A AUSÊNCIA DO SUL GLOBAL E OS LIMITES EPISTEMOLÓGICOS DOS ESTUDOS QUEER DA DIÁSPORA CHINESA por Bingzhang Wang


A ausência não é uma lacuna

Ao traçar um mapa da produção acadêmica sobre sujeitos chineses LGBTQIAPN+ na diáspora, observa-se uma concentração significativa de estudos em países de língua inglesa, como Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, enquanto a América Latina, e grande parte do Sul Global permanecem praticamente ausentes. Diante dessa distribuição geográfica, Ponce e Chen [2023] observam que os estudos sobre a comunidade queer chinesa no exterior estão altamente concentrados no contexto anglo-saxão, e as pesquisas na América do Norte, por terem uma história mais longa e maior escala, levam à marginalização das experiências de outras regiões [Chen e Ponce, 2024]. Ao mesmo tempo, Yang [2024] também aponta que a maioria das pesquisas empíricas existentes se concentra em trajetórias específicas de migração do Sul Global para o Norte Global. Este artigo propõe outra leitura. A ausência do Sul Global não indica apenas regiões ainda não estudadas: ela constitui um mecanismo de produção de conhecimento que estrutura a própria teoria.

 

Quando a teoria se constrói reiteradamente a partir de um espaço geográfico restrito, a concentração empírica converte-se progressivamente em universalidade teórica. Observações originalmente situadas em condições históricas e sociais específicas passam, por repetição, a ser naturalizadas como leis gerais da “migração queer chinesa”, enquanto outras rotas migratórias permanecem fora do campo de visibilidade, perdendo a possibilidade de tensionar ou reformular esses pressupostos. Essa concentração não é acidental, mas resultado de uma estrutura hierárquica de conhecimento e poder que sustenta o monopólio do Norte Global na narrativa sobre migração queer. Nesse sentido, a ausência do Sul Global não é um vazio posterior à teoria, ela é condição de sua própria formação.

 

A geografia hierárquica do conhecimento

Os estudos sobre o queer da diáspora chinesa não se distribuem de modo homogêneo pelo globo, mas apresentam “uma série de centros hierárquicos de conhecimento-poder”[Kong, 2018, p.13]. Zheng [2024] afirmou que a maioria das teorias existentes sobre jovens queer em situação de mobilidade foi desenvolvida no contexto ocidental e, ao serem aplicadas a contextos não ocidentais, frequentemente enfrentam desafios de inadequação. Os campos de pesquisa coincidem em larga medida com as rotas migratórias estudadas: o pesquisador segue o migrante, e como a maioria dos estudos acompanha fluxos rumo ao Norte, o Norte se torna o horizonte teórico. Além disso, a escolha dos sujeitos carrega também um viés de classe: as etnografias disponíveis concentram-se fortemente em estudantes e migrantes qualificados, de alta escolaridade e origem de classe média. Kam [2020], ao analisar as mulheres queer da classe média e da elite nas cidades chinesas, aponta que “ir para o exterior (Chuguo)” representa uma “aspiração normativa”; com a pesquisa sobre os homens gays chineses da elite, Choi [2022] discutiu o “capital de mobilidade”, que os homens gays chineses utilizam suas vantagens de classe para contornar as pressões do país de origem por meio de “migrações múltiplas globais”, afirma que essa mobilidade em si é uma demonstração de status de classe, e que essas pessoas se concentram justamente nos países do Norte.

 

Nos últimos anos, diferentes autores passaram a problematizar essa assimetria, propondo noções como desocidentalização, “Ásia como método” e novas geografias do conhecimento, com o objetivo de tensionar a centralidade do mundo anglófono nos estudos asiáticos. Essas intervenções são fundamentais ao lembrar que o conhecimento é sempre espacialmente situado e atravessado por relações globais de poder. No entanto, identificar a hierarquia geográfica da produção de conhecimento ainda não é suficiente. Reconhecer que o Norte ocupa o centro teórico não explica, por si só, como esse centro molda a própria estrutura da teoria. É esse passo adicional que este artigo busca esboçar: mostrar que a ausência não apenas silencia, mas produz conteúdo teórico.

