O
presente trabalho propõe analisar as possíveis interseções entre dois poemas de
autoria de Forugh Farrokhzad (1934-1967), intitulados O Pecado e a onda, ambas publicadas na década 1950, articulando-os
ao debate sobre a modernidade e o controle estatal exercido sobre os corpos
femininos no Irã. Para tanto, estabelece-se um paralelo diacrônico, ou seja,
através do tempo, entre essa produção poética vanguardista da autora e as
revoltas contemporâneas deflagradas após a morte da Jovem curdo-iraniana Jina
Mahsa Amini, em setembro de 2022, que foi assassinada pela violência da polícia
da Moralidade do Irã.
Esse
trágico desfecho é o ápice de um longo processo de disputas políticas travadas
sobre a indumentária feminina. Essa oscilação histórica entre o banimento
forçado do lenço na era Pahlavi e a obrigatoriedade estrita do hijab sob o
regime atual demonstra que, como apontou Michel Foucault, “O poder está em toda
parte; não porque englobe tudo e sim porque provém de todos os lugares” [2022,
p. 101], mantendo o corpo feminino sob a tutela de projetos políticos
formulados por homens. Dessa forma, tanto na modernização autoritária do Xá
quanto na engenharia moral dos Aiatolás, a indumentária e a liberdade da mulher
foram instrumentalizadas como ferramentas de afirmação de poder, privando-as de
sua soberania individual. O uso de aparatos de violência, como é o caso da
Polícia da Moralidade, evidencia que esses mecanismos de poder “funcionam fora,
abaixo, ao lado dos aparelhos do Estado a um nível muito mais elementar e
cotidiano [...]” [Foucault, 2021, p. 240].
É justamente nessa dimensão elementar e cotidiana de
controle que se inseriu a tragédia que mobilizou a opinião pública
internacional: a publicização do crime cruel contra Jina Mahsa Amini e, por
extensão, o próprio ato poético de resistência, os quais possibilitaram ao
mundo acompanhar, pelas redes sociais e reportagens, toda a comoção e revolta
sobre a brutalidade sofrida por ela. Esse
cenário de dor foi detalhadamente relatado por seus parentes:
“Jina. Que adorava cantar, dançar e viajar.
Que foi presa pela polícia da moralidade iraniana de 13 de setembro e levada a
uma delegacia, onde desmaiou pouco tempo depois. Ela ficou em coma por dois
dias e meio, com ferimentos na cabeça e respirando por um tubo, antes de
morrer. [...] Para Jina, as regras eram diferentes: cabelos e pescoço cobertos
por um véu, formas do corpo feminino escondidas por um manto, nenhuma pele à
mostra dos pulsos aos tornozelos.” [G1, dezembro de 2022].
É
precisamente em oposição a essa engrenagem contínua de controle patriarcal e à
violência teocrática que as mulheres iranianas atuais, ao queimarem seus hijabs
e véus em praça pública e cortarem seus cabelos ao som do slogan Zan,
Zendegi, Azadi (Mulher, Vida, Liberdade), atualizam e corporificam a mesma
transgressão lírica que Farrokhzad inscreveu na literatura. Afinal, Forugh
Farrokhzad foi uma intelectual multifacetada: além de poeta, atuou como
roteirista, pintora e cineasta, sendo responsável pela direção do aclamado
documentário A Casa é Escura (1963), obra vanguardista que retrata com
profunda humanidade a realidade de uma colônia de pessoas afetadas pela lepra
no Irã. A assunção dessa identidade de
gênero e o orgulho de sua perspectiva singular ecoavam na própria autodefinição
da autora, ao declarar: “Se meus poemas têm um aspecto de feminilidade, é claro
que é bastante natural. Afinal, felizmente, sou mulher” [2007, p.6].
Essa postura artística e existencial, eminentemente disruptiva e engajada,
reverbera nos levantes contemporâneos, cuja reação coletiva, sob a ótica
teórica de Michel Foucault [1987, p. 70], evidencia a atuação de um poder
político que não se furta a se exercer diretamente sobre os corpos, convertendo
a anatomia feminina em um território de vigilância, normatização e adestramento
estatal.
