A presença missionária na Ásia, e mais especificamente na China, pode ser dividida em duas fases distintas. A primeira, ocorrida no final do medievo, representa os esforços mormente isolados de franciscanos que, sob os auspícios do papado, foram enviados às estepes da Ásia Central na tentativa de converter o imperador dos mongóis [Jiménez, 2014]. A segunda, já no início da modernidade, ocorre no esteio da chegada e fixação ibérica no Oriente e se torna delas dependente. Embora possa ser compreendida dentro de um contínuo, a posição desses missionários muda drasticamente a partir das circunstâncias políticas, econômicas e territoriais muito diversas nos dois casos.
Se no primeiro momento seus esforços eram pontuais, no segundo há uma profunda transformação, tão auspiciosa quanto temerária, que dita a forma como a missão foi conduzida e a própria dispersão e apoio dos missionários. A construção do edifício colonial ibérico na Ásia — os portugueses no Estado da Índia, com suas possessões dispersas por todo o Leste; os espanhóis, confinados nas Filipinas — impactou a missão ao oferecer recursos e bases de apoio para todo o corpo missionário. Por outro lado, as tentativas de ingerência em assuntos internos das ordens, bem como os prospectos de comércio e conquista que faziam parte da natureza do projeto colonial, colocavam os interesses seculares e religiosos em direções opostas. Mesmo internamente, as ordens religiosas que atuavam no ultramar [franciscanos, dominicanos, agostinianos, estas chamadas ordens mendicantes, e os jesuítas] muitas vezes estabeleciam competição entre si por almas e espaços, criando um ambiente em que a cooperação e a concorrência existiam mutuamente.
Esta comunicação, portanto, objetiva delinear os primeiros anos dos mendicantes e seu projeto de missionação da China, destacando, acima de tudo, as relações estabelecidas com as autoridades espanholas no período. Esperamos demonstrar essa relação era complexa e extremamente variável, flutuando aos sabores de circunstâncias mais imediatas e da atuação particular de determinados sujeitos. Como aponta Manel Ollé [2018, p. 83], essas diferentes nuances podem ser sentidas até mesmo em diferentes grupos que se poderiam supor opostos ou aliados, como é o caso dos mercadores portugueses e manilenhos, obrigados a cooperar durante a União Ibérica [1580–1640], ou as posições belicosas das autoridades filipinas frente ao imobilismo da coroa de Castela na Europa.
Para tanto, recorremos aos registros de caráter institucional produzidas pelas autoridades coloniais de Manila e pela coroa espanhola. Estes registros, compilados no início do século XX por Emma Blair e James Robertson, são ricos em demonstrar o processo pendular tanto de apoio das autoridades régias às ordens regulares, da qual dependiam para a pacificação das populações nativas e sua naturalização, quanto das tentativas de ingerência, quando a atuação dos missionários colocava em risco os interesses comerciais e bélicos das autoridades de Manila.
O contexto de ocupação das Filipinas é fulcral para se compreender a situação das ordens religiosas como um todo. Segundo Rui D’Ávila Lourido [2003, p. 24-26], as ilhas foram inicialmente perscrutadas pelos espanhóis sob Fernão de Magalhães já em 1521. Porém, sua posição geográfica, passando próximo ao antimeridiano de Tordesilhas, tornava o seu controle uma questão contenciosa, tal qual outras regiões ao redor, como é o caso particular das ilhas Molucas. Foi apenas com o Tratado de Saragoça, em 1529, que as Filipinas foram cedidas aos espanhóis. Demoraria até 1571, porém, para sua ocupação efetiva, a partir da conquista de Manila pelo adelantado Miguel López de Legazpi.
Manila se torna rapidamente — e acima de tudo — um ponto importante de comércio no leste e sudeste asiático, em que busca se imiscuir no lucrativo comércio com a China. Através do Galeón de Manila, uma rede fixa de comércio permitia a compra de seda e porcelana na região de Fujian. Em troca, eram enviados a prata americana, base monetária dos chineses nesse momento, e dos quais os espanhóis, através das minas de Potosí, dispunham com relativa abundância. A união das coroas, a partir de 1580, apenas expandiu essa perspectiva, abrindo o comércio de Macau [ainda que de forma extraoficial] para os castelhanos. Manila se transforma numa das grandes alfândegas do Oriente, e, juntamente com Cebú, o centro administrativo espanhol na Ásia, ainda que formal e institucionalmente vinculado ao reino da Nova Espanha [atual México].
