A face oculta da Onda Coreana: direitos humanos, disciplina e exploração na indústria do K-pop contemporâneo por Ana Helena Leite de Araujo

  

Introdução

Hallyu, ou “Onda Coreana”, é o nome dado ao fenômeno de disseminação global da cultura sul-coreana, especialmente sua música (K-pop), dramas televisivos, filmes e moda. Este movimento consolidou-se nas últimas duas décadas como um dos mais relevantes processos de circulação cultural do mundo contemporâneo. O K-pop, enquanto expressão central desse movimento, transcendeu fronteiras nacionais e se estabeleceu como uma indústria global altamente lucrativa, combinando música, performance, audiovisual e estratégias sofisticadas de marketing cultural. A projeção internacional de grupos como BTS, BLACKPINK e outros consolidou a Coreia do Sul como um importante polo de soft power no cenário global.

 

Entretanto, por trás da estética altamente polida, da narrativa de sucesso global e da imagem de modernidade cultural, emergem tensões estruturais significativas que revelam um cenário de forte disciplinamento dos corpos, precarização do trabalho artístico e problemáticas relacionadas aos direitos humanos de artistas em formação e idols já inseridos no mercado. Deste modo, este trabalho propõe analisar o lado oculto da Onda Coreana a partir de uma perspectiva crítica, destacando como a indústria do K-pop opera como um sistema altamente regulado que combina produção cultural e controle biopolítico, partindo da seguinte problematização: de que maneira a indústria do K-pop, enquanto componente central da Hallyu, articula mecanismos de produção cultural com formas contemporâneas de disciplina, controle e possíveis violações de direitos humanos?

 

A hipótese central defendida é que o K-pop não pode ser compreendido apenas como produto cultural globalizado, mas também como um sistema altamente disciplinar de produção de subjetividades artísticas, no qual a lógica do sucesso está diretamente associada a regimes intensivos de treinamento, controle corporal e precarização do trabalho criativo.

 

Assim, o objetivo principal do presente artigo é investigar de que maneira a lógica industrial do K-pop, sustentada por grandes empresas de entretenimento sul-coreanas, produz um modelo de trabalho que tensiona os limites entre treinamento artístico, exploração laboral e construção de subjetividades. Argumenta-se que o sucesso global da Onda Coreana está diretamente relacionado a um sistema rigoroso de treinamento (trainee system), no qual jovens aspirantes são submetidos a rotinas intensas de ensaio, restrições contratuais, controle de imagem e vigilância constante, levantando questões éticas sobre autonomia, saúde mental e direitos trabalhistas.

 

Metodologicamente, o estudo se baseia em revisão bibliográfica interdisciplinar, dialogando com autores de estudos culturais, sociologia do trabalho e teoria crítica da cultura, além de análise de casos amplamente documentados na mídia internacional e relatórios sobre a indústria do entretenimento sul-coreano. O texto também considera a relação entre a expansão global do K-pop e a construção do soft power sul-coreano, analisando como a imagem positiva exportada internacionalmente pode ocultar estruturas internas de desigualdade e pressão institucional.

 

Entre os principais achados, destaca-se que o sistema do K-pop opera sob uma lógica de produção intensiva de performance, na qual a perfeição estética e comportamental é continuamente exigida dos artistas, gerando impactos significativos na saúde física e psicológica dos idols. Casos de exaustão, depressão e encerramento precoce de carreiras evidenciam as contradições entre a narrativa global de sucesso e as condições reais de trabalho. Além disso, contratos de longa duração e cláusulas restritivas limitam a liberdade individual dos artistas, reforçando a discussão sobre direitos humanos no contexto das indústrias culturais contemporâneas.

 

O trabalho também discute como a Hallyu, enquanto instrumento de soft power, contribui para a construção de uma imagem internacional positiva da Coreia do Sul, ao mesmo tempo em que invisibiliza as tensões internas do sistema. Nesse sentido, a análise busca compreender o K-pop não apenas como produto cultural, mas como um campo de disputa simbólica entre visibilidade global e controle estrutural.

 

Conclui-se que a indústria do K-pop representa um caso emblemático das contradições da globalização cultural contemporânea, na qual o entretenimento e a mercantilização da cultura coexistem com formas sofisticadas de disciplinamento e exploração do trabalho criativo. Assim, a Onda Coreana deve ser compreendida não apenas como fenômeno de expansão cultural, mas também como espaço de tensões éticas e políticas que desafiam narrativas simplificadas de sucesso global.

 

A construção do K-pop como indústria global

A consolidação do K-pop como fenômeno global está diretamente ligada à estratégia conjunta do Estado sul-coreano e das empresas de entretenimento para promover a cultura nacional como instrumento de inserção internacional. A partir da década de 1990, especialmente após o processo de democratização e das transformações econômicas ocorridas no país, o governo passou a reconhecer as indústrias culturais como um setor estratégico tanto para o desenvolvimento econômico quanto para a projeção internacional da Coreia do Sul (LEE, 2009; BILLIG; SILVA, 2022). Nesse contexto, a difusão da Hallyu passou a integrar uma política mais ampla de diplomacia cultural, aproximando-se do conceito de soft power, definido por Nye (2004) como a capacidade de influenciar outros atores por meio da atração cultural, de valores e de políticas, em vez da coerção.

