japonesa.

 

Diferentemente de Yasunari Kawabata [1899–1972], o primeiro escritor japonês laureado com o Nobel de Literatura, cuja palestra chamada 美しい日本の私 [Japão, o Belo e Eu, 1968] enaltecia aspectos da tradição estética e espiritual japonesa associados ao budismo Zen, Oe [1995b] buscou questionar os limites dessa representação. Ao examinar o título da palestra de Kawabata, observou a ambiguidade presente na indefinição da partícula japonesa (no) – literalmente “de” –, responsável por estabelecer uma relação de pertencimento e, por isso, aberta a diferentes interpretações acerca do vínculo entre o sujeito e a nação. A divergência de Oe, contudo, não se restringia a essa questão linguística. Segundo o autor, a vivência histórica do Japão no século XX, caracterizada pela guerra, impedia a aceitação completa da imagem de um “Japão belo” que não estivesse ligado às suas contradições históricas. Por esse motivo, declarou de forma enfática:

 

“Como alguém que vive no presente, como eu, e que compartilha memórias amargas do passado impressas em minha mente, não consigo pronunciar em uníssono com Kawabata a frase ‘Japão, o Belo e Eu’. [...] Não consigo falar de mim de outra forma senão dizendo ‘Japão, o Ambíguo e Eu’” [Oe, 1995b, p. 116].

 

A substituição do belo pelo ambíguo sintetizou a postura moral que orientou todo o discurso de Oe, ao rejeitar uma identidade nacional baseada unicamente na celebração estética e ao defender uma memória crítica que possa enfrentar os legados da guerra e suas repercussões na sociedade japonesa contemporânea.

 

Não obstante, as ambiguidades do pós-guerra estiveram diretamente vinculadas à formação intelectual e moral de Kenzaburo Oe. Nascido em 31 de janeiro de 1935, na vila de Ose, província de Ehime, na ilha de Shikoku, o escritor atravessou, desde a infância, um dos momentos mais conturbados da história japonesa. Sua formação inicial aconteceu durante o período da Segunda Guerra Mundial, sob a influência de um sistema educacional pautado pelo ultranacionalismo e pela devoção ao imperador, com o objetivo de moldar os indivíduos conforme os valores do Estado imperial. No entanto, o fim do conflito e a posterior ocupação americana [1945–1952] deram início a um novo cenário político e social, período em que Oe cursou os estudos ginasiais e colegiais, tendo contato com ideais democráticos que influenciaram sua personalidade [Wakisaka, 1995]. Inserido entre a vivência do militarismo imperial e as transformações promovidas no pós-guerra, Oe desenvolveu uma postura crítica diante de ambos os projetos: rejeitou tanto a mística belicista do imperialismo japonês quanto os limites da ordem pacificada instituída sob a tutela dos Estados Unidos.

 

Seu estilo, frequentemente comparado à densidade filosófica de Jean-Paul Sartre, possui uma ambição claramente poética. Ao mesmo tempo, havia um componente ideológico em sua recusa ao que via como a imprecisão excessiva da língua literária japonesa tradicional [Mackintosh e Sugiyama, 1996]. Com efeito, escreveu em um período desfigurado e corrompido, em um Japão sem deuses ou invadido por deuses estranhos e falsos, após a derrota na Guerra do Pacífico e das bombas atômicas. Edward Said ressaltou que “ninguém escreveu com maior profundidade sobre [...] as contradições, os avanços e recuos da modernidade e da tradição, da guerra e da paz, da dependência e da ousadia, do império e da perda (no Japão) [...] do que Oe” [Said apud Isherwood, 2003, p. 14]. 

