A realização da Copa do Mundo FIFA de 2022 no
Qatar evidenciou a complexidade das relações entre o Ocidente e as sociedades árabe-muçulmanas.
Enquanto o evento foi concebido como uma estratégia de inserção internacional e
fortalecimento da imagem do país-sede, também desencadeou intensos debates
acerca de direitos humanos, costumes, religião e identidade. As críticas
direcionadas ao Qatar, embora fundamentadas em princípios amplamente difundidos
no discurso ocidental sobre direitos humanos, revelaram igualmente a
permanência de leituras homogêneas acerca da região do Oriente Médio e Norte da
África (MENA), frequentemente incapazes de considerar suas especificidades
históricas e culturais.
Nesse cenário, o desempenho da seleção
marroquina assumiu importância que extrapolou o âmbito esportivo. A inédita
classificação para as semifinais da competição transformou a equipe em símbolo de
identificação para amplos setores do mundo árabe e africano. Entretanto, a
presença de bandeiras com as cores e símbolos da cultura amazigh nas
comemorações e manifestações públicas revelou que a construção da identidade
marroquina permanece atravessada por disputas internas que escapam às
representações homogêneas frequentemente atribuídas ao país. O episódio
evidenciou que, embora o Marrocos seja frequentemente apresentado como
integrante de uma identidade árabe unificada, sua formação histórica resulta da
convivência entre diferentes matrizes culturais, linguísticas e políticas.
É justamente nesse contexto que se insere o
presente estudo. O objetivo consiste em compreender como as relações entre
tradição, colonialismo e construção identitária contribuíram para a
constituição da contemporaneidade marroquina, com especial atenção às disputas
envolvendo a identidade amazigh. Parte-se da compreensão de que tais processos
não podem ser analisados a partir de categorias dicotômicas que opõem tradição
e modernidade ou Oriente e Ocidente, mas devem ser entendidos como produtos de
negociações permanentes entre temporalidades, experiências históricas e
projetos políticos.
Essa perspectiva exige problematizar as
formas pelas quais o pensamento ocidental tradicionalmente interpreta
sociedades pós-coloniais. Em muitos casos, tais análises tomam a modernidade
europeia como referência universal, relegando outras experiências históricas à
condição de atraso ou incompletude. No caso marroquino, entretanto, a
coexistência entre elementos considerados tradicionais e modernos constitui
característica estrutural da sociedade, não representando uma contradição, mas
uma forma específica de organização histórica.
Nesse sentido, as reflexões de Mohammed Abed
Al-Jabri oferecem importante contribuição para compreender as particularidades
da relação entre passado e presente nas sociedades árabe-muçulmanas. Ao
discutir o conceito de turath, geralmente traduzido como herança, patrimônio ou
tradição, o filósofo argumenta que o passado não se encontra encerrado em um
tempo concluído, como frequentemente ocorre na tradição historiográfica
ocidental. Ao contrário, permanece integrado às experiências do presente,
influenciando continuamente a produção de sentidos políticos, culturais e sociais
[AL-JABRI, 1999].
Essa compreensão altera profundamente a
própria noção de modernidade. Para Al-Jabri, a modernização não depende da
ruptura com a tradição, mas de sua permanente reelaboração. A turath deixa de
representar um conjunto estático de práticas herdadas para tornar-se objeto de
crítica, atualização e renovação. Dessa forma, a modernidade não assume caráter
universal nem reproduz necessariamente o modelo europeu, permitindo a
existência de múltiplas modernidades construídas a partir de experiências
históricas específicas.
Sob essa perspectiva, tradição e
contemporaneidade não constituem polos antagônicos. A permanência de elementos
tradicionais na arquitetura, na organização familiar, na religião ou nas
instituições políticas não impede a incorporação de práticas modernas, mas
evidencia formas particulares de articulação entre continuidade e
transformação. A autenticidade defendida por Al-Jabri reside justamente na
capacidade de reinterpretar criticamente o patrimônio histórico para responder
às demandas do presente, sem reproduzir de maneira acrítica modelos externos.
Essa crítica ao universalismo da modernidade
europeia aproxima-se das reflexões pós-coloniais desenvolvidas por Homi Bhabha.
