O presente texto propõe analisar o livro de viagem Itinerário, viagem ou navegação para as Índias Orientais ou Portuguesas (1596), de Jan Huygen van Linschoten, alinhando-se às formulações teóricas de Edward Said sobre o Orientalismo e a desconstrução proposta por Stuart Hall em “O Ocidente e o Resto”. Analisa-se a representação de Goa, cidade em que Linschoten residiu a serviço do Arcebispo Dom Frei João Vicente da Fonseca, como uma metrópole colonial imersa em decadência, luxúria e desordem institucional. O objetivo desta investigação é entender como essa representação opera como um ato discursivo de legitimação da expansão neerlandesa (a partir do nome nativo dos Países Baixos, Nederland), produzindo efeitos geopolíticos concretos entre o final do século XVI e começo do XVII. A hipótese central é que o Itinerário não constitui um relato etnográfico neutro, mas um dispositivo discursivo que, ao construir imagens estereotipadas tanto dos indianos quanto dos portugueses, serviu para legitimar a expansão marítima e comercial da República das Províncias Unidas no final do século XVI.
Essa construção opera por meio de uma "dupla colonização", termo cunhado por Ivo Kamps (2001), em que o viajante neerlandês submete tanto os nativos asiáticos quanto o colonizador ibérico a um olhar que os essencializa, os hierarquiza e os prepara para a substituição imperial. O livro foi publicado em 1596 e está dividido em partes temáticas. A primeira parte contém os relatos da viagem para a Índia, das experiências em Goa e da viagem de retorno. Os capítulos que interessam a esta discussão concentram-se nos usos e costumes dos portugueses e dos indianos na capital do Estado da Índia, onde Linschoten pôde observar de perto as dinâmicas sociais que viria a descrever.
Edward Said (2007), em Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente, postula que o conhecimento produzido pelo Ocidente sobre o Oriente não é uma empreitada científica neutra, mas um "estilo ocidental para dominar, reestruturar e ter autoridade sobre o Oriente". Trata-se de um sistema de representação ideológica e de uma prática discursiva intrinsecamente vinculada ao poder político, econômico e cultural. O Orientalismo opera reduzindo a tremenda pluralidade e mutabilidade histórica das sociedades orientais a um punhado de estereótipos estáticos, essencialistas e depreciativos. Através dessa "geografia imaginativa", o Ocidente constrói a si mesmo por inversão especular: se o sujeito ocidental é racional, virtuoso, disciplinado e civilizado, o "oriental" deve ser desenhado como irracional, depravado, indolente e decadente.
Stuart Hall (2016), por sua vez, demonstra que a própria ideia de "Ocidente" não é um conceito geográfico inocente, mas uma categoria histórica e ideológica forjada no processo de expansão colonial. O discurso do "Ocidente e o Resto" funciona como um sistema global de representação que divide o mundo em duas metades assimétricas, fornecendo um modelo de comparação que permite classificar o grau de "desenvolvimento" e "racionalidade" de qualquer sociedade não europeia a partir de critérios exclusivamente ocidentais. Esse discurso produz "mapas de significado" que simplificam a complexidade do Outro para torná-lo inteligível e, crucialmente, administrável pelo colonizador.
No caso do Itinerário, a lente orientalista não se aplica apenas aos povos nativos da Ásia, mas também ao colonizador anterior, o português. Ivo Kamps (2001), em seu artigo “Colonizing the Colonizer: A Dutchman in Asia Portuguesa”, observa que Linschoten ocupa uma posição de sujeito singular: não se identifica plenamente com os portugueses, apesar de tê-los servido e nem com os indianos. Essa posição liminar lhe permite exercer um "olhar duplo", uma dupla colonização discursiva, que submete tanto o colonizador português quanto o colonizado indiano a um escrutínio que os essencializa, os estereotipa e os prepara para a substituição do domínio ibérico pelo neerlandês.
Nos capítulos dedicados aos indianos de Goa, Linschoten constrói uma imagem que se alinha perfeitamente com as categorias do Orientalismo propostas por Said. O viajante não faz uma distinção étnica fina entre os diversos grupos que habitam a ilha, limitando-se a categorizá-los como "gentios", ou seja, não cristãos. Os indianos batizados são descritos como dificilmente abandonando seus costumes gentios, e Linschoten afirma que não se poderia exigir que criassem outros hábitos "porque dificilmente se lhes pode fazer entender outra coisa" (LINSCHOTEN, 1997, p. 166).
Essa observação revela uma dupla operação: ao mesmo tempo que subestima a capacidade de transformação dos nativos, ela também nivela cristãos e não cristãos sob o mesmo signo da diferença irremediável. Os templos hindus, chamados de "pagodes", abrigam ídolos que são "figuras mais feias e diabólicas que se possa imaginar" (LINSCHOTEN, 1997, p. 163). Para Linschoten, os gentios estariam, através desses ídolos, respondendo ao demônio, tendo uma fé baseada no medo, uma caracterização que reduz a complexidade teológica e ritual do hinduísmo a uma prática supersticiosa e infantil. Os "mágicos" indianos, que fazem ilusionismo e encantam cobras, são descritos como mestres na preparação de venenos, o que associa conhecimento nativo a perigo e engano.
Os brâmanes, casta sacerdotal, são apresentados como a "nação mais honrada e respeitada entre os gentios" (LINSCHOTEN, 1997, p. 172), mas Linschoten os descreve como sacerdotes que "estão sempre convencendo os outros indianos simples e comuns a realizarem seus caprichos" e que se aproveitam das oferendas deixadas aos ídolos, comendo elas mesmas o que os fiéis acreditam ter sido digerido pela divindade. Essa descrição constrói uma imagem de exploração clerical e credulidade popular que ecoa, de forma invertida, as críticas protestantes ao catolicismo, mas aplicadas a um contexto não europeu.