 

O pressuposto que a ausência protege: migração como libertação

Zheng e Martin [2025] afirmam claramente que é preciso ter cuidado para não naturalizar o processo de migração do Sul global para o Norte como “narrativas de libertação de gênero”. Elas defendem que esse “desejo de migração para o Ocidente” em si seja considerado um “problema a ser resolvido”, e não uma verdade. Os pesquisadores devem examinar “todo o arco da experiência migratória”, em vez de reiterar os mitos da libertação [Yang, 2024]. Mesmo trabalhos críticos que questionam a imagem do Ocidente como “paraíso queer” frequentemente preservam a direção desse vetor: o Norte permanece como ponto de chegada a partir do qual a experiência é medida.

 

Ainda que o Brasil seja frequentemente descrito como um destino com maior grau de liberdade sexual e de gênero, para migrantes chineses no Brasil a migração não corresponde à entrada em um espaço que possa ser simplesmente identificado com “liberdade”. O que se observa é uma recomposição entre sistemas normativos distintos, e não a dissolução da normatividade. A chamada “homonormatividade neo-confucionista”[Luo, Tseng e Ma, 2022], articulada no contexto sinófono e baseada na negociação entre harmonia familiar e silêncio estratégico sobre a sexualidade, não desaparece com a migração. Responsabilidades familiares, obrigações de parentesco e formas de negociação em torno da identidade sexual continuam operando após a migração, interagindo com normas locais relativas à família, religião, gênero e sociabilidade. Le Cui e Lin Song [2024] argumentam que, mesmo após chegarem à Nova Zelândia, os queer de origem chinesa ainda precisam controlar a “visibilidade” de sua identidade sexual dentro da comunidade étnica. E esse “armário étnico” disciplina tanto a identidade étnica quanto a identidade sexual, comprovando que as normas não se dissolvem com a chegada. A migração altera as condições de funcionamento das normas, não sua existência.

 

Sob essa perspectiva, a migração Sul-Sul não constitui um novo caso empírico para uma teoria já estabelecida, mas um ponto de inflexão que obriga à revisão de seus pressupostos. Quando origem e destino pertencem ambos ao Sul Global, a migração deixa de corresponder automaticamente a uma trajetória linear de repressão para a liberdade. Ela se configura como uma negociação contínua entre regimes normativos distintos. Nesse contexto, o problema central deixa de ser a entrada em um espaço mais livre e passa a ser a modulação contínua da posição do sujeito entre diferentes sistemas normativos.

 

O pressuposto de “migração como libertação” permanece válido apenas dentro de certos recortes empíricos, sobretudo aqueles centrados no Norte Global. Quando elevado ao estatuto de teoria geral, porém, ultrapassa os limites de sua base empírica. É precisamente a ausência de estudos sobre rotas Sul-Sul que permite que esse pressuposto permaneça invisível e, portanto, não questionado. Fecha-se aqui o argumento central: a ausência não é neutra; ela protege uma teoria.

 

Da lacuna empírica à reconstrução teórica

O mesmo mecanismo associado ao binômio migração-libertação estrutura também as formas de compreensão do sujeito migrante, das relações raciais e das práticas transnacionais de parentesco. Esses problemas não são independentes, mas compartilham uma mesma geografia do conhecimento.

 

Em primeiro lugar, a literatura tem se organizado predominantemente em torno de estudantes internacionais e migrantes altamente qualificados, tornando esse grupo o sujeito implícito da “migração queer chinesa”. Conforme mencionado acima, esse sujeito depende de um tipo de capital de mobilidade para manter uma certa identidade de classe média global. No entanto, essa perspectiva ignora quase completamente os migrantes comerciantes, que constituem um dos grupos centrais da diáspora chinesa no Brasil. De acordo com o que Shu [2023, cap.4] relatou em sua pesquisa sobre os chineses no Brasil, a estrutura central dessa comunidade baseia-se em redes comerciais. Organizados por redes comerciais, economias familiares e circuitos transnacionais de negócios, esses sujeitos apresentam dinâmicas de migração, inserção social e pertencimento qualitativamente distintas. Para eles, que operam de forma familiar, cuja situação jurídica muitas vezes se encontra em uma “zona cinzenta” e que dependem fortemente de redes econômicas étnicas, a migração costuma ser motivada por fatores econômicos, e não simplesmente pela busca de libertação de gênero ou sexo. Portanto, talvez possamos explorar novas perspectivas para analisar esses diferentes agentes, em vez de simplesmente aplicar modelos pré-estabelecidos.

