A ASCENSÃO DA CHINA COMO NOVO PÓLO DE INFLUÊNCIA NA MODA E NO CONSUMO GLOBAL por Ana Cecília Moreira Barroso e Débora Pinguello Morgado

  

Historicamente, a moda global foi estruturada sob a influência de centros pertencentes ao norte global, especialmente a França (Paris), Itália (Milão) e Inglaterra (Londres). Por meio da articulação entre produção cultural, adoção de identificação simbólica e desenvolvimento industrial, esses polos cunharam o termo e estabeleceram-se como detentoras das atuais capitais da moda, utilizando a posição de influência estética-cultural para reforçar suas identidades nacionais e manter relevância crescente e duradoura em meio às disputas de poder que marcaram diferentes períodos históricos. No século XXI, em um mundo profundamente conectado pela globalização e envolto em cenário de rápidas transformações econômicas, tecnológicas e culturais, países antes vistos nas margens erguem-se para desafiar a configuração anteriormente estabelecida [Kurdjian, 2021].

 

Nesse contexto, a China destaca-se com um caso significativo de ascensão econômica e cultural no século XXI. Durante parte do século XX e início dos anos 2000, o país esteve associado principalmente à produção industrial em larga escala e à oferta de mão de obra terceirizada para o exterior. Seu papel na cadeia global da moda estava concentrado na manufatura e no fornecimento de produtos em atacado para marcas estrangeiras, configurando uma relação predominantemente baseada no modelo business-to-business (B2B). Entretanto, o crescimento econômico acelerado, os investimentos em tecnologia, o aumento do poder aquisitivo da população acompanhado da consequente ampliação do mercado consumidor interno, produção de conteúdo cultural e a expansão das plataformas digitais possibilitaram uma intensa transformação na posição ocupada pela China anteriormente [Keane, 2016].

 

Se no passado a competitividade chinesa vinha da posição que ocupava de fornecedora de mão de obra de baixo custo e de produção massificada, atualmente a China traça um caminho novo rumo à conquista da sua posição como agente global de inovação, tecnologia e influência cultural. Em relação às técnicas de soft power que ativamente são adotadas por nações que desejam ocupar um novo título, a capacidade de influenciar valores, comportamentos e preferências de forma não tradicionalmente violenta é essencial. Nesse sentido, a moda, o entretenimento e as plataformas digitais tornaram-se instrumentos relevantes para a projeção internacional da China.

Um dos fenômenos mais relevantes desse processo é o movimento Guochao (国潮), frequentemente traduzido como “onda nacional” ou “tendência nacional”. A corrente nacionalista de apreciação cultural defende a valorização de elementos históricos, culturais e simbólicos chineses dentro de uma produção contemporânea de moda, design e entretenimento. Diferentemente das representações orientalistas produzidas historicamente pelo Ocidente através da chinoiserie, o Guochao propõe uma reconstrução identitária conduzida pelos próprios agentes culturais chineses, reinterpretando e atualizando referências tradicionais para dialogar com os valores e expectativas das novas gerações [Wang, 2022].

 

A expansão do Guochao está fortemente relacionada ao crescimento das plataformas digitais chinesas. Redes como Douyin, Xiaohongshu e Weibo desempenham papel fundamental na circulação de conteúdos visuais, tendências de moda e práticas de consumo. Nesses ambientes, elementos como maquiagem inspirada em padrões estéticos chineses, vestimentas tradicionais reinterpretadas para o cotidiano, acessórios históricos e produtos de design contemporâneo são constantemente promovidos por influenciadores, criadores de conteúdo e consumidores. Essas plataformas, ao incorporarem o comércio eletrônico às redes sociais e de produção de conteúdo, incorporam o novo modelo de consumo online  dos jovens da atualidade.

 

Paralelamente ao desenvolvimento dessa estética nacional no mercado doméstico, a expansão dessas plataformas digitais para o ocidente, em sua versão original ou minimamente modificada para o público extrangeiro, desempenhou papel fundamental no alcance da China, transformando essas redes em ambientes de difusão cultural e impulsionando tendências de moda, beleza e comportamento por meio de sistemas algorítmicos que favorecem conteúdos altamente compartilháveis. A rotatividade dos conteúdos postados, junto a legitimidade vinda da aprovação dessa nova estética por criadores de conteúdo digital em ascensão e celebridades chinesas com números crescentes de seguidores no ocidente, contribuem na construção de novas narrativas culturais e ampliam o interesse de consumidores ocidentais por referências estéticas chinesas. Conforme argumenta Keane [2016], a difusão global dessas manifestações culturais está associada à busca contemporânea por diversidade, autenticidade e diferenciação simbólica. Dessa forma, o ambiente digital não apenas reproduz a cultura, mas transforma seus mecanismos de criação, distribuição e ressignificação, fortalecendo a posição da China como produtora de referências culturais globais.