Para o autor, o discurso colonial produziu representações estereotipadas das
sociedades colonizadas ao transformá-las em categorias fixas, destinadas a
confirmar a superioridade cultural do colonizador [BHABHA, 2013]. O Oriente
passou, assim, a ser compreendido por meio de imagens homogêneas que ignoram
sua pluralidade interna e reduzem suas experiências históricas à condição de
alteridade permanente.
Entretanto, as relações coloniais jamais
produziram identidades completamente estáveis. Ao contrário, os processos de
dominação geraram espaços de negociação, apropriação e resistência nos quais
surgiram sujeitos marcados pela ambivalência. A mímica colonial, conceito
central na obra de Bhabha, expressa justamente essa condição paradoxal: o
sujeito colonizado torna-se "quase o mesmo, mas não exatamente", incorporando
práticas impostas pelo colonialismo ao mesmo tempo em que as ressignifica.
Essa condição ambivalente constitui
importante chave interpretativa para compreender o Marrocos contemporâneo. As
disputas em torno da identidade amazigh, da herança árabe, da tradição islâmica
e das formas de organização política não podem ser reduzidas a simples
oposições entre passado e presente ou entre resistência e assimilação. Elas
resultam de processos históricos marcados por permanências, negociações e
reelaborações sucessivas, nos quais diferentes grupos sociais disputam
continuamente os significados da identidade nacional.
Assim, compreender a contemporaneidade
marroquina implica reconhecer que sua história não se desenvolve por meio de
rupturas lineares, mas através da sobreposição de experiências coloniais,
tradições locais e projetos de modernidade que permanecem em constante diálogo
e tensão. É nesse entrecruzamento que se inscrevem as reivindicações amazigh e
os debates atuais acerca da pluralidade cultural do Reino do Marrocos.
A formação histórica do Marrocos e a
construção da identidade amazigh
A
compreensão da contemporaneidade marroquina exige considerar a longa duração
dos processos históricos que moldaram sua diversidade cultural. Situado no
Maghreb, o Reino do Marrocos constitui um espaço de encontros, permanências e
transformações, marcado pela sobreposição de diferentes experiências políticas,
religiosas e linguísticas. Nesse cenário, a presença amazigh representa um dos
elementos estruturantes da formação histórica do país, antecedendo em muitos
séculos a chegada de fenícios, romanos e árabes.
Os imazighen [plural para amazigh],
autodenominados "povo livre", ocupavam extensas áreas do Norte da
África muito antes da expansão islâmica, organizando-se em comunidades nômades
e seminômades distribuídas pela Tamazgha, território que abrangia grande parte
do atual Maghreb [ALMASUDE, 2014]. Embora sua origem permaneça objeto de
debate, sua permanência histórica constitui um dos principais traços de sua
identidade coletiva. Ao longo dos séculos, essas populações estabeleceram
relações com diferentes povos mediterrânicos sem perder completamente suas
formas próprias de organização social e cultural.
As primeiras experiências coloniais,
conduzidas por fenícios e posteriormente pelos cartagineses, concentraram-se
sobretudo nas regiões costeiras, privilegiando relações comerciais em
detrimento da ocupação direta do interior. Esse padrão de interação permitiu
relativa continuidade das estruturas sociais amazigh, que mantiveram suas
formas de organização enquanto incorporavam seletivamente elementos culturais
externos [SADIQI, 2014].
A presença romana inaugurou uma dinâmica
distinta. A expansão imperial promoveu maior integração política do território,
estimulando a urbanização, a difusão do cristianismo e a incorporação de
práticas administrativas romanas. Ainda assim, a experiência romana não
produziu completa homogeneização cultural. A religião cristã conviveu com
práticas locais e, embora tenha alcançado significativa expansão, não
consolidou unidade suficiente para impedir a posterior difusão do Islã.
A expansão árabe, iniciada entre os séculos
VII e VIII, representou um dos momentos mais decisivos da história marroquina.
