BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O CENTRO REICHIANO: INTERFACE ENTRE PSICOTERAPIA CORPORAL E CONCEITOS ORIENTAIS por Jeferson do Nascimento Machado


O Centro de Psicoterapia Corporal Reichiana, ou simplesmente Centro Reichiano, foi fundado há 30 anos pelos diretores José Henrique Volpi e Sandra Mara Volpi, na cidade de Curitiba. Trata-se de um espaço interdisciplinar de estudos, ensino, pesquisa e prática psicoterapêutica. Ao acessamos o portal da instituição encontramos um vasto material sobre psicologia, psicanálise e, sobretudo, psicologia corporal. Além de organizar congressos e simpósios - cujos os textos são integramente disponibilizados em anais -, a instituição mantém a Revista Científica Eletrônica de Psicologia Corporal, que publica estudos acadêmicos desde o ano 2000.

 

A partir do material disponível no site institucional, buscamos compreender como conceitos orientais, tais como os biótipos ayurvédicos, o yin e yang, os cincos elementos da Medicina Tradicional Chinesa e o chi, são mobilizados para as discussões promovidas pelo Centro Reichiano.

 

A psicanálise de Reich

Wilhelm Reich (1897-1957) foi um proeminente pesquisador austríaco, médico e psicanalista, reconhecido como um discípulo dissidente de Freud. Ele foi o responsável pelo desenvolvimento de uma abordagem terapêutica na qual o corpo ganha o papel central.

 

“A Terapia Corporal Reichiana é uma abordagem psicoterapêutica única que explora a história de vida e os comportamentos do paciente, trazendo à tona conflitos inconscientes por meio de um trabalho verbal integrado ao trabalho corporal. Consequentemente, o objetivo dessa terapia é liberar tensões físicas e emocionais, promovendo o autoconhecimento e o equilíbrio mental e físico.” [Centro Reichiano]

 

Vale acrescentar que Reich também buscou estabelecer uma síntese entre o marxismo e a psicanálise freudiana, integrando ao marxismo a concepção de inconsciente. Dessa relação, desdobrou-se uma psicanálise vinculada a luta política e à compreensão de que a realidade concreta impacta significativamente na psique humana. Para Reich, o capitalismo impele os indivíduos a comportamentos padronizados e repressores, resultando na constituição de indivíduos com os corpos reprimidos, moldados e instrumentalizados para cumprimento de fins alheios à própria vida. Esses mecanismos de repressão cristalizam-se no que Reich chamou de “couraças” e “enrijecimento de caráter”.

 

Ainda, o psicanalista trouxe-nos interessantes provocações, chegando a causar polêmicas, sobretudo pelas discussões relacionadas a liberdade sexual. Contudo, muitos apontaram para determinado “misticismo” em Reich, que surge nos seus últimos anos de vida, o que levou ao silenciamento acerca das suas contribuições, mesmo que intelectuais como Michel Foucault tenham o incorporado nas suas reflexões.

 

No Brasil os estudos produzidos por Reich, ainda que bastante silenciado, possuem raízes fortes, mapeadas desde o século passado em práticas como a Somaterapia de Roberto Freire e João da Mata. No trabalho de José Henrique Volpi, torna-se mais evidente esta influência visto a criação do próprio Centro Reichiano.

 

É interessante observar que no Brasil a Psicologia de Reich ganha contornos bastante singulares, expressando-se em práticas terapêuticas que dialogam com a diversidade cultural do País. Isso pode ser evidenciado na inserção de práticas corporais afro-brasileira, como a capoeira na Somaterapia, e de saberes orientais no Centro Reichiano.

 

Embora não existam registros de que Reich tenha estudado, especificamente, as tradições orientais, a a convergência teórica é perceptível. Como aponta Maccarini:

 

“a questão energética mostra-se como ponto principal [...]. Seja Reich descobrindo e pesquisando a energia orgone, a qual ele argui estar presente em todo o universo e ser a matéria prima de tudo o que existe, seja a medicina oriental versando sobre o equilíbrio entre o yin e yang através da circulação do CHI - energia vital” [Maccarini, 2011 p.1].

 

A concepção da orgone - energia que circula pelo corpo e cosmo - e a ideia de liberdade como chave terapêutica, permitiram o diálogo reichiano com saberes africanos e asiáticos, dado que tais culturas concebem energias vitais análoga: axé (tradições iorubas), yin-yang e Qi (China), Ki (Japão), Prana, Kundalini (Índia/Bharat) etc.