 

Nesse cenário, as grandes agências de entretenimento sul-coreanas desempenharam papel central na profissionalização da produção musical, estruturando um modelo industrial altamente organizado e voltado para a exportação de produtos culturais. A atuação dessas empresas, em articulação com políticas públicas de promoção da cultura, contribuiu para a consolidação da Hallyu como fenômeno global (LEE, 2009; BILLIG; SILVA, 2022; GENTIL, 2023). Esse modelo é caracterizado pelo sistema de trainees, no qual jovens aspirantes são submetidos a longos períodos de treinamento em canto, dança, idiomas e comportamento midiático antes de debutarem como idols. Tal modelo tornou-se uma das principais características da indústria do entretenimento asiática, distinguindo os idols de grande parte das celebridades ocidentais pela centralidade do treinamento sistemático e da preparação profissional.

 

Esse processo de formação intensivo é frequentemente apresentado como um mecanismo de excelência artística, associado ao alto nível técnico e à competitividade global dos grupos de K-pop, inserindo-se em uma lógica de profissionalização da indústria cultural sul-coreana (LEE, 2009; BILLIG; SILVA, 2022). No entanto, esse modelo também suscita debates sobre os limites entre formação profissional e exploração laboral, especialmente considerando as condições rigorosas às quais os trainees são submetidos, incluindo longas jornadas de treinamento, alta disciplina e ausência de garantias de debut (CHASE, 2023). Ademais, a participação de indivíduos em idade precoce nesse sistema intensifica as discussões sobre vulnerabilidade, pressão estrutural e assimetrias de poder presentes na indústria do entretenimento sul-coreano.

 

Trabalho, disciplina e controle dos corpos

Como esse processo de treinamento se estende por longos períodos, os chamados trainees costumam iniciar sua formação artística em idade precoce, frequentemente durante a adolescência, inserindo-se em um sistema altamente competitivo e estruturado (CHASE, 2023). Em alguns casos, observa-se a dedicação integral às atividades de treinamento, o que pode implicar na interrupção de trajetórias educacionais formais e na centralização da rotina na preparação artística. Trata-se de um modelo no qual a incerteza quanto ao debut é significativa, já que nem todos os trainees conseguem estrear como idols de sucesso, o que evidencia a natureza seletiva e excludente do sistema.

 

Dessa forma, o sistema do K-pop pode ser interpretado como um regime de disciplina estética e comportamental altamente estruturado, no qual o cotidiano dos artistas é organizado de maneira rigorosa, envolvendo longas jornadas de treinamento, controle de imagem pública e forte supervisão institucional. Inserido em uma lógica de produção cultural industrializada, esse modelo articula práticas de profissionalização intensiva com mecanismos de controle que regulam não apenas a performance artística, mas também aspectos da vida pessoal dos indivíduos (LEE, 2009; BILLIG; SILVA, 2022).

 

É possível argumentar que parte das exigências presentes na indústria dos idols pode ser interpretada à luz de valores culturais associados ao confucionismo, os quais historicamente exercem influência significativa sobre a sociedade sul-coreana no que diz respeito à disciplina, hierarquia e ética do trabalho (SILVA, 2016; HONDA, 2024). Nesse contexto, tais valores são frequentemente mobilizados para justificar práticas de dedicação intensa e de renúncia parcial de liberdades individuais, compreendidas como contributos para o desenvolvimento econômico e para a eficiência produtiva, tanto no plano nacional quanto no âmbito da indústria cultural (MOREIRA; BASTOS, 2023). No entanto, essa interpretação não elimina a necessidade de problematizar os limites entre disciplina e exploração, uma vez que o sistema do K-pop envolve estruturas de controle e pressão que têm sido amplamente discutidas na literatura contemporânea sobre a indústria do entretenimento sul-coreano (CHASE, 2023; MARTÍNEZ, 2025; LAWRENCE, 2024).

 

No que diz respeito à exploração dos artistas, um fenômeno amplamente discutido na literatura crítica e na mídia especializada é a existência de contratos frequentemente descritos como “slave contracts”, que vinculam artistas a empresas de entretenimento em compromissos de longa duração e sob condições altamente restritivas (CHASE, 2023; LAWRENCE, 2024). Esses contratos são caracterizados por formas de controle que abrangem não apenas a atividade profissional, mas também aspectos da vida pessoal dos idols, incluindo sua aparência, comportamento, relacionamentos e uso de redes sociais. Embora tenham sido implementadas medidas regulatórias para mitigar abusos no setor, relatos de práticas problemáticas ainda são recorrentes em análises acadêmicas e reportagens jornalísticas sobre a indústria do K-pop (MARTÍNEZ, 2025; SAEJI, 2019).