As mulheres brâmanes merecem atenção especial. Linschoten descreve detalhadamente o ritual do sati, a queima da viúva na pira do marido, e oferece uma explicação etiológica: "em tempos muito remotos as mulheres por serem muito luxuriosas e salazes por natureza e índole, frequentemente matavam o marido" com veneno, para satisfazer seus desejos (LINSCHOTEN, 1997, p. 173). A lei da queima das viúvas teria sido instituída para intimidar e impedir a "maldade das mulheres". Essa narrativa, que Linschoten atribui aos próprios indianos, opera uma dupla redução: por um lado, essencializa a mulher indiana como lasciva e assassina; por outro, apresenta o sati como um mecanismo de controle social que, no entanto, não elimina a ameaça feminina, mas a torna espetacular e exótica.
Carmen Nocentelli (2007) observa que Linschoten se esforça para enfatizar tanto a sexualidade desenfreada das mulheres indianas quanto a ameaça que ela representa para a preservação do Estado da Índia. Ademais, Thomas Haddad (2011) acrescenta que, para o viajante neerlandês, a conversão ao catolicismo não é suficiente para eliminar os vícios das nativas, pois o fato de terem nascido em clima tropical já as teria tornado degeneradas. Essa associação entre clima, moralidade e comportamento é um traço característico do discurso orientalista e, mais amplamente, do pensamento do período moderno sobre a relação entre ambiente e caráter.
A descrição dos portugueses em Goa é aberta com uma passagem que tem sido objeto de extensa análise historiográfica: "Os portugueses na Índia são casados com as mulheres naturais da terra, sendo as crianças que deles provêm chamadas de mestiços. Estes mestiços são geralmente de cor amarelada. As crianças nascidas na Índia de homens e mulheres portugueses são chamadas de castiços. São quase tudo iguais aos portugueses, embora sejam um pouco diferentes na cor, porque tendem sempre para o amarelo. As crianças destes castiços são mais baças e totalmente mestiças, e as crianças dos mestiços são de cor e de feição iguais aos naturais da terra, pelo que os descendentes de homens e mulheres portugueses, chegando ao terceiro grau, parecem ser indianos naturais na cor e na feição" (LINSCHOTEN, 1997, p. 148).
Essa passagem não descreve apenas um processo biológico de miscigenação; ela sugere que o simples fato de nascer na Índia, mesmo de pais portugueses, já produz uma diferença de cor. Os castiços, filhos de dois portugueses nascidos em Goa, já "se aproximam de uma cor amarela"; seus filhos são indistinguíveis dos mestiços, mesmo que nenhuma gota de sangue nativo corra em suas veias. Como observa Ivo Kamps (2001), Linschoten propõe uma lógica de transformação que associa o simples fato de viver na Índia à perda de características europeias, numa progressão de português para castiço, de castiço para mestiço e deste para indiano. Essa transformação não é apenas física, mas moral e comportamental. Linschoten descreve os homens portugueses em Goa como não trabalhando ou trabalhando raramente, vivendo do esforço de seus escravizados. A ausência de distinção social clara é repetidamente sublinhada: "o menor homem por lá é considerado igual ao maior, o homem comum equipara-se aos fidalgos e ricos, sem qualquer distinção na sua conversa, cortesia e companhia" (LINSCHOTEN, 1997, p. 149-150).
Enquanto no Antigo Regime a hierarquia é central, Linschoten percebe na Goa portuguesa, desordem e decadência. Linschoten afirma que "dificilmente se encontra um bicho-da-cozinha ou um grumete que não tenha sido feito cavaleiro" (LINSCHOTEN, 1997, p. 150), ironizando a inflação de títulos que nivela a sociedade goesa sob domínio português. A violência é outro traço marcante da descrição dos portugueses. Se um português cumprimenta alguém e essa pessoa não retribuiu a cortesia, isso já é motivo para persegui-la e agredi-la, "com a alegação de que foi desprezado, coisa que os portugueses não toleram por nenhuma razão e seria a maior vergonha do mundo se não se vingassem" (LINSCHOTEN, 1997, p. 152-153). Para se vingar, o português se une a amigos e bate na pessoa até deixá-la quase morta, ou manda os escravizados violentarem o ofensor. Essa descrição constrói uma imagem de uma sociedade hiperbólica e irascível, onde a honra é defendida com violência desproporcional.
As mulheres portuguesas são descritas de forma ainda mais enfaticamente semelhante às indianas. Elas raramente saem de casa e, quando o fazem, são transportadas em palanquim, "coberto com um pano ou tapete, dado que não podem ser vistas na rua de maneira nenhuma" (LINSCHOTEN, 1997, p. 156), um costume que evoca as práticas de reclusão feminina associadas aos mundos islâmico e hindu. Em casa, vestem uma camisa tão fina "que se pode ver todo o corpo através dela" (LINSCHOTEN, 1997, p. 156-157). Linschoten afirma que as mulheres portuguesas são "extremamente luxuriosas e salazes" (LINSCHOTEN, 1997, p. 157), os mesmos adjetivos usados para as mulheres indianas, e que são poucas as fiéis ao marido, mantendo amantes soldados.