 

Os traços de caráter e os biótipos Ayurvédicos

A monografia “Psicologia corporal e ayurveda: análise dos traços de caráter e dos biotipos ayurvédicos” [Elias, 2008], produzida por Marcos Teixeira Elias, propõe instigante aproximação entre os saberes da Índia Antiga e a Psicologia Corporal. Enquanto a psicologia corporal categoriza os sujeitos com base nos tipos de caráter resultantes da história de vida, o Ayurveda diferencia cada sujeito a partir da constituição biológica, trabalhando com a ideia de comportamentos decorrente de diferentes predisposições temperamentais.

 

Elias sugere o uso complementar desses saberes no diagnostico:

 

“Neste ponto de vista, a análise da constituição pode ser sempre o ponto de partida, uma vez que, partindo da compreensão ayurvédica, podemos analisa-la a parir das características físicas que são diretamente observáveis. Para isso, o uso de um este de avaliação ayurvédicos pode ser muito útil. A partir da definição da constituição do biótipo (vata, pitta ou kapha), podemos prever quais são as tendências de temperamento a influenciar o comportamento e o caráter” [Elias, 2008, p. 47].

 

A orgone e a energia vital

A correlação entre a orgone e energia vital é explorada em diversos textos do Centro Reichiano (Maccarini, 2011; Deluchi, 2015; Volpi, 2025). Enquanto o Freud chegou ao conceito de libido, definindo-o como uma energia de autopreservação, Reich expandiu o conceito para uma dimensão física: a orgone (nome derivado de organismo e orgasmo). Esta concepção de energia guarda semelhanças conceituais com o Qi, Ki ou Prana, fundamentais para diferenciar o que possui vitalidade do que é inanimado. Maccarini exclare que:

 

“As teorias orientais definem a energia vital para diferenciar a vida damorte – o que tem alma do que não tem – e pode ser conhecida como Qi (chi) para os chineses, Ki para os japoneses, Prana para os hindus e Kundalini paraos indiano [...]” [Maccarini, 2011, p. 1].

 

Também, Maccarini amplia o argumento, considerando que os conceitos de Yin e o yang, desenvolvido pela observação ancestral dos chineses sobre as dualidades como o dia e a noite, claro e escuro, frio e calor, sim e não etc., mas dualidades compreendias não como oposições mas enquanto complementares de um mesmo processo. Desta maneira, o psicoterapeuta traça um paralelo entre yin e yang e a unidade funcional proposta por Reich onde a psique e o corpo são compreendidos enquanto forças complementares e inseparáveis, as quais possuem sua origem na orgone.

 

Couraças e os elementos da medicina tradicional chinesa

Para Mírian de Fatima Carvalho Deluchi (2015), a Medicina Tradicional Chinesa, busca aliviar as dores e tensões do paciente. Para isso, faz uso de diversas técnicas conforme a avaliação do paciente. As técnicas podem ser acupuntura, Tui Ná, Exercícios e Fitoterápicos, as quais são aplicadas com o objetivo de restabelecer o equilíbrio entre Yin e Yang pelo diagnóstico dos Cinco Elementos, o que apresenta certa similaridade com os sete segmentos e suas couraças apresentadas por Reich, onde identifica o nível comprometido e busca trazer, novamente, o equilíbrio.

 

Os Cinco Elementos descrevem o universo como uma dinâmica de transformações constantes entre as fases Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água, que operam em ciclos de geração e controle. Cada elemento simboliza um movimento energético específico: a Madeira representa a expansão e o nascimento (primavera); o Fogo, a ascensão e a máxima atividade (verão); a Terra, a estabilidade e a transformação (meia-estação); o Metal, a retração e a colheita (outono); e a Água, o repouso e a conservação (inverno). No corpo humano, essa teoria correlaciona órgãos, sentidos e emoções, buscando manter o equilíbrio sistêmico onde o excesso ou a deficiência de um elemento impacta diretamente a harmonia de todo o organismo [Deluchi, 2015].

