DIÁLOGOS ENTRE O KONUNGS SKUGGSJÁ E O ʻAJĀʼIB AL-MAKHLŪQĀT: UMA REFLEXÃO SOBRE A DISTÂNCIA por Rodrigo Kmiecik Passos

 

Se fôssemos a Marte e a Vênus conservando os mesmos sentidos,
eles revestiriam do mesmo aspecto que as coisas da Terra
tudo aquilo que pudéssemos ver.

— Marcel Proust

 

 

Este texto é, antes de tudo, um exercício epistemológico.

 

Propõe um diálogo entre duas formulações encontradas em dois autores separados geográfica e culturalmente — um da Noruega, um da Pérsia; um cristão, um muçulmano —, mas contemporâneos no século XIII da Era Comum, e passíveis de aproximação em relação à forma pela qual compreendiam o “maravilhoso”. Essas ideias foram elaboradas no Konungs Skuggsjá (“Espelho do Rei”), de autoria desconhecida, escrito por volta de 1250, em nórdico antigo, na corte do rei Hákon Hákonarson da Noruega, para educação do príncipe Magnús; e no ʻAjāʼib al-makhlūqāt (“As Maravilhas da Criação”), de Zakariyyāʾ al-Qazwīnī (c. 1203-1283), uma cosmografia escrita em árabe na primeira metade do século XIII, provavelmente nos centros intelectuais de Bagdá e Wasit. Tema comum aos textos, prodígios e maravilhas são fenômenos, técnicas ou criaturas capazes de causar estupefação, curiosidade, medo ou descrença. As formulações que busco aproximar discutem o caráter relacional e perspectivo do processo de apreensão desse maravilhoso e sua alteridade.

 

Antes de explorar esse diálogo, porém, vejamos algumas construções do maravilhoso pré-moderno nos espaços arábico e latino, e suas interações. Essas construções, reveladoras de que maravilhas de terras distantes não pertenciam exclusivamente ao “ocidente” ou ao “oriente”, também elucidarão as reflexões dos autores nórdico e persa. Como observou Edward Said, a domesticação do exótico ocorre “entre todas as culturas, certamente, e entre todos os homens” [Said, 2007, p. 98]. É importante saber, contudo, que o orientalismo medieval vai muito além das “maravilhas” de terras distantes. Como demonstram Sharon Kinoshita (2006) e Suzanne Akbari (2009), é justamente no século XIII que a estigmatização de um “outro”, em especial o muçulmano, ganha contornos mais nítidos na Europa; é nesse período que se cristalizam noções generalizantes e etnocêntricas, que sem dúvida antecipam o racismo e o ufanismo da época Moderna, em relação ao “Oriente”, aos judeus e aos “sarracenos”. As Cruzadas e todo seu ideário mostram como diversos desses discursos, engendrados pelos homens de letras da cristandade, serviram às espadas das monarquias cristãs e às aspirações do papado e sua Igreja. Por isso mesmo, considero ainda mais pertinente investigar a pluralidade do maravilhoso pré-moderno — visando matizá-lo e complexificá-lo para além da unilateralidade que o ocidente tentou forjar —, bem como sua construção difusa entre diversos agentes, de diversos lugares e tradições, e pensar o lugar desse maravilhoso nas grandes teias de circulação de saberes pré-modernas, em especial nos pontos onde seus fios culturais entrecruzam-se.

 

No século XI, um geógrafo do califado de Córdoba chamado Aḥmad ʿUmar al-ʿUḏrī (1003-1085) escreveu sobre um curioso fenômeno natural de Šāšīn, uma ilha encontrada ao norte de Al-Andalus. Se por Šāšīn ele significava Wessex, dada a posição geográfica da ilha, falava, portanto, de um lugar na Inglaterra. Al-ʿUḏrī escreve que “na costa do mar [de Šāšīn] encontram-se árvores, e às vezes as margens desmoronam, fazendo com que as árvores caiam no mar. Elas são golpeadas pelas ondas até que sobre elas apareça uma espuma branca. Isso continua, e a espuma aumenta até tornar-se, por sua natureza, um ovo. Depois assume a forma de um pássaro, preso apenas pelas patas e pelo bico. Quando Deus assim deseja, dá-lhe o sopro da vida; sua plumagem se forma, e suas patas e bico se desprendem da madeira. Torna-se então uma ave que se move rapidamente sobre a superfície da água [...] É uma ave negra semelhante àquela que se chama ‘mergulhão’” [al-ʿUḏrī apud Ducène, 2018, cap. 10].