 

Além disso, em alguns casos, observa-se a existência de mecanismos de recuperação de investimentos realizados durante o período de treinamento por parte das empresas, o que pode resultar em condições econômicas desfavoráveis para artistas recém-debutados, especialmente nos primeiros anos de carreira (CHASE, 2023; LEE, 2009). Esse conjunto de fatores contribui para debates sobre a precarização do trabalho artístico na indústria cultural sul-coreana e sobre os limites entre investimento formativo e exploração laboral.

 

Além das jornadas intensas de trabalho, os idols são submetidos a um regime de alta exigência que envolve não apenas desempenho vocal e coreográfico, mas também padrões rigorosos de comportamento, imagem e performance pública (CHASE, 2023; LAWRENCE, 2024). Nesse contexto, a indústria do K-pop estabelece expectativas de perfeição que se estendem para múltiplas dimensões da atuação artística, reforçando a necessidade de constante vigilância sobre a própria conduta e aparência.

 

Os padrões estéticos na indústria cultural sul-coreana são igualmente elevados, contribuindo para a construção de uma imagem altamente padronizada e idealizada dos grupos de K-pop. Essa padronização envolve controle de imagem, disciplina corporal e gestão da performance pública, aspectos frequentemente associados à lógica de produção industrial da cultura (LEE, 2009; BILLIG; SILVA, 2022). Em alguns casos relatados na literatura jornalística, observa-se a presença de práticas como dietas rigorosas e forte controle sobre o corpo dos artistas, o que intensifica debates sobre os impactos físicos e psicológicos desse modelo de produção cultural (MARTÍNEZ, 2025).

 

Dessa forma, a pressão estética pode ser compreendida como um elemento estrutural da indústria cultural sul-coreana, articulado à lógica de competitividade global e à necessidade de construção de uma imagem homogênea e internacionalmente consumível (LEE, 2009; MOREIRA; BASTOS, 2023).

 

Do ponto de vista teórico, esse sistema pode ser compreendido à luz da noção de biopolítica desenvolvida por Michel Foucault, na qual o poder moderno se exerce não apenas por meio de instituições repressivas, mas também pela gestão, disciplina e otimização dos corpos e das condutas. Sob essa perspectiva, a indústria do K-pop pode ser interpretada como um espaço em que os corpos dos artistas são treinados, regulados e constantemente monitorados, de modo a produzir performances altamente padronizadas e culturalmente exportáveis. Esse processo envolve não apenas o aprimoramento técnico das habilidades artísticas, mas também o controle da imagem, da conduta e da subjetividade dos idols, inserindo-os em uma lógica de disciplina contínua (FOUCAULT, 1977; CHASE, 2023; LEE, 2009; BILLIG; SILVA, 2022).

 

Direitos humanos e impactos subjetivos

Para os artistas que conseguem se estabelecer na indústria, a trajetória profissional ainda é marcada por condições de alta exigência e instabilidade. A literatura crítica e reportagens sobre o setor indicam a existência de relatos recorrentes de pressões estruturais e formas de exploração associadas ao funcionamento da indústria do entretenimento sul-coreana (MARTÍNEZ, 2025; LAWRENCE, 2024). Nesse contexto, observam-se jornadas extensas de trabalho e condições econômicas frequentemente desfavoráveis, especialmente nos estágios iniciais da carreira, o que evidencia a assimetria de poder entre artistas e empresas de entretenimento (CHASE, 2023; LEE, 2009).

 

No que diz respeito ao psicológico dos artistas, a pressão para atingir padrões altamente exigentes na indústria do K-pop tem sido associada, na literatura crítica e em reportagens jornalísticas, a impactos significativos na saúde mental dos idols (MARTÍNEZ, 2025; LAWRENCE, 2024). Inseridos em um sistema de alta competitividade e vigilância constante, os artistas asiáticos estão sujeitos a níveis elevados de estresse e pressão psicológica ao longo de suas carreiras, desde o período de treinamento até a atuação profissional.

 

Embora se observe uma crescente conscientização social sobre questões relacionadas à saúde mental, ainda há indícios de que estigmas culturais podem dificultar a busca por apoio psicológico em determinados contextos sociais sul-coreanos, especialmente quando associados à exposição pública e ao setor do entretenimento (SILVA, 2016; HONDA, 2024). Nesse cenário, os impactos do modelo industrial do K-pop ultrapassam o âmbito estritamente profissional, afetando dimensões físicas e psicológicas da vida dos artistas.

 

Casos de exaustão, ansiedade, depressão e suicídio envolvendo artistas da indústria do entretenimento coreano têm sido relatados em diferentes estudos e reportagens, contribuindo para debates mais amplos sobre a sustentabilidade humana desse modelo de produção cultural (MARTÍNEZ, 2025; LAWRENCE, 2024).

 

Além disso, há registros de casos de abuso e assédio dentro da indústria, tanto no âmbito institucional quanto em escândalos amplamente divulgados, como o caso Burning Sun, que expôs problemas estruturais relacionados ao ambiente de trabalho no setor do entretenimento coreano (SAEJI, 2019). Esses episódios contribuem para debates mais amplos sobre os limites entre a profissionalização da indústria cultural e a persistência de práticas abusivas no interior desse sistema.

