Há séculos, e até milênios, as práticas mortuárias têm sido uma importante forma de conhecer, ou mesmo nos conectar com, o passado. Seja por meio de diferentes práticas de rememoração, do retorno a espaços funerários ancestrais ou, até mesmo, da realização de escavações arqueológicas, os mortos, bem como sua materialidade, nos oferecem uma miríade de informações sobre o passado e a possibilidade de formularmos conhecimentos distintos a seu respeito. Contudo, ao nos debruçarmos sobre a prática arqueológica, nos deparamos com uma grande variedade de abordagens e interpretações teóricas formuladas a respeito das evidências mortuárias que evidenciam as inúmeras renovações conceituais e metodológicas pelas quais o campo da arqueologia funerária tem passado nas últimas décadas [Ekengren, 2013, p. 173; Souza, 2018, p. 266].
Se é verdade que as tradições funerárias variam significativamente a depender do recorte temporal, cultural e geográfico, cabe ressaltar que, na Península Coreana, podem ser observadas diferentes formas de deposição, comemoração e rememoração dos mortos, desde, notoriamente, a existência de tumbas monumentais contendo múltiplos ocupantes e milhares de acompanhamentos funerários, até urnas que guardam remanescentes humanos cremados. Em diversos contextos, aliás, os dados mortuários são o material arqueológico mais volumoso sobre determinados períodos, possibilitando o acesso a dados e informações que, de outro modo, estariam indisponíveis, como frequentemente pode ser observado nos séculos finais Antes da Era Comum [AEC] e nos iniciais da Era Comum [EC], em assentamentos como os de Gyeongju, antiga capital de Silla [Davey, 2014, p. 2]. O presente texto busca discutir, assim, como o estudo o estudo do material mortuário, por meio da arqueologia funerária, tem contribuído e pode continuar a contribuir para o entendimento de diversas questões sociais, muitas das quais ainda pouco aprofundadas em pesquisas centradas no contextual da Antiguidade Coreana.
Algumas perspectivas teóricas acerca das práticas funerárias e dos acompanhamentos mortuários
Definir o que compõe o conjunto funerário ou, de maneira mas ampla, o que compõe as práticas funerárias é um passo fundamental que precisa estar presente nas análises arqueológicas mortuárias. O registro funerário, como afirma Souza [2018, p. 270], precisa ser entendido de maneira ampla e multifacetada, com os seus diferentes elementos constituindo um todo interdependente e interligado. Assim, é necessário uma abordagem contextual e relacional para a análise do material funerário, ou seja, é preciso considerarmos integralmente as condições, o cenário específico, a conjuntura e os arranjos em que os achados se encontram. Isso porque elementos tão diversos como os acompanhamentos mortuários, o corpo, a morfologia das estruturas funerárias e a própria paisagem ocupam um papel fundamental nas negociações, disputas e construções [Sørensen, 2006, p. 105] em distintas etapas das práticas funerárias. É importante ressaltar, também, que a definição de contexto mortuário não se limita apenas à cerimônia do funeral, mas abrange toda a preparação que pode ocorrer antes mesmo da morte do indivíduo e o espaço – material e simbólico – que os mortos ocupam continuamente na sociedade.
Assim, é essencial que as práticas funerárias sejam compreendidas em sua historicidade e como parte integrante de um tecido social, já que os mortos não enterram a si próprios [Parker Pearson, 1999, p. 3]. Todo funeral é, de tal modo, sempre realizado em um determinado espaço e momento por agentes históricos específicos, nunca em um vácuo [Ekengren, 2013, p. 175], fazendo com que mesmo os arranjos mais semelhantes, ou que se utilizem de objetos idênticos, possam ter significados distintos se produzidos e depositados por agentes, ou em momentos, ou contextos culturais e discursivos distintos [Peixoto, 2024, p. 164]. Porém, ainda que a esfera funerária seja um âmbito no qual significados sejam criados e disputados, com uma lógica própria e um evidente distanciamento em relação ao contexto da vida social – isto é, não sendo um espelho direto do mundo dos vivos [Ekengren, 2013, p. 175] –, essas duas esferas coexistem em uma relação complexa. Em outras palavras, ainda que a esfera mortuária possua e produza os seus próprios sentidos, eles ainda sim existem em contínua e mutável relação com o cotidiano e a realidade dos vivos e vice-versa. Dessa forma, ao analisarmos as práticas funerárias é preciso buscar entender as especificidades do âmbito mortuário e do âmbito histórico e social mais amplo a partir de uma perspectiva relacional.