Diferentemente das experiências coloniais anteriores, a conquista foi
acompanhada da difusão simultânea da religião islâmica e da língua árabe,
instrumentos fundamentais para a construção de uma nova ordem política e
cultural. Conforme observa Fatima Sadiqi [2014], o Islã foi apresentado como
religião universal, enquanto o árabe assumiu o papel de língua comum,
favorecendo a progressiva arabização de amplos setores da população.
Esse processo, contudo, esteve longe de
constituir uma simples substituição cultural. A incorporação do Islã ocorreu
por meio de negociações e adaptações que envolveram tanto resistência quanto
assimilação. Diversos grupos amazigh converteram-se à nova religião sem
abandonar completamente práticas culturais anteriores, enquanto dinastias de
origem amazigh, como almorávidas, almóadas e merínidas, desempenharam papel
central na consolidação política do Maghreb e de Al-Andalus [HOURANI, 2006;
SADIQI, 2014].
Essa trajetória evidencia que a construção da
sociedade marroquina não decorreu da oposição entre identidades árabe e
amazigh, mas de sucessivos processos de interação. O próprio desenvolvimento do
Estado islâmico no Ocidente muçulmano contou com ampla participação amazigh,
tanto na organização militar quanto na administração política. Em consequência,
a história do Marrocos consolidou-se como resultado da convivência entre
diferentes matrizes culturais, e não da substituição integral de uma pela
outra.
Essa perspectiva aproxima-se da reflexão
proposta por Al-Jabri acerca da turath. Ao compreender a tradição como
processo continuamente reelaborado, o filósofo permite interpretar a formação
histórica marroquina como uma sucessão de incorporações e ressignificações, nas
quais elementos diversos permanecem coexistindo e adquirindo novos significados
ao longo do tempo [AL-JABRI, 1999]. Assim, a presença simultânea de referências
amazigh, árabes e islâmicas não constitui anomalia histórica, mas
característica constitutiva da própria sociedade.
Entretanto, foi durante o período colonial
francês que essas diferenças passaram a ser sistematicamente reorganizadas
segundo categorias rígidas de classificação. A política colonial buscou
transformar distinções culturais em fronteiras políticas, produzindo
interpretações dicotômicas entre árabes e amazigh que pouco correspondiam às
experiências efetivamente vividas pela população.
Como demonstram Hammoudi [1997] e Wyrtzen
[2011], a administração colonial estruturou um conjunto de políticas voltadas
para separar comunidades consideradas "árabes" daquelas classificadas
como "berberes". A chamada Política Berbere [Berber Dahir],
implementada na década de 1930, procurava retirar determinadas regiões amazigh
da jurisdição islâmica e submetê-las a sistemas jurídicos próprios, reforçando
a ideia de que constituíam sociedades essencialmente distintas daquelas identificadas
como árabes.
Essa estratégia fazia parte de um projeto
mais amplo de reorganização do poder colonial. Ao transformar diferenças
linguísticas e culturais em categorias políticas estanques, o colonialismo
produziu novas identidades administrativas destinadas a facilitar o controle do
território. Como observa Homi Bhabha [2013], o discurso colonial depende
justamente da produção de estereótipos capazes de fixar sujeitos em posições
aparentemente estáveis, ocultando a complexidade de suas experiências
históricas.
No caso marroquino, a oposição entre
"árabes urbanos" e "berberes rurais" tornou-se uma
construção política sustentada por estudos etnográficos coloniais, cuja
finalidade consistia menos em compreender a diversidade local do que em reorganizá-la
segundo interesses administrativos franceses. Essa classificação ignorava as
intensas relações sociais, econômicas e religiosas existentes entre diferentes
comunidades e contribuía para naturalizar divisões que permanecem presentes em
parte dos debates contemporâneos.
Paradoxalmente, essa mesma política colonial
favoreceu o fortalecimento do nacionalismo marroquino. Ao denunciar a tentativa
francesa de fragmentar o país, intelectuais nacionalistas passaram a defender
uma identidade nacional baseada na unidade entre Islã, língua árabe e
monarquia. Embora essa narrativa tenha desempenhado papel decisivo na luta
anticolonial, também contribuiu para invisibilizar especificidades culturais
amazigh ao subordiná-las ao projeto de construção de uma identidade nacional
predominantemente árabe-islâmica.