Nesse
contexto de sublevação, os corpos das manifestantes, ao se organizarem e se
exporem politicamente nas ruas, constituem a prova material dessa recusa ao
adestramento biopolítico. Enquanto o regime tenta exercer sua soberania através
da imposição da indumentária e da vigilância contínua, as ações coletivas
performam o exato momento em que a docilidade é rompida. Essa reação ganha contornos específicos ao
tencionar o que Silva define como “reações de poder baseadas nas diferenças
percebidas entre os sexos” [2007, p. 33], demonstrando que a imposição estatal
sobre os corpos é uma “elaboração social hegemônica” [Silva, 2007, p.33]
desenhada para hierarquizar as relações sociais em detrimento das mulheres.
Assim, ao se reunirem em espaços públicos e empunharem retratos de Jina Mahsa
Amini, as e as manifestantes convertem sua própria presença física em um ato de
desobediência civil macroestrutural, desafiando a normatização estatal e
reivindicando a soberania de suas individualidades.
Essa busca pela soberania do corpo e da voz não é um
fenômeno isolado, mas o deságue de uma genealogia de resistência cultural. É
nesse
cenário de enlace entre a poesia de Forugh Farrokhzad e os protestos
contemporâneos contra a morte de Jina Mahsa Amini que se revela como o controle
dos corpos pelo poder político se perpetua no tempo bem como as formas de
combatê-lo. Quando as mulheres iranianas atuais queimam seus véus em praça
pública e cortam seus cabelos, elas atualizam e corporificam a mesma
transgressão lírica que Farrokhzad inscreveu na literatura. Sob essa perspectiva, esse levante
representa uma tentativa histórica de fraturar a condição de silenciamento
imposta pelo patriarcado estatal, desafiando a premissa de que “a mulher como
subalterna não pode falar e quando tenta fazê-lo não encontra meios para se
fazer ouvir” [Spivak, 2010, p. 15]. Ao utilizarem a ação direta e a própria
estética do hijab, as manifestantes contemporâneas buscam deliberadamente
escapar dessa situação de mudez estrutural. Desse modo, a obra de Farrokhzad
opera não apenas como memória, mas como uma ferramenta epistêmica viva para
compreender as crises de legitimidade e as permanências autoritárias dessa
parte do mundo, demonstrando que o corpo feminino, ao se rebelar, constrói os
seus próprios meios para finalmente se fazer ouvir e ecoar globalmente.
Como
ponto fulcral dessa resistência estética e política, a voz de Forugh Farrokhzad
rompe o silenciamento histórico ao celebrar a soberania do desejo e do próprio
corpo. Sua composição mais célebre, O Pecado, apresentada textualmente a
seguir, materializa essa insubordinação:
O pecado
Cometi
um pecado cheio de prazer,
num
abraço quente e ardente.
Pequei
rodeada por braços
Quentes,
quentes, vingadores e de ferro.
Naquele
recanto escuro e silencioso,
Olhei
em seus olhos cheios de segredo.
Meu
coração impaciente palpitava em meu peito,
em
resposta ao anseio de sus olhos.
Naquele
recanto escuro e silencioso,
sentei-me
desgrenhada ao seu lado.
Seus
lábios derramaram paixão sobre os meus,
e
escapei da dor do meu coração enlouquecido.
Sussurrei
em seu ouvido a historia do amor.
Eu
te quero, ó minha vida,
Ó
meu amante enlouquecido, você.
O
desejo acendeu uma chama em seus olhos;
O
vinho tinto dançava na taça.
Na
cama macia, meu corpo
embriagado
tremia sobre seu peito.
Cometi
um pecado cheio de prazer,
ao
lado de uma forma trêmula e estupefata.
Ó
Deus, quem sabe o que fiz
naquele
recanto escuro e silencioso.
[Farrokhzad,
2007, p. 11]
Em seus versos, Farrokhzad relata uma
transgressão sexual e, ao confessar o ápice do seu desejo, revela uma total
ausência de remorso. O desejo, portanto, é apresentado como uma força que se
desprende por completo das amarras de submissão construídas pelo patriarcado, o
qual historicamente confina a existência feminina às funções reprodutivas e ao
espaço privado. Essa domesticação da identidade das mulheres, moldada desde a
infância, é bem caracterizada por Michelle Perrot [2007, p. 43] ao apontar que
as meninas, vistas como futuras mães, são precocemente requisitadas para as
tarefas domésticas. Contudo, como bem observa Sandro Chignola, essas estruturas
de dominação revelam-se “constantemente ameaçadas pela liberdade que procura
domar e pelas formas de resistência que o atravessam” [2020, p. 29], tornando a
rebeldia poética e corporal um confronto direto a essa engrenagem.