Igualmente, Manila se transforma num importante centro administrativo e missionário, em que diferentes interesses eram colocados na mesa, sendo convergentes ou divergentes ao sabor da circunstância. A China, como um dos grandes atrativos do Oriente e depositária de experiências que, como vimos, remontava ao medievo, se tornou um dos pontos de maior interesse nesse momento. Segundo Ollé [2018, p. 82-83], o plano majoritário das autoridades filipinas, em especial durante a regência do governador Gómez Pérez Dasmariñas, de caráter belicista, era a conquista completa [ou parcial, dependendo do proponente] do Império do Meio. Era um plano ousado, mas recusado pelos mercadores, mais ciosos em manter as redes de comércio ativas e em seu lucro pessoal. Os missionários, por sua vez, assumiam uma postura ambivalente — embora recusando propriamente o domínio pelas armas, admitiam uma “conquista espiritual” cujas entrelinhas não deixam de expressar uma posição mais agressiva.
A despeito dessa ambiguidade, os missionários eram uma peça importante na relação com a China, como fica demonstrado desde os primeiros momentos dos espanhóis no arquipélago. Um exemplo sintomático ocorre logo após o estabelecimento castelhano em Manila. Quando ocorre a escaramuça da invasão e prisão do pirata Limahon, em 1574, os mandarins locais enviam aos espanhóis um pedido para que seja enviada uma embaixada, pela qual se pudesse estabelecer relações formais entre China e Filipinas. O projeto foi confiado pelo governador Guido de Lavezaris a Martín de Rada, um agostiniano, acompanhado de Miguel de Loarca, também de Santo Agostinho, além dos soldados Jerónimo Marín e Pedro de Sarmiento. Levando consigo ordens reais, os missionários não deixaram de se furtar a levar adiante suas próprias agendas: havia a esperança de que se conseguisse a permissão para estabelecer um ponto de pregação no Oriente. Embora a fuga de Limahon tenha soçobrado o projeto, nos fica especialmente marcante a sinergia de interesses, com as autoridades espanholas confiando a padres [e, em certo sentido, à Ordem de Santo Agostinho] a primazia de um momento fundamental para o estabelecimento dos espanhóis na Ásia.
A embaixada de Rada não foi, de todo modo, um evento isolado. Seguindo projetos particulares de evangelização, as ordens organizaram missões à China, muitas vezes à revelia da coroa. Aqui, destacamos especialmente a tentativa franciscana de 1579, organizada a Pedro de Alfaro, que nesse momento assumia a liderança dos franciscanos descalços recém-chegados às Filipinas. Juntamente com seu entourage, Alfaro desembarca em Cantão em 19 de julho, onde faz uma requisição especial para estabelecer missionação no local. A experiência, porém, foi dificultada pela ação de portugueses que, temerosos da presença espanhola, espalharam boatos de que os padres eram espiões. A missão foi desbaratada; seus membros enviados a Zhangzhou, em Fujian, e a Macau, de onde seriam despachados de volta para Manila [Borao, 2009, p. 3-4].
O que nos interessa, no entanto, é a circunstância da ida de Alfaro para lá em primeiro lugar. Segundo o cronista agostiniano Juan González de Mendoza, uma das fontes mais autoritativas da China no final do século XVI:
“Chegaram da Espanha na cidade de Manila, nas ilhas Filipinas, o padre Pedro de Alfaro, que ia como custódio daquela província [de São Gregório], e catorze religiosos de sua mesma ordem em sua companhia, que os havia enviado a Majestade Católica do Rei d. Felipe, nosso senhor, e seu Consejo de las Indias, para coadjutores dos padres agostinianos [...] e para que na primeira ocasião entrassem no reino da China a predicar o Santo Evangelho.” [Mendoza, 1586, f. 209-vf. 209. Tradução e grifos meus.]
É notório que, na visão de Mendoza, os padres franciscanos — embora atuando sob seu próprio interesse — o agiam de acordo com a vontade real, que chancela sua ida às Filipinas e os incumbe de buscar a China. Se as afirmações de Mendoza trazem seus próprios problemas [como sua proximidade particular com a realeza, ciosa para agradá-la, e seu papel como membro de outra ordem], não deixa de ser uma manifestação interessante acerca do papel esperado dos missionários. Seus passos são tidos, em última instância, como a manifestação de uma vontade superior, servindo aos propósitos da coroa espanhola e abrindo o caminho para possibilidades ulteriores à própria evangelização.