Para cometer adultério, fazem uso de datura para dopar os maridos e de venenos para matá-los quando se cansam deles. Os maridos, por sua vez, matam as esposas sob suspeita de adultério, cortando-lhes a garganta e arranjando testemunhas para se livrar da acusação, "sendo isto tão vulgar que ninguém estranha minimamente" (LINSCHOTEN, 1997, p. 158). Linschoten também observa que as mulheres portuguesas são muito limpas, com o hábito de lavar todo o corpo diariamente, e muito dadas a perfumes e incensos, untando o corpo com sândalo, práticas que ele identifica explicitamente como herdadas dos gentios indianos. Mastigam folhas de bétele com cal e areca, "tal como os bois e as vacas ruminam" (LINSCHOTEN, 1997, p. 159).
Essa comparação que “animaliza” é particularmente significativa: ao equiparar um hábito cultural nativo a um comportamento animal, Linschoten opera uma desumanização que reforça a hierarquia entre o observador europeu e os observados. O que emerge da comparação entre as descrições dos indianos e dos portugueses é um padrão de equivalência comportamental. Ambos os grupos são associados a práticas que Linschoten considera moralmente condenáveis: a luxúria feminina e o uso de venenos, a violência e a desonestidade, os hábitos alimentares e de higiene semelhantes.
Os portugueses, ao adotarem os costumes dos indianos e ao se misturarem sem distinção de classe, tornam-se, aos olhos de Linschoten, cultural e socialmente indistinguíveis. Ivo Kamps (2001) argumenta que essa construção serve a um propósito preciso: demonstrar que o colonizador português falhou em manter a distância necessária em relação ao colonizado. Ao se envolverem sexual, social e culturalmente com os nativos, os portugueses perderam sua diferença e, com ela, sua capacidade de governar com eficiência e dignidade. O Itinerário oferece assim uma lição implícita para os futuros colonizadores neerlandeses: o colonizador bem-sucedido deve manter uma distância segura do outro, preservando sua superioridade moral e cultural.
Um aspecto fundamental para compreender a eficácia do Itinerário como dispositivo orientalista é o fato de que muitas das críticas de Linschoten aos portugueses não eram originais. Como argumenta Nuno Vila-Santa (2024), Linschoten estava repetindo críticas que os próprios portugueses já faziam a si mesmos em manuscritos como o Soldado Prático de Diogo do Couto e o Desengano dos Perdidos do Arcebispo D. Gaspar de Leão Pereira, que circulavam em Goa desde a década de 1560 e eram acessíveis ao neerlandês na biblioteca do palácio arquiepiscopal.
No entanto, o que era uma crítica interna ao sistema português, frequentemente motivada por rivalidades faccionais ou por um desejo genuíno de reforma, foi transformado no livro de viagem em um instrumento de propaganda anti-ibérica. Isso se atesta pelo fato da historiografia a respeito do Itinerário e Linschoten o colocar nas prateleiras formativas da Lenda Negra Portuguesa (NOCENTELLI, p. 205-206). Ao retirar essas críticas de seu contexto original e apresentá-las a um público neerlandês que já tinha razões políticas e religiosas para antagonizar os portugueses, tais como a União Ibérica (1580-1640), o bloqueio dos portos de Lisboa (1585), a Guerra dos Oitenta Anos e a oposição ao catolicismo, Linschoten converteu a autocrítica portuguesa em uma ferramenta geopolítica.
Vila-Santa (2024) também questiona a visão tradicional de que o Itinerário descrevia um império português em colapso comercial absoluto. Analisando a documentação interna portuguesa, ele demonstra que, embora o Estado da Índia enfrentasse crises financeiras e de eficácia militar, suas redes de comércio privado e certas rotas oficiais mantinham rentabilidade. A insistência de Linschoten em pintar um quadro de ruína generalizada, portanto, não era uma descrição objetiva da realidade, mas uma construção discursiva estrategicamente útil. Essa construção cumpriu a função de desmistificar o poder luso aos olhos das elites mercantis de Amsterdã, Zelândia e Enkhuizen. Ao retratar Goa como um gigante com pés de barro, imerso em corrupção burocrática e inépcia operacional, Linschoten forneceu o mapa cognitivo que convenceu os investidores do norte de que o império rival era um fruto maduro para ser colhido por quem demonstrasse maior disciplina, capital técnico e organização racional.
A transição da denúncia discursiva para a ação materializou-se com a criação da Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC) em 1602, grupo que o próprio Linschoten foi integrante como conselheiro (LINSCHOTEN, p. 23). O modelo da VOC, uma corporação monopolista de capital aberto, dotada de poderes soberanos para declarar guerra, erguer fortalezas e assinar tratados, apresentava-se como o reverso da desorganização atribuída aos portugueses no Itinerário. Como observa Kamps (2001), a VOC operava com relativamente pouca supervisão do governo neerlandês e enfatizava o lucro em detrimento da expansão territorial e da conversão religiosa, diferentemente do modelo ibérico. O discurso da decadência de Goa serviu, assim, como justificativa para a agressão militar e comercial disfarçada de livre iniciativa.
A violência exercida pela VOC contra a navegação portuguesa, analisada nos trabalhos de André Murteira (2012), e contra populações nativas (como o massacre nas ilhas Banda) necessitava de um anteparo ideológico que mantivesse a autoimagem das Províncias Unidas como paladinas da liberdade contra a tirania ibérica. Ao classificar o império português como ineficiente e moralmente falido, a VOC pôde mascarar sua guerra de corso sob o manto de uma missão civilizadora de ordenamento mercantil. A ironia final, apontada por Vila-Santa (2024), é que Linschoten estava em grande parte repetindo críticas que os próprios portugueses faziam a si mesmos. O que transformou essas críticas em uma arma geopolítica foi o contexto de recepção: um público neerlandês com suas próprias razões políticas e religiosas para antagonizar os ibéricos. A "Lenda Negra Portuguesa" no Itinerário, portanto, não era uma invenção neerlandesa, mas uma apropriação seletiva e instrumentalizada de discursos já existentes, amplificada por um contexto de disputas pelo monopólio de rotas marítimas comerciais e produtos asiáticos.