 

Também é importante ressaltar o impacto da cultura de ‘’fandom’’ - entendida como o conjunto de comunidades organizadas de fãs que compartilham práticas de consumo e engajamento coletivo em torno de artistas e produtos culturais - na indústria cultural sul-coreana, visto que ela desempenha papel central na dinâmica de consumo do K-pop, sendo frequentemente associada à construção de vínculos emocionais intensos entre fãs e artistas. Embora esses vínculos possam ser interpretados como parte da estratégia de engajamento da indústria cultural global, também podem assumir formas problemáticas, incluindo comportamentos de posse simbólica, assédio online e conflitos entre grupos de fãs. Em casos mais extremos, como o fenômeno dos chamados sasaeng fans, observa-se a invasão da privacidade e perseguição de artistas, evidenciando os limites entre admiração e comportamento invasivo (MARTÍNEZ, 2025; SAEJI, 2019).

 

Nesse contexto, também é recorrente a projeção de expectativas sobre a manutenção de determinadas “personas públicas” por parte dos idols, de modo que desvios dessa imagem podem gerar reações negativas e processos de rejeição simbólica no ambiente digital. Esse fenômeno tem sido associado a dinâmicas contemporâneas de cancelamento e exposição pública, que impactam diretamente a saúde mental e a trajetória profissional dos artistas (LAWRENCE, 2024; AMADO, 2022).

 

Casos específicos envolvendo artistas amplamente divulgados pela mídia internacional têm sido frequentemente mobilizados nesses debates, ilustrando como a interação entre fama, exposição digital e julgamento público pode gerar consequências severas para a vida pessoal e profissional dos indivíduos.

 

Assim, embora o K-pop seja frequentemente celebrado como símbolo de modernidade e sucesso global, esses elementos indicam a existência de tensões profundas entre a narrativa de excelência cultural e as condições materiais de produção dessa mesma excelência.

 

Soft power e invisibilização das tensões

Entende-se assim que a expansão global do K-pop está diretamente associada à estratégia de soft power da Coreia do Sul, que utiliza a cultura como instrumento de projeção internacional positiva (NYE, 2004; LEE, 2009; MATHIAS, 2023). Essa estratégia tem se mostrado altamente eficaz em termos de alcance global, influência cultural e geração de valor econômico, inserindo a Hallyu em um contexto mais amplo de diplomacia cultural e política externa. No entanto, esse processo pode também produzir uma dinâmica de ênfase seletiva de determinados elementos da indústria cultural, contribuindo para a construção de uma imagem internacional predominantemente positiva do K-pop. Desta forma, aspectos críticos relacionados às condições internas de produção e às tensões estruturais da indústria tendem a ser menos visibilizados no consumo global do fenômeno (SAEJI, 2019; MARTÍNEZ, 2025; LAWRENCE, 2024).

 

Esse fato pode ser compreendido como parte de uma dinâmica mais ampla de construção de narrativas culturais no âmbito do soft power, na qual determinados elementos são amplificados enquanto outros são relativizados ou obscurecidos, de modo a preservar a eficácia simbólica do produto cultural exportado (NYE, 2004; LEE, 2009; MATHIAS, 2023).

 

Nesse sentido, o K-pop opera simultaneamente como produto cultural e como instrumento de projeção política e econômica, inserido em uma rede complexa de interesses estatais, industriais e simbólicos associados à estratégia de soft power sul-coreana (BILLIG; SILVA, 2022; KAWANO, 2021; GENTIL, 2017).

 

Considerações finais

Este trabalho buscou analisar a indústria do K-pop para além de sua dimensão estética e de entretenimento, destacando as contradições estruturais que sustentam sua expansão global. Argumentou-se que a Onda Coreana, embora represente um dos mais bem-sucedidos casos de difusão cultural contemporânea, também evidencia formas sofisticadas de disciplina, controle e precarização do trabalho artístico.

 

Ao compreender o K-pop como um sistema de produção cultural inserido em lógicas industriais e biopolíticas, torna-se possível problematizar a relação entre cultura, economia e direitos humanos no contexto da globalização contemporânea. A análise sugere que o sucesso global do K-pop não pode ser dissociado das condições estruturais que o tornam possível, o que implica reconhecer tanto suas conquistas culturais quanto suas contradições éticas.

 

Dessa forma, a Onda Coreana deve ser interpretada não apenas como fenômeno de soft power, mas como campo de disputa entre visibilidade global e invisibilização de tensões sociais internas, revelando as complexidades da produção cultural no século XXI.

 

Em conclusão, embora a Onda Coreana tenha um papel importante cultural e economicamente para a Coreia do Sul, é necessário reconhecer que existe um lado bastante sombrio nessa indústria, especialmente em relação à exploração dos artistas, aos desafios de saúde mental e às pressões da fama. Portanto, se a indústria do entretenimento coreano não quiser enfrentar mais processos judiciais e casos de suicídio, é fundamental que o sistema passe a tratar seus idols pelo que eles são: seres humanos, e não produtos.

 

Referências

AMADO, Amanda Victoria Seabra. O processo de aculturação de consumidores brasileiros de produtos culturais sul-coreanos e seus comportamentos de consumo à luz do Efeito Diderot. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2022.