 

Em segundo lugar, a teoria existente se apoia majoritariamente em regimes raciais euro-americanos, assumindo como uma referência centrada na branquitude. No entanto, tais experiências não são universais. No caso brasileiro, a racialização organiza-se historicamente em torno de um triângulo entre negros, brancos e mestiços, no qual o corpo asiático aparece como um quarto termo exterior: não se inscreve plenamente nem na narrativa da vítima nem na narrativa da mestiçagem nacional. Nesse arranjo, torna-se estruturalmente deslocado. Higa [2024] mostra como o mito da “minoria modelo” simultaneamente valoriza e despolitiza sujeitos asiáticos, ao mesmo tempo em que apaga sua individualidade. Esse desencaixe não é marginal, mas estrutural.

 

Esses dois problemas não são desenvolvidos aqui em detalhe, mas situados dentro de um mesmo mecanismo. Tanto os pressupostos sobre classe quanto aqueles relativos à raça são sustentados pelo mesmo mecanismo de ausência. Quando o Sul Global permanece fora do processo de construção teórica, experiências localizadas adquirem universalidade indevida, enquanto outras rotas migratórias perdem a capacidade de reconfigurar a teoria. O que precisa ser repensado, portanto, não é um caso específico, mas a geografia do conhecimento que sustenta a própria teoria.

 

O Sul Global como ponto de partida da teoria

Se o Sul Global entra na teoria apenas como objeto empírico adicional, a estrutura fundamental da produção de conhecimento permanece inalterada. O Sul continua a funcionar como suplemento da teoria produzida no Norte, e não como participante de sua constituição. Este artigo propõe outra abordagem. No estudo do Liu [2015], ele declarou: “a teoria queer é entendida como um discurso global desenvolvido simultaneamente por tradições acadêmicas de língua inglesa, chinesa e de outras partes do mundo. A teoria queer constitui uma prática transnacional e transcultural, da qual sua formulação nos Estados Unidos representa apenas uma parte. Além disso, esse diálogo global é necessariamente híbrido em sua metodologia, entrelaçado com trajetórias históricas e marcado por diferentes modos de circulação e disseminação.[Liu, 2015, p.15]” A relevância do Sul Global não reside na adição de novos casos, mas em sua capacidade de tornar visíveis os pressupostos implícitos da teoria existente. As rotas Sul-Sul, ao entrarem no campo analítico, não apenas ampliam o corpus empírico, mas reorganizam o próprio problema teórico.

 

No campo dos estudos orientais, essa inflexão tem implicações mais amplas. O conhecimento sobre o “Oriente” tem sido historicamente produzido em centros acadêmicos concentrados e posteriormente generalizado como teoria universal. O conceito de “occidentalismo de sexo e gênero”, proposto por Zheng e Martin [2025], é descrito como uma imaginação e construção positivas dos valores ocidentais de sexo e gênero, amplamente presentes na sociedade chinesa contemporânea. No entanto, esse mecanismo não é um fato objetivo e neutro, mas sim um produto do poder formado historicamente. Isso porque ele encobre os obstáculos raciais e (pós-)colonialistas que os imigrantes continuam enfrentando após chegarem ao seu destino [Zheng e Martin, 2025]. Quando os estudos da diáspora chinesa se apoiam majoritariamente em experiências do Norte Global, não apenas descrevem migração, mas também produzem uma imaginação do “Oriente” que toma o Norte como referência normativa. “Pensar o Oriente a partir do Sul”, não significa simplesmente mudar o objeto de estudo, mas sim alterar o ponto de vista da produção de conhecimento, a fim de reinterpretar o Oriente a partir das experiências históricas, da realidade social e dos recursos teóricos do Sul global.

 

Por essa razão, o Sul Global não deve ser compreendido como mais um ponto a ser incluído no mapa da pesquisa, mas como um ponto de partida para a reorganização dos próprios problemas teóricos. Apenas quando a teoria se submete continuamente a diferentes rotas migratórias, condições históricas e formações sociais é que a compreensão da experiência queer da diáspora chinesa pode ultrapassar o universalismo implícito de uma geografia única do conhecimento.

 

Referências

Bingzhang Wang [André] é doutorando no PPG-LETRA, FFLCH/USP, e professor do Instituto Confúcio na UFF. É membro do grupo Ímpar [USP] e do GeChina [UnB].