Assim, tanto a política colonial quanto o
nacionalismo participaram da produção das disputas identitárias que ainda
atravessam a sociedade marroquina. A reivindicação contemporânea da cultura
amazigh não representa o ressurgimento de uma identidade esquecida, mas a
reconfiguração de processos históricos continuamente negociados entre tradição,
colonialismo e construção nacional.
Colonialismo,
autoritarismo e a reelaboração da identidade amazigh
A
construção do Estado marroquino contemporâneo não pode ser compreendida apenas
a partir da experiência colonial. Embora o protetorado francês [1912–1956]
tenha reorganizado profundamente as estruturas políticas e administrativas do
país, encontrou instituições de poder historicamente consolidadas,
especialmente a monarquia. Diferentemente de outros países do Maghreb, o
Marrocos preservou sua casa real durante o domínio colonial e, posteriormente,
no período pós-independência, circunstância que conferiu continuidade às formas
tradicionais de exercício do poder.
A análise de Abdellah Hammoudi [1997] permite
compreender esse processo ao identificar, nas relações políticas marroquinas, a
permanência do modelo simbólico "mestre-discípulo". Mais do que uma
simples relação hierárquica, trata-se de uma lógica de poder fundamentada na
autoridade pessoal, na fidelidade e na expectativa de obediência. Nesse modelo,
o exercício do poder não depende exclusivamente das instituições estatais, mas
da construção de vínculos de legitimidade entre governantes e governados.
No caso da monarquia marroquina, essa
legitimidade articula elementos políticos e religiosos. A dinastia alauíta
sustenta sua autoridade na condição de descendente do profeta Mohammed
[chorfa], atribuindo ao rei um papel simultaneamente político e espiritual. A
renovação periódica dos juramentos de fidelidade [bay'a] reforça simbolicamente
essa relação, aproximando o poder monárquico da noção de continuidade histórica
discutida por Al-Jabri. Assim, tradição e autoridade tornam-se dimensões
mutuamente constitutivas da organização política marroquina.
A chegada do colonialismo francês não rompeu
essa estrutura. Ao contrário, procurou incorporá-la ao sistema de dominação. A
política do governo indireto preservou formalmente o sultanato enquanto
transferia o controle efetivo da administração ao residente-geral francês. Como
observa Hammoudi [1997], o colonialismo não substituiu integralmente as
instituições existentes; reorganizou-as de modo a servir aos interesses da
administração colonial.
Nesse contexto, a chamada Política Berbere
representou uma das principais estratégias de intervenção francesa. Ao
transformar diferenças linguísticas e culturais em categorias administrativas
rígidas, o protetorado buscou fragmentar a sociedade marroquina e enfraquecer
possíveis formas de resistência nacional. A oposição entre "árabes" e
"berberes", construída pelo discurso colonial, passou a orientar
políticas educacionais, jurídicas e administrativas que redefiniram as relações
entre Estado e sociedade [WYRTZEN, 2011].
Entretanto, os efeitos desse processo
ultrapassaram os objetivos coloniais. A tentativa de institucionalizar tais
diferenças fortaleceu o movimento nacionalista, que passou a defender uma
identidade marroquina unificada em torno do Islã, da língua árabe e da
monarquia. Essa narrativa desempenhou papel decisivo na luta pela
independência, mas também produziu novos silenciamentos. Ao privilegiar uma
identidade nacional árabe-islâmica, relegou a cultura amazigh a uma posição
secundária dentro da memória oficial do Estado.
Nas décadas posteriores à independência, o
processo de arabização aprofundou essa lógica. A centralização administrativa,
as políticas educacionais e a valorização exclusiva da língua árabe reforçaram
a invisibilidade das línguas e tradições amazigh. Ainda assim, tais iniciativas
não eliminaram as reivindicações das comunidades originárias. Ao contrário,
favoreceram o surgimento de um movimento intelectual e político que passou a
reivindicar reconhecimento cultural, direitos linguísticos e revisão das
narrativas nacionais construídas desde o período colonial.