 

Esse relato mostra que na Península Ibérica, já no século XI, sabia-se que havia uma árvore nas Ilhas Britânicas que produzia aves. Mais tarde, no século XIII, o já mencionado Zakariyyāʾ al-Qazwīnī escreve sobre um fenômeno semelhante, localizado no mesmo lugar, em sua cosmografia Āṯār al-bilād wa-aḫbār al-‘ibād (“Monumentos das Terras e Histórias dos Povos”). Em dado momento, ele conta sobre “a madeira que cai no mar e permanece flutuando e acaba por dar origem a pássaros” [Ducène, 2018, cap. 10]. Com poucas décadas de diferença, a mesma maravilha aparece na obra de Raxīd al-Dīn (1247-1318), que já distinguia ali a Iberniya (do latim Hibernia), ou seja, a Irlanda. Ele também conta sobre “uma árvore que produz um fruto no qual se pode ver a forma de um pássaro. À medida que o fruto amadurece, a ave ganha vida. Depois, come-se tanto o fruto quanto o animal, que constituiria a maior parte da carne consumida na ilha” [Ducène, 2018, cap. 10].

 

O que será que os próprios habitantes das Ilhas Britânicas diziam sobre essa criatura incomum? Por volta de 1188, em sua Topographia Hibernica (“Topografia da Irlanda”), o clérigo Gerald de Gales (1146-1223) descreve o seguinte: “Há também aqui muitas aves chamadas barnecae, que a natureza produz de maneira admirável, fora de seu curso ordinário. Assemelham-se aos gansos dos pântanos, mas são menores. Surgindo inicialmente como excrescências viscosas em vigas de pinheiro que flutuam sobre as águas, e depois encerradas em conchas para assegurar seu livre desenvolvimento, ficam penduradas pelos bicos, como algas marinhas presas à madeira. Com o passar do tempo, cobertas de penas, ou caem na água ou alçam voo pelos ares; seu alimento e crescimento lhes são fornecidos, enquanto são geradas desse modo tão extraordinário e curioso, pelos sucos da madeira misturados à água do mar. Eu próprio vi muitas vezes, com meus próprios olhos, mais de mil minúsculos embriões de aves dessa espécie na praia, pendendo de uma única peça de madeira, cobertos por conchas e já formados. Essas aves não põem ovos após a cópula, como acontece com as aves em geral; a fêmea jamais choca ovos para fazê-los eclodir; em parte alguma do mundo são vistas acasalando ou construindo ninhos” [Gerald de Gales, 2000, p. 20-21].

 

Que animal al-ʿUḏrī, Gerald de Gales e os outros tinham em mente, afinal? Não se trata de um animal, mas, na verdade, dois. O tal barneca refere-se ao mesmo tempo ao ganso-de-faces-brancas (Branta leucopsis), barnacle goose em inglês, e a uma espécie de cirrípide, isto é, uma craca (provavelmente da espécie Lepas anatifera). Dada a natureza migratória da ave, que se reproduz nas regiões da Groenlândia, fomentou-se a ideia de que esses gansos, que viviam nas mesmas praias que as cracas, geravam-se a partir destas; o corpo da craca é revestido por placas lisas, branco-leitosas, e fixa-se na madeira a partir de um pedúnculo negro. Cedendo um pouco à imaginação, não é difícil notar a semelhança desses crustáceos com o ganso-craca, de plumagem branca no corpo e negra no pescoço. As referências encontradas em al-ʿUḏrī, al-Qazwīnī, Raxīd al-Dīn e Gerald de Gales — e depois deste em várias enciclopédias e bestiários — revelam construções difusas do maravilhoso pré-moderno, que iam muito além do binarismo ocidental-oriental. Inseridos em seus próprios contextos, esses autores “descobriam” o mundo natural de outras paragens a partir de um maravilhoso que ultrapassava contingências culturais; compartilhavam, a despeito de suas particularidades, um fascínio e interesse mútuo pela diversidade do cosmos.

 

Um desdobramento desse interesse, envolvendo a lenda do ganso-craca compartilhada por autores de língua árabe e latina, aparece no século XIV, a partir das viagens do frade friulano Odorico de Pordenone (1280-1331) à Ásia. Ele escreve que “outra maravilha digna de menção pode ser relatada, embora eu mesmo não a tenha visto, mas apenas ouvido de pessoas dignas de confiança. Diz-se que, em um grande reino chamado Cadeli, existem montanhas chamadas Montanhas Cáspias, nas quais cresceriam certos melões [ou cabaças] muito grandes. E, quando amadurecem, eles se rompem, e dentro deles encontra-se um pequeno animal semelhante a um cordeirinho [...] E embora alguns talvez considerem isso difícil de acreditar, pode muito bem ser verdade; assim como é verdade que existem na Irlanda árvores que produzem aves” (Odorico de Pordenone, 1913, p. 240-241). É possível que essa associação, essa espécie de chancela de credibilidade, tenha sido sugerida por seu companheiro de viagem à Ásia, o frade irlandês Tiago, sem dúvida familiarizado com a lenda.