 

CHEN, Cai; PONCE, Aaron Raphael. “Sexuality, Socialization, and Inequalities on the Move: The Lived Experiences of Young Chinese Gay Migrant Men in France and Belgium”. M. Thunø; S. Wang; É. Tran Sautedé; Y. Tseng. Handbook of Chinese Migration to Europe, Brill, 2024, pp.494-525.

 

CHOI, Susanne YP. “Global Multiple Migration: Class-Based Mobility Capital of Elite Chinese Gay Men” in SOCIOLOGY, v. 56, n. 5, p. 946–966, out. 2022.

 

HIGA, Laís Miwa. Flores e tufões: raça, gênero e sexualidade na construção do ativismo asiático-brasileiro em tempos de crise (2016-2023). Doutorado em Antropologia Social—São Paulo: Universidade de São Paulo, 18 mar. 2024.

 

KAM, Lucetta Y. L. “Coming out and going abroad: The chuguo mobility of queer women in China” in JOURNAL OF LESBIAN STUDIES, v. 24, n. 2, p. 126–139, 2 abr. 2020.

 

KONG, Travis S. K., trans. Yang Chin-Yi, Lau Hoi-Leung, Hui Ho-Wang, and Chen Wei-Hong. Chinese Male Homosexualities: Memba, Tongzhi and Golden Boy. Hong Kong: The Chinese University of Hong Kong Press, 2018.

 

CUI, Le; SONG, Lin. “Queer migration, heteronormativity and the ‘ethnic closet’: Chinese queer international students’ intersectional experience in New Zealand” in EUROPEAN JOURNAL OF EDUCATION, v. 59, n. 2, p. e12608, jun. 2024.

 

LIU, Petrus. Queer Marxism in two Chinas. Durham: Duke University Press, 2015.

 

LUO, Muyuan; TSENG, Hsunhui; MA, Yin. “Homosexual Stories, Family Stories: Neo-Confucian Homonormativity and Storytelling in the Chinese Gay Community” in THE CHINA QUARTERLY, v. 252, p. 1256–1276, dez. 2022.

 

PONCE, Aaron Raphael; CHEN, Cai. “Rethinking the Gay Chinese Migrant through the Prism of Migration Aspirations: Observations from France and Belgium” in JOURNAL OF CHINESE OVERSEAS, 2023, 19 (2), pp.220-247.

 

SHU, Chang-sheng. Chinese migration to Brazil: history, mobility and identities. Newcastle: Cambridge Scholars Publishing, 2023.

 

YANG, Tori Shucheng. “Rethinking Queer Migration: The Case of Skilled Chinese LGBTQ+ Migrants in North America” in INTERNATIONAL MIGRATION REVIEW, v. 58, n. 4, p. 1792–1818, dez. 2024.

 

ZHENG, Hao. Queer Mobile Transience: Chinese Female Students' Identity Making in Australia. Deakin University. Thesis. 2024.

 

ZHENG, Hao; MARTIN, Fran. “Mobile genders: the trans* journeys of Chinese students in Australia” in INTER-ASIA CULTURAL STUDIES, v. 26, n. 2, p. 354–377, 4 mar. 2025.

10 comentários:

  1. O argumento central do artigo é: quando a teoria se constrói repetidamente a partir de uma experiência geográfica limitada (o Norte Global), a concentração empírica passa a ser confundida com universalidade teórica — e é exatamente esse equívoco que produz a "migração como libertação". No entanto, o artigo propõe em seguida que o "Sul Global" deveria funcionar como novo ponto de partida para reconstruir a teoria queer da diáspora, sendo que essa proposta se sustenta quase exclusivamente no caso brasileiro (e majoritariamente com base em literatura secundária). Diante disso, como o autor evitaria, no plano metodológico, que o próprio mecanismo que ele critica se repita dentro dessa nova categoria — ou seja, evitar que a experiência particular do Brasil (ou de alguns casos do Sul) seja indevidamente elevada à condição de teoria geral da "migração queer do Sul Global"? Em outras palavras, a ferramenta lógica usada para desconstruir a "universalidade norte-cêntrica" seria igualmente aplicável para examinar a própria construção do "Sul" feita pelo artigo?
    Jingyi Xiong

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  2. Muito obrigado pela pergunta.

