ENTRE RETENU E SYRIA PALAESTINA: UMA ANÁLISE HISTORIOGRÁFICA DAS TRANSFORMAÇÕES TOPONÍMICAS DO LEVANTE NA ANTIGUIDADE por José Raimundo Neto


Introdução

As denominações geográficas empregadas pelo historiador constituem mais do que simples instrumentos de localização espacial, elas refletem contextos políticos, administrativos e culturais específicos de cada período histórico. Nesse sentido, a utilização de determinados topônimos para designar regiões da Antiguidade exige especial atenção metodológica, uma vez que o emprego indiscriminado de nomenclaturas posteriores para descrever realidades pretéritas pode produzir interpretações anacrônicas e obscurecer as transformações históricas que moldaram esses espaços ao longo do tempo.

 

O Levante Antigo representa um dos exemplos mais significativos desse problema historiográfico. Situada entre o Egito, a Anatólia e a Mesopotâmia, a região foi sucessivamente integrada a diferentes sistemas políticos e imperiais, recebendo designações variadas conforme as perspectivas administrativas e culturais de seus dominadores. Nas fontes egípcias do Bronze Tardio aparecem denominações como Retenu e Djahy; documentos do mesmo período fazem referência a Kinahhu (Canaã); durante a Idade do Ferro consolidam-se identidades políticas associadas a entidades como Filístia, Israel e Judá; já no período helenístico, a expressão Cele-Síria (Coele-Syria) adquire importância administrativa, sendo posteriormente sucedida pela província romana da Judeia e, após as reformas implementadas pelo imperador Adriano em 135 d.C., pela Syria Palaestina.

 

Embora cada uma dessas nomenclaturas possua legitimidade dentro de seu respectivo contexto histórico, observa-se, em parte da produção historiográfica e da divulgação histórica contemporânea, a utilização dos termos Palestina e Israel para designar períodos muito anteriores à criação deles. Tal prática suscita uma importante reflexão metodológica acerca dos limites do uso retroativo de categorias geográficas e de seus possíveis efeitos sobre a interpretação do passado.

 

Dessa forma, o presente artigo tem como objetivo analisar historiograficamente as transformações toponímicas do Levante entre Retenu, Kinahhu (Canaã), Filístia-Israel-Judá, Cele-Síria, Judeia e Syria Palaestina, buscando compreender como essas diferentes denominações estiveram associadas às mudanças políticas ocorridas na região. Argumenta-se que a escolha das nomenclaturas utilizadas pelo historiador não constitui uma questão meramente terminológica, mas um elemento fundamental para a construção de interpretações historicamente contextualizadas e livres de anacronismos.

 

O Levante no Bronze Tardio: Retenu e Kinahhu (Canaã)

As designações geográficas utilizadas pelas sociedades do Antigo Oriente Próximo refletiam não apenas a localização de determinados territórios, mas também suas relações políticas, econômicas e culturais. Durante o Bronze Tardio (c. 1550–1200 a.C.), as fontes egípcias e levantinas registram diferentes nomenclaturas para a região situada entre o Sinai e a Síria Meridional, evidenciando que não existia uma única identidade territorial amplamente compartilhada.

 

Entre as designações presentes na documentação egípcia, destaca-se o termo Retenu, frequentemente empregado para se referir às regiões localizadas ao norte da fronteira egípcia. Segundo Liverani (2014), os faraós do Reino Novo concebiam o espaço asiático a partir de uma lógica político-administrativa própria, na qual Retenu abrangia parte significativa das áreas sírias e levantinas submetidas à influência ou à intervenção militar egípcia. Em algumas inscrições, essa designação aparece subdividida entre Alto Retenu e Baixo Retenu, indicando uma percepção geográfica relativamente ampla da região.