 

Em uma miniatura do livro das viagens de John Mandeville — derivadas dos relatos do frade Odorico —, essa história ganha uma nova dimensão: as maravilhas provenientes de terras distantes parecem prestes a serem trocadas; a cena transcorre na Ásia, como indica a árvore nativa, e a moeda de troca adequada para adquirir um fruto da árvore-carneiro (talvez inspirada pela paineira-vermelha-da-Índia, que produz tufos feito lã) por meio da troca é justamente um ramo da árvore-ganso-craca.

 

Fonte: BnF Français 2810, f. 210v (c. 1410–1412)

 

Analisando esta imagem, Caroline Bynum afirma que “a representação sugere o perspectivismo da literatura medieval das maravilhas, que inclui a consciência irônica de que até mesmo ‘nós’ somos o ‘outro’ para alguém” [Bynum, 1997, p. 25]. Irônica porque, como argumenta Bynum, tendemos a não reconhecer esse tipo de atitude na pré-modernidade. Ora, essas construções do maravilhoso, sempre advindo de um “aqui” em relação a um “lá” variáveis, que entrecruzam interesses de autores andaluz, galês, persa e friulano, mostram o quão matizadas eram as percepções pré-modernas acerca das “maravilhas distantes”. Elas escapam à unilateralidade que o próprio ocidente tentou firmar sobre um “Oriente” estigmatizado posteriormente. Vejamos agora como a pluralidade e a relatividade do maravilhoso foi pensada na pré-modernidade por dois sujeitos em especial.

 

O Konungs Skuggsjá, composto em nórdico antigo na Noruega do século XIII, é um espelho de príncipe. Trata-se de uma obra de edificação e instrução, escrita na forma de um diálogo entre pai e filho. Em dado momento do texto, o mestre e o aprendiz discutem acerca das “coisas maravilhosas”, e o filho inicia a conversa manifestando seu desejo de ouvir sobre as coisas extraordinárias da Islândia, Groenlândia e Irlanda: “fogos ou águas maravilhosas”, monstros, “luzes do norte” (ou seja, a aurora boreal), entre outros fenômenos. O pai, entretanto, mostra-se reticente, num primeiro momento, em relatar as maravilhas nórdicas; ele teme que pessoas de outros lugares, que não testemunharam tais maravilhas, julgá-las-iam falsas: “É costume de muitas pessoas chamar de mentira quase tudo aquilo que não viram com os próprios olhos” [Keyser; Munch; Unger, 1848, p. 18].

 

Adiante, o pai reitera que o problema não reside na verdade dos fenômenos, mas na recepção dos relatos. Nesse momento, menciona um pequeno livro “feito na Índia”, enviado ao “imperador Emanuel dos gregos” — quer dizer, o imperador bizantino Manuel I Comneno (1143-1180). É possível que este “livrinho” aludido pelo Konungs Skuggsjá faça referência à carta de Preste João sobre a Índia, supostamente enviada do “Oriente” para o imperador bizantino em 1165, e depois encaminhada ao imperador do Sacro-Império, Frederico I Barba-Ruiva. Trata-se, na verdade, de uma fabricação de Otto, bispo de Freising e tio do imperador Frederico, além de cronista do Império. Foi Otto quem introduziu Preste João na história do ocidente latino, e junto dele as “maravilhas” da Índia relatadas na tal carta. Deve-se frisar aqui, no entanto, que para o autor do Konungs Skuggsjá, bem como para as pessoas da Idade Média, Preste João existiu e sua carta era autêntica; quer dizer, as maravilhas descritas no opúsculo existiam na Ásia e foram testemunhadas e registradas por alguém da Ásia.

 

Essa credibilidade é fundamental para entender a opinião do pai no speculum norueguês e suas considerações sobre o caráter relativo das maravilhas. Ele observa que “muitas pessoas” no norte que “ouviram” o tal livro consideravam seu conteúdo absurdo e impossível. Isso porque as coisas nele descritas simplesmente não pertenciam ao mesmo horizonte habitual da experiência nórdica. Sua crítica à incredulidade nasce, assim, da ideia de que as pessoas confundem a própria ignorância com a impossibilidade das maravilhas distantes. A partir daí, o pai argumenta que os prodígios orientais pareceriam menos inacreditáveis se fossem conhecidos pelos homens do Norte; e o filho complementa dizendo que há coisas “que pensamos que parecerão maravilhosas em outras terras, embora saibamos aqui com certeza que não são falsas” [Keyser; Munch; Unger, 1848, p. 18].