Um importante elemento material das práticas funerárias são os acompanhamentos funerários, que podem nos trazer diversas informações sobre o passado. O estado da arte tem enfatizado a necessidade de entendê-los não mais como um material passivo, resultante das práticas realizadas no contexto mortuário, mas como parte de um agenciamento que participa da construção das relações, das identidades e do próprio sentido social [Ekengren, 2013, p. 175; Parker Pearson, 1999, p. 32; Peixoto, 2024, p. 160]. Os acompanhamentos ou mobiliário funerários foram definidos por Peixoto, de maneira intencionalmente ampla, da seguinte forma:
“Por mobiliário funerário, ou acompanhamentos, nos referimos a todos os itens intencionalmente depositados ou deixados junto aos mortos durante […] suas [diferentes] formas de tratamento” [Peixoto, 2024, p. 160].
Os termos mobiliário ou acompanhamentos funerários podem ser utilizados como sinônimos, apesar de o último se encontrar mais presente no vocabulário arqueológico brasileiro [Peixoto, 2024, p. 162]. O uso desses termos para descrever tudo aquilo que foi deixado junto aos mortos é preferível em relação a outros, justamente por evitar suposições anacrônicas; no entanto, é indispensável que tenhamos a noção de que o processo de identificação é altamente interpretativo e carrega diferentes dificuldades [Peixoto, 2024, p. 162].
Nesse sentido, concordamos com a afirmação de Peixoto, na qual é argumentado que:
“[…] os acompanhamentos [funerários] jamais devem ser encarados como uma analogia da realidade, tampouco estudados como um veículo para modelização acrítica de dada sociedade, sua hierarquia social, estruturas de poder etc” [Peixoto, 2024, p. 161].
Essa perspectiva pode ser estendida para os demais elementos constituintes da esfera funerária, já que, como argumentado, eles pertencem a um contexto circunscrito que não reflete diretamente a vida social. Nessa lógica, o material funerário não passa a ser entendido como menos profícuo para a investigação de questões sociais variadas, mas sim como um material que deve ser analisado de maneira cautelosa – como toda evidência arqueológica – e que inferências sobre demais âmbitos sociais para além do mortuário não devem ser realizadas automaticamente [Peixoto, 2024, p. 161].
A escolha dos acompanhamentos funerários deve ser analisada, portanto, como imbuída de intencionalidade e faz parte de um agenciamento humano, sendo pouco provável que um conjunto mortuário tenha sido aleatoriamente escolhido e depositado [Ekengren, 2013, p. 176; Parker Pearson, 1999, p. 11; Peixoto, 2024, p. 160]. É evidente, de tal modo, a existência de sentidos construídos em termos histórico e social que orientam a escolha do mobiliário funerário, embora tais sentidos sejam dificilmente inferidos e entendidos em sua totalidade. Como discutido anteriormente, os mesmos itens podem adquirir significados distintos ao compor arranjos diferentes, conforme a performance funerária faz uso deles em momentos distintos do ritual ou ainda se forem utilizados por grupos diferentes de uma mesma sociedade. Dessa maneira, entendemos que o estudo sólido do mobiliário funerário deve estar diretamente relacionado à análise minuciosa do contexto do achado, suas características e estado, da morfologia da tumba e da relação entre a cultura material e os mortos [Peixoto, 2024, p. 165]. Tal postura é, a nosso ver, de suma importância, já que não existe um significado intrínseco a um item isolado, mas sim diferentes significados relacionais.