Sob essa perspectiva, o movimento amazigh não
representa uma simples oposição ao Estado ou à identidade nacional marroquina.
Trata-se de uma disputa pelos significados da própria nação, questionando
interpretações homogêneas da história e propondo o reconhecimento do caráter
plural da formação do Marrocos. As reivindicações contemporâneas não buscam
negar a herança árabe ou islâmica, mas inserir a experiência amazigh como
elemento constitutivo da identidade nacional.
Essa dinâmica evidencia que a
contemporaneidade marroquina é marcada por permanentes negociações entre
tradição, colonialismo e modernidade. As categorias produzidas durante a
colonização continuam influenciando os debates políticos atuais, mas são
continuamente reinterpretadas pelos diferentes atores sociais. A emergência
pública da identidade amazigh — simbolizada, entre outros episódios, por sua
visibilidade durante a Copa do Mundo de 2022 — demonstra que essas disputas
permanecem abertas e constituem parte fundamental das transformações vividas
pelo país.
Considerações
finais
A
análise desenvolvida ao longo deste artigo evidencia que a contemporaneidade
marroquina resulta de um longo processo de construção histórica, marcado pela
coexistência entre diferentes tradições culturais, experiências coloniais e
projetos de modernização. Longe de representar identidades fixas ou homogêneas,
a sociedade marroquina constitui um espaço de permanente negociação entre heranças
amazigh, árabes e islâmicas.
As contribuições de Mohammed Abed Al-Jabri
permitem compreender que a tradição [turath] não corresponde a um passado
encerrado, mas a uma herança continuamente reinterpretada na construção do
presente. Paralelamente, as reflexões de Homi Bhabha demonstram que as
identidades produzidas no contexto colonial são atravessadas pela ambivalência,
pela negociação e pela recusa das classificações rígidas impostas pelo discurso
colonial. Já Abdellah Hammoudi evidencia como as formas históricas de
autoridade contribuíram para a permanência de determinadas estruturas políticas
no Marrocos contemporâneo.
Nesse cenário, a questão amazigh revela-se um
dos principais espaços de disputa em torno da memória, da identidade e da
cidadania. Suas reivindicações não significam o retorno a um passado
pré-islâmico nem a rejeição da herança árabe, mas a defesa do reconhecimento da
pluralidade histórica que caracteriza o Reino do Marrocos. Assim, compreender o
país contemporâneo exige abandonar interpretações dicotômicas entre tradição e
modernidade, Oriente e Ocidente ou árabes e amazigh, privilegiando análises
capazes de reconhecer a complexidade dos processos históricos que continuam
moldando a sociedade marroquina.
Referências
Fernanda
Gabrielly Terra Moura é mestra e atualmente doutoranda no Programa de
Pós-Graduação em História Social [PPGHIS] da Universidade Federal do Rio de
Janeiro [UFRJ]. Também é pesquisadora do Azimute – Laboratório de Estudos
Orientais da UFRJ e membro do GT de Gênero da Anpuh-RJ.
AL-JABRI.
Mohammed Abed. Introdução à crítica da Razão Árabe. [trad.] Roberto
Leal Ferreira. São Paulo: UNESP, 1999.
ALMASUDE, Eden. “Amazighité and secularism: rethinking religious-secular
divisions in the amazigh political imagination”. In: Decolonization:
Indigineity, Education & Society, vol. 3, nº 2, 2014, p. 131-151.
BHABHA, Homi
K. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.
HAMMOUDI, Abdellah. Master and Disciple: he cultural foundations of
Moroccan authoritarianism. Chicago: The University
of Chicago Press, 1997.
HOURANI,
Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
SADIQI, Fatima. Moroccan
feminist discourses. Nova York: Palgrave Macmillan, 2014.
WYRTZEN, Jonathan. “Colonial state building and
the negotiation of Arab and Berber identity in Proctorate Morocco”. In: Int. J. Middle East Studies, v. 43, 2011, p. 227-249.
Fernanda, parabéns pelo texto! Suas reflexões sobre as heranças classificatórias coloniais e o impacto delas na construção identitária são fundamentais. Fiquei particularmente interessado na sua introdução ao pensamento de al-Jabri; é um referencial que certamente irei aprofundar.