 

BILLIG, Osvaldo Alencar; SILVA, Amanda Paiva da. A expansão do Hallyu: o uso da diplomacia cultural e seus impactos na economia sul-coreana. Revista Conjuntura Global, v. 11, n. 1, 2022.

 

CHASE, Scottie Andrew. K-pop star power kicks off Trump’s visit to South Korea. CNN, 2019.

 

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1977.

 

GENTIL, Dominique Ribeiro. Diplomacia cultural sul-coreana: uma reflexão sobre o papel do KOFICE e sua atuação com as mídias brasileiras. Repositório Institucional UNILA, 2017.

 

HONDA, Débora Hisae. A febre educacional sul-coreana, passado e presente: o paradoxo entre tradição e desenvolvimento. Revista Humanidades e Inovação, v. 9, n. 16, 2022.

 

KAWANO, Breno Kenji. Diplomacia cultural como forma de exercício de poder: soft power coreano. Repositório UNICEUB, 2021.

 

LAWRENCE, Ben. My heart still hurts: the personal sacrifice of revealing a K-pop scandal. BBC News, 2024.

 

LEE, Geun. A soft power approach to the “Korean Wave”. The Review of Korean Studies, v. 12, n. 2, 2009.

 

MARTÍNEZ, Héctor Luis et al. The dark side of South Korea’s lucrative cultural wave: suicides and online harassment. El País, 2025.

 

MATHIAS, Letícia Batista. Política externa sul-coreana – O Hallyu enquanto política de Estado estratégica de soft power. Relações Exteriores, 2023.

 

MOREIRA, Uallace; BASTOS, Pedro Paulo Zahluth. Desenvolvimento convidado ou projetado? Dependência, estado e capital nacional no desenvolvimento capitalista na Coreia do sul. Rev. econ. contemp. 27 • 2023 • https://doi.org/10.1590/198055272712

 

NYE JR., Joseph S. Soft power: the means to success in world politics. New York: PublicAffairs, 2004.

 

SAEJI, Chisato. K-pop politics: Burning Sun club scandal scorches South Korea’s image. East Asia Forum Quarterly, 2019.

 

SILVA, Rodrigo Luiz Medeiros da. Capitalismo, confucionismo e teoria weberiana: reflexões empíricas sobre o caso sul-coreano. SciELO, 2016.

 

12 comentários:

  1. Ana Helena, parabéns pelo texto. Achei bastante interessante as questões levantadas por você. Minha pergunta está direcionada as possiveis tentativas da industria Sul Coreiana em mitigar as diversas críticas sobre o treinamento rigoroso na construção dos seus ídolos. Você pode apontar alguma?
    Att, Elaine Alves da Silva.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ana Helena Leite De Araujo8 de julho de 2026 às 01:01

      Olá, Elaine! Muito obrigada pela leitura e pela pergunta.

      Sim, é possível identificar algumas tentativas da indústria sul-coreana de responder às críticas relacionadas ao sistema de treinamento e às condições de trabalho dos idols. Nos últimos anos, especialmente após casos de grande repercussão envolvendo saúde mental, jornadas exaustivas e falecimentos de artistas, algumas empresas passaram a anunciar medidas como a oferta de acompanhamento psicológico, períodos de descanso mais frequentes, revisão de contratos considerados abusivos e maior transparência em determinadas práticas de treinamento.

      Além disso, houve um aumento da fiscalização por parte de órgãos governamentais, como a Comissão de Comércio Justo da Coreia do Sul, que revisou cláusulas contratuais para reduzir abusos nos chamados "contratos de escravidão", bastante criticados durante os anos 2000 e início da década de 2010.

      No entanto, acredito que essas iniciativas ainda enfrentam limites importantes. A competitividade da indústria, a pressão por desempenho impecável e a necessidade de atender às expectativas do mercado global fazem com que muitos dos problemas estruturais permaneçam presentes. Então, embora existam, sim, avanços e um debate público cada vez mais intenso sobre o tema, as mudanças ainda parecem insuficientes para transformar de forma mais profunda o modelo de funcionamento da indústria do K-pop.

      Mais uma vez, agradeço pela pergunta e pela oportunidade de aprofundar essa discussão!

      Atenciosamente,

      Ana Helena Leite de Araujo

      Excluir
  2. Cheron Gonçalves de Pinho7 de julho de 2026 às 22:39

    Olá, Ana Helena. Trabalho muito pertinente no que diz respeito ao sistema de trabalho dos idols do k-pop. Achei interessante a parte em que você fala sobre os fãs, já que meu trabalho também analisou um conto de ficção sul coreano que aborda a relação obsessiva entre uma fã e um idol. Minha pergunta é sobre a produção criativa. Você acha que o sistema rigoroso de treinamento de artistas na Coreia do Sul pode limitar a criatividade dos artistas mais do que no mundo ocidental?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ana Helena Leite De Araujo8 de julho de 2026 às 00:53

      Olá, Cheron! Obrigada pelo interesse e pela pergunta.