Uma breve apresentação do material funerário de Gyeongju
Um dos materiais mais comumente encontrados em Gyeongju, a antiga capital de Silla, que data do período Antigo de Silla [57 AEC – 654 EC] é o de natureza funerária. Até hoje, uma quantidade significativa de estruturas funerárias encontra-se visível na paisagem da cidade – cerca de 150 com montículos monumentais – tendo continuamente integrado a vida dos habitantes ao longo de cerca de dois milênios. A imagem abaixo apresenta os principais sítios funerários localizados no centro da cidade, a saber Nodong, Noseo, Daereungwon, Jjoksaem, Hwango, Inwang e Hwangnam, muitos dos quais continuam a ser explorados por arqueólogas e arqueólogos na atualidade. Como pode ser observado, as estruturas funerárias localizadas neles estão também em grande proximidade com estruturas consideradas prestigiosas e de significativa relevância no assentamento, como o palácio fortificado Wolseong:
Fonte: Adaptado de Instituto Nacional de Pesquisa do Patrimônio Cultural de Gyeongju, 2024
As estruturas funerárias mais antigas já escavadas na região de Gyeongju são as tumbas com caixão de madeira, datadas do final da Idade do Ferro Inicial [IV – II AEC] [Lee, 2019, p. 49]. A partir do início da Idade do Ferro Tardia [IFT] [I AEC – III EC], no século I AEC, agrupamentos de tumbas começaram a aparecer, o que, como argumenta Lee [2019, p. 51], pode indicar a construção de um novo senso distinto de comunidade política que veio a se estabelecer na região, marcado pela transição de pequenas comunidades para formas mais hierárquicas, organizadas em torno de poderosas lideranças regionais. Nesse período inicial, as estruturas funerárias são caracterizadas pelos caixões de madeira e pela construção abaixo do nível do solo [Lee, 2019, p. 51-52].
No período mais tardio da IFT, passam a ser encontradas tumbas com câmara de madeira, ainda construídas abaixo do solo, porém com dimensões significativamente maiores [Lee, 2019, p. 53]. Lee [2019, p. 53] entende essa mudança repentina como um reflexo de mudanças sociais profundas, no entanto é preciso ter muita cautela com a noção de que as práticas funerárias simplesmente refletem dinâmicas da vida social, pois, como foi discutido acima, a esfera funerária é um contexto próprio, com sentido e significados próprios, que não podem ser automaticamente transportados para o cotidiano. Afinal, muitas vezes as transformações observadas no contexto funerário podem estar relacionadas a construções idealizadas de arranjos sociais que não são percebidos na vida social, ou a mudanças em atitudes e simbologias religiosas. É nessa época também, isto é, entre os séculos II e III EC, que se percebem mudanças no formato das tumbas, que passam a ser menos quadradas e mais retangulares. Outra transformação que pode ser evidenciada, no caso de Gyeongju, é a prática de se construir uma segunda câmara mortuária, na mesma vala de um sepultamento anterior, para a deposição dos acompanhamentos funerários [Lee, 2019, p. 53].
Durante o período Maripgan [356 – 514 EC] observa-se o surgimento das tumbas com câmara de madeira e montículo de pedra. As evidências arqueológicas disponíveis na atualidade parecem indicar que essas estruturas se desenvolveram a partir de tumbas com câmara de madeira com pedras em seu entorno, passando posteriormente a uma fase marcada pela deposição de pedras em cima da câmara até a construção de toda a estrutura acima do solo ser feita desse modo [Lee, 2019, p. 54]. Por fim, a partir do século VI EC, as tumbas passaram a ser construídas com câmaras e montículos de pedra e a ser situadas na região montanhosa mais afastada do centro da cidade; a partir desse momento os remanescentes humanos também começaram a ser cremados [Lee, 2019, p. 58; 60]. É importante salientar que, embora as estruturas mortuárias apresentadas sejam historiograficamente entendidas como características de cada um dos seus períodos, ainda assim diferentes formas funerárias eram praticadas concomitantemente, como aquelas características aos períodos anteriores e as inumações depositadas em grandes jarros [Lee, 2019, p. 54–55].
Um panorama das possibilidades de estudo
Por grande parte do material arqueológico disponível para o período Antigo de Silla ser de natureza funerária, diversos estudos acerca desses materiais têm sido conduzidos no cenário nacional coreano e também internacionalmente [e.g. Gu, 2014; Ham, 2014; Jang; Kwon, 2012; Kim, 2017; Lee; Shin; Jung, 2016; Park; Jung, 2007]. Contudo, se de um lado uma parcela significativa das investigações conduzidas buscam analisar os itens encontrados nas tumbas – especialmente as com montículos monumentais – de maneira isolada, investigando questões como tipologia e cronologia [Kim, 2025]; por outro uma quantidade também relevante de pesquisas equaciona as tumbas, ao combinar quantidade e qualidade de acompanhamentos funerários com a morfologia e a monumentalidade, à organização social de Silla do período. Dessa maneira, algumas questões importante precisam ser colocadas acerca desse panorama.