 

Compreender o pensamento de Oe pressupõe considerar fatores que excedem os limites de sua trajetória individual. Afinal, como sugeriu Halbwachs [2024], a memória nunca é exclusivamente individual, mas se constitui nos quadros sociais que orientam a recordação e atribuem significado ao passado. Okamoto [2007] identifica nesse processo os efeitos de uma nova consciência social que surgiu no Japão após a guerra, gerando repercussão tanto no meio acadêmico quanto no político. Por outro lado, na literatura, as reações dos escritores foram variadas diante das transformações impostas pelo conflito, pois “[...] cada literato, ao seu modo, expressou a sua experiência bélica, juntamente com a sua dor, a sua indignação, o seu temor e, em alguns casos, a sua esperança” [Okamoto, 2007, p. 139].  Foi dessa tradição literária que Oe se declarou herdeiro. A esse respeito, afirmou:

 

“Na história da literatura japonesa moderna, os escritores mais sinceros e conscientes de sua missão foram aqueles “escritores do pós-guerra”, que surgiram no cenário literário imediatamente após a última guerra, profundamente feridos pela catástrofe, mas cheios de esperança por um renascimento. Eles se esforçaram ao máximo para reparar as atrocidades desumanas cometidas pelas forças militares japonesas em países asiáticos, bem como para superar os profundos abismos que existiam não apenas entre os países desenvolvidos do Ocidente e o Japão, mas também entre os países africanos e latino-americanos e o Japão. Somente assim acreditaram que poderiam buscar, com alguma humildade, a reconciliação com o resto do mundo. Sempre foi minha aspiração me manter próximo ao ápice dessa tradição literária herdada desses escritores” [Oe, 1995b, p. 117–118].

 

Convém observar que a inserção de Oe nessa tradição literária exige cautela analítica, uma vez que o campo intelectual do pós-guerra japonês esteve longe de constituir uma realidade homogênea. Em sua análise da literatura produzida nos anos seguintes à derrota, Meiko Shimon [2000] destaca que a rápida retomada da atividade editorial resultou na reabertura de revistas literárias e na circulação de obras previamente censuradas, ao passo que novos periódicos surgiam em diversas regiões do país. O retorno de escritores renomados parecia garantir a continuidade da vida literária no Japão. No entanto, a guerra estava notavelmente ausente de uma parte considerável da produção literária do período. A reduzida atenção dispensada ao conflito contrastava com seus efeitos históricos, ao ponto de sugerir que “[...] a guerra, que dizimara uma grande parcela de compatriotas e ao mesmo tempo modificara totalmente os conceitos morais e existenciais, não significava para esses escritores mais do que um fenômeno incômodo da natureza” [Shimon, 2000, p. 36]. A guerra exigia interpretação.

 

A insatisfação gerada pela escassa presença do conflito coincidiu com o surgimento de escritores que viam na derrota um dos principais temas de reflexão. A chamada Sengoha (戦後派, Escola do Pós-Guerra) começou a agrupar obras com características bastante diferentes umas das outras. Algumas eram baseadas nas experiências obtidas durante o conflito. Outras concentravam-se nas inquietações de indivíduos inseridos em uma realidade marcada pelas incertezas que acompanhavam os anos posteriores à derrota [Natili, 2012]. Essas obras tinham em comum o interesse por questões que ganhavam cada vez mais relevância na sociedade japonesa do pós-guerra. Oe [1995b, p. 118] também conceberia a derrota como “[...] a oportunidade de tentar um renascimento a partir da grande miséria e sofrimento retratados pela ‘Escola do Pós-Guerra’ de escritores japoneses”.

 

Esse renascimento, portanto, encontrava-se associado a dois princípios que, na interpretação de Oe, passaram a orientar a reconstrução japonesa após 1945. De acordo com o autor: “Os pilares morais para os japoneses que aspiravam a tal renascimento eram a ideia de democracia e sua determinação de nunca mais travar uma guerra” [Oe, 1995b, p. 118–119]. A adesão a esses valores não implicava a inocência do Japão diante de seu próprio passado, uma vez que, conforme recorda Oe [1995b], a nação japonesa continuava confrontada com a memória das invasões e violências cometidas em outras nações asiáticas. Ao mesmo tempo, esses valores encontravam fundamento tanto na memória das vítimas dos bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki quanto nos testemunhos de seus sobreviventes [hibakusha].

 

A reorganização institucional realizada após a derrota buscou dar expressão institucional a esses princípios. De acordo com Yamashiro [1964, p. 186], a Constituição promulgada em 1947 foi o primeiro passo para a construção de uma ordem baseada na paz, ao projetar “[...] um mundo sem lutas armadas, uma sociedade internacional unida e harmoniosa, em que todas as dificuldades nas relações entre nações sejam solucionadas por meios diplomáticos”. A nova Constituição consagrou, entre seus princípios centrais, a renúncia formal à guerra por meio de seu Artigo 9º:

 

“Aspirando sinceramente a paz mundial baseada na justiça e ordem, o povo japonês renuncia para sempre o uso da guerra como direito soberano da nação ou a ameaça e uso da força como meio de se resolver disputas internacionais.