 

Paralelamente, as fontes do Bronze Tardio também registram a utilização do termo Kinahhu (Canaã), presente tanto em documentos egípcios quanto em correspondências diplomáticas, como as Cartas de Amarna. Kuhrt (1995) observa que Kinahhu (Canaã) não correspondia a um Estado unificado, mas a uma região composta por diversas cidades-estados autônomas, ligadas por redes comerciais, culturais e diplomáticas. A própria documentação de Amarna revela governantes locais identificando seus territórios como pertencentes à esfera territorial cananeia, ao mesmo tempo em que mantinham relações de vassalagem com o Egito.

 

Mazar (1992) destaca que a utilização do termo Kinahhu (Canaã) possuía uma forte dimensão cultural e geográfica, não devendo ser confundida com as entidades políticas que surgiriam posteriormente na Idade do Ferro. Da mesma forma, Na'aman (2005) argumenta que as designações empregadas pelas fontes antigas variavam conforme o contexto administrativo e a perspectiva do emissor, tornando inadequada a projeção de nomenclaturas posteriores sobre essas realidades históricas.

 

Nesse sentido, tanto Retenu quanto Kinahhu (Canaã) constituem importantes exemplos de como a região levantina foi compreendida de maneiras distintas ao longo da Antiguidade. Mais do que simples nomes geográficos, essas designações expressavam formas específicas de organização do espaço e das relações de poder, refletindo a dinâmica política do Bronze Tardio. Assim, a análise dessas nomenclaturas evidencia que a história do Levante foi marcada por sucessivas transformações toponímicas, reforçando a necessidade de cautela metodológica diante do uso retrospectivo de categorias geográficas produzidas em contextos históricos posteriores.

 

 A Idade do Ferro e a multiplicidade das identidades regionais: Filístia, Israel e Judá

O colapso do sistema internacional da Idade do Bronze, por volta do século XII a.C., promoveu profundas transformações na configuração política do Levante. A desintegração de antigas estruturas imperiais e o enfraquecimento da influência egípcia favoreceram o surgimento de novas entidades políticas regionais, cuja consolidação resultou no aparecimento de diferentes identidades territoriais e administrativas. Conforme observa Liverani (2014), a Idade do Ferro caracterizou-se pela fragmentação do espaço levantino em diversos reinos e cidades-estados relativamente autônomos, fenômeno que se refletiu diretamente nas nomenclaturas utilizadas pelas fontes da época.

 

Entre essas novas designações, destaca-se a Filístia, termo associado às cidades estabelecidas pelos filisteus ao longo da planície costeira meridional do Levante, especialmente Gaza, Ascalom, Asdode, Ecrom e Gate. Kuhrt (1995) observa que essa região possuía características políticas e culturais próprias, constituindo uma unidade distinta tanto das áreas montanhosas do interior quanto das cidades fenícias localizadas mais ao norte.

 

Paralelamente, desenvolveram-se os reinos de Israel e Judá, que passaram a ocupar posição central na configuração política da região durante a Idade do Ferro. Segundo Grabbe (2007), essas entidades não devem ser compreendidas apenas como referências étnicas ou religiosas, mas também como estruturas políticas territorialmente definidas, reconhecidas tanto pelas populações locais quanto pelas potências vizinhas. A documentação assíria, por exemplo, menciona frequentemente os reinos de Bīt Humri (Casa de Omri, em referência a Israel) e Yaudi ou Iaúda (Judá), demonstrando que a administração imperial utilizava nomenclaturas diretamente relacionadas às realidades políticas então existentes.

 

Finkelstein e Silberman (2001) argumentam que a formação desses reinos correspondeu a um processo histórico de reorganização social e política das populações levantinas após o fim da Idade do Bronze, consolidando novas identidades territoriais que não podem ser reduzidas às antigas categorias de Kinahhu (Canaã) ou Retenu. De forma semelhante, Na’aman (2005) ressalta que as fontes assírias e neobabilônicas privilegiavam designações administrativas específicas para suas províncias e Estados vassalos, evidenciando a pluralidade de referências geográficas presentes no Levante do primeiro milênio a.C.