Primeiramente, é preciso ressaltar que, em relação ao primeiro grupo de abordagens dos acompanhamentos mortuários, pesquisas que analisam itens tipologicamente ou que constroem cronologias a partir deles são absolutamente necessárias e precisam continuar a ser realizadas. A questão que precisa ser levantada é a falta de investigações desse material de maneira integrada e interconectada, sobretudo no que concerne aos aspectos da dimensão social. Como Ekengren [2013, p. 180-182] argumenta, o significado dos acompanhamentos é relacional, ou seja, ele existe em relação aos outros itens, às práticas que os acompanham, ao tratamento performático e assim por diante. Assim, fica evidente que integrar o contexto funerário maior à análise desse material é indispensável para o entendimento das práticas mortuárias e dos seus significados específicos.
O segundo ponto está estreitamente alinhado ao primeiro e às discussões realizadas acima, já que, se os sentidos são construídos em seus contextos específicos, torna-se teoricamente incoerente transportar automaticamente os significados próprios do âmbito mortuário para o da vida social [Ekengren, 2013, p. 182]. Dessa maneira, podemos facilmente conceber que um mesmo objeto pode ter um significado completamente diferente ao ser utilizado em uma atividade cotidiana ou em uma cerimônia funerária e que, como Peixoto [2024, p. 161] defendeu, o mobiliário funerário – e os variados elementos que compõem as práticas funerárias – não devem ser acriticamente analisados e entendidos como um reflexo da vida social e de suas organizações, como tende a fazer a historiografia da Península Coreana na Antiguidade, frequentemente inclinada a defender a chegada de novas elites ou drásticas mudanças sociais sempre que alterações são perceptíveis nos registros funerários.
Nesse sentido, abrem-se diversas possibilidades de investigação sobre o social a partir dos vestígios materiais do passado, como a possibilidade de refletirmos sobre as construções de identidade, proeminência social, memória e gênero, que para além de alguns poucos estudos [cf. Kim, 2016; Müller, 2021], ainda permanecem amplamente inexploradas para o recorte em questão, sobretudo na academia brasileira. Os funerais são eventos sociopolíticos nos quais, através de elementos materiais, os papéis sociais dos mortos e dos vivos são construídos, negociados e disputados [Parker Pearson, 1999, p. 32], evidenciando como esse é um meio criativo e fluido de extrema importância para a manutenção das dinâmicas políticas e sociais. Nesse sentido, abandonar a noção de que a partir das práticas funerárias toda uma suposta organização social poderia ser facilmente vislumbrada, como se olhássemos para um espelho, não impossibilita o conhecimento do passado a partir de tais vestígios. Ao contrário, nosso intuito é argumentar justamente o oposto, já que entendemos que tal estudo permite observar as maneiras criativas como papéis sociais eram negociados e disputados em conjunto na esfera funerária a partir dos usos da cultura material. Assim, os estudos futuros sobre as tumbas existentes em toda a extensão da cidade de Gyeongju, considerando como seus acompanhamentos se relacionam entre si e com os indivíduos sepultados e como a sua estrutura se relaciona com a paisagem e a constrói, poderão formular novos conhecimentos acerca da Antiguidade Coreana de maneira mais sistemática, a fim de romper com a tendência hipertecnicista e descontextualizada, por um lado, e as abordagens mais imediatistas que enxergam nos registros funerários um reflexo imediato da realidade, por outro.
Referências
Luiza Santos Freire de Souza é mestranda em Arqueologia pelo Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É pesquisadora do Laboratório de História Antiga da UFRJ e da Curadoria de Estudos Coreanos da Universidade Federal de Pernambuco.
DAVEY, Jack. Mortuary Ritual and Social Development in Iron Age Korea. 2014. Tese (Doutorado) – University of California, Los Angeles, 2014.
EKENGREN, Fredrik. Contextualizing Grave Goods: Theoretical Perspectives and Methodological Implications. In: TARLOW, Sarah; STUTZ, Liv Nilsson (org.). The Oxford handbook of the archaeology of death and burial. 1. ed. Oxford: Oxford University Press, 2013. p. 173-192.
GU, Moon-gyoung. Silla Crowns and Crown Ornaments of the Yeongdong Region. Journal of Korean Art and Archaeology, p. 28-43, 2014.
HAM, Soon Seop. Development of Silla Headband Crowns with Tree-shaped Uprights. Journal of Korean Art & Archaeology, v. 8, p. 10-27, 2014.