 

Com a finalidade de cumprir o objetivo do parágrafo anterior, as forças do exército, marinha e aeronáutica, como qualquer outra força potencial de guerra, jamais serão mantidas. O direito à beligerância do Estado não será reconhecido” [Embaixada do Japão no Brasil, s.d].

 

A defesa desses princípios não ficou isenta de contestação. Oe [1995] notou que, nas décadas seguintes, aumentaram os questionamentos sobre o caráter pacifista da Constituição japonesa. Algumas dessas críticas argumentavam que o Japão deveria ter um papel mais ativo nas operações internacionais de manutenção da paz e expandir sua contribuição militar no cenário global. No entanto, o escritor interpretou essas reivindicações de uma maneira diferente. Em seu discurso, afirmou que, após o fim da Segunda Guerra Mundial, “[...] tornou-se um imperativo categórico para nós declarar, em um artigo central da nova Constituição, nossa renúncia definitiva à guerra”, pois “os japoneses escolheram o princípio da paz eterna como base moral para o nosso renascimento após a guerra” [Oe, 1995b, p. 119].

 

A crítica às tentativas de revisão do Artigo 9º fazia parte de uma reflexão mais abrangente sobre o que ele chamou de “ambiguidade japonesa”, um termo usado para se referir a uma espécie de “doença crônica” da modernidade japonesa [Oe, 1995b]. As propostas de modificação do dispositivo constitucional eram percebidas como uma ameaça aos valores consolidados após a derrota, evidenciando que os princípios da democracia e da renúncia à guerra ainda poderiam ser contestados. Portanto, a possível revisão do artigo comprometeria o projeto de reconstrução moral que Oe considerava como um dos legados fundamentais do Japão pós-guerra. Mais importante ainda, a prosperidade econômica alcançada nas décadas posteriores não havia sido suficiente para superar essa condição:

 

“No auge da pobreza econômica do pós-guerra, encontramos resiliência para suportá-la, sem jamais perder a esperança de recuperação. Pode parecer curioso dizer isso, mas parece que não temos menos resiliência para suportar nossa ansiedade em relação às consequências sinistras que emergem da prosperidade atual” [Oe, 1995b, p. 120].

 

Como aponta Natili (2012), a modernização do Japão gerou impasses que não puderam ser solucionados pelo progresso material, especialmente aqueles resultantes de sua posição histórica entre tradição e modernidade, Ásia e Ocidente. A persistência da ambiguidade japonesa estava nessa incapacidade de transformar o crescimento econômico em renovação moral. Sem uma análise crítica da derrota e de suas implicações, o período pós-guerra corria o perigo de converter a reconstrução em esquecimento. Entre as questões que permaneciam em aberto, estava a memória da guerra, cuja manutenção, segundo Oe, era essencial para a formação de um senso crítico no período pós-guerra: “Para mim, a questão mais urgente hoje é a seguinte: os japoneses realmente aprenderam alguma coisa com a derrota de 1945?” [Oe, 1995a, p. 10].

 

Não por acaso, Oe identificou em Hiroshima um ponto de inflexão em sua trajetória intelectual. Na introdução da edição de 1995 de Hiroshima Notes [1965], ao relembrar as visitas feitas à cidade entre 1963 e 1964, declarou que essa vivência modificou sua maneira de compreender “[...] o ser humano, a sociedade e o mundo”, passando a orientar sua produção literária posteriormente [Oe, 1995a, p. 8]. Entre os diferentes termos mobilizados na obra, a dignidade aparece de maneira recorrente sempre que o escritor se concentra nos hibakusha, fazendo da experiência dos sobreviventes um dos principais eixos de sua reflexão. Quando descreve a trajetória de Toshi Kanai, por exemplo, Oe afirma que “[...] o valor de sua vida residia precisamente na dignidade humana que alcançou em sua miserável velhice”, acrescentando que, mesmo reduzido pelas sequelas da radiação, Kanai conservava uma força moral capaz de confrontar aqueles que jamais haviam experimentado a bomba [Oe, 1995a, p. 91]. A mesma categoria reaparece na descrição de Fumio Shigeto, diretor do Hospital da Bomba Atômica, apresentado como “[...] um homem autêntico de Hiroshima”, capaz de enfrentar a realidade produzida pela bomba atômica sem sucumbir ao desespero ou a um otimismo ingênuo [Oe, 1995a, p. 147].