      Respondendo objetivamente, acredito que sim. O treinamento de artistas na Coreia do Sul é um sistema tão rigoroso que eu quase compararia a um treinamento militar. Porém, além desses anos de treinamento que servem para ''moldar'' os artistas, acho importante ressaltar que a própria cultura sul-coreana também pode favorecer este fenômeno, já que é uma cultura que valoriza muito o conceito de ''unidade'', como se todos os sul-coreanos fossem do mesmo grupo, iguais. Diferentemente do Brasil, onde aprendemos a valorizar diversidade, a Coreia costuma buscar padronização, e acredito que isso faça uma ''poda'' na liberdade e na criatividade dos idols como artistas. É claro que isso não significa que artistas asiáticos não façam nenhum uso de criatividade, porém acredito que essa busca por perfeição e padronização, sendo mais forte na Ásia, contribua, sim, para uma limitação na liberdade artística.

      Agradeço mais uma vez a sua pergunta!

      Atenciosamente,

      Ana Helena Leite de Araujo

      Excluir
  3. Olá, Ana!

    Espero que esteja bem.

    Queria parabenizá-la pelo seu texto, o tema é muito relevante considerando as tensões e as denúncias que diversos idols fizeram sobre a indústria. Eu tenho três perguntas. Sabemos que a indústria do J-pop influenciou diretamente na construção do K-pop. Você acredita que os treinamentos rigorosos e as altas exigências possam ser provenientes do molde japonês?

    Ademais, com a transportação do Kpop para o ocidente, com músicas em inglês em alta, grupos globais como KATSEYE, GIRLSET, SANTOS BRAVOS, entre outros, passam a existir e são agenciados por empresas coreanas. Você acredita que a rigidez no trato com os grupos com pessoas não-coreanas seja menor?

    Por último, você mencionou o caso Burning Sun, o que me chamou muita atenção. Você acredita que o gênero é uma categoria que pode agravar as exigências esperadas por empresas e fãs?

    Adorei o seu artigo! Estou ansiosa para ouvir o que você tem a apontar.

    Abraços,

    Gabriela Alves Silva.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ana Helena Leite De Araujo9 de julho de 2026 às 22:29

      Olá, Gabriela!

      Muito obrigada pela leitura e pelas perguntas tão instigantes. Fico muito feliz que o artigo tenha despertado essas reflexões!

      Sobre sua primeira pergunta, acredito que a indústria do J-pop exerceu, sim, uma influência importante na formação do K-pop, especialmente na estrutura dos grupos, no sistema de treinamento e na construção da relação entre artistas e fãs. Entretanto, considero que a indústria sul-coreana desenvolveu um modelo próprio, muito mais sistematizado e intensivo. O sistema de trainees coreano passou a integrar treinamento artístico, aprendizado de idiomas, controle da imagem pública, preparação física e comportamental, além de um investimento muito forte voltado ao mercado internacional. Então, embora existam influências japonesas, acredito que a rigidez atual seja resultado de uma combinação entre essas influências e as estratégias desenvolvidas especificamente pela Coreia do Sul em sua indústria cultural.

      Quanto aos grupos globais, acredito que ainda seja cedo para afirmar como esse modelo vai se consolidar. No entanto, é possível observar que, embora continuem seguindo diversos padrões da indústria coreana, esses projetos precisam se adaptar às legislações trabalhistas e às expectativas culturais dos países onde seus integrantes vivem e atuam. Isso pode reduzir algumas práticas mais rígidas, principalmente quando pensamos na carga de trabalho, nos contratos e no bem-estar dos artistas. Ainda assim, a lógica de alta performance, disciplina e competitividade intensa continua sendo uma característica central desses grupos, visto que estão inseridos no contexto da indústria do K-pop.

      Por fim, acredito que o gênero é, sem dúvida, uma categoria fundamental para compreender essas exigências. As expectativas direcionadas às mulheres costumam envolver padrões extremamente rígidos de aparência, comportamento e controle da vida privada. Já os homens também enfrentam cobranças intensas relacionadas à masculinidade, desempenho e manutenção de uma imagem considerada "ideal". O caso Burning Sun evidencia, inclusive, como relações de poder e desigualdades de gênero estão extremamente presentes na indústria do entretenimento. Ao mesmo tempo, a forma como diferentes escândalos são recebidos pelo público também revela que artistas homens e mulheres frequentemente enfrentam julgamentos distintos diante de situações semelhantes, mostrando que as questões de gênero influenciam tanto as exigências das empresas quanto as expectativas dos fãs.

      Mais uma vez, agradeço imensamente pelas perguntas e pelo diálogo. Espero ter esclarecido um pouco sobre esses pontos, que certamente contribuem para ampliar o debate sobre as complexidades da indústria do K-pop.

      Atenciosamente,

      Ana Helena Leite de Araujo

      Excluir
  4. Olá, Ana! Adorei ler seu texto, sua pesquisa é muito pertinênte e interessante, me fez pensar em várias questões pontuais. Mas de modo geral, somente uma permaneceu pois conforme o texto avançava ele mesmo ia me respondendo essas perguntas que vinham à mente.