A coroa, por sua vez, demonstrava aberta e efetivamente seu apreço à atividade missionária nas Filipinas e destacava qual deveria ser seu papel, indicando sua prerrogativa de controle da ação missionária. Em decreto de Felipe enviado à Audiencia, datado de 21 de junho de 1583, Felipe II aponta a ida de missionários franciscanos para as Filipinas, qual papel esperava deles e as providências que o capítulo local deveria tomar para sua proteção:
“Para estas ilhas [isto é, as Filipinas] foram enviados recentemente religiosos descalços da ordem de São Francisco para pregar o santo evangelho, e se engajar na instrução e conversão dos nativos ali; e mais irão para lá regularmente, tanto desses reinos [isto é, os reinos que constituíam a Espanha] quanto da Nova Espanha. Nós esperamos que, pela sua instrução e exemplo, muitos frutos serão colhidos entre os nativos. Portanto, esperamos [...] que eles sejam auxiliados, e tidos em muita estima [...].” [Blair; Robertson, 1905, v. 6, p. 45. Tradução minha.]
Esses missionários precisam ser compreendidos, como aponta Diego García, como “agentes de Deus e do império”, título que atribui ao agostiniano Juan González de Mendoza [García, 2018, p. 93-166]. Qual seja: seu serviço religioso é entremeado, em última instância, pelos interesses, a coordenação e as ordenações da coroa, que controla seu deslocamento, os limites em que poderiam se mover e quais deveriam ser suas metas e seu campo de atuação.
De toda maneira, é importante destacar que as relações triangulares entre a coroa castelhana, suas autoridades nas Filipinas [como a Audiencia] e as ordens eclesiásticas [em especial os franciscanos e os dominicanos] não eram absolutamente harmoniosas. As fontes nos mostram diversas instâncias onde os espanhóis buscaram intervir em assuntos internos das ordens e, por vezes, conduzir ou limitar sua atuação dentro e fora do arquipélago. Como demonstra Carlos Guilherme Rocha, isso vinha das implicações mais profundas da própria arquitetura do Direito Natural e do Direito Eclesiástico sob o qual estava fundamentado as relações entre os poderes temporais e espirituais. [Rocha, 2018, p. 145]
Mais do que uma justificativa teológica, no entanto, a relação entre a coroa e as ordens religiosas precisa ser compreendida dentro do patronato régio. Segundo Alberto de la Hera, o patronato era constituído de uma série de atribuições e privilégios dadas pelos papas aos monarcas espanhóis nos seus domínios. Em especial, cabia a estes a nomeação dos sujeitos que constituiriam o corpo eclesiástico — bispos, principalmente, mas também cônegos e párocos — além de controlar a coleta de dízimos e a definição do tamanho das dioceses [Hera, 1992, p. 63-79]. Era um direito muito semelhante ao padroado da coroa portuguesa, tendo ambos surgidos no contexto de expansão ultramarina — cabia a esses monarcas ir “descobrindo” o mundo, ao qual poderiam ir tomando posse, ao passo que tinham como atribuições evangelizar os diversos povos que iam entrando em contato.