    Hoje, com frequência, utilizamos teorias produzidas no Norte Global e recorremos às experiências do Sul apenas para validá-las ou ilustrá-las. O que me interessa é deslocar essa lógica e perguntar se as experiências e também as produções teóricas do Sul Global podem dialogar entre si e produzir novos problemas, novas categorias analíticas e novas formas de compreender as experiências LGBTQIAPN+.

    Quando menciono o Sul Global, não estou falando apenas do Brasil. Penso também em outros países da América Latina, da África e da Ásia. A questão que proponho é a seguinte: o diálogo entre diferentes contextos do Sul pode gerar novos deslocamentos teóricos, em vez de apenas confirmar modelos já consolidados no Norte? É justamente essa possibilidade de diálogo horizontal que considero fundamental para evitar a substituição de um centro por outro e para pensar uma produção de conhecimento verdadeiramente plural.

    Atenciosamente,
    Bingzhang Wang

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  3. Caro André, um texto fantástico, parabéns! Nesse sentido, você vê em saberes tradicionais afro-asio-americanos opções na formulação de novas epistemes e conceitos?
    saudações,
    André Bueno

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    1. Caro prof. André,

      Muito obrigado pela leitura generosa! Fiquei muito contente com o seu comentário.

      Sobre a sua pergunta, sou otimista e ao mesmo tempo acho que é um desafio. Acho que podemos dar um passo além. Os saberes tradicionais do Sul Global também podem participar da construção de novos conceitos, mesmo que continuemos, inevitavelmente, dialogando com teorias produzidas no Norte.

      Por exemplo, penso nos estudos sobre a China. Existe a tradição da sinologia ocidental, mas também há Guoxue, a tradição intelectual chinesa. Da mesma forma, há a antropologia influenciada pelas tradições euro-americanas e há a Minzuxue (etnologia) desenvolvida na própria China. Essas diferentes tradições mostram que existem outras formas de produzir conhecimento e de formular perguntas.

      No caso da minha pesquisa, sobre migração e experiências LGBTQIAPN+, acredito que um diálogo entre saberes afro-asio-americanos possa contribuir para novas epistemes e novos conceitos. Mas vejo esse potencial mais como algo relacional. As novas epistemologias podem surgir justamente do encontro, do diálogo e até das tensões entre diferentes contextos históricos e culturais.

      É uma questão que sigo elaborando, e agradeço muito por provocá-la.

      Atenciosamente,
      Bingzhang Wang

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  4. Parabéns pelo texto, Bingzhang, é um argumento de rara precisão, e o gesto central me parece certeiro: tratar a ausência do Sul Global não como lacuna a preencher, mas como mecanismo que produz a própria universalidade da teoria. A crítica ao vetor que faz do Norte o ponto de chegada a partir do qual se mede toda experiência migrante é especialmente feliz, e a virada de classe (o migrante comerciante deslocando o estudante qualificado como sujeito implícito) reorganiza o problema de um jeito produtivo. Fiquei pensando numa tensão que talvez valha a pena habitar: a própria China ocupa hoje uma posição ambígua nesse mapa, já que a diáspora comercial que você traz se apoia, em alguma medida, numa potência em ascensão com dinâmicas próprias de poder no Sul. Você vê risco de o “Sul Global”, tomado como ponto de partida, achatar essa assimetria interna, ou seria justamente aí que o diálogo horizontal entre Suis que você propõe entra para impedir que um novo centro se forme?

    Robson Lins Souza Damásio de Oliveira

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    1. Olá, Robson!
      Muito obrigado pela pergunta. Acho que ela toca exatamente em um ponto que também me preocupa.
      Concordo que a posição da China nesse mapa é bastante ambígua, mas justamente por isso talvez seja importante historicizar essa posição. A relação entre os migrantes chineses e a própria China mudou muito ao longo do tempo. Hoje, parte da migração comercial se apoia no crescimento econômico chinês, mas isso não explica as diferentes ondas migratórias anteriores, que partiram de contextos históricos, econômicos e políticos bastante distintos. Além disso, mesmo entre os chineses no Brasil, existem profundas diferenças de origem regional, de classe e de inserção econômica, que reproduzem, em certa medida, desigualdades existentes dentro da própria China.
      Por isso, penso que "Sul Global" não pode ser entendido como uma categoria homogênea. Cada sociedade possui suas próprias hierarquias, relações de poder e trajetórias históricas. Nesse sentido, concordo plenamente com a sua segunda hipótese. O que proponho não é substituir um centro por outro, nem tomar a China como um novo polo epistemológico, mas pensar o Sul como um espaço de diálogo entre experiências historicamente distintas.
      Bingzhang Wang