    A pergunta seria, do seu ponto de vista há uma diferença de percepção dos fandoms (dentro e fora da Coreia do Sul, e ainda na Ásia e no Ocidente) nos problemos enfrentados pelos idols dentro da indústria? Me pergunto isto pois, pelo o pouco que acompanho os fãs ocidentais são rápidos em perceber quando os idols emagrecem de modo rupto. Se sim, será que há uma diferença de percepção por conta das tendências estéticas (consideradas absusivas no Ocidente, como a magreza extrema e o embranquecimento dos corpos) naturalizadas dentro da Ásia?
    Adorei como você critica a noção do confucionismo como forma de justificar esses abusos dentro da indústria, me incomoda como essa caracterisca às vezes é usada por alguns intelectuais para justificar abusos dentro da sociedade sul-coreana.

    Desde já, agradeço.
    Atenciosamente, Maria Caroline Sagais.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ana Helena Leite De Araujo10 de julho de 2026 às 13:09

      Olá, Maria Caroline!

      Muito obrigada pela leitura tão atenta e pelas palavras gentis! Fico muito feliz em saber que o texto gerou reflexões ao longo da leitura.

      Acredito que sim, existam diferenças de percepção entre os fandoms, embora elas não sejam absolutas. Os fãs internacionais, especialmente no Ocidente, costumam demonstrar maior preocupação com temas como saúde mental, excesso de trabalho, distúrbios alimentares e autonomia dos artistas. Não é raro que mudanças bruscas de peso, sinais de exaustão ou relatos de ansiedade gerem mobilizações nas redes sociais e críticas às empresas.

      Por outro lado, isso não significa que os fãs sul-coreanos ou asiáticos sejam indiferentes a essas questões. Nos últimos anos, eles também têm participado de campanhas em defesa dos artistas e criticado práticas abusivas das agências. A diferença está, muitas vezes, na forma como determinados padrões são percebidos. Ideais estéticos como a extrema magreza, a pele clara e a disciplina rigorosa possuem trajetórias históricas e culturais distintas no Leste Asiático, o que pode fazer com que certas exigências sejam mais naturalizadas ou interpretadas de maneira diferente do que ocorre em muitos contextos ocidentais.

      Ao mesmo tempo, penso que devemos ter cuidado para não estabelecer uma oposição simplificada entre "Ocidente" e "Ásia". Há uma grande diversidade de opiniões entre os próprios fãs asiáticos, assim como entre os fãs internacionais, e essas percepções vêm mudando à medida que o debate sobre saúde mental, direitos trabalhistas e bem-estar dos artistas ganha mais visibilidade.

      Fico especialmente feliz que você tenha destacado minha crítica ao uso do confucionismo como justificativa para esses abusos. Esse era um ponto que considerei importante enfatizar justamente porque, em alguns discursos, aspectos culturais acabam sendo utilizados como explicações deterministas para problemas que também possuem dimensões econômicas, institucionais e empresariais. Na minha perspectiva, reduzir essas práticas ao confucionismo corre o risco de dogmatizar a sociedade sul-coreana e obscurecer o papel da própria indústria do entretenimento, das dinâmicas do capitalismo global e das estratégias comerciais que sustentam esse modelo de produção.

      Mais uma vez, muito obrigada pela excelente pergunta e pelo diálogo. Foi um prazer refletir sobre esses aspectos com você!

      Atenciosamente,

      Ana Helena Leite de Araujo

      Excluir
  5. Prezada Ana, gostei muito do seu texto e gostaria de parabenizá-la pela pesquisa. Ao longo da leitura, fiquei refletindo sobre como diferentes atores participam da produção e circulação de sentidos da indústria de entretenimento.

    Você mostra que determinadas tensões da indústria do entretenimento acabam sendo invisibilizadas pela narrativa de sucesso associada à Hallyu. Você acredita que essa invisibilização é proveniente principalmente de políticas institucionais de promoção cultural? Qual é o papel dos processos discursivos mais amplos, nos quais empresas, mídia, plataformas digitais e os próprios fãs em produzir determinados sentidos sobre o K-pop?

    Nesse contexto, você acredita que um diálogo com a noção de hegemonia cultural de Gramsci poderia aprofundar a compreensão de como essa imagem internacional da Coreia do Sul é construída e naturalizada?

    Obrigada pelo texto.
    Maria Clara Pessoa de Moraes.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ana Helena Leite De Araujo10 de julho de 2026 às 14:30

      Olá, Maria Clara!

      Muito obrigada pela leitura e pelas excelentes perguntas!

      Acredito que a invisibilização dessas tensões não decorra apenas das políticas institucionais de promoção cultural do Estado sul-coreano, embora elas tenham um papel importante. A estratégia de fortalecimento da Hallyu, especialmente nas últimas décadas, contribuiu para projetar internacionalmente uma imagem positiva da Coreia do Sul, associada à inovação, criatividade e modernidade. No entanto, essa imagem é produzida de forma muito mais ampla.