De sua parte, os monarcas foram ciosos em controlar toda a atividade missionária e manter os provinciais em rédea curta. Em decreto real datado de 6 de abril de 1629, Felipe IV deixa explícito que qualquer cargo deve ser ocupado segundo sua explícita ordem, e o mesmo deve ser feito no caso de dispensa de algum religioso. O monarca destaca como, a despeito de sua ordem de que toda alteração de pessoal deva ser indicada ao “vice-rei, presidente, Audiencia, ou governador, que deveria ter o controle do governo superior da província, ou o bispo”, a realidade era que:
“Os ditos provinciais têm introduzido o costume de dispensar ou remover os professores religiosos que estavam estacionados em quaisquer missões, e indicando outros em seu lugar, unicamente baseados em sua própria autoridade, sem dar notícia ao dito vice-rei, ou às pessoas acima mencionadas, o que fizeram em várias ocasiões”. [Blair, Robertson, 1905, v. 23, p. 23. Tradução minha]
Como contramedida, era obrigatório que os provinciais apresentassem todo e qualquer ato de nomeação perante o bispo e o vice-rei, que teriam a incumbência de permitir a atuação dos indicados; igualmente, as autoridades coloniais em todas as Índias ficavam incumbidas de fiscalizar a atuação dos padres indicados, bem como de tornar o decreto real conhecido a todos os provinciais. Aos que não eram considerados aptos às missões, ficavam os vice-reis e governadores autorizados a dispensá-los. [Blair, Robertson, 1905, v. 23, p. 24-25]
A coroa estava informada, portanto, de que sua autoridade era enfraquecida à medida que se afastava do centro de poder do Império. Havia ordens explícitas de manter toda a atividade missionária sob o controle das instâncias régias. Embora não se trate de uma relação de desconfiança, havia um intenso exercício em manter toda a atividade missionária, fundamental ao funcionamento das colônias, sob sua tutela — especialmente quando elas poderiam influir no lucrativo comércio com a China. Embora as províncias mendicantes tivessem algum grau de autonomia, o Império do Meio foi, desde o começo, território proscrito à livre atividade missionária. Em cédula de 8 de junho de 1585, Felipe II decreta que:
“A despeito de que alguns religiosos que ministram nas Ilhas Filipinas estejam acostumados a ir à China sem as devidas ordens, abandonando as missões as quais estão incumbidos [...], nós ordenamos aos superiores dos regulares nas ilhas Filipinas que não permitam que qualquer religioso de sua ordem vá para a China, ou abandone a missão de que está incumbido, sem a permissão especial e as ordens do governador e do arcebispo, que devem expressamente afirmar que tais religiosos não estão violando a lei; e especial cuidado e vigilância deve ser exercido nisto.” [Blair; Robertson, v. 28, p. 67-68. Tradução minha]
A política para a China se insere, portanto, não apenas num plano de simples conversão, mas de sua incorporação aos interesses comerciais, políticos e bélicos da coroa de Castela. A posição dos missionários poderia colocar um impeditivo ao processo, principalmente no que concerne ao tratamento dos locais. A contenda entre as autoridades coloniais e os missionários ecoa as controvérsias estabelecidas por Bartolomé de las Casas nas Índias Ocidentais, em que se consolida a leyenda negra espanhola de uma conquista violenta. E, de fato, paralelos interessantes podem ser encontrados do lado jesuítico, em que o jesuíta Alonso Sánchez, que pregava o domínio da China pelas armas, era colocado em oposição a José de Acosta, que, da América, polemizava com ele. [Kalil, 2021, p. 221-252]
Por outro lado, as ordens religiosas não deixavam de denunciar o que percebiam como descaso e a má-conduta das autoridades locais, apelando ao rei, por vezes, que intervisse na questão. Eram constantes as denúncias dos franciscanos e agostinianos com o que percebiam ser abuso de poder em relação aos “índios” filipinos, e pelos quais se sentiam incapazes de atuar em contrário. Essas denúncias constituíram o pano de fundo para o Sínodo de Manila [1582], convocado pelo bispo Domingos de Salazar. Embora, como destaque Carlos Guilherme Rocha, tenha sido um encontro um tanto atabalhoado e, até onde se sabe, pouco frutífero, o sínodo serviu de palco para a apresentação de diversas queixas, em que a atuação das autoridades de Manila assumiam um lugar central. O resultado do sínodo foi, em última instância, a definição do que estava atrapalhando o avanço da fé e o que poderia ser feito a respeito; bem como quais deveriam ser os caminhos para a conversão dos nativos. [Rocha, 2018, p. 119-160].
Em suma, podemos entender a relação entre a coroa espanhola, suas autoridades em Manila e as diversas ordens religiosas que atuavam nas [e através das] Filipinas como uma relação de tensões e convergências. Por um lado, era notório que as ordens serviam ao propósito imperial de expansão e conquista, atuando como soldados espirituais que reduziam as populações ainda refratários ao domínio espanhol. Por outro lado, o edifício legal construído pelos espanhóis impedia que essas missões pudessem ir de forma contrária aos interesses da coroa, que determinava quando e como eles deveriam agir. Cabe investigar, ainda, como essas distensões ocorriam na atividade missionária cotidiana — qual seja, não apenas a nível administrativo, mas dentro das próprias missões e no contato com as populações nativas.