 

Essa multiplicidade de nomenclaturas revela que a região estava longe de constituir uma unidade política homogênea. Pelo contrário, diferentes impérios e sociedades construíram representações próprias do espaço levantino, de acordo com seus interesses administrativos e suas experiências históricas.

 

Assim, a consolidação de entidades como Filístia, Israel e Judá representa uma importante etapa das transformações toponímicas do Levante Antigo. Essas novas nomenclaturas refletem a emergência de identidades políticas específicas e reforçam a necessidade de compreender as categorias geográficas dentro de seus respectivos contextos históricos, evitando projeções retrospectivas que possam produzir interpretações anacrônicas.

 

Do mundo helenístico ao romano: Cele-Síria, Judeia e Syria Palaestina

As conquistas de Alexandre Magno, no final do século IV a.C., inauguraram uma nova etapa na história política do Levante. A incorporação da região ao mundo helenístico promoveu importantes transformações administrativas, resultando na adoção de novas nomenclaturas que refletiam a reorganização territorial implementada pelos sucessores de Alexandre. Entre essas designações, destaca-se a expressão Cele-Síria (Coele-Syria), utilizada sobretudo durante o domínio selêucida e ptolomaico para identificar uma extensa área situada entre o Mediterrâneo e o deserto sírio.

 

Segundo Kuhrt (1995), a Cele-Síria não correspondia exatamente às antigas delimitações dos reinos da Idade do Ferro, mas constituía uma unidade administrativa moldada pelas disputas entre os impérios ptolomaico e selêucida. Liverani (2014) observa que a adoção dessa nomenclatura evidencia como os grandes impérios tendiam a reinterpretar espaços anteriormente fragmentados segundo suas próprias necessidades políticas e estratégicas.

 

A expansão romana para o Oriente Próximo promoveu uma nova reorganização territorial. Após a intervenção de Pompeu, em 63 a.C., consolidou-se gradativamente a província da Judeia, denominação diretamente relacionada à existência histórica do antigo Reino de Judá e à predominância da população judaica na região. Millar (1993) destaca que a administração romana preservou, em grande medida, estruturas locais preexistentes, incorporando-as ao sistema provincial do Império sem eliminar completamente suas identidades históricas.

 

Entretanto, a sucessão das revoltas judaicas contra Roma alterou profundamente esse cenário. A destruição de Jerusalém em 70 d.C., durante a Primeira Guerra Judaico-Romana, e, sobretudo, a Revolta de Bar Kokhba (132–135 d.C.), levaram o imperador Adriano a promover uma ampla reorganização administrativa da província. Goodman (2007) argumenta que essas medidas buscavam reduzir a identificação política da região com a tradição judaica e fortalecer sua integração ao conjunto das possessões orientais do Império Romano.

 

Foi nesse contexto que surgiu a denominação Syria Palaestina, criada oficialmente após 135 d.C. Conforme observa Schwartz (2001), a nova designação representava uma reestruturação administrativa romana e não a simples continuidade das antigas nomenclaturas do Bronze ou da Idade do Ferro. Embora o termo Palaestina possuísse antecedentes na literatura grega para designar áreas associadas aos antigos territórios do litoral sul do Levante (ocupado pela cultura filisteia), sua institucionalização como nome oficial de uma província ocorreu apenas durante o governo de Adriano.

 

Sob essa perspectiva, a passagem de Cele-Síria para Judeia e, posteriormente, para Syria Palaestina ilustra a estreita relação existente entre nomenclaturas e contextos históricos específicos. Cada uma dessas designações correspondeu a diferentes projetos políticos e administrativos, refletindo as transformações do poder imperial sobre o Levante. Assim, a utilização retrospectiva de uma dessas categorias para períodos anteriores à sua constituição histórica pode produzir simplificações e anacronismos, marginalizando a complexidade das sucessivas configurações territoriais da região ao longo da Antiguidade.

 

Considerações finais

A análise das sucessivas nomenclaturas atribuídas ao Levante ao longo da Antiguidade evidencia que os espaços geográficos não constituem categorias estáticas, mas construções históricas diretamente relacionadas às transformações políticas, administrativas e culturais de cada período. Nesse sentido, designações como Retenu, Kinahhu (Canaã), Filístia-Israel- Judá, Cele-Síria, Judeia e Syria Palaestina devem ser compreendidas como expressões de diferentes formas de organização e percepção do território, produzidas por sociedades e impérios distintos.

 

Ao longo deste estudo, buscou-se demonstrar que a utilização dessas nomenclaturas acompanhou as mudanças nas relações de poder estabelecidas na região levantina. Durante o Bronze Tardio, as fontes egípcias e levantinas empregavam termos como Retenu e Kinahhu (Canaã) para designar espaços inseridos em uma complexa rede de cidades-estados e zonas de influência imperial. Com a fragmentação política da Idade do Ferro, consolidaram-se identidades regionais associadas a entidades como Filístia, Israel e Judá. Posteriormente, os domínios helenístico e romano promoveram novas reorganizações administrativas, expressas nas denominações Cele-Síria, Judeia e, finalmente, Syria Palaestina.

 

Sob essa perspectiva, a utilização dos termos Palestina e Israel para períodos muito anteriores as suas criações, suscita uma importante reflexão metodológica. O presente trabalho não pretende negar a historicidade dessas denominações nem desconsiderar sua legitimidade para o contexto em que foram instituídas. Ao contrário, busca destacar que a aplicação retrospectiva de categorias geográficas produzidas em épocas distintas pode gerar anacronismos e obscurecer as especificidades históricas das diferentes sociedades que ocuparam o Levante.

 

Dessa forma, argumenta-se que a escolha das nomenclaturas empregadas pelo historiador ultrapassa uma simples questão terminológica, constituindo um elemento fundamental para a construção do conhecimento histórico. Reconhecer a pluralidade das designações atribuídas ao Levante ao longo da Antiguidade significa compreender que a própria identidade da região foi continuamente redefinida pelas sucessivas transformações políticas que marcaram sua história. Assim, a adoção de categorias compatíveis com a temporalidade estudada contribui para uma análise historiográfica mais precisa, contextualizada e menos suscetível a interpretações anacrônicas.

 

Referências Biográficas

José Raimundo Neto é professor da disciplina de história da Rede Estadual de Ensino Médio de Pernambuco, Graduado em Licenciatura em História pela UFRPE. (jrneto0021@gmail.com)

 

Referências Bibliográficas

FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. The Bible Unearthed: Archaeology's New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts. New York: The Free Press, 2001.

 

GOODMAN, Martin. Rome and Jerusalem: The Clash of Ancient Civilizations. London: Penguin Books, 2007.

 

GRABBE, Lester L. Ancient Israel: What Do We Know and How Do We Know It? London: T&T Clark International, 2007.

 

KUHRT, Amélie. The Ancient Near East c. 3000-330 BC. 2 v. London: Routledge, 1995.

 

LIVERANI, Mario. The Ancient Near East: History, Society and Economy. London: Routledge, 2014.

 

MAZAR, Amihai. Archaeology of the Land of the Bible: 10,000–586 B.C.E. New York: Doubleday, 1992.

 

MILLAR, Fergus. The Roman Near East: 31 BC–AD 337. Cambridge: Harvard University Press, 1993.

 

NA’AMAN, Nadav. Canaan in the Second Millennium B.C.E.: Collected Essays. Winona Lake: Eisenbrauns, 2005.

 

SCHWARTZ, Seth. Imperialism and Jewish Society: 200 B.C.E. to 640 C.E. Princeton: Princeton University Press, 2001.

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