      Empresas de entretenimento, veículos de mídia, plataformas digitais e até os próprios fãs participam da construção e circulação desses discursos. As agências investem muito na elaboração da imagem pública dos artistas, e as plataformas favorecem uma difusão rápida dos conteúdos em escala global. Além disso, a mídia frequentemente privilegia narrativas de sucesso, e os fandoms, muitas vezes, ajudam tanto a reforçar quanto a questionar essas representações. Então, eu considero que existe uma dinâmica complexa, onde diferentes atores contribuem para consolidar determinados sentidos sobre o K-pop, ao mesmo tempo em que surgem espaços de contestação, especialmente nas redes sociais.

      Sobre a segunda pergunta, acredito que um diálogo com a noção de hegemonia cultural de Gramsci pode, sim, enriquecer essa análise. Embora eu não tenha utilizado esse referencial no artigo, penso que ele oferece ferramentas interessantes para compreender como determinadas narrativas se tornam predominantes não apenas por mecanismos de coerção, mas também pela construção de consensos. Assim, a imagem internacional da Coreia do Sul como referência em inovação cultural e entretenimento pode ser compreendida como resultado da articulação entre Estado, mercado e sociedade civil, produzindo uma narrativa legitimada amplamente que, por vezes, acaba obscurecendo as contradições e os custos humanos envolvidos nesse modelo de produção cultural.

      Agradeço imensamente pela sugestão! Certamente é um diálogo teórico que considero muito pertinente para aprofundar pesquisas futuras sobre o tema. Obrigada por trazer algo tão interessante e relevante pra nossa discussão. Espero ter respondido à altura ^^

      Atenciosamente,

      Ana Helena Leite de Araujo

      Excluir
  6. Boa tarde, Ana! Tudo bem?
    Velho lhe parabenizar pelo texto e entrar na discussão também~

    Pensando na recepção dessa produção criativa pelos fãs, também penso sobre o fenômeno das sasaengs e a forma como diferentes empresas lidam com esse tipo de comportamento. Embora essas fãs frequentemente movimentem grandes quantias de dinheiro para a indústria, suas atitudes ultrapassam os limites da admiração e tornam-se prejudiciais tanto para a relação entre artista e fã quanto para o bem-estar dos integrantes e profissionais envolvidos.
    Nesse sentido, fico me perguntando até que ponto as empresas adotam medidas contra as sasaengs por reconhecerem os impactos humanos e psicológicos que esse assédio causa aos idols, ou se as ações ocorrem principalmente em resposta à pressão de outros fãs, que passam a condenar esses comportamentos obsessivos por afetarem a imagem do grupo e a experiência da comunidade de fãs como um todo. Para ficar mais claro, você considera que ainda existe espaço para uma preocupação genuína com a humanidade dos idols, ou a tomada de decisões em relação à esses fãs obsessivos também é guiada, sobretudo, por interesses comerciais e pela gestão da imagem pública?

    Att.: Ana Cecília Barroso

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ana Helena Leite De Araujo10 de julho de 2026 às 15:24

      Olá, Ana Cecília!

      Uau, muito obrigada pela leitura do artigo e por essa EXCELENTE pergunta! Este é um questionamento muito relevante e interessante!

      O fenômeno das sasaengs realmente acrescenta uma camada importante ao debate sobre as relações entre empresas, artistas e fãs. Na minha percepção, as medidas adotadas pelas agências decorrem de uma combinação de fatores. É inegável que, nos últimos anos, algumas empresas passaram a se posicionar de forma mais firme contra comportamentos de perseguição, invasão de privacidade e assédio, inclusive recorrendo a ações judiciais e ampliando mecanismos de segurança para proteger seus artistas. Essas iniciativas demonstram um reconhecimento, ao menos em alguma medida, dos impactos físicos e psicológicos que essas práticas podem causar.

      No entanto, acredito que seria difícil e também muito inocente desvincular essas decisões dos interesses comerciais que estruturam a indústria. A imagem pública dos artistas, a reputação das empresas e a própria sustentabilidade econômica dos grupos também são fatores centrais. Quando comportamentos de sasaengs passam a gerar repercussão negativa, comprometer a agenda dos artistas ou provocar críticas de outros fãs e da opinião pública, há um incentivo ainda maior para que as empresas intervenham.

      Por isso, penso que não se trata de uma oposição entre preocupação humana e interesse econômico, mas de uma relação em que ambos coexistem. É possível que exista uma preocupação genuína com o bem-estar dos artistas por parte de profissionais e até das próprias agências, mas ela está inserida em uma indústria cuja lógica continua sendo predominantemente comercial. Nesse contexto, as medidas de proteção acabam sendo influenciadas tanto pelo reconhecimento dos direitos e da saúde dos idols quanto pela necessidade de preservar a imagem e a viabilidade do negócio.

      Agradeço muito pela pergunta, pois ela evidencia como as relações entre empresas, artistas e fandoms são muito mais complexas do que uma simples relação de consumo, e mostram que o debate sobre os direitos dos idols também passa pela forma como a cultura dos fãs é construída e administrada pela própria indústria. Sua perguntou me inspirou a pesquisar mais sobre este aspecto no futuro!

      Atenciosamente,

      Ana Helena Leite de Araujo

      Excluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.