Referências
Cláudio César Foltran Ulbrich é doutorando em História do Programa de Pós-Graduação em História da UFPR. Atualmente se dedica a estudar os movimentos missionários franciscanos na China durante a primeira modernidade.
BLAIR, Emma Helen; ROBERTSON, James Alexander [ed.]. The Philippine Islands, 1493-1898. Cleveland: The Arthur H. Clark Company, 1905. 52 v.
BORAO, José Eugenio. Macao as the non-entry point to China: the case of the Spanish Dominican missionaries [1587-1632]. Disponível em: http://homepage.ntu.edu.tw/~borao/2Profesores/Macao%20Gate.pdf
GARCÍA, Diego Sola. El cronista de China: Juan González de Mendoza, entre la misión, el imperio y la historia. Barcelona: Edicions Universitat de Barcelona, 2018.
HERA, Alberto de la. “El Patronato y el Vicariato en Indias” in BORGES, Pedro [ed.]. Historia de la iglesia en Hispanoamérica y las Filipinas [siglos XV-XIX]. v. 1. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos; Estudio Teologico de San Ildefonso de Toledo; Quinto Centenario [España], 1992. p. 63-79.
JIMÉNEZ, José António Cervera. “Los intentos de los franciscanos para establecerse en China, siglos XIII–XVII” in SÉMATA, v. 26, 2014, p. 425-446.
KALIL, Luis Guilherme Assis. “Chineses, índios, bárbaros: a proposta contra a China e as conexões entre Ásia, América e Europa nos escritos de Alonso Sánchez e José de Acosta” in KALIL, Luís Guilherme Assis; FERNANDES, Luiz Estevam de Oliveira [orgs.]. 1519: circulação, conquistas e conexões na Primeira Modernidade. Jundiaí: Paco Editorial, 2021. p. 221-252.
LOURIDO, Rui D’Ávila. “Portugueses e espanhóis em Macau e Manila com os olhos na China” in REVISTA DE CULTURA. INTERNATIONAL EDITION, n. 7, jul. 2003, p. 23-45.
MENDOZA, Juan González de. Historia de las cosas más notables, ritos y costumbres del gran Reyno de la China. Madrid: Casa de Querino Gerardo Flamenco, 1586.
OLLÉ, Manel. “Proyectos de conquista y de comercio para China y el Sureste de Asia” in MÉLANGES DE LA CASA DE VELÁZQUEZ, v. 48, n. 2, 2018, p. 79-99.
ROCHA, Carlos Guilherme. Expansão da fé e justiça: o corpo eclesiástico e o governo das Ilhas Filipinas, 1565–1610. Tese [Doutorado em História] — Instituto de História, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2018.
Texto muito interessante e bem articulado! Expôs muito bem as complexidades do trabalho de missionação na China. Gostaria de saber um pouco mais sobre os discursos que compuseram a "lenda negra" espanhola em relação à China. Conforme abordou em seu texto, é usual nos recordarmos do que foi fomentado sobre a América, mas gostaria de saber de alguns autores (tanto internos quanto externos) que compuseram este escopo discursivo em relação à China. E seria somente em relação à violência ou apontaria uma ineficácia colonizadora, como a atribuída aos portugueses?
ResponderExcluirVitória Gabriela da Silva Kohler
Cara Vitória,
ExcluirMuito obrigado pelo interesse! De fato, a questão da China é mais complexa, uma vez que podemos pensar que não houve um domínio efetivo, mas curiosamente a legenda negra afetou os planos em relação a ela.
Como colocam autores como Manel Ollé, a China foi objeto de consideração para uma conquista armada, em particular entre as autoridades de Manila. Nesse caso, algumas autoridades, como o jesuíta Alonso Sánchez, o governador Francisco de Sande (g. 1575–1580) e o bispo Domingo de Salazar (b. 1579–1594), foram incisivos que isto traria algum bem para a missionação e o comércio. Não obstante, e curiosamente, foi a própria legenda negra espanhola nas Américas que colocou um ponto final nesses planos. É notório a polemização de José de Acosta (jesuíta) com Alonso Sánchez, indicando que isso não seria um caminho viável, e fazendo paralelo com as Américas; igualmente, Salazar foi mais tarde demovido da ideia pelos seus ideias compartidos com Bartolomé de las Casas, que era seu correligionário.