A análise do Itinerário de Jan Huygen van Linschoten à luz do Orientalismo de Said revela que a obra não é um relato etnográfico neutro, mas um dispositivo discursivo que constrói imagens estereotipadas tanto dos indianos quanto dos portugueses para servir a interesses geopolíticos precisos. Ao descrever os indianos como supersticiosos, lascivos e desonestos, e os portugueses como preguiçosos, violentos e contaminados pelos costumes locais, Linschoten opera uma "dupla colonização" que submete ambos os grupos a um olhar que os essencializa e os hierarquiza. A lógica subjacente a essa construção é a da performance social: a identidade não é determinada apenas pela origem, mas pelo conjunto de comportamentos, hábitos, vestimentas e práticas culturais. Ao adotarem os costumes dos indianos, os portugueses tornam-se culturalmente indistinguíveis deles em poucas gerações, uma conclusão que serve para demonstrar a falência do projeto colonial português e a necessidade de sua substituição por um modelo mais disciplinado e distanciado.
A apropriação de críticas portuguesas a si mesmos, transformadas em propaganda anti-ibérica, evidencia que o Orientalismo não é um mero exercício de representação, mas uma tecnologia de poder que opera através da circulação e resignificação de discursos. O Itinerário não apenas descreveu uma suposta decadência; ele contribuiu ativamente para criar as condições de possibilidade para a substituição de um império por outro, sob a alegação de superioridade moral e organizacional do norte europeu. Em última análise, o texto de Linschoten possibilita a pensar que, no teatro do império, a capacidade de narrar e classificar a decadência do Outro constitui uma forma de dominação. Ao classificar Goa, a capital do Estado da Índia, como decadente, Linschoten não apenas descreveu um estado de coisas, mas ajudou a produzir o consenso que legitimou a expansão neerlandesa no Oriente.
Referências
Beatriz Bahiense Tavares é mestranda em História pelo Programa Pós Graduação em História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (PPHR/UFRRJ), integrante do Laboratório de Mundos Ibéricos da mesma universidade (LAMI/UFRRJ) e desenvolve as atividade e produções acadêmicas com financiamento da CAPES.
HADDAD, Thomás A. S. Um olhar estrangeiro sobre a etnografia implícita dos portugueses na Goa quinhentista, Revista Brasileira de História da Ciência, vol. 4, no.2, 2011.
HALL, Stuart. O Ocidente e o resto: discurso e poder. Projeto História, São Paulo, n. 56, p. 314-361, mai./ago. 2016.
KAMPS, Ivo. Jan Huyghen Van Linschoten. IN: Travel Knowledge: European “Discoveries” in the Early Modern Period, edited by Ivo Kamps and Jyotsna G. Singh, New York, Palgrave Macmillan US, 2001.
LINSCHOTEN, Jan Huygen van. Itinerário, Viagem ou Navegação para as Índias Orientais ou Portuguesas, Ed. Arie Pos e Rui Manuel Loureiro, Lisboa (1596). Lisboa: CNCDP, 1997.
MURTEIRA, André. A Carreira da Índia e o Corso Neerlandês, 1595-1625. Lisboa: Tribuna da História, 2012.
NOCENTELLI, Carmen, Discipline and Love: Linschoten and the Estado Da India. IN: Rereading the Black Legend the Discourses of Religious and Racial Difference in the Renaissance Empires, Chicago, University of Chicago Press, 2007.
PARR, Charles McKew, Jan van Linschoten: The Dutch Marco Polo, New York, Thomas Y. Crowell Company, 1964.
SAID, Edward. Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
VILA-SANTA, Nuno. A Spy or a Go-between? Jan Huygen van Linschoten, the Itinerario and the Rise of Dutch Overseas Expansion (1583-1611). In: _____. Knowledge Exchanges between Portugal and Europe: Maritime Diplomacy, Espionage, and Nautical Science in the Early Modern World (15th-17th Centuries). Amsterdam: Amsterdam University Press, 2024.
Prezada Sra. Beatriz Bahiense Tavares,
ResponderExcluirdesde já gostaria de deixar aqui meus cumprimentos pela comunicação.
Em tua Comunicação consta o seguinte trecho:
“A ausência de distinção social clara é repetidamente sublinhada: "o menor homem por lá é considerado igual ao maior, o homem comum equipara-se aos fidalgos e ricos, sem qualquer distinção na sua conversa, cortesia e companhia" (LINSCHOTEN, 1997, p. 149-150).”
Duas perguntas: pelo menos para mim não ficou claro se essa “ausência de distinção social” se refere somente aos portugueses entre si, ou aos portugueses em sua relação com os indianos… de fato, qual é o sentido dado por Jan Huygen van Linschoten?
A partir disso, faço outra pergunta: nos processos relatados acerca dos mestiços, Linschoten observou alguma relação dessa mestiçagem com as hierarquias do sistema de castas hindu (‘varṇa’, ‘jāti’), ou sequer fez alguma distinção, da parte dos nativos indianos, entre budistas, hindus, muçulmanos e jainistas?
Desde já agradeço pela atenção.
Atenciosamente,
Matheus Landau de Carvalho.
Este comentário foi removido pelo autor.