 

A sistematização dos sete níveis de couraça, fundamentada por Reich e correlacionada à Medicina Tradicional Chinesa por autores como Navarro e Deluchi, descreve como as tensões emocionais se cristalizam em segmentos corporais específicos, bloqueando o fluxo energético. Esse processo inicia-se no primeiro nível (ocular), envolvendo olhos, ouvidos e nariz, e desce progressivamente pela boca (segundo nível), pescoço (terceiro) e tórax (quarto), onde a Medicina Tradicional Chinesa identifica fortes conexões com os elementos Água, Fogo e Metal. A integração prossegue pelo diafragma (quinto nível), considerado um marco de ligação entre o homem e a terra, atingindo o abdômen (sexto) e culminando na pélvis (sétimo nível). Em cada um desses segmentos, a rigidez muscular não apenas reflete uma defesa psicológica, mas também afeta o equilíbrio dos órgãos (Zang) e das vísceras (Fu), exigindo uma abordagem terapêutica que considere tanto a liberação da couraça muscular quanto a harmonização dos elementos vitais como a Terra e o Fogo [Deluchi, 2015].

 

Considerações finais

A análise das produções Centro Reichiano permite concluir que a Psicoterapia Corporal no Brasil não se limita à mera reprodução dos estudos e práticas de Wilhelm Reich, mas busca uma ressignificação criativa e interdisciplinar. A convergência entre a teoria da orgone e os conceitos de energia vital orientais (Qi, Ki, Prana) torna evidente que, embora partam de contextos teóricos distintos, o Centro Reichiano consegue canalizar as tradições, aproximando-as para auxiliarem na compreensão do ser humano como um sistema energético integrado, onde a saúde é indissociável do livre fluxo dessa energia.

 

A conjugação dos traços de caráter e os biótipos ayurvédicos, bem como a correlação entre as couraças musculares e os cinco elementos da Medicina Tradicional Chinesa, demonstra um esforço em construir uma ferramenta de diagnóstico mais holístico e refinado. Ao cruzar a análise histórica do caráter com a constituição biológica e os ciclos da natureza, o Centro Reichiano amplia as ferramentas psicoterapêutica, permitindo intervenções que considerem tanto as marcas biográficas quanto as predisposições constitucionais do indivíduo.

 

Ademais, observa-se que essa abertura epistemológica com o Oriente retira a psicanálise reichiana de um possível isolamento dogmático. Assim, o que se apresenta é uma clínica viva e adaptada à diversidade cultural, que reconhece na ancestralidade oriental aliado importante para a compreensão da psique e do corpo. Este estudo, por tanto, sinaliza para a idiossincrasia do Centro Reichiano e para o olhar que une o rigor da observação clínica ocidental à profundidade dos saberes orientais.

 

 

 

Referências

 

Jeferson do Nascimento Machado é professor no CIEE-PR e doutorando em História pela UEM.

 

DELUCHI, Mírian de Fatima Carvalho. Medicina chinesa x terapia reichiana: oscinco elementos da medicina tradicional chinesa e os sete níveis de couraçasegundo Wilhelm Reich. In: VOLPI, José Henrique; VOLPI, Sandra Mara (Org.)CONGRESSO BRASILEIRO e ENCONTRO PARANAENSE DE PSICOTERAPIASCORPORAIS, XX, 2015. Anais. Curitiba: Centro Reichiano, 2015. [ISBN – 978-85-69218-00-5]. Disponível em:www.centroreichiano.com.br/artigos_anais_congressos.htm. Acesso em: 13 abr. 2026.

 

ELIAS, Marcos Teixeira. Psicologia corporal e ayurveda: análise dos traços de caráter e dos biotipos ayurvédicos. 2008. Monografia (Especialização em Psicologia Corporal) – Centro Reichiano de Psicoterapia Corporal, Curitiba, 2008.

 

MACCARINI, Renato Moretto. Reich e as teorias orientais. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOTERAPIAS CORPORAIS, 16., 2011, Curitiba. Anais [...]. Curitiba: Centro Reichiano, 2011. Disponível em: [Link, se houver]. Acesso em: 12 abr. 2026.

 

VOLPI, José Henrique. Orgone, chi e energia vital: por que algumas energias são mais aceitas do que outras? In: VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. (orgs.). Revista Científica Eletrônica de Psicologia Corporal. Curitiba: Centro Reichiano, v. 26, p. 84–89, 2025. ISSN 3086-1438. Disponível em: https://centroreichiano.com.br/revista-cientifica-eletronica-de-psicologia-corporal-vol-26-ano-2025/. Acesso em: 12 abr. 2026.

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