ResponderExcluirGostaria de propor uma reflexão utilizando o 'gancho' da Copa do Mundo de 2022. Quando o Marrocos atingiu a semifinal, houve um intenso debate, inclusive no Brasil, sobre a identidade daquela seleção: muitos a rotularam como 'mais árabe do que africana', como se essas identidades fossem excludentes. Considerando a crítica de al-Jabri sobre a razão árabe e as heranças coloniais que você mencionou, como você enxerga o papel do Pan-africanismo no Marrocos atual? Você acredita que o país tem conseguido integrar essa 'africanidade' na composição de sua identidade nacional para superar essas dicotomias coloniais, ou a herança árabe ainda é mobilizada como um marcador de distinção em relação ao restante do continente?"
Pietro E. M. de Chiara
Oi, Pietro! Obrigada pelas considerações.
ExcluirSobre a Copa de 2022, acredito que para quem acompanha o contexto marroquino mais de perto, ficou evidente a complexidade da questão identitária no país porque existe por parte das elites uma tentativa de manutenção da identidade árabe, como sinônimo de distinção social dado o discurso da monarquia marroquina que defende sua linhagem direta do Profeta como elemento de autolegitimação. Essa dicotomia entre árabes e povos amazigh foi também instrumentalizada pelo Protetorado francês ao instituir a Dahir Berber (1930) que pretendia dividir o país também de acordo com critérios identitários. Devido à ligação com países da Península Arábica, decorrente do processo de colonização islâmica no Norte da África, o pan-arabismo foi, por boa parte do século XX, uma reivindicação mais difundida entre nacionalistas islâmicos do Marrocos. No contexto atual, sobretudo a partir da Primavera Árabe, a luta pelo reconhecimento da identidade amazigh tomou novo fôlego, obrigando o governo local a realizar algumas mudanças constitucionais nesse sentido. No cenário, principalmente entre jovens de classe média urbana e intelectuais secularistas, existem movimentos de reivindicação da identidade amazigh como integrante de uma certa noção de "africanidade". Trata-se, portanto, de um movimento em crescimento mas que ainda disputa espaço com o conservadorismo dos descendentes de árabes, mais como fator de distinção social interno, mas que pode moldar a forma como a sociedade marroquina se relaciona com os demais países do continente africano. Sem dúvidas, é um espaço ainda em disputa.
Comentário: Fernanda Gabrielly Terra Moura
Excelente trabalho! Pesquiso sobre futebol e fiquei interessada em como a trajetória do futebol marroquino, marcada pelas semifinais em 2022, atualmente nas quartas de final em 2026 e, principalmente, a preparação para sediar o mundial em 2030, transcende o campo esportivo para se tornar um projeto de inserção internacional e visibilidade nacional. À luz do conceito de turath de Mohammed Abed Al-Jabri (que propõe a atualização crítica da tradição para responder às demandas do presente) e do modelo de autoridade "mestre-discípulo" de Abdellah Hammoudi, de que maneira a monarquia marroquina visa instrumentalizar esses megaeventos para reafirmar sua legitimidade tradicional (chorfa), enquanto a visibilidade global de símbolos amazigh atua como uma "ambivalência bhabhiana", desafiando a tentativa das elites de manter uma identidade árabe homogênea como fator de distinção social? Em algum momento o futebol se torna um cenário de disputa entre as elites marroquinas e seu povo, visto que, os marroquinos são grandes fanáticos pelo esporte?
ResponderExcluirRenata Lorencette Cavalcanti
Oi, Renata! Tudo bem? Interessante as duas observações. Apesar de utilizar a Copa de 2022 como pano de fundo para observar as relações e disputas identitárias em relação ao contexto marroquino e amazigh atual, não posso afirmar de forma contundente que para a Copa de 2030 há instrumentalização desses elementos levantados no seu comentário. Essa é uma análise que carece de investigação mais aprofundada, que foge do meu objeto central de pesquisa, que versa sobre a obra da artista gráfica Zainab Fasiki.
ExcluirComentário: Fernanda Gabrielly Terra Moura