ExcluirPrezado colega, agradeço pelas perguntas, que me permitem aprofundar aspectos subentendidos na comunicação. Passo a respondê-las com base no Itinerário e no capítulo de Nuno Vila-Santa.
ExcluirA ausência de distinção social registrada por Linschoten, "o menor homem por lá é considerado igual ao maior, o homem comum equipara-se aos fidalgos e ricos" (LINSCHOTEN, 1997, p. 149-150), refere-se exclusivamente aos portugueses entre si, não à relação com indianos. No capítulo 29, ele afirma que artesãos e trabalhadores manuais são "gentios indianos" e que apenas "casados e residentes" gozam de cidadania (LINSCHOTEN, 1997, p. 150). Há distinção clara entre portugueses/mestiços, que têm direitos, e indianos, que são trabalhadores ou escravos. A crítica de Linschoten é interna ao grupo colonial: soldados e fidalgos se comportam da mesma forma, títulos são inflados, "dificilmente se encontra um bicho-da-cozinha ou um grumete que não tenha sido feito cavaleiro" (LINSCHOTEN, 1997, p. 150), e não há marcadores visíveis de status, o que ele percebe como desordem.
Conforme Vila-Santa (2024), Linschoten repetia críticas que os próprios portugueses faziam a si mesmos, como a preguiça e as hierarquias nebulosas. Minha hipótese é que o Itinerário funcionou porque essas críticas ressoavam com a moralidade calvinista e burguesa do público neerlandês, em meio às disputas comerciais pelo Oriente intensificadas desde o bloqueio de 1585. O livro circulou rapidamente, traduzido para inglês, alemão e latim entre 1598-1599, com reedição das gravuras (Icones em 1604), justamente por alimentar a imagem de uma Goa decadente que justificava a expansão das Províncias Unidas.
Sobre a segunda pergunta: Linschoten não estabelece relação entre mestiçagem e o sistema de castas hindu. Sua descrição da progressão geracional, mestiços, castiços e, à terceira geração, descendentes que "parecem ser indianos naturais na cor e na feição" (LINSCHOTEN, 1997, p. 148), está inserida no contexto da degeneração europeia, não na incorporação a hierarquias indianas. Vila-Santa (2024, p. 306-307) observa que a preocupação de Linschoten é com a perda da identidade europeia, sem discutir castas nativas.
Por outro lado, Linschoten distingue grupos religiosos com terminologia própria do século XVI. Muçulmanos são chamados de mouros ou maometanos, com mesquitas descritas (LINSCHOTEN, 1997, p. 157, 171-173). Judeus são mencionados como comunidade em Cochim-de-Cima, onde mantêm sua fé (LINSCHOTEN, 1997, p. 187). Hindus são genericamente chamados de gentios, mas ele identifica subgrupos: brâmanes, casta sacerdotal, "a nação mais honrada e respeitada entre os gentios" (LINSCHOTEN, 1997, p. 172); nairos, casta guerreira do Malabar, "fidalgos e suseranos" (LINSCHOTEN, 1997, p. 171); e baneanes e guzerates, associados à dieta vegetariana e à "lei de Pitágoras" (LINSCHOTEN, 1997, p. 173). Os termos budista ou jainista não aparecem; ao descrever os banianes como seguidores de Pitágoras, ele agrupa hindus e jainistas. Ele também menciona os cristãos de São Tomé, que seguiam ritos caldeus (LINSCHOTEN, 1997, p. 183-185).
Em suma, a ausência de distinção social é fenômeno interno à sociedade portuguesa, não confusão entre colonizadores e colonizados. A mestiçagem é tratada como degeneração europeia, sem conexão com castas hindus. Embora reconheça brâmanes, nairos e outros, sua classificação segue a lógica europeia da época, dividindo não cristãos em gentios e mouros. Essas observações alimentam a construção discursiva de uma Goa decadente, que tento demonstrar como um Orientalismo, seguindo o convite de Said para a possibilidade de recuar o conceito temporalmente, pois toda produção orientalista legitima discursos que operam na realidade. Agradeço pelas perguntas, que enriquecem a discussão.
Beatriz Bahiense Tavares
Prezada Sra. Beatriz Bahiense Tavares,
Excluireu é que agradeço imensamente pela resposta e pelos esclarecimentos. De fato, trata-se de um objeto de estudo tão denso quanto riquíssimo para explorarmos não apenas questões teóricas e metodológicas circunscritas ao tema do Orientalismo, como também de realidades sociais indianas em contato dinâmico com mentalidades externas ao subcontinente indiano, como as dos portugueses e dos neerlandeses no século XVI E.C. ...
Texto muito interessante! Eu atualmente estou finalizando meu mestrado baseado também no Itinerário de Linschoten, trabalhando principalmente com a descrição do feminino na obra (tanto no contexto indiano quanto americano, trabalhando o sati e o canibalismo). Tenho uma observação justamente sobre o trecho em que você traz a questão da descrição das mulheres, e como bem colocou, descreve as mulheres portuguesas de maneira idêntica às indianas. A minha perspectiva, principalmente em relação à questão do banho, é de que Linschoten não realiza distinção alguma quando vai tratar de mulheres mestiças, nativas ou lusitanas (e creio que nesse caso específico ele esteja se referindo de fato às mestiças ou nativas, principalmente se olharmos para a gravura que acompanha a descrição). Isso se mostra um traço bastante característico quando interpretamos o autor como um dos textos que compuseram a lenda negra (também muito bem elaborado em seu texto), já que as mulheres portuguesas teriam também aderido aos costumes das indianas assim como os homens (embora o número de mulheres portuguesas que de fato migraram para Goa fosse muito pequeno, incentivando assim a política dos casamentos mistos). Sinta-se livre para comentar suas perspectivas sobre essa questão.