 

Esse movimento também pode ser compreendido a partir das reflexões de García Canclini [2015] sobre globalização e consumo. Para o autor, o consumo contemporâneo não corresponde apenas à aquisição de bens materiais, mas constitui um espaço de negociação simbólica e construção identitária. Em um contexto de intensa circulação transnacional, produtos culturais passam a ser constantemente apropriados, reinterpretados e ressignificados por diferentes públicos. Assim, a crescente presença da estética chinesa no Ocidente evidencia processos de hibridização cultural que desafiam a centralidade europeia.

 

Contudo, o atual crescimento da influência chinesa levanta questionamentos acerca de sua profundidade e permanência. A lógica das redes sociais e do consumismo via mercados digitais favorece a rápida circulação de tendências, mas também contribui para sua obsolescência acelerada. Conforme argumenta Lipovetsky [2001], a moda está inserida em um sistema marcado pela efemeridade e pela constante renovação do desejo. Dessa forma, é necessário questionar se a crescente popularidade da estética chinesa representa uma transformação estrutural ou apenas uma tendência momentânea associada à busca por diferenciação em um mercado saturado.

 

Outro aspecto relevante refere-se às relações entre cultura e poder. O perecer de uma estética chinesa global depende tanto da capacidade econômica do país quanto da conquista de reconhecimento e legitimidade em um sistema historicamente dominado por referências ocidentais, em sua maioria eurocêntricas. Nesse contexto, apesar de, atualmente, a China deter uma presença econômica incontestável, o país ainda enfrenta desafios grandes na consolidação de sua influência cultural-estética. Questões geopolíticas, disputas comerciais e percepções negativas relacionadas ao país podem limitar a expansão de determinados produtos culturais. Ao mesmo tempo, a crescente popularidade de plataformas digitais e manifestações culturais chinesas demonstra que novos canais de influência estão sendo construídos independentemente dos mecanismos tradicionais de legitimação cultural [Bourdieu, 2007; Nye, 2004]

 

Portanto, permanece em aberto a questão central que orienta a pesquisa: estaríamos diante de uma transformação estrutural capaz de descentralizar efetivamente o poder estético global ou apenas de uma nova fase da dinâmica capitalista de produção e circulação de tendências?

 

Referências

Ana Cecília Moreira Barroso é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Artes, Cultura e Linguagens da UFJF e possui Bacharelado em Design pela mesma instituição.

 

Drª. Débora Pinguello Morgado é professora do Programa de Pós-Graduação em Artes, Cultura e Linguagens da UFJF e do Bacharelado em Moda da mesma universidade. É integrante do Grupo de Pesquisa em História e Cultura de Moda.

 

BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp, 2007.

 

CANCLINI, Néstor García. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. 8. ed. Rio de Janeiro: UFRJ, 2015.

 

KEANE, Michael. China's Creative Industries and the Quest for Soft Power. London: Palgrave Macmillan, 2016.

 

KURKDJIAN, Sophie. Géopolitique de la mode: Vers de nouveaux modèles?. Paris: Le Cavalier Bleu, 2021.

 

LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

 

MANOVICH, Lev. Software Takes Command. New York: Bloomsbury, 2013.

 

NYE, Joseph S. Soft Power: The Means to Success in World Politics. New York: Public Affairs, 2004.

 

TSUI, Christine. China Fashion: Conversations with Designers. London: Berg, 2009.

 

WANG, Zhe. “Implementation of Chinese-styled branding in global fashion: ‘Guochao’ as a rising cultural identity” -  Fashion, Style & Popular Culture, v. 9, n. 1-2, p. 149-183, 2022. DOI: https://doi.org/10.1386/fspc_00111_1.

8 comentários:

  1. O Guochao representa uma mudança duradoura na moda global ou apenas uma tendência impulsionada pelas redes sociais? Quais evidências sustentam sua interpretação?
    Atenciosamente, Elaine Alves da Silva.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Elaine! Tudo bem?
      Essa é, justamente, a pergunta central da minha pesquisa e, por se tratar de um fenômeno relativamente recente e em desenvolvimento, não acredito ser possível respondê-la de forma definitiva ainda. Ao longo do trabalho, busco identificar tanto fatores que podem favorecer o sucesso do Guochao internacionalmente, quanto às possíveis situações que o dificultariam.
      Encaro esta pesquisa como parte de um projeto de investigação de longo prazo, devido a temporalidade do fenômeno analisado, seria precipitado da minha parte, tomar qualquer conclusão sobre os desdobramentos de uma movimentação ainda em curso. Acredito que somente com o distanciamento histórico será possível avaliar se esse fenômeno de projeção cultural terá resultados duradouros.