 

Reflexões elaboradas em Hiroshima Notes ressurgem em Speaking on Japanese Culture before a Scandinavian Audience [1992]. Se a derrota de 1945 e a morte do pai constituíram, como observa Dapieve [2008], um dos sofrimentos decisivos na formação da literatura de Oe, o nascimento de seu primeiro filho, Hikari, em 1963, com uma grave deficiência cerebral, representou outro acontecimento igualmente determinante. Longe de permanecer restrita ao âmbito privado, essa experiência passou a integrar a elaboração crítica de seu pensamento:

 

“Foi justamente a percepção de que a convivência com um filho intelectualmente deficiente possui a capacidade de curar as feridas que os próprios membros de uma família infligem uns aos outros que me conduziu, mais tarde, a outra compreensão: a de que as vítimas e os sobreviventes das bombas atômicas também possuem uma força semelhante para curar todos nós que vivemos nesta era nuclear. Essa ideia parece quase evidente quando observamos os sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki, hoje já idosos e fisicamente fragilizados, levantando novamente suas vozes e participando ativamente do movimento em favor da abolição de todas as armas nucleares. Para mim, eles constituem a própria encarnação de uma prece pela cura de nossa sociedade e, mais ainda, de todo o planeta” [Oe, 1995b, p. 34-35].

 

O próprio fato de Oe retornar continuamente às implicações do pós-guerra indica que a derrota permaneceu como uma questão não resolvida na sociedade japonesa. Christine Greiner [2011] observa, a esse respeito, que as discussões políticas e culturais que marcaram o Japão entre 1945 e 1970 permaneceram, durante muito tempo, relativamente invisíveis na bibliografia do país, apesar de constituírem um dos eixos centrais da experiência do pós-guerra. A autora ressalta, ainda, que o próprio termo “pós-guerra” comporta múltiplos significados, variando conforme as experiências históricas às quais se vincula [Greiner, 2011, p. 16]. Essa polissemia do conceito decorre da coexistência de diferentes narrativas sobre a derrota [Igarashi, 2011].

 

Se a derrota continua sendo passível de interpretação, isso se deve menos à falta de registros ou ausência de testemunhos e mais à incapacidade de qualquer experiência dessa natureza produzir, por si só, um significado conclusivo. Cada geração se relaciona com a guerra em contextos diferentes e, por isso, se depara com questões para as quais as respostas transmitidas nunca serão suficientes. Por esse motivo, Oe nunca considerou a memória um fim em si mesmo. Seu foco estava no que uma sociedade faz com seu patrimônio histórico. Quando reduzida à simples rememoração, a memória da guerra tem pouco impacto na relação entre passado e presente. Apenas quando se mantém aberta à reflexão crítica é que a derrota consegue interpelar as convicções de cada época.

 

Mais de três décadas após o discurso do Nobel, a proposta de revisão constitucional apresentada pela primeira-ministra Sanae Takaichi recoloca em debate os fundamentos que guiaram a reconstrução democrática do Japão no pós-guerra. Essa pode ser a principal questão levantada por Oe ao perguntar se os japoneses realmente aprenderam algo com a derrota: saber se a memória permanece capaz de produzir responsabilidade. Sem essa capacidade, a guerra perde sua condição de advertência histórica e permanece apenas como passado.

 

Referências

Vitor Yukio Ivasse Alves é mestrando em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás).

 

DAPIEVE, Arthur. Introdução. In: OE, Kenzaburo. 14 contos de Kenzaburo Oe. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. p. 7-11.

EMBAIXADA DO JAPÃO NO BRASIL. A Constituição do Japão. Brasília: Embaixada do Japão no Brasil, s.d. Disponível em: https://www.br.emb-japan.go.jp/cultura/constituicao.html. Acesso em: 20 jun. 2026.