ResponderExcluirAgora uma pergunta: Linschoten ainda era católico quando escreveu o Itinerário, mas ao publicá-lo em sua terra natal, se converteu ao calvinismo. Você acredita que esta questão tenha impactado também na questão da rivalidade entre os holandeses e ibéricos?
Novamente, parabenizo seu texto!
Vitória Gabriela da Silva Kohler
Vitória, muito obrigada pelo comentário! Fiquei feliz em saber que há outra pesquisadora no Brasil trabalhando com Linschoten. É uma fonte muito rica que dariam diversas pesquisas com olhares diferentes por muito tempo.
ExcluirConcordo plenamente com sua observação sobre a indistinção entre mulheres portuguesas, mestiças e indianas no Itinerário. De fato, como você bem apontou, Linschoten parece homogeneizar essas mulheres como 'lascivas' e 'descontroladas', e a gravura que acompanha a descrição do banho reforça essa leitura, o que, como você disse, é um traço característico da construção da Lenda Negra. A pergunta que você fez sobre a conversão de Linschoten ao calvinismo é ótima... Mas ainda estou elaborando sobre, preciso ser sincera de que processos de confessionalização não são meu forte então estou arranhando a superfície do assunto, estou elaborando hipóteses apenas... Fiquei curiosa sobre o seu trabalho com o Atlântico e o canibalismo, parece um recorte muito interessante! Eu nunca parei para olhar a parte "Atlântica" do Itinerário. Se quiser trocar figurinhas qualquer hora seria muito edificante.
Beatriz Bahiense Tavares
Ficaria muito feliz em trocarmos ideias!! Eu estou estudando a parte de América pela versão em inglesa de 1598 (infelizmente não temos essa parte do Itinerário em português e é pouco estudada), e ele comenta bastante sobre o canibalismo entre os tupinambás, em uma mesma medida que fala sobre as práticas que ele considera "gentílicas" em Goa.
ExcluirOlá Beatriz, agradeço pelo compartilhar, sua pesquisa é muito interessante.
ResponderExcluirem passagens como "Os portugueses na Índia são casados com as mulheres naturais da terra", há distinções e maiores detalhes sobre se estes casamentos ocorrerem entre elites ou com escravizados?
Gostaria de saber se estes relatos de LINSCHOTEN também mencionam aspectos sobre as artes em Goa daquele periodo? seja por parte dos portugueses e/ou dos indianos. Essa é minha área, a música, e busco refletir sobre o Orientalismo a partir desta parspectiva.
obrigado
Prezado Adriano, agradeço pela leitura atenta e pelas perguntas.
ExcluirSobre a primeira questão, Linschoten distingue sim diferentes tipos de união. Os casamentos formais entre portugueses e "mulheres naturais da terra" – como ele mesmo descreve – geravam os mestiços e faziam parte da estrutura da população civil permanente, os chamados casados, que gozavam de cidadania e privilégios na cidade. Essas mulheres eram, em geral, convertidas ao cristianismo e integravam a classe proprietária urbana, sendo, portanto, distintas das escravizadas. No entanto, Linschoten também é explícito sobre as relações com escravas: ele menciona que, se um homem livre tivesse um filho com uma escrava, o pai tinha um prazo de oito a dez dias para reivindicar a criança e pagar uma taxa para alforriá-la, caso contrário a criança permaneceria escrava. Além disso, ele descreve o uso de escravizadas jovens e bonitas para vender produtos nas ruas, muitas vezes servindo também a propósitos de prostituição velada. Assim, a distinção não era apenas entre elites e não-elites, mas entre mulheres livres (casadas ou não) e escravizadas, com implicações jurídicas e sociais bastante diferentes.
Sobre a segunda pergunta, o Itinerário contém sim observações sobre a música e as artes em Goa, um aspecto que considero promissor para uma abordagem orientalista. Linschoten descreve a música como elemento de prestígio social e ritual: nas cerimônias portuguesas, como casamentos e batizados, era comum a presença de escravos músicos tocando charamelas e trombetas, criando o que ele chama de "melodia adorável", e o vice-rei era acompanhado por esses instrumentos em suas saídas públicas. Já nos rituais hindus, a música é descrita de forma bastante diferente, como "ruído" ou "algazarra", com trombetas, tambores e címbalos acompanhando as procissões dos "pagodes". Linschoten também elogia a habilidade técnica dos artesãos indianos, especialmente na confecção de crucifixos de marfim e outros objetos de arte sacra.
Espero que tenha ajudado a solucionar suas dúvidas.
Beatriz Bahiense Tavares
agradeço imensamente sua resposta Beatriz. Tenho muito interesse de acessar textos relacionados a Goa e os portugueses para compreender melhor a questão da música, e com sua resposta fico ainda mais curioso a respeito! agradeço desde já, e quem sabe no futuro possamos trocar algumas figurinhas quando eu iniciar essa investigação. E precisando de alguma informação sobre música indiana, que possa ser relevante em sua pesquisa, fico ao dispor!
ExcluirEstimada Beatriz,
ResponderExcluirGostei muito do texto. A articulação entre Said e Stuart Hall está bem amarrada ao caso e me ajudou na leitura da própria obra em questão do Hall, em minha leitura o mérito maior de seu texto me parece ser justamente não parar na constatação de que o discurso é estereotipante (algo já estabelecido pelos teóricos articulados) você vai além e conecta a retórica da decadência de Goa a um efeito político concreto a partir do personagem que analise.