Portanto, por mais que não se tenha uma "legenda negra" em relação aos espanhóis na China, o caso americano pairava sobre a região e funcionou como um freio para que os espanhóis replicassem a situação na Ásia.
Cláudio César Foltran Ulbrich
Obrigado pelo texto, Cláudio. A minha questão gira em torno dos fluxos comerciais deste período que te compete a pesquisa. Você abordou um circuito particular de mercadorias (Potosí-Manila-China), mas não comentou das especiarias. De que modo as especiarias entram neste mais amplo circuito em processo de globalização da primeira modernidade quando você centra a análise em um circuito particular? Ainda que sua proposta de estudo não seja este tipo de circulação econômica eu fiquei curioso em como e se as diversas dinâmicas se sobrepõe, especialmente no Sudeste Asiático que vivia uma efervescência da circulação comercial independente da chegada dos impérios modernos. Por exemplo, a prata americana era usada no Sudeste Asiático para a obtenção das especiarias? A porcelana e a seda eram trocados por especiarias?
ResponderExcluirMatheus Mazurkievicz Sekikawa
Caro Matheus,
ExcluirMuito obrigado pela leitura e pela dúvida. Veja, é uma situação bastante sensível, em especial se considerarmos esse processo ao longo do tempo.
Com efeito, os espanhóis tinham um interesse inicial nas especiarias asiáticas, em especial a partir da obtenção de cravo-da-Índia e noz-moscada na região as ilhas Molucas (às vezes "Maluco", ou simplesmente "Ilha das Especiarias"), um pequeno arquipélago no Sudeste Asiático. Os castelhanos polemizaram muito com os portugueses acerca do controle "legítimo" desse arquipélago pelo Tratado de Tordesilhas (1494), e só ficaria definido pelo Tratado de Saragoça (1529) que a ilha seria cedida aos portugueses. Não obstante, o interesse no controle das rotas de comércio na região permaneceu. Isso foi levado adiante pela tentativa de localização de um caminho de torna-viagem pelo Pacífico (ligando a Ásia com a América) e, acima de tudo, no controle efetivo das Filipinas, com a fundação de um povoado em Cebú em 1565. Então, podemos dizer que essa inter-conexão do mundo foi motivada, particularmente, pelo estabelecimento dessas rotas de comércio de especiarias.
Quando esse controle das especiarias se tornou inviável (por uma série de motivos, e em particular por esse quase-monopólio lusitano), a Monarquia Hispânica moveu sua atenção para a China, que se mostrava um comércio mais promissor. E com efeito, Manila, fundada em 1571, se transformou num dos pricipais hubs comerciais nesse sentido, era através dela que se fazia o comércio com a província de Fujian — escoando a prata americana, em especial de Potosí, em troca da seda, porcelana e produtos diversos, que eram levados à América. Isso era feito tanto por uma rota "oficial", o chamado "Galeón de Manila", quanto extra-oficial, com um escoamento de produtos no Peru.
Assim, podemos entender nessas redes uma complexificação do comércio, uma vez que os espanhóis passaram a dar menor importância ao controle das especiarias (que não poderiam controlar nem pelas Molucas e nem por Malaca) e passaram a focar mais em produtos chineses, negociados diretamente em Manila e levado para a América e alhures.
Cláudio César Foltran Ulbrich
Cláudio, gostei de seu texto. A reconstrução das tensões entre a coroa espanhola, as autoridades de Manila e as ordens religiosas ficou muito bem documentada, acredito que a complexificação da relação de poder entre ambas é bem feliz.
ResponderExcluirQueria puxar um fio que me pareceu importante ao longo da leitura: a posição da população filipina dentro da narrativa. Ela aparece pontualmente e isso não é necessariamente um problema do seu recorte em minha opinião, mas penso nisso porque, ainda que ausente como sujeito, a população filipina é o que sustenta e organiza toda a disputa institucional que você reconstrói. Sem ela como alvo, não haveria patronato para disputar pelo menos em minha perspectiva de leigo.
Esse apagamento me parece um reflexo da natureza das fontes institucionais que você mobiliza. Ela só entra no texto quando interessa à coroa ou às ordens religiosas, mas nunca como parte com voz própria no processo. Acho que isso conecta diretamente com a proposta que você mesmo levanta no fechamento do texto, quando aponta a necessidade de investigar essas tensões "dentro das próprias missões e no contato com as populações nativas".