      Att.: Ana Cecília Barroso

      Excluir
  2. Olá Ana e Débora!
    Obrigado pelo texto!
    Não sou muito versado em assuntos chineses, mas, enquanto lia o texto, fiquei pensando sobre a "natureza" da crescente presença chinesa no imaginário do resto do planeta.
    Como comentado no texto, o Guochao é intrinsicamente "local" e não foi pensado enquanto produto de exportação, né? O sucesso se deu, neste sentido, através das plataformas digitais e do consumo desses conteúdos à revelia de seu público-alvo, é isso?
    Caso as leituras acima estejam corretas, o que gostaria de perguntar é o seguinte: sei que a China tem uma autosuficiência considerável para produzir e circular produtos e mercadorias dentro das próprias fronteiras, mas existe também, enquanto foco para exportação (e política estatal), a produção/propaganda/circulação que se volta para o exterior. Nesse sentido, há um movimento institucional para o fortalecimento desse "softpower" chinês? Quero dizer, o estado mobiliza políticas públicas para a criação de produtos culturais que possam ser exporatados enquanto essa força mais branda? (a dúvida surge da política chinesa de emprestar pandas para zoológicos de outros países, por exemplo, o que, frequentemente, é um enorme sucesso de propaganda chinesa).
    Novamente, obrigado pelo texto!
    att.
    Felipe Chaves Gonçalves Pinto

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eii, Felipe! Tudo bem?

      Sim, o Guochao surgiu como um movimento voltado, inicialmente, ao mercado interno chinês. Porém, nos últimos anos, podemos observar uma projeção bem-sucedida para o Ocidente. Um exemplo a ser citado é o videogame Black Myth: Wukong, lançado em 2024, que alcançou sucesso global ao arrecadar mais de US$ 1 bilhão em receita e receber o título de jogo single-player mais jogado da história da Steam, a principal plataforma global de jogos para computador. Black Myth: Wukong incorpora a essência do Guochao por apresentar referências à história e à mitologia chinesas em um contexto moderno dos jogos eletrônicos.

      Esse fenômeno também pode ser observado no audiovisual. Produções com narrativas ambientadas em contextos dinásticos, que antes estavam restritas a plataformas chinesas, como YouKu, iQIYI e WeTV, passaram a integrar catálogos de streaming internacionais, como a Netflix, evidenciando o interesse da China em compartilhar seus produtos culturais e ampliar sua presença em mercados estrangeiros por meio dessas plataformas.

      Utilizando desses exemplos como gancho, também é possível relembrar um comportamento histórico de exportação comercial/cultural que remonta à antes de Marco Polo. Na atualidade, observa-se a evolução desse processo por meio da atuação da China no BRICS e dos investimentos em tecnologias algorítmicas e inteligência artificial. Os algoritmos de recomendação tornaram-se importantes instrumentos de soft power, fazendo com que a atual corrida tecnológica representasse não apenas uma disputa por inovação, mas também por influência cultural, econômica e política. Esses exemplos indicam um interesse crescente na exportação da cultura e dos produtos culturais chineses.

      Att.: Ana Cecília Barroso

      Excluir
    2. Muito obrigado pela resposta detalhada, Ana! Foi muito bom acompanhar as ideias de seu texto e mais este complemento :)

      Excluir
  3. Kerolayne Correia de Oliveira8 de julho de 2026 às 15:45

    Olá, Ana Cecília e Débora! Gostei muito da proposta do trabalho de vocês, especialmente por pensar a moda como uma dimensão importante do soft power chinês. Enquanto lia o texto, fiquei pensando em algumas questões. A primeira delas diz respeito à circulação do estilo ‘Guochao’. Me parece que ele circula precisamente a partir de dinâmicas bem consolidadas no Ocidente capitalista de mercado e plataformas digitais. Nesse sentido, até que ponto essa estética consegue escapar da própria dinâmica capitalista da moda ou acaba sendo absorvida por ela também? Além disso, como vocês enxergam a posição do Estado e do Partido Comunista Chinês diante desse processo, sobretudo considerando iniciativas recentes de contenção da chamada "cultura da ostentação" e de regulação da atuação de influenciadores?

    ResponderExcluir
  4. Muito interessante esse texto. Minha dúvida é: Em que medida o estilo de Xi Jinping acaba contribuindo (ou não) no processo dessa "onda nacional"? Ou se trata de um novo perfil de consumo?
    Janaina de Paula do Espírito Santo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Janaina!

      A estratégia de internacionalização da cultura chinesa integra um projeto de longo prazo conduzido pelo Estado, porém não acredito que só o projeto dite como essa corrente do Guochao é recebida. Por meio dos planos quinquenais, a China estabelece diretrizes para o incentivo à cultura alinhadas ao projeto de "rejuvenescimento da nação chinesa". E diferentemente do modelo de expansão cultural historicamente adotado por países como os Estados Unidos, a atuação chinesa caracteriza-se por um processo gradual, marcado por avanços constantes e planejados.

      Nesse contexto, o 14º Plano Quinquenal apresenta a cultura como um dos pilares estratégicos do desenvolvimento nacional. Ao definir mecanismos específicos para o fortalecimento da indústria cultural, é demonstrada a intenção de ampliar a circulação de produtos culturais chineses e de projetar, tanto no mercado interno quanto internacional, valores alinhados ao Partido Comunista Chinês e ao pensamento de Xi Jinping. Mas nada garante que as investidas do Estado por si só sejam os responsáveis por essa fusão entre um nacionalismo nostálgico e um presente tecnológico.

      Att.: Ana Cecília Barroso

      Excluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.