Você conhece alguma fonte, trabalho ou outra coisa que tenha mostrado, ainda que muito superficialmente, a visão/percepção do “Outro” sobre o seu personagem? Pergunto isso visto que Linschoten não descreve apenas indianos, mas portugueses também. Algum indiano ou português já discursou sobre o Linschoten? Isso é algo que você pretende abordar em alguém momento?
Entendo que o Itinerário é, por definição, um texto que fala sobre o Outro, não com ele. Você mostra muito bem que Linschoten nivela portugueses e indianos sob os mesmos adjetivos (luxúria, desonestidade, contaminação mútua de costumes), esse nivelamento só é possível porque nenhum dos dois grupos tem voz, se olharmos apenas pela fonte em questão, para recusar a comparação. Você tem pensando em lidar com esse “limite” (condição de possibilidade e realização do discurso do Linschoten que você descreve) documental? Evidente que essa é uma provocação que depende do problema que você propõe para o mestrado.
Outra questão, como lidar com essa fonte metodologicamente? Pergunto isso visto que, a partir do conhecimento que tenho sobre a fonte e, também, pelo presente texto dá para entender que Linschoten é autor de pinturas (gravuras), mas também texto escrito e em ambos há representação do Outro.
Att,
Victor Hugo de Mattos Trindade.
Prezado Victor,
ResponderExcluirObrigada pelo comentário e pelas perguntas. Fico feliz que a conexão entre o discurso e o efeito político tenha ficado clara!
Sobre a sua pergunta a respeito da visão do "Outro" sobre Linschoten: você tem toda razão, o Itinerário é um texto que fala sobre o Outro, não com ele. Essa assimetria é, de fato, uma condição de possibilidade do discurso que estou analisando. Não tenho conhecimento de fontes que registrem uma "resposta" direta de indianos ou portugueses a Linschoten (embora haja críticas portuguesas contemporâneas que circulavam entre eles, como mostram alguns estudos recentes). Por ora, meu foco está em entender como o texto constrói essa imagem e para que público, mais do que em recuperar vozes que possam tê-la contestado, o que, reconhecidamente, seria um outro projeto.
Sobre a metodologia: sim, as gravuras são parte importante da fonte, e pretendo levá-las em conta como parte do discurso visual do livro, mas ainda estou definindo o peso que terão na análise. No momento, estou mais concentrada na textualidade, mas sem descartar a dimensão imagética.
Suas perguntas tocam em questões que ainda estou amadurecendo, e agradeço pela provocação.
Beatriz Bahiense Tavares
Cara srª Beatriz Tavares, primeiramente gostaria de parabenizá-la pelo texto.
ResponderExcluirLendo seu material, me surgiram algumas questões sobre a fundamentação teórica da sua investigação sobre o Linschoten, principalmente devido ao léxico empregado no texto.
Você mobilizou a ideia de que Linschoten produz um “discurso” que, a partir da categoria de orientalismo de Said, pode ser lido como uma forma de produzir uma hierarquização dentro de uma construção de poder. Neste sentido, o termo “discurso” remete especificamente a qual corrente teórica? De imediato pensei na linguística e na Escola de Cambridge, mas não sei se essas são de fato suas referências.
Uma segunda questão foi que em alguns momentos você usa “Outro” com inicial maiúscula quando trata da construção discursiva de Linschoten, o que me levou a questionar se você utiliza do ferramental teórico da Antropologia para avaliar essa relação com o "outro". Na sua pesquisa você incorpora ou planeja incorporar o conceito de “alteridade” ou “outridade” como ferramenta para ajudar a pensar o discurso essencializante de Linschoten?
Sua proposta é bem interessante, e, como o espaço para os textos é relativamente breve, gostaria de saber um pouco mais sobre o quadro teórico da sua pesquisa. Desde já agradeço sua atenção.
— Lucas Oliveira dos Santos Albuquerque
Este comentário foi removido pelo autor.
ExcluirOlá Lucas, muito obrigada por ter lido e comentado!
ExcluirPergunta 1: Sobre o termo "discurso": ele vem da tradição pós-estruturalista, sobretudo de Foucault, e é mediado por Edward Said. A Escola de Cambridge, com sua ênfase nas intenções dos autores, não é minha referência. Até porque Nuno Vila-Santa já fez esse trabalho com Linschoten. Minha pergunta é outra: o que o Itinerário produz, independentemente do que Linschoten "quis dizer", e como ele opera.
Pergunta 2: Sobre o "Outro" com maiúscula: não é uma apropriação direta da antropologia. Mobilizo a leitura que Said faz da construção do Oriente como outro essencializado, criado por oposição ao Ocidente. Não pretendo neste momento, trabalhar com noções de alteridade ou agência dos representados, meu foco está na operação discursiva em si, não nos sujeitos representados.
Beatriz Bahiense Tavares
Prezada Beatriz
ResponderExcluirEstava procurando textos sobre a Índia aqui no simpósio quando tive a agradável surpresa de ver seu texto. Achei muito interessante e não conhecia a obra de Linschoten. Mais que uma pergunta em relação aos pontos expostos, eu tenho uma curiosidade. Na passagem "Os portugueses na Índia são casados com as mulheres naturais da terra", há algum comentário a respeito da casta ou religião destas mulheres? Apesar de minha pesquisa em relação à Índia não ser sobre a Goa portuguesa, eu tenho muito interesse nas relações interpessoais entre indianos e europeus. Mais uma vez, parabéns pelo trabalho e sucesso na sua pesquisa!