JANG, Hyun-Joo; KWON, Young-Suk. A Study on the Fabrics Excavated from Hwangnamdaechong Tomb - Focused on the Fabrics Currently Housed in Gyeongju National Research Institute of Cultural Heritage. The Korean Society of Costume, v. 62, n. 7, p. 41-53, 2012.
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PEIXOTO, Pedro Vieira da Silva. Mobiliário Funerário ou acompanhamentos. In: SOUZA, Camila Diogo de; TACLA, Adriene Baron (org.). Dicionário de Arqueologia Funerária. Belo Horizonte: Fino Traço Editora, 2024. p. 160-168.
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Cara Luiza, obrigado por seu texto elucidativo e único, que nos brinda com conhecimentos sobre a Coreia que seguem inéditos no Brasil. Mas segue aquela dúvida que já tivemos oportunidade de conversar antes: você compreende influências chinesas - ou ainda dizendo, de uma cultura sino-coreana - nesses assentamentos? =)
ResponderExcluirSaudações, e parabéns por esse excelente texto!!
André Bueno
Querido professor André, agradeço não apenas pelo seu comentário, mas também por você ter possibilitado mais uma vez a realização desse belíssimo evento. O seu trabalho é um pilar dos estudos asiáticos no Brasil.
ExcluirEm relação à sua pergunta, a questão das influências (e presença, conexões e interações) chinesas em Silla e em toda a Península Coreana está presente não apenas em nossas conversas, como também nas discussões históricas e arqueológicas mais recentes da Antiguidade Coreana. Entendo que a resposta simples e direta seria: sim, é inegável a presença chinesa na Península Coreana. Essa, no entanto, se deu de maneira muito variada ao longo do espaço geográfico e dos séculos.
Quando consideramos as interações de Silla com a China, podemos pensar em dois momentos muito distintos: um primeiro anterior ao século VII EC, no qual ocorreu o desenvolvimento e a consolidação estatal de Silla; e um posterior ao século VII EC, no qual a Península foi unificada e uma relação turbulenta com a dinastia Tang foi forjada. Enquanto essa presença é evidente no segundo momento, com um sistema de organização do governo e da própria cidade fortemente inspirados naqueles observados na China e com um amplo uso do sistema de escrita chinês, somente para citar alguns exemplos, as interações sino-coreanas no sudeste da Península nos séculos finais AEC e iniciais EC são muito mais discretas.
Devido à grande discrepância na quantidade de fontes provenientes de cada um desses dois momentos, antes e depois do século VII EC, acredito que uma maneira profícua de discutirmos, mesmo que brevemente, essa presença chinesa seja a partir dos materiais que temos disponíveis hoje. Primeiramente, é importante considerar que entre os séculos II AEC e IV EC as chamadas comendas da Dinastia Han ocuparam o norte da Península Coreana e parte da Manchúria. Essas comendas, entendidas como entrepostos militares, possuíam uma relação muito próxima com Goguryeo, um dos “reinos” coreanos do período. No entanto, o contato chinês com Silla, que se encontrava muito mais ao sul, se deu de maneira muito distinta. A partir dos materiais funerários, por exemplo, podemos perceber diversos itens provenientes da Dinastia Han na região de Yeongnam (sudeste da Península Coreana), um emblemático caso sendo o dos espelhos. Essa presença atesta que, em alguma medida, trocas diretas ou indiretas ocorriam entre essas duas sociedades, porém não existe um consenso entre os pesquisadores sobre qual seria a natureza dessas interações. Outro exemplo muito relevante é também o da escrita em língua coreana com caracteres chineses, que começa a ser encontrada na região a partir de cerca do século V EC.
Assim, a partir desses exemplos podemos perceber como a presença chinesa se deu de maneira muito variada na Península ao longo do espaço e do tempo. Com isso, é essencial destacar que mesmo que as pesquisas sobre as conexões entre as populações coreanas e chinesas antes do século VII EC ainda precisam ser aprofundadas, é necessário sempre considerar a agência e o protagonismo coreano, sem entender esses grupos como recipientes passivos de uma cultura externa e superior.
Luiza.
Mais uma vez, muito obrigada pela pergunta e por colocar sempre questões tão importantes e pertinentes.
ExcluirEspero que a resposta tenha sido satisfatória e reforço que estou sempre a disposição para discutirmos sobre o assunto.
Luiza.