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  5. Prezado Bingzhang Wang,
    Agradeço a oportunidade de ler seu texto, já que estou iniciando meus estudos sobre gênero e sexualidades em Ásia em geral e na China em particular. O que me levou a me interessar por conhecer o contexto asiático (seja in loco ou na diáspora) foi meu encontro com a teoria decolonial latinoamericana e a própria ausência/negação de Ásia dentro dela.
    Queria saber o que você pensa dessa vertente teórica latinoamericana, que sucita várias controvérsias e tem uma relação um tanto espinhosa com o pós-colonialismo asiático. Apesar disso, vejo que os argumentos desenvolvidos em sua pesquisa sobre migração e experiências LGBTQIAPN+ dialogam diretamente com os conceitos de colonialidade do saber, do sociólogo peruano Aníbal Quijano.
    Obrigada desde já.
    Cordialmente,
    Christiane.

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    1. Olá Christiane,
      Sim, ao levantar a bibliografia também percebi essa ausência da Ásia dentro dos estudos latino-americanos. Quanto à teoria latino-americana, tenho me aproximado sobretudo pela produção em português, a teoria cu, os estudos sobre travesti, o cuir latino-americano, entre outros, que me parecem muito instigantes. Sobre Aníbal Quijano, que você mencionou, ainda não o li a fundo, mas vou procurar seus textos com atenção. Obrigado pela indicação e pela conversa.
      Bingzhang Wang

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  6. Ana Helena Leite De Araujo10 de julho de 2026 às 00:00

    Olá, Bingzhang!

    Adorei o tema que você trouxe. Não conhecia muito sobre o assunto, mas fiquei bem interessada em pesquisar mais sobre isso. Tenho várias perguntas:

    Primeiro, você afirma que a ausência do Sul Global "produz teoria", e não apenas uma lacuna empírica. Na sua visão, quais conceitos dos estudos de migração queer seriam os primeiros a precisar de revisão caso aumentassem as pesquisas sobre rotas Sul-Sul?

    Também achei interessante que o Brasil aparece como um exemplo importante no artigo. Você acredita que existem características específicas da sociedade brasileira que tornam a experiência dos migrantes chineses LGBTQIAPN+ particularmente diferente daquela observada em países como Estados Unidos ou Austrália?

    Por fim, pensando no seu texto como uma proposta de "pensar o Oriente a partir do Sul", como isso poderia ser operacionalizado na prática? Seria uma mudança metodológica, teórica ou também institucional na produção do conhecimento?

    Estou ansiosa para ouvir o que você tem a dizer. Desde já, obrigada!

    Atenciosamente,

    Ana Helena Leite de Araujo

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    1. Olá, Ana Helena!
      Muito obrigado pelo interesse e pela leitura. Respondo brevemente a cada uma.
      Sobre quais conceitos precisariam de revisão primeiro: eu apontaria a equação entre migração e libertação, que discuto no texto, e o pressuposto de que a "visibilidade" ou o "sair do armário" sejam metas universais da experiência queer. As rotas Sul-Sul mostram que nem sempre é assim, e isso obriga a repensar esses pontos de partida.
      Sobre o Brasil: sim, há especificidades, e a principal é a questão racial. Nos Estados Unidos e na Austrália, os estudos costumam enquadrar a experiência asiática sobretudo em termos de racismo contra asiáticos, ou seja, o corpo asiático é lido como alvo de uma norma branca. No Brasil, a racialização se organiza em torno de outro eixo, entre negros, brancos e mestiços, no qual o corpo asiático ocupa uma posição deslocada, que não se encaixa bem nesse enquadramento. Isso muda bastante as coordenadas da experiência.
      Sobre operacionalizar o "pensar o Oriente a partir do Sul", penso em dois aspectos. No plano teórico, significa levar a sério teorias locais, brasileiras e latino-americanas, que sequer chegaram a circular nos estudos chineses, e usá-las para ler a experiência dos migrantes. E há também uma dimensão de método ligada à própria posição do pesquisador: sendo eu chinês e pesquisando migrantes chineses, essa posição faz parte do método, e não é um detalhe externo à pesquisa.

      Bingzhang Wang

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