O comentário acima foi escrito por mim, mas acabei esquecendo de me identificar.
ResponderExcluirOlá Juliana, obrigada por ler e comentar. Minha chegada ao seu texto foi um caminho semelhante, eu estava procurando quem estivesse falando dos holandeses e me deparei, felizmente, com sua comunicação. Comentei mais coisas por lá, falando nisso.
ExcluirAgora respondendo a sua pergunta: sua questão ressoa com de colegas acima, sobre mais características dessas mulheres indianas que se casavam com os portugueses. Jan Huyghen van Linschoten relata que os portugueses na Índia frequentemente se casavam com as "mulheres naturais da terra", as quais eram majoritariamente convertidas ao cristianismo e seguiam as cerimônias da Igreja Romana. Embora os seus relatos não detalhem a casta original dessas mulheres no sistema hindu, o autor foca na classificação racial e social da colônia: os descendentes dessas uniões eram chamados de mestiços, distinguindo-se dos "castiços" (filhos de pais portugueses nascidos na Índia), havendo uma progressão onde, na terceira geração, os descendentes se assemelhavam totalmente aos nativos em cor e feições. Socialmente, estas mulheres viviam de forma muito resguardada, saindo raramente à rua e sempre em palanquins cobertos para não serem vistas. Além dos casamentos formais, Linschoten distingue as relações com mulheres escravizadas, cujos filhos podiam ser alforriados mediante o pagamento de uma taxa, observando ainda que algumas escravas eram utilizadas pelos seus senhores para o comércio de rua que, por vezes, servia de fachada para a prostituição em benefício dos donos.
Espero ter esclarecido sua dúvida!
Prezada Beatriz Bahiense Tavares,
ResponderExcluirGostaria de parabenizá-la pela pesquisa e pela comunicação que, particularmente, me interessa bastante; principalmente no que tange ao uso de metáforas do mundo natural como categorias do universo social e cultural, a exemplo da comparação, por Linschoten das mulheres portuguesas com bois e vacas que ruminam.
1) Neste sentido, pergunto se conseguiu identificar mais comparações como essa nas demais passagens do texto do Itinerário de Linschoten? E, em caso afirmativo, todas elas surgem atreladas a um exercício de animalizar os portugueses?
Acredito que seja o caso de inferir, com base no próprio texto citado de Nuno Vila-Santana (2024), se tratar de mais uma “apropriação” por parte dos Neerlandeses de algo que já estava sendo elaborado pelos portugueses. Principalmente linguistas, como Hugo Cardoso (2018; 2019; 2020), são bastante eficientes em demonstrar a sobrevivência da língua portuguesa ao domínio português, mesmo depois da perda de influência e de territórios para os ingleses, franceses e holandeses. Na edição do Itinerário (1997) que utiliza, há uma parte intitulada “Influências Portuguesas e Luso-asiáticas na terminologia do Itinerário” (pp.45-51), escrita por Arie Pos, tradutor literário de português para neerlandês, na qual Pos enfatiza justamente o fato de Linschoten ter introduzido nos Países Baixos “um vasto leque de palavras novas, provenientes do português e das mais variadas línguas orientais, todas elas ligadas à realidade do comércio, da navegação e da convivência luso-asiática, assim como à cultura dos povos orientais”. Igualmente na mesma edição, na seção reservada às gravuras e aos mapas que faziam parte da primeira edição original, que se conservam na Biblioteca Real de Haia (1702 B 4:1) e no Museu Marítimo “Prins Hendrik” em Roterdão, Rui Manuel Loureiro aborda a questão da autenticidade dos mapas e gravuras atribuídos à Linschoten, que foi questionada por autores como Armando Cortesão. Loureiro conclui que a riqueza de detalhes e as dedicatórias (em português) identificadas nas imagens seriam bons indícios de que elas de fato foram feitas por Linschoten.
2) Neste sentido, a manutenção do vocabulário e de práticas discursivas portuguesas (como a intersecção entre o léxico social e o natural) pelos neerlandeses além de criar as “condições de substituição de um império por outro”, não poderia ser também uma necessidade, já que, como destaca Loureiro, “seria inútil inventar de antemão uma nomenclatura holandesa, especialmente nos domínios da geografia, da navegação e do comércio, para um mundo ainda desconhecido onde ninguém falava o holandês” ?
Cordialmente,
Thays Alves Rodrigues
Olá, Thays! Muito obrigada pela leitura atenta e pelo comentário.
ExcluirFico feliz que o texto tenha rendido reflexões, e confesso que fiquei impressionada com o seu conhecimento sobre a edição do Itinerário de 1997, é difícil encontrar colegas que tenham tido acesso a essa edição.
Sobre a sua primeira pergunta, sobre as comparações animalizantes: sim, reparei nessas passagens, especialmente na comparação das mulheres que mascam bétele com bois e vacas que ruminam. Me parece que essas imagens funcionam como um reforço do efeito geral de desumanização que atravessa o discurso de Linschoten, mas, para ser sincera, não é um aspecto que eu esteja aprofundando neste momento, meu foco está em outras camadas do texto e a produção do texto, que considero mais centrais para as perguntas que estou fazendo.
No mais, suas questões apontam para dimensões muito ricas do Itinerário, especialmente a relação entre vocabulário, circulação linguística e a sobrevivência do português no Oriente, que é um ângulo pouco explorado. Se você tiver interesse em compartilhar mais sobre sua própria pesquisa, adoraria saber, me parece que você também está mergulhada em questões muito instigantes sobre essa fonte.
Beatriz Bahiense Tavares