 

GREINER, Christine. Repensando a guerra e a história a partir do corpo. In: IGARASHI, Yoshikune. Corpos da Memória: narrativas do pós-guerra na cultura japonesa (1945 – 1970).  São Paulo: Annablume,  2011. p.11-16.

 

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Curitiba: antoniofontoura, 2024.

IGARASHI, Yoshikune. Corpos da Memória: narrativas do pós-guerra na cultura japonesa (1945 – 1970).  São Paulo: Annablume,  2011.

 

ISHERWOOD, Christopher. Beyond Boundaries: Centre/ Periphery Discourse in ŌE Kenzaburō’s Dojidai Gemu & Witi Ihimaera’s The Matriarch. New Zealand Journal of Asian Studies. v. 5, n. 2, p. 114-115, Dec. 2003.

 

KAWABATA, Yasunari. Japan, the Beautiful and Myself. Nobel Lecture, Stockholm, 12 dez. 1968. Disponível em: https://www.nobelprize.org/prizes/literature/1968/kawabata/lecture/. Acesso em: 20 jun. 2026.

 

MACKINTOSH, Paul St. John; SUGIYAMA, Maki. Introduction. In: OE, Kenzaburo. Nip the Buds, Shoot the Kids. New York: Grove Press, 1996. p. 5–18.

 

NATILI, Donatella. Beleza e ambiguidade: os discursos dos Prêmios Nobel da Literatura Japonesa e seus autores. 2012. 219 f. Tese (Doutorado em Literatura e Práticas Sociais) — Instituto de Letras, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Universidade de Brasília, Brasília, 2012.

 

OE, Kenzaburo. Hiroshima Notes. Tokyo: Kodansha International, 1995a.

 

OE, Kenzaburo. Japan, the Ambiguous, and Myself. Nobel Lecture, Stockholm, 7 dez. 1994. Disponível em: https://www.nobelprize.org/prizes/literature/1994/oe/lecture/. Acesso em: 20 jun. 2026.

 

OE, Kenzaburo. Japan, the Ambiguous, and Myself: The Nobel Prize Speech and Other Lectures. Tokyo: Kodansha International, 1995b.

 

OKAMOTO, Mónica Setuyo. Breve análise dos reflexos da Segunda Guerra Mundial nas obras literárias japonesas. Estudos Japoneses, [S. l.], v. 27, p. 139–146, 2007. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/ej/article/view/141795>. Acesso em: 20 jun. 2026.

SHIMON, Meiko. Concepção estética de Kawabata Yasunari em Tanagokoro no Shosetsu (Contos que cabem na palma da mão). Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2000.

WAKISAKA, Geny. Introdução. In: OE, Kenzaburo. Contos de Oe Kenzaburo. São Paulo: Centro de Estudos Japoneses, 1995. p. 13-20.

 

YAMASHIRO, José. Pequena história do Japão. São Paulo: Editora Herder, 1964.

Um comentário:

  1. Oi Vitor, parabéns pelo texto!
    Tive a oportunidade de ler apenas um livro do Kenzaburo Oe, o compilando em no idioma inglês "Teach Us to Outgrow Our Madness". Um dos contos, o "みずから我が涙をぬぐいたまう日" (O dia em que Ele próprio enxugar minhas lágrimas, em uma tradução bem literal) é descaradamente uma crítica e paródia a pessoas como o Yukio Mishima, que observavam a posição do Japão pós guerra como uma "castração" moral de seu papel enquanto país. Eu pessoalmente acho que não apenas o Japão, mas também o Brasil, de forma diferente, e outros países também tem uma memória curta relacionada a questão da guerra e autoritarismo e se não existe um aparato estatal para preserva-la, essa facilmente escapa. Eu estudo Okinawa, então é muito interessante ver como as pessoas mais jovens tem um pensamento bem distinto em relação as pessoas mais velhas sobre a presença militar na província, por exemplo. Então, mais do que uma pergunta, eu queria saber é mais sobre sua opinião sobre quais os caminhos pro Japão de manter essa memória para que não se caia no autoritarismo novamente.

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