De toda forma, ótimo texto — essa observação não diminui em nada a qualidade do que já está construído, é mais uma direção possível para os próximos passos da pesquisa. Minha pergunta mais geral mesmo é como você pretende, se pretende, se debruçar sobre essas questões.
Att,
Victor Hugo de Mattos Trindade
Caro Victor,
ExcluirMuito obrigado por sua ponderação, pois a considero muito pertinente. E, de fato, é um problema que tenho enfrentado há algum tempo, justamente porque ela incide em uma série de resistências e mediações dentro desse conflito institucional.
De fato, essa pesquisa enfrenta nesse quesito um problema muito comum — a quase total ausência de fontes em primeira mão desses sujeitos. As maiores referências que encontramos é, justamente, pelas vozes dos colonizadores, e sempre de uma maneira bastante genérica.
Isso não quer dizer, naturalmente, que nada pode ser apreendido daí. Com efeito, em várias situações podemos ver a importância de diferentes grupos locais na interferência dessas missões. O caso mais simbólico, a meu ver, era o dos sangleys — expatriados chineses que moravam em Manila e faziam as vezes de caixeiros-viajantes. Eles se colocam, muitas vezes, como o sujeito oculto que intercede, em geral, pelos missionários. Por um lado, temos seu apoio às missões, a sua ação como tradutores e seu papel como intermediários culturais. Por outro, expressam resistência quando a situação se torna calamitosa, como foi o caso das múltiplas revoltas, e em especial a do massacre de 1603. Os missionários, por outro lado, buscavam se colocar como seus interlocutores perante a coroa, ainda que não deixassem, de quando em quando, cometer seus abusos.
Portanto, eu creio que, se consideramos o caso desses sangleys (e das populações autóctones do arquipélago filipino), podemos encontrar o raro caso de sujeitos que transitavam entre diferentes polos e autoridades de acordo com a circunstância e, naturalmente, o desejo de sobreviver; e era sua intermediação que, nos casos analisados, provocavam a tração no esforço missionário através do seu apoio (ou resistência) de diferentes maneiras.
Cláudio César Foltran Ulbrich
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ResponderExcluirO texto evidencia que a atuação missionária não pode ser compreendida apenas sob uma perspectiva religiosa, mas como parte de uma complexa rede de interesses políticos, comerciais e administrativos da monarquia hispânica. Nesse sentido, seria possível afirmar que a institucionalização da missão acabou subordinando a evangelização à lógica do Estado colonial, ou essa relação era suficientemente dinâmica para permitir que os missionários também atuassem como agentes de contestação às estratégias imperiais?
ResponderExcluirCaro Alexander,
ExcluirEssa é uma excelente pergunta, muito obrigado! No caso, podemos pensar nos dois sentidos, mas especialmente pelo segundo.
Por um lado, a missão de fato se subordina à lógica imperial e aos interesses da coroa espanhola. No caso, a preocupação da Monarquia Hispânica se colocava numa perspectiva comercial, mormente, e também militar. O que se percebe nas fontes é que estes missionários funcionavam como agentes da Coroa, seja como embaixadores (como é o caso notório também do Japão) quanto informantes privilegiados, ou mesmo como intermediadores e tradutores. Assim, suas próprias agendas de conversão se misturavam a objetivos de outros grupos e da institucionalidade espanhola, o que mostra como é sempre um delicado equilíbrio analisar a ação desses agentes. Dois exemplos notórios é o de Martín de Rada e companhia, citados acima, que foram na condição de embaixadores oficiais e com objetivos missionários; ou mesmo, avançando no século XVII, de Santa Maria Caballero, que estabeleceu-se em missão na década de 1630 e que atuou, mais tarde, como informantes dos espanhóis.
Por outro lado, também houve momentos em que havia uma resistência, em especial quando esta se interpunha diretamente aos planos das ordens mendicantes. Quando a Coroa de Castela e as autoridades nas Filipinas ordenaram que as missões eram proscritas aos frades, estes insistiram nelas, e todas elas terminaram em fracassos. Uma das questões que eu busco argumentar na minha pesquisa doutoral é justamente como a falta de um apoio institucional foi a chave para entender o fracasso das missões franciscanas no final do século XVI, e que a resistência da coroa em apoiá-las vinha, dentro outros motivos, por crer que elas iriam interferir em seus objetivos comerciais informais em Macau.
Obrigado!
Cláudio César Foltran Ulbrich