É precisamente nesse ponto de ruptura
com esse destino pré-determinado de docilidade que a obra literária encontra o
seu paralelo histórico na contemporaneidade, especialmente nas manifestações
eclodidas após a morte de Jina Mahsa Amini. Nesse sentido, os protestos
realizados em diversas partes do Irã mostraram mulheres retirando seus hijabs e
cortando os próprios cabelos em praça pública. Essa ação direta estabelece um
ponto de encontro crucial com o poema: primeiro, porque ao despirem-se dos véus
obrigatórios, essas mulheres espelham a mesma ausência de remorso e a audácia
de Farrokhzad ao expor o corpo e a vontade soberana acima das expectativas de
domesticidade; segundo, porque o ato de cortar os cabelos funciona como a
materialização física dos versos da autora, simbolizando a mutilação da própria
opressão e a recusa definitiva a desempenhar passivamente os papéis sociais
tradicionais e as amarras do Estado autoritário.
Como
expressão máxima desse confronto poético e existencial contra o aprisionamento,
sobressai a força de sua obra lírica intitulada A Onda. A composição
materializa em versos a ruptura definitiva com a opressão e com a estagnação
imposta, conforme transcrita a seguir:
A Onda
Para
mim, você é uma onda;
nunca
aqui, nunca ali!
Você
ainda está em lugar nenhum!
Agarrando,
arrastando
e fugindo,
você
se espalha rapidamente como uma praga mortal,
em
busca de outra terra, seu destino vago!
Observando
você
De
longe,
em
meu olhar fixo,
você
é uma maré rebelde
em
um deslizamento eterno.
Insistente,
impaciente, depois uma errante inquieta,
você
deve ser calma no coração, agitada apenas no ato!
E
agora eu sei, o mar do arrependimento é sua terra natal.
Sim,
você é uma maré indomável!
Sempre
em movimento,
em
um deslizamento eterno!
Mas
uma noite,
usarei
uma máscara
feita
da sede
das
costas mais remotas
e
suas ilhas desertas.
E
eu a capturei em minhas areias absorventes,
para
sempre longe de suas terras natais marítimas
[Farrokhzad,
2007, p. 20].
O
ponto de encontro imediato com a tessitura lírica de Farrokhzad reside na
descrição feita pela reportagem do portal G1, anteriormente citada, que
apresenta Jina como alguém que adorava cantar, dançar e viajar características
que a sintonizam diretamente com a essência da maré rebelde e da errante
inquieta presentes no poema. Cantar, dançar e viajar são atos de puro
movimento, vazões de uma subjetividade que recusa a imobilidade e o
enclausuramento doméstico. Ao ser capturada pela violência da Polícia da Moralidade,
a interrupção abrupta da vida de Jina reflete a face mais perversa de uma
estrutura em que, como aponta Edgardo Castro [2009, p. 113], “a vigilância é
permanente em seus efeitos: induz nos indivíduos um estado consciente e
permanente de vigilância”. No plano simbólico, essa coerção assemelha-se à
investida final do poema, cenário no qual as areias absorventes do patriarcado
tentam capturar a onda para mantê-la para sempre apartada de sua liberdade de
existir.