 

O pai, concordando com a observação do filho, argumenta que as maravilhas orientais não são essencialmente diferentes daquelas do Norte: fenômenos atmosféricos, o avanço dos gelos, o sol que brilha durante a noite no verão ou mesmo homens que, sobre “pranchas” amarradas aos pés, atravessam a neve com velocidade extraordinária; “tão logo [o esquiador] prende sob si aquelas pranchas, que têm sete ou oito côvados de comprimento, supera em velocidade aves em voo, ou os cães mais rápidos na corrida, ou a rena que corre mais velozmente; pois existe um grande número de homens que esquiam tão bem que conseguem, numa única investida, abater nove renas com uma lança, e até mais” [Keyser; Munch; Unger, 1848, p. 19]. A partir disso, o pai pondera que talvez não seja tão extraordinário acreditar que homens possam domar dragões voadores — como conta o pequeno livro sobre a Índia — quanto aceitar a existência de homens capazes de “domar tábuas” e esquiar; “pois igualmente maravilhosas parecerão lá estas coisas daqui”, diz ele, “das quais agora falas, assim como a nós parecem aquelas de lá” [Keyser; Munch; Unger, 1848, p. 19].

 

Assim, o texto desloca o maravilhoso do campo do impossível para o da relatividade cultural da percepção. O pai explica que o que para os nórdicos constitui conhecimento técnico e verdadeiro — vélar ok listir, “engenhos e artes” —, para estrangeiros poderia muito bem parecer impossível e inacreditável. É notável que o pai parta de uma prática cotidiana, como esquiar, em vez de algum monstro típico do folclore local, como um tröll. Com isso, o Konungs Skuggsjá apresenta uma atitude sui generis: não rejeita prodígios de outras terras, e tampouco restringe o maravilhoso apenas às “terras distantes” ou o utiliza para construir hierarquias. Ao contrário, acredita nas maravilhas asiáticas (que apreendia como tal) porque sabe que, para alguém distante, certas técnicas, criaturas ou fenômenos naturais do universo do “eu” poderiam parecer inverossímeis para um “outro”, ciente da própria alteridade em relação aos “outros”, e dos “outros” em relação a si.

 

Tais reflexões encontram um diálogo com a postura de al-Qazwīnī em seu ʻAjāʼib al-makhlūqāt. Ao descrever as “criaturas das formas mais estranhas” dos mares asiáticos, o cosmógrafo faz uma consideração sobre porquê limita-se em enumerá-las e descrevê-las: “Sabe, pois, que neste mar existem ainda numerosas criaturas dotadas das mais variadas formas; e, se não fosse o fato de que o espírito humano não reconhece aquilo que desconhece e rejeita tudo aquilo com que não está familiarizado, eu continuaria relatando as múltiplas espécies maravilhosas de animais deste mar” [al-Qazwīnī, 1868, p. 232]. Tanto o autor do Konungs Skuggsjá quanto al-Qazwīnī reconhecem que a descrença nas maravilhas a que eles aludem (as da “Índia” do pequeno livro, as próprias maravilhas nórdicas e as criaturas dos mares da Ásia) reside na incapacidade generalizada de rejeitar e desacreditar tudo aquilo que não é familiar, que é “exótico”. As construções de al-ʿUḏrī e Gerald de Gales acerca do ganso-craca, cuja pluralidade tentei mostrar acima, materializam a universalidade — apreendida pelo relativismo da alteridade — do maravilhoso advogada pelo Konungs Skuggsjá.

 

Como explica Everardo Rocha, “o plano onde as diferenças se encontram, onde o ‘eu’ e o ‘outro’ se podem olhar como iguais, onde a comparação se traduz num enriquecimento de possibilidades existenciais, é o plano mais amplo e profundo de um humanismo do qual o etnocentrismo se ausenta” [Rocha, 1996, p. 109]. Nos fins do medievo, a Europa enquanto “centro” tendeu a utilizar-se do maravilhoso para firmar cada vez mais sua oposição em relação a centenas de “outros” e seus lugares, tornados “periferias”. Quanto mais nítidas delinearam-se as fronteiras entre o “Ocidente” e o “resto”, mais o maravilhoso, em especial a monstruosidade, serviam à hegemonia do discurso orientalista. O caráter relativo do maravilhoso e sua apreensão, outrora corroborado entre um norueguês e um persa do século XIII, foi suprimido em razão de noções e atitudes cada vez mais segregativas que se tornaram hegemônicas. Na época Moderna, o capitalismo serviu-se muito à vontade dessas noções, e as experiências colonialistas e imperialistas dos séculos XVIII e XIX firmaram-nas enquanto práxis. As próprias ciências humanas, nascidas no interior da autointitulada ilustração ocidental, custaram a superar — e muitas vezes ainda custam, a despeito de seus próprios esforços, em especial da Antropologia — o etnocentrismo e seus problemas.