O
martírio de Jina Mahsa Amini transcendeu a indignação imediata e consolidou-se
como o catalisador de uma transformação estrutural e irreversível na sociedade
iraniana. A violenta reação estatal, marcada por execuções sumárias, prisões
arbitrárias em massa e centenas de mortes, não foi capaz de estancar o fluxo do
movimento por direitos. O transe contemporâneo do Irã, portanto, reflete uma
transição tática: a explosão inicial das grandes marchas de rua deu lugar a uma
desobediência civil cotidiana e capilarizada, na qual a recusa em usar o vestuário
compulsório em espaços públicos tornou-se um ato diário de contestação política
e de retomada do próprio corpo. Esse cenário de persistência é ilustrado pelo
testemunho de três mulheres iranianas à BBC News Brasil (2024):
“Azad,
Donya e Bahareh não se conhecem, mas as três mulheres, cujos nomes alteramos
para sua própria segurança, compartilham da mesma determinação feroz em
resistir ao governo teocrático do Irã e aos códigos de vestimenta que o mesmo
impõe às mulheres e meninas há 45 anos. Assim, todos os dias, elas saem das
suas casas, na capital Teerã, sem cobrir o cabelo, apesar dos potenciais
riscos. ‘É muito assustador’, me diz Donya, uma estudante de música de 20 anos,
por meio de um aplicativo criptografado. ‘Porque eles podem prender você a
qualquer minuto e te multar. Ou torturar você com chibatadas. A penas se você
for presa é 74 chibatadas. No mês passado, uma ativista curdo-iraniana de 33
anos, chamada Roya Heshmati, tornou público que havia recebido 74 chibatadas
depois de postar uma foto sem véu Mas Donya, Azad Bahareh dizem que, para elas,
não há como voltar atrás”.[BBC News Brasil, fevereiro de 2024]
Essa permanência da resistência nas
franjas do cotidiano evidencia que o levante operou uma virada epistêmica
crucial, deslocando a figura feminina das margens para o centro definitivo da
arena política. O movimento histórico extrapolou a mera disputa legislativa
sobre códigos de vestimenta, alterando profundamente a mentalidade coletiva e
angariando o apoio de amplos setores sociais que hoje repudiam a discriminação
de gênero. Mesmo diante de uma vigilância digitalizada e do recrudescimento da
violência estatal que pune a dissidência com o confisco de bens, exclusão dos
espaços de trabalho e expulsões acadêmicas, provando que “não somente o
exterior do corpo é marcado, como os seus processos internos são também alvo de
controle minucioso” [Lacerda; Rocha, 2018, p. 154], a sociedade civil recusa-se
a retroceder frente ao uso sistemático do terror de Estado, transformando a dor
coletiva em uma ferramenta de emancipação.
Por fim, a resiliência desse
movimento, vocalizada mesmo sob severa censura, confirma o declínio da
legitimidade teocrática e o nascimento de uma nova era na região. O levante
funcionou como um forte despertar na consciência da nação, demonstrando que as
gerações mais jovens rejeitam terminantemente as regras de submissão impostas
pelo Estado, recusando a lógica secular de que “a disciplina deseja corpos
dóceis e produtivos” [Castro, 2009, p. 91]. Esse enfrentamento desidrata o
projeto teocrático que historicamente usou a moral e a vigilância sobre os
corpos como técnica de controle. Como bem sintetiza Judith Revel [2005, p. 54],
o projeto de análise dessas estruturas torna-se uma indagação sobre como as
práticas e os discursos da religião, da moral e da política “contribuíram para
fazer da sexualidade, ao mesmo tempo, um instrumento de subjetivação e uma
ferramenta do poder”.
Ao subverterem essa estrutura capilar
de dominação, as mulheres e a juventude iraniana também implodem a divisão
biopolítica imposta pelo regime entre “vidas dignas de luto” e “vidas não
dignas de luto” [Butler, 2015, p. 15], conferindo um valor político universal e
uma memória coletiva a cada perda. O paralelo com a poesia de Forugh Farrokhzad
completa-se perfeitamente neste horizonte: a maré indomável que outrora era um
verso rebelde converteu-se na faticidade histórica de uma sociedade que,
moldada pelo enfrentamento e pelo luto, preserva a esperança ativa em um futuro
livre de opressão, conectando os traumas do presente à busca inegociável pela
liberdade.
Em suma, as convergências entre a
vanguarda literária de Forugh Farrokhzad e a insurgência desencadeada pelo
martírio de Jina Mahsa Amini demonstram que a literatura e o corpo feminino no
Irã operam em uma mesma fronteira de contestação. A maré indomável outrora
inscrita no papel pelas mãos de Farrokhzad transbordou definitivamente para as
calçadas de Teerã e para o horizonte global, consolidando uma virada epistêmica
irreversível. Conclui-se, portanto, que ao despirem-se do silenciamento
histórico e das amarras da domesticidade, essas mulheres não apenas fissuram os
mecanismos de controle estatal, mas reescrevem, com a própria presença física e
coletiva, uma nova história da subjetividade e da liberdade no Oriente Médio.
Referências
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Elaine Alves da Silva, aluna do doutorado pela Pós-Graduação em História pela
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BBC
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FARROKHAZAD, Forugh.
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FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir:
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LACERDA, Raphaela Cândido; ROCHA, Lara França. “Fazer viver e
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PERROT,
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REVEL, Judith. Foucault: conceitos essenciais. São Carlos:
Claraluz, 2005.
SILVA,
Carmen. “Raízes da desigualdade”. Caderno de Crítica Feminista, nº 0, ano 1,
Recife, 2007, p. 33.
SPIVAK,
Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte. Editora UFMG,
2010.
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