 

Estou ciente de que alguns pesquisadores poderiam tomar as referidas formulações como meros produtos, inclusive no caso de al-Qazwīnī, de uma “domesticação do exótico”. Mas gostaria de pensá-las aqui, à guisa de exercício epistemológico, como uma forma de perspectivismo pré-moderno que também permite pensar o contemporâneo. Said observa que o “Oriente” construído pelo orientalismo oscila “entre o desprezo ocidental pelo que é familiar e seus estremecimentos de prazer — ou de medo — diante da novidade” [Said, 2007, p. 97]; essa novidade é também “manejada”, domesticada. Contudo, quando o trecho do Konungs Skuggsjá aponta para o caráter relativo do maravilhoso asiático e de sua apreensão, não o faz a partir de hierarquizações ou estigmatização desse “outro” estrangeiro; vê-se, antes de tudo, também como um possível “outro” de um outro e distante “eu”. Em sua singularidade, essa perspectiva denuncia a cosmovisão sectária que a derrotou.

 

Parece-me muito plausível que posturas perspectivistas pré-modernas, ainda que raras, tenham sido quase sempre negligenciadas não deliberadamente, mas em razão do próprio etnocentrismo enraizado nas ciências ocidentais que as estudaram. Com isso, assumiu-se que as posições em relação à alteridade e a construção do “outro” na pré-modernidade foram sempre unilaterais, desconsiderando o relativismo perceptível nestes documentos. Parece-me claro que os autores do Konungs Skuggsjá e do ʻAjāʼib al-makhlūqāt reconheciam, ao seu modo, que, mais que uma questão de distância, esta era uma questão de perspectiva e atitude alteritária. Por fim, acredito que perceber essas posições pré-modernas singulares, elaboradas em contextos tão distintos entre si, também pode inspirar nossa própria ciência. Escreveu Marcel Proust que “a única viagem verdadeira, o único banho de Juvência, seria, não partir em busca de novas paragens, mas ter outros olhos, ver o universo com os olhos de outra pessoa, de cem outras, ver os cem universos que cada uma delas vê, que cada uma é” [Proust, 2024, p. 202]. Isso também faz parte do ofício do historiador.

 

Referências

Rodrigo Kmiecik Passos é doutorando em História na UFPR. Licenciado em História e especialista em Religiões e Religiosidades pela UEL, e mestre em História pela UFPR.

 

AKBARI, Suzanne. Idols in the East: European representations of Islam and the Orient, 1100-1450. Ithaca: Cornell University Press, 2009.

 

BYNUM, Caroline. Wonder. American Historical Review 102, n. 1, p. 1-26, 1997.

 

DUCÈNE, Jean-Charles. L’Europe et les géographes arabes du Moyen Age. Paris: CNRS Éditions, 2018.

 

GERALD DE GALES. The Topography of Ireland. Tradução de Thomas Forester, revisada e anotada por Thomas Wright. Cambridge; Ontario: In Parenthesis, 2000.

 

KEYSER, Rudolf; MUNCH, Peter; UNGER, Carl (eds.). Konge-Speilet: Speculum regale. Konungs-Skuggsjá. Christiania: Carl C. Werner & Comp., 1848.

 

KINOSHITA, Sharon. Medieval Boundaries: Rethinking Difference in Old French Literature. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2006.

 

MS FRANÇAIS 2810. Paris: Bibliothèque nationale de France. Disponível online em: https://portail.biblissima.fr/fr/ark:/43093/mdatace17c49faef7afba4cfeee39423592799c6c2b20.

 

ODORICO DE PORDENONE. The Travels of Odoric of Pordenone. In: YULE, Henry (ed.). Cathay and the Way Thither: being a collection of medieval notices of China, vol. II. Tradução de Henry Yule. London: The Hakluyt Society, 1913.

 

PROUST, Marcel. A Prisioneira. In: PROUST, Marcel. Em Busca do Tempo Perdido, vol. 3. Tradução de Fernando Py. 3ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2024.

 

ROCHA, Everardo. O que é Etnocentrismo?. São Paulo: Brasiliense, 1996.

 

SAID, Edward